terça-feira, julho 31, 2007

Putas

A misoginia de Pavese é preocupante para um dos seus leitores. Ora, mas se um homem é fraco ao ponto de se dar com putas, o que se pode fazer?

[Paulo Ferreira]

Apagão

Presumo que toda esta falta de pensamento seja geral.

[Paulo Ferreira]

Calor

Calculo que os homens casados, no Verão, devam viver com a cabeça feita em água.

[Paulo Ferreira]

Amizade

O problema da amizade é que somos homens.

[Paulo Ferreira]

sábado, julho 28, 2007

Viver no Verão

Com este calor, o meu primeiro pensamento, de manhã ao sair de casa, evoca um velho título de Pedro Paixão: viver todos os dias cansa.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, julho 25, 2007

Adeus, Princesa


Há livros que dão inveja a quem escreve. Adeus, Princesa, de Clara Pinto Correia, é um desses livros. Parece lugar-comum afirmar uma coisa destas - e talvez seja - mas é inevitável: não abundam romances como este nas livrarias portuguesas.

Para começar, temos Joaquim Peixoto, um estagiário da revista Actualidades que é incumbido de ir para Baleizão, uma pequena aldeia alentejana, fazer uma reportagem sobre a morte de um alemão. É a primeira reportagem deste estagiário pouco convicto, que não gosta de falar com pessoas. A morte do mecânico Helmut Schneider, um alemão de vinte e três anos em serviço na Base Aérea da Nato, na estrada que vem de Ferreira, parece estranha. Foi encontrado morto com a cabeça enfiada num tubo de escape de um automóvel que lhe pertencia. Desconfia-se de assassinato. A principal suspeita é Maria Vitória (Mitó), uma miúda de dezoito anos que, fora do seu juízo, confessa que matou o namorado quando este a tentara violar. O primeiro trabalho de Joaquim Peixoto será, portanto, um trabalho de investigação. Será que a rapariga matou realmente o namorado?

Mitó, feia e franzina, é irmã de uma bonita e atraente Vitória Maria, que em tudo lhe é diferente. É bela, desejada, bem-comportada. Mitó não tem ponta por onde se pegue. Além disso, não tem tino. Põe-se na droga. Põe-se com os homens. É má na escola. O pai destas duas irmãs tem o nome de Bernardo Formosinho Rosado e é, como bom homem alentejano do período pós-revolucionário, dirigente do Centro de Trabalho do Partido Comunista Português de Baleizão. É um bom homem. Trabalhador, sincero, honesto, humilde. Perfil soviético. Fica desfeito quando sabe que Mitó era vista nas discotecas e nos bares da região com o mecânico mas, mesmo assim, defende a filha (que só lhe dá desgostos).

O estagiário ao qual compete a tarefa de fazer a reportagem sobre a estranha morte de Helmut, o pobre Joaquim Peixoto, para além de ser pouco convicto e de não gostar de falar, não aprecia os prazeres da mesa e odeia mulheres. «Odiava-as a todas, pronto. Odeio as mulheres.»(p.145) O seu ódio pelas mulheres, porém, não se deve a uma qualquer falta de desejo pelo sexo oposto. Deve-se antes a um sentimento de humilhação que elas lhe dão. Parece que nunca teria hipóteses com nenhuma. Repare-se: «Nessa altura, Joaquim Peixoto tinha já perfeitamente interiorizada a sua triste condição de eterno vencido, e como tal nunca ousaria tentar nem o mais inocente dos avanços.» (p.19) A descoberta de uma resolução para o caso do «alemanito» parece demasiado difícil para tão nublado pretendente a repórter. Sabe-se, no entanto, que não foi Mitó a matar Helmut. Ela bem o queria ter desfeito. E arrepende-se por não ter sido ela a criminosa. Sobre o alemão, sabemos que é da raça nazi, um sujeito da pior espécie. Era um cabresto. Merecia morrer. Refira-se, todavia, que Mitó vivia embevecida com o rapaz que morreu com a boca no escape do seu Ford Escort. Ele é que a tratava mal. Na noite da sua morte, Helmut tratou Mitó especialmente mal. Fez cenas de ciúmes ao vê-la dançando com outros homens. Já depois das quatro da manhã, o casal briga fora da discoteca. Helmut leva uma pancada. Mitó, porém, de nada se lembra. Esta é a versão que fica para a posteridade. Sebastião Curto, amigo de Peixoto, tem uma história diferente: foi a namorada que o matou, foi Mitó. A confissão da rapariga era verdadeira e não loucura, como defendiam o pai e toda a gente. Só que, por interesses corporativos de muita gente associada à rapariga, calhava bem que os culpados ficassem a ser os contrabandistas que assolavam as estradas alentejanas.

