segunda-feira, setembro 29, 2008

Da vida interior de um homem senil



- O senhor não deseja chá?
«Para ele, os patrões têm de beber chá todas as manhãs, tem gosto pela ordem». pensou Ivan Ilitch, e limitou-se a responder:
- Não.
- O senhor não deseja sentar-se no divã?
«Precisa de arrumar o quarto e eu estorvo-o. Represento a desordem, a porcaria», pensou, e disse apenas:
- Não, podes ir-te embora.


Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Ilitch

domingo, setembro 28, 2008

Leituras

A Fortaleza Escondida



As primeiras impressões que ficam são decisivas. No caso de A Fortaleza Escondida (1958, Kakushi-toride no san-akunin no original), filme de Akira Kurosawa, as influências que exerceu sobre outras obras posteriores aparecem bem reveladas. Ao ler alguns artigos críticos da obra, a evidência é inegável: George Lucas inspirou-se fortemente em A Fortaleza Escondida para fazer o seu inaugural Star Wars. em 1977. Assim que o filme começa, Tahei e Matakishi deambulam pelos devastados campos da guerra entre senhores que grassava então. Discutem e procuram, cautelosamente, um rumo. A discussão tem um carácter cómico, uma espécie de interacção à Odd Couple, na qual dois amigos inseparáveis se ofendem mutuamente e atiram as culpas da situação um ao outro. O resultado é francamente uma relação de comic-relief para qualquer filme. Onde é que esta relação também surge? Exactamente, em Star Wars, com a amizade entre os dróides C3PO e R2D2, que, não sendo protagonistas, levam a sua sorte e o seu azar ao colo daqueles que serão os verdadeiros protagonistas e, ao mesmo tempo, levam o público ao encontro do enredo, dos verdadeiros acontecimentos.

Tahei e Matakishi são dois pobres desgraçados que venderam tudo o que tinham para se poderem armar, equipar e preparar para a guerra. Um deles leva o outro a acreditar na ideia que isto os levaria a enriquecer, o que não acontece. É daí que nasce a verdadeira dinâmica «amor-ódio», que por vezes resulta em gargalhadas dignas de um Chaplin, Keaton ou Laurel & Hardy, com bastante mímica à mistura. É nessa viagem sem rumo que se cruzam com o general Rokurota Makabe (mais uma interpretação impressionante te Toshirô Mifune), um guerreiro fora do normal com uma honra e uma coragem igualmente fora do normal, capaz de combater contra dezenas de homens ao mesmo tempo. Mais tarde, cruzando-se com a princesa Yuki, embarcam numa viagem que comporta riscos, responsabilidades e poderes bem maiores do que eles, fora do seu alcance. Afinal de contas, Tahei e Matakishi só se interessam pelo ouro que podem levar para casa, não pelo futuro da princessa e da sua casa real, e esse aspecto de anti-heróis dá algum equilíbrio ao enredo.

A Fortaleza Escondida é um filme mais comercial. Mas, comparação invertida, Star Wars também o é, e não deixa por isso de ser um filme de culto. Rokurota é um guerreiro demasiado bom para ser verdade? Sim, sem dúvida, mas quem nos diz que não havia, e até há bem pouco tempo, esse desequilíbrio de abilidade entre adversários no Japão? Só quem conheça. Kurosawa tem filmes melhores, maqis complexos e mais carregados de moral? Parece-me que sim, mas também me parece que aqui Kurosawa decidiu conscientemente embarcar num projecto mais comercial, mais acessível e, de certa forma, mais rentável para si e para a produtora. Resulta bem. Tem boas interpretações, boas personagens (gostei muito da dinâmica entre Tahei e Matakishi), um texto a alternar entre o épico e o cómico (grandes produções com Star Wars e Lord of the Rings apostam nessa dicotomia também) e, nunca esquecer, uma técnica espantosa de fazer cinema por parte do mestre Akira Kurosawa. Até as simples mudanças de cena são plagiadas por George Lucas, o que nos deixa a pensar se não deveria ser obrigatório ir «roubar» a Kurosawa elementos que garantissem, ao menos, a qualidade de novos projectos. Em pouco tempo, saíndo do desconhecimento quase total, passei a fã do realizador japonês. Mas, com uma obra como a dele, acho que é impossível não se ser.

sábado, setembro 27, 2008

Paul Newman (1925-2008)



Paul Newman pertence a um lote de actores aos quais nunca apontarei defeitos. É um dos grandes, dos verdadeiramente Grandes de Hollywood, que soube deixar a sua marca indelével na indústria, no imaginário e, sobretudo, na memória do público. Deixa muitos fãs - eu sou um deles -, mas deixa, sobretudo, sem dúvida, muitos amigos no meio. Soube envelhecer e tornar-se mais do que um velhote simpático, soube tornar-se um senhor. Depois de Marlon Brando, poucos conseguiram imprimir um verdadeiro carácter sexual à sua figura dramática. Passaram por cá James Dean, Steve McQueen, Bogart e outros, mas Paul Newman sobrevivia como o último grande «sex-symbol» de (na minha opinião) uma das épocas douradas de Hollywood. Era um homem, um «Homem com H grande» e isso definia a sua presença em frente às câmaras.

