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sábado, outubro 06, 2007

Felicidade

Em Os Americanos, Henry Louis Mencken (1880-1956) dá a receita necessária para a felicidade:

a) Bem alimentado, livre de preocupações mesquinhas, à vontade na mãe-pátria;

b) Repleto de um reconfortante sentimento de superioridade em relação à grande massa dos meus compatriotas;

c) Permanentemente divertido, com finura de espírito e de acordo com o meu gosto.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, outubro 05, 2007

Ser português

Sobre Arte de Ser Português, de Teixeira de Pascoaes, nada melhor do que a leitura do prefácio de Miguel Esteves Cardoso. Aqui fica um excerto:

Os Portugueses não queriam ser quem ele queria. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes nunca percebeu que era tudo invenção dele.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, setembro 21, 2007

Potência

Lembro-me de fazer uma corrida com o meu pai
Da diferença entre o nosso tamanho e força
Do poder das suas pernas
Da rapidez das minhas
Quase o matou mas acabou por vencer
E depois ouvi-o vomitar atrás da cabana
Nessa noite fui para a cama
E sonhei com a potência de um comboio

- Sam Shepard, Lua Falcão

[Paulo Ferreira]

terça-feira, setembro 18, 2007

O falhanço da imaginação


Mil Novecentos e Oitenta e Quatro é um daqueles livros que, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser lidos. Há sempre um amigo ou conhecido que diz que a coisa vale a pena. Há sempre um professor ou alguém em quem se deposita confiança que recomenda a obra. É normal. É assim que uma obra se torna clássica. De boca em boca ao longo dos anos.

Um clássico tem a particularidade de ficar marcado por uma ideia ou por um tema simplificador. Em Crime e Castigo, por exemplo, é evidente a necessidade de Raskolnikov atravessar o seu abismo até chegar à redenção. No pesado Em Busca do Tempo Perdido, há um rapaz que atravessa o seu passado à procura de algo que nunca voltará atrás – o tempo. Na Odisseia, de Homero, temos, uma vez mais, uma continuação do título no fio narrativo que acompanha as deambulações de Ulisses, temos uma sucessão de viagens extraordinárias. Ora, na obra de Orwell em análise, não há a clarividência das obras atrás mencionadas, no entanto, sabe-se que 1984 é uma data do futuro. George Orwell, em finais da década de quarenta do século passado, imagina um futuro na qual o mundo é governado por um regime tirânico e completamente dominador, que usa o poder como um fim e não como um meio. O «Grande Irmão» está sempre presente, as pessoas estão sempre a ser filmadas. Há uma «Polícia do Pensamento». Usam-se constantemente as seguintes palavras de ordem: «Guerra é paz», «Liberdade é escravidão»; «Ignorância é força». Há sempre uma grande deturpação da verdade antiga, da verdade que usavam os povos que não viviam para o progresso avassalador. A verdade nova é aquela que interessa. Mesmo o sexo faz mal aos povos. Sob o regime do Grande Irmão, o sexo é proibido. Há quem pense acabar com o orgasmo. Não será difícil imaginar uma sociedade assim num futuro hipotético, tal como fez Orwell.

A tirania retratada por George Orwell não é uma qualquer. Claro que existem pontos de encontro entre todos os regimes que usam a não-liberdade como porta-estandarte. Claro que se poderá pensar numa qualquer ditadura de um passado recente e associá-la a este livro. Acontece que Mil Novecentos e Oitenta e Quatro se associa, muito especialmente, à União Soviética. É o sorriso que se esconde por detrás do bigode do grande chefe que se pretende descodificar. Orwell, tendo participado na Guerra Civil Espanhola, não ficou contente com aquilo que viu por parte de gente que deveria estar do mesmo lado da barricada. Os estalinistas, em vez de se juntarem a anarco-sindicalistas e a trotskistas, põem-se contra eles e combatem-nos. Orwell revolta-se contra isso, mesmo sabendo que nenhuma variante do comunismo «oficial», como o anarquismo, poderia alguma vez ser aceite pelos camaradas de Moscovo. Para Estaline e para os seus, era mais importante atacar o anarquismo em Espanha do que impedir Franco de obter o poder absoluto. Assim sendo, poder-se-ia argumentar que Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, apesar de ter o seu desenrolar num futuro algo distante daquele que escreve o seu autor, é também um livro que tenta criticar a brutalidade soviética em Espanha. Notam-se as sucessivas tentativas do autor de colocar as suas personagens em situações nas quais a manipulação da história e a mentira são um modus operandi. Na Terceira Parte do livro, a tortura, a primazia da cultura do ódio, a ideia de poder ilimitado, a violência, a despersonalização das massas e a perda de individualidade do ser humano estão mais do que presentes.