Este romance policial, pelo que se viu, não vale tanto pelo desfecho da narrativa mas sim por tudo o que o rodeia. Vale, essencialmente, por Joaquim Peixoto, um homem condenado a não ser jornalista. Quando regressou a Lisboa, a sua reportagem não teve qualquer tipo de sucesso, nem sequer apareceu assinada. Foi aconselhado a ir para Direito, a mudar de carreira. A única coisa que lhe valeu foi o namoro com a dactilógrafa do Centro de Saúde de Baleizão, que, após recusar o rapaz por tantas vezes, vai atrás dele para Lisboa. Um excelente desfecho para os dois, aliás.

Adeus, Princesa, não se contentando com o facto de ser um dos melhores romances publicados em português na década de oitenta, oferece ao leitor uma visão muito bem cuidada daquilo que se passava no Alentejo da reforma agrária, especialmente, quando falamos em quadros mentais. Assim, Baleizão, como qualquer outra aldeia da região, é propícia ao fechamento mental, a opressão é enorme. Todos sabem da vida de cada um. Mitó era frequentemente vista na má vida. Era o estigma da droga (haxixe), do início de uma forma de vida até então desconhecida. Mulheres na noite a frequentarem bares com nome estrangeiro (John Player). Vive-se no medo. Os jovens são criticados pelos autóctones. Não fazem nada. Não querem trabalhar. São ociosos. Pertencem, enfim, a um contexto «rasca». Do ponto de vista social, esta é uma obra muito bem trabalhada. Até do ponto de vista da linguagem das personagens se reflecte o cuidado da autora. As falas coloquiais são muito bem captadas. Não raras são as aparições de expressões como «moinante» ou «bezana». Os alentejanos falam como provincianos. Os revolucionários falam como revolucionários. Cada um dentro do seu estilo.

Como nota final, poder-se-ia argumentar que Adeus, Princesa é um livro que segue uma orientação mais humorística do que negra, ao estilo de um Rubem Fonseca. E não perde com essa inclinação para o humor. Nada mesmo. Só ganha. Por outro lado, se explora as realidades sociais do Alentejo, é para as criticar, para as usar num tom parodiante e muito pouco ligado a realidades partidárias. É com descomprometimento e erudição que Clara Pinto Correia escreve.

Com quase tudo dito, acabo por pegar nas palavras de Helmut. Au Wiederzehen, Prizessin.

[Paulo Ferreira]

Sexo em tudo

É um problema muito grande veres sexo em tudo porque presumes que nem toda a gente veja sexo em tudo.

[Paulo Ferreira]

Carroça

Se tens pressa, não andes de carroça. Se só tiveres uma carroça, não tenhas pressa.

[Paulo Ferreira]

Pó 2

Um sujeito foi tratado como se fosse pó. Desapareceu com uma limpeza.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, julho 24, 2007

Comes tanto pó ao longo dos anos que, quando te aparece algo puro para provares, sabe-te ao mesmo.

[Paulo Ferreira]

Esperança

A derrota não implica eternidade.

[Paulo Ferreira]

Chocolate

Foi por isto que sempre gostei de vir aos blogues. Enfim, pelo chocolate quente.

[Paulo Ferreira]

Perfume

Já na cama, formulou com relativa lucidez (péssimo sintoma para o acordado): «Cheguei a uma altura da vida em que o cansaço não serve para dormir e o sono não serve para descansar.»

- Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos

[Paulo Ferreira]

Bioy Casares

Após a leitura de Diário da Guerra aos Porcos, posso garantir que já li tudo o que existe de Bioy Casares na nossa língua. Faço essa afirmação com orgulho. Bioy Casares é um grande escritor, provavelmente, é um dos meus cinco escritores preferidos. Logo, é óbvio que sinto um grande orgulho por ter lido duzentas e quarenta e poucas páginas num dia. O melhor que a Cavalo de Ferro me poderia fazer era lançar La trama celeste, El heróe de las mujeres, entre outro livros do falecido escritor argentino.

