sexta-feira, junho 01, 2007

Nota sobre Fernando Negrão

Começo por dizer que não poso votar em Fernando Negrão, já que pertenço a uma câmara de ciganos (literalmente). Não deixo, no entanto, de dizer o seguinte: votar em Negrão é perder com a cabeça descansada.

[Paulo Ferreira]

Feira do Livro

Não apetecia ir ao Parque Eduardo VII mas lá fui. Como esperava, encontrei tudo na mesma. Livros caros, livros maus, pessoas a mais. Mesmo assim, aproveitei e trouxe alguns convidados para jantar. Beckett e o seu Malone vieram. Sam Shepard, Lewis Carrol, Isahia Berlin e Wisława Szymborska também vieram.

[Paulo Ferreira]

Fumar

Hoje fumei um cigarro. Provavelmente, amanhã pouco mais fumarei do que um cigarro. Nos dias que se seguirão, o mesmo. Um, dois, três cigarros. Deixarei de fumar. No entanto, essa ideia que me deveria deixar tão contente, preocupa-me. É que a cefaleia vai ocupando o espaço deixado cada vez mais em aberto pelo cigarro. Passa um dia e a dor remói, perfura, enoja. Parece uma cura. É uma cura. Até deixar de ser cura.



[Paulo Ferreira]

quarta-feira, maio 30, 2007

Fugitivo

- Nunca te deixes apanhar;

- Esconde-te num local onde não te consigam encontrar;

- Não te deixes ver;

- Não fales;

- Não sorrias;

- Tenta manter uma postura séria, de indiferença;

- Nada de regressos.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, maio 29, 2007

A cara da derrota

Para quem anda atento aos cartazes que enfeitam as cidades de Lisboa e do distrito de Setúbal terá reparado em dois cartazes específicos. Comum aos dois? São ambos da autoria dos senhores do PSD e da JSD, respectivamente. Se o que pode ser encontrado na margem Sul do Tejo (assinado «jsdsetubal»), mostrando um camelo num deserto como o epitáfio de Ministério das Obras Públicas - onde, supostamente e sugestivamente, estará o único camelo - é de um humor cabotino e exageradamente infantil, o primeiro, de Lisboa, é a epifania da derrota. Em Lisboa, multiplicam-se agora alguns cartazes de Fernando Negrão, candidato do PSD à Câmara de Lisboa. No entanto, não poderia ser pior o cartaz do homem. Face à cara decidida, vivaça e marota de António Costa, e partindo de uma óbvia desvantagem, Negrão entregou-se à sapiência dos mestres da publicidade do PSD, que o levarão à humilhação. Com uma cara tristonha e chorosa, não podia parecer mais derrotado. Lembrando Droopy, o cão melancólico e quase inexpressivo dos desenhos animados da Hanna Barbera, parte para o combate sem um pingo de determinação. Se a derrota tivesse cara, seria a cara de Fernando Negrão nos cartazes de Lisboa.



[João Carlos Silva]

sábado, maio 26, 2007

Parabéns



Parabéns ao John Wayne, que faz 100 anos. Durante a maior parte da minha vida, achava John Wayne um actor ridículo. Pesadão, inexpressivo, monocórdico, demasiado castiço para ser verdade. Quando largava frases fortes (ou melhor, «curtas e grossas», como ele prvavelmente diria se fosse português), eu tinha vontade de rir, pela aparente caricatura que seria um homem assim - um actor assim - tentar ser «sério».

Com o tempo, e com a aproximação da minha condição de macho dominante, digo, de homem adulto, Wayne surgiu aos meus olhos de forma algo diferente. Apercebi-me que ele era o ídolo de todos os homens. Aquele que todos os homens quereriam ser, mais tarde ou mais cedo, numa ou noutra altura, mesmo sem realmente quererem ser como ele, ou ser ele. Qualquer homem que se preze sabe que dentro de si há uma natureza mais animal, mais primitiva, de ser visto como «macho», como o homem que a todos guarda, que lidera e protege o seu grupo nas migrações pela selva. John Wayne simboliza essa vontade escondida. A «personagem» que deu ao mundo, e que simbolizava a sua própria noção dessa natureza primitiva, confundiu-se com o homem. Em parte, talvez se tenha, de facto, tornado o homem. Cá no fundo, penso que todos nós, em algum dia das nossas vidas, já quisemos ou quereremos ser um pouco como John Wayne. O próprio cinema viveu dele, viveu disso, durante muito tempo. E viveu bem, diga-se de passagem.