Vítima de tudo é Winston Smith, um homem que, enganado por O’Brien, um indivíduo da estrutura governamental, adere àquilo que pensa ser a «Fraternidade», uma organização clandestina e revolucionária inspirada nas ideias de Goldstein, isto é, Trotsky, o traído, tanto na URSS como em Espanha. É na «Sala 101» que Winston encontrará o pior dos seus medos, as ratazanas. É nessa sala que os homens do Grande Irmão põem à prova a resistência física e mental dos traidores do partido. Em termos de uso de violência, é nesta Terceira Parte do livro que Orwell atinge o seu pico. Na Primeira Parte, há a «descoberta» de Winston e da sua cidade, Londres, anti-capitalista, dominada pelo regime já descrito. A Segunda Parte é, quanto a mim, o sumo do livro. É a parte mais romanceada. Winston conhece Julia e por ela se apaixona. Muitas páginas se passam nesse clima de devassa. Todavia, finda a segunda parte, deixa de haver espaço para os dois namorados. Volta a ser o Grande Irmão o grande protagonista.

Julia e Winston Smith precisavam de mais espaço e de mais vida um ao lado do outro. É essa a parte que mais interessa de toda a obra. No entanto, Orwell não quis seguir o caminho do «romance» e decidiu explorar uma ideia política. Quanto a mim, fez mal. Torna-se banal. Boris Pasternak, no seu magistral Doutor Jivago, soube explorar bem essa história de amor em tempos de ódio. Orwell não soube, ou não quis saber. E, por isso, limita-se à construção de uma realidade ficcional que já existia na realidade da vida.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, setembro 14, 2007

Intelectual

The intellectual is a person holding a job for which the qualification is one which does not teach anything about holding specific jobs.

- Eric Hobsbawm, Revolutionaries

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, setembro 10, 2007

O ex-marxismo de um livro

Há umas décadas, construíam-se romances que tinham como base o fervor partidário da URSS. As santas palavras dos senhores de Moscovo eram consideradas leis feitas pela natureza. A exploração, as classes e o Estado deveriam deixar de existir. A burguesia teria que dar lugar à ditadura do proletariado e, depois, ao Comunismo com letra maiúscula. A centralização era importante. O mundo precisava de uma ordem, de uma organização, de uma liderança. Os partidos comunistas deste mundo aqui estavam para garantir tudo isso.

O neo-realismo viveu dentro dessa esfera comunista. A vontade de salvar o planeta era realmente forte. Tanto que a literatura desses autores chamados neo-realistas era, na sua grande maioria, escassa em termos de qualidade. A Fernando Namora, por exemplo, apenas faltou dizer que na América se comiam criancinhas ao lanche. Outros autores seguiram este caminho «vermelho» e, como resultado de um enorme empenhamento sentimental, escreveram livros com martelos nas mãos, em vez de usarem esbeltas e inteligentes canetas. Infelizmente, o neo-realismo passou-se desse modo. Não admira, por isso, que um autor de excepção como Vergílio Ferreira, não se tenha sentido muito preso a essa corrente. Mudança (1949) marca o final de um ciclo e o começo de outro. Apelo da Noite (1963), livro que aqui pretendo abordar, mesmo que de forma breve, é um dos tijolos que o autor usou para construir a sua fama de existencialista. Adriano, personagem principal, vive cabisbaixo com os livros que escreveu, com as criticas que recebe, com a vida que não compreende. Sabe que há uma solidão que o inunda mas que não consegue explicar. Ao lado desta figura, estão os amigos. Os que criticam Malraux ao afirmarem que quem reflecte não ergue um dedo. Malraux, para os amigos, é fascista, não defende a «causa». A revolução, para esta gente, é o fim a atingir. Adriano, por seu lado, apesar de acompanhar os seus companheiros nas suas diatribes, não deixa de estar desencantado. Sabe que o mundo não deve ser salvo pelos homens. Provavelmente, Adriano, como todos os outros Adrianos de Vergílio Ferreira, encaixam na mentalidade do criador. Ou seja, encaixam no desencanto de um homem que conhece o medo do indivíduo de ficar a sós consigo, que sabe que o homem está reduzido a si próprio.

