terça-feira, setembro 18, 2007

O falhanço da imaginação


Mil Novecentos e Oitenta e Quatro é um daqueles livros que, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser lidos. Há sempre um amigo ou conhecido que diz que a coisa vale a pena. Há sempre um professor ou alguém em quem se deposita confiança que recomenda a obra. É normal. É assim que uma obra se torna clássica. De boca em boca ao longo dos anos.

Um clássico tem a particularidade de ficar marcado por uma ideia ou por um tema simplificador. Em Crime e Castigo, por exemplo, é evidente a necessidade de Raskolnikov atravessar o seu abismo até chegar à redenção. No pesado Em Busca do Tempo Perdido, há um rapaz que atravessa o seu passado à procura de algo que nunca voltará atrás – o tempo. Na Odisseia, de Homero, temos, uma vez mais, uma continuação do título no fio narrativo que acompanha as deambulações de Ulisses, temos uma sucessão de viagens extraordinárias. Ora, na obra de Orwell em análise, não há a clarividência das obras atrás mencionadas, no entanto, sabe-se que 1984 é uma data do futuro. George Orwell, em finais da década de quarenta do século passado, imagina um futuro na qual o mundo é governado por um regime tirânico e completamente dominador, que usa o poder como um fim e não como um meio. O «Grande Irmão» está sempre presente, as pessoas estão sempre a ser filmadas. Há uma «Polícia do Pensamento». Usam-se constantemente as seguintes palavras de ordem: «Guerra é paz», «Liberdade é escravidão»; «Ignorância é força». Há sempre uma grande deturpação da verdade antiga, da verdade que usavam os povos que não viviam para o progresso avassalador. A verdade nova é aquela que interessa. Mesmo o sexo faz mal aos povos. Sob o regime do Grande Irmão, o sexo é proibido. Há quem pense acabar com o orgasmo. Não será difícil imaginar uma sociedade assim num futuro hipotético, tal como fez Orwell.

A tirania retratada por George Orwell não é uma qualquer. Claro que existem pontos de encontro entre todos os regimes que usam a não-liberdade como porta-estandarte. Claro que se poderá pensar numa qualquer ditadura de um passado recente e associá-la a este livro. Acontece que Mil Novecentos e Oitenta e Quatro se associa, muito especialmente, à União Soviética. É o sorriso que se esconde por detrás do bigode do grande chefe que se pretende descodificar. Orwell, tendo participado na Guerra Civil Espanhola, não ficou contente com aquilo que viu por parte de gente que deveria estar do mesmo lado da barricada. Os estalinistas, em vez de se juntarem a anarco-sindicalistas e a trotskistas, põem-se contra eles e combatem-nos. Orwell revolta-se contra isso, mesmo sabendo que nenhuma variante do comunismo «oficial», como o anarquismo, poderia alguma vez ser aceite pelos camaradas de Moscovo. Para Estaline e para os seus, era mais importante atacar o anarquismo em Espanha do que impedir Franco de obter o poder absoluto. Assim sendo, poder-se-ia argumentar que Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, apesar de ter o seu desenrolar num futuro algo distante daquele que escreve o seu autor, é também um livro que tenta criticar a brutalidade soviética em Espanha. Notam-se as sucessivas tentativas do autor de colocar as suas personagens em situações nas quais a manipulação da história e a mentira são um modus operandi. Na Terceira Parte do livro, a tortura, a primazia da cultura do ódio, a ideia de poder ilimitado, a violência, a despersonalização das massas e a perda de individualidade do ser humano estão mais do que presentes.

Vítima de tudo é Winston Smith, um homem que, enganado por O’Brien, um indivíduo da estrutura governamental, adere àquilo que pensa ser a «Fraternidade», uma organização clandestina e revolucionária inspirada nas ideias de Goldstein, isto é, Trotsky, o traído, tanto na URSS como em Espanha. É na «Sala 101» que Winston encontrará o pior dos seus medos, as ratazanas. É nessa sala que os homens do Grande Irmão põem à prova a resistência física e mental dos traidores do partido. Em termos de uso de violência, é nesta Terceira Parte do livro que Orwell atinge o seu pico. Na Primeira Parte, há a «descoberta» de Winston e da sua cidade, Londres, anti-capitalista, dominada pelo regime já descrito. A Segunda Parte é, quanto a mim, o sumo do livro. É a parte mais romanceada. Winston conhece Julia e por ela se apaixona. Muitas páginas se passam nesse clima de devassa. Todavia, finda a segunda parte, deixa de haver espaço para os dois namorados. Volta a ser o Grande Irmão o grande protagonista.

Julia e Winston Smith precisavam de mais espaço e de mais vida um ao lado do outro. É essa a parte que mais interessa de toda a obra. No entanto, Orwell não quis seguir o caminho do «romance» e decidiu explorar uma ideia política. Quanto a mim, fez mal. Torna-se banal. Boris Pasternak, no seu magistral Doutor Jivago, soube explorar bem essa história de amor em tempos de ódio. Orwell não soube, ou não quis saber. E, por isso, limita-se à construção de uma realidade ficcional que já existia na realidade da vida.

[Paulo Ferreira]

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