O nome de Kafka serve para tudo o que é mau e sem saída à vista. Quase que consigo imaginar Amuneke dizer a Nandinho (futuros ex-jogadores do Vitória de Setúbal) à porta da sede do clube: «esta sítuação de não nos pagarem os salários é kafkiana».
[João Carlos Silva]
domingo, junho 17, 2007
WC Booker Prize
A literatura de casa-de-banho é das coisas mais belas que já me foram dadas a ver. Sou um frequentador assíduo, mas pacífico, de cubículos de WC's de universidades - talvez sinal de uma certa impaciência crónica -, mas não por gosto ou por passeio. Como tal, tenho presenciado vários acesos debates epistemológicos ao longo dos tempos. Para quem pensa que os universitários não discutem ideias, uma cagada na faculdade pode mudar todo um preconceito.
Podem-se encontrar encadeamentos de ideias absolutamente inesquecíveis. Por exemplo: «PNR, por Portugal», seguido de «o PNR - Panascas Nazis da Ralé», seguido de «calem-se mas é e ouçam Mettalica», seguido de «metallica não vale um corno, música de fascistas», seguido de versos de Cesário Verde «Se eu não morresse, nunca! e eternamente / buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! / esqueço-me a prever castíssimas esposas, / que aninhem em mansões de vidro transparente», de um hino de Portugal adaptado ao desapreço por estudar e, por fim, seguido do vaticínio: «aproveita e caga aqui, que lá fora é o capitalista que caga para ti».
Há sítios, na Europa, onde a Operação Bolonha (como é que se chama mesmo?) nunca chegará. Graças a Deus.
[João Carlos Silva]
Podem-se encontrar encadeamentos de ideias absolutamente inesquecíveis. Por exemplo: «PNR, por Portugal», seguido de «o PNR - Panascas Nazis da Ralé», seguido de «calem-se mas é e ouçam Mettalica», seguido de «metallica não vale um corno, música de fascistas», seguido de versos de Cesário Verde «Se eu não morresse, nunca! e eternamente / buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! / esqueço-me a prever castíssimas esposas, / que aninhem em mansões de vidro transparente», de um hino de Portugal adaptado ao desapreço por estudar e, por fim, seguido do vaticínio: «aproveita e caga aqui, que lá fora é o capitalista que caga para ti».
Há sítios, na Europa, onde a Operação Bolonha (como é que se chama mesmo?) nunca chegará. Graças a Deus.
[João Carlos Silva]
Piada seca
Devo dizer que a piada do camelo, no contexto do «deserto da margem sul» -, para além de não ter piada nenhuma, já cansa. Faz lembrar o tipo de piadas que o célebre homem do café do meu bairro faz quando um cliente habitual, homossexual, lá vai almoçar: «É para comer aqui ou para levar?». E ri-se muito, muito. Ninguém (nem o «almoçadeiro») se ofende com o conteúdo da expressão, mas a piada é do mais básico que há.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sexta-feira, junho 15, 2007
Sobre barões trepadores

Reconheço. Calvino era mais um nome perdido pelo meio das filas de autores por ler. Autores, sobretudo, por comprar - parte crítica do vício dos livros na vida de um Zé Ninguém. Era-me relativamente desconhecido, até eu ler O Barão Trepador, a um preço mais acessível. Se pudesse gastar mais dinheiro num romance como deve ser, seria, provavelmente, a partir de agora, num de Calvino. Poucas vezes tenho oportunidade de ler um romance simultaneamente inteligente, trágico, bonito («bonito» é feio?), que me faça rir, e que me faça perder, verdadeiramente, a noção das horas. Há um par de anos descobri Dormir ao Sol, livro injustamente mais obscuro de Bioy Casares. Agora, Calvino. O Barão Trepador levou-me tempo a ler. Mas isso porque não queria acabar. Infelizmente, já acabei.
[João Carlos Silva]
Diz-me como acaba
Quando já tinha a corda ao pescoço, João dos Bosques ouviu um assobio entre os ramos. Ergueu o rosto. Era Cosimo, com o livro fechado.
- Diz-me como é que acaba - pediu o condenado.
- Lamento dizer-te isto, João - respondeu Cosimo -, mas Gionata acaba pendurado pelo pescoço.
- Obrigado. Assim seja comigo também! Adeus! - e ele próprio afastou o banco com o pé, ficando pendurado.
A multidão, quando o corpo acabou de se debater, dispersou. Cosimo ficou até à noite em cima da árvore, encavalitado no ramo donde pendia o enforcado. E todas as vezes que algum corvo se aproximava para bicar o nariz ou os olhos do cadáver, Cosimo enxotava-o, agitando o barrete.
Italo Calvino, O Barão Trepador
[João Carlos Silva]
- Diz-me como é que acaba - pediu o condenado.
- Lamento dizer-te isto, João - respondeu Cosimo -, mas Gionata acaba pendurado pelo pescoço.
- Obrigado. Assim seja comigo também! Adeus! - e ele próprio afastou o banco com o pé, ficando pendurado.
A multidão, quando o corpo acabou de se debater, dispersou. Cosimo ficou até à noite em cima da árvore, encavalitado no ramo donde pendia o enforcado. E todas as vezes que algum corvo se aproximava para bicar o nariz ou os olhos do cadáver, Cosimo enxotava-o, agitando o barrete.
Italo Calvino, O Barão Trepador
[João Carlos Silva]
quinta-feira, junho 14, 2007
Abismos
Esta pergunta de Karl poderia ser feita a Karl.
Se te tratam assim, porque não te vais embora?
- Franz Kafka, O Desaparecido
[Paulo Ferreira]
Se te tratam assim, porque não te vais embora?
- Franz Kafka, O Desaparecido
[Paulo Ferreira]
Karl e K.