[Paulo Ferreira]

Buenos Aires


Em que parte desta cidade escrevia Adolfo Bioy Casares?

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, julho 23, 2007

Utopia

Um homem inteligente não se dá ao luxo de viver entre os burros.

[Paulo Ferreira]

sábado, julho 21, 2007

Work in Progress



Até agora, um excelente livro. Uma obra-prima de História do ponto de vista de uma protagonista.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, julho 20, 2007

Os amigos da liberdade

Em termos de ciência política, estamos bem. Toda a gente sabe o que quer dizer liberdade. Toda a gente nasceu para a democracia. O primeiro-ministro, inclusivamente, recusa-se a receber lições nessas matérias. É por isso que se consegue viver tão acolhedoramente nesta santa terra igualitária.

[Paulo Ferrreira]

Dicionário

Existe uma planta chamada «não-me-deixes» e outra chamada «não-me-toques».

[Paulo Ferreira]

Cat Power


Tenho aprendido a gostar de ouvir Cat Power. The Greatest é um bom álbum. Maybe Not (do álbum Free) é uma grande música. A senhora tem uma beleza divinal. Mas, lá está, Cat Power não gosta de homens.

[Paulo Ferreira]

Poeta dezembrista

Ouço, numa apresentação de um livro, um vetusto poeta afirmar que toda a gente escreve no nosso país, mas que quase ninguém o faz com qualidade. Ora, fascina-me ouvir alguém que anda nesta terra há tanto tempo proferir lugar-comum de tão grande dimensão. Parece-me que nem toda a gente escreve. Parece-me que nem toda a gente acha piada a escrever. Parece-me que escrever não dá grande dinheiro. Mais importante: não viria mal ao mundo, se os portugueses se quisessem todos armar em eruditos. Melhor seria se andassem todos a ler e a escrever. Não se diria que a Filosofia ou a História não levam a lado algum. Entre outras coisas.

[Paulo Ferreira]

Sexo

Vêm ao blogue à procura de putas, de vacas. Mandam mails com ofertas de Viagra. Fazem propaganda à pornografia. Conhecem bem os autores deste cantinho.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, julho 19, 2007

Poder do homem

Foi Roma quem seguiu o caminho de Júlio César e não o contrário.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, julho 18, 2007

Sobre uma frase de Akhmátova

Pegas na memória quando estás longe daquilo que já te acompanhou todos os dias. Adormeces quando estás ao lado daquilo que já não está contigo.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, julho 17, 2007

Uma expressão

«Julgas que és mais do que os outros?» Esta é uma frase que muita gente cultivada já deve ter ouvido. É uma expressão que implica inveja, traição, mesquinhez, pobreza, tacanhez. Faz parte de Portugal e da sua tendência para os igualitarismos e para as faltas de liberdade. «Aqui não és ninguém!» Realmente.

[Paulo Ferreira]

O país do papelinho

Para um indivíduo conseguir obter um papel numa repartição pública, é preciso muito tempo de espera e muita sola de sapato gasta. Eu, pelo menos, quando preciso de recorrer ao Estado, fico com os pés e as pernas feitas em farrapos, espero horas intermináveis, percorro corredores que remontam ao velho K., mas falta sempre um papelinho, uma notinha, uma coisinha.

[Paulo Ferreira]

Remédio

A ausência é o melhor remédio contra o esquecimento.

- Anna Akhmátova, Prosas Escolhidas e Poema Sem Herói

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, julho 16, 2007

Depois de quase uma década

Voltar às primeiras leituras de sempre...



[João Carlos Silva]

Partidos de baixo nível

Se dúvidas tinham quanto ao carácter mais do que «estalínico» do PS de José Sócrates, ontem ficou a evidência maior: a campanha de António Costa. Primeiro: os jornalistas encontraram no Hotel Altis alguns militantes bastante peculiares a apoiar Costa, ou seja, velhotes de aldeias que, convidados para estar ali aquela hora naquele dia, não sabiam no entanto ao que iam, literalmente. Segundo: quando Helena Roseta (que, pela sua oposição descarada ao governo e ao seu partido, passou a ser objecto da minha simpatia) fazia o discurso final, o PS voltou a repetir a proeza e mandou António Costa para o palanque, para interromper a senhora, e se não bastava ser Costa o vencedor para convencer as televisões (a dar-lhe o tempo de antena abruptamente), o Primeiro-Ministro ainda deu a cara (sem vergonha) por aquela atitude.

