sexta-feira, abril 24, 2009

«Conquistas de Abril»

Em Setúbal, festejam-se os trinta e cinco anos do 25 de Abril de 1974. Ou seja, festejam-se os trinta e cinco anos da dita «Revolução dos Cravos». Ou seja, festejam-se trinta e cinco anos de se ter derrubado, de forma bastante pacífica, um regime autoritário que pregou o país (e as mentalidades) ao chão. Que devastou a economia e as economias, sobretudo as pequenas. Que desfez o que restava em Portugal de uma propensão para querer a liberdade. Que minou o desenvolvimento faseado das estruturas básicas administrativas e das estruturas sociais. Em 1974 não passámos para melhor mas, por princípio, terminámos um período que será, acredito eu, relativamente pobre na história recente de Portugal.

Assim, merece ser «festejado». E como é que «festeja» tal transição? O programa é claro: entre os encómios a cantores e compositores de intervenção (os do costume, com Adriano Correia de Oliveira à cabeça e a inevitável mas equívoca partidarização de José Afonso), surge, é claro, a verdadeira liberdade, ou seja, uma agenda repleta actividades infantis e de fitness (é isso mesmo, fitness), de bandas filarmónicas, de vários passeios de bicicleta, de torneios de sueca, futebol, «pintura mural» (uma metáfora para vandalismo), malha, artes marciais, ténis de mesa, tiro ao alvo, bisca dos nove, damas, dominó, chinquilho, setas e, claro está, almoçaradas, lancharadas e bailaricos. Enfim, toda uma variedade de coisas que, muito certamente, não se podiam fazer durante o Estado Novo e que são as «conquistas de Abril». Afinal, o futebol é uma forma de emancipação política. Ou não?

Resta saber se, no fim, a rapaziada mais nova vai para casa a saber o que implicou o 25 de Abril simbolicamente (por bom ou mau que achem esse dia simbólico) ou se, muito justificadamente, chega a casa farta de confusão sem razão com vontade de se entrar num período autoritário que acabe com tanto festejo, festejos esses que substituem a sua razão de ser por serem entretidos pela razão invisível de terem sido «conquistas de Abril».

P.S.- enquanto escrevia este post, saiu-me «25 de Baril» em vez de «25 de Abril». O que parecerá, ao leitor distraído, um mero erro ou uma mera aselhice da minha parte, é visto por Freud como sendo um acto falhado, um lapso que tem muito a ver com o sujeito e menos com a linguagem. Sendo que «Baril», neste caso, seria o meu insulto pessoal às «vitórias de Abril». Se estivéssemos novamente no PREC, possivelmente este seria o «móbil» necessário para ser suficientemente fascista para não poder andar livre nas ruas.

Quarta



Se não a melhor, então uma das duas melhores temporadas daquela que, provavelmente, é a melhor série que já vi.

sábado, abril 18, 2009

My thoughts exactly

O que é que levará o PSD a colocar Paulo Rangel como cabeça de lista do partido às eleições europeias? Não que o homem não tenha valor, mas precisamente por o ter: o que é que leva um partido a enviar o seu melhor parlamentar para fora do parlamento (...)? O que é que leva um partido a prescindir de ter na Assembleia da República uma pessoa que, no tempo em que lá esteve, mostrou ser o único capaz de dizer algo que fizesse um mínimo de sentido?

Bruno Alves, no Desesperada Esperança, 15/04/09

Bilhete de identidade



Uma nova característica (não exactamente nova, mas que piora a olhos vistos) que certamente figurará das informações do meu futuro Cartão de Cidadão: umas dores de costas horríveis. Dizem que é da chuva.

«Na companhia de muitos outros»

Numa edição de 1977 d' O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires, que adquiri numa pequena venda de livros em segunda mão, é possível encontrar um ou outro sublinhado. Embora sejam a caneta (pecado último), esses sublinhados revelam algo de alguém que, em Novembro de 1978 (marcado também a caneta na página de rosto), se sentiu movida por uma frase na página 42, prontamente sublinhada: «Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros». Quando se começa a ler, o objectivo único é devorar o livro pelo livro. Com o tempo, aprende-se a ver tudo o resto. A ver, de facto, o que rodeia o conteúdo de um livro. Neste caso, é a vida interior de alguém que, em mil novecentos e setenta e oito, se reviu nesta passagem. Para além da vida de Cardoso Pires e do próprio Anjo Ancorado, este livro traz a vida de outra pessoa.

O estado das coisas

quinta-feira, abril 16, 2009

A vida dos meus dias

Ler as memórias de «combate» de sindicalistas na flor da idade: 97 anos.

quarta-feira, abril 15, 2009

A cultura dos políticos

Poderia meter aqui mil e uma páginas d'O País das Maravilhas (estou a exagerar, mas ainda a antologia ainda tem quase 550 páginas) que convenceriam qualquer um do brilhantismo das crónicas de Vasco Pulido Valente. Aliás, a genialidade está no facto de retratar tão bem o Portugal que tínhamos - em 1975-79 - que acaba por retratar o Portugal que temos - em 2009. Muitos artigos acabam mesmo por ser ensaios informais de História que tanto fazem uma ponte com o passado como adivinham o que virá a acontecer nos mais de trinta anos seguintes. Do século XIX ao século XXI, Portugal continua cheio de bandidos, ignorantes e profetas da aurora do dia seguinte, os «brawlers, bawlers & bastards» de Tom Waits.

A título de exemplo, Vasco Pulido Valente escrevia isto no Expresso em 28-10-1978, em crónica intitulada «A Cultura dos Políticos»:

Numa entrevista recente, Manuel Alegre decidiu chamar-me «integralista lusitano», miguelista e adversário da Revolução Francesa. Tudo isto está certo. Manuel Alegre é talvez licenciado em Direito e publica uns versos declarativos e oratórios, como já não se faziam há cem anos, e que são, ao nível da rima, o seu autêntico retrato político. Com estas qualificações, não se lhe deve pedir mais, nem a mim me pagaram para lhe explicar o que foi o «integralismo lusitano», o miguelismo e a Revolução Francesa.

Mas o caso de Manuel Alegre, em si próprio destituído de qualquer importância, é infelizmente típico. A cultura da classe que nos governa não difere em geral da dele. Para começar, não passa quase sempre de uma cultura jurídica e literária, ou seja, de uma amálgama do pior positivismo jurídico que se ensinou (e se continua a ensinar) nas nossas universidades, com algumas ideias imprecisas sobre a sociedade e o mundo, adquiridas por tradição oral e na leitura de «escritores» «progressistas» ou «bem pensantes». Um caldo deprimente, servido, à esquerda, com Marx, Lenine, Gramsci e os epígonos franceses da moda; e, à direita, com prosa pacificadora, género Aron e Galbraith.

Os políticos de extracção jurídica constituem sem dúvida a maioria dos profissionais do ramo, como no século XIX. A sua formação filosófica é menos do que sumária e os seus contactos com as ciências sociais tímidos ou nulos. Ao lado deles, porém, existe hoje a nova espécie dos economistas, que se consideram a si próprios o sal da terra e os apóstolos do realismo e do bom senso. Só que, revolucionários, reformistas ou conservadores, todos tendem a praticar a sua arte como se não vivessem em Portugal, ou em qualquer outro lugar de matéria e trevas, e todos amargamente se queixam de que o Governo e o País sem razão se recusam a seguir as suas salvíficas receitas. Para eles, supor que a economia tem alguma coisa a ver com a sociedade é uma aberração e um pecado.

De resto, advogados ou economistas, economistas ou engenheiros, os príncipes que nos pasotreiam partilham certas características intelectuais significativas. A primeira é com certeza a sua radical ignorância da nossa História: encontrei muitos políticos desde 25 de Abril, não encontrei nenhum que não ficasse reprovado num exame elementar de História de Portugal. A segunda é a sua absoluta falta de familiaridade com os problemas teóricos e mesmo com a linguagem técnica rudimentar da sociologia contemporânea: pequena lacuna que frequentemente os impede de perceber as questões mais simples e sobretudo de avaliar o que os especialistas deste ou daquele assunto lhes resolvem dizer. A terceira é o seu devastador desconhecimento do País que se propõem gerir: como várias vezes pude constatar, nem imaginar conseguem o que de facto precisam saber.

Objectar-se-á que aos políticos basta cultura política (o que, em 1978 e com uma administração como a portuguesa, obviamente não basta). Mas até cultura política, em sentido próprio, não a têm. Fora Marx e Lenine, não abriram os clássicos. Dos grandes sistemas políticos acumularam penosamente meia dúzia de noções triviais, destinadas ao jornal e ao comício. No dia-a-dia, sustentam-se do estereotipo e do maniqueísmo.

E, coitados, como seriam diferentes com a universidade que os educou e que por aí, intacta, persiste? São competentes no que podem, isto é, na manobra, na proclamação, na promessa estrondosa e no adjectivo que rufa. Não são competentes no entendimento do País e na sua acção sobre ele. Alimentam-se das formas e geram a irracionalidade.

Tudo concorda.

Notas sobre o «Cristo» Che

Ainda não me deu para ir ver a incursão do Steven Soderbergh na hagiografia revolucionária. Mas, tendo em conta que é Soderbergh (o homem que trouxe para a minha vida filmes como o perfeito Traffic, a densidade emocional do metafísico Solaris ou o subestimado Out of Sight), acho que farei o sacrifício. Com sorte, saio satisfeito com uma história fraca - porque mitificada, lá está - contada com a mestria técnica do realizador, tal como já aconteceu com Erin Brockovich.

segunda-feira, abril 13, 2009

Reservation

A piada do mês, ouvida ontem, em Rocky Balboa (o filme de 2006), quando Paulie/Burt Young entra no restaurante agora gerido por Rocky/Stallone:

MARIE - Do you have a reservation?

