sexta-feira, agosto 29, 2008

Obama caminhando sobre as águas

Ontem ouvi o discurso de Barack Obama dirigido à Convenção Democrata e não consegui deixar de torcer o nariz à retórica messiânica. É que há tanta coisa que cheira mal naquele discurso, naquela atitude, que nem sei muito bem por onde pegar. Para começar, fala-se muito em «políticas do passado», em esquecer «a política do passado» e pensar no «futuro», ou seja, a presunção de que a política vai ser mudada para melhor assim que o homem pisa a Casa Branca.

Depois, é a hipocrisia do «esta campanha não é acerca de mim [Obama] mas acerca de vós [povo americano]», que é como quem diz «estamos todos contra McCain e o Partido Republicano, eu simplesmente sou o resultado da vontade do povo». Ao menos Hillary Clinton, uma das figuras políticas americanas mais inteligentes e capazes - logo, mais manipuladoras, ambiciosas e intolerantes -, admitia que a campanha era sobre ela e sobre a sua caminhada até este ponto, em que podia concorrer à Casa Branca. A retórica desresponsabilizadora de Obama iliba-o, é claro, de todos objectivos pessoais e políticos. A sua campanha baseia-se no facto de ele poder chegar à Presidência, e não no que pode fazer depois de lá chegar. Se se analisar bem os últimos meses e os seus discursos, vai-se chegar, facilmente, a esta conclusão.

Finalmente, tentando ser sucinto, é toda a promessa global e oca de uma «mudança» para melhor. Mas não apenas uma mudança estratégica. Não. Obama promete, repare-se, mudar a moral americana, a maneira como os americanos olham uns para os outros, baixar os impostos, investir na energia doméstica e abandonar a dependência de fornecedores externos, uma política de saúde melhor, o fim da guerra no Iraque (ao mesmo tempo que proseegue a «guerra ao terrorismo, à al-Qaeda e aos Talibãs»), o fim da gravidez indesejada nas adolescentes, o fim da fome, da pobreza, da doença, da negligência ambiental, da chuva ácida e da maldade humana. Barack Obama, no fundo, promete isto: antes do galo cantar três vezes, há-de separar as águas no Mar Vermelho e caminhar no seu fundo.

Por muito que eu tenha alguma simpatia pelo simbolismo que consegue criar e pela inspiração que dá a muitos americanos, a verdade é que, substancialmente, Barack Obama não existe enquanto futuro Presidente. Ele existe, apenas e só, enquanto símbolo. E isso é das coisas mais perigosas que pode acontecer a um país. Especialmente a um país como os Estados Unidos da América. O candidato democrata ainda não se apercebeu foi do seguinte: este é o seu momentum. Se Obama não ganhar estas eleições, duvido que alguma vez volte a ter a mesma preponderância e as mesmas hipóteses na corrida à Casa Branca. O que é pena, porque depois da caminhada pelo deserto, haveria a hipótese remota de ele voltar com mais bagagem, mais moderação e, sejamos francos, mais humildade.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Petição contra a colocação de chips nas matrículas


Foi recentemente anunciada a intenção do governo de criar o Sistema de Identificação Electrónica de Veículos (SIEV), que torna obrigatória a colocação de chips electrónicos nas matrículas de todos os veículos automóveis.

Estes chips, designados de Dispositivos Electrónicos de Matrícula, emitem um sinal (RFID), que é lido e identificado por leitores de vigilância presentes ao longo da estrada; permitindo a identificação de cada veículo que passa nas suas imediações.

Esta tecnologia dá duas capacidades aos serviços, estatais e privados, comissionados para operar o SIEV:

- controlar a circulação de automóveis nas vias sob monitorização, pela identificação de cada veículo;

- após detecção, fazer cobranças automáticas aos proprietários dos veículos pela circulação nessas vias.

As intenções do governo de levar a cabo este projecto implicam, para além de mais um gasto desnecessário do dinheiro dos contribuintes, uma ameaça às liberdades individuais dos cidadãos e uma afronta directa à privacidade de cada um.