Há partidos que, simplesmente, nem merecem existir. E, depois da nojeira de ontem, ainda menos menos direito concedo, ao PS, para essa existência.

[João Carlos Silva]

Nota: não voltar a fazer

Não voltar a deixar sair, involuntariamente, um arroto em público.

[João Carlos Silva]

Four more years!

Parabéns ao Desesperada Esperança do Bruno Alves, que fez ontem 4 anos de existência (o blogue, não o homem). Diriam os mais paranóicos que isto poderia dizer alguma coisa sobre o destino, ou seja, fazer 4 anos no dia em que o PSD é arrasado nas urnas em Lisboa e um dos filhos de José Sócrates põe de novo o PS na Câmara da capital. Outros dirão que é apenas coincidência. Eu aproveito apenas para tirar o Desesperada Esperança do sabor do momento. Se dependesse de marés, o blogue do Bruno não continuaria tão vivo e importante como sempre foi.

[João Carlos Silva]

Desesperada Esperança

Quatro anos é muito tempo. Há casamentos que nem uma semana duram. Há crimes que nem um ano de prisão dão. Bruno Alves, um amigo de longa data, fez com que o seu blogue durasse quatro anos. Espero que faça com que dure cinco, seis, sei lá, o tempo que ele quiser. Amizades à parte, o Desesperada Esperança é um dos meus blogues de eleição.

[Paulo Ferreira]

Brincar




Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto
parece ser um livro a brincar. Clara Pinto Correia, a autora, pelo seu estilo descontraído e modernaço, também parece levar a vida a brincar. Aprecio isso. Mas claro que não é bem assim. Repare-se: a senhora estudou nos Estados Unidos, tem vida académica, produz (muita) ficção, é (ou foi) cronista, investiga, enfim, tem uma vida intelectual que leva a que não se possa pensar que a brincadeira seja predominante na sua vida. E não é. Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto, um conjunto de pequenos «sermões» realizados com o objectivo de dizer mal de tudo o que se passa de errado no país, é um livro com muita piada. Embora não deixe de ter o seu carácter sério. Toda a crítica informada tem a sua parte séria. Pois bem, Clara Pinto Correia, dentro da sua seriedade, brinca connosco, com a nossa mediocridade, com o nosso provincianismo. Mesmo que me quisesse armar aqui em defensor da moral e dos bons costumes, a verdade é que não posso deixar de me render às evidências. Clara Pinto Correia tem muita razão naquilo que diz. Muito por dizer mal. É bom dizer mal, nem que seja sem razões para isso.

No caso de Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto, não se pode dizer que a autora diga mal só por dizer. Não. Diz mal num estilo simples e corriqueiro. Diz mal daquilo que se fez e não se fez durante o tempo que passou após o 25 de Abril. Conclusão: nada. Não se fez nada. É bom pensar-se nisso com um sorriso nos lábios. É de quem esteve no estrangeiro e regressou a Portugal. Sabe-se que nada vai mudar. Nem é, aliás, preciso sair do país. Basta ler livros. Portugal não dá. É intragável. Mandem-me embora. Eu saio. Quando tiver dinheiro. Mas ponho de lado a minha própria opinião e dou ênfase às palavras da autora: «Ouvi uma vez o frei Bento Domingues defender a tese de que nós já fizemos o que tínhamos a fazer. Já fizemos os Descobrimentos e já foi uma grande coisa. Agora devíamos poder viver todos descansados em sabática perpétua com uma pensão europeia, como a que o D. Sebastião deu ao Camões.» Bem se vê. Brinca-se, falando sério.

Ser do contra. É mau ser do contra sem razões para isso. Quer dizer, não é mau. É bom. É bom dizer mal. Já disse. Repito. É bom dizer mal. Se temos uma aurea mediocritas, como nos diz Clara Pinto Correia, é bom dizer mal. De nós próprios. «Sempre é mais divertido estar a perder batalhas mas ao menos estar a lutar do que estar, pura e simplesmente, à espera do fim.»