PAULIE - Do I look like a freakin' Indian?

domingo, abril 12, 2009

Afonso Costa, o «Democrático»

A República foi uma maravilha que muito «Progresso» trouxe a Portugal, e quem veio perturbar o caminho das coisas foi Sidónio Pais, o «ditador». Mas o que ninguém refere é que foi o «ditador» Sidónio Pais, curiosamente, que em Maio de 1918 abriu as eleições presidenciais aos cidadãos. Já Afonso Costa, por outro lado, continua heroicamente destacado nos manuais escolares (com carga positiva) como um dos mais importantes políticos portugueses. O que também é curioso é que - para além de não gostar especialmente de ir à missa nem de quem fosse - era no seu tempo conhecido por «Racha-Sindicalistas» e consta que arrasava judicialmente e policialmente alguns opinantes que criticavam duramente os seus Ministérios. Faz lembrar algum político português actual?

Ritual diário

Leituras



Ler artigos antigos de Vasco Pulido Valente (VPV) tem qualquer coisa de clássico. Aliás, embora não tenha o pódio que pertence aos «anos de ouro» de Miguel Esteves Cardoso, a antologia O País das Maravilhas, que reúne textos de VPV no Diário de Notícias e no Expresso sensivelmente entre 1974 e 1979 aproxima-se dos livros obrigatórios para conhecer o Portugal dos últimos trinta ou quarenta anos. Se tanto se fala em Eça de Queiroz (referindo-se a ele, de forma muy irritante, apenas como «o Eça») e em Ortigão, talvez fosse importante retirarmos da gaveta alguns cronistas e escritores que, mais do que escreverem a grande ficção ou a grande poesia, retrataram um Portugal imortal e imobilizado no tempo. Se eu pudesse escolher um livro de crónicas, política ou cultura para reeditar urgentemente, seria certamente O País das Maravilhas.

sexta-feira, abril 03, 2009

Escritor e poeta

Porque é que vejo tantas pessoas a descreverem escritores que enveredaram pela prosa e pela poesia como «escritores e poetas»? Então mas os poetas também não são escritores? E a poesia se não é escrita, então é o quê, cuspida?

Walser



Robert Walser (1878-1956), um escritor admirável

Escrever e respirar II

Mas há algo que percebo, e essa explicação já a creio por completo: que alguém escreva para dar um sentido à vida. Provavelmente, aí a escrita será um dos actos mais sensatos que se pode ter, já que nesta coisa disforme e misteriosa que é passar umas quantas dezenas de anos enquanto «ser vivo», deixar pensamento e criar algo pela escrita pode muito bem ser algo que dê qualquer coisa como um «sentido» à vida.

Escrever e respirar

Fico realmente desconfiado quando vejo escritores largarem numa entrevista, pelo meio de muitas outras palavras, a maior frase feita desse meio: «preciso de escrever». É de desconfiar disto, sobretudo quando é acompanhada por «escrever para mim é como respirar» ou «não vivo sem escrever». Tudo bem, compreende-se a necessidade de criar, de registar o que se pensa e até mesmo - porque é a meta última de qualquer sujeito que escreva - de publicar. Mas não me parece que escrever seja «como respirar», nem tão importante na vida de alguém como, sei lá, as pessoas que lhe são próximas. Nem para um escritor. Eu, por exemplo, ainda que não seja um escritor, tenho fases em que não sai uma única palavra. Por desinspiração? Melhor: por preguiça.

domingo, março 29, 2009

Coincidências



Há coincidências boas no dia-a-dia, como esta: ir comprar a GQ de Abril por causa do Kill Bill vol. 2 e da entrevista ao Fernando Lopes (juro) e ficar também, por acréscimo, com a Cláudia Borges seminua na mesa da sala.

Debbie Harry



Debbie Harry tem 64 anos. Mas não muda. Para mim, será sempre a voz sensual e desvairada dos Blondie, uma das melhores coisinhas dos anos 80 (tendo em conta que, na música, os anos 80 começam em finais de 70). Os Blondie conseguiam reunir alguns tiques dos anos 80, misturá-los com um dos motores mais criativos da pop da altura, destacar-se sempre de todas as outras bandas de pop-rock, ser um (modesto) bastião da música punk e ainda oferecer ao mundo uma figura como Debbie Harry, uma grande vocalista que é também uma gaja boa - e não há nada melhor do que ter à frente de uma banda uma gaja boa que é também uma voz inesquecível. Enfim, uma encruzilhada coesa e coerente de várias influências e experiências musicais. A voz de Debbie é forte, sexual, ofensiva, intimidatória, convidativa. Tudo isso e mais qualquer coisinha. Os Blondie acabaram por volta de 1983 e voltaram no final dos anos 90, mas nunca voltaram a ser o que eram: a magia dos eighties estava morta e, como quase todos, não se conseguiram renovar. No entanto, houve algo que continuou a brilhar: a voz de Debbie Harry. Se os Blondie não foram uma das melhores bandas (e agradeço as influências que trouxeram aos também excelentes Garbage) de sempre, e uma das grandes referências da música pop, então não sei que magia fazer para convencer as pessoas disso senão dizer estas duas palavras: Debbie Harry.

domingo, março 22, 2009

Mais uma aula dos Coen



Burn After Reading (2008), dos irmãos Ethan e Joel Coen

Em forma

A Maria da Paz Soares. Uma que escreve. Todos os anos publica um livro de poemas e todos os anos muda de amante que é para manter os cornos do marido em forma. É público, não há quem não saiba.

José Cardoso Pires, O Delfim

O estado das coisas

sexta-feira, março 20, 2009

Medo de dormir

Há pessoas que não gostam do sono, que têm medo de ir dormir. Tal como as crianças. São infantis? Não... longe disso. Repare-se que é uma das mais básicas associações com o medo da morte, que só a inteligência da infância compreende. Tal como o sono, a morte é indesejável mas inevitável, e está coberta de um grande véu negro de mistério (quem consegue realmente estar consciente durante o sono?). E, para dizer a verdade, não há nada mais saudável do que ter medo da morte.

É como aquela velha máxima em defesa do medo de andar de avião: se Deus quisesse que o Homem voasse, tinha-lhe dado asas.

Another man down

O Insónia (a.k.a. antologia do esquecimento) acaba hoje, por decreto-lei do Henrique Fialho. E ainda dizem que o Sócrates não anda a dar cabo deste país. Vede, incréus!

Ficam os votos de quem acompanhou o blogue por muitos e bons anos. Poucos poder-se-ão gabar de tão duvidosa mas honesta honra. Com esperança: até já.

quinta-feira, março 19, 2009

Do apelo do sangue



We Own The Night (2007), realizado por James Gray

terça-feira, março 17, 2009

Lévi-Strauss e a defesa do individualismo



Claude Lévi-Strauss é figura académica que, logo pelo facto de ser francês/belga (qual delas a pior proveniência), sempre causou a um anglófilo como eu a maior das desconfianças. Daqueles lados, assim num primeiro pensamento rápido, só aproveitava Camus e o Astérix de cada país respectivamente, e jurar-me-ia morto antes de me dar ao trabalho de ler estruturalistas.

Mas, de facto, nem tudo é lixo vindo daquelas bandas, e Lévi-Strauss, na sua abordagem antropológica do lugar de cada sociedade no mundo, faz o seu sentido. Em Raça e História, por exemplo, desconstrói a ideia de «progresso» tal como vista pela sociedade ocidental desenvolvida. Diz ele:

«Os progressos realizados pela humanidade desde as suas origens são tão claros e tão gritantes que qualquer tentativa para os discutir se reduziria a um exercício de retórica. E, no entanto, não é tão fácil, como se pensa, ordená-los numa série regular e contínua. Há pouco mais ou menos cinquenta anos, os sábios utilizavam para os representar esquemas de uma simplicidade admirável: a idade da pedra lascada, a idade da pedra polida, as idades do cobre, do bronze e do ferro. Tudo isto é muito cómodo. Hoje supomos que, por vezes, o polir e o lascar da pedra coexistiram, quando a segunda técnica eclipsa completamente a primeira, isto não acontece como resultado de um progresso técnico espontâneo saído da etapa anterior, mas como uma tentativa para copiar em pedra as armas e os utensílios de metal que possuíam as civilizações mais «avançadas» mas, de facto, contemporâneas dos seus imitadores. Inversamente, a olaria, que a pensava solidária da «idade da pedra polida», está associada ao lascar da pedra em algumas regiões do Norte da Europa».

Lévi-Strauss defende, assim, uma «não-linearidade» do «progresso», ou da ideia de «progresso». Para além do conceito implícito de relativismo, e do perigo da perda dos padrões morais de cada sociedade em nome do convívio de todas, o que resulta (em parte) desta realidade com múltiplas faces é a defesa do individualismo das sociedades, que é um reflexo de uma possível defesa do individualismo humano contra as ditaduras da maioria, sejam políticas, sociais, culturais ou outras. Ou seja, se «o «progresso» (...) não é nem necessário nem contínuo» mas, ao invés, «procede por saltos, ou, tal como diriam os biólogos, por mutações», então o indivíduo tem o direito de ficar estático na sua concepção e participação social face ao «progresso» da sua sociedade, tal como as culturas primitivas têm o direito de fazer a sua evolução segundo padrões culturais próprios, desde que não interfira com o livre desenrolar das outras.

Claude Lévi-Strauss até poderia perder as estribeiras ao ouvir isto, mas se estas ideias não são «primas» das bases teóricas do individualismo então o que serão?

domingo, março 15, 2009

Um pensamento profundo: Clint Eastwood

O vampiro

A minha descoberta deste fim-de-semana foi saber que, para além de um sujeito esotérico que dá pelo nome de Lauro Trevisan, também há um escritor brasileiro chamado Dalton Trevisan (n. 1925), que aliás é um pseudónimo. A descoberta seria banal, se não fosse Dalton ser um bom escritor e, para além disso, uma figura rodeada de uma certa mística: o escritor é conhecido em Curitiba (onde vive, no Brasil) pela sua aversão a qualquer exposição pública, escolhendo resguardar a privacidade e o anonimato que só esse isolamento permitem. Para mais, ganhou mesmo a alcunha de «Vampiro de Curitiba» por essa aversão ao contacto com jornalistas. Uma atitude respeitável, fascinante e muito parecida com a de Herberto Helder. Um mistério que, deva-se dizer, até pode ajudar a vender livros. Eis um excerto do anacoreta de Curitiba em Cemitério de Elefantes:

José desfez o compromisso - como sustentar a família se nada quer com o trabalho? - e não mais se falaram. A moça casou com outro, asinha se apartou. José em voz alta que o pai ouvisse lá da sala:
- Aqui do bichão ela não esquece!

