quinta-feira, fevereiro 19, 2009

A crítica ao «american dream»



O sempre polémico Luís Miguel Oliveira, que se meteu recentemente na alhada de devastar o filme «do momento», Slumdog Millionaire, e ser publicamente crucificado por isso, veio agora - como outros críticos, aliás - bater no último filme de Sam Mendes, Revolutionary Road. Para explicar a «admiração fria» e «progressivamente desinteressada» que o filme lhe provoca, Luís Miguel Oliveira pergunta retoricamente e responde ele mesmo: «de onde vem o pouco entusiasmo? Diríamos que do facto de o "programa" de Sam Mendes não ir muito para além disto - uma boa caução competentemente ilustrada (o romance) e o brilhantismo dos actores tomado como "nec plus ultra"».

Ora bem, até aqui tudo bem, e uma crítica é sempre pessoal e subjectiva. Vejamos o filme e o seu suposto trunfo (de facto, até é): os actores. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. A dupla romântica do filme está brilhante. Winslet continua o seu percurso que amadurecimento artístico que a anda a elevar quase à perfeição dramática, podendo eu mesmo afirmar que ela está entre o reservado lote das minhas actrizes preferidas. DiCaprio, por sua vez, supera as expectativas: não tem o perfil esperado para a personagem, mas corresponde e supera a exigência do papel com uma energia quase sobre-humana (Scorsese fez do miúdo um verdadeiro actor). Por fim, destaque ainda para mais dois actores: Michael Shannon, Kathy Bates e Dylan Baker. Shannon porque, justamente nomeado para os Óscares, nos oferece uma composição psicológica e socialmente inadaptada capaz de rivalizar com os «grandes» de Hollywood. Bates porque, embora de forma caricaturada, cabe na perfeição na figura estereotipada da «boa vizinha», da senhora do lado dos mágicos (ou pouco mágicos, segundo Sam Mendes) subúrbios americanos. Dylan Baker o mesmo que para o estereótipo de Kathy Bates, mas neste caso em relação ao colega de trabalho de Frank/DiCaprio.

E aqui chega o outro elemento-chave da equipa que nos traz Revolutionary Road: Sam Mendes. O realizador britânico é um grande director de actores. Sem dúvida. Tem um currículo no teatro inglês e formação também na área, e os seus sets reflectem-no. Mas não só. Sam Mendes também é um dos melhores realizadores de Hollywood, se descontarmos a relativa «juventude» dos seus dez anos de cinema e o Óscar. Consegue uma ambiência de sombras, luz e planos que vai além da sua suposta «especialização» em arte dramática típica de teatro britânico e, obviamente, muito além da mera capacidade de direcção de actores.

Revolutionary Road consegue ser um filme muito bem filmado, com excelentes actores, que navega em redor da capacidade ou incapacidade de nos relacionarmos uns com os outros, e em redor de como se pode desistir de viver para sobreviver, neste caso para existir numa pacata vivência de subúrbio. Que é como se canta naquela música de Malvina Reynolds que dá tema a Weeds: «Little boxes on the hillside, Little boxes made of tickytacky / Little boxes on the hillside, little boxes all the same / There's a green one and a pink one and a blue one and a yellow one / And they're all made out of ticky tacky and they all look just the same». Aqui, no filme de Mendes, também há um despertar momentâneo desse sonho americano, ou pesadelo americano, em que tudo parece igual, e em que a perfeição da igualdade soa a mediocridade. Despertar esse que surge na figura de Kate Winslet mas que, lentamente, se encaminha para a tragédia, num momento alto digno das melhores tragédias gregas. Há aqui um encontro de American Beauty (realizado por Mendes em 1999) com Little Children (filme brilhante de Todd Field, de 2006), no qual, por acaso ou sem coincidência, também brilha Kate Winslet.

Ora, voltando à crítica de Luís Miguel Oliveira, é fácil ver que a única razão pela qual não dá um pouco mais de crédito a Revolutionary Road prende-se com a embirração que tem por Sam Mendes, que, segundo ele, anda «ainda à boleia do sucesso de Beleza Americana» a por isso continua a «ser sobrevalorizado». Claro que isto para mim é escandaloso, já que, muito ao contrário do crítico de cinema (e se calhar até de muitos mais, se me puser a procurar), acho Road to Perdition um dos filmes mais subvalorizados dos últimos dez anos (e que muito estimo, pessoalmente), que ganha apenas um Óscar, se não me engano, pela fotografia - aí sim, talvez ainda na ressaca do Óscar de Sam Mendes de 1999. Mas, tendo em conta alguma aversão dos críticos à mistura entre teatro e cinema, e a visível aversão de Oliveira a Sam Mendes lui-même, Revolutionary Road (como Road to Perdition) chega-me como um dos melhores filmes do ano, pelo menos bem acima do banal Benjamin Button do Fincher. Ainda que me faltem ver alguns candidatos ao Óscar, não me caía o Carmo e a Trindade se Sam Mendes levasse todos os Óscares para os quais foi nomeado.

P.S.- não tenho qualquer animosidade habitual ou generalizada para com o Luís Miguel Oliveira. Pelo contrário, concordo completamente com a sua escolha (o «Devia ganhar», e não o «Vai ganhar») para o Óscar de melhor actriz secundária: Marisa Tomei, que está absolutamente fantástica em The Wrestler.

Milenarismo



(via O Cachimbo de Magritte)

Dom da ubiquidade



Agora parece que Joana Amaral Dias está em tudo o que é canal, a discutir sobre tudo o que mexa. Óptimo, nada contra. Muita gente identificar-se-á com ela e eu, como todos os homens, agradeço a imagem da Joana Amaral Dias no meu televisor. Mas, tendo em conta o «mundo moderno» e a necessidade da perfeição estética, por vezes interrogo-me se a sua presença na televisão não depende, apenas e só, de poder ser a «imagem no televisor» dos portugueses. Eu acho que sim.

P.S.- mas isto, admito, pode muito bem ser o mero ressabiamento de um feio.

Símbolos

Talvez o império, pensou Kublai, não seja mais que um zodíaco de fantasmas da mente.
- No dia em que conhecer todos os símbolos - perguntou a Marco, - conseguirei possuir o meu império, finalmente?
E o veneziano: - Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos.


Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

sábado, fevereiro 14, 2009

Minguante 13



Já saiu o novo número da Minguante (o número 13 numa «sexta-feira 13»). Entre outros, com um modesto texto meu, um exercício torpe de escrita travestido de literatura.

Estaline face a Hitler: o babuíno passivo

O comportamento de Estaline no princípio de 1941 apresenta fortes semelhanças com uma certa manobra das práticas babuínas. Se um babuíno fraco é ameaçado por um babuíno forte oferece por vezes, simbolicamente, o traseiro, como se para sexo passivo. O babuíno fraco está na realidade a mostrar tino psicológico. Estaline tentou-o, mas só ganhou aquilo que parecia estar a pedir. Talvez ele fosse também meio babuíno, meio avestruz e tivesse a impressão de que, se não pudesse ver a realidade, então a realidade não poderia vê-lo.

Martin Amis, Koba o Terrível

As coisas que desaparecem

Talvez tudo já esteja secretamente perdido de antemão, num qualquer lugar remoto. Ou então existe um sítio onde todas as coisas desaparecem, fundindo-se umas nas outras, até formar uma única imagem. E, à medida que vamos vivendo, mais não fazemos do que descobrir - puxando-as para nós, umas atrás das outras, como quem desenrola um fio muito fino - tudo o que ficou para trás. Fechei os olhos e esforcei-me por me lembrar do maior número possível de coisas belas que tinham desaparecido da minha vida. Esforcei-me por chamá-las a mim, retê-las entre as mãos, mesmo sabendo que asua existência seria efémera.

Haruki Murakami, Sptunik, meu amor

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Perestroika

Chegou ao ponto de não-retorno: estantes cheias, armários cheios, topos de secretárias e armários cheios. De livros. Sou obsessivo e sei sempre onde tenho cada livro em particular. Mas há alguns dias chegou ao fim a planificação do espaço de arrumação desses livros. Em minha casa, a organizadíssima «URSS do papel» chegou ao fim. Ainda ontem queria folhear um Calvino antigo (só porque sim) e fui dar com ele encostadinho ao Lobo Antunes (discrimino nas letras e a lusofonia é categoria à parte). Chegou a hora de pilhar o espaço que cabe à roupa, aos talheres, ao diabo. É o caos. O fim.

Mestre Clint #2



Changeling (2008), de Clint Eastwood

Mestre Clint #1



Gran Torino (2008), de Clint Eastwood

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Dinamismo e horror

A propósito da União Soviética de Lenine e Estaline, Martin Amis cita Martin Malia, ou seja: que não é de um momento para o outro que se entende «a extraordinária combinação de dinamismo e horror que caracterizou a experiência soviética». É a conjugação entre a miragem do progresso (miragem perdida algures na lama dos gulags) e o terror exercido sobre quem atrasava a máquina comunista que impressiona qualquer um. A desumanidade do projecto impressiona qualquer um, tal como não se consegue desviar o olhar ao ver um tornado, tal o fascínio pelo horror de uma visão destas.

Um David Fincher ingénuo



Quando, há quase um ano, me veio a notícia de que David Fincher preparava um novo filme, fiquei curioso. Curiosidade essa que aumentou quando me actualizei acerca do tema: uma história de Scott Fitzgerald acerca de um homem que nascia velho e rejuvenescia com o passar dos anos, contrariando a tendência natural do envelhecimento. «Brilhante», pensei eu. A bizarria da situação combinada com a visão negra de Fincher poderia resultar num bom trabalho. Poderia. Enganei-me, não resultou.