Ah, o livro foi publicado pela Relógio D'Água e lê-se numa noite em que a vontade de dormir não venha.

[Paulo Ferreira]

domingo, julho 15, 2007

Parece-me bem (Lisboa)

O CDS-PP obtém nesta projecção 2,2 a quatro por cento, não elegendo o cabeça-de-lista Telmo Correia.

[Paulo Ferreira]

Pantera na Cave



Amos Oz conta a história de Profi, um miúdo judeu de doze anos «preso» na encruzilhada social, política, bélica e emocional de Israel, em 1947. Em Uma Pantera na Cave, no entanto, o inimigo é o inglês. Cedo Profi chega à conclusão de que, deibaixo daquela sua calma, pode ter uma «pantera na cave», pronta a sair. Mesmo que duvide do elogio que se fazem aos animais perigosos e selvagens, como a pantera ou o tigre ou a águia, enquanto as comparações com animais pacíficos úteis às pessoas (como a mula, o cavalo, o cão) sejam, invariavelmente, insultos. Importante é esta passagem:

- Mas o que fizémos nós para todos nos odiarem? - perguntei ao jantar.

A minha mãe respondeu:

-Por termos sempre razão. Não nos perdoam que, desde tempos antigos, não tenhamos feito mal a uma mosca.

Pensei cá para comigo: «Donde se conclui que não vale a pena ter razão». E também: «Isto explica a atitude do Ben Hur. Também eu tenho razão e não faço mal a uma mosca. Só que agora vai começar a época da pantera».


Amos Oz, Uma Pantera na Cave

[João Carlos Silva]

sábado, julho 14, 2007

Evidências crónicas

Por aqui deve andar pior.

[Paulo Ferreira]

Ooby Dooby

O homem macho do Verão é sensacional: um homem de praia, um escaldão, um atleta, um desportista, um sarado, um bonitão, um majestoso lagostim, um camarão-tigre, um lavagante, uma pérola de imbecilidade que apenas se preocupa com a barba de três dias. Um ignorante, um hino ao fim da existência intelectual.

[Paulo Ferreira]

Cartão vermelho roubado

O que tem José Couceiro que os outro não tenham?

António Costa

O senhor vai ganhar as eleições para a Câmara de Lisboa. Nada mais natural. Aliás, nada mais sensato. Não deixo, no entanto, de me preocupar com o seguinte: António Costa só me aparece através de fotografias, de cartazes. Não o oiço falar. Provavelmente, serei o único a não ouvir uma palavrinha do senhor, a não saber o que pensa o senhor, a não saber o que deseja o senhor. Acho, muito sinceramente, que António Costa levou demasiado a sério as suas funções de Ministro da Administração Interna. Ficou demasiado secreto, fechado. Só sorri para o beija-mão. Gostaria de saber se esta gente falaria, e como falaria, no caso de o Partido Socialista não ter estado dois anos em glória.

[Paulo Ferreira]

A mesma

Não sei se é dos ares de Lisboa, mas, nos últimos tempos, as mulheres têm-se parecido muito umas com as outras. Óculos de sol de estilo capacete. Cabelo castanho pintado de loiro. Pele com tons de praia. Verniz vermelho escaldante, como quem diz: não me tocas. Enfim, as mulheres que tenho visto no últimos tempos são todas muito iguais. Vê-se que não sabem quem foi Roy Orbison. Ou que não ouvem Tindersticks. Ou Cohen. Coisas que eu aprecio.

[Paulo Ferreira]

Problema Gillette

Não consigo fazer a barba no Verão por um motivo: se rapar os pelinhos da cara e depois esfregar um after shave, passo o dia todo a transpirar que nem um cavalo lusitano. Não posso fazer a barba. A menos que chova e que eu não transpire que nem um louco garanhão.

[Paulo Ferreira]

Sapatos

O assunto já foi por demasiadas vezes discutido. Os teorizadores não desistem de alarmar a população. Volto, no entanto, a alertar: noventa por cento dos pés femininos não pode pôr os pés em chinelos. É urgente que as mulheres se voltem a calçar. Nem o verniz vermelho escaldante as pode salvar.