Parabéns ao John Wayne, que faz 100 anos. Se o virem na rua, se o virem por aí, dêem-lhe um valente aperto de mão, que o homem bem merece.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, maio 25, 2007

Essencial:

- Avril Lavigne fez topless para a Blender;

-Jenna Jameson apoia essa espécie de Virginia Wolf que dá pelo nome de Hillary Clinton;

- Romário, após marcar o seu golo número mil, festejou durante quinze minutos. Só depois dos festejos é que o jogo recomeçou.

- Michael Moore foi aplaudido em Cannes. Pediu-se encore.



[Paulo Ferreira]

Estado de alma


Win Wenders


Para um proustiano de Caxias.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, maio 24, 2007

Manutenção da credibilidade masculina (notas)

- Lançar um foguete sem perder a mão que o lançou;

- Não pagar pensando nervosamente no troco;

- Entrar no táxi sem olhar para o taxímetro;

- Vestir t-shirt quando não é exigida camisa;

- Oferecer flores à namorada em momentos de não-desconfiança;

- Sobreviver à falta de dinheiro sem parecer um porco;

- Etc.

[Paulo Ferreira]

Pingonheiro

Um sogro apelidou um genro de «pingonheiro».

[Paulo Ferreira]

Que venha mais um...

O Insónia faz dois anos. Parabéns.

Alguém veio aqui parar com esta busca no Google: «vídeo mostra como se mostra a romper uma cona». Sem comentários.

- Henrique Fialho

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, maio 23, 2007

Amor de ouvido

O número para o qual ligou não tem voice-mail activo.

[Paulo Ferreira]

Amor telefónico

O saldo do seu cartão não lhe permite efectuar a chamada desejada.

[Paulo Ferreira]

Amor sem fronteiras

«Não entra no nosso país de pedra», disse o soldado ao romântico escritor.

[Paulo Ferreira]

Amor à distância

A sua carta não atingiu o destino pretendido.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, maio 21, 2007

O estado das coisas



Estado de euforia. Aqui e ali.

[João Carlos Silva]

O salto

Nas imagens, enquadrando os pitorescos barcos em que, outrora, se transportavam as pipas do vinho, uma ponte de ferro, alta e bonita - um sítio belo para se morrer, pensou. E por isso veio: para o grande salto que lhe lavará a honra.

- Manuel Jorge Marmelo, O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo

[João Carlos Silva]

O direito a existir

Neste mundo, tal como existe, o importante não consiste em eu trabalhar, mas sim em conseguir arranjar dinheiro. Um homem sem rendimentos é como uma pessoa sem nome ou como sombras sem corpos.
Dá a impressão de que somos fantasmas. E isto em nada contradiz o que acima escrevi. Não sinto escrúpulos por não fazer nada. Escrúpulos tenho por a minha inactividade não me gerar rendimentos enquanto outros há que nada fazem e são muito bem pagos. Só o dinheiro justifica o direito a existir.


- Joseph Roth, Fuga sem Fim

[João Carlos Silva]

Imperialismo bondoso

Nuno Rogeiro, na Sábado, diz que Portugal, «mesmo no auge do império», nunca teve «imperialismo armado» e que as batalhas celebradas em Portugal são, na maioria das vezes, «conflitos de resistência». Sendo talvez interessante e verdadeira esta segunda afirmação (curiosamente, nunca tinha pensado nisso), a primeira já deixa algo a desejar, muitas pontas soltas. Na verdade, e tendo em conta a área de especialização de Nuno Rogeiro, até poderá parecer algo irresponsável que diga que Portugal tinha um imperialismo, digamos, «benevolente». Se é esse o objectivo da frase, então Rogeiro está - humildemente constato - redondamente enganado. Infelizmente para o autor da afirmação, que muito aprecio. É que esquecer que, depois de Vasco da Gama, a Índia foi «descoberta» a ferro e fogo - sobretudo com Afonso de Albuquerque - é pôr luvinhas brancas de seda nas rudes mãos dos lusitanos. Os brandos costumes da nossa história não eliminam o verdadeiro carácter das coisas.