The Curious Case of Benjamin Button é um filme muito fraco, uma verdadeira desilusão. Beneficia do «calor do momento» que os Óscares trazem, o que claramente o sobrevaloriza, mas não passa de um desperdício de um belo conto do universo do fantástico. Em vez de enveredar por um tratamento de imagem e da história mais «cinzentos», como é seu costume, resolveu criar uma obra mais «luminosa», uma epopeia bonita sobre os trabalhos da vida de Benjamin Button (Brad Pitt), nascido velho e abandonado pelo assustado pai, da forma mais dickensiana possível (no conto é diferente).

The Curious Case of Benjamin Button é uma espécie de saga de um homem «curioso» (como o próprio título indica) que, precisamente por surgir na história como uma memória de Daisy (Cate Blanchett) e autor de um diário que a filha desta (Julia Ormond) descobre e lê, permite que haja um certo véu de dúvida, de fantástico, sobre o seu passado. Pelo menos seria essa a ideia. Mas não funciona. Em Big Fish, Tim Burton conseguia misturar realidade e lenda muito bem, numa obra sobre a imaginação. Em Benjamin Button, a mesma técnica narrativa talvez fosse escusada, até porque não traz melhoria alguma à história.

O filme resulta assim numa espécie de reprise de Forrest Gump, como bem se apontara noutro blog: um protagonista naïve atravessa algumas etapas históricas da América (nasce no dia do armistício da Grande Guerra, por exemplo, e participa na Segunda Guerra Mundial) e, embora não tenha qualquer atraso mental, fá-lo com uma expressão algo apreensiva de quem não percebe o que anda cá a fazer. Como de desiludido ou perdido não tem nada, apenas se depreende que Fincher (ou Eric Roth, que adapta o argumento) quis deixar uma imagem de um Brad Pitt tão bondoso quanto ingénuo. Não é realmente a direcção de actores mais bem conseguida.

Com múltiplas nomeações para os Óscares, de facto só me confirma (nada de novo) que estes prémios não distinguem a qualidade mas o status quo. E é, de facto, o status quo que segura a honra deste filme. Brad Pitt é competente mas fraquinho (para quê a nomeação para o Óscar?); Cate Blanchett, apesar de estar bem, repete uma personagem que me parece já ter visto algures no seu currículo; Julia Ormond é das mais competentes no filme; e a nomeada para Melhor Actriz Secundária, Taraji P. Henson, com todos os seus maneirismos, fica a milhas de distância de Marisa Tomei (que está quase perfeita em The Wrestler). A David Fincher, que tem uma carreira sem nódoas, desculpar-se-á este deslize na qualidade, já que The Curious Case of Benjamin Button é, de longe, o filme mais fraco da sua carreira. Salva-se a imagem, a banda sonora e, claro, a caracterização, que não passará ao lado de ninguém e, a sermos justos, já terá o Óscar reservado em seu nome.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O absurdo do Estado que tudo vê

No momento em que escrevo este post, a petição contra os chips de vigilância nos automóveis, lançada há uns meses atrás, já foi assinada por 2.025 pessoas. O que só prova que os portugueses estão mais acordados para a liberdade do que se julga e com pouca vontade de caminhar para a construção de uma estrutura de Estado policial. Que assim continue e se aborte um projecto-lei absurdo.

domingo, fevereiro 08, 2009

No leitor de DVD

Mickey Rourke



Se Mickey Rourke vier a receber um Óscar não me admiraria. Não apenas pela sua prestação em The Wrestler (um excelente filme sobre a passagem do tempo, sobre o declínio e sobre a perseverança), mas pela sua carreira. Não que Rourke tenha tido uma carreira brilhante. Longe disso, Mickey Rourke teve até uma das carreiras mais subaproveitadas na história recente do cinema, situação na qual teve grandes culpas no cartório. No entanto, aqui sublinho o «subaproveitamento», já que sempre achei que poderia ter sido um dos maiores actores da sua geração. Com The Wrestler, completa-se uma recuperação gradual de um actor que ainda pode vir a dar muito ao cinema - uma recuperação semelhante deu-se com a colaboração entre John Travolta e Tarantino. Se o Óscar não for para o surpreendente Frank Langella, ficaria muito desiludido se não premiasse Mickey Rourke. No fundo, The Wrestler é, mais do que um filme inspirado pelo wrestling, uma obra inspirada pela vida de Mickey Rourke: apesar do declínio quase insuportável, Rourke teve a capacidade de relançar uma carreira, na qual os fãs sempre o esperam. Carreira essa que, quem sabe, ainda pode vir a ser brilhante como nunca foi. A minha escolha sentimental do Óscar vai, sem pensar muito, para Mickey Rourke.

sábado, fevereiro 07, 2009

Everything but a saint

Quando tiver filhos e quiser que eles comam a sopa toda, hei-de lhes contar histórias sobre o Augusto Santos Silva.

Film noir no liceu



A maior parte dos espectadores terão na memória Joseph Gordon-Levitt do papel de rapazola estouvado de 3rd Rock from the Sun, uma imagem que seria, à partida, difícil de sacudir. E com razão, pela exagerada dose de adolescência aplicada na interpretação (apesar da série ter qualidade). Mas os mais atentos já se esqueceram «desse» Gordon-Levitt. O rapaz é, hoje em dia, um actor em potência. Em Mysterious Skin (2004), dizem, surpreendeu tudo e todos. Em Brick, filme de 2005 realizado por Rian Johnson, confirma a sua promoção ao universo do cinema sério, adulto e negro.

O filme de Rian Johnson é uma criação muito perfeitinha, uma pérola guardada na arca no que toca ao público português mas que não passou despercebido nos países civilizados, apesar da enorme aura de «independent movie». Baseado nos romances policiais de Dashiell Hammett, Johnson constrói um enredo perfeito para um filme de detectives mas desloca-o para... um liceu. Aí, surge a personagem perfeita para protagonizar a história: Brendan (Joseph Gordon-Levitt), um adolescente misantropo, desiludido, pessimista, esperto e atrevido. O sarcasmo das linhas de Brendan, claramente exagerado, funciona lindamente nesta adaptação, e Gordon-Levitt dá a postura adequada à personagem.

The Virgin Suicides encontra Miller's Crossing, Bogart, Nicholson e os irmãos Coen numa das melhores interpretações modernas do género film noir, e o resultado é um surpreendente filme negro que roda em volta da maldade e da fraqueza humana, das ligações perigosas e das relações que não se podem esquecer, mais do que rodar em volta de uma história demasiado complicada. Simples, humilde e exemplar na filmagem. E Gordon-Levitt convence com o seu pessimismo - assustando até pelo seu «crescimento» rápido no cinema - numa interpretação cheia de angústia que parece vir a ocupar o lugar do desaparecido Heath Ledger em papéis do género (na minha opinião, Gordon-Levitt é melhor do que Ledger era com esta idade). Quatro estrelas para Levitt. Cinco para Brick. Brilhante.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O Abismo da Educação



As recentes greves e manifestações de professores contra as reformas do ensino não são uma mera reacção directa à revisão do estatuto do docente, mas uma consequência natural da destruição do ensino em Portugal nos últimos trinta e cinco anos.

O ser humano sempre teve uma visão limitada. Sejamos honestos: antropologicamente falando, o homem está condenado ao fracasso. Por mais que falhemos, por mais que tropecemos, insistimos na teimosia de não aprender com os erros. Voltamos sempre a cair e a tropeçar nos mesmos buracos de sempre, culpando a lotaria divina sem nunca compreendermos que o buraco sempre esteve no mesmo sítio, desafiando a nossa inteligência. Desta forma, por mais reformas que façamos, nunca conseguimos realmente mudar nada, porque voltamos sempre ao erro anterior. Corrige-se um erro criando um novo.

O economista Henry Hazlitt atribuía as causas dos maiores fracassos económicos à incapacidade que os homens – e em especial os políticos (sobretudo em ano de eleições) – têm de ver para além das causas imediatas. Ou seja, uma política tentava resolver uma lacuna sem ninguém se aperceber de que os efeitos secundários dessa mesma política abriam uma crise ainda pior, que só seria realmente visível após alguns anos. É isso que acontece, precisamente, com o ensino em Portugal: o «vírus» dos efeitos secundários das políticas de educação. Pior do que a «crise do ensino» que os professores apontam, é a «crise da educação» que está nas fundações da sociedade portuguesa.

A questão tem sido completamente centrada nas exigências dos professores e na «lutazinha» política entre o Ministério da Educação de Maria de Lurdes Rodrigues (figura que é para «queimar» depois de tudo isto, dando a cara pelo autoritarismo do governo Sócrates), quando devia ser a oportunidade ideal para reflectir sobre o que queremos para o futuro das escolas em Portugal. Os professores acham que lhes estão (a eles, docentes) a retirar dignidade, protecção, valor e poder. Como já é hábito em Portugal, gritam porque vêem o vizinho gritar mas sem nunca enxergar o que está mesmo à frente dos seus olhos: já não têm nada. O governo não pode retirar o que já não há. A revisão do estatuto dos docentes, e até do estatuto dos alunos, não é mais que a tentativa de «lavar a cara» – estatisticamente falando – da Educação em Portugal face à União Europeia e fingir que se faz obra.