Sobre K. e Rossman, as principais figuras de O Processo e O Desaparecido, diz-nos José Miranda Justo nas suas notas finais à sua tradução de O Desaparecido: Rossmann e K., o inocente e o culpado, finalmente ambos sem diferença castigados com a morte, o inocente com mão mais leve, mais afastado para o lado do que derrubado.
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, junho 13, 2007
Fraqueza
Há determinadas economias cujo atraso pode ser explicado por uma fraqueza puramente material: são demasiado insignificantes, os seus recursos demasiado escassos, o número de pesoas qualificadas de que dispõem por demais reduzido.
-E. J. Hobsbawm, Indústria e Império
[Paulo Ferreira]
-E. J. Hobsbawm, Indústria e Império
[Paulo Ferreira]
terça-feira, junho 12, 2007
Matisyahu
Uma desculpa para a castidade.
Aprecio Matisyahu porque é homem, judeu e não toca nas mulheres.

[Paulo Ferreira]
Aprecio Matisyahu porque é homem, judeu e não toca nas mulheres.

[Paulo Ferreira]
Doutor Klaus (uma nota sobre pavor)
O gajo dos Scorpions é, ao contrário de outros, um eterno romântico. Sofre mas não se cansa. Canta, canta, canta, e os anos passam sem que ninguém dê por isso. O gajo dos Scorpions tem um amor bonito. Cheio de melancolias, cheio de derrotas. Repare-se: passados tantos anos, ele ainda a ama ( Still Loving You). Momentos de glória são raros, como raro é o amor feliz: Moment of Glory. Enfim, o gajo dos Scorpions dá pelo nome de Klaus Meine.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Sonho
Hoje sonhei que era «torneiro-revólver» e que não sabia o que isso queria dizer.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 11, 2007
domingo, junho 10, 2007
Dia de Camões VIII
Se um dia me faltar a vista, espero ao menos que deixe cá, antes disso, uma obra como a do Camões.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões VII
Se eu fosse um blogger como deve ser, escrevia agora um post a dizer o quanto o 10 de Junho me passa ao lado. A dizer o quanto este é um dia normal. Mas como não sou um blogger como deve ser, mas sim o melhor deles todos, escrevi este.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões VI
As palavras de João Bénard da Costa ecoaram hoje pela minha casa. E devo dizer que aquela voz cavernosa, como que vinda do passado, de séculos atrás, de 1147, pôs a minha cabeça à sua mercê. Mandasse-me ele dar três pinotes no ar e eu dá-los-ia, sem questionar. A voz de Bénard da Costa, quase tanto como a sua cultura, é verdadeiramente assombrosa. Vozes destas ficam gravadas na memória como palavras escritas na pedra.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões V
Ouvir o belo discurso de João Bénard da Costa sobre Setúbal é como ouvi-lo falar de mim. Se eu, antes de morrer, pudesse escolher as palavras de uma figura pública para ouvir enquanto fechava os olhos, seriam as palavras deste excelente homem.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões IV
No dia 10 de Junho, setubalenses chamaram «cabrão» e «paneleiro» a José Sócrates enquanto este fazia sorriso de Estado.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões III
Uma jornalista da Rádio Azul de Setúbal, em directo para RTP, pergunta a Mário Lino: «quando é que pede desculpa?».
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões II
Camões só tinha um olho bom, mas no dia 10 de Junho a sua maneira de ver as coisas passa a representar a visão de todos nós.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dia de Camões I
Segundo um cronista contemporâneo mas pouco conhecido (cujas obras leio com muito gosto), Diogo do Couto e Luís Vaz de Camões conheceram-se numa viagem marítima e ficaram «muito amigos».
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quinta-feira, junho 07, 2007
A ler
O excelente post do Bruno Alves sobre as primárias republicanas e suas questões principais (questões «republicanas» e questões «americanas»).
P.S.- pessoalmente, apesar de já ter escolhido o meu modelo de candidato - o de certa maneira eclético (num claro estilo nova-iorquino), Giuliani -, reconheço que continuo curioso para ver se a nova geração de candidatos (obscuros para os europeus, claro) me surpreende pela positiva e se trazem à mesa as questões importantes, sem medo de perder os eleitores. Começo a pensar que sim.
[João Carlos Silva]
P.S.- pessoalmente, apesar de já ter escolhido o meu modelo de candidato - o de certa maneira eclético (num claro estilo nova-iorquino), Giuliani -, reconheço que continuo curioso para ver se a nova geração de candidatos (obscuros para os europeus, claro) me surpreende pela positiva e se trazem à mesa as questões importantes, sem medo de perder os eleitores. Começo a pensar que sim.
[João Carlos Silva]
terça-feira, junho 05, 2007
Zink