[João Carlos Silva]

domingo, maio 20, 2007

Do gostar

Chamo-me Antonieta e não sei falar. Mas gosto de ti. Queres casar comigo?

- Manuel Jorge Marmelo, O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo

[Paulo Ferreira]

sábado, maio 19, 2007

Cegueira

Naquela noite o cego sonhou que estava cego.

- José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, maio 18, 2007

O conde

Gomes Eanes de Zurara, na Crónica do Dom Duarte de Meneses, acha o estilo e coloca as palavras: «depois da chegada dos infantes ao cerco de tanger se acoutou a dor no conde tanto per que conheceo em sy sinaaes de fallicimento.» Imagino: D. Duarte de Meneses, sentindo a dor em si, começou a deixar-se falecer.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, maio 16, 2007

Eu ontem adormeci assim



[João Carlos Silva]

terça-feira, maio 15, 2007

Notion of city

The dangers of «a notion of city» about Lisbon, according to Bruno Alves: «se de Pombais modernos está Lisboa cheia, e a autarquia em particular, pena é que o que a cidade precisa é de menos megalomania e um pouco mais de sensatez. De menos "ideias de cidade" que apenas escondem a vaidade (normalmente injustificada) do seu autor, e de mais atenção aos problemas que afectam a Câmara, e que desde logo a impedem de dar atenção aos problemas que afectam os lisboetas». Read more.

[João Carlos Silva]

Irreversibilidade

Irreversibilidade é tomar consciência, depois de uma peladinha de futebol, de que o fôlego não voltará a ser melhor do que é. De que os músculos das pernas não voltarão a aguentar tudo. De que a bola de futebol correrá cada vez mais depressa do que eu. Irreversibilidade é isso tudo, é estar longe no tempo de algo. A «prova dos nove» de jogar um jogo de futebol é a mais cruel de todas.

[João Carlos Silva]

Um haiku para Jack London

Longe de casa
estava a sua
única casa.

[João Carlos Silva]

Um haiku para Bukowski

Em cada sarilho
via uma janela
para a vida.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, maio 14, 2007

A revolucionária

Permaneceu acordada, controlando os seus prazeres, como um poste suporta os ruídos nocturnos. O amor carnal era uma exigência da natureza. Para Natacha o amor era quase uma obrigação revolucionária - sempre que fazia amor ficava com a consciência tranquila.

- Joseph Roth, Fuga sem Fim

[João Carlos Silva]

O estado das coisas



Vincent van Gogh, Pátio de Exercícios, 1889

[João Carlos Silva]

Ponto de vista

«Do ponto de vista emocional, este tem sido o dia mais significativo.»

- Jornalista da Sic sobre os pais de uma criança desaparecida

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, maio 10, 2007

Ciclo

Nietzsche diz que Deus é uma conjunctura. Eu digo que o Homem é um ciclo.

[Paulo Ferreira]

Silêncio

É difícil viver com as pessoas, porque é tão difícil o silêncio.

- F. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra

[Paulo Ferreira]

O bigode de Nietzsche



[Paulo Ferreira]

Nota para Zaratustra

Nietzsche não diz nada de jeito.

[Paulo Ferreira]

Emprestar

A mão que emprestou ainda continua estendida à espera de uma devolução.

[Paulo Ferreira]

Ser e não ser

Tu dançavas, eu não. Tu eras da tarde, eu da manhã. Tu eras de sorrisos, eu de chorar. Tu eras de pensar no mundo, eu não. Eu não.

[Paulo Ferreira]

Ilusão

Não nos iludamos, não percamos tempo a pensar em países da cocanha: eu não amo o Outro, tu não me amas.

[Paulo Ferreira]

Amor

O amor não é uma dor específica: dói um pouco por todo o lado.

[Paulo Ferreira]

Fácil

Seria fácil sentir apenas uma pontada nas costas quando alguém nos abandona. Porém, quando alguém nos deixa, nem das costas nos lembramos.

[Paulo Ferreira]

Dor & felicidade

A tua dor pode ser a minha felicidade.

[Paulo Ferreira]

1 & 2 (II)

Uma dor pode não ser apenas sentida por uma pessoa.

[Paulo Ferreira]

1 & 2

Nunca dói só numa pessoa.