As relações entre professor e aluno foram sendo destruídas ao mesmo ritmo que se destruía a relação entre escola e sociedade, retirando àquela a capacidade de triagem. A fórmula para isso é mais simples que estrelar um ovo: os outros países da União Europeia, aparentemente, tinham mais licenciados que Portugal. Logo, isso faria dos outros países bastiões da modernidade enquanto Portugal continuaria a ser um país terceiro-mundista. Como é óbvio, as luminárias lusitanas resolveram curar a doença que afligia o nosso país. Como fizeram? Fácil, baixaram a exigência da avaliação de tal forma que até um adulto com um desenvolvimento mental de uma criança de cinco anos conseguiria chegar à faculdade. Nessa misturada entre bons alunos, alunos médios e lastro, os professores acabavam por passar toda a gente, não fosse a CEE achar que nós somos um país de agricultores, operários e pescadores. Após as machadadas que se deram nos anos 70 à exigência da educação, o ambiente de laxismo geral facilitou.

A responsabilidade de aprender – apesar de quase desaparecida – foi então sendo progressivamente passada dos alunos para os professores, leais funcionários públicos ao serviço do Estado português, menino bonito da CEE e da UE que, regularmente, entregava em Bruxelas os relatórios do «progresso» social e mental dos conterrâneos, pela mão de Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso e, obviamente José Sócrates, pai do «Portugal do Futuro». Aos professores cabia já a tarefa, não de ensinar, mas de formar os alunos, que é o mesmo que lhes dizer que eles têm a obrigação de os passar. A terminologia, se estivermos atentos, também tem evoluído no mesmo sentido, com um medo crescente de falar em ensinar, educar e exigir. O ensino tornou-se um dado adquirido e até a dormir se consegue chegar ao 12º ano, que aparentemente será o novo nível de ensino obrigatório. Muito brevemente, ter uma licenciatura será tão natural e inevitável como há uns anos era ir à tropa.

Para conseguir esse objectivo estatístico, têm-se feito coisas ridículas. Nem nos passa pela cabeça. Muito recentemente, soube que há escolas públicas que recusam aulas de apoio extra-curriculares a alguns alunos para as disciplinas mais problemáticas, porque «há quotas» e um «limite máximo» para os alunos que podem receber esse apoio, não vá a UE pensar que somos um país de burros. É sabido também que é bastante generalizada a pressão sobre os professores para dar notas altas, independentemente da correspondência real com o trabalho dos alunos (a avaliação dos professores tendo em conta as notas que davam é um sinal indesmentível dessa situação). Para além disso, andamos a oferecer, nos Institutos de Emprego, diplomas de 9º e 12º ano a pessoas após um ou dois meses de actividades ridiculamente simples, que deviam ofender a inteligência dos discentes.

Em suma: se quisermos realmente salvar o futuro das novas gerações de Portugal, é obrigatório rever todo o nosso ensino. Será que temos capacidade para termos tantos licenciados sem capacidades? Será que há mercado para dar vazão a tanta gente que não sabe porque é que tem um curso superior? Será que somos assim tão inseguros que precisamos de mostrar a Bruxelas que temos muita gente com cursos? Por um lado, a ideia de um ensino democrático tem sido mal interpretada, confundindo os portugueses a igualdade de oportunidades com a igualdade completa de habilitações, que entope e esgota o mercado de trabalho. Por outro, a necessidade de ser um país do «primeiro mundo» tem feito com que os sucessivos ministros da Educação reduzam os professores a funcionários da «modernização de Portugal» e os alunos a números. Maria de Lurdes Rodrigues, por muito patética que seja a sua batalha pela afirmação, não é mais que a ponta visível de um longo icebergue de trapalhadas ignorantes. Com políticas destas, quem perde hoje com isso é a Educação, são os professores. Mas amanhã quem perde são os alunos e, obviamente, o país.

Publicado no Setúbal na Rede, 5/2/2009

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Pensamento do dia

Quando se fala nos melhores ensaístas dos últimos duzentos anos, esquece-se sempre Freud. É um erro monumental. Freud foi um dos antropólogos, psicólogos, filósofos, pensadores, ensaístas da época contemporânea e talvez um dos homens que mais influenciaram o chamado «mundo moderno». Se deixarmos de o considerar um cientista datado e passarmos a vê-lo como um pensador intemporal, só teremos a aprender com uma leitura das obras do austríaco.

Half Nelson


Ryan Gosling

Dan: The sun goes up and then it comes down, but everytime that happens what do you get? You get a new day.

Half Nelson (2006), de Ryan Fleck

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Mind police

O facto de se terem multiplicado manifestações de simpatia de pessoas mais idosas para com o Primeiro-Ministro só demonstra, pelo tom, o sucesso de Salazar. Ao se dizer que «não se deve incomodar o senhor Primeiro-Ministro» ou mesmo que as «forças ocultas» estão a fazer uma «campanha negra» contra Sócrates, surge a conclusão de que António de Oliveira Salazar foi um político perfeito, o mais bem sucedido ditador de Portugal porque conseguiu isto: que todos os portugueses passassem a ter um polícia dentro de si mesmos. E isto, pelos vistos, não desaparece em 40 anos.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Banda sonora #2



Vampire Weekend, Mansard Roof

Banda sonora #1



Soko, My Wet Dreams

Soko



(descoberta via menina limão)

Os «quase-assassinatos»

A tentativa de José Sócrates se auto-martirizar neste processo faz lembrar uma frase de The Interpreter (filme de Sydney Pollack), em que Kuman-Kuman diz, acerca do seu adversário político e ditador de um país africano: «An almost-assassinated leader gets so much credibility, so he can stay in power and gets to stick around to enjoy it». É importante ter atenção para não ver um suspeito de um processo ser reeleito para o governo com o estandarte de mártir.

A aventura de escrever uma biografia

A ler o artigo de Pacheco Pereira no Público de 25/01/2009, disponível integralmente no Estudos Sobre o Comunismo. Fica aqui o excerto inicial:

Muitas vezes digo aos meus amigos que as peripécias que passei e passo para escrever a biografia de Álvaro Cunhal davam um livro à parte, com todos os ingredientes de um romance entre o Le Carré e uma coisa mais pícara, ou seja, uma combinação quase impossível e muito improvável. Desde início que sabia que a iniciativa seria dificultada pelo próprio Álvaro Cunhal e que este colocaria todos os obstáculos possíveis, ele e o PCP. Sabia também que escrevia no fio de uma navalha muito especial, a de estar a biografar alguém que estava vivo, que era muito hostil à iniciativa (e ao autor) e que podia com muita facilidade desclassificar a seriedade do trabalho. No fundo, a vida era dele e bastava Cunhal dizer que meia dúzia de afirmações eram erradas ou “falsas” para criar uma imagem de falta de rigor. Esta possibilidade era tanto mais real quanto eu escrevia sobre uma história em grande parte por contar, sem fontes secundárias, com fontes primárias de muito complexa interpretação (como as fontes de polícia, ou os arquivos soviéticos), mas em muitos casos sem fontes nenhumas e com escassíssimos testemunhos. Cunhal nunca o fez e soube mais tarde por testemunhos de pessoas que o contactaram nos últimos anos da sua vida, que ele elogiou a biografia que nunca desejara que fosse escrita. (...)

José Pacheco Pereira, Público/Estudos Sobre o Comunismo

A «campanha negra» e o político «idóneo»

É quase humor negro, e não uma «campanha negra», o que se tem passado em Portugal em relação ao «caso Freeport». A propaganda oficial do governo espalha a mensagem de que há uma conspiração a formar-se há muito contra um grande e sério líder político que, assim, tem de enfrentar os «poderes ocultos», segundo palavras do próprio José Sócrates. O que o engenheiro Sócrates não se lembra, ou não que quer lembrar, é que os «poderes ocultos» são aqui o Ministério Público, o último bastião da Justiça (espera-se). Assim, usando o seu direito de tempo de antena, Sócrates surge repetidamente na televisão para tentar virar o bico ao prego, afirmando-se inocente, vítima de uma «cabala» (ou não fosse ele elemento do Partido Socialista nos últimos dez anos) e jurando lutar contra os «que o querem derrubar».

Pior ainda do que tudo isto, é a Procuradoria Geral da República surgir a público para afastar suspeitas sobre o quer que seja. Ora, que eu saiba, a PGR é um órgão de justiça e não de «situacionismo» com o objectivo de garantir a ordem e a estabilidade de qualquer governo. A falta de vergonha multiplica-se pela sociedade portuguesa e infiltra-se em tudo e todos, como um vírus.

O que me estranha é que o comum dos portugueses, que suponho tenha vivido em Portugal nos últimos anos, não ligue as peças da maneira mais racional: Sócrates tem um historial de ligação (mesmo que não directa) a «facilitações» dos processos, e isso até é óbvio com a sua ideia de suspender a actual lei dos concursos públicos «para acelerar». É quase uma questão de carácter, de uma personalidade impaciente, e não, como muita gente já repete (seria ver hoje o Opinião Pública na SIC Notícias) as palavras paranóicas de José Sócrates, de um ataque a uma «pessoa idónea».

quinta-feira, janeiro 29, 2009

O que é mais importante?

Um dos problemas da adaptação de livros para o cinema é a necessidade de apelar ao público. O que poderia ser uma muleta para criar excelentes obras de cinema, muitas vezes pode levar à mutilação parcial da «lição» de um livro. O livro Relatório Minoritário, de Philip K. Dick, é um desses casos. Por um lado, temos um autor que se pautava pela paranóia pessoal e que esteve perto da esquizofrenia, mas o reflexo literário dessas condições resultara num exercício de reflexão essencial do século XX: o questionamento da necessidade e impulso de controlo das sociedades modernas. Por outro lado, temos a adaptação homónima que Steven Spielberg fez do livro, com Tom Cruise como protagonista, que, embora seja um filme muito bom (ao nível de Blade Runner, curiosamente também do mesmo escritor), sente a necessidade de romancear e criar uma rede de sentimentos que «humanize» a obra, apesar de este sentimentalismo ser comum em Spielberg. A nota negativa é que se perde um pouco a centralidade absoluta do dilema que é colocado a John Anderton: «Tens de ser preso para que a Agência Precrime possa sobreviver. (...) O que é que tem mais significado para ti: a tua segurança pessoal ou a existência do sistema?». E a questão derradeira é esta: Hollywood, no meio da acção de um filme, baralha o espectador e esquece-se de lhe fazer essa mesma pergunta, que é a mais importante do livro de Philip K. Dick. O que é mais importante: a segurança individual ou a segurança da sociedade?