«Ultimamente sós em nós.» Esta é uma das melhores frases de Adriano. Os amigos limitam-se sempre a pensar coisas como esta: «O sacrifício do operário será a vitória total de amanhã.» Vergílio Ferreira, quando escreveu Apelo da Noite já não tinha o fervor de antigamente. Nota-se um certo escárnio nas aproximações do «herói» da narrativa à ideia de revolução, há um gozo notório em tudo o que diz respeito às ideias dos senhores da bolchevização. Mesmo assim, refira-se que o final da história é simbólico: perdido em si próprio, Adriano ajuda um dos seus companheiros de clandestinidade a fugir da prisão e morre aos tiros com a polícia, para defender os que estavam consigo. Estou inclinado a afirmar que esta morte nada tem que ver com a causa, com a ditadura do proletariado, mas sim com a vida, com a existência, que está perdida desde sempre. Não me parece que Adriano morra pelos outros.

Apelo da Noite, apesar de viver do comunismo e da clandestinidade, não se alimenta das ideias de Garaudy. Não. É um outro livro de mudança, de fuga para um novo trajecto, é um ex-marxismo.

[Paulo Ferreira]

Força

Só há uma verdade que é a da força que não desiste.

- Vergílio Ferreira, Apelo da Noite


[Paulo Ferreira]

segunda-feira, agosto 20, 2007

Vida triste

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre a esperança.


- Ricardo Reis, Poesia

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, agosto 06, 2007

Fundamental

Quando uma mulher casa, pertence a outro; e quando pertence a outro, nada mais há a dizer-lhe.

- Cesare Pavese, O Ofício de Viver

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, julho 25, 2007

Adeus, Princesa


Há livros que dão inveja a quem escreve. Adeus, Princesa, de Clara Pinto Correia, é um desses livros. Parece lugar-comum afirmar uma coisa destas - e talvez seja - mas é inevitável: não abundam romances como este nas livrarias portuguesas.

Para começar, temos Joaquim Peixoto, um estagiário da revista Actualidades que é incumbido de ir para Baleizão, uma pequena aldeia alentejana, fazer uma reportagem sobre a morte de um alemão. É a primeira reportagem deste estagiário pouco convicto, que não gosta de falar com pessoas. A morte do mecânico Helmut Schneider, um alemão de vinte e três anos em serviço na Base Aérea da Nato, na estrada que vem de Ferreira, parece estranha. Foi encontrado morto com a cabeça enfiada num tubo de escape de um automóvel que lhe pertencia. Desconfia-se de assassinato. A principal suspeita é Maria Vitória (Mitó), uma miúda de dezoito anos que, fora do seu juízo, confessa que matou o namorado quando este a tentara violar. O primeiro trabalho de Joaquim Peixoto será, portanto, um trabalho de investigação. Será que a rapariga matou realmente o namorado?

Mitó, feia e franzina, é irmã de uma bonita e atraente Vitória Maria, que em tudo lhe é diferente. É bela, desejada, bem-comportada. Mitó não tem ponta por onde se pegue. Além disso, não tem tino. Põe-se na droga. Põe-se com os homens. É má na escola. O pai destas duas irmãs tem o nome de Bernardo Formosinho Rosado e é, como bom homem alentejano do período pós-revolucionário, dirigente do Centro de Trabalho do Partido Comunista Português de Baleizão. É um bom homem. Trabalhador, sincero, honesto, humilde. Perfil soviético. Fica desfeito quando sabe que Mitó era vista nas discotecas e nos bares da região com o mecânico mas, mesmo assim, defende a filha (que só lhe dá desgostos).