Deixou-nos o inesquecível Eddie Felson de The Hustler (1961) e The Colour of Money (1986), dois dos meus filmes favoritos, o segundo sendo uma sequela feita por Scorsese naquele que é uma das mais brilhantes revitalizações de uma personagem da história do cinema. Deixou-nos Cool Hand Luke (1967), um belo filme e um simpático herói outlaw. A mim, impingiu-me uma ou duas boas aparições do mal-amado Robert Redford (não aprecio) em The Sting (1973), recuperando a aura de Eddie Felson e profetizando a sequela de Scorsese, e em Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969). Entre os vários westerns que protagonizou, marcou a estreia de Arthur Penn na realização de longas metragens com The Left Handed Gun (1958), um western simpático mas ainda sem a perfeição de Bonnie and Clyde que Penn viria a demonstrar. Não são menos bem sucedidas as suas transições para personagens mais sérias, mais estabelecidas, como aconteceu com Frank Galvin em The Verdict (1982), trabalhando com Sidney Lumet, ou mesmo na sua última grande aparição no grande écrã, em Road to Perdition (2002) de Sam Mendes.

Paul Newman foi, era, é para mim um dos mais perfeitos actores de sempre do cinema. As personagens todas levam algo de si. Os filmes perdem muita da sua mediocridade quando Newman entra em cena. Qualquer argumento pobrezinho passa despercebido quando interpretado por Newman, cuja energia e sexualidade enchia o écrã sem grande esforço. Paul Newman não precisava, aliás, de falar muito para chamar a atenção. Nisso é tão bom quanto McQueen. Mas não é algo que se aprenda, é algo que se tem. Pouco outros actores não desapareciam à entrada do Eddie Felson. Scorsese sabia isso e massacrou Tom Cruise/Vincent em The Colour of Money. As opções políticas de Paul Newman pouco me interessam. Até poderia ter sido um Presidente Democrata. Interessa-me o seu legado em Hollywood, e a maneira simpática como se relacionou com o mundo, fora do show-biz. O maior elogio que se lhe pode fazer é mesmo reconhecer isto: que ele foi um dos verdadeiros Grandes do cinema. E que, com os filmes e personagens que nos deixa, é certo que, em Hollywood, Paul Newman nunca morrerá.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Bronco Billy



Há filmes que valem, sobretudo, pela mensagem, pelo espírito que se tenta transmitir. A mensagem de Bronco Billy (Clint Eastwood, 1980) fica à vista de todos nesta frase de «Running Water», uma das personagens:

Don't you understand what Bronco Billy and the Wild West Show are all about? You can be anything you want. All you have to do is go out and become it!

quarta-feira, setembro 24, 2008

The Boxer

Brecht e o medo



Bertolt Brecht é um daqueles escritores, artistas ou criadores que criam, em certas pessoas, um sentimento ambivalente. Em mim, por exemplo. Para mim, Brecht era um idiota. Mas também um excelente dramaturgo.

Terror e Miséria do Terceiro Reich (que, aliás, li numa tradução de António Conde que me parece muito bem conseguida) é um exemplo desse domínio da «arte» dramática. Um conjunto de cenas dramáticas sem qualquer relação entre si que não seja o facto de se passarem todas na Alemanha dos anos 30. É preciso saber muito bem o que importa no teatro. Escrever uma peça tem um elemento altruísta que não é necessariamente importante num romance. Enquanto num romance os dilemas e conflitos pessoais se desenvolvem interiormente num ritmo próprio, numa peça é preciso «falar» com o público. É preciso um elemento real no desenvolvimento desses conflitos, se os houverem. Ou seja, enquanto no romance é a definição da personagem ou do narrador que interessa, no teatro é importante, antes de mais, cativar o público. «Entretê-lo», se for caso disso. Como alguém me disse uma vez: escrevemos um romance para nós mesmos, mas uma peça escreve-se sempre para o público.

Brecht consegue o efeito de, sem apostar na profundidade das personagens, criar situações metafóricas ou com algum humor negro que, pela ironia, acabam representando uma mensagem moral. Não há uma solução ao problema criticado, mas sim a demonstração de um ridículo ou de uma imoralidade. Há qualquer coisa de tragicamente cómico, por exemplo, na cena «O bufo», em que um casal, assustado com o clima de purgas e denúncias que grassa na Alemanha, de repente vê o filho adolescente sair porta fora sem avisar. «Onde foi ele?», perguntam-se assustados. Começam então a atirar hipóteses para o ar e, pouco depois, entram em pânico: «MARIDO: Um Judas, é isso o que é o filho que tu me deste! Está sentado à mesa a ouir, enquanto come a sopa que lhes pomos à frente, e regista tudo o que os progeniores dizem, o bufo!». No final da cena, batem à porta e ambos ficam lado a lado, arrepiados, e o marido com a honrosa Cruz de Ferro já posta ao pescoço. A porta abre-se e é o filho. «O Rapaz aponta para o saco com o chocolate», e a cena acaba com os pais em dúvida.

Um dos grandes temas de Terror e Miséria do Terceiro Reich é, precisamente, o terror, o medo. E é isso que fica bem patente nas dinâmicas entre as personagens, receosas de serem denunciadas até pelos próprios filhos, sem poder confiar ninguém e obrigados a fingir que a Alemanha está bem.