Nixon contra o mundo



Em 1977, a América (e uma boa parte do mundo) não se tinha ainda esquecido do escândalo que abalou as fundações do seu sistema democrático: Watergate. O presidente Richard Nixon (que apresentara por isso a sua demissão em 1974) tinha abusado do poder de forma clara para obter vantagem política e, pior do que isso, tinha encoberto os autores do assalto ao malogrado edifício Watergate, varrido as pistas que o ligavam ao assunto e assim havia saído ileso e sem julgamento de um caso criminal. Pior do que isso, para indignação geral, Gerald Ford, o seu vice que assumiu a presidência, concedeu-lhe um perdão total. Para a maioria das pessoas, Nixon é um criminoso em fuga. É aí que começa Frost/Nixon, recente filme de Ron Howard.

É por isso que David Frost (Michael Sheen), um apresentador britânico de talk-shows, decide apresentar um projecto ao seu produtor: entrevistar Richard Nixon, o homem e o político. Versado em fazer programas recreativos mas eficazes, Frost vê aí o show ideal para angariar audiências, conseguir um resultado histórico de popularidade e, inevitavelmente, ajudar a sua carreira. Apoiado pelo produtor, os dois lançam-se ao trabalho nos EUA, comprando a entrevista a Nixon (que pediu 600 mil dólares) e tentado obter financiamento televisivo para cobrir as despesas, que já ascendiam a alguns milhões. Ninguém acredita em Frost e, por isso, ninguém acredita no projecto. E este é um ponto importante do filme: o desprezo para com Frost.

Richard Nixon (interpretado por um surpreendente mas fenomenal Frank Langella), a determinado ponto no filme, faz uma chamada a David Frost, antes da última entrevisa entre os dois. Aparentemente, estava bêbado (não se lembrará de nada) e isso permite a Frost entrever um pouco da verdadeira natureza de Nixon, homem muito complexo e com uma agressividade latente mas violenta. O ex-presidente compara-se a Frost, dizendo que «That's our tragedy, you and I, Mr. Frost. No matter how high we get, they still look down at us». O homem comum esticando-se para o estrelato, mas que é atacado por todos os lados. É assim que Nixon vê a realidade, e é assim que desenvolve a sua personalidade vingativa. Em grande parte, a empatia entre ambos nasce daí, dessa visão.

Acerca da acuidade histórica do filme, não se pode pedir muito mais. Para além da introdução totalmente enquadrada por imagens reais, entra-se no ambiente da época suficientemente convencido de que ninguém gosta de Nixon mas também ninguém se esquecera. E isto é muito bem conseguido pelas personagens políticas de Oliver Platt (Bob Zelnick) e Sam Rockwell (James Reston, Jr.), este último mais histriónico na acusação de Nixon e na fúria justiceira. Kevin Bacon faz o contraponto, encarnando Jack Brennan, a típica figura sombria da Casa Branca, ex-militar, aide-de-camp do ex-presidente e sua voz da consciência, por vezes roçando a manipulação completa da figura nixoniana.

Mas não se deve ser «historiador» ou «jornalista» na apreciação do filme. Frost/Nixon é uma obra de ficção, um pequeno spin-off da realidade - que confunde os espectadores acerca de qual será a parte ficcionada. É neste curto espaço da ficção que se desenrola a espectacular chamada telefónica nocturna de Nixon para Frost, num dos monólogos mais memoráveis dos últimos anos e que será, certamente, a punchline para o Óscar surpreendente para Frank Langella (se não premiar o também surpreendente Mickey Rourke em The Wrestler). Os menos ingénuos compreenderão que o timing deste filme estará, certamente, em linha com os sentimentos de algumas pessoas face a George W. Bush: houve quem quisesse levar Bush «à justiça» pelos «crimes de guerra» e pelos abusos de poder, e Ron Howard, ainda que apoliticamente (não há qualquer intenção ou orientação política definida), aproveita para transpor para o cinema a excelente peça de Peter Morgan (de 2007) num filme mais de interpretações do que propriamente político.

É o «duelo» (Nixon/Langella dixit) entre Nixon e Frost que sustenta todo o filme, com uma confrontação que deita energia por todos os poros. Sheen, embora não leve a vitalidade do verdadeiro Frost para a tela, consegue apanhar alguns tiques e jeitos expressivos do jornalista, que garantem a caracterização de uma personagem tout court, com fragilidade, defeitos e sentimentos. O mesmo faz Frank Langella com a sua interpretação de Richard Nixon, dando-lhe uma profundidade de personalidade que esconde tanto o abismal medo do fracasso, como a extrema agressividade que Nixon (pelo menos a personagem, embora a figura seja igual, para dizer a verdade) esconde para com os seus rivais e adversários políticos. Kevin Bacon tem, como em Mystic River, mais um excelente supporting act, que será uma vez mais relegado para segundo plano pela contenção. Frost/Nixon, por mil e uma razões mas sobretudo pelo magnetismo da interpretação de Langella, é um dos melhores filmes do ano.

domingo, janeiro 25, 2009

Estaline e o pacto com Hitler

- Como é que isto pode ter acontecido? - perguntou ela a Sam. Estavam na 8th Street, num sítio chamado Barclay's onde jantar custava noventa cêntimos em vez dos sessenta e cinco da cantina da universidade mesmo ao lado. A Village estava estupefacta, esquadrinhava a mente de Estaline, lutando para não desistir dos sovietes. Para ela, Estaline ter-se aproximado de Hitler era como se Deus fizesse sexo, comesse e se peidasse. Os sovietes tinham sido a oposição sublime à West End Avenue, aos tapetes e às baixelas de prata e à futilidade estéril da classe média citadina.

Arthur Miller, Uma Rapariga Simples

quinta-feira, janeiro 22, 2009

segunda-feira, janeiro 19, 2009

A úlcera de Maynard



Como é possível que só tenha descoberto a qualidade de Dennis McShade /Dinis Machado nas últimas semanas? Requiem para D. Quixote, ainda melhor do que Mão Direita do Diabo, é um dos romances mais bem construídos da literatura moderna portuguesa. Não pela profundidade nem pelo «legado» que deixa, mas pelos diálogos que têm uma rara fluidez e honestidade (fico mesmo a acreditar que há pessoas dentro do romance, e que comunicam de facto) e pela inteligência com que ironiza um género - o policial - e alguns estereótipos da literatura, como o misantropo ou o charlatão. Se a minha própria úlcera alguma vez crescer, que ao menos eu conviva com ela com a mesma classe literária que Peter Maynard convive com a sua.

Passos Coelho e Di Maria

Passos Coelho é como Di Maria no Benfica: obviamente, não é um pé torto como Binya ou uma nódoa como Balboa, e até sabe fazer umas fintas e marcar uns golos bonitos. Mas como a comunicação social e quem só vê os dois minutos dos resumos dos jogos pensam que ele é um génio, há uma certa pressão para pô-lo a jogar. No entanto, como ele não faz mais do que uns meros fogachos, a sua entrada na equipa, embora rendendo um outro golo de vez em quando e um outro momento mais espectacular, significa, na maior parte do tempo, que o Benfica joga com um a menos (a maior parte das vezes que a bola vai parar aqueles pézinhos, acaba por ser igual a fazer um passe para o adversário). E se o Benfica até pode lucrar com a ilusão de que Di Maria é um grande jogador, vendendo-o ao Real Madrid (que tem o triste hábito de cair nestas esparrelas), o PSD só tem a perder com a injustificada atenção de que Passos Coelho é alvo.

Bruno Alves, Desesperada Esperança, 19/01/2009

domingo, janeiro 18, 2009

Guerra e memória



Valsa com Bashir (2008), do israelita Ari Folman, é um filme de animação muito bom que tem pouco a ver com os objectivos que muitas animações têm: a de entreter. A animação em Valsa com Bashir é uma forma brilhante de lidar com os desafios de uma história que questiona a memória e a representação mental de experiências marcantes ou mesmo traumáticas. É mais fácil, real e confuso a narração da experiência da guerra através da animação, já que a confusão entre o que foi real (memória) e o que é sonho (representação, trauma) funciona na perfeição.

Ari Folman, realizador, argumentista e co-protagonista do filme, encontra-se num bar com um velho amigo, Boaz, que lhe conta um pesadelo que tem: todas as noites 26 cães raivosos e agressivos correm pelas ruas à sua procura, derrubando tudo à sua passagem no intuito de o encontrar. Acabam por concluir que estes 26 cães mais não são do que os cães que Boaz matou em missões na guerra do Líbano de 1982, para os impedir de ladrar e assim soar o alarme da entrada das tropas israelitas nas aldeias. Este é o mote para o começo da busca de Ari Folman (que realmente participou nessa campanha) por uma recuperação das memórias da guerra, que perturba muitos dos homens que estiveram no Líbano em 82.