O estagiário ao qual compete a tarefa de fazer a reportagem sobre a estranha morte de Helmut, o pobre Joaquim Peixoto, para além de ser pouco convicto e de não gostar de falar, não aprecia os prazeres da mesa e odeia mulheres. «Odiava-as a todas, pronto. Odeio as mulheres.»(p.145) O seu ódio pelas mulheres, porém, não se deve a uma qualquer falta de desejo pelo sexo oposto. Deve-se antes a um sentimento de humilhação que elas lhe dão. Parece que nunca teria hipóteses com nenhuma. Repare-se: «Nessa altura, Joaquim Peixoto tinha já perfeitamente interiorizada a sua triste condição de eterno vencido, e como tal nunca ousaria tentar nem o mais inocente dos avanços.» (p.19) A descoberta de uma resolução para o caso do «alemanito» parece demasiado difícil para tão nublado pretendente a repórter. Sabe-se, no entanto, que não foi Mitó a matar Helmut. Ela bem o queria ter desfeito. E arrepende-se por não ter sido ela a criminosa. Sobre o alemão, sabemos que é da raça nazi, um sujeito da pior espécie. Era um cabresto. Merecia morrer. Refira-se, todavia, que Mitó vivia embevecida com o rapaz que morreu com a boca no escape do seu Ford Escort. Ele é que a tratava mal. Na noite da sua morte, Helmut tratou Mitó especialmente mal. Fez cenas de ciúmes ao vê-la dançando com outros homens. Já depois das quatro da manhã, o casal briga fora da discoteca. Helmut leva uma pancada. Mitó, porém, de nada se lembra. Esta é a versão que fica para a posteridade. Sebastião Curto, amigo de Peixoto, tem uma história diferente: foi a namorada que o matou, foi Mitó. A confissão da rapariga era verdadeira e não loucura, como defendiam o pai e toda a gente. Só que, por interesses corporativos de muita gente associada à rapariga, calhava bem que os culpados ficassem a ser os contrabandistas que assolavam as estradas alentejanas.

Este romance policial, pelo que se viu, não vale tanto pelo desfecho da narrativa mas sim por tudo o que o rodeia. Vale, essencialmente, por Joaquim Peixoto, um homem condenado a não ser jornalista. Quando regressou a Lisboa, a sua reportagem não teve qualquer tipo de sucesso, nem sequer apareceu assinada. Foi aconselhado a ir para Direito, a mudar de carreira. A única coisa que lhe valeu foi o namoro com a dactilógrafa do Centro de Saúde de Baleizão, que, após recusar o rapaz por tantas vezes, vai atrás dele para Lisboa. Um excelente desfecho para os dois, aliás.

Adeus, Princesa, não se contentando com o facto de ser um dos melhores romances publicados em português na década de oitenta, oferece ao leitor uma visão muito bem cuidada daquilo que se passava no Alentejo da reforma agrária, especialmente, quando falamos em quadros mentais. Assim, Baleizão, como qualquer outra aldeia da região, é propícia ao fechamento mental, a opressão é enorme. Todos sabem da vida de cada um. Mitó era frequentemente vista na má vida. Era o estigma da droga (haxixe), do início de uma forma de vida até então desconhecida. Mulheres na noite a frequentarem bares com nome estrangeiro (John Player). Vive-se no medo. Os jovens são criticados pelos autóctones. Não fazem nada. Não querem trabalhar. São ociosos. Pertencem, enfim, a um contexto «rasca». Do ponto de vista social, esta é uma obra muito bem trabalhada. Até do ponto de vista da linguagem das personagens se reflecte o cuidado da autora. As falas coloquiais são muito bem captadas. Não raras são as aparições de expressões como «moinante» ou «bezana». Os alentejanos falam como provincianos. Os revolucionários falam como revolucionários. Cada um dentro do seu estilo.

Como nota final, poder-se-ia argumentar que Adeus, Princesa é um livro que segue uma orientação mais humorística do que negra, ao estilo de um Rubem Fonseca. E não perde com essa inclinação para o humor. Nada mesmo. Só ganha. Por outro lado, se explora as realidades sociais do Alentejo, é para as criticar, para as usar num tom parodiante e muito pouco ligado a realidades partidárias. É com descomprometimento e erudição que Clara Pinto Correia escreve.