Rui Zink sempre foi um tipo que me gerou simpatia. Aliás, para o tipo de pessoa estranha e incomunicável que sou, até tenho um grande número de simpatias irracionais espalhadas por esse mundo fora. Sobretudo, por esse Portugal fora (é verdade mesmo, os portugueses merecem simpatia). Mas o facto de simpatizar com ele não quererá dizer, necessariamente, um elogio rasgado. Penso que Rui Zink, em muitas pessoas, gerará, à partida, simpatia. Sentimento nobre mas frouxo. Gostar de alguém sem saber muito bem porquê pode ser um insulto grave. Aliás, quando há simpatia por alguém nem vale a pena ler os livros dessa pessoa. Infelizmente, esse será o caso de Rui Zink.
Mas decidi dar uma hipótese ao homem. Ou seja, decidi ser desconfiado e achar que não devia gostar tanto dele assim, sem mais nem menos. O facto de o ter visto, durante bastante tempo, na Noite da Má Língua, e de o ter visto de cuecas em manifestações, não era razão - pensei eu - para o ter no meu imaginário como grande pensador. E então agarrei-me ao Luto Pela Felicidade dos Portugueses, livro de crónicas editado pela Sábado. Verdade seja dita, não é um livro por aí além memorável. As crónicas não são, de todo, brilhantes. E a comparação (estranhamente natural, diga-se de passagem) do seu estilo com o de Miguel Esteves Cardoso é injusta para com Zink. Isto porque, no confronto directo de qualidade, Rui Zink, para infelicidade minha, perde para Esteves Cardoso. Mas o livro não deixa de ser engraçado. E vale a pena gastar bocadinhos da tarde (ou das tardes, para quem gosta de moer por mais tempo crónicas levezinhas) com estes textos. Aliás, deixo aqui um pedaço logo da primeira página. Muito representativo do tipo de «humor-sentença» que encontrei ao longo do livro, e principal razão pela qual este vale a pena:
«Se não nos pomos a pau, ficamos cinzentos. Começamos a dizer coisas tipo «no meu tempo», o que é perigoso, porque as palavras podem ser perigosas. As palavras criam realidades. Se repetirmos muitas vezes «no meu tempo» ainda acabamos, de facto, excluídos deste tempo.»
[João Carlos Silva]
Mas decidi dar uma hipótese ao homem. Ou seja, decidi ser desconfiado e achar que não devia gostar tanto dele assim, sem mais nem menos. O facto de o ter visto, durante bastante tempo, na Noite da Má Língua, e de o ter visto de cuecas em manifestações, não era razão - pensei eu - para o ter no meu imaginário como grande pensador. E então agarrei-me ao Luto Pela Felicidade dos Portugueses, livro de crónicas editado pela Sábado. Verdade seja dita, não é um livro por aí além memorável. As crónicas não são, de todo, brilhantes. E a comparação (estranhamente natural, diga-se de passagem) do seu estilo com o de Miguel Esteves Cardoso é injusta para com Zink. Isto porque, no confronto directo de qualidade, Rui Zink, para infelicidade minha, perde para Esteves Cardoso. Mas o livro não deixa de ser engraçado. E vale a pena gastar bocadinhos da tarde (ou das tardes, para quem gosta de moer por mais tempo crónicas levezinhas) com estes textos. Aliás, deixo aqui um pedaço logo da primeira página. Muito representativo do tipo de «humor-sentença» que encontrei ao longo do livro, e principal razão pela qual este vale a pena:
«Se não nos pomos a pau, ficamos cinzentos. Começamos a dizer coisas tipo «no meu tempo», o que é perigoso, porque as palavras podem ser perigosas. As palavras criam realidades. Se repetirmos muitas vezes «no meu tempo» ainda acabamos, de facto, excluídos deste tempo.»
[João Carlos Silva]
O treino (observação ligeiramente perversa)
Claro que o atleta treinado
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
- Gonçalo M. Tavares, 1
[João Carlos Silva]
corre mais que a mulher
a fugir do violador.
Demonstra-se assim ao mundo
a importância relativa do sofrimento e do orgulho próprio
quando comparados, claro está,
com a eficácia dos músculos
da perna.
- Gonçalo M. Tavares, 1
[João Carlos Silva]
segunda-feira, junho 04, 2007
Três notas

Sam Shepard
- Faz cada vez mais sentido ler Sam Shepard. A primeira vez que tive contacto com algo do autor foi em Paris, Texas, um brilhante filme realizado por Win Wenders. Depois disso, li O Grande Sonho do Paraíso, Atravessando o Paraíso e, hoje de manhã, Loucos Por Amor (teatro). Para além de gostar do mundo dos cowboys másculos, brutos e suados, que fazem do amor uma prova de virilidade, aprecio as descrições das terras, aprecio as bestas do Texas, aprecio o pessoal que masca tabaco. Não menos importante é a sempre ausente-presente figura do pai. Em quase todas as estórias, há um pai que fez asneiras durante a sua vida, que nunca tratou bem o filho, mas que, mesmo assim, não deixa de aparecer no pensamento da «criança». Gosto dessas coisas.
- Não me apetece voltar a ler José Saramago nas próximas semanas. Gostei de As Intermitências da Morte, gostei do Evangelho Segundo Jesus Cristo, gostei do Memorial do Convento, gostei de O Ano da Morte de Ricardo Reis, adorei o Ensaio Sobre a Cegueira. Foi uma maçada ler Ensaio Sobre a Lucidez. Para além de considerar que o «objectivo» político da obra, apesar de ser louvável (porque pertence ao domínio da desilusão e do pessimismo), peca por não ter qualquer tipo de conteúdo (o voto em branco, blá, blá, etc.), penso que a ideia de pegar na «cegueira branca» do Ensaio sobre a Cegueira e desenvolver um fim de narrativa que fosse uma espécie de desenvolvimento desse mesmo livro, tornou a acção um tanto ou quanto parada. Aborrecida.
- Luto Pela Felicidade dos Portugueses é um livro de crónicas engraçado. Mas, definitivamente, Rui Zink não é o Miguel Esteves Cardoso dos lavagantes e da vodka diária.
[Paulo Ferreira]
António Costa & Manuel Pinho
António Costa:
Ex-ministro da Administração Interna. Rigor. Isenção. António Costa pareceu um ministro do Interior, ou dos Internos, uma espécie de agente da FBI. Secretismo. Presumo que, no momento de assumir a «pasta», Costa pensou: Administração Interna, hum, deixa cá ver, tenho de ser secreto, misterioso. E foi. Escondido.
Manuel Pinho:
Divertido, jovial. É ministro da Economia, logo, deve ser um optimista por excelência. É obrigado a ter cara de vai-tudo-correr-pelo-melhor nas piores alturas. É moderno. É jovem. Fuma em frente a jornalistas. Se fosse ministro das Finanças, não poderia fumar. Não poderia dar sinais de desleixo. Porém, Pinho é ministro da Economia e, como tal, pode ter uns pequenos luxos. Um vinho, umas coisas.Se pertencesse à finança, não podia. Contas, matemática, rigor. Manuel Pinho é Pepsodent.Não faz equações.
[Paulo Ferreira]
Ex-ministro da Administração Interna. Rigor. Isenção. António Costa pareceu um ministro do Interior, ou dos Internos, uma espécie de agente da FBI. Secretismo. Presumo que, no momento de assumir a «pasta», Costa pensou: Administração Interna, hum, deixa cá ver, tenho de ser secreto, misterioso. E foi. Escondido.
Manuel Pinho:
Divertido, jovial. É ministro da Economia, logo, deve ser um optimista por excelência. É obrigado a ter cara de vai-tudo-correr-pelo-melhor nas piores alturas. É moderno. É jovem. Fuma em frente a jornalistas. Se fosse ministro das Finanças, não poderia fumar. Não poderia dar sinais de desleixo. Porém, Pinho é ministro da Economia e, como tal, pode ter uns pequenos luxos. Um vinho, umas coisas.Se pertencesse à finança, não podia. Contas, matemática, rigor. Manuel Pinho é Pepsodent.Não faz equações.
[Paulo Ferreira]
sábado, junho 02, 2007
Estranhas ligações
Curiosidade: saber que Cristiano Ronaldo se chama assim porque o seu pai gostava muito do Ronald Reagan.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Ah, mentes conservadoras!
«Trying is the first step towards failure.»
- Homer Simpson
[João Carlos Silva]
- Homer Simpson
[João Carlos Silva]
Livro
Porque é que as visitas à Feira do Livro de Lisboa têm de ser todos os anos uma espécie de romaria a Fátima sem santos? É que fé dos livros não levanta corpos imobilizados do chão, como acontece nas sessões da IURD.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
António Costa & John Bon Jovi