A história de Valsa com Bashir é, de facto, verdadeira, já que se baseia num facto real: a campanha de 1982 no Líbano para destruir bases de lançamento de mísseis. Mais do que isso, é a veracidade dos testemunhos dos entrevistados por Ari Folman, que não são apenas personagens mas amigos e camaradas reais de Ari na guerra, que dá o tom à história e pode levar muita gente a considerar o filme uma crítica à política externa e de defesa de Israel ou, até, uma crítica anacrónica ligando a Israel de 1982 à de 2008-09. O filme não deve ser visto como tal. O tema não é a política mas a guerra; não são os inimigos mas as vítimas inocentes da guerra; nem sequer a velha história do David palestiniano e do Golias israelita, mas sim a guerra e a violência vistas por quem esteve no meio delas. A memória e os truques que ela prega são o grande tema transversal neste excelente filme de Ari Folman, claramente acima da média e provável favorito a vencedor de pelo menos um Óscar (de melhor filme estrangeiro).

O perigo da hubris dos Democratas

Peter Beinart, no Washington Post, aponta uma ironia tremenda no momento da despedida de Bush e na retórica da retirada das tropas americanas como condição da pacificação. O aumento do contingente entre 2006 e 2008 trouxe uma diminuição da violência no Iraque, que será perigoso não ser reconhecido pela nova «elite liberal» em Washington:

(...) even if the calm endures, that still doesn't justify the Bush administration's initial decision to go to war, which remains one of the great blunders in American foreign policy history. But if Iraq overall represents a massive stain on Bush's record, his decision to increase America's troop presence in late 2006 now looks like his finest hour. Given the mood in Washington and the country as a whole, it would have been far easier to do the opposite. Politically, Bush took the path of most resistance. He endured an avalanche of scorn, and now he has been vindicated. He was not only right; he was courageous.

It's time for Democrats to say so. During the campaign they rarely did for fear of jeopardizing Barack Obama's chances of winning the presidency. But today, the hesitation is less tactical than emotional. Most Democrats think Bush has been an atrocious president, and they want to usher him out of office with the jeers he so richly deserves. Even if they suspect, in their heart of hearts, that he was right about the surge, they don't want to give him the satisfaction.

Yet they should -- not for his sake but for their own. Because Bush has been such an unusually bad president, an entire generation of Democrats now takes it for granted that on the big questions, the right is always wrong. Older liberals remember the Persian Gulf War, which most congressional Democrats opposed and most congressional Republicans supported -- and the Republicans were proven right. They also remember the welfare reform debate of the mid-1990s, when prominent liberals predicted disaster, and disaster didn't happen.

Younger liberals, by contrast, have had no such chastening experiences. Watching the Bush administration flit from disaster to disaster, they have grown increasingly dismissive of conservatives in the process. They consume partisan media, where Republican malevolence is taken for granted. They laugh along with the "Colbert Report," the whole premise of which is that conservatives are bombastic, chauvinistic and dumb. They have never had the ideologically humbling experience of watching the people whose politics they loathe be proven right.

(...)

That's why it's important to admit that Bush was right about the surge. Doing so would remind Democrats that no one political party, or ideological perspective, has a monopoly on wisdom. That recognition can be the difference between ambition -- which the Obama presidency must exhibit -- and hubris, which it can ill afford.

Being proven right too many times is dangerous. It breeds intellectual arrogance and complacency. As the Democrats prepare to take over Washington, they should publicly acknowledge that on the surge, they were wrong. That acknowledgment may not do much for Bush's legacy, but it could do wonders for their own.

sábado, janeiro 17, 2009

Dog eat dog



SEFTON (William Holden) - The first week I was in this joint, somebody stole my Red Cross package, my blanket, and my left shoe. Well, since then I've wised up. This ain't no Salvation Army - this is everybody for himself, dog eat dog.

Stalag 17 (1953), de Billy Wilder

sexta-feira, janeiro 16, 2009

CIA



BILL SULLIVAN (Robert de Niro) - I'm concerned that too much power will end up in the hands of too few. It's always in somebody's best interest to promote enemies real or imagined. I see this as America's eyes and ears; I don't want it to become its heart and soul.

The Good Shepherd (2006), de Robert de Niro

Peter Maynard

Peter Maynard é um assassino a soldo. Apesar de não ser velho, tem um certo desejo de se retirar do seu ofício. Talvez por já se achar indigno da tarefa de ser a «mão direita do Diabo», ou a «mão esquerda de Deus» conforme o ponto de vista. Talvez por ter uma úlcera que já não se parece curar. Úlcera essa que o castiga em momentos de maior nervosismo. É por isso que, quando Lucky Cassino lhe passa a proposta do milionário T.R. Douglas - de matar os quatro homens que, muito anos antes, lhe violaram a filha -, Maynard aceita a missão desapaixonadamente. Não por gosto, mas por hábito. Por honra de profissional. Apesar de muitas coisas começarem a correr mal na missão, e na sua relação com o Sindicato (grupo organizado de mafiosos que o querem à força controlar), é apenas a sua honra que o leva a persistir na missão até ao fim.

Mão Direita do Diabo é um livro que poderia ser banal, não fosse a sensibilidade irónica de Dinis Machado e a sua enorme cultura literária. Em casa de vítimas, suspeitos e informadores, Maynard espreita as estantes para avaliar quem tem pela frente. Por vezes, indigna-se com a falta de cultura, mas não se surpreende. O impulso não é o de assassino, mas o de literato. Ouve Beethoven e Dvorak, cita autores e vai ao teatro criteriosamente. Não deixando no entanto de seguir as pisadas clichés de agentes secretos e assassinos profissionais. Embora tenha a sua namorada habitual, seduz e usa as mulheres para objectivos profissionais, não sem ter algum apreço por elas. Um James Bond sentimental mas com menos escrúpulos. E do lado errado da lei. Pater Maynard é uma criação original http://www.blogger.com/img/blank.gifde Dinis Machado/Dennis McShade. E isso dá-lhe um brilho único. O jogo entre o fascínio do crime, a ironia e a cultura (livros, cinema, música, teatro) é a chave para a qualidade de Mão Direita do Diabo. Isso e a escrita segura de Machado. Uma obra vintage, que vai ficando melhor com a idade.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Sad Kermit



O sapo Cocas interpreta Elliott Smith.

O estado das coisas


Elliott Smith

Presentemente com cabelo igual ao dos génios.

Gosto

De tipos que, como eu, não se sabem pentear e (por preguiça e desleixo, não por preferência estética) ficam vários meses sem cortar o cabelo.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Nítido Nulo



À força de algum simplismo, poder-se-ia eleger como principal atractivo dos romances de Vergílio Ferreira um traço distintivo: a interrogação. A interrogação que Vergílio faz da vida e da morte, do sentir, da luta, da família, de Deus, do destino, do corpo. Muitas das suas questões rodeiam a importância do corpo, directa ou indirectamente. Porque o corpo é grande (senão a única) ligação do «Eu» à existência. Mas não há respostas. Só grandes interrogações. E Nítido Nulo é uma obra que as faz com grande vigor.

O escritor Vergílio Ferreira mistura-se aqui com o narrador omnipresente e com a personagem principal Vergílio Ferreira, tal como o tempo se mistura com o passado, o presente e momentos transversais, que se parecem repetir no ontem e no amanhã com diferentes reacções do «Outro». O tempo em que escreve o romance é 1969, logo o ambiente revolucionário, e a dúvida acerca desse ideal (socialista, comunista, anarquista ou utopista) impregnam as páginas de Nítido Nulo. O tempo de mudança anuncia-se, com algum sarcasmo à mistura: «Queimai os livros todos, porque a verdade ainda não foi escrita e dos novos ignorantes é o reino dos céus. Se vos disserem que há uma Lei - não! Perguntai-lhes quem é que fez a Lei e desobedecei, que dos desobedientes é a glória eterna».

É claro que esta «desobediência» acaba por ter múltiplas frentes. A primeira desobediência á de ordem política, de ordem material. Sendo o ano 1969, a referência à provecta idade de Salazar e à do sobrevivente regime não deixa grandes dúvidas, ainda que sob a forma de metáfora inespecífica: «O nosso chefe do Governo tem já cento e cinquenta anos. E uma idade bonita. Não, porém, muito avançada em relação ao avanço dos princípios que nos regem e têm já mais de quinhentos. (...) Uma rede de arame cruzava todo o país, arame ferrugento. Pelos intervalos passava a vida». Portugal estava decrépito, e Vergílio Ferreira sente os ventos de mudança no ar. Daí a referência aos rebeldes, que, conforme a reflexão do condenado Jorge (o Eu), oscilam entre as roupagens de revolucionários e de terroristas.

A outra desobediência é face a Deus, face à certeza de que alguém nos expia os pecados ou sequer que os vêm cobrar. Ridiculariza as referências: «Essa coisa de ressuscitar ao terceiro dia, mesmo que fosse ao terceiro do terceiro - palhaçadas, não. Morrer, mas por inteiro».

As massas incomodam o escritor. As massas que seguem os condutores de homens («Ignorantes de todo o mundo, ouvi-me!») e sancionam o poder. Mas também aquelas que fazem e desfazem a celebridade. Nomeadamente dos escritores: «E dos nomes das ruas que homenageiam vultos históricos. Os dos escritores, por exemplo. São curiosos. Normalmente, os escritores mais bem servidos são os escritores medíocres. Há os que dispõem de largas avenidas e na História da Literatura moram num beco qualquer. E há por outro lado os que na Literatura canalizam o grande tráfego cultural e são atirados na cidade para as ruelas do peixe frito e das putéfias. No Panteon é o mesmo, os cretinos é que se governam. Pois, pois, nem todos são cretinos. Mas nem todos são cretinos para que aqueles que o são o não pareçam tanto - quem será o cretino da estátua? Eu tenho uma teoria para explicar. A grande massa é imbecil e a grande massa é que decide destas coisas. Quero dizer: os tipos que não vão além da grande massa. Ora o imbecil só é sensível ao imbecil que o seja menos - quem será o imbecil da estátua?».