De uma constatação subjectiva

Após mais um programa do interessante A Torto e a Direito, na TVI24 (um canal que é, de longe, melhor, mais profissional e mais sério que a sua «estação-mãe»), fiquei com a certeza: Fernanda Câncio é mesmo muito má, e até surpreendentemente previsível. Visita os clichés todos da «mulher de esquerda socialista», desde as vénias ao (invisível) combate deste governo ao desemprego até ao elogio das leis fascistas de redução do sal no pão. E o pior é que ainda se ofende com as opiniões dos outros - como se fosse possível ela estar errada sobre o quer que seja.

Normalmente, espero muito pouco das pessoas. Logo, não me desiludo. Agora imaginem o que é alguém superar essas «expectativas» pela negativa. Ao ver e ouvir Câncio na TVI24 apercebo-me de que ela é ainda pior do que eu pensava, o que não deixa de ser trágico.

Se a representatividade da senhora era ter uma socialista de jeito, eu podia dar-lhes uma melhor mesmo aqui ao virar da esquina da minha casa. Se a ideia era ter as mulheres inteligentes representadas, a Constança Cunha e Sá já ocupa facilmente essa tarefa e até é bem ofensivo representar essa população com aquele espécime. Agora, se o objectivo era ter ali um jornalista inteligente, cumprem bem o objectivo: a inócua e irritante Fernanda Câncio talvez seja das melhores jornalistas portuguesas da actualidade. O que mostra bem a trampa a que chegou o jornalismo neste país.

A ressurreição de Downey Jr.



Kiss Kiss Bang Bang (2005), realizado por Shane Black

Lex Luthor também pede um bailout



O video é caricato, mas o conceito é brilhante. O que só prova a minha teoria de que a comédia é o mais certeiro e mais profundo dos géneros dramáticos, já que «em nome do riso» toda a gente baixa as defesas (por outro lado, os efeitos nefastos dessa «eficácia» verificam-se com a grande aceitação dos abjectos «documentários» trocistas de Michael Moore). Este video, a que cheguei via The American Scene, suscita várias questões: e se Lex Luthor desse emprego a muita gente? e se Lex Lutho fosse importante para a economia? é importante saber como Lex Luthor perde dinheiro?

O truque é, simplesmente, fazer este exercício: trocar o nome da LexCorp por outro qualquer representado nas economias actuais, e lembrar que este é dinheiro dos contribuintes. No mínimo, ajuda a pensar.

A idealização de Soljenitsyne



Alexander Soljenitsyne é, no Ocidente, vítima das apropriações e expropriações mais livres e arrojadas possíveis. Para uns, um traidor e um dissidente. Para outros, um mártir e um ídolo. Ambos se perdem na representação do homem e se esquecem de ler com atenção o que ele escreve e o que ele diz acerca das sociedades contemporâneas - em especial, a sua ideia de Rússia. Ou sejam, ambos estão errados, pelo menos nma boa parte.

Soljenitsyne era um dissidente, sim. Mas não um traidor. Embora já tivesse nascido «soviético», nunca deixou de ser um russo antes de tudo o resto, e o nacionalismo presente na retórica do PCUS não eram suficientes para patriotismo avassalador de Soljenitsyne, que acreditava numa Rússia maior do que o comunismo, maior do que qualquer ideologia ou objectivo, maior do que o próprio homem.

E aqui está uma das características que muitos, na sua ânsia de idealizar o «inimigo dos nossos inimigos», esqueceram: Soljentsyne acreditava na pátria acima do homem, como entidade espiritual imortal e etérea. Ou seja, era um mártir dos gulags, sem dúvida, mas não devia ser um ídolo para o comum dos ocidentais, confortável (e com razão) na sua sociedade de consumo. Soljenitsyne acreditava que era pelo espírito que o homem poderia encontrar a sua razão de ser e que o materialismo destruiria o homem - como, supostamente, na segunda metade do século XX já havia destruido o Ocidente.

Tenho dúvidas em afirmar, como a voz do consenso afirma, que Soljentsyne fosse um «verdadeiro liberal», ou mesmo um «herói da liberdade». O escritor tinha as suas razões para não gostar da URSS, que eram as mesmas que o Ocidente liberal tinha. Tinha a sua visão da decadência espiritual do Ocidente. E até tinha a sua razão quando dizia, em discursos em Harvard em 1978 (publicados, sugestivamente, com o título O Declínio da Coragem), que os países ocidentais, e em especial os EUA, compactuaram com o fortalecimento da União Soviética sob a batuta de Lenine. Mas Soljenitsyne também acreditava que a Mãe-Rússia, e um verdadeiro nacionalismo russo, seriam bons motivos para erguer um Estado com mão de ferro. Razões essas que, num acaso histórico, não encontrou na União Soviética.

A forma mais saudável de admirar um escritor é apreciar a sua obra escrita e respeitar a sua visão da história ou do seu tempo. Definitivamente, não é santificar um homem e dizer dele o que nós queremos que seja, e não o que ele é.

quinta-feira, março 12, 2009

Cadeia alimentar acima

You follow drugs, you get drug addicts and drug dealers. But you start to follow the money and you don't know where the fuck it's gonna take you.


Lester Freamon, em The Wire, Ep. 9 da 1ª Temporada

O estado das coisas

terça-feira, março 03, 2009

Shit rolls, piss trickles



DANIELS - Gotta go upstairs

KIMA - What's up?

DANIELS - Deputy's throwing some kind of piss-fit.

KIMA - Major know?

DANIELS - He's up there now.

CARVER - With a mouthful of piss, probably.

HERC - Like our major don't know what that tastes like? It's the chain-of-command, baby. The shit always rolls downhill.

CARVER - Motherfucker, we talking about piss.

HERC - Piss does too, think about it.

CARVER - Shit rolls, piss trickles.

HERC - Downhill, though.



(The Wire, Ep. 1, Season 1)

No leitor de DVD



À custa de muita propaganda, juntei-me ao clube de fãs.

O Magalhães na vanguarda da teconologia

Socialização do Magalhães

É impressão minha ou José Sócrates, no discurso final do Congresso do PS (ambos, discurso e congresso, foram vazios e infantis) juntou, na mesma frase, «computadores Magalhães» e «socialização»? Fui procurar ao dicionário os significados possíveis da suposta socialização: acto ou efeito de socializar; desenvolvimento do sentimento colectivo da solidariedade social e do espírito de cooperação nos indivíduos associados; processo de integração mais intensa dos indivíduos no grupo.

A pergunta impõe-se: será que o engenheiro Sócrates acha mesmo que um computador datado vai ajudar à «cooperação» ou «integração» dos alunos na sociedade? Ou, para ser mais directo, será que o engenheiro Sócrates acha que as pessoas são assim tão fáceis de convencer?

segunda-feira, março 02, 2009

XVI Congresso do PS



Foi um Congresso com grande discussão de ideias e muita diversidade de opiniões. Ou não.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Gay Tintin

Matthew Parris, na Times, afirma e explica porque é que Tintim é, não só um ícone gay, mas ele mesmo uma personagem gay. Um artigo genial que só ajuda a minha teoria de que será difícil nascer e crescer na Bélgica com uma identidade sexual straight & standard. Aqui ficam dois pequenos excertos (um deles provando que Snowy/Milu, o cão, é a única personagem masculina verdadeiramente heterossexual, por isso duramente reprimido pelo resto do elenco):

Billions of blue blistering barnacles, isn't it staring us in the face? Sometimes a thing's so obvious it's hard to see where the debate could start. What debate can there be when the evidence is so overwhelmingly one-way? A callow, androgynous blonde-quiffed youth in funny trousers and a scarf moving into the country mansion of his best friend, a middle-aged sailor? A sweet-faced lad devoted to a fluffy white toy terrier, whose other closest pals are an inseparable couple of detectives in bowler hats, and whose only serious female friend is an opera diva... And you're telling me Tintin isn't gay?

(...) Snowy: The only unambiguously heterosexual male mammal in Tintin's entire universe. We know that because of Snowy's tendency to be distracted by lady dogs: a tendency in which he is consistently foiled by his master and by Hergé's plot. Pity this dog, wretchedly straight and trapped in a ghastly web of gay human males. (...)

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Banda sonora



Blondie, Best Of (1981)

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Cinema pimba

Nem quero ver quem ganha o prémio para melhor filme..

Esquerda caviar

Sean Penn rouba o Óscar a Mickey Rourke e aproveita para largar o seu discursozinho polticamente correcto: pró-gay rights, pró-Obama, anti-conservadorismo. Political correctness funciona no cinema, e Rourke já se sabe que não tem essa... «qualidade».

Kate Winslet

A ausência do melhor dos melhores



Aquele que devia ter estado na cerimónia e ganhar os prémios todos com Gran Torino. Faz aqui falta o justiceiro para tirar os G.I. Joes dourados das mãos do Danny Boyle.

Fala-se japonês em Hollywood

Departures (Japão) ganha o prémio de melhor filme estrangeiro. Foi à tangente, com alguma surpresa, e Valsa com Bashir (que me impressionou) não leva nada. Não vi os outros, e por isso fico por aqui a roer-me na ignorância.