Devido a este cenário, achámos que era altura de fazer alguma coisa. O resultado disso, curiosamente, surge hoje, com uma petição online que um grupo de amigos (no qual estou incluído) decidiu elaborar. Desta forma, convidava todos os que se opõem a este projecto a assinarem:

www.ipetitions.com/petition/siev


*um texto bastante mais extenso pode ser encontrado na morada acima, onde também será possível, aos interessados, subscrever a petição

Jogos de palavras

Neste momento, está Rui Pereira - Ministro da Administração Interna - na RTP, em entrevista a Judite de Sousa, e eu não consigo entrever uma única resposta ou um único «ponto da situação» nas suas palavras confusas. Não varia, em nada, dos políticos que erguem folhas com números e estatísticas aparentemente em queda no crime violento, enquanto no mundo real as pessoas comuns, sem escolta policial, continuam com medo de sair à rua depois do cair da noite. É que pagar uma televisão pública que não pede responsabilidades a um homem que, por sua vez, não consegue ser claro (com quem o elegeu, claro está) nem faz um esforço para tal, já devia fartar. «Então não se fez nada, sr. Ministro?» «Não, não! Fez-se... e muito... mas apenas não tanto como queríamos».

Leaves of Grass (III)

Shut not your doors to me proud libraries,
For that which was lacking on all your well-fill'd shelves, yet needed most, I bring
Forth from the war emerging, a book I have made,
The words of my book nothing, the drift of it everything,
A book separate, not link'd with the rest nor felt by the intellect,
But you ye untold latencies will thrill to every page.


Walt Whitman, Leaves of Grass

Leaves of Grass (II)



Take my leaves America! take them South and take them North,
Make welcome for them everywhere, for they are your own offspring,
Surround them East and West, for they would surround you,
And you precedents, connect lovingly with them, for they connect lovingly with you.


Walt Whitman, Leaves of Grass

Leaves of Grass (I)

To the States or any one of them, or any city of the States,
Resist much, obey little,
Once questioning obedience, once fully enslaved,
Once fully enslaved, no nation, state, city of this earth, ever afterward resumes its liberty.


Walt Whitman, Leaves of Grass

quarta-feira, agosto 27, 2008

terça-feira, agosto 26, 2008

Madness

Por razões semi-profissionais, ou por amizade, tive de passar pelo Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. É um sítio estranho, devo dizer. As pessoas que se podem ver por ali, a passear, a observar ou, simplesmente, a aguardar não se sabe bem o quê, todas têm uma história misteriosa por detrás, que esconde, sem dúvida, as causas dos comportamentos curiosos que têm. Umas pedem cigarros a todas as pessoas que encontram, outras simplesmente olham o vazio, outras fitam-nos de forma ameaçadora (mas sem consequência), outros fazem pequenas cerimónias satânicas, enquanto outros caminham pelos corredores da instituição escolhendo apenas as lajes escuras, evitando pisar o branco sujo dos mosaicos do chão. É um sítio estranho, como dizia, mas que nos diz mais sobre as nossas próprias possibilidades emocionais e psicológicas (entre elas, a possibilidade de desvio) do que dos «problemas» dos outros. O que mais assusta numa visita ao Miguel Bombarda é saber que todas aquelas pessoas, internadas, são iguaizinhas a nós. E faz-me perceber o porquê de muitos «tiques» na escrita de António Lobo Antunes, que, sem dúvida, já viu desfilar centenas de pessoas pelos jardins desta instituição.

Tropa de Elite e o narcotráfico



Tropa de Elite (2007), de José Padilha, é um bom filme. Mas atenção, não tem o humor de Cidade de Deus (de Fernando Meirelles) nem uma visão optimista das «áreas cinzentas» da moral humana. Ou seja, as pessoas não são vilões com consciência social ou inocentes apanhados no fogo cruzado. Na sua maioria, as pessoas que se cruzam «acidentalmente» no caminho das missões do BOPE (unidade especial e paramilitar da polícia brasileira) são cúmplices do maior crme colectivo do Brasil: o tráfico de droga. Na visão do Capitão Nascimento (um papel brilhante de Wagner Moura), o narcotráfico e a miséria nas favelas são ambos alimentados pela própria «solidariedade social» de uma certa classe média que consome o produto de figuras como o Baiano, manda-chuva do morro dos Prazeres que deixa a ONG de Maria assentar na zona e tem uma «amizade» interesseira com Edu, estudante que, no fundo, é um traficante menor que consome e vende alguma da droga de Baiano ao mesmo tempo que marcha contra a violência policial.

Contrariando as acusações de fascista, Tropa de Elite é, no fundo, apenas uma visão desiludida, zangada e crítica do mundo da droga no Brasil, trazendo o narcotráfico - e a consequente guerra - dos morros e das favelas para a porta das classes médias, mostrando o exemplo dos consumidores que alimentam a máquina de gente como Baiano. No fundo, a droga existe para estes consumidores mais ricos, que na sua maioria revelam a hipocrisia de acusar a polícia antes sequer de pensarem em acusar-se a eles mesmos.