[Paulo Ferreira]

Magoar

Quando te dizem que não, não ficas chateado. Ficas deprimido.

[Paulo Ferreira]

Agora

Leio, escrevo, mas pouco penso e pouca vontade tenho.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, maio 09, 2007

O Cubo e a Catedral

Admito que não sou católico. Nem praticante nem devoto ao vício de submissão ao Senhor. Mas o argumento que George Weigel defende em The Cube and the Cathedral é, de facto, inegável. Weigel põe-nos à frente da cara a evidência: a Europa, os valores europeus, a «civilização» europeia, enfim, o modo de vida europeu e ocidental tal como o conhecemos, estão em risco. Não por vir aí uma vaga de terroristas muçulmanos armados, não porque «a guerra de Bush e seus lacaios» - ou, como diz o dr. Soares, a guerra «dos néo-cõs» - destruíu valores ocidentais, nem porque Sarkozy ganhou na Europa (perdoem-me a piada, até porque o livro é bem anterior). Não. Weigel vai a um ponto mais simples: a Europa está em crise porque «os europeus» (termo que me custa a dizer) não acreditam em Deus.

Ora, perante uma imigração muçulmana (de fé muçulmana, refira-se), e sua «reprodução» dentro de países europeus, os velhos habitantes do Velho Continente resolveram abandonar as suas crenças, ou seja, aquilo que os protegia face a uma possível imposição de «valores incontornáveis» dentro das culturas imigrantes. Escolhendo a laicidade, os europeus abdicaram das «armas» que tinham para combater - de forma pacífica, deve-se dizer para descansar as almas - crenças e costumes que podem, de facto, ameaçar o modo de vida ocidental. Num ponto de vista pessoal, nao tenho dúvidas que irão ameaçar cada vez mais nestas próximas décadas, sobretudo em França.

Embora não partilhe do optimismo cristão de Weigel, e da sua crítica demolidora ao «humanismo ateístico», concordo particularmente com a sua visão (apesar de tudo, serena) dos desafios que a Europa e, em menor grau, a América, terão de passar nos próximos tempos. A escolher uma aliada para esses desafios, que seja a religião católica, fundadora da moral felizmente saudável que todos nós temos e que ainda nos trava, por um pouco, a mão de chegar às armas. Seja contra o laicismo da UE ou contra os grupos organizados que agitam bandeiras de Alá, é a aliança recomendável.

[João Carlos Silva]

Pornografia

Muitas das gravações eram filmes eróticos que, observava António, pareciam eivados de terror metafísico. Rostos avermelhados escancaravam os olhos, grandes sexos pendiam entre coxas de velhos prestes a desfazer-se, e as mulheres jaziam, com falsas tatuagens a que o calor do estúdio derretia os contornos, e abriam as vulvas que ofereciam a cor de carne retalhada.

E António Eliseu, que sempre tinha achado ser a pornografia um recurso menor para pobres solitários, via-se a partilhar com os outros a atenção, o olhar gelado, severo, com que todos seguiam a tormenta dos corpos, a sua dança obscena e tão desesperada, essa aflita matéria uivante e só.


- Hélia Correia, Soma

[João Carlos Silva]

segunda-feira, maio 07, 2007

Vergonha

Actos vergonhosos pagam-se com vergonha.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, maio 04, 2007

Um mau nome

Vamos lá assinar com um novo nome a negrito:

[Nulificação]

Guardar 3

Geme o que quiseres, transpira o que quiseres, faz o que quiseres. Aquele que guarda não se importa com tempestades.

[Paulo Ferreira]

Guardar 2

Submete-te ao teu senhor.

[Paulo Ferreira]

Guardar

Aquele que guarda não se importa de morder nem de ser mordido.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, maio 03, 2007

Escravo & senhor

Sou teu senhor se fores meu escravo e vice-versa.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, maio 02, 2007

Parecer

Parece que o relógio continua a andar desenfreadamente.

[Paulo Ferreira]

Amor

Quando renegas um amor, não o voltas a assumir.

[Paulo Ferreira]

Regência

No amor, não há reinados no presente mas sim no passado. Há o reinado de Pedro no coração de Margarida. Posteriormente, virá António reinar no coração de Margarida. Não há reinados no presente. No entanto, podemos falar em regências. És regente deste coração neste preciso momento.