Songs of India

Mais um prémio mais específico para Slumdog. Para a música. Que é bem gira, para me descair aqui. Mas é este mesmo o grande problema de Slumdog: não se define como um «fiolme sério» o uum filme mais «exótico». The Constant Gardner conseguia «viajar» para África sem nunca cair na piada. Cidade de Deus equilibrava os dois, nas pobres favelas brasileiras. Trainspotting ficava-se pelo caricato. Slumdog Millionaire é quase uma viagem confusa entre todos estes géneros, e é por isso que falha, mesmo como entretenimento. Mas, uma vez mais, a música é muito gira.

Murphy e Jerry Lewis



É bom ver um actor cómico esquecido (injustamente) a lembrar um dos maiores actores de sempre: Jerry Lewis. Não disse de comédia, disse um dos maiores actores de sempre. Assim mesmo. Num trono e não na montra das graçolas.

Biopics e actores

Nunca repararam no padrão dos prémios de actores nos últimos anos? Em 2002, Nicole Kidman (Virginia Woolf). Em 2003, Charlize Theron (Aileen Wournos). Em 2004, Jamie Foxx (Ray Charles). Em 2005, Seymour Hoffman (Truman Capote) e Reese Witherspoon (June Carter). Em 2006, Forest Whitaker (Idi Amin) e Helen Mirren (Rainha Elizabeth II). Em 2007, Marion Cotillard (Edith Piaf).

Ou seja, os biopics são quase certinhos que acabam em Óscar. Não que as interpretações não sejam boas, mas interpretar uma figura histórica é meio Óscar. Será que este ano se foge ao hábito inócuo de premiar as «imitações» e não as criações?

Curiosamente, se ganhasse Langella era merecido. Mas, nunca é demais repetir, o prémio parece vir aí para «coroar» Mickey Rourke e Kate Winslet. E vai ser uns discursozinhos bonitos, de certezinha absoluta.

Fincher e a vitória da técnica

Benjamin Button tem varrido os prémios técnicos, como eu esperava. Aí tem sido inteiramente justo: o melhor do filme de Fincher foi precisamente a fotografia, a produção, a banda sonora, a caracterização. Muito bem ganhos, mas antecipando, provavelmente, a derrota nas categorias principais.

Segundo

Aqui Seymour Hoffman ou Heath Ledger. Qualquer outro seria uma vergonha. Hoffman porque é um grande actor num excelente papel. Ledger porque era um excelente actor num grande papel - mais do que isso, Ledger esteve assombroso como Joker. Terei de abandonar a admiração sectária por Seymour Hoffman para aceitar uma vitória merecida de Heath Ledger. Ainda hoje me lembro do Joker que ele fez.
P.S.- Cuba Godding Jr. é um pouco irritante.

Arkin

Para o Actor Secundário... É bom rever Alan Arkin.

Sorte milionária

Melhor Argumento Adaptado. O mais renhido... Atiro a minha preferência para Doubt, por todos os outros prémios que não vai poder ganhar.

Mas afinal ganha Slumdog Millionaire. Ai que giro... os indianozinhos que são tão bons a fazer filmes. Se o filme fosse 100% americano ganhava alguma coisa?

Lance Black

Curiosamente, pensei que tivesse sido Van Sant a escrever o argumento de Milk. Afinal não, foi Dustin Lance Black e merece o Óscar, apesar do discurso ter caído que nem ginjas entre o lóbi politicamente correcto.

España

A Penélope? Não vi ainda o Vicky Cristina Barcelona, mas a Penélope Cruz está ainda longe de ser a Audrey Hepburn espanhola. Suponho que seja para não deixar o Woody de mãos a abanar. Por muito cínico que pareça, é mesmo isso que acho.

Tomei

Muita gente gostou de Amy Adams em Doubt. Eu não. Está ingénua e histriónica, prestes a ter uma ataque de nervos. O problema pode até estar na personagem e não na actriz, mas essa relação é sempre noegociável. Continuo a querer que a Marisa Tomei ganhe, mais não seja porque melhorou não só como actriz mas, ainda por cima, como mulher bonita.

Jack Man

Continuo desconfiado acerca disto de porem o Wolverine a apresentar os Óscares...

domingo, fevereiro 22, 2009

Patel

Simpatizo com o Dev Patel, e não sei bem porquê. Mas uma simpatia que não vale Óscares, atenção.

Índia

Entrevistam os miúdos indianos que participaram em Slumdog Millionaire. Sinceramente, são o melhor do filme. Eles, o ambiente muito inspirado em Cidade de Deus e o pomposo Anil Kapoor, que tem a melhor interpretação num filme banal.

À superfície

Agora é o momento dos «tapetes vermelhos» e de ver quem tem o vestido mais caro, o vestido com menos roupa e mais pele, o vestido mais escandaloso, etc, etc. Tempo para os apresentadores que ainda não saíram do armário poderem opinar sobre roupa e sobre celebridades.

Óscares: LIVE from A Causa das Coisas



Hoje à noite, se o autor do blogue não for atacado pela mosca do sono, A Causa das Coisas estará ligada em directo à transmissão dos Óscares, para comentar no momento, e de sangue quente, os resultados, as surpresas e os prémios escandalosos. Já se sabe que os Óscares são, estranha e simultaneamente, os prémios menos justos e menos fiéis da indústria mas também o espectáculo favorito de quem gosta de cinema, pelas razões óbvias de se juntarem os «big movies» do ano na mesma sala. Ainda assim, tenho os meus favoritos, muito longe das circunstâncias e da possibilidade ou não de ganharem. Aqui vai um esboço de quem eu gostava que ganhasse:


MELHOR FILME- The Reader. O texto é bom, o argumento ainda melhor e é um filme que fica na memória. E um filme que deixa um eco que perdura só pode ser brilhante. O melhor do ano. Frost/Nixon, apesar de um certo «cheiro» a telefilme, também tem a minha simpatia, mas fica aquém da perfeição do filme de Stephen Daldry.


MELHOR FILME ESTRANGEIRO- Valsa com Bashir, sem dúvida. Ainda que, aqui, eu peque por dizer isto, já que não vi os outros (A Turma, consta, também poderá merecer, o que não quer dizer que ganhe). Uma nota para isto: até mesmo se Slumdog Millionaire competisse nesta categoria, perderia redondamente se houvesse justiça no mundo. Mas já se sabe que o mundo é injusto, e muito.


MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO- aqui será a luta mais renhida nas minhas preferências. Três excelentes textos: The Reader, um filme brilhante; Frost/Nixon, uma adaptação muito bem conseguida para o grande écrã, sem perder a força das personagens; e Doubt, que gostaria que ganhasse o Óscar aqui para compensar a ausência do lote de nomeados para melhor filme - transpõe uma peça genial para um filme fiel e igualmente ambivalente (só os sermões do Padre Flynn valem o boneco).


MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL- Milk é o favorito, sem pensar muito. Gus Van Sant continua a ser um dos melhores argumentistas do cinema actual. Mas WALL-E pode vir a ser a surpresa da noite e com razão: Andrew Stanton revolucionou a escrita para filmes de animação e deu uma profundidade pouco habitual a esse «lado» do cinema. Qualquer um dos dois merece.


MELHOR ACTOR- Langella ou Rourke. Frank Langella porque dá vida interior a uma figura mítica da história americana, fugindo aos clichés de interpretar personagens históricas (razão pela qual não quero que Penn ganhe mas também razão pela qual Penn provavelmente ganhará). Rourke pelas melhores razões e pelo sentimentalismo de que já falei por aqui. Mas, por favor, não dêem o Óscar ao Pitt.


MELHOR ACTRIZ- Winslet, Winslet, Winslet. Deviam poupá-la ao cansaço de ir à cerimónia e mandar-lho já pelo correio. A mulher é fantástica e mete a um canto gerações inteiras de excelentes actrizes. A concorrência é boa (Jolie na intepretação de uma carreira, que Clint lhe deu e ela não volta a ter; Streep num registo que lhe fica sempre melhor do que a de «mulher chorona») mas não sejamos complicados. O brilhantismo é de premiar ou não?


MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO- por mim ganhava sempre Seymour Hoffman (nomeado por Doubt). Mas Heath Ledger está realmente muito bem em Dark Knight (um filme que até poderia estar entre os nomeados em vez de certas banalidades), independentemente da mística que rodeia a coisa. Eu aposto em Ledger, porque merece e porque Seymour Hoffman não pode ganhar sempre.


MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA- Marisa Tomei. Nunca pensei que fosse tão boa actriz, mas afinal é e emocionou-me imenso no papel dela, rivalizando com a força generosa de Rourke. Um papel humilde, real e muito muito sentido.

Um carnaval muito português

Como todos os anos é tradição, vou ficar escondido em casa durante estes dias. Nem ponho pé fora da porta do lar. Detesto o Carnaval e as pessoas que são invadidas de um inexplicável «pé solto» e de uma alegria serôdia, tal como embirro com o Ano Novo e a «passagem de ano» pelo ambiente de falsa catárse que aterra na vida comum nesses períodos. Ainda assim, tenho tempo para navegar entre canais de televisão e ver duas reportagens: numa delas, o jornalista Pedro Moutinho põe uma cara muito grave para dar a «notícia» (notícia?) de que há pessoas que não festejam o Carnaval, mini-reportagem essa que é subtilmente intitulada «Ódio ao Carnaval» (juro que era este o título); por outro lado, várias reportagens mostram como continua cada vez mais uma festa portuguesa este nosso fim-de-semana, ao ver várias mulheres portugueses vestidas como «sambadeiras» mulatas com o corpo cheio de brilhantes a dançar em cima de carros ao som de uma música brasileira. Depois de um Carnaval cada vez mais brasileiro, de termos tido um seleccionador e jogadores brasileiros e até de termos cada vez mais crimes cometidos por imigrantes brasileiros, provavelmente será tempo de dizer adeus a Sócrates e ir buscar algum eminente político do Rio Grande do Sul. Na literatura, pelo menos, continuo a achar que Portugal está a algumas milhas de distância da criatividade brasileira.