Nítido Nulo é quase um esforço desumano, um livro tirado a ferros do íntimo do escritor. A vontade era de deixar de escrever ficção, e desde Alegria Breve (1965) que não publicava um romance. Aliás, por volta da altura em que o termina, Vergílio Ferreira dizia que escreveria mais um e pronto. Porque Nítido Nulo é violento. Há violência emocional e física expressa em palavras e «acções». Depois de uma acção «revolucionária», o condenado (que se encontra preso) diz: «Desço a ver a extensão da minha força. Do crânio do polícia saltam várias molas que bamboleiam lentas no ar. Palpo-o todo nas articulações destruídas. Olho as mãos, tenho-as todas cheias de óleo». Há um acto a ser expiado. E uma desconfiança da resposta violenta. Mesmo que seja «pela liberdade».

Aliás, Vergílio Ferreira anota no seu diário a 29 de Novembro de 1969, dias depois de terminar o livro: «A propósito: acabei o romance no dia 27. Nem registei o facto. Por distracção. Porque foi um acontecimento. Nunca suei tanto. Deve ter nódoas o texto. Ainda não verifiquei. Mas deve ter. As nódoas do suor.»

Todas as interrogações do livro, que põem em causa Deus e o pecado original. Salazar e o regime. A revolução e a acção revolucionária. A liberdade e a prisão. Todas elas desembocam numa vontade de ver o horizonte, o eterno «nítido nulo» do horizonte, como única certeza. Porque a prisão do condenado não é só a prisão de um Estado. Tem algo a ver com a nossa condição humana. Mas a cela dessa «prisão» engana, porque «a sala é larga e limpa. As próprias grades são pintadas de branco para deixarem passar a alegria que puderem. Decerto entendeu-se que sofria mais assim».

Em suma, há uma frase algures em Nítido Nulo que poderia dar o tom ideal para a leitura deste livro, para mim um dos mais importantes de Vergílio Ferreira: «Dizer "não" é abrir um espaço para o homem se pôr de pé». Dizer não.

Os charlatões clássicos



The Sting (1973), de George Roy Hill

domingo, janeiro 11, 2009

Futebolização da onomástica portuguesa

Fiquei a saber que uma criança da minha cidade se chama Cristiano Rivaldo. Das duas uma: ou é a adopção de um dos aspectos mais caricatos da cultura brasileira (nomes exóticos e estranhos), ou estamos, simplesmente, a tornar-nos mais labregos. Sendo eu extraordinariamente optimista em relação a Portugal, aposto na segunda hipótese.

sábado, janeiro 10, 2009

Tempo de antena

Serei apenas eu que acho que a presença de António Costa na Quadratura do Círculo, e a natureza das suas intervenções, é sintomática do estado do país, imerso em propaganda, mentira e lavagens ao cérebro?

Três anos



Foi há três anos que A Causa das Coisas nasceu. Os primeiros posts citavam Leonard Cohen e Vergílio Ferreira. As raízes, espero eu, não se perderam.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Tudo é ridículo

Ah, tudo é ridículo, excepto saber que é tudo. O trágico é que saber não adianta.

Vergílio Ferreira, Nítido Nulo

Comte e a crise

Num canal de televisão, oiço um homem numa exposição (aparentemente, uma tal de Exponoivos) a pronunciar-se acerca do ano que aí vem, dizendo que é preciso é «positivismo». Isso mesmo, positivismo. Segundo ele, não podemos ficar presos às coisas más porque também há coisas boas. E para isso dá o exemplo do casamento, inclusive o seu, no qual é preciso que o casal tenha uma vivência de «positivismo». Brilhante. Soa-me que, afinal, não é só o marxismo que querem recuperar. E, ou muito me engane, ou ainda vamos ouvir muitas vezes a palavra «positivismo» em 2009.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

O estado das coisas



A tentar perceber a importância destes sujeitos.

Ensaio sobre a rotina

No primeiro intervalo do turno da manhã disse, alto e bom som, que não gosto muito de trabalhar. Disse, ainda, que se pudesse viver do ar que respiro seria o ideal para mim. É claro que dizer isto numa altura em que os professores são acusados de tudo e mais alguma coisa, não caiu bem em alguns dos meus colegas. Vieram com filosofias da treta a dizer que rapidamente me cansaria de não fazer nada, que iria ser o marasmo e o tédio. Não concordo, disse. O marasmo e o tédio são uma consequência directa da rotina, da vidinha minimal e repetitiva (como diz um amigo meu), expliquei. Não senhor, disseram. E cada um ficou com a sua opinião. Mas eu, aqui, reitero: não gosto muito de trabalhar e não me dou bem com a rotina quotidiana do trabalho. Considero-o cruel e vil. Entediante. Mas não pense o leitor que sou um sorna. Sei quais as minhas responsabilidades, os meus deveres. Tento cumpri-los, dando o meu melhor todos os dias. Mas não gosto muito de trabalhar.

manuel a. domingos, no meia-noite todo dia

quarta-feira, janeiro 07, 2009

War, what is it good for?

As pessoas que, guiadas (ou teleguiadas) pelo jornalismo mainstream acrítico, vão atrás da tese habitual de que Israel quer chacinar todos os muçulmanos do Médio Oriente - começando pelos Palestinianos -, continuam presas a um preconceito que não ajuda ninguém, e muito menos a Palestina. Falham, sobretudo, em perceber que os Palestinianos são mais prejudicados pelo fanatismo ideológico de grupos como o Hamas do que pelos próprios colonos israelitas. Falham igualmente em perceber um dos factos básicos de tudo isto: ninguém beneficiaria mais de uma Palestina autónoma, forte e desenvolvida do que o próprio Estado de Israel. Antes de vaiar a retaliação (brutal e condenável como quase todos os actos de guerra) destes últimos, é preciso parar para pensar e descobrir quem é que fica a ganhar com o fracasso da paz na faixa de Gaza e com o conflito na região. Israel não é. A Palestina também não. E essa é a verdadeira tragédia.

A imprensa no início do século


Numa sociedade em que, para a minoria instruída - ou uma grande parte dela -, «tudo era política» e em que faltavam partidos políticos, movimentos ou sindicatos fortes, esta teia de comunicação jornalística representou uma fase de extrema importância na comunicação política, quer manifesta, quer latente, sendo mesmo constitutiva da vida política enquanto tal. Seria errado ver neste florescimento das publicações periódicas apenas a manifestação de uma hegemonia político-cultural de tipo urbano ou metropolitano, porque, embora o primado das duas maiores cidades, Lisboa e Porto, seja visível neste como noutros indicadores, a sua explosão reflectia-se como um todo.

Hermínio Martins, «O colapso da I República», em Classe, Status e Poder

terça-feira, janeiro 06, 2009

Noise

A sociedade caiu refém do barulho, do preenchimento dos espaços vazios mesmo no domínio sonoro. Saio para ler um pouco no café e logo na rua os carros buzinam. As luzes ajudam ao frenético cruzamento de vezes vozes e anúncios (com altifalante) no ar. Nos cafés é a história habitual: a televisão acesa grita alguns programas genéricos «da manhã» ou «da tarde» supostamente concebidos para os reformados ou para a terceira idade - uma ex-apresentadora da Noite da Má Língua, aliás, chama esganiçada os telespectadores que possam estar ainda distraídos e que não a tenham ainda ouvido -, confunde-se com as vozes das pessoas no café e compete pela atenção maior. A disputa pelo som mais alto começa. As pessoas falam mais alto para se tentarem compreender por entre as ondas sonoras do programa de televisão e ambicionarem ouvir o que a pessoa ao lado lhes quer dizer. O televisor parece aumentar o volume num ciúme quase humano pelo «espaço vital», e volta ao pódio do barulho. As pessoas no café respondem falando ainda mais alto. A televisão idem. Por vezes são os canais de música que enchem os cafés, bares e restaurantes. Noutras horas do dia ou da noite, os talheres juntam-se a orquestra. E assim se preenche tudo o que os ouvidos podem alcançar com lixo. O ser humano desenvolveu uma espécie de alergia, de nojo pelo silêncio, pelo vazio, pelo espaço livre, um ódio à solidão do silêncio. Ninguém quer estar sozinho consigo mesmo (o que é compreensível, já que eu próprio sei o castigo que é estar na minha própria presença). Quando, ao sair do trabalho, ao chegar a casa ou ao «levitar» para os andares cimeiros de um centro comercial, entrar dentro de um elevador público que não o deixa sozinho com os seus pensamentos - bombardeando-o com uma música irritante dita «de elevador» -, percebe-se que nem mesmo sozinho é possível, de facto, estar sozinho e em silêncio.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

O tubarão

Freud era mais simplista, directo mas também mais generoso do que eu na avaliação do comportamento humano. Dizia ele que o homem não nasce bom nem mau em si mesmo, mas sim com instintos de sobrevivência, aos quais não é alheia a capacidade de destruição. Ou seja, acreditava (e julgava capaz de ser provado) que o homem não era mau em si mesmo tal como um tubarão não é mau por ser um predador. «Dizemos que o tubarão é mau por fazer o que faz?», perguntava ele. Nesta condescendência naturalista, Freud dava mais preponderância aos instintos do que à escolha livre quanto à maldade humana. Ainda assim, não me parece que seja muito abonatório da nossa capacidade de convivência uns com os outros.

Evil prevails



YURI ORLOV - They say: «Evil prevails when good men fail to act». What they ought to say is: «Evil prevails».