A história de Neto e Matias, hipotéticos substitutos do Capitão Nascimento (Neto o agente corajoso a quem falta inteligência, Matias o racionalista que hesita em arriscar tudo), só vem dar um enredo mais atraente e mais ficcional, abrilhantando no argumento um filme que já é forte na mensagem. Mas se fosse só pela mensagem, não valia assim tanto o tempo passado em frente ao écrã. Neste caso, vale: é um filme muito bem construído.

domingo, agosto 24, 2008

Franco-atirador

Por não «assumir posição», ou seja, não assumir uma evidente militância partidária, fui apelidado de franco-atirador por um ferranho militante comunista de Setúbal. A lógica da acusação, pus-me eu a pensar, afinal até é bem louvável: os franco-atiradores não se misturam com a infantaria normal, fardada e agrupada, que enche os campos de batalha, mas escolhem pôr-se em locais estratégicos (camuflados, calculo) para eliminar os seus alvos. O que aquele militante do PCP não se lembra é de que os franco-atiradores são aqueles que atiram sempre sobre as figuras-chave do opositor, sem nunca trair lealdades. Mais do que isso, esquece-se de que uma guerra pode ser ganha por eliminar uma figura-chave do inimigo, seja um general, um Hitler, um Saddam ou outro qualquer. E eu, humilde liberal sem um mínimo de pontaria, não me arrogo essa capacidade.

sábado, agosto 23, 2008

Colbert Report



Para mim, Stephen Colbert é um clássico moderno americano em duas vertentes: comédia em geral, e sátira política. O seu programa Colbert Report (um spin-off de Daily Show, baseado na sua rubrica neste mesmo programa) é umas lufadas de ar fresco do panorama internacional e merece ser visto sempre que possível (para os portugueses, apenas disponível online, na Comedy Central). Uma boa maneira de começar é com este programa de 14 de Agosto, muito «inspirado» nas então recentes notícias do conflito entre Rússia e Geórgia.

E depois tem a qualidade de ser um comediante inteligente a fazer sátira política em vez de ser um colunista de política a tentar fazer piadas. Este último nunca seria capaz de, por exemplo, deixar cair uma piada simples e «limpinha» como esta no meio da sua apresentação inicial: «If I had a quarter every time I said I had a nickel, I'd have five times as much theoretical money». Ou então a pérola: «Sarajevo is famously where World War I started. Unfortunately Sarajevo couldn't keep the fame going. I blame their tourism slogan: 'Sarajevo is for lovers... of trench warfare'». Vale a pena deixar de ser anti-americano para melhor rir.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Brutti sporchi e cattivi



Ettore Scola, Feios, Porcos e Maus, 1976

A terrível verdade

Viver sem leitura é perigoso, obriga a pessoa a viver a sua vida, comporta realmente muitos riscos.

Michel Houellebecq, Plataforma

sábado, agosto 16, 2008

Duas situações

Em dois pontos distintos do mundo, duas causas de instabilidade universal. Na Economist podem-se ler dois excelentes artigos:

- um artigo sobre a «crise» da habitação e do crédito sobre imóveis nos EUA, na qual é de prestar atenção à interpretação mais detalhada do alarme da queda dos preços e das suas causas («rapid growth is itself largely to blame. Moreno Valley had the misfortune to swell at a time of lax lending practices. Whole neighbourhoods were built on cheap credit and inflated expectations—palaces for the middle class»), que nos orienta no sentido de que foi o próprio crescimento que minou o desenvolvimento sustentado das economias e do crédito regionais, focando neste caso os subúrbios da Califórnia;

- nos antípodas, continuam russos e georgianos - vulgo, Putin e Saakashvili - firmes na sua firmeza, passe a redundância. E, embora seja importante ouvir e «valorizar» as pretensões dos separatistas no interior da Geórgia, o balanço final do confronto parece-me relativamente claro: «Mr Saakashvili is an impetuous nationalist who has lately tarnished his democratic credentials. His venture into South Ossetia was foolish and possibly criminal. But, unlike Mr Putin, he has led his country in a broadly democratic direction, curbed corruption and presided over rapid economic growth that has not relied, as Russia’s mostly does, on high oil and gas prices. America’s George Bush was right, if rather slow, to declare on August 11th that it was unacceptable in the 21st century for Russia to have invaded a sovereign neighbouring state and to threaten a democratically elected government». Não deixa de ter razão a consideração que é feita na conclusão deste mesmo artigo: «the worst outcome of this war would be for the West to allow Russia a veto over any sovereign country’s membership of either NATO or the EU».

sexta-feira, agosto 15, 2008

Memórias: MARSAPO



Quando os palavrões na TV eram humor revolucionário. E funcionavam.