Pouco sei sobre António Costa. Nada sobre a sua figura sei. É um homem de rigor. Dizem. Os próprios cartazes propagandísticos dizem «Rigor». Do primeiro-ministro, a mesma coisa. Pouco sobre ele sei. Provavelmente, muitas das coisas que sobre ele se contam são mentira, ou exageradas. No entanto, conhece-se o rigor de José Sócrates. A cara séria de quem não admite afrontas. A histeria a defender a honra. Ideias louváveis: nenhuma. É moderno, é sério, é rigoroso. Correu no calçadão e no Kremlin. Leu, presumo, alguns livros. Gostaria, aliás, de conhecer um pouco melhor as leituras do primeiro-ministro. E as de António Costa.

John Bon Jovi tem uma coisa curiosa. Não vive amores que correram mal para o seu lado. Isto, apesar de ser um viciado no amor. Ain't no cure for love. Não há remédio. Um ser normal, por vezes, fica com o coração em frangalhos. John, definitivamente, não é desses. Se sofre, é por pouco tempo. É para ficar melhor do que estava. Do género: «amor, o destino é amar e o meu caminho é partir.» Depois,os amores de John são profundos. I don't need nothing when I'm by your side. Elas precisam dele. É um grande amante. She needs me, pleads me. Vida curtida ao máximo. Don't Leave Me Tonight. Ou seja, John Bon Jovi é um músico que se interessa pela música para fazer o Amor. Um Amor divertido, alegre, melancólico, sempre para melhor.
[Paulo Ferreira]
EPC
Nem sempre aprecio o tom e o estilo de Eduardo Prado Coelho. Porém, como simpatizo com o senhor, recomendo a leitura da entrevista que lhe foi feita por Carlos Vaz Marques para a revista «Única». Aqui fica um excerto:
É um desejo do tempo em que queria casar com a Jacqueline Bisset...
Não era casar. Era conhecer. Conhecer no sentido mais amplo do termo.
No sentido bíblico.
Devo dizer que me surgiu a Jacqueline Bisset como me poderia ter surgido a Michelle Pfeiffer.
[Paulo Ferreira]
É um desejo do tempo em que queria casar com a Jacqueline Bisset...
Não era casar. Era conhecer. Conhecer no sentido mais amplo do termo.
No sentido bíblico.
Devo dizer que me surgiu a Jacqueline Bisset como me poderia ter surgido a Michelle Pfeiffer.
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, junho 01, 2007
Citação
Estava para aqui deixar um poema de Szymborska, no entanto, por me sentir extremamente cansado, fico-me pelo Marco Borges (Big Brother).
Não sei o que procura aquela gaja, mas não leva mais abébias.
[Paulo Ferreira]
Não sei o que procura aquela gaja, mas não leva mais abébias.
[Paulo Ferreira]
Nota sobre Fernando Negrão
Começo por dizer que não poso votar em Fernando Negrão, já que pertenço a uma câmara de ciganos (literalmente). Não deixo, no entanto, de dizer o seguinte: votar em Negrão é perder com a cabeça descansada.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Feira do Livro
Não apetecia ir ao Parque Eduardo VII mas lá fui. Como esperava, encontrei tudo na mesma. Livros caros, livros maus, pessoas a mais. Mesmo assim, aproveitei e trouxe alguns convidados para jantar. Beckett e o seu Malone vieram. Sam Shepard, Lewis Carrol, Isahia Berlin e Wisława Szymborska também vieram.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fumar
Hoje fumei um cigarro. Provavelmente, amanhã pouco mais fumarei do que um cigarro. Nos dias que se seguirão, o mesmo. Um, dois, três cigarros. Deixarei de fumar. No entanto, essa ideia que me deveria deixar tão contente, preocupa-me. É que a cefaleia vai ocupando o espaço deixado cada vez mais em aberto pelo cigarro. Passa um dia e a dor remói, perfura, enoja. Parece uma cura. É uma cura. Até deixar de ser cura.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 30, 2007
Fugitivo
- Nunca te deixes apanhar;
- Esconde-te num local onde não te consigam encontrar;
- Não te deixes ver;
- Não fales;
- Não sorrias;
- Tenta manter uma postura séria, de indiferença;
- Nada de regressos.
[Paulo Ferreira]
- Esconde-te num local onde não te consigam encontrar;
- Não te deixes ver;
- Não fales;
- Não sorrias;
- Tenta manter uma postura séria, de indiferença;
- Nada de regressos.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, maio 29, 2007
A cara da derrota
Para quem anda atento aos cartazes que enfeitam as cidades de Lisboa e do distrito de Setúbal terá reparado em dois cartazes específicos. Comum aos dois? São ambos da autoria dos senhores do PSD e da JSD, respectivamente. Se o que pode ser encontrado na margem Sul do Tejo (assinado «jsdsetubal»), mostrando um camelo num deserto como o epitáfio de Ministério das Obras Públicas - onde, supostamente e sugestivamente, estará o único camelo - é de um humor cabotino e exageradamente infantil, o primeiro, de Lisboa, é a epifania da derrota. Em Lisboa, multiplicam-se agora alguns cartazes de Fernando Negrão, candidato do PSD à Câmara de Lisboa. No entanto, não poderia ser pior o cartaz do homem. Face à cara decidida, vivaça e marota de António Costa, e partindo de uma óbvia desvantagem, Negrão entregou-se à sapiência dos mestres da publicidade do PSD, que o levarão à humilhação. Com uma cara tristonha e chorosa, não podia parecer mais derrotado. Lembrando Droopy, o cão melancólico e quase inexpressivo dos desenhos animados da Hanna Barbera, parte para o combate sem um pingo de determinação. Se a derrota tivesse cara, seria a cara de Fernando Negrão nos cartazes de Lisboa.