Lord of War (2005), Andrew Niccol

domingo, dezembro 28, 2008

Banda sonora



Stan Getz & António Carlos Jobim, Their Greatest Hits (2007)

O estado das coisas



A ler Sigmund Freud em época festiva.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Syriana



Syriana (2005, Stephen Gaghan)

Falta de ideias

Eu já nem me surpreendo com a alegria que parece dominar, transversalmente, as fileiras do PSD na última semana, graças à confirmação de Santana Lopes como candidato à Câmara de Lisboa. A maioria do PSD apoiou a troca de um líder competente (Marques Mendes) por um líder incompetente que até mediaticamente, na sua área, falhou (Menezes). Não será inédito, pois, que aplaudam o regresso de um dos homens que destruiu o partido nos últimos quatro anos. Pedro Santana Lopes volta com um sorriso vencedor, que lhe parece ser impossível esconder, batendo o pé à liderança de Manuela Ferreira Leite. É que, como eu já disse recentemente acerca da figura, não é uma questão de não ganhar as eleições autárquicas (acho que, caso o PS não faça uma coligação, até tem grandes hipóteses de ganhar a Câmara), mas sim de voltar a ser uma figura proeminente e representativa de um partido dividido, ou seja, voltando simbolicamente a tempos ainda piores de crise identitária. No PSD, começa a ser óbvia a falta de ideias, de valores e, pior ainda, de um plano para o país. Quando, face ao governo que temos, deveria ser exactamente o PSD a alternativa credível. Não é. E isso só deixa entrever um futuro próximo trágico para os portugueses.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Tratados sobre a família



The Squid and the Whale, (2005, Noah Baumbach)

quinta-feira, dezembro 18, 2008

O teste da liberdade

A liberdade é um problema tremendo. É um teste impiedoso à nossa maturidade, e à nossa qualidade humana. É uma prova sem recurso à nossa generosidade, e à nossa capacidade de trabalho. É um desafio frontal à nossa criatividade, e à nossa dedicação às causas em que acreditamos. É, sem dúvida, um exame decisivo à nossa coragem e à nossa decência. Quando ficamos livres para escolher, temos pela frente um futuro todo em branco onde ainda não estão inscritas regras - e por isso, de repente, não há nada que não seja possível. Nestes momentos-limite, ou estamos bem preparados para lidar com os milhares de opções que se nos deparam e nos mantemos permanentemente atentos ao pulso da sociedade que nos rodeia, ou nos perdemos completamente e acabamos por ficar cilindrados.
Com toda a franqueza, acho que foi isso mesmo que nos aconteceu em trinta anos de experiência democrática.

Clara Pinto Correia, Trinta Anos de Democracia: E Depois, Pronto

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Obrigado por fumar



Um filme excelente.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

O mito do «investimento público»


If taxes are taken from individuals and corporations, and spent in one particular section of the country, why should it cause surprise, why should it be regarded as a miracle, if that section becomes comparatively richer? Other sections of the country, we should remember, are then comparatevely poorer. The thing so great that «private capital could not have built it» has in fact been built by private capital - the capital that was expropriated in taxes (or, if the money was borrowed, that eventually must be expropriated in taxes).

Henry Hazlitt, Economics in One Lesson

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Grécia


Streets like a jungle
So call the police
Following the herd
Down to Greece (...)


Blur, Girls & Boys (1994)

Os deputados e as jantaradas

Não percebo porquê tanto afã com esta questão das faltas dos deputados. Ou melhor, não percebo porque é que se estão a criar duas trincheiras opostas ou porque é que gente com mediatismo ou responsabilidade (algumas vezes, ambos) como Pedro Santana Lopes têm razão para dizer seja o que for a não ser para uma justificação, nos casos em que as há. É que, para mim, é muito simples: quando um trabalhador da Autoeuropa, um professor, um bibliotecário, um assistente de livraria e qualquer outro trabalhador por conta de outrém falta ao trabalho é óbvio que tem de justificar essa ausência, mais não seja pelo respeito pelo bom funcionamento da empresa, oficina ou loja. Agora gente que se justifica, indignada, como tendo estado em jantares na noite anterior «em trabalho político» (o deputado Jorge Neto aparentemente esteve num jantar do Boavista, que é um trabalho político lindo, mesmo à boa maneira portuguesa, misturando política e futebol) fazia melhor em estar calada e ver se começa a responder melhor às responsabilidades. O mínimo que podiam fazer para merecer o ordenado era aparecer lá e ler o jornal. Ao menos compunha o quadro habitual.

O embaixador tranquilo em Havana

Na Visão História (que curiosamente, pouco tem de história mas não deixa de ser interessante) deste mês, dedicada aos 50 anos da revolução castrista em Cuba, a serem completados no próximo dia 1 de Janeiro, vem acoplado um artigo de opinião que me baralhou: eu não sabia se era parte da revista ou se era apenas publicidade, do género da que vem no saco do Expresso. Por via das dúvidas, e porque estava mesmo agarrado à revista, decidi deixá-lo por lá e lê-lo. A razão pela qual fiquei confuso vou passar a explicá-la.

O artigo é assinado pelo antigo embaixador português em Cuba (1999-2004) Alfredo Duarte Costa - que, curiosamente, agora foi designado embaixador em Atenas, em plena «guerra civil» (revela pontaria para se meter em cada trinta e um) - e é das coisinhas mais doces e comoventes que já li acerca de um ditador, neste caso o de Cuba, país e homem sobre os quais o artigo do Duarte Costa versa. Apesar de tudo, as suas primeiras impressões de Fidel Castro como sendo «um homem superiormente inteligente, intuitivo, dotado de grande perspicácia, consciente do carisma que possui» e «acima de tudo, um sedutor» provavelmente estarão inteiramente correctas. Fidel nunca me sugeriu inferioridade intelectual, mas sinceramente Estaline também não. Já acerca da atitude de contemplação que o embaixador deve a Fidel por este ser «afectuoso e cortês» com ele em jantares a dois (talvez fosse o vinho na cabeça do doutor, não sei) e acerca do suposto «sentido de humor», devo dizer que tanto Al Capone como Pinto da Costa são conhecidos por ter piada e por saber ter piada nos momentos certos, quebrando gelo e baixando defesas. Muito bem, Fidel Castro tem o perfil de um psicopata no poder. Excelente. O que tem mais o embaixador Duarte Costa para nos contar?

Diz ele que o povo cubano «não o vê como um ditador, mas como um familiar mais velho, que na maior parte dos casos admira e respeita» e que, surpreendentemente, «não era comum ouvi-los criticar o seu Presidente». Eu sempre tive consciência de que os embaixadores, na sua maioria, são escolhidos para essas posições por não fazerem ondas e por não primarem pela inteligência e sentido crítico, mas esta era demais: um diplomata sem a capacidade de perceber que numa ditadura nunca se vê contestação. Nunca. Pelo menos nada que realmente comprometa o poder e a imagem do poder.

Duarte Costa deve ter chorado de emoção quando escreveu que Fidel viajava num carro velho dos anos 70 e num avião decrépito, que recusou trocar porque «considera que seria inaceitável que se gastassem milhões de dólares na aquisição de uma nova aeronave, quando esse dinheiro pode ser utilizado na compra de medicamentos ou material escolar». É um gesto muito bonito. Por vezes, durante a leitura do artigo, pensei que se escrevia sobre Jesus Cristo ou sobre o Padre Américo.

Todo o artigo é fenomenal como extensão da propaganda oficial de Cuba e poderia estar aqui imenso tempo a dissecá-lo. O embaixador diz que não há «esquadrões da morte» nem tortura, diz que recebeu líderes da oposição e que estes nunca referiram essas torturas e assassinatos (risível se avaliarmos as condições em que vive e «existe politicamente» a possível oposição), diz que não há perseguições a padres e que os homossexuais, longe de ser perseguidos, até são protegidos e que «existe um bairro na capital cubana, perto do Capitólio, onde estes se reúnem e convivem em total liberdade». Isto é só uma hipótese e uma completa especulação, mas este «bairro» soa-me mais a gueto que a outra coisa.

Mas, entre todas estas barbaridades que saíram da caneta de Alfredo Duarte Costa, a que mais me chocou e levou à náusea foi este ter dito que a prostituição existe em Havana, sim, «como em qualquer outra cidade do mundo» mas «em muito menor número» comparativamente (suponho) a essas grandes urbes do mundo desenvolvido. E, o pior de tudo, é o ex-embaixador em Havana dizer isto: «as que recorrem a este tipo de vida são jovens que não querem trabalhar e que aspiram a comprar artigos de luxo, como roupas de marca, perfumes e outros bens de consumo estrangeiros». Que a estupidez fazia parte do carácter do embaixador e do património português que o homem aparentemente levou para Havana já eu tinha percebido, mas não pensei que chegasse a uma atitude que tem tanto de machista como de desumano como de ignorante. Porque ofende centenas ou milhares de pessoas que vivem na miséria. Pessoas que se prostituem por mais uns quantos sabonetes ou bens de consumo alimentar (não esquecer o racionamento) ou mesmo médicas que, por não ganharem o suficiente para se sustentarem a si e às suas famílias, escolhem a via da prostituição (com turistas, suponho) como a única maneira de terem uns dólares ou pesos extra ao fim do mês.