Com quase tudo dito, acabo por pegar nas palavras de Helmut. Au Wiederzehen, Prizessin.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, julho 24, 2007

Perfume

Já na cama, formulou com relativa lucidez (péssimo sintoma para o acordado): «Cheguei a uma altura da vida em que o cansaço não serve para dormir e o sono não serve para descansar.»

- Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos

[Paulo Ferreira]

terça-feira, julho 17, 2007

Remédio

A ausência é o melhor remédio contra o esquecimento.

- Anna Akhmátova, Prosas Escolhidas e Poema Sem Herói

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, julho 16, 2007

Brincar




Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto
parece ser um livro a brincar. Clara Pinto Correia, a autora, pelo seu estilo descontraído e modernaço, também parece levar a vida a brincar. Aprecio isso. Mas claro que não é bem assim. Repare-se: a senhora estudou nos Estados Unidos, tem vida académica, produz (muita) ficção, é (ou foi) cronista, investiga, enfim, tem uma vida intelectual que leva a que não se possa pensar que a brincadeira seja predominante na sua vida. E não é. Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto, um conjunto de pequenos «sermões» realizados com o objectivo de dizer mal de tudo o que se passa de errado no país, é um livro com muita piada. Embora não deixe de ter o seu carácter sério. Toda a crítica informada tem a sua parte séria. Pois bem, Clara Pinto Correia, dentro da sua seriedade, brinca connosco, com a nossa mediocridade, com o nosso provincianismo. Mesmo que me quisesse armar aqui em defensor da moral e dos bons costumes, a verdade é que não posso deixar de me render às evidências. Clara Pinto Correia tem muita razão naquilo que diz. Muito por dizer mal. É bom dizer mal, nem que seja sem razões para isso.

No caso de Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto, não se pode dizer que a autora diga mal só por dizer. Não. Diz mal num estilo simples e corriqueiro. Diz mal daquilo que se fez e não se fez durante o tempo que passou após o 25 de Abril. Conclusão: nada. Não se fez nada. É bom pensar-se nisso com um sorriso nos lábios. É de quem esteve no estrangeiro e regressou a Portugal. Sabe-se que nada vai mudar. Nem é, aliás, preciso sair do país. Basta ler livros. Portugal não dá. É intragável. Mandem-me embora. Eu saio. Quando tiver dinheiro. Mas ponho de lado a minha própria opinião e dou ênfase às palavras da autora: «Ouvi uma vez o frei Bento Domingues defender a tese de que nós já fizemos o que tínhamos a fazer. Já fizemos os Descobrimentos e já foi uma grande coisa. Agora devíamos poder viver todos descansados em sabática perpétua com uma pensão europeia, como a que o D. Sebastião deu ao Camões.» Bem se vê. Brinca-se, falando sério.

Ser do contra. É mau ser do contra sem razões para isso. Quer dizer, não é mau. É bom. É bom dizer mal. Já disse. Repito. É bom dizer mal. Se temos uma aurea mediocritas, como nos diz Clara Pinto Correia, é bom dizer mal. De nós próprios. «Sempre é mais divertido estar a perder batalhas mas ao menos estar a lutar do que estar, pura e simplesmente, à espera do fim.»


Ah, o livro foi publicado pela Relógio D'Água e lê-se numa noite em que a vontade de dormir não venha.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, julho 05, 2007

Malmequeres

Quanto a mim, passo a vida levando cigarros à boca, como quem desfolha malmequeres: ama-me?, não me ama?

- Horacio Quiroga, Contos de Amor, Loucura e Morte

[Paulo Ferreira]

domingo, julho 01, 2007

Pif-Paf


Pif-Paf de Millôr Fernandes é, realmente, um livro fantástico. Não vale a pena dizer nada. Refira-se apenas que a colecção Horas Extraordinárias, lançada sob a chancela do defunto jornal «Independente», está toda à venda na Livraria Buchholz em Lisboa.

O mal de se tratar um inferior como igual é que ele logo se julga superior.

O maquiage é o rumor industrializado.