Descanso de domingo

O jornal sindicalista A Batalha (que viveu e sobreviveu entre 1919 e 1927) explicara desta forma a sua decisão de ter como descanso semanal o domingo, o que na prática fazia com que não houvesse edição de segunda-feira: «reservamos um dia para nosso descanso - o sétimo. Também no sétimo dia, pelo que rezam as Escrituras, descansou Deus - criatura que aliás não faz parte da nossa redacção».

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Do cepticismo sarcástico



PADRE JANOVICH - Why didn't you call the police?

WALT KOWALSKI - Well you know, I prayed for them to come but nobody answered.



Christopher Carley e Clint Eastwood em Gran Torino

A crítica ao «american dream»



O sempre polémico Luís Miguel Oliveira, que se meteu recentemente na alhada de devastar o filme «do momento», Slumdog Millionaire, e ser publicamente crucificado por isso, veio agora - como outros críticos, aliás - bater no último filme de Sam Mendes, Revolutionary Road. Para explicar a «admiração fria» e «progressivamente desinteressada» que o filme lhe provoca, Luís Miguel Oliveira pergunta retoricamente e responde ele mesmo: «de onde vem o pouco entusiasmo? Diríamos que do facto de o "programa" de Sam Mendes não ir muito para além disto - uma boa caução competentemente ilustrada (o romance) e o brilhantismo dos actores tomado como "nec plus ultra"».

Ora bem, até aqui tudo bem, e uma crítica é sempre pessoal e subjectiva. Vejamos o filme e o seu suposto trunfo (de facto, até é): os actores. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. A dupla romântica do filme está brilhante. Winslet continua o seu percurso que amadurecimento artístico que a anda a elevar quase à perfeição dramática, podendo eu mesmo afirmar que ela está entre o reservado lote das minhas actrizes preferidas. DiCaprio, por sua vez, supera as expectativas: não tem o perfil esperado para a personagem, mas corresponde e supera a exigência do papel com uma energia quase sobre-humana (Scorsese fez do miúdo um verdadeiro actor). Por fim, destaque ainda para mais dois actores: Michael Shannon, Kathy Bates e Dylan Baker. Shannon porque, justamente nomeado para os Óscares, nos oferece uma composição psicológica e socialmente inadaptada capaz de rivalizar com os «grandes» de Hollywood. Bates porque, embora de forma caricaturada, cabe na perfeição na figura estereotipada da «boa vizinha», da senhora do lado dos mágicos (ou pouco mágicos, segundo Sam Mendes) subúrbios americanos. Dylan Baker o mesmo que para o estereótipo de Kathy Bates, mas neste caso em relação ao colega de trabalho de Frank/DiCaprio.

E aqui chega o outro elemento-chave da equipa que nos traz Revolutionary Road: Sam Mendes. O realizador britânico é um grande director de actores. Sem dúvida. Tem um currículo no teatro inglês e formação também na área, e os seus sets reflectem-no. Mas não só. Sam Mendes também é um dos melhores realizadores de Hollywood, se descontarmos a relativa «juventude» dos seus dez anos de cinema e o Óscar. Consegue uma ambiência de sombras, luz e planos que vai além da sua suposta «especialização» em arte dramática típica de teatro britânico e, obviamente, muito além da mera capacidade de direcção de actores.

Revolutionary Road consegue ser um filme muito bem filmado, com excelentes actores, que navega em redor da capacidade ou incapacidade de nos relacionarmos uns com os outros, e em redor de como se pode desistir de viver para sobreviver, neste caso para existir numa pacata vivência de subúrbio. Que é como se canta naquela música de Malvina Reynolds que dá tema a Weeds: «Little boxes on the hillside, Little boxes made of tickytacky / Little boxes on the hillside, little boxes all the same / There's a green one and a pink one and a blue one and a yellow one / And they're all made out of ticky tacky and they all look just the same». Aqui, no filme de Mendes, também há um despertar momentâneo desse sonho americano, ou pesadelo americano, em que tudo parece igual, e em que a perfeição da igualdade soa a mediocridade. Despertar esse que surge na figura de Kate Winslet mas que, lentamente, se encaminha para a tragédia, num momento alto digno das melhores tragédias gregas. Há aqui um encontro de American Beauty (realizado por Mendes em 1999) com Little Children (filme brilhante de Todd Field, de 2006), no qual, por acaso ou sem coincidência, também brilha Kate Winslet.

Ora, voltando à crítica de Luís Miguel Oliveira, é fácil ver que a única razão pela qual não dá um pouco mais de crédito a Revolutionary Road prende-se com a embirração que tem por Sam Mendes, que, segundo ele, anda «ainda à boleia do sucesso de Beleza Americana» a por isso continua a «ser sobrevalorizado». Claro que isto para mim é escandaloso, já que, muito ao contrário do crítico de cinema (e se calhar até de muitos mais, se me puser a procurar), acho Road to Perdition um dos filmes mais subvalorizados dos últimos dez anos (e que muito estimo, pessoalmente), que ganha apenas um Óscar, se não me engano, pela fotografia - aí sim, talvez ainda na ressaca do Óscar de Sam Mendes de 1999. Mas, tendo em conta alguma aversão dos críticos à mistura entre teatro e cinema, e a visível aversão de Oliveira a Sam Mendes lui-même, Revolutionary Road (como Road to Perdition) chega-me como um dos melhores filmes do ano, pelo menos bem acima do banal Benjamin Button do Fincher. Ainda que me faltem ver alguns candidatos ao Óscar, não me caía o Carmo e a Trindade se Sam Mendes levasse todos os Óscares para os quais foi nomeado.

P.S.- não tenho qualquer animosidade habitual ou generalizada para com o Luís Miguel Oliveira. Pelo contrário, concordo completamente com a sua escolha (o «Devia ganhar», e não o «Vai ganhar») para o Óscar de melhor actriz secundária: Marisa Tomei, que está absolutamente fantástica em The Wrestler.

Milenarismo



(via O Cachimbo de Magritte)

Dom da ubiquidade



Agora parece que Joana Amaral Dias está em tudo o que é canal, a discutir sobre tudo o que mexa. Óptimo, nada contra. Muita gente identificar-se-á com ela e eu, como todos os homens, agradeço a imagem da Joana Amaral Dias no meu televisor. Mas, tendo em conta o «mundo moderno» e a necessidade da perfeição estética, por vezes interrogo-me se a sua presença na televisão não depende, apenas e só, de poder ser a «imagem no televisor» dos portugueses. Eu acho que sim.

P.S.- mas isto, admito, pode muito bem ser o mero ressabiamento de um feio.

Símbolos

Talvez o império, pensou Kublai, não seja mais que um zodíaco de fantasmas da mente.
- No dia em que conhecer todos os símbolos - perguntou a Marco, - conseguirei possuir o meu império, finalmente?
E o veneziano: - Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos.


Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

sábado, fevereiro 14, 2009

Minguante 13



Já saiu o novo número da Minguante (o número 13 numa «sexta-feira 13»). Entre outros, com um modesto texto meu, um exercício torpe de escrita travestido de literatura.

Estaline face a Hitler: o babuíno passivo

O comportamento de Estaline no princípio de 1941 apresenta fortes semelhanças com uma certa manobra das práticas babuínas. Se um babuíno fraco é ameaçado por um babuíno forte oferece por vezes, simbolicamente, o traseiro, como se para sexo passivo. O babuíno fraco está na realidade a mostrar tino psicológico. Estaline tentou-o, mas só ganhou aquilo que parecia estar a pedir. Talvez ele fosse também meio babuíno, meio avestruz e tivesse a impressão de que, se não pudesse ver a realidade, então a realidade não poderia vê-lo.

Martin Amis, Koba o Terrível

As coisas que desaparecem

Talvez tudo já esteja secretamente perdido de antemão, num qualquer lugar remoto. Ou então existe um sítio onde todas as coisas desaparecem, fundindo-se umas nas outras, até formar uma única imagem. E, à medida que vamos vivendo, mais não fazemos do que descobrir - puxando-as para nós, umas atrás das outras, como quem desenrola um fio muito fino - tudo o que ficou para trás. Fechei os olhos e esforcei-me por me lembrar do maior número possível de coisas belas que tinham desaparecido da minha vida. Esforcei-me por chamá-las a mim, retê-las entre as mãos, mesmo sabendo que asua existência seria efémera.

Haruki Murakami, Sptunik, meu amor

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Perestroika

Chegou ao ponto de não-retorno: estantes cheias, armários cheios, topos de secretárias e armários cheios. De livros. Sou obsessivo e sei sempre onde tenho cada livro em particular. Mas há alguns dias chegou ao fim a planificação do espaço de arrumação desses livros. Em minha casa, a organizadíssima «URSS do papel» chegou ao fim. Ainda ontem queria folhear um Calvino antigo (só porque sim) e fui dar com ele encostadinho ao Lobo Antunes (discrimino nas letras e a lusofonia é categoria à parte). Chegou a hora de pilhar o espaço que cabe à roupa, aos talheres, ao diabo. É o caos. O fim.

Mestre Clint #2



Changeling (2008), de Clint Eastwood

Mestre Clint #1



Gran Torino (2008), de Clint Eastwood

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Dinamismo e horror

A propósito da União Soviética de Lenine e Estaline, Martin Amis cita Martin Malia, ou seja: que não é de um momento para o outro que se entende «a extraordinária combinação de dinamismo e horror que caracterizou a experiência soviética». É a conjugação entre a miragem do progresso (miragem perdida algures na lama dos gulags) e o terror exercido sobre quem atrasava a máquina comunista que impressiona qualquer um. A desumanidade do projecto impressiona qualquer um, tal como não se consegue desviar o olhar ao ver um tornado, tal o fascínio pelo horror de uma visão destas.

Um David Fincher ingénuo



Quando, há quase um ano, me veio a notícia de que David Fincher preparava um novo filme, fiquei curioso. Curiosidade essa que aumentou quando me actualizei acerca do tema: uma história de Scott Fitzgerald acerca de um homem que nascia velho e rejuvenescia com o passar dos anos, contrariando a tendência natural do envelhecimento. «Brilhante», pensei eu. A bizarria da situação combinada com a visão negra de Fincher poderia resultar num bom trabalho. Poderia. Enganei-me, não resultou.