[Paulo Ferreira]

Universal

À beira de adormecer, escrevi isto: omnisciente, omipresente, omnipotente. Não me lembro das razões que me levaram a pegar nestas palavras. Mas calculo que tenham que ver com sexo.

[Paulo Ferreira]

Repouso

Nem nos locais sagrados se consegue estar bem. Hoje, enquanto acabava de ler mais um conjunto de ensaios de I. Berlin na relva fresquinha da Gulbenkian, fui interrompido por um simpático mas insistente pato, que quase me perseguia até casa.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, julho 12, 2007

Parece-me

Gosto de ver a frescura das mulheres na rua. O Verão é bonito. Parece-me, porém, que a maior parte das mulheres não se devia desnudar tanto.

[Paulo Ferreira]

Carmona

Um bom político não é aquele que te dá pena.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, julho 11, 2007

Intelectual, fala-me antes do Herder

É tão fácil para um artista ser intelectual, gozando com assuntos tão eruditos quanto o comendador Berardo, o BCP, o fado, o calor, a cultura dos filhos e dos pais, o estado da nação, o estado do mundo, Bush, os americanos, os que fumam, os que não fumam. É mesmo tão fácil ser um idiota.

[Paulo Ferreira]

Artista 3

Um dos colunistas do jornal «Público», Joaquim Fidalgo, é um artista. Nos primeiros ataques das hostes americanas ao Iraque (qual Timor), dizia o seguinte: É Abril, as andorinhas voam. Rebentam bombas no Iraque. Cito de memória. A coisa pode ser um bocadinho diferente. Mas a pincelada é a mesma. É uma pincelada de artista. Por exemplo:

- As crianças brincam no quintal. Hiroshima.

Outro exemplo:

- As árvores bamboleiam-se no rumor verde do dia. Minha querida Palestina.

[Paulo Ferreira]




Artista 2

Um bom método para apanhar pensamentos no corpo de um artista é, por exemplo, o seguinte:

- Ó artista, andaste a falar dos Estados Unidos nos últimos dias?

Outro exemplo:

- Ó artista, gostas do bushe?

[Paulo Ferreira]

Artista

O velho Nelson Rodrigues costumava dizer, entre outras coisas, que artista não serve para pensar. Óbvio. Artista que se ponha a pensar, frita o cérebro e diz disparates. Óbvio. Artista que se preze, não pensa.

[Paulo Ferreira]

Branco 3

Ainda não fui à praia mas posso garantir que vou à Almedina todos os dias.

[Paulo Ferreira]

Branco 2

Apesar da vontade que tens de dar um mergulho no mar gelado, não vais à praia. Não te deitas ao sol. Não te viras na toalha. Não apanhas escaldão. Não te viras na cama. Não tens dói dói do escaldão. Não te dizem na rua: «tão bronzeado que ele é, tão bom que ele está, que lavagante.» Não te dizem nada.

[Paulo Ferreira]

Branco

- Ainda não fui à praia este ano.

- Nota-se.

[Paulo Ferreira]

Sono

O problema desta falta de sono não tem que ver com ausências de cansaço. Tem que ver com demasiados cansaços, com demasiadas corridas, com demasiados caminhos apertados. Não dá para ler, não dá para escrever. Um buraco escuro no fundo do chão.

[Paulo Ferreira]

Duas notas para uma insónia

Quatro e trinta e seis da manhã. O silêncio parece querer espalhar-se pela cidade.

Quatro e trinta e sete da manhã. Não dormes, nunca dormes. Os problemas apertam. Vês o absimo. Cada vez mais perto. Uma garrafa de vinho vazia.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, julho 10, 2007

O poder das ideias



Cada leitura de uma obra de Isaiah Berlin deve ser mencionada, quase como se de um feriado se tratasse. Não só pela genialidade da «coisa» mas, de igual modo, pelo peso descomunal com que a cabeça fica após a leitura de cada ensaio. Por exemplo, acabei de ler o ensaio sobre Vico e adorei. Por outro lado, há o factor aspegic.

[Paulo Ferreira]

Gonçalo M. Tavares

Uma página de certos livros vale mais do que bibliotecas inteiras.