[João Carlos Silva]

[João Carlos Silva]
sábado, maio 26, 2007
Parabéns

Parabéns ao John Wayne, que faz 100 anos. Durante a maior parte da minha vida, achava John Wayne um actor ridículo. Pesadão, inexpressivo, monocórdico, demasiado castiço para ser verdade. Quando largava frases fortes (ou melhor, «curtas e grossas», como ele prvavelmente diria se fosse português), eu tinha vontade de rir, pela aparente caricatura que seria um homem assim - um actor assim - tentar ser «sério».
Com o tempo, e com a aproximação da minha condição de macho dominante, digo, de homem adulto, Wayne surgiu aos meus olhos de forma algo diferente. Apercebi-me que ele era o ídolo de todos os homens. Aquele que todos os homens quereriam ser, mais tarde ou mais cedo, numa ou noutra altura, mesmo sem realmente quererem ser como ele, ou ser ele. Qualquer homem que se preze sabe que dentro de si há uma natureza mais animal, mais primitiva, de ser visto como «macho», como o homem que a todos guarda, que lidera e protege o seu grupo nas migrações pela selva. John Wayne simboliza essa vontade escondida. A «personagem» que deu ao mundo, e que simbolizava a sua própria noção dessa natureza primitiva, confundiu-se com o homem. Em parte, talvez se tenha, de facto, tornado o homem. Cá no fundo, penso que todos nós, em algum dia das nossas vidas, já quisemos ou quereremos ser um pouco como John Wayne. O próprio cinema viveu dele, viveu disso, durante muito tempo. E viveu bem, diga-se de passagem.
Parabéns ao John Wayne, que faz 100 anos. Se o virem na rua, se o virem por aí, dêem-lhe um valente aperto de mão, que o homem bem merece.
[João Carlos Silva]
sexta-feira, maio 25, 2007
Essencial:
- Avril Lavigne fez topless para a Blender;
-Jenna Jameson apoia essa espécie de Virginia Wolf que dá pelo nome de Hillary Clinton;
- Romário, após marcar o seu golo número mil, festejou durante quinze minutos. Só depois dos festejos é que o jogo recomeçou.
- Michael Moore foi aplaudido em Cannes. Pediu-se encore.

[Paulo Ferreira]
-Jenna Jameson apoia essa espécie de Virginia Wolf que dá pelo nome de Hillary Clinton;
- Romário, após marcar o seu golo número mil, festejou durante quinze minutos. Só depois dos festejos é que o jogo recomeçou.
- Michael Moore foi aplaudido em Cannes. Pediu-se encore.