The Curious Case of Benjamin Button é um filme muito fraco, uma verdadeira desilusão. Beneficia do «calor do momento» que os Óscares trazem, o que claramente o sobrevaloriza, mas não passa de um desperdício de um belo conto do universo do fantástico. Em vez de enveredar por um tratamento de imagem e da história mais «cinzentos», como é seu costume, resolveu criar uma obra mais «luminosa», uma epopeia bonita sobre os trabalhos da vida de Benjamin Button (Brad Pitt), nascido velho e abandonado pelo assustado pai, da forma mais dickensiana possível (no conto é diferente).

The Curious Case of Benjamin Button é uma espécie de saga de um homem «curioso» (como o próprio título indica) que, precisamente por surgir na história como uma memória de Daisy (Cate Blanchett) e autor de um diário que a filha desta (Julia Ormond) descobre e lê, permite que haja um certo véu de dúvida, de fantástico, sobre o seu passado. Pelo menos seria essa a ideia. Mas não funciona. Em Big Fish, Tim Burton conseguia misturar realidade e lenda muito bem, numa obra sobre a imaginação. Em Benjamin Button, a mesma técnica narrativa talvez fosse escusada, até porque não traz melhoria alguma à história.

O filme resulta assim numa espécie de reprise de Forrest Gump, como bem se apontara noutro blog: um protagonista naïve atravessa algumas etapas históricas da América (nasce no dia do armistício da Grande Guerra, por exemplo, e participa na Segunda Guerra Mundial) e, embora não tenha qualquer atraso mental, fá-lo com uma expressão algo apreensiva de quem não percebe o que anda cá a fazer. Como de desiludido ou perdido não tem nada, apenas se depreende que Fincher (ou Eric Roth, que adapta o argumento) quis deixar uma imagem de um Brad Pitt tão bondoso quanto ingénuo. Não é realmente a direcção de actores mais bem conseguida.

Com múltiplas nomeações para os Óscares, de facto só me confirma (nada de novo) que estes prémios não distinguem a qualidade mas o status quo. E é, de facto, o status quo que segura a honra deste filme. Brad Pitt é competente mas fraquinho (para quê a nomeação para o Óscar?); Cate Blanchett, apesar de estar bem, repete uma personagem que me parece já ter visto algures no seu currículo; Julia Ormond é das mais competentes no filme; e a nomeada para Melhor Actriz Secundária, Taraji P. Henson, com todos os seus maneirismos, fica a milhas de distância de Marisa Tomei (que está quase perfeita em The Wrestler). A David Fincher, que tem uma carreira sem nódoas, desculpar-se-á este deslize na qualidade, já que The Curious Case of Benjamin Button é, de longe, o filme mais fraco da sua carreira. Salva-se a imagem, a banda sonora e, claro, a caracterização, que não passará ao lado de ninguém e, a sermos justos, já terá o Óscar reservado em seu nome.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O absurdo do Estado que tudo vê

No momento em que escrevo este post, a petição contra os chips de vigilância nos automóveis, lançada há uns meses atrás, já foi assinada por 2.025 pessoas. O que só prova que os portugueses estão mais acordados para a liberdade do que se julga e com pouca vontade de caminhar para a construção de uma estrutura de Estado policial. Que assim continue e se aborte um projecto-lei absurdo.

domingo, fevereiro 08, 2009

No leitor de DVD

Mickey Rourke



Se Mickey Rourke vier a receber um Óscar não me admiraria. Não apenas pela sua prestação em The Wrestler (um excelente filme sobre a passagem do tempo, sobre o declínio e sobre a perseverança), mas pela sua carreira. Não que Rourke tenha tido uma carreira brilhante. Longe disso, Mickey Rourke teve até uma das carreiras mais subaproveitadas na história recente do cinema, situação na qual teve grandes culpas no cartório. No entanto, aqui sublinho o «subaproveitamento», já que sempre achei que poderia ter sido um dos maiores actores da sua geração. Com The Wrestler, completa-se uma recuperação gradual de um actor que ainda pode vir a dar muito ao cinema - uma recuperação semelhante deu-se com a colaboração entre John Travolta e Tarantino. Se o Óscar não for para o surpreendente Frank Langella, ficaria muito desiludido se não premiasse Mickey Rourke. No fundo, The Wrestler é, mais do que um filme inspirado pelo wrestling, uma obra inspirada pela vida de Mickey Rourke: apesar do declínio quase insuportável, Rourke teve a capacidade de relançar uma carreira, na qual os fãs sempre o esperam. Carreira essa que, quem sabe, ainda pode vir a ser brilhante como nunca foi. A minha escolha sentimental do Óscar vai, sem pensar muito, para Mickey Rourke.

sábado, fevereiro 07, 2009

Everything but a saint

Quando tiver filhos e quiser que eles comam a sopa toda, hei-de lhes contar histórias sobre o Augusto Santos Silva.

Film noir no liceu



A maior parte dos espectadores terão na memória Joseph Gordon-Levitt do papel de rapazola estouvado de 3rd Rock from the Sun, uma imagem que seria, à partida, difícil de sacudir. E com razão, pela exagerada dose de adolescência aplicada na interpretação (apesar da série ter qualidade). Mas os mais atentos já se esqueceram «desse» Gordon-Levitt. O rapaz é, hoje em dia, um actor em potência. Em Mysterious Skin (2004), dizem, surpreendeu tudo e todos. Em Brick, filme de 2005 realizado por Rian Johnson, confirma a sua promoção ao universo do cinema sério, adulto e negro.

O filme de Rian Johnson é uma criação muito perfeitinha, uma pérola guardada na arca no que toca ao público português mas que não passou despercebido nos países civilizados, apesar da enorme aura de «independent movie». Baseado nos romances policiais de Dashiell Hammett, Johnson constrói um enredo perfeito para um filme de detectives mas desloca-o para... um liceu. Aí, surge a personagem perfeita para protagonizar a história: Brendan (Joseph Gordon-Levitt), um adolescente misantropo, desiludido, pessimista, esperto e atrevido. O sarcasmo das linhas de Brendan, claramente exagerado, funciona lindamente nesta adaptação, e Gordon-Levitt dá a postura adequada à personagem.

The Virgin Suicides encontra Miller's Crossing, Bogart, Nicholson e os irmãos Coen numa das melhores interpretações modernas do género film noir, e o resultado é um surpreendente filme negro que roda em volta da maldade e da fraqueza humana, das ligações perigosas e das relações que não se podem esquecer, mais do que rodar em volta de uma história demasiado complicada. Simples, humilde e exemplar na filmagem. E Gordon-Levitt convence com o seu pessimismo - assustando até pelo seu «crescimento» rápido no cinema - numa interpretação cheia de angústia que parece vir a ocupar o lugar do desaparecido Heath Ledger em papéis do género (na minha opinião, Gordon-Levitt é melhor do que Ledger era com esta idade). Quatro estrelas para Levitt. Cinco para Brick. Brilhante.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O Abismo da Educação



As recentes greves e manifestações de professores contra as reformas do ensino não são uma mera reacção directa à revisão do estatuto do docente, mas uma consequência natural da destruição do ensino em Portugal nos últimos trinta e cinco anos.

O ser humano sempre teve uma visão limitada. Sejamos honestos: antropologicamente falando, o homem está condenado ao fracasso. Por mais que falhemos, por mais que tropecemos, insistimos na teimosia de não aprender com os erros. Voltamos sempre a cair e a tropeçar nos mesmos buracos de sempre, culpando a lotaria divina sem nunca compreendermos que o buraco sempre esteve no mesmo sítio, desafiando a nossa inteligência. Desta forma, por mais reformas que façamos, nunca conseguimos realmente mudar nada, porque voltamos sempre ao erro anterior. Corrige-se um erro criando um novo.

O economista Henry Hazlitt atribuía as causas dos maiores fracassos económicos à incapacidade que os homens – e em especial os políticos (sobretudo em ano de eleições) – têm de ver para além das causas imediatas. Ou seja, uma política tentava resolver uma lacuna sem ninguém se aperceber de que os efeitos secundários dessa mesma política abriam uma crise ainda pior, que só seria realmente visível após alguns anos. É isso que acontece, precisamente, com o ensino em Portugal: o «vírus» dos efeitos secundários das políticas de educação. Pior do que a «crise do ensino» que os professores apontam, é a «crise da educação» que está nas fundações da sociedade portuguesa.

A questão tem sido completamente centrada nas exigências dos professores e na «lutazinha» política entre o Ministério da Educação de Maria de Lurdes Rodrigues (figura que é para «queimar» depois de tudo isto, dando a cara pelo autoritarismo do governo Sócrates), quando devia ser a oportunidade ideal para reflectir sobre o que queremos para o futuro das escolas em Portugal. Os professores acham que lhes estão (a eles, docentes) a retirar dignidade, protecção, valor e poder. Como já é hábito em Portugal, gritam porque vêem o vizinho gritar mas sem nunca enxergar o que está mesmo à frente dos seus olhos: já não têm nada. O governo não pode retirar o que já não há. A revisão do estatuto dos docentes, e até do estatuto dos alunos, não é mais que a tentativa de «lavar a cara» – estatisticamente falando – da Educação em Portugal face à União Europeia e fingir que se faz obra.