Pessimista mesmo é o sujeito que vê as ondas do mar recuando e acha que elas nunca mais vão voltar.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, junho 28, 2007

Memória - recordação

A memória pode falhar - a recordação é-nos fiel.

- Ernst Jünger, Drogas, Embriaguez e Outros Temas

[Paulo Ferreira]

terça-feira, junho 26, 2007

Rubem Fonseca II

Uma afirmação de E do meio do Mundo Prostituto só amores guardei ao meu charuto:

Nenhum escritor reconhece a própria mediocridade.

sábado, junho 23, 2007

Rosa Liksom II

Liksom, com o seu sorriso de levar para a cama, oferece-nos amargura. Vejamos um excerto de um conto de Os Paraísos do Caminho Vazio:

Ele entrou pela porta e eu vi logo, aquele gajo é meu. No fim da noite fui para a mesa dele e disse, vai à merda, pá. Fomos para a minha casa e nunca mais me consegui livrar dele. Aquele caralho da merda agarrou-se a mim só por causa de uma noite.

sexta-feira, junho 22, 2007

Vagão «J»



Manuel Borralho, um homem pobre, sujo, porco e mau, por sentir inveja de um rapazola que dá pelo nome de Bogas, dá-lhe uma facada à traição. Vai para a prisão. Passa lá um mês. Manuel Borrralho só pensa em voltar a estoirar Bogas quando sair dali. Bogas abusa na prosápia. Logo, necessita de estoiros. É assim que se desenrola o espaço mental da personagem mais caricata de Vagão «J», de Vergílio Ferreira. Manuel, assim como todos os outros Borralhos, não vale nada. Assemelha-se a um animal. Joaquina, a mãe dos Borralhos, serve para parir e para cagar sentenças. Gorra vem do Brasil para fazer um «despacho» ao desgraçado do Chico Borralho, o pai de família que, por estar aleijado de uma perna e por não trabalhar, não merece a vida . Os Borralhos são todos da ralé, todos padecem desse grande mal que é a pobreza. Por conseguinte, enfrentam o mundo com as armas que têm. O crime, a violência e a batota são algumas dessas armas.

Vagão «J» é a única obra neo-realista que Vergílio Ferreira nos deixou. Parece que o autor, com o passar dos anos, não se sentiu particularmente chegado a estas dialécticas movidas por forças sociais. O operariado, a pobreza, a burguesia, o dinheiro, a falta do dinheiro, etc., poderiam encaixar-se nesse esquema de luta de classes que marcou o panorama neo-realista. Um Fernando Namora celebra a tragédia dos miseráveis de forma bastante comovedora. Os próprios livros de Namora são deveras comovedores. Dão vontade de chorar. Não por serem demasiadamente bons, mas por serem chatos ao ponto de um homem se deixar abandonar aos prantos. Namora tem, aliás, outras componentes dentro da sua obra, que permitem agora que se afirme que o seu neo-realismo era do «puro». O amor à U.R.S.S e o ódio aos E.U.Am, por exemplo. Ora, Vergílio Ferreira não segue o caminho de Namora. Pelo menos, neste Vagão «J». Como se disse, os Borralhos não se inserem na lógica dos coitadinhos que precisam de um valente marxismo para pôr a coisa no local certo. Não. São maus. São criminosos. E vivem na lama. Além disso, para um livro que se insere nessa bola cinzenta que é a da realidade vermelha, na qual a forma é desvalorizada para se dar primazia à ideologia, Vagão «J» é um livro muito bem escrito, tem muita piada. A linguagem de época é fantástica, as expressões dos «primatas» são saborosas. Enfim, uma excelente narrativa. Mesmo assim, o menos interessante dos livros que Vergílio Ferreira escreveu. Venha o existencialismo.

Só as vizinhas deram pêsames a Joaquina Borralho que sentiu uma comoção violenta e não chorou. Todavia Chico Borralho fora seu, dele tivera filhos e filhos, lutara com ela, Joaquina amava-o do coração. Mas não chorou, mulher dura, a vida cria calos na gente, não vale a pena chorar.

quinta-feira, junho 21, 2007

Amizade

Hofmannsthal é amigo no Livro dos Amigos:

Goethe pode, como base da formação, substituir uma cultura inteira.

[Paulo Ferreira]