[Paulo Ferreira]
quinta-feira, maio 24, 2007
Manutenção da credibilidade masculina (notas)
- Lançar um foguete sem perder a mão que o lançou;
- Não pagar pensando nervosamente no troco;
- Entrar no táxi sem olhar para o taxímetro;
- Vestir t-shirt quando não é exigida camisa;
- Oferecer flores à namorada em momentos de não-desconfiança;
- Sobreviver à falta de dinheiro sem parecer um porco;
- Etc.
[Paulo Ferreira]
- Não pagar pensando nervosamente no troco;
- Entrar no táxi sem olhar para o taxímetro;
- Vestir t-shirt quando não é exigida camisa;
- Oferecer flores à namorada em momentos de não-desconfiança;
- Sobreviver à falta de dinheiro sem parecer um porco;
- Etc.
[Paulo Ferreira]
Que venha mais um...
O Insónia faz dois anos. Parabéns.
Alguém veio aqui parar com esta busca no Google: «vídeo mostra como se mostra a romper uma cona». Sem comentários.
- Henrique Fialho
[Paulo Ferreira]
Alguém veio aqui parar com esta busca no Google: «vídeo mostra como se mostra a romper uma cona». Sem comentários.
- Henrique Fialho
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 23, 2007
Amor sem fronteiras
«Não entra no nosso país de pedra», disse o soldado ao romântico escritor.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, maio 21, 2007
O salto
Nas imagens, enquadrando os pitorescos barcos em que, outrora, se transportavam as pipas do vinho, uma ponte de ferro, alta e bonita - um sítio belo para se morrer, pensou. E por isso veio: para o grande salto que lhe lavará a honra.
- Manuel Jorge Marmelo, O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo
[João Carlos Silva]
- Manuel Jorge Marmelo, O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo
[João Carlos Silva]
O direito a existir
Neste mundo, tal como existe, o importante não consiste em eu trabalhar, mas sim em conseguir arranjar dinheiro. Um homem sem rendimentos é como uma pessoa sem nome ou como sombras sem corpos.
Dá a impressão de que somos fantasmas. E isto em nada contradiz o que acima escrevi. Não sinto escrúpulos por não fazer nada. Escrúpulos tenho por a minha inactividade não me gerar rendimentos enquanto outros há que nada fazem e são muito bem pagos. Só o dinheiro justifica o direito a existir.
- Joseph Roth, Fuga sem Fim
[João Carlos Silva]
Dá a impressão de que somos fantasmas. E isto em nada contradiz o que acima escrevi. Não sinto escrúpulos por não fazer nada. Escrúpulos tenho por a minha inactividade não me gerar rendimentos enquanto outros há que nada fazem e são muito bem pagos. Só o dinheiro justifica o direito a existir.
- Joseph Roth, Fuga sem Fim
[João Carlos Silva]
Imperialismo bondoso
Nuno Rogeiro, na Sábado, diz que Portugal, «mesmo no auge do império», nunca teve «imperialismo armado» e que as batalhas celebradas em Portugal são, na maioria das vezes, «conflitos de resistência». Sendo talvez interessante e verdadeira esta segunda afirmação (curiosamente, nunca tinha pensado nisso), a primeira já deixa algo a desejar, muitas pontas soltas. Na verdade, e tendo em conta a área de especialização de Nuno Rogeiro, até poderá parecer algo irresponsável que diga que Portugal tinha um imperialismo, digamos, «benevolente». Se é esse o objectivo da frase, então Rogeiro está - humildemente constato - redondamente enganado. Infelizmente para o autor da afirmação, que muito aprecio. É que esquecer que, depois de Vasco da Gama, a Índia foi «descoberta» a ferro e fogo - sobretudo com Afonso de Albuquerque - é pôr luvinhas brancas de seda nas rudes mãos dos lusitanos. Os brandos costumes da nossa história não eliminam o verdadeiro carácter das coisas.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
domingo, maio 20, 2007
Do gostar
Chamo-me Antonieta e não sei falar. Mas gosto de ti. Queres casar comigo?
- Manuel Jorge Marmelo, O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo
[Paulo Ferreira]
- Manuel Jorge Marmelo, O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo
[Paulo Ferreira]
sábado, maio 19, 2007
Cegueira
Naquela noite o cego sonhou que estava cego.
- José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira
[Paulo Ferreira]
- José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, maio 18, 2007
O conde
Gomes Eanes de Zurara, na Crónica do Dom Duarte de Meneses, acha o estilo e coloca as palavras: «depois da chegada dos infantes ao cerco de tanger se acoutou a dor no conde tanto per que conheceo em sy sinaaes de fallicimento.» Imagino: D. Duarte de Meneses, sentindo a dor em si, começou a deixar-se falecer.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 16, 2007
terça-feira, maio 15, 2007
Notion of city
The dangers of «a notion of city» about Lisbon, according to Bruno Alves: «se de Pombais modernos está Lisboa cheia, e a autarquia em particular, pena é que o que a cidade precisa é de menos megalomania e um pouco mais de sensatez. De menos "ideias de cidade" que apenas escondem a vaidade (normalmente injustificada) do seu autor, e de mais atenção aos problemas que afectam a Câmara, e que desde logo a impedem de dar atenção aos problemas que afectam os lisboetas». Read more.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Irreversibilidade
Irreversibilidade é tomar consciência, depois de uma peladinha de futebol, de que o fôlego não voltará a ser melhor do que é. De que os músculos das pernas não voltarão a aguentar tudo. De que a bola de futebol correrá cada vez mais depressa do que eu. Irreversibilidade é isso tudo, é estar longe no tempo de algo. A «prova dos nove» de jogar um jogo de futebol é a mais cruel de todas.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
segunda-feira, maio 14, 2007
A revolucionária
Permaneceu acordada, controlando os seus prazeres, como um poste suporta os ruídos nocturnos. O amor carnal era uma exigência da natureza. Para Natacha o amor era quase uma obrigação revolucionária - sempre que fazia amor ficava com a consciência tranquila.
- Joseph Roth, Fuga sem Fim
[João Carlos Silva]
- Joseph Roth, Fuga sem Fim
[João Carlos Silva]
Ponto de vista
«Do ponto de vista emocional, este tem sido o dia mais significativo.»
- Jornalista da Sic sobre os pais de uma criança desaparecida
[Paulo Ferreira]
- Jornalista da Sic sobre os pais de uma criança desaparecida
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, maio 10, 2007
Silêncio
É difícil viver com as pessoas, porque é tão difícil o silêncio.
- F. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra
[Paulo Ferreira]
- F. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra
[Paulo Ferreira]
Ser e não ser
Tu dançavas, eu não. Tu eras da tarde, eu da manhã. Tu eras de sorrisos, eu de chorar. Tu eras de pensar no mundo, eu não. Eu não.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Ilusão
Não nos iludamos, não percamos tempo a pensar em países da cocanha: eu não amo o Outro, tu não me amas.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fácil
Seria fácil sentir apenas uma pontada nas costas quando alguém nos abandona. Porém, quando alguém nos deixa, nem das costas nos lembramos.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 09, 2007
O Cubo e a Catedral
Admito que não sou católico. Nem praticante nem devoto ao vício de submissão ao Senhor. Mas o argumento que George Weigel defende em The Cube and the Cathedral é, de facto, inegável. Weigel põe-nos à frente da cara a evidência: a Europa, os valores europeus, a «civilização» europeia, enfim, o modo de vida europeu e ocidental tal como o conhecemos, estão em risco. Não por vir aí uma vaga de terroristas muçulmanos armados, não porque «a guerra de Bush e seus lacaios» - ou, como diz o dr. Soares, a guerra «dos néo-cõs» - destruíu valores ocidentais, nem porque Sarkozy ganhou na Europa (perdoem-me a piada, até porque o livro é bem anterior). Não. Weigel vai a um ponto mais simples: a Europa está em crise porque «os europeus» (termo que me custa a dizer) não acreditam em Deus.Ora, perante uma imigração muçulmana (de fé muçulmana, refira-se), e sua «reprodução» dentro de países europeus, os velhos habitantes do Velho Continente resolveram abandonar as suas crenças, ou seja, aquilo que os protegia face a uma possível imposição de «valores incontornáveis» dentro das culturas imigrantes. Escolhendo a laicidade, os europeus abdicaram das «armas» que tinham para combater - de forma pacífica, deve-se dizer para descansar as almas - crenças e costumes que podem, de facto, ameaçar o modo de vida ocidental. Num ponto de vista pessoal, nao tenho dúvidas que irão ameaçar cada vez mais nestas próximas décadas, sobretudo em França.
Embora não partilhe do optimismo cristão de Weigel, e da sua crítica demolidora ao «humanismo ateístico», concordo particularmente com a sua visão (apesar de tudo, serena) dos desafios que a Europa e, em menor grau, a América, terão de passar nos próximos tempos. A escolher uma aliada para esses desafios, que seja a religião católica, fundadora da moral felizmente saudável que todos nós temos e que ainda nos trava, por um pouco, a mão de chegar às armas. Seja contra o laicismo da UE ou contra os grupos organizados que agitam bandeiras de Alá, é a aliança recomendável.
[João Carlos Silva]
Pornografia
Muitas das gravações eram filmes eróticos que, observava António, pareciam eivados de terror metafísico. Rostos avermelhados escancaravam os olhos, grandes sexos pendiam entre coxas de velhos prestes a desfazer-se, e as mulheres jaziam, com falsas tatuagens a que o calor do estúdio derretia os contornos, e abriam as vulvas que ofereciam a cor de carne retalhada.
E António Eliseu, que sempre tinha achado ser a pornografia um recurso menor para pobres solitários, via-se a partilhar com os outros a atenção, o olhar gelado, severo, com que todos seguiam a tormenta dos corpos, a sua dança obscena e tão desesperada, essa aflita matéria uivante e só.
- Hélia Correia, Soma
[João Carlos Silva]
E António Eliseu, que sempre tinha achado ser a pornografia um recurso menor para pobres solitários, via-se a partilhar com os outros a atenção, o olhar gelado, severo, com que todos seguiam a tormenta dos corpos, a sua dança obscena e tão desesperada, essa aflita matéria uivante e só.
- Hélia Correia, Soma
[João Carlos Silva]
segunda-feira, maio 07, 2007
sexta-feira, maio 04, 2007
Guardar 3
Geme o que quiseres, transpira o que quiseres, faz o que quiseres. Aquele que guarda não se importa com tempestades.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, maio 03, 2007
quarta-feira, maio 02, 2007
Regência
No amor, não há reinados no presente mas sim no passado. Há o reinado de Pedro no coração de Margarida. Posteriormente, virá António reinar no coração de Margarida. Não há reinados no presente. No entanto, podemos falar em regências. És regente deste coração neste preciso momento.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Desgraçado
Quando te sentires desgraçado, lembra-te de quem te fez sentir desgraçado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Esmola
Se te pedirem uma esmola, desconfia. Há quem goste excessivamente de acumular esmolas.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Ouvir dizer
Quando me disseram que era demasiado pessimista, fiquei contente e sozinho.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Amor
Quando descascas um tremoço, não pensas que anulaste as defesas do aperitivo. Pensas que vais engolir um tremoço. Pois bem, quando te apaixonas não tens a noção de brutalidade.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Neutralidade
A neutralidade não existe. A isenção não existe. Nunca serás neutro ou isento.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, maio 01, 2007
Portas e o «um para um»
Do Desesperada Esperança, do meu caro amigo Bruno Alves, parte outra farpa em direcção ao novo líder do CDS/PP. Que o Bruno não gosta de Paulo Portas já toda a gente sabe, mas que ele gosta tão pouco do homem e da sua «reentrada» (de facto, um falso regresso encenado) não tinha consciência.
Paulo Portas irrita, sobretudo, aquelas pessoas que têm a mania de que o universo da política é um universo de ideias. Um universo de engenheiros e juristas. O problema é precisamente esse: a política é a Política. Isso mesmo, com letra maiúscula. Só assim se compreende que, por exemplo, José Pacheco Pereira, detentor de uma presciência respeitável e mais ou menos certeira, não tenha lugar no mundo da política. Que homens de negócios de «sucesso», como António Borges, tenham tentado entrar no mundo da política de malas e bagagens ideológicas - no caso de Borges, uma sacrossanta cartilha liberal que não teve em conta o país em que vivemos - e falhado redondamente antes mesmo de começar. Só assim se entende que Paulo Portas, sem nunca ter uma ideologia fixa, um princípio orientador, continue a ter os argumentos para vencer. Erra, por isso, o Bruno ao avisar que «a retórica apaixonada [de Portas] apenas esconde a falta de cuidado e atenção aos aspectos mais àridos do debate político, logo por azar, os que realmente afectam a vida das pessoas». Portas não está na política para ajudar ninguém. Está lá para vencer batalhas de oratória. Para convencer sem argumentos. Para demolir a oposição e abrir caminho às ideias e soluções que outros trarão. Em linguagem futebolística, dir-se-ia que está «condenado» à missão do «um para um», sempre mais espectacular e visível, sem grande utilidade para a equipa mas capaz de virar o rumo de um jogo de futebol.
Os debates no Parlamento não servem apenas para comparar números. José Sócrates, apesar de parvo, não é estúpido. E a estratégia das «folhinhas A4 na mão», lançando para o ar números e cálculos (de relatórios e «estudos» oficiais do Governo) funciona muito bem. Não é por aí que cairá este governo. O governo cairá fazendo Sócrates tropeçar na sua própria retórica, no seu próprio moralismo. Trocando os pés por desatenção ou por incoerência, como já aconteceu (e está a acontecer) no caso da Universidade Independente. «Fight fire with fire», diz-se. E quem melhor do que Portas para isso? Ninguém lhe pedirá nunca contas, e é por isso que deve ficar eternamente na oposição. Sem dúvida, para seu desprazer. A vozinha irritante de Portas pode, de facto, derrubar governos. Ou, pelo menos, cansá-los. Com o cansaço, as incoerências surgem à tona.
A política é, por isso, uma arte, um universo da retórica, em que vencem aqueles que convencem, mas, sobretudo, vencem aqueles que perdem em grande estilo. Portas é um daqueles homens que, porque «vivem, de facto, da política», cairão sempre com um berro, como o Mel Gibson do Braveheart. Um grito vazio de conteúdo mas com uma forma muito inspiradora. No filme, resultava. No nosso mundo, é possível que seja muito útil à oposição. O Bruno esquece-se disso.