O estado das coisas: psicoterapia literária



A tua influência sobre mim foi o que tinha de ser, mas acho que devias deixar de ver como uma forma particular de maldade da minha parte o facto de eu não poder fugir a essa influência.

Franz Kafka, Carta ao Pai

quinta-feira, agosto 14, 2008

«The buck stops here!»

Até os adeptos de um Estado intervencionista podem ser bons presidentes para todas as «facções» e todos os «credos ideológicos». Harry Truman foi um destes homens - talvez o homem mais honesto a alguma vez ocupar a Casa Branca num passado (relativamente) recente. Para essa presidência saudável, contribuiu, no entanto, um equilíbrio desafiante entre um grande Presidente e um Congresso Republicano protector de princípios conservadores quanto ao funcionamento da economia (que é a única coisa que pode vir a salvar uma presidência desastrada e inexperiente por parte de Obama, se este vencer). Uma coisa é certa: o que se gastou nos EUA durante a sua presidência foi, principalmente, para melhorar as infra-estruturas básicas e melhorar a qualidade de vida do povo americano, apoiando a economia sem a liderar. Um dos defeitos disto: o precedente ficou criado para um peso maior do Estado americano na economia (sobretudo no mercado imobiliário). O mérito: criou uma classe média que reconstruiu o país. Seja qual for o julgamento do seu legado, o que é inegável é que Truman recriou a América, e que eu não consigo deixar de gostar do homem.

(foto LC-USZ62-98170 retirada daqui)

Os Planos Quinquenais de José Sócrates

Diz o PS que, mesmo sem as «vacas gordas» de outros tempos, o Primeiro-Ministro tem sido um herói. O problema é que o plano de governação socialista passa por nos pôr a comer relva, sugerindo que esta é, no fundo, um bife da melhor qualidade. Como dizia Mark Twain: «uma mentira consegue correr o mundo seis vezes antes da verdade conseguir sequer vestir as calças».

Que o governo socialista não convive bem com a dúvida, as reservas e o julgamento dos portugueses – que, num golpe de loucura e boa fé, puseram o Partido Socialista no poder com uma maioria confortável – já todos nós sabíamos. O que eu não queria ouvir de facto, e tão às claras, é a assumpção da total falta de lealdade dos governantes aos governados e, acima de tudo, a falta de visão típica de um governo que, por medo das próximas eleições, não tem identidade.

Passo a explicar. O Presidente da Comissão de Fiscalização Económica e Financeira da Federação de Setúbal do PS, Rogério Fernandes, lançou no Setúbal na Rede, no passado dia 11 de Julho de 2008, um artigo intitulado Qual é a dúvida? e que teria o objectivo de justificar o investimento mastodôntico planeado, manipulado e decidido pelo PS. O artigo, no entanto, esgota-se no próprio título, não sendo mais do que uma confusão de lugares-comuns, frases vazias de sentido que escondem a enorme confusão e falta de ideias que, mais do que no PSD, parece estar à vista no PS que nos governa.

Na verdade, há tanta coisa errada no artigo que não sei por onde começar e que tenho, infelizmente, de abdicar de alguns assuntos de importância duvidosa. Passemos à frente das dúvidas existenciais de Rogério Fernandes quanto à diferença entre PS e PSD. O que é realmente preocupante é a maneira como se defende, continuamente, no artigo o Partido Socialista e o seu suposto «mérito» à custa dos portugueses, os verdadeiros sobreviventes à crise que já começou. Provavelmente referindo-se aos muitos milhões que vão ser extorquidos aos contribuintes portugueses (actuais e futuros), diz Rogério Fernandes: «a existência de uma grande obra pública a decorrer num país é geradora de fluxos económicos e financeiros muito interessantes», expandido o raciocínio mais abaixo ao defender que este tipo de despesa pública permite que «o "dinheiro" circule, que se criem postos de trabalho, que o desenvolvimento tecnológico aumente, que a arrecadação de receitas fiscais seja mais favorável».

Para além de eu não conseguir perceber o que serão «fluxos económicos e financeiros interessantes», resta-me esclarecer o autor desta frase de que «uma grande obra pública» o que traz é desequilíbrio orçamental que tem de ser sempre colmatado no capítulo das receitas. Ou seja, esses fluxos «interessantes» de dinheiro de que Rogério Fernandes fala são a dívida do cidadão comum português e dos miúdos que ainda nem fizeram o 2º ciclo, que assim podem agradecer a José