[Paulo Ferreira]

Desgraçado

Quando te sentires desgraçado, lembra-te de quem te fez sentir desgraçado.

[Paulo Ferreira]

Esmola

Se te pedirem uma esmola, desconfia. Há quem goste excessivamente de acumular esmolas.

[Paulo Ferreira]

Ouvir dizer

Quando me disseram que era demasiado pessimista, fiquei contente e sozinho.

[Paulo Ferreira]

Dor

Se não pensas, não te dói. Se pensas em demasia, dói-te racionalmente.

[Paulo Ferreira]

Amor

Quando descascas um tremoço, não pensas que anulaste as defesas do aperitivo. Pensas que vais engolir um tremoço. Pois bem, quando te apaixonas não tens a noção de brutalidade.

[Paulo Ferreira]

Opinião

Poderás não querer dar uma opinião, mas serás sempre obrigado a dá-la.

[Paulo Ferreira]

Neutralidade

A neutralidade não existe. A isenção não existe. Nunca serás neutro ou isento.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, maio 01, 2007

Portas e o «um para um»

Do Desesperada Esperança, do meu caro amigo Bruno Alves, parte outra farpa em direcção ao novo líder do CDS/PP. Que o Bruno não gosta de Paulo Portas já toda a gente sabe, mas que ele gosta tão pouco do homem e da sua «reentrada» (de facto, um falso regresso encenado) não tinha consciência.

Paulo Portas irrita, sobretudo, aquelas pessoas que têm a mania de que o universo da política é um universo de ideias. Um universo de engenheiros e juristas. O problema é precisamente esse: a política é a Política. Isso mesmo, com letra maiúscula. Só assim se compreende que, por exemplo, José Pacheco Pereira, detentor de uma presciência respeitável e mais ou menos certeira, não tenha lugar no mundo da política. Que homens de negócios de «sucesso», como António Borges, tenham tentado entrar no mundo da política de malas e bagagens ideológicas - no caso de Borges, uma sacrossanta cartilha liberal que não teve em conta o país em que vivemos - e falhado redondamente antes mesmo de começar. Só assim se entende que Paulo Portas, sem nunca ter uma ideologia fixa, um princípio orientador, continue a ter os argumentos para vencer. Erra, por isso, o Bruno ao avisar que «a retórica apaixonada [de Portas] apenas esconde a falta de cuidado e atenção aos aspectos mais àridos do debate político, logo por azar, os que realmente afectam a vida das pessoas». Portas não está na política para ajudar ninguém. Está lá para vencer batalhas de oratória. Para convencer sem argumentos. Para demolir a oposição e abrir caminho às ideias e soluções que outros trarão. Em linguagem futebolística, dir-se-ia que está «condenado» à missão do «um para um», sempre mais espectacular e visível, sem grande utilidade para a equipa mas capaz de virar o rumo de um jogo de futebol.

Os debates no Parlamento não servem apenas para comparar números. José Sócrates, apesar de parvo, não é estúpido. E a estratégia das «folhinhas A4 na mão», lançando para o ar números e cálculos (de relatórios e «estudos» oficiais do Governo) funciona muito bem. Não é por aí que cairá este governo. O governo cairá fazendo Sócrates tropeçar na sua própria retórica, no seu próprio moralismo. Trocando os pés por desatenção ou por incoerência, como já aconteceu (e está a acontecer) no caso da Universidade Independente. «Fight fire with fire», diz-se. E quem melhor do que Portas para isso? Ninguém lhe pedirá nunca contas, e é por isso que deve ficar eternamente na oposição. Sem dúvida, para seu desprazer. A vozinha irritante de Portas pode, de facto, derrubar governos. Ou, pelo menos, cansá-los. Com o cansaço, as incoerências surgem à tona.

A política é, por isso, uma arte, um universo da retórica, em que vencem aqueles que convencem, mas, sobretudo, vencem aqueles que perdem em grande estilo. Portas é um daqueles homens que, porque «vivem, de facto, da política», cairão sempre com um berro, como o Mel Gibson do Braveheart. Um grito vazio de conteúdo mas com uma forma muito inspiradora. No filme, resultava. No nosso mundo, é possível que seja muito útil à oposição. O Bruno esquece-se disso.