[João Carlos Silva]
Paulo Portas irrita, sobretudo, aquelas pessoas que têm a mania de que o universo da política é um universo de ideias. Um universo de engenheiros e juristas. O problema é precisamente esse: a política é a Política. Isso mesmo, com letra maiúscula. Só assim se compreende que, por exemplo, José Pacheco Pereira, detentor de uma presciência respeitável e mais ou menos certeira, não tenha lugar no mundo da política. Que homens de negócios de «sucesso», como António Borges, tenham tentado entrar no mundo da política de malas e bagagens ideológicas - no caso de Borges, uma sacrossanta cartilha liberal que não teve em conta o país em que vivemos - e falhado redondamente antes mesmo de começar. Só assim se entende que Paulo Portas, sem nunca ter uma ideologia fixa, um princípio orientador, continue a ter os argumentos para vencer. Erra, por isso, o Bruno ao avisar que «a retórica apaixonada [de Portas] apenas esconde a falta de cuidado e atenção aos aspectos mais àridos do debate político, logo por azar, os que realmente afectam a vida das pessoas». Portas não está na política para ajudar ninguém. Está lá para vencer batalhas de oratória. Para convencer sem argumentos. Para demolir a oposição e abrir caminho às ideias e soluções que outros trarão. Em linguagem futebolística, dir-se-ia que está «condenado» à missão do «um para um», sempre mais espectacular e visível, sem grande utilidade para a equipa mas capaz de virar o rumo de um jogo de futebol.
Os debates no Parlamento não servem apenas para comparar números. José Sócrates, apesar de parvo, não é estúpido. E a estratégia das «folhinhas A4 na mão», lançando para o ar números e cálculos (de relatórios e «estudos» oficiais do Governo) funciona muito bem. Não é por aí que cairá este governo. O governo cairá fazendo Sócrates tropeçar na sua própria retórica, no seu próprio moralismo. Trocando os pés por desatenção ou por incoerência, como já aconteceu (e está a acontecer) no caso da Universidade Independente. «Fight fire with fire», diz-se. E quem melhor do que Portas para isso? Ninguém lhe pedirá nunca contas, e é por isso que deve ficar eternamente na oposição. Sem dúvida, para seu desprazer. A vozinha irritante de Portas pode, de facto, derrubar governos. Ou, pelo menos, cansá-los. Com o cansaço, as incoerências surgem à tona.
A política é, por isso, uma arte, um universo da retórica, em que vencem aqueles que convencem, mas, sobretudo, vencem aqueles que perdem em grande estilo. Portas é um daqueles homens que, porque «vivem, de facto, da política», cairão sempre com um berro, como o Mel Gibson do Braveheart. Um grito vazio de conteúdo mas com uma forma muito inspiradora. No filme, resultava. No nosso mundo, é possível que seja muito útil à oposição. O Bruno esquece-se disso.