[Paulo Ferreira]

Livro

Para Deus, a Natureza é um livro.

[Paulo Ferreira]

O pior professor

O teu pior professor é aquele que mais fala.

[Paulo Ferreira]

Perfeição

Não se estragando nada do que foi feito pela Natureza, está-se a preservar a perfeição.

[Paulo Ferreira]

Nada

Não se fazendo nada, não se estraga nada.

[Paulo Ferreira]

Fórmula

A melhor fórmula para atingir a perfeição é não mexer uma palha.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, julho 09, 2007

Hamlet II

O rapaz, perseguido pelo espectro do pai, vai viver na sombra e na cinza, ao ver-se obrigado a castigar um usurpador, um assassino. Esse rapaz não é a pessoa indicada para perseguir um assassino, uma vez que é frágil, de fino trato, culto e apaixonado. E é por isso que vai viver na sombra. Por não ser da sua natureza o destino que lhe está traçado.

[Paulo Ferreira]

Hamlet I

Não há volta a dar: para além de ser um grande fã, sou um grande seguidor de Hamlet.

[Paulo Ferreira]

Vitória de Setúbal 2007/2008



Tenham atenção : a nova época já está a ser preparada no Bonfim.

[João Carlos Silva]

sábado, julho 07, 2007

Gripe, sol, Gulbenkian

O melhor para se curar uma gripe é pegar num livrinho que se goste, do género Malone Está a Morrer, do Beckett, e estender os pernis ao sol na relva fresquinha da Gulbenkian.

[Paulo Ferreira]


Cinquenta anos da Gulbenkian

[Paulo Ferreira]

Bibliofilia



Urzes, o livro de textos escolhidos de Manuel Hermínio Monteiro e distribuído outrora pelo Independente, é um hino aos livros. A paixão de Hermínio Monteiro pela escolha, publicação, edição, leitura, uso e abuso dos livros é inspiradora. Mais do que isso, é um espelho de um ideal de vida. Viver entre livros é o sonho de qualquer bibliófilo. Manuel Hermínio Monteiro viveu assim, como que sonhando acordado, por todos nós.

[João Carlos Silva]

Sobre livros

Quando depois de um dia de trabalho os observamos, alinhados e silenciosos nos armazéns, ou nas livrarias, parece que nos fitamos mutuamente.

Manuel Hermínio Monteiro, Urzes

[João Carlos Silva]

Bad TV III

Hoje, porque na TV estão a encontrar maravilhas neste mundo, decidi sair para os copos. Não acredito num mundo maravilhoso.

[João Carlos Silva]

Bad TV II

Ontem à noite, porque a RTP se dedicou a salvar o planeta Terra como quem salva, para sempre, a Humanidade e a entrega ao progresso moral, saí de casa e fui, novamente, para os copos.

[João Carlos Silva]

Bad TV

Há dias, porque vi o Presidente Lula e o Engenheiro nosso Primeiro-Ministro a administrarem lambidelas nos traseiros um do outro, decidi sair para os copos. Afinal de contas, pôr a língua em locais indevidos é uma porcaria e eu não gosto de ver.

[João Carlos Silva]

Da velhice

Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz, recitou o psiquiatra em voz alta, olhando o sujeito que emitia pela boca aberta os ruídos de fervura com que as pessoas de dentaduras postiças bebem o café demasiado quente: Quando eu tiver a idade dele comerei beijos como quem come sopa, e palitarei as gengivas no fim para extrair dos molares restos incómodos de ternura; e talvez uma rapariga como esta se interesse pela minha graça de menir.

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

[João Carlos Silva]

Rubem Fonseca

Adoro Nelson Rodrigues. Toda a mulher gosta de apanhar, pois. Apreciso a prosa de Raduan Nassar. A poesia de João Cabral de Melo Neto é do tamanho dos Himalaias. O estilo misterioso de Cornelio Penna é do melhor que pode haver. Moacyr Scliar é um escritor de estirpe elevada. Porém, Rubem Fonseca é, de todos, o meu preferido. É o «Fodão» de O Buraco na Parede.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, julho 05, 2007

Malmequeres

Quanto a mim, passo a vida levando cigarros à boca, como quem desfolha malmequeres: ama-me?, não me ama?