As relações entre professor e aluno foram sendo destruídas ao mesmo ritmo que se destruía a relação entre escola e sociedade, retirando àquela a capacidade de triagem. A fórmula para isso é mais simples que estrelar um ovo: os outros países da União Europeia, aparentemente, tinham mais licenciados que Portugal. Logo, isso faria dos outros países bastiões da modernidade enquanto Portugal continuaria a ser um país terceiro-mundista. Como é óbvio, as luminárias lusitanas resolveram curar a doença que afligia o nosso país. Como fizeram? Fácil, baixaram a exigência da avaliação de tal forma que até um adulto com um desenvolvimento mental de uma criança de cinco anos conseguiria chegar à faculdade. Nessa misturada entre bons alunos, alunos médios e lastro, os professores acabavam por passar toda a gente, não fosse a CEE achar que nós somos um país de agricultores, operários e pescadores. Após as machadadas que se deram nos anos 70 à exigência da educação, o ambiente de laxismo geral facilitou.

A responsabilidade de aprender – apesar de quase desaparecida – foi então sendo progressivamente passada dos alunos para os professores, leais funcionários públicos ao serviço do Estado português, menino bonito da CEE e da UE que, regularmente, entregava em Bruxelas os relatórios do «progresso» social e mental dos conterrâneos, pela mão de Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso e, obviamente José Sócrates, pai do «Portugal do Futuro». Aos professores cabia já a tarefa, não de ensinar, mas de formar os alunos, que é o mesmo que lhes dizer que eles têm a obrigação de os passar. A terminologia, se estivermos atentos, também tem evoluído no mesmo sentido, com um medo crescente de falar em ensinar, educar e exigir. O ensino tornou-se um dado adquirido e até a dormir se consegue chegar ao 12º ano, que aparentemente será o novo nível de ensino obrigatório. Muito brevemente, ter uma licenciatura será tão natural e inevitável como há uns anos era ir à tropa.

Para conseguir esse objectivo estatístico, têm-se feito coisas ridículas. Nem nos passa pela cabeça. Muito recentemente, soube que há escolas públicas que recusam aulas de apoio extra-curriculares a alguns alunos para as disciplinas mais problemáticas, porque «há quotas» e um «limite máximo» para os alunos que podem receber esse apoio, não vá a UE pensar que somos um país de burros. É sabido também que é bastante generalizada a pressão sobre os professores para dar notas altas, independentemente da correspondência real com o trabalho dos alunos (a avaliação dos professores tendo em conta as notas que davam é um sinal indesmentível dessa situação). Para além disso, andamos a oferecer, nos Institutos de Emprego, diplomas de 9º e 12º ano a pessoas após um ou dois meses de actividades ridiculamente simples, que deviam ofender a inteligência dos discentes.

Em suma: se quisermos realmente salvar o futuro das novas gerações de Portugal, é obrigatório rever todo o nosso ensino. Será que temos capacidade para termos tantos licenciados sem capacidades? Será que há mercado para dar vazão a tanta gente que não sabe porque é que tem um curso superior? Será que somos assim tão inseguros que precisamos de mostrar a Bruxelas que temos muita gente com cursos? Por um lado, a ideia de um ensino democrático tem sido mal interpretada, confundindo os portugueses a igualdade de oportunidades com a igualdade completa de habilitações, que entope e esgota o mercado de trabalho. Por outro, a necessidade de ser um país do «primeiro mundo» tem feito com que os sucessivos ministros da Educação reduzam os professores a funcionários da «modernização de Portugal» e os alunos a números. Maria de Lurdes Rodrigues, por muito patética que seja a sua batalha pela afirmação, não é mais que a ponta visível de um longo icebergue de trapalhadas ignorantes. Com políticas destas, quem perde hoje com isso é a Educação, são os professores. Mas amanhã quem perde são os alunos e, obviamente, o país.

Publicado no Setúbal na Rede, 5/2/2009

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Pensamento do dia

Quando se fala nos melhores ensaístas dos últimos duzentos anos, esquece-se sempre Freud. É um erro monumental. Freud foi um dos antropólogos, psicólogos, filósofos, pensadores, ensaístas da época contemporânea e talvez um dos homens que mais influenciaram o chamado «mundo moderno». Se deixarmos de o considerar um cientista datado e passarmos a vê-lo como um pensador intemporal, só teremos a aprender com uma leitura das obras do austríaco.

Half Nelson


Ryan Gosling

Dan: The sun goes up and then it comes down, but everytime that happens what do you get? You get a new day.

Half Nelson (2006), de Ryan Fleck

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Mind police

O facto de se terem multiplicado manifestações de simpatia de pessoas mais idosas para com o Primeiro-Ministro só demonstra, pelo tom, o sucesso de Salazar. Ao se dizer que «não se deve incomodar o senhor Primeiro-Ministro» ou mesmo que as «forças ocultas» estão a fazer uma «campanha negra» contra Sócrates, surge a conclusão de que António de Oliveira Salazar foi um político perfeito, o mais bem sucedido ditador de Portugal porque conseguiu isto: que todos os portugueses passassem a ter um polícia dentro de si mesmos. E isto, pelos vistos, não desaparece em 40 anos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Banda sonora #2



Vampire Weekend, Mansard Roof

Banda sonora #1



Soko, My Wet Dreams

Soko



(descoberta via menina limão)

Os «quase-assassinatos»

A tentativa de José Sócrates se auto-martirizar neste processo faz lembrar uma frase de The Interpreter (filme de Sydney Pollack), em que Kuman-Kuman diz, acerca do seu adversário político e ditador de um país africano: «An almost-assassinated leader gets so much credibility, so he can stay in power and gets to stick around to enjoy it». É importante ter atenção para não ver um suspeito de um processo ser reeleito para o governo com o estandarte de mártir.

A aventura de escrever uma biografia

A ler o artigo de Pacheco Pereira no Público de 25/01/2009, disponível integralmente no Estudos Sobre o Comunismo. Fica aqui o excerto inicial:

Muitas vezes digo aos meus amigos que as peripécias que passei e passo para escrever a biografia de Álvaro Cunhal davam um livro à parte, com todos os ingredientes de um romance entre o Le Carré e uma coisa mais pícara, ou seja, uma combinação quase impossível e muito improvável. Desde início que sabia que a iniciativa seria dificultada pelo próprio Álvaro Cunhal e que este colocaria todos os obstáculos possíveis, ele e o PCP. Sabia também que escrevia no fio de uma navalha muito especial, a de estar a biografar alguém que estava vivo, que era muito hostil à iniciativa (e ao autor) e que podia com muita facilidade desclassificar a seriedade do trabalho. No fundo, a vida era dele e bastava Cunhal dizer que meia dúzia de afirmações eram erradas ou “falsas” para criar uma imagem de falta de rigor. Esta possibilidade era tanto mais real quanto eu escrevia sobre uma história em grande parte por contar, sem fontes secundárias, com fontes primárias de muito complexa interpretação (como as fontes de polícia, ou os arquivos soviéticos), mas em muitos casos sem fontes nenhumas e com escassíssimos testemunhos. Cunhal nunca o fez e soube mais tarde por testemunhos de pessoas que o contactaram nos últimos anos da sua vida, que ele elogiou a biografia que nunca desejara que fosse escrita. (...)

José Pacheco Pereira, Público/Estudos Sobre o Comunismo

A «campanha negra» e o político «idóneo»

É quase humor negro, e não uma «campanha negra», o que se tem passado em Portugal em relação ao «caso Freeport». A propaganda oficial do governo espalha a mensagem de que há uma conspiração a formar-se há muito contra um grande e sério líder político que, assim, tem de enfrentar os «poderes ocultos», segundo palavras do próprio José Sócrates. O que o engenheiro Sócrates não se lembra, ou não que quer lembrar, é que os «poderes ocultos» são aqui o Ministério Público, o último bastião da Justiça (espera-se). Assim, usando o seu direito de tempo de antena, Sócrates surge repetidamente na televisão para tentar virar o bico ao prego, afirmando-se inocente, vítima de uma «cabala» (ou não fosse ele elemento do Partido Socialista nos últimos dez anos) e jurando lutar contra os «que o querem derrubar».

Pior ainda do que tudo isto, é a Procuradoria Geral da República surgir a público para afastar suspeitas sobre o quer que seja. Ora, que eu saiba, a PGR é um órgão de justiça e não de «situacionismo» com o objectivo de garantir a ordem e a estabilidade de qualquer governo. A falta de vergonha multiplica-se pela sociedade portuguesa e infiltra-se em tudo e todos, como um vírus.

O que me estranha é que o comum dos portugueses, que suponho tenha vivido em Portugal nos últimos anos, não ligue as peças da maneira mais racional: Sócrates tem um historial de ligação (mesmo que não directa) a «facilitações» dos processos, e isso até é óbvio com a sua ideia de suspender a actual lei dos concursos públicos «para acelerar». É quase uma questão de carácter, de uma personalidade impaciente, e não, como muita gente já repete (seria ver hoje o Opinião Pública na SIC Notícias) as palavras paranóicas de José Sócrates, de um ataque a uma «pessoa idónea».

quinta-feira, janeiro 29, 2009

O que é mais importante?

Um dos problemas da adaptação de livros para o cinema é a necessidade de apelar ao público. O que poderia ser uma muleta para criar excelentes obras de cinema, muitas vezes pode levar à mutilação parcial da «lição» de um livro. O livro Relatório Minoritário, de Philip K. Dick, é um desses casos. Por um lado, temos um autor que se pautava pela paranóia pessoal e que esteve perto da esquizofrenia, mas o reflexo literário dessas condições resultara num exercício de reflexão essencial do século XX: o questionamento da necessidade e impulso de controlo das sociedades modernas. Por outro lado, temos a adaptação homónima que Steven Spielberg fez do livro, com Tom Cruise como protagonista, que, embora seja um filme muito bom (ao nível de Blade Runner, curiosamente também do mesmo escritor), sente a necessidade de romancear e criar uma rede de sentimentos que «humanize» a obra, apesar de este sentimentalismo ser comum em Spielberg. A nota negativa é que se perde um pouco a centralidade absoluta do dilema que é colocado a John Anderton: «Tens de ser preso para que a Agência Precrime possa sobreviver. (...) O que é que tem mais significado para ti: a tua segurança pessoal ou a existência do sistema?». E a questão derradeira é esta: Hollywood, no meio da acção de um filme, baralha o espectador e esquece-se de lhe fazer essa mesma pergunta, que é a mais importante do livro de Philip K. Dick. O que é mais importante: a segurança individual ou a segurança da sociedade?