[João Carlos Silva]
O essencial nunca se altera
ESTRAGON Olha para isto. (...) É engraçado que quanto mais como pior me sabe.
VLADIMIR Comigo é exactamente ao contrário.
ESTRAGON Ou seja?
VLADIMIR À medida que como vou-me habituando ao gosto.
ESTRAGON (...) E isso é o contrário?
VLADIMIR Uma questão de temperamento.
ESTRAGON De personalidade.
VLADIMIR Não podes fazer nada.
ESTRAGON É inútil resistir.
VLADIMIR Cada um é o que é.
ESTRAGON É inútil fugir.
VLADIMIR O essencial nunca se altera.
- Samuel Beckett, À Espera de Godot
[João Carlos Silva]
VLADIMIR Comigo é exactamente ao contrário.
ESTRAGON Ou seja?
VLADIMIR À medida que como vou-me habituando ao gosto.
ESTRAGON (...) E isso é o contrário?
VLADIMIR Uma questão de temperamento.
ESTRAGON De personalidade.
VLADIMIR Não podes fazer nada.
ESTRAGON É inútil resistir.
VLADIMIR Cada um é o que é.
ESTRAGON É inútil fugir.
VLADIMIR O essencial nunca se altera.
- Samuel Beckett, À Espera de Godot
[João Carlos Silva]
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