- Horacio Quiroga, Contos de Amor, Loucura e Morte

[Paulo Ferreira]

Horacio Quiroga

Horacio Quiroga (1879-1937), escritor uruguaio, tem uma biografia do inferno. Morte acidental do pai, suicídio do padrasto, morte acidental do seu melhor amigo, suicídio da esposa, exílio nas selvas argentinas e suicídio do próprio por ingestão de cianeto. A sinopse do maravilhoso livro Contos de Amor, Loucura e Morte (editado pela Cavalo de Ferro) diz tudo.


[Paulo Ferreira]

quarta-feira, julho 04, 2007

Duas verdades

Segundo excelsa figura intelectual de Setúbal, duas paradigmáticas verdades se impõem:

1- há uma bebida que dá pelo nome de Pisanga Bom;

2- existe o género cinematográfico «Filme de Dar na Cona».

[João Carlos Silva]

Henrique Viana



Morreu Henrique Viana (1936-2007). Para muitos (frequentadores de teatro) será um actor dramático incontornável, muito requisitado. Para outros, um comediante mais popular. Para mim não. Para mim foi muito mais. Logo quando era novo, viciei-me no Henrique Viana e no Miguel Guilherme quando os dois fizeram, em 1993, a série Sozinhos em Casa. Depois, entre outras séries de televisão, lembro-me de o ver muito bem como Pina Manique, a mostrar que é mais do que um comediante. Pessoalmente, acho que era um excelente actor. Sabia, é claro, invocar as piadas realmente castiças, realmente portuguesas, mas isso não fazia dele um comediante de segunda. Muito pelo contrário, acho que o fazia com estilo. Mesmo quando fez Os Imparáveis, na televisão, devo confessar que foi ele que fez da série, na minha casa, uma série de culto. Isso está tudo gravado, está tudo para a posteridade. Mas o Henrique Viana já não está. Rir-me-ei menos da vida a partir de hoje.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, julho 02, 2007

Empirismo II

O presente mostra-me que raramente dei utilidade prática às minhas ideias.

[Paulo Ferreira]

Empirismo I

O presente confirma que as minhas ideias antigas continuam certas.

[Paulo Ferreira]

Não mexer

O melhor meio de não nos fazermos notar é estendermo-nos e não nos mexermos.

Samuel Beckett, Malone Está a Morrer

[João Carlos Silva]

Joyce era guloso

Javier Marías, sobre Joyce, deixou esta sentença: «era um coprófilo». Para quem, felizmente, não sabe o que é um coprófilo, recomendo uma busca na internet.

[João Carlos Silva]

Ejaculações macabras



Javier Marías sobre Yukio Mishima:

Foi um escritor suficientemente impudico para dar a conhecer à posteridade as suas ejaculações, de modo que há que deduzir que lhes atribuía particular importância; e, assim, não nos resta senão ficar a saber que a sua primeira ejaculação teve lugar contemplando uma reprodução do tronco de São Sebastião que foi pintado por Guido Reni com algumas flechas a trespassá-lo.

Javier Marías, Vidas Escritas

[João Carlos Silva]

O homem culto

O homem culto, à semelhança de alguns reis, deve deixar transparecer a ideia de que é um igual entre iguais. Acontece que o homem culto, ao contrário de alguns reis, não tem poder, mas cultura.

[Paulo Ferreira]

Moby Dick

Num conto de Rubem Fonseca, há um balão enorme(que dá pelo nome de «Fodão») que não pode ser apanhado por ninguém, dado que é o maior de todos os balões. Moby Dick também era o maior de todos os bichos. Quase uma entidade mística.

[Paulo Ferreira]

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[Paulo Ferreira]

domingo, julho 01, 2007

Pif-Paf


Pif-Paf de Millôr Fernandes é, realmente, um livro fantástico. Não vale a pena dizer nada. Refira-se apenas que a colecção Horas Extraordinárias, lançada sob a chancela do defunto jornal «Independente», está toda à venda na Livraria Buchholz em Lisboa.

O mal de se tratar um inferior como igual é que ele logo se julga superior.

O maquiage é o rumor industrializado.

Pessimista mesmo é o sujeito que vê as ondas do mar recuando e acha que elas nunca mais vão voltar.

[Paulo Ferreira]