Nixon contra o mundo



Em 1977, a América (e uma boa parte do mundo) não se tinha ainda esquecido do escândalo que abalou as fundações do seu sistema democrático: Watergate. O presidente Richard Nixon (que apresentara por isso a sua demissão em 1974) tinha abusado do poder de forma clara para obter vantagem política e, pior do que isso, tinha encoberto os autores do assalto ao malogrado edifício Watergate, varrido as pistas que o ligavam ao assunto e assim havia saído ileso e sem julgamento de um caso criminal. Pior do que isso, para indignação geral, Gerald Ford, o seu vice que assumiu a presidência, concedeu-lhe um perdão total. Para a maioria das pessoas, Nixon é um criminoso em fuga. É aí que começa Frost/Nixon, recente filme de Ron Howard.

É por isso que David Frost (Michael Sheen), um apresentador britânico de talk-shows, decide apresentar um projecto ao seu produtor: entrevistar Richard Nixon, o homem e o político. Versado em fazer programas recreativos mas eficazes, Frost vê aí o show ideal para angariar audiências, conseguir um resultado histórico de popularidade e, inevitavelmente, ajudar a sua carreira. Apoiado pelo produtor, os dois lançam-se ao trabalho nos EUA, comprando a entrevista a Nixon (que pediu 600 mil dólares) e tentado obter financiamento televisivo para cobrir as despesas, que já ascendiam a alguns milhões. Ninguém acredita em Frost e, por isso, ninguém acredita no projecto. E este é um ponto importante do filme: o desprezo para com Frost.

Richard Nixon (interpretado por um surpreendente mas fenomenal Frank Langella), a determinado ponto no filme, faz uma chamada a David Frost, antes da última entrevisa entre os dois. Aparentemente, estava bêbado (não se lembrará de nada) e isso permite a Frost entrever um pouco da verdadeira natureza de Nixon, homem muito complexo e com uma agressividade latente mas violenta. O ex-presidente compara-se a Frost, dizendo que «That's our tragedy, you and I, Mr. Frost. No matter how high we get, they still look down at us». O homem comum esticando-se para o estrelato, mas que é atacado por todos os lados. É assim que Nixon vê a realidade, e é assim que desenvolve a sua personalidade vingativa. Em grande parte, a empatia entre ambos nasce daí, dessa visão.

Acerca da acuidade histórica do filme, não se pode pedir muito mais. Para além da introdução totalmente enquadrada por imagens reais, entra-se no ambiente da época suficientemente convencido de que ninguém gosta de Nixon mas também ninguém se esquecera. E isto é muito bem conseguido pelas personagens políticas de Oliver Platt (Bob Zelnick) e Sam Rockwell (James Reston, Jr.), este último mais histriónico na acusação de Nixon e na fúria justiceira. Kevin Bacon faz o contraponto, encarnando Jack Brennan, a típica figura sombria da Casa Branca, ex-militar, aide-de-camp do ex-presidente e sua voz da consciência, por vezes roçando a manipulação completa da figura nixoniana.

Mas não se deve ser «historiador» ou «jornalista» na apreciação do filme. Frost/Nixon é uma obra de ficção, um pequeno spin-off da realidade - que confunde os espectadores acerca de qual será a parte ficcionada. É neste curto espaço da ficção que se desenrola a espectacular chamada telefónica nocturna de Nixon para Frost, num dos monólogos mais memoráveis dos últimos anos e que será, certamente, a punchline para o Óscar surpreendente para Frank Langella (se não premiar o também surpreendente Mickey Rourke em The Wrestler). Os menos ingénuos compreenderão que o timing deste filme estará, certamente, em linha com os sentimentos de algumas pessoas face a George W. Bush: houve quem quisesse levar Bush «à justiça» pelos «crimes de guerra» e pelos abusos de poder, e Ron Howard, ainda que apoliticamente (não há qualquer intenção ou orientação política definida), aproveita para transpor para o cinema a excelente peça de Peter Morgan (de 2007) num filme mais de interpretações do que propriamente político.

É o «duelo» (Nixon/Langella dixit) entre Nixon e Frost que sustenta todo o filme, com uma confrontação que deita energia por todos os poros. Sheen, embora não leve a vitalidade do verdadeiro Frost para a tela, consegue apanhar alguns tiques e jeitos expressivos do jornalista, que garantem a caracterização de uma personagem tout court, com fragilidade, defeitos e sentimentos. O mesmo faz Frank Langella com a sua interpretação de Richard Nixon, dando-lhe uma profundidade de personalidade que esconde tanto o abismal medo do fracasso, como a extrema agressividade que Nixon (pelo menos a personagem, embora a figura seja igual, para dizer a verdade) esconde para com os seus rivais e adversários políticos. Kevin Bacon tem, como em Mystic River, mais um excelente supporting act, que será uma vez mais relegado para segundo plano pela contenção. Frost/Nixon, por mil e uma razões mas sobretudo pelo magnetismo da interpretação de Langella, é um dos melhores filmes do ano.

domingo, janeiro 25, 2009

Estaline e o pacto com Hitler

- Como é que isto pode ter acontecido? - perguntou ela a Sam. Estavam na 8th Street, num sítio chamado Barclay's onde jantar custava noventa cêntimos em vez dos sessenta e cinco da cantina da universidade mesmo ao lado. A Village estava estupefacta, esquadrinhava a mente de Estaline, lutando para não desistir dos sovietes. Para ela, Estaline ter-se aproximado de Hitler era como se Deus fizesse sexo, comesse e se peidasse. Os sovietes tinham sido a oposição sublime à West End Avenue, aos tapetes e às baixelas de prata e à futilidade estéril da classe média citadina.

Arthur Miller, Uma Rapariga Simples

quinta-feira, janeiro 22, 2009

segunda-feira, janeiro 19, 2009

A úlcera de Maynard



Como é possível que só tenha descoberto a qualidade de Dennis McShade /Dinis Machado nas últimas semanas? Requiem para D. Quixote, ainda melhor do que Mão Direita do Diabo, é um dos romances mais bem construídos da literatura moderna portuguesa. Não pela profundidade nem pelo «legado» que deixa, mas pelos diálogos que têm uma rara fluidez e honestidade (fico mesmo a acreditar que há pessoas dentro do romance, e que comunicam de facto) e pela inteligência com que ironiza um género - o policial - e alguns estereótipos da literatura, como o misantropo ou o charlatão. Se a minha própria úlcera alguma vez crescer, que ao menos eu conviva com ela com a mesma classe literária que Peter Maynard convive com a sua.

Passos Coelho e Di Maria

Passos Coelho é como Di Maria no Benfica: obviamente, não é um pé torto como Binya ou uma nódoa como Balboa, e até sabe fazer umas fintas e marcar uns golos bonitos. Mas como a comunicação social e quem só vê os dois minutos dos resumos dos jogos pensam que ele é um génio, há uma certa pressão para pô-lo a jogar. No entanto, como ele não faz mais do que uns meros fogachos, a sua entrada na equipa, embora rendendo um outro golo de vez em quando e um outro momento mais espectacular, significa, na maior parte do tempo, que o Benfica joga com um a menos (a maior parte das vezes que a bola vai parar aqueles pézinhos, acaba por ser igual a fazer um passe para o adversário). E se o Benfica até pode lucrar com a ilusão de que Di Maria é um grande jogador, vendendo-o ao Real Madrid (que tem o triste hábito de cair nestas esparrelas), o PSD só tem a perder com a injustificada atenção de que Passos Coelho é alvo.

Bruno Alves, Desesperada Esperança, 19/01/2009

domingo, janeiro 18, 2009

Guerra e memória



Valsa com Bashir (2008), do israelita Ari Folman, é um filme de animação muito bom que tem pouco a ver com os objectivos que muitas animações têm: a de entreter. A animação em Valsa com Bashir é uma forma brilhante de lidar com os desafios de uma história que questiona a memória e a representação mental de experiências marcantes ou mesmo traumáticas. É mais fácil, real e confuso a narração da experiência da guerra através da animação, já que a confusão entre o que foi real (memória) e o que é sonho (representação, trauma) funciona na perfeição.

Ari Folman, realizador, argumentista e co-protagonista do filme, encontra-se num bar com um velho amigo, Boaz, que lhe conta um pesadelo que tem: todas as noites 26 cães raivosos e agressivos correm pelas ruas à sua procura, derrubando tudo à sua passagem no intuito de o encontrar. Acabam por concluir que estes 26 cães mais não são do que os cães que Boaz matou em missões na guerra do Líbano de 1982, para os impedir de ladrar e assim soar o alarme da entrada das tropas israelitas nas aldeias. Este é o mote para o começo da busca de Ari Folman (que realmente participou nessa campanha) por uma recuperação das memórias da guerra, que perturba muitos dos homens que estiveram no Líbano em 82.

A história de Valsa com Bashir é, de facto, verdadeira, já que se baseia num facto real: a campanha de 1982 no Líbano para destruir bases de lançamento de mísseis. Mais do que isso, é a veracidade dos testemunhos dos entrevistados por Ari Folman, que não são apenas personagens mas amigos e camaradas reais de Ari na guerra, que dá o tom à história e pode levar muita gente a considerar o filme uma crítica à política externa e de defesa de Israel ou, até, uma crítica anacrónica ligando a Israel de 1982 à de 2008-09. O filme não deve ser visto como tal. O tema não é a política mas a guerra; não são os inimigos mas as vítimas inocentes da guerra; nem sequer a velha história do David palestiniano e do Golias israelita, mas sim a guerra e a violência vistas por quem esteve no meio delas. A memória e os truques que ela prega são o grande tema transversal neste excelente filme de Ari Folman, claramente acima da média e provável favorito a vencedor de pelo menos um Óscar (de melhor filme estrangeiro).