Mas Brecht é, apesar de tudo isto, uma personagem estranha, sombria. O próprio «método» é duvidoso, pela despersonalização das personagens que passeiam pelas suas peças. A mensagem é mais importante do que tudo o resto, e pode assim esmagar qualquer manifestação do Eu, quer seja do escritor, quer seja de uma personagem. Picasso tinha uma interpretação parecida na sua criação artística: o objecto não interessa, as pessoas que eram retratadas deixavam de ser humanas quando passavam à tela. Brecht tem uma leitura semelhante.

No entanto, as cenas resultam muito bem. Os diálogos não são forçados e é raro haver um discurso irreal. Nota-se medo, ainda que de uma forma caricata, muitas das vezes. Ou seja, é representativo, mas não demasiado dramático. Brecht escreve bem e de forma fluida. É mais comum no teatro do que noutros géneros de ficção, mas, ainda assim, Bertolt Brecht soube deixar a sua marca neste tipo de relação com o público. Fica a revelação: não é um autor genial, a não ser que se se identifica muito com o homem a nível ideológico. No entanto, tal como com Bernard Shaw, é preciso esquecer a figura para apreciar as inegáveis qualidades estéticas da obra.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Do talento



Tina Fey

domingo, setembro 21, 2008

Trono de Sangue



Trono de Sangue (1957, Kumonosu-jō), de Akira Kurosawa. MacBeth, e a moral da mesma peça, num cenário japonês.

sábado, setembro 20, 2008

Os culpados estão em Wall Street?

Jonah Goldberg sobre a crise em Wall Street. A dada altura, no artigo, propõe a seguinte perspectiva:


(...) Criminal stupidity is another issue entirely. But the beautiful thing about our economic system is that bad decisions are punished in the marketplace.

The starting line for the parade of falling dominoes doesn’t begin on Wall Street. Nor, alas, will the parade end there. But if you want to know where it really begins, look to the Capitol steps.

The self-proclaimed angels in Washington will tell you they’ve been working tirelessly to expand the American dream of homeownership by making mortgages available to people unable to plunk down 20 percent on a house. Franklin Raines, the Clinton-appointed former head of Fannie Mae from 1998 to 2004, made it his top priority to make mortgages easier to get for people with poor credit, few assets and little money for a down payment.

The fine print to this noble intent was an ill-conceived loosening of standards. For instance, the Clinton administration reinterpreted the Jimmy Carter-era Community Reinvestment Act to politicize lending practices. Under the CRA, the government forced banks to prove they weren’t “redlining” — i.e., discriminating against minorities — by approving loans to minorities and various left-wing “community group” shakedown artists whether they were bad risks or not. (A young Barack Obama got his start with exactly these sorts of groups.) Sen. Phil Gramm called it a vast extortion scheme against America’s banks. Still, the banks were perfectly happy to pass the risky loans to Raines’ Fannie Mae, which was happy to buy them up

That’s because Raines was transforming Fannie Mae from a boring but stable financial institution dedicated to making homes more affordable into a risky venture that abused its special status as a “Government Sponsored Enterprise” (GSE) for Raines’ personal profit. Fannie bought the bad loans and bundled them together with good ones. Wall Street was glad to buy up these mortgage securities because Fannie Mae was deemed a government-insured behemoth “too big to fail.” And others followed Fannie’s lead. (...)



A trama continua. Aconselha-se, portanto, a leitura do artigo para saber mais.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Asiáticos

O comediante Russell Peters explica que os asiáticos não são todos chineses e revela como se pode distinguir entre eles.

Combater a estratégia

A suma excelência consiste
Não em ganhar
Cada batalha
Mas em derrotar o inimigo
Sem nunca chegar a lutar.
A mais sublime forma de luta
É atacar
A estratégia em si mesma.


Sun Tzu, A Arte da Guerra

quinta-feira, setembro 18, 2008

Os Sete Samurais



Assisti, há um par de dias, a um dos melhores filmes que já me passaram pelos olhos. Alternando confortavelmente entre as posições de sentado e deitado, com as pernas estendidas, tive umas das três horas mais intensas da minha história do cinema. Cerca de 200 minutos, para ser mais preciso. Vi Shichinin no Samurai, ou seja, Os Sete Samurais, um filme de Akira Kurosawa de 1954, uma das décadas douradas da criatividade cinematográfica. É um filme espantoso.

Os sete samurais são, de facto, sete samurais distintos, com diferentes personalidades entre si e características muito próprias. Kambei é um samurai e mestre velho e experiente que é recrutado por uma aldeia de, aparentemente, parcos recursos para combater na sua defesa contra um grupo de ladrões que tem vindo ocasionalmente a pilhar os recursos dos aldeões. Sem mais nada para oferecer do que comida, o ancião da aldeia propõe que se procurem «samurais famintos», já que apenas estes se sentiriam tentados pela oferta, de facto, muito pouco sedutora. Kambei é o primeiro a ser recrutado e é ele que vai preparar, aos poucos, o grupo que vai defender a aldeia.