[João Carlos Silva]

O essencial nunca se altera

ESTRAGON Olha para isto. (...) É engraçado que quanto mais como pior me sabe.
VLADIMIR Comigo é exactamente ao contrário.
ESTRAGON Ou seja?
VLADIMIR À medida que como vou-me habituando ao gosto.
ESTRAGON (...) E isso é o contrário?
VLADIMIR Uma questão de temperamento.
ESTRAGON De personalidade.
VLADIMIR Não podes fazer nada.
ESTRAGON É inútil resistir.
VLADIMIR Cada um é o que é.
ESTRAGON É inútil fugir.
VLADIMIR O essencial nunca se altera.


- Samuel Beckett, À Espera de Godot

[João Carlos Silva]

O estado das coisas



Vivendo em conveniência.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, abril 30, 2007

20

Dou dez a quinze toques na bola com o calcanhar. A menina olha. Esforço-me mais um bocado e dou vinte toques na bola com o calcanhar. Esqueço-me dos livros.

[Paulo Ferreira]

1927, Domingo



Passo o dia inteiro a projectar-me à distância. Quem me procurar o olhar, não o encontra.

- Henri Michaux, Equador

[Paulo Ferreira]

domingo, abril 29, 2007

Da natureza masculina



«O verdadeiro macho, por natureza, é desconfiado.»

- Zezé Camarinha, daqui*

*documentário genial, diga-se de passagem

[João Carlos Silva]

sábado, abril 28, 2007

Leitura

Não tente mais me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça. Pouco se me dá, paula, se mudam a mão de trânsito, as pedras do calçamento ou o nome da minha rua, afinal já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.

- Raduan Nassar, Menina a Caminho

[Paulo Ferreira]

Dia 26

Na quarta-feira, dia 25 de Abril e feriado, um café em Setúbal abriu normalmente. Era um dos únicos a fazê-lo, aliás. E o proprietário, reputado salazarista, alegara não saber que aquele dia era feriado. Deixou bem claro: «hoje é dia 26».

[João Carlos Silva]

The Man

Muitos riram quando viram, há dias, Bush dançar num evento da luta contra a malária. Essa simplicidade é praticamente a razão pela qual não gostam dele. Curiosamente, é essa a razão pela qual gosto eu dele.

[João Carlos Silva]

A linguagem dos animais com medo

Assoprava ele, piava o outro, ladrava o sargento Leandro por ordem, ordem, e mais ordem. A linguagem dos animais com medo.
«Ordem ou vai tudo raso.»


- José Cardoso Pires, O Hóspede de Job

[João Carlos Silva]

Sucesso

Num anúncio de televisão, muito moralista, querem fazer as crianças estudar por mais anos e mais afincadamente. Para conseguir isso, passaram a mensagem: «se estudares muito muito, podes ser igual ao Pedro Abrunhosa». Ao menos, punham outro exemplo. Quem quer estudar uma vida inteira para se parecer com um chulo?

[João Carlos Silva]

Do acto de falhar



Costuma-se dizer que um editor é um escritor falhado. Assim como um bom treinador nunca pode ter sido um bom jogador de futebol. Mas quando me lembro de Manuel Hermínio Monteiro, e da sua Assírio & Alvim, penso: ainda bem que há pessoas que falham. Gosto de acreditar que o que um homem tem para dar nunca acaba desperdiçado.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, abril 27, 2007

Bush

Ai mãe, tenho um Bush no estômago!

Ai pai, apaga a luz que o Bush vem aí!

Ai Deus, apaga todos os ateus!

Isto a propósito do antiamericanismo de alguns (que, claro, é antibushismo).

[Paulo Ferreira]

Falhados e acertados

Por falar em escritores falhados, lembro-me de alguns escritores acertados. Não me apetece dar nomes.

[Paulo Ferreira]

Artigo 8º

Tolera-se a censura de pensamentos femininos em matérias amorosas.

[Paulo Ferreira]

Tremoço

Infelizmente, o coração humano não vem coberto por uma casca.

[Paulo Ferreira]

O amor

Ela só fazia o amor. Não era mulher para amor só ( sem «o»).

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, abril 26, 2007

Mil e dois

Foi no post número mil e dois que disse foda-se para isto.