Alfredo Duarte Costa pode ser visto como «doutor» e «Sua Excelência» pela lente institucional, mas de mim não me merece um pingo de respeito. Não por ser amigo de Fidel Castro - já que a amizade, sempre aleatória, não escolhe propriamente o carácter ou a obra - mas por ser completamente cego, ignorante, desumano e desrespeitador do sacrifício que milhões de cubanos têm feito para sustentar, uns com esperança e outros com uma enorme angústia, a «Revolução» de Castro que supostamente lhes traria uma sociedade justa. O antigo embaixador acaba mesmo com uma frase da Grécia clássica que revela bem como o cérebro veio de lá impregnado de propaganda: «é desejável alcançar a felicidade individual, mas é muito mais belo alcançar o bem comum». Do ponto de vista psicológico, é curioso ver como alguém atribui a Fidel Castro um carisma do outro mundo e não se consegue enxergar como uma «vítima» desse carisma, como um apaixonado por Fidel.

Até posso estar a atirar no escuro, mas algo me diz que, se Alfredo Duarte Costa tivesse vivido uns cinquenta ou sessenta anos antes e tivesse sido embaixador na Alemanha de Hitler, teria saído de lá nazi e com uma carteira de pele judaica no bolso, oferta de Adolf, que afinal se tinha revelado uma excelente companhia para jantar. E nunca ninguém disse o contrário. Se calhar Adolf até teria umas piadas giras sobre judeus que animassem uma bela ceia de rosbife com um licor qualquer da Bavária.

Adão e Eva em Cuba

Os habitantes da maior ilha das Caraíbas gostam de dizer que são dos povos com maior sentido de humor da América Latina. E, para o provar, recordam que Adão e Eva eram cubanos: não tinham roupa, andavam descalços, não os deixavam comer maçãs e ainda lhes explicavam que viviam no paraíso.

Filipe Fialho, Visão História (Dezembro 2008)

México



Há algumas semanas atrás assisti a uma pequena palestra de um historiador mexicano sobre o liberalismo no México do século XIX. No final, perante um silêncio ignorante e ensurdecedor, ninguém ousou colocar uma única dúvida em toda aquela mescla de acontecimentos. Eu próprio sou réu nesta situação. As únicas coisas que me vinham à cabeça eram o Nacho Libre (ainda por cima com o Jack Black, que é americano), o Juan Rulfo, o Pancho Villa e uma pergunta deveras pertinente, que obviamente nem passou do cérebro para a boca: «o Zorro existiu mesmo?». Com tudo isto, resta perguntar: o que sabemos mesmo nós do México ou da esmagadora maioria dos países fora da Europa? É bom avaliar antes o nosso conhecimento da história e cultura de outros países quando nos apetecer lançar umas farpas para a suposta «ignorância desses americanos». Ainda que a imagem do México que mais me vem à cabeça quando penso «México» é mesmo a do Nacho Libre. Ignorante me confesso.

Influenza



Os últimos dias tenho-os passado inteiramente dedicado a um «caso» com uma senhora descendente de espanhóis: a gripe. Ou pelo menos assim o parece, pela maneira como se agarrou a mim e não quer sair. O cérebro fica lento e preguiçoso, o corpo fica torpe e envelhecido, o espírito fica bem debilitado e escondido debaixo da pilha de lenços de papel usados. Provavelmente dir-me-ão que é normal, mas a verdade é que já estou farto dela como se tratasse de um familiar que, desde que nasci, me visita algumas vezes por ano e, de uma forma realmente irritante, não me deixa trabalhar enquanto cá está. Embora nunca chegasse a ter asma, em pequeno cheguei a estar algumas vezes com os pés para a cova. Como prémio de sobrevivência, ganhei a capacidade de me tornar num verdadeiro instrumento meteorológico infalível na detecção de mudanças climatéricas. Em suma, se eu fosse Aquiles, o sistema respiratório seria o meu calcanhar. E a prima espanhola, a «influenza», sabe-o.

sábado, dezembro 06, 2008

Estado de natureza

Uma das grandes questões da Humanidade é a de saber se o homem é naturalmente bom ou naturalmente mau. Sempre apostei na segunda - uma crença, aliás, empiricamente confirmada - mas, ao fim de tantos anos, começo a pensar que haverá uma «natureza humana» bastante mais absoluta num outro plano, numa dimensão bastante diferente. Ou seja, não tem nada a ver com intenções, tem a ver com destino: o estado natural do homem é o fracasso. O falhanço. Felicidade e sucesso serão sempre excepções a aplaudir. Vivam segundo as expectativas naturais do ser humano e vão ver que a mó de baixo não virá de forma surpreendente.

Cidre



Cidre fascinava-os e repelia-os no mesmo e mero acto de estar presente, e na obcecada concentração com que o acometiam poderíamos sem dificuldade encontrar semelhanças com o estupro que um hotentote robusto e desinibido inevitavelmente praticará na pessoa esguia duma princesa sueca, se um e outra se encontrarem numa azinhaga à noite, para desgraça de ambos.

Nuno Bragança, Estação

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Banda sonora



Tudo na mesma

Ontem, um dos fiéis de Barack Obama, em comovente profissão de fé, garantiu-me que «a escolha do Gates [secretário de Estado da Defesa actualmente, e futuramente, em funções] foi muito inteligente, porque assim faz com que o problema do Iraque continue com quem o criou». Ora, para além da cegueira óbvia, a afirmação deixa-me a pensar no que se diria se fosse John McCain a tomar essa decisão de manter o secretário de Estado da Defesa. De seguida, curiosamente, e num momento de rara clarividência, quem disse a frase certa no momento certo foi Odete Santos, que se encontrava nas redondezas. Citando Lampedusa, tirou-me as palavras da boca: «É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma». E eu surpreendido, sem querer acreditar que tinha acabado de concordar com Odete Santos.

O estado das coisas

A rir da minha vida.

Entrevista de emprego #2

- Claro que pode ter opiniões! Ora essa... Não pode é expressá-las.

Entrevista de emprego #1

- É filiado em algum partido político? Em qual?

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Chuva purificadora

No suposto dia da independência de Portugal, o céu está cinzento, pouca luz há, e chove como há muitos meses não chovia. Não sou supersticioso nem me considero um crente, mas isto há-de querer dizer alguma coisa, não? Já dizia o perturbado Travis Bickle em Taxi Driver: «Thank God for the rain to wash the trash off the sidewalk». Pense nisto antes de pôr a bandeirinha à janela.

Sobre o Bem e o Mal



PEARL - I'm only human, man.

LELAND - It's funny how people only say that after they do something bad. I mean, you never hear someone say, «I'm only human» after they rescue a kid from a burning building.



The United States of Leland (2003), realizado por Matthew Ryan Hoge

domingo, novembro 30, 2008

O estado das coisas

Odeio o Domingo.

Pacheco Pereira e os bolcheviques portugueses

Das pessoas que lêem os artigos e o blog de José Pacheco Pereira, um número muito menor estará a par da sua produção escrita na área historiográfica (salvando-se daí, é claro, a mais que conhecida biografia de Álvaro Cunhal). E uma minoria ainda mais reduzida terá lido as obras vintage que JPP tem em relação ao movimento operário e às origens dos partidos de extrema-esquerda em Portugal. No entanto, esta faceta é fonte de algumas das mais interessantes investigações e reflexões em redor daquela camada social e daquela fracção do espectro político.

Uma obra nesse conjunto é Questões Sobre o Movimento Operário Português e a Revolução Russa de 1917, uma edição de autor publicada em 1971 no Porto, aparentemente com o apoio da Livraria Júlio Brandão. Não é uma obra prima, e muito menos um volume intensivo sobre o tema. Mas as reflexões aí contidas são centrais para a historiografia dos últimos anos que trata o PCP e a extrema-esquerda. E em especial a tese principal: a de que a Revolução Russa caiu como uma espada no seio do movimento operário, cortando as lutas operárias e sindicalistas (à esquerda da República) em dois grandes grupos, contribundo para o afastamento decisivo entre Bakuninistas e Marxistas, originando o grupo dos chamados «bolchevistas», fortemente influenciados pelo sucesso da Revolução Russa.

A fundamentação ideológica dessa facção vai-se fundamentar na especificidade do caso português, e em especial na participação de Portugal na Grande Guerra, ou, como o JPP de então se referia à mesma, a «guerra imperialista de 1914-18». Ou seja, o movimento operário já de si se opunha «ao serviço militar, ao recrutamento, e à própria existência do exército permanente». Em segundo lugar, as greves que já se haviam multiplicado antes de Sidónio Pais, mas que então se intensificavam sob a «Vida Nova» sidonista. A crise social (por exemplo, com os abastecimentos, problema que já vinha da monarquia) e a agitação operária abalam a estrutura da República e os sindicatos revolucionários ganham um novo fôlego.

Por fim, e nisto JPP vai mais longe do que uma enorme massa de historiadores, Questões Sobre o Movimento Operário... realça a reformulação ideológica dos revolucionários, obrigando à transição de uma unicidade flexível para a cisão profunda entre os «possibilistas» e os «maximalistas» (agrupados na Frente Maximalista Portuguesa), que defendiam precisamente a «máxima força» na luta contra os Republicanos. Já não se defendia a mera luta por melhores condições sociais, mas a total destruição do regime republicano, «injusto» e «burguês» na sua origem, estrutura e reprodução, logo incompatível com qualquer acção política integrada com os operários.

A pequena antologia que JPP inclui é até maior do que o corpo do texto, que é mais um artigo do que um «livro» na verdadeira acepção do termo. Curiosamente, e embora politicamente comprometido (não esquecer que este texto é escrito em 1971, com Pacheco Pereira inspirado pela visão maoísta do mundo), é um interessante texto acerca da Revolução Russa e do movimento operário português sem cair no cliché da dissertação acéfala em redor das «conquistas operárias». No mínimo, é, como eu disse, uma obra vintage que ganha valor com a idade.