Aos poucos vai encontrando velhos amigos e gente de confiança (Gorobei e Shichiroji), um discípulo (o nobre e fiel, mas inseguro, Katsushiro), dois samurais que por acaso aparecem na cidade (Heihachi e Kyuzo) e, por falta de homens, um problemático espadachim chamado Kikuchiyo, que se torna a verdadeira «estrela da companhia». Kikuchiyo aparece visivelmente bêbado na casa onde os restantes seis homens se reuniam, dizendo que quer ser um samurai, pelo que troçam dele e acabam descobrindo que ele nem sequer é quem diz ser, tendo roubado um pergaminho de uma família de samurais que - segundo ele - confirmava a sua linhagem nobre. Sem que ninguém o leve a sério, Kikuchiyo vai seguir o grupo pelos bosques enquanto estes se dirigem para a cidade que vão defender. É assim que nasce o número sete, e os Sete Samurais.

O filme de Kurosawa é um épico do outro mundo. O próprio tempo de duração é a primeira prova disso. Mas a primeira grande marca a ser deixada pelo filme é a criação de um grupo de personagens. Um grupo coeso, dentro do qual as relações são mais intensas, mesmo nas pequenas coisas. É a camaradagem dos sete samurais que nos deixa imediatamente rendidos ao filme. Vários westerns e filmes de guerra mais tarde trouxeram o mesmo tipo de união para o cinema, se bem que com bastante mais malícia nas suas personagens (conferir Dirty Dozen do Aldrich), mas foi este filme de Kurosawa que deixou a semente.

O perscurso emocional e moral de cada personagem, incluindo os aldeões, é, no entanto, a verdadeira pérola deste filme que tem mais de cinquenta anos. A maneira como nos apegamos sentimentalmente ao grupo é evidente no momento em que o primeiro dos sete morre, e não vou dizer quem (dizê-lo seria ruinoso para o argumento e para quem ainda não viu), ficando um certo vazio e um sentimento de vingança iminente no estômago. A transformação de Kikuchiyo - uma figura caricata, um homem bonacheirão, aparentemente exibicionista e presunçoso mas que revela ser, até ao fim, um guerreiro humilde, com bom coração e com lealdade a todos os que o rodeiam - promete ser a melhor de todas, e o próprio Kikuchiyo não sairá do imaginário de quem já viu este filme. É, sem dúvida, uma das melhores personagens de sempre do cinema.

Para mim, que sou um leigo em cinema japonês e, consequentemente, em Kurosawa, este filme foi uma descoberta espantosa. Cinco estrelas. Um dos melhores filmes de sempre.

segunda-feira, setembro 15, 2008

O estado das coisas

domingo, setembro 14, 2008

Olhos

Os meus olhos estão a morrer. Aos poucos. Ando a tentar ler o Doutor Jivago numa edição Círculo de Leitores dos anos 70, paga a troco de uma moeda há uns meses, mas as letras são assustadoras. A edição está numas letrinhas do tamanho de ramelas, que desfilam com dificuldade pela minha frente. A cada vinte páginas, sou obrigado a fechar o livro e tomar uma bonita dose de paracetamol para acalmar as veias latejantes. O Pasternak que me perdoe mas só terá alguns minutos por dia da minha vida. Ou isso ou a minha cegueira. Raios partam a miopia.

Livro Negro



O «novo filme» de Paul Verhoeven andou por uns tempos na boca do mundo e das publicações do mundo do cinema, durante os passados dois anos. Ora, Verhoeven nunca seria um nome para me despertar qualquer tipo de fidelidade. Não que não guarde alguma simpatia para com Basic Instinct (em especial para com Michael Douglas, um actor «in the making», e não para a clássica Sharon Stone) ou Robocop, um filme de infância, mas a verdade é que nunca esperei muito do realizador holandês. Aliás, aquilo que posteriormente li acerca dos seus prometedores projectos pré-Hollywood pouco compensava o facto de ter experiências demasiado comerciais e pobrezinhas de argumento com o senhor. Penso que se pode resumir uma boa parte do seu cinema por esta expressão: falta de classe.

Em Livro Negro (Zwartboek no original), Paul Verhoeven sabe fintar esse aspecto do seu cinema e trazer algo relativamente novo ao portfolio, pelo menos à parte a que eu já assisti desse repertório. Este filme de 2007 traz algum glamour e bastante ordem aos argumentos algo espalhafatosos de Verhoeven, com a introdução de uma moral, ainda que light, e de alguma nostalgia pelos filmes clássicos de espionagem e sobre a Segunda Guerra Mundial.

Rachel Stein (a bela Carice van Houten) é uma rapariga judia, antiga cantora, a viver na clandestinidade na Holanda em 1944, já bem «dentro» da Segunda Guerra Mundial, quando um bombardeamento destrói a casa dos seus hóspedes. Para fugir dos alemães e tentar encontrar novo albergue, Rachel acaba por confiar num agente da polícia que revela estar ligado à Resistência e que lhe indica um caminho pelo rio, que esta seguirá depois da reunião com a sua própria família e outros judeus ricos. No final, este caminho revela-se uma armadilha, quando um oficial alemão leva um pequeno grupo de soldados ao encontro dos judeus para uma execução em pleno rio, seguido de saque. Sem sítio para onde ir, Rachel acaba por ser miraculosamente salva e ajudada por um grupo da verdadeira Resistência holandesa, que lhe dão um passaporte com uma nova identidade: Ellis de Vries.