[Paulo Ferreira]

Eterno retorno

Está disponível no Setúbal na Rede um novo artigo da minha pessoa, intitulado «O Eterno Retorno de Salazar». A qualidade do artigo, ironicamente (e por coincidência) publicado a 26 de Abril, não é muita, mas fica a intenção. O mote é este: «O concurso "Os Grandes Portugueses" parece ter dado que falar a toda a gente. Aliás, pessoas que já deviam estar com um pé na cova ganharam novo alento para lutar contra um arqui-inimigo há muito enterrado.»

[João Carlos Silva]

1000

Este é o post número mil.

[a Gerência]

quarta-feira, abril 25, 2007

Busca

Chegou algum leitor a este espaço através da busca «Cinema Paraíso» no Google. Aviso: aqui não se poderá encontrar o Tão jovens e já chupam no estica.

[Paulo Ferreira]

Quem arranca de noite o coração do peito



Quem arranca de noite o coração do peito deseja a rosa.
Pertencem-lhe a sua folha e o seu espinho.
A esse põe ela a luz no prato,
com o seu sopro enche-lhe os copos,
só para ele sussurram as sombras do amor.
Quem arranca de noite o coração do peito e o arremessa ao alto:
não falha o alvo,
apedreja a pedra,
a esse bate-lhe o sangue fora do relógio,
o tempo faz-lhe soar na mão a sua hora:
pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim.


- Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde

[João Carlos Silva]

Nota

Anna Akhmátova: acmeísmo.

[Paulo Ferreira]

Crucificação

1.

Os céus fundiram-se em fogo e um coro
de anjos glorificou a grande hora.
Disse ao pai: «Por que me abandonaste?»
E à mãe: «Não chores por mim, não chores...»


2.

Madalena convulsa se agita.
O discípulo dilecto está de pedra.
Mas olhar aonde se pousa a Mãe,
silenciosa, ninguém se atreve.

- Anna Akhmátova, Só o Sangue Cheira a Sangue

[Paulo Ferreira]

Molero

«Molero esteve lá», disse Austin, «e comprou uns sapatos de pele não sei de quê que absorvem a transpiração e a largam depois num aroma de essência de cravos. São os sapatos C-68 para jardineiro adiado».

- Dinis Machado, O Que Diz Molero

[Paulo Ferreira]

Uma lufada

O Que Diz Molero de Dinis Machado é, sem dúvida alguma, um excelente livro. Tudo o que tinha ouvido dizer acerca da obra, acabei por confirmar com os próprios olhos. É realmente uma lufada de ar fresco, uma pedrinha no charco, uma coisa doce, uma coisa suave, tem temperos beckettianos, tem perfumes rachmaninovianos. Não encontrei rasto de um certo orwellianismo no escrito de Dinis Machado. Não. Na obra não se fala de incêndios. Há um tal Molero que diz muitas coisas mas que nunca fala. Austin e Mister DeLuxe, as duas personagens que mais dão com a boca no trombone, encarregam-se disso. Falam, lêem, citam, espantam-se. Genial. Molero é um tipo que escreve um relatório e que corre meio mundo à procura de um rapaz. Cansa-se. Não o encontra. Beckettianismo puro e duro. Quem não se lembra de Molloy! Uma obra a ser traduzida para português. Definitivamente.

[Paulo Ferreira]

25 de Abril

A minha fase libertária esteve para acontecer mas, por pouco, não aconteceu. Fui assistir ao espectáculo dos Irmãos Catita na Comuna e, transpirando que nem um porco, desfaleci.

[Paulo Ferreira]

O «sex appeal» do poder



Havia um elemento fortemente sexual na imagem de Hitler, dizem, no culto da sua personalidade. A figura do Führer, verdadeiramente do líder, comportava também o simbolismo do poder sexual. Frequentes foram os casos das mulheres que escreviam a Hitler pedindo: «faz-me um filho». No retiro bávaro de Hitler (em Berchtesgaden), aliás, era igualmente normal ver mulheres fazerem fila para comer a gravilha que o Führer acabava de pisar. Vá-se lá entender as orientações do «sex appeal».