É com esta nova identidade que começa realmente a «acção» de Livro Negro. Dona de potencial para muito mais do que trabalhar na fábrica, Ellis acaba sendo integrada num grupo executivo da Resistência, numa célula liderada por Gerben Kuipers, que também é dono da fábrica que serve de fachada. É numa missão que Ellis conhece, acidentalmente, Müntze, um oficial nazi (interpretado por Sebastian Koch, que muitos reconhecerão como sendo o dramaturgo de A Vida dos Outros) que aos poucos se revela, mais do que um soldado «derrotista», um alemão desiludido com a guerra. É também Müntze que será o alvo da missão de infiltração de Ellis, com vista a resgatar o filho de Gerben Kuipers, acabado de ser capturado.

Livro Negro começa por ser uma história banal típica de Verhoeven, com uma personagem a ser apanhada pela roda da Fortuna e envolvida num emaranhado de relações e traições maior do que ela mesma, tendo apenas a atenuante do contexto emocional do Holocausto. Mas, aos poucos, o filme revela-se muito mais do que isso. A viagem de Ellis de Vries ao interior da high life dos oficias nazis dá azo à contrução de um argumento, e de um pano de fundo, com muita classe, digna de um verdadeiro filme de espionagem e traições, em que nunca se sabe muito bem quem é de confiança e quem não é. Falta-lhe, talvez, um pouco mais de perigo, já que não sentimos a vida da personagem principal assim tão em perigo quanto seria possível fazer parecer neste contexto. Nesse aspecto, a temeridade de Rachel Stein/Ellis de Vries é pouco real. Mas não falta, certamente, o erotismo desta «Mata Hari» da Segunda Guerra, que assenta como uma luva no ambiente ocioso das folgas dos oficiais da Wehrmacht e das cantoras que, como Ellis, os entretiam.

Há, sobretudo, uma tensão muito bem conseguida, que é aquela que existe entre Ellis e Franken, o oficial que assassinou a sua família naquela noite e que ela tem de encarar não como judia mas como Ellis de Vries, a cantora holandesa. Após vomitar de nervosismo, ela lá volta para o pé dele, que está ao piano, e... canta. Uma tensão bem conseguida e perfeita para o argumento do filme. No fim, fica uma excelente impressão de Paul Verhoeven e do cinema fora de Hollywood, que também consegue criar um ambiente histórico credível e, acima de tudo, cinematográfico. Os meus aplausos para o clássico. Livro Negro, embora não seja A Lista de Schindler ou, mais flagrante, O Bom Alemão, merece atenção e merece respeito. Entretém e não tenta moralizar. É um filme de espionagem bem bom, ponto. Isso para mim basta.

quinta-feira, setembro 11, 2008

América

quarta-feira, setembro 10, 2008

O autoclismo da Humanidade

Não percebo peva de ciência. Mas a notícia apanha a atenção. Aparentemente, perto de Genebra, na Suiça, está-se na fase final da megalómana construção de um gigantesco acelerador de partículas, o que se revela como uma das maiores experiências científicas da História. De facto, tudo isto roça o fantástico mundo da ficção científica e do espectáculo do fim dos tempos. Mas a histeria geral tem sido, talvez, exagerada. Diz a sabedoria comum, ou a de alguns cientistas, que a experiência nos vai arrastar para um enorme buraco negro a ser criado pela experiência. Não me parece assim tão grave.

Passo a explicar. Primeiro facto: se os Delfins nunca foram engolidos por um buraco negro criado pela sua própria música (aparentemente, estes buraquinhos envolvem muita energia negativa), então não sei quem mais esteja destinado a esse futuro. Por outro lado, muito importante: porque é que alguns dos melhores cientistas da Europa (e do Mundo) estariam a criar uma máquina para um suicídio em massa? Que mérito tem um homem que destrói o único público que o pode aplaudir? Não faz sentido. Em terceiro e último lugar, e a mais decisiva das razões: porquê tanta arrogância de achar que não merecemos ir pelo cano abaixo? Os seres humanos são os seres mais irracionalmente virados para a destruição do «Próximo», seja por este ser diferente ou por ser igual e hipoteticamente rival. Logo, a criação de um destes engenhos teria o dedo divino, e a ironia, de nos dotar do instrumento da nossa própria destruição. Um autoclismo da Humanidade, diria eu. Acontecesse uma desgraça dessas, e eu admito: I saw it coming.

terça-feira, setembro 09, 2008

Cinderella Man



Nota: Apesar do filme de Ron Howard (que, fora das comédias forçadas e dos flops criativos, só se safa com Apolo 13 e, vá lá, Resgate) até ser jeitosinho, continuo a achar que o melhor papel (e mais credível tendo em conta o carácter da figura) de Russell Crowe é o que ele fez em L.A. Confidential. Mas Cinderella Man também não vai para o lixo por causa do actor neo-zelandês. Vê-se e não é mau.

quinta-feira, setembro 04, 2008

RNC 2008 - Sarah Palin



Finalmente, chegou a vez de Sarah Palin. Muitos criticaram o excesso de retórica. Discordo. Palin soube atacar o discurso (o tom) dos Democratas e desconstrui-lo, contrapondo com a sua experiência, a estratégia de McCain, a debilidade do Congresso e a fragilidade das promessas de Obama. Soube, principalmente, defender-se a ela mesma e à «small town America»:

«Well, I'm not a member of the permanent political establishment. And I've learned quickly these last few days that, if you're not a member in good standing of the Washington elite, then some in the media consider a candidate unqualified for that reason alone.
But -- now, here's a little newsflash. Here's a little newsflash for those reporters and commentators: I'm not going to Washington to seek their good opinion. I'm going to Washington to serve the people of this great country.
Americans expect us to go to Washington for the right reason and not just to mingle with the right people. Politics isn't just a game of clashing parties and competing interests. The right reason is to challenge the status quo, to serve the common good, and to leave this nation better than we found it.
»

Fiquei realmente surpreendido com a energia do discurso, com a força e vigor com que ataca os opositores políticos e com a confiança que transmite. Apesar da retórica por vezes roçar o radical, foi um dos melhores discursos que ouvi (senão o melhor) desde que começou a corrida à presidência. Antes de referir o quer que seja, o melhor é mesmo ouvir e ver o discurso aqui. Até a minha senhora, que não é muito destas coisas, se arrepiou. Uma coisa é certa: nos debates entre candidatos à vice-presidência, Sarah Palin vai bater completamente Joe Biden. Ponho as mãos no fogo por esta certeza.

RNC 2008 - Rudy Giuliani

Pouco depois, chegou a vez de Rudy Giuliani, ex-Mayor de Nova Iorque, abrir as hostilidades. No seu estilo pessoal - informal, familiar e, por vezes, castiço -, Giuliani chegou às pessoas e agitou as hostes, falando das grandes diferenças de capacidade entre os candidatos. Fez aquilo a que muitos chamam o «crowd energizing», aumentando a expectativa e o sentimento de luta política, tendo reacções constantes do público. Utilizou as palavras de Joe Biden e a retórica de Barack Obama contra eles próprios («Hope is not a strategy!» ficou no ouvido). Destaco, sobretudo, a defesa que Giuliani fez da experiência (verdadeira experiência, verdadeiros desafios) de Sarah Palin:

«Gov. Palin represents a new generation. She's already one of the most successful governors in America and the most popular. And she's already had more executive experience than the entire Democratic ticket combined. She's been a mayor. I love that. I'm sorry -- I'm sorry that Barack Obama feels that her hometown isn't cosmopolitan enough. I'm sorry, Barack, that it's not flashy enough. Maybe they cling to religion there.

Well -- well, the first day -- as far as I'm concerned, the first day she was mayor, she had more experience as an executive than -- than Obama and Biden combined. Then she became governor. She's reduced taxes. She's reduced government spending. She's encouraged more energy exploration. She's been one of the most active governors -- she's been one of the most active governors in the country, and Alaska can be proud of having one of the best governors in the country. She's got an 80 percent approval rating. You never get that in New York City, wow. As U.S. attorney, a former U.S. attorney, I'm very impressed the way she took on corruption in Alaska, including corruption in the Republican Party. This is a woman who has no fear. This is a woman who stands up for what's right. She -- she -- she is shaking up Alaska in a way that hasn't happened in maybe ever. And with John McCain, with his independent spirit, with his being a maverick, with him and Sarah Palin, can you imagine how they're going to shake up Washington?
»

RNC 2008 - Huckabee

Ontem fiquei até às tantas a ver a Convenção Republicana. Prometia ser uma noite de «dicursos quentes», e cumpriu-se essa promessa. O que revela a minha opinião de que, aos poucos, a organização da campanha de McCain se tem vindo a arrumar, e a providenciar condições para ganhar a eleição de Novembro. Primeiro Mike Huckabee, um excelente orador e uma figura simpática para as bases (gosto de o ouvir, mas detestaria vê-lo perto da Casa Branca), subiu ao palanque para agitar as consciências e ganhar as atenções. O seu discurso sobre o background dos verdadeiros republicanos, de raízes humildes, sobre os direitos civis, sobre Lincoln e, sobretudo, sobre o que os americanos devem aos veteranos como John McCain e os soldados:


Let me tell you about someone I know who understands this type of sacrifice.

On the first day of school in 2005, Martha Cothren, a teacher at the Joe T. Robinson High School in Little Rock, was determined that her students would not take their education or their privileges as American for granted. And with the principal of her school's permission, she removed all the desks from her classroom on that first day of school, 2005.

Now, the students walked into an empty classroom and they said, "Ms. Cothren, where's our desk?" She said, "You get a desk in my classroom when you tell me how you earn it."

Well, some of them said, "Making good grades." She said, "Well, you ought to make good grades in my class, but that won't earn you a desk." Another student said, "I guess we get a desk when we behave." Martha said, "You will behave in my classroom."

But that won't get you a desk either. No one in first period guessed right. Same for second period. By lunch, the buzz was all over the campus. Ms. Cothren had flipped out, wouldn't let her students had a desk.

Kids started using their cell phones. They called their parents. And by early afternoon, all four of the local network TV affiliates had camera crews out at the school to report on this teacher who wouldn't let her students have a desk unless they could tell her how to earn it.

By the final period, no one had guessed correctly, so the students filed in. Martha said, "Well, I didn't think you would figure it out, so I'm going to tell you."

And with that, she went to the door of her classroom and motioned, and in walked over 20 veterans, some of them still wearing the uniforms from days gone by, every one of them carrying a school desk. And as they carefully and quietly arranged those desks in neat rows, Martha said, "You don't have to earn your desk, because these guys, they already did."

These -- these brave veterans had gone halfway around the world, giving up their education, interrupting their careers and families so that we could have the freedom that we have. Martha told them, "No one charged you for your desk, but it wasn't really free. These guys bought it for you. And I hope you never, ever forget it."



Pense-se o que se pensar de Mike Huckabee, este discurso, esta história, foi das mais importantes de toda a Convenção.

quarta-feira, setembro 03, 2008

O estado das coisas

A tentação inapelável.

terça-feira, setembro 02, 2008

800

No momento em que escrevo este post, a Petição Contra a Colocação Obrigatória de Chips de Vigilância nas Matrículas dos Veículos Automóveis está a uma assinatura de chegar às 800, um número considerável de pessoas que continuam com medo de perder, pouco a pouco, a sua privacidade e as suas liberdades individuais em relação à intromissão do Estado. Por um pouco de pretensa «segurança» (um mito no que toca ao RFID) e de «conforto» (outro mito, já que não se vai melhorar nada do que já existe, apenas reformular em nome do «progresso»), ainda há muitos portugueses que não estão dispostos a perder liberdades. E isso é louvável. A petição continua aqui, à espera de cada vez mais assinaturas.

Adenda: como habitualmente, cometi um pequeno erro na colocação do endereço da petição, que parecia levar a um écrã com um erro. Já está corrigida a minha trapalhada, já é possível ir assinar. Pelo sucedido, peço desculpa a todos os que não conseguiram chegar à petição. Em caso de dúvida, e para evitar mais erros, fica aqui a morada por extenso: http://www.ipetitions.com/petition/siev/

Sarah Palin, uma mulher sem medo de «sujar as mãos»



Sarah Palin, quarenta e quatro anos, governadora do Alaska, republicana com cartão do NRA e pouca paciência para o assunto emergente do aborto. Sabia-se isto e pouco mais no primeiro dia em que o seu nome ecoou pela comunicação social portuguesa e europeia. Eu próprio não tinha praticamente ouvido falar da senhora antes do seu nome surgir indistinto entre dezenas de outras hipóteses para a vice-presidência (no início eu mesmo pensei que a surpresa pudesse vir a ser Bobby Jindal), mas passei à descoberta de uma figura política completamente nova para mim, mas que já me surpreendeu após meia dúzia de leituras.

A governadora do Alaska, como já referi, é uma ardente defensora da Segunda Emenda à Constituição dos EUA, ou seja, defende o direito dos cidadãos possuirem armas de fogo, e isso é bem cimentado pela sua filiação ao NRA. Isto pode, para muitos, parecer um atributo apenas dirigido aos eleitores do Midwest que não passam um dia sem premir um gatilho, mas a verdade é que o NRA tem até apoiantes mais «apaixonados» nos estados em que o direito de possuir armas ainda não está bem delimitado. O que não será suficiente para justificar a escolha.

O facto de ser mulher, e de ser jovem, é obviamente um piscar de olhos ao eleitorado que valoriza o «aspecto», o «simbolismo» e o futuro, ou seja, a abertura da política tanto às mulheres como a uma nova geração, à qual Obama pertence de direito, sem dúvida, mas que também tem espaço para Palin. A nomeação é assim um convite tanto às eleitoras femininas - embora aqui seja, aparentemente, mais preferida pelas mães de família e mulheres maduras e independentes - como a independentes que viraram as costas a George W. Bush e querem gente que não tenha pertencido às últimas três administrações republicanas.

A sua compostura política e pessoal no que toca à sociedade e à moral tradicional é, para mim, a cartada mais arriscada de McCain. É que, ao estender a mão às «bases» conservadoras americanas, também se arrisca a perder o eleitorado indeciso que não confia no chamado «lobby evangélico», que alinhará claramente com esta escolha. Sarah Palin tem posições fortes em relação a assuntos fracturantes. Algumas dessas posições até apelam a pessoas mais libertárias, como a sua oposição à educação sexual, a sua recusa em relação à histeria ambiental ou até a sua posição «pró-vida», recusando-se a legislar no sentido da legalização do aborto assistido. Mas é a sua convicção contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que parece ser mais decisiva, deixando que a sua visão cristã se sobreponha à possibilidade de ser uma liberdade que muitos estarão inclinados para permitir (opõe-se, mas insiste em referendar as opiniões públicas e em salvaguardar os direitos das pessoas, independentemente de serem casal ou não).

O que realmente importa em Sarah Palin é, no entanto, posto de parte em quase todas as discussões em redor da candidata à vice-presidência. Palin é uma «maverick», tal como McCain. Não hesita em afastar gente da sua cor política de cargos importantes e em acusar formalmente republicanos como Randy Ruedrich (líder do GOP do Alaska) de não exercerem as suas responsabilidades para com o eleitorado. Sarah Palin demitiu-se, aliás, de alguns cargos por recusar trabalhar com co-partidários que, diziam, tinham «falta de ética».

Esta qualidade, hoje muito rara, de defender o que se acredita e de realmente representar os interesses das pessoas, é o que realmente coloca Sarah Palin num patamar político acima de muitos outros, deitando por terra o argumento dos republicanos «estarem há muito tempo no poder», que de nada vale contra uma mulher que não tem medo de «sujar as mãos» para retirar as maçãs podres da árvore política. Ao mesmo tempo, a sua carreira recente é um desafio às preocupações crescentes em relação à sua «inexperiência» e falta de preparação para ser Presidente (caso McCain sofra algum problema de saúde que o orbigue a sair de cena). Na minha opinião, são as próprias escolhas de Sarah Palin, que têm em qualidade o que não têm em quantidade, que permitem demolir esse argumento, juntamente com o facto de estar a concorrer contra uma dupla democrata em que é o próprio candidato principal que «sofre» desse mesmo «defeito», com a agravante de nunca ter desempenhado um cargo de responsabilidade tão elevada quanto o da governadora do Alaska.

Em termos fiscais, então, Palin torna-se realmente a grande aposta de John McCain e um sinal bem forte do que pode vir a ser a sua presidência. A governadora do Alaska tem sido uma reformadora exemplar neste Estado, invertendo ordens de construção com a execução já no seu início por desvios graves no controlo dos custos das obras (cancelando assim, por exemplo, o que seria a megalómana ponte para a Ilha de Gravina, a «Bridge to Nowhere») e apertando inteligentemente o cinto das construções estatais no Alaska de forma a reduzir a despesa anual em algumas centenas de milhões de dólares, equilibrando assim a balança orçamental do seu executivo. A venda do jacto do seu gabinete do Governo do Alaska também foi um gesto simbólico, rentável ($2.1 milhões de dólares) e de compromisso com e eleitorado, a quem prometeu os tão necessários cortes nas despesas e luxos da classe política, antes de começar a meter «mãos à obra» na despesa pública.

Independentemente de ser ou não uma «hockey mom» com cinco filhos - um dos quais de partida para servir no Iraque pelo exército americano, outro deles um recém-nascido com síndroma de Down que Sarah escolheu ter (ganhando a admiração de muitos, incluindo os evangélicos, segundo o que revelam vários fóruns de opinião) -, uma mulher de armas e coragem para enfrentar os «barões» do Partido Republicano, uma americana conservadora e defensora do direito a possuir uma arma, uma mãe e uma trabalhadora incansável que voltou ao trabalho 3 dias após dar à luz, uma «maverick», uma cara jovem de uma nova maneira de fazer política, uma conservadora fiscal (um presente dos deuses e de McCain, na minha opinião) independentemente de tudo isto, Sarah Palin é, sobretudo, o maior trunfo de John McCain até agora, que assim aproveitou a nomeação vice-presidencial não para dar à América uma figura diferente para os indecisos votarem, mas sim um sinal de que tem um plano para o país. Um sinal de que sabe o que quer, e isso ficou bem sublinhado no recompensar da actividade governativa de Palin, sobretudo no que toca às suas opções económicas e fiscais.

Finalmente, é o confirmar da promessa constante de John McCain de surpreender positivamente a América. E esta escolha, de Sarah Palin, é indubitavelmente uma grande surpresa, mas uma boa surpresa. Como já disse mais abaixo, esté é mais um passo estrategicamente brilhante naquela que me parece ser a caminhada para a presidência mais bem organizada de sempre. Anunciada no dia em que ainda se fazia a digestão do discurso de Obama, Sarah Palin ofuscou completamente o senador do Illinois. Já ninguém se lembra do discurso. Qual discurso? Barack who?

Timing

A nomeação de Sarah Palin para vice-presidente de John McCain (ou candidata a tal) foi uma escolha quase matemática do ponto de vista político. Teve todos os atributos de uma escolha pensada, ponderada, comparada e cautelosa. Como resultado, teve o timing perfeito: o discurso de Obama não teve o eco pretendido e o foco de luz das câmaras de televisão, subitamente, viraram-se todas para o Alaska e para McCain. Um dia depois do encerramento dos trabalhos da Convenção Democrata em Denver, já ninguém se lembrava muito bem do que tinha dito Barack Obama no seu discurso. Aliás... discurso? Qual discurso?

John McCain tem gerido a sua campanha de forma brilhante, mostrando que se sabe rodear de gente inteligente, de bons analistas. Contra o toque populista dos discursos de Obama - aliás insuperáveis no tom hipnitizante -, a campanha de McCain tem utilizado jogadas inteligentes, precisas e «chatas», sabendo desviar algumas vezes os apoiantes de Obama dos seus planos para «debater» assuntos de menor importância, o que revela alguma inexperiência do Democrata.

A campanha de McCain tem sido das mais inteligentes que já vi. Aproveitou o balanço de Obama para, nos meses decisivos, ter o seu crescendo lento, sólido mas decidido. As sondagens ilustram esse mesmo crescimento. O peak da campanha republicana vai, segundo parece, incidir em Novembro. Melhor timing e política mais correcta do ponto de vista matemático é impossível. A prova disso é a surpresa que as eleições vão trazer, sobretudo aos europeus convencidos de que os EUA «são Obamaníacos». Querem ver quem ganha a corrida?

Coisas perfeitas para ouvir



Hank Williams, Ramblin' Man

segunda-feira, setembro 01, 2008

Leaves of Grass (IV)

Continuo a ler Leaves of Grass, de Walt Whitman, e, a cada «poema» que leio, me sinto com mais vontade de marchar sobre um qualquer inimigo da liberdade.

Experiência

A base ideal para o matrimónio é a mútua incompreensão. Não, não estou a ser de todo cínica, simplesmente tenho experiência, o que, no entanto, é basicamente o mesmo.

Oscar Wilde, O Crime de Lorde Arthur Savile

Dead Man



Dead Man (1995), Jim Jarmusch