[João Carlos Silva]

Estranhas formas de vida

Para além de ter apoiado (ou ainda apoiar, no seu íntimo) José Bové na corrida às presidenciais francesas, e de defender que Ribeiro e Castro ainda está vivo, Bruno Alves veio agora afirmar que Boris Yeltsin foi a melhor coisa que aconteceu à Rússia no século XX. A ler, com escândalo, no Desesperada Esperança.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, abril 23, 2007

O bem e o mal

Manuel Tiago deve ser, sem dúvida, o pseudónimo menos arisco da história da literatura. Pouco acrescenta ao universo da literatura, pouco nos dá de inteligência na escrita, raramente nos surpreende. No entanto, é pela sua previsibilidade, e pela proximidade óbvia do universo mental que Cunhal queria formar, que merece sempre uma vista de olhos. Na órbita do neo-realismo, não se pode ir mais fundo no pensamento comunista do que com Manuel Tiago. A divisão é linear e cega entre «bons» e «maus», onde todos os pais de família são operários são comunistas são bons homens são heróis. Se há um destes que não é boa pessoa, é um «bufo» e, obviamente, não é comunista - não se «junta à luta». A divisão quase infantil entre quem pratica o bem lutando e quem pratica o mal denunciando os mártires à PIDE é de louvar. Desta forma, Manuel Tiago também. Fica um revelador excerto final de um conto, de levar às lágrimas o líder do PNR:

«Esperando obras, a "Sala 3" ficou deserta. Mais fria e mais triste. Pela ausência de um exaltante colectivo de homens perseguidos mas confiantes no futuro. E porque os pombos deixaram de voar até às janelas gradeadas por não mais aí encontrarem mãos amigas oferecendo pão.»

- Manuel Tiago, Sala 3 e outros contos

[João Carlos Silva]

Gato preto, gato branco


Boris Yeltsin (1931-2007)

[Paulo Ferreira]

Cansado

Andar, andar, andar, até chegar a uma feira do livro no Largo Camões. Gastar vários euros. Calor. Ir suado a um hotel de cinco estrelas para beber uma cerveja. Dormir a meio da tarde. Acordar ao fim da tarde. Ler Dinis Machado.

[Paulo Ferreira]

Solidão final

Eis que, porém, depois de todas as negações, depois da falência de todas as formas de uma pacificação, o homem descobre enfim que está só.

- Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro

[Paulo Ferreira]

domingo, abril 22, 2007

Inteligência

Em A Guerra como Experiência Interior, Ernst Jünger faz uma importante pergunta: o que é a inteligência do cérebro, comparada com a do coração?

[Paulo Ferreira]

Gato

O gato arranhou-me o polegar da mão direita e eu não me deixei ficar: mordi-lhe a pata direita. Ele tentou ser mais teimoso e mordeu-me o nariz. Enrolámo-nos. Ficou sem pêlo e eu sem jeito.

[Paulo Ferreira]

sábado, abril 21, 2007

Fanatismo

Com o jornal Público de 17 de Abril, um excelente livrinho de Amos Oz veio atrás. Contra o Fanatismo (How to Cure a Fanatic, no original, com um título menos desengraçado) traz três ensaios muito inteligentes sobre o conflito. Não só sobre a guerra israelo-palestiniana e a irresolução do problema, mas sobre os próprios conflitos entre as pessoas. Sobre o espaço de cada um de nós. Não demasiado original nas propostas, mas muito sensato na compreensão dos homens. Em suma, a visão de um escritor sobre a vida em Israel. Merece a leitura. Fica um dos muitos excertos memoráveis:

«Com muita frequência, os Árabes, inclusive alguns escritores árabes com sensibilidade, não conseguem ver-nos - a nós, Judeus Israelitas - como realmente somos: um punhado de refugiados e sobreviventes meio histéricos, perseguidos por pesadelos horríveis, traumatizados não só pela Europa como também pelo tratamento recebido nos países árabes e islâmicos. Metade da população de Israel é constituída por gente empurrada de países árabes e islâmicos. Israel é, de facto, um imenso campo de refugiados judeus. Metade dos Judeus são, na realidade, refugiados de países árabes.»

[João Carlos Silva]

Palavra para um desfecho

Bullet.

[Paulo Ferreira]

Do final


Seria muito mais fácil morrer se ninguém de nós gostasse, se ninguém se importasse com o desaparecimento de um só indivíduo. Seria muito mais fácil colocar um ponto final à vida se não existisse a ilusão de que alguém se importa ou quer importar. Seria muito mais fácil pôr termo a tudo se não gostássemos dos que vivem.

[Paulo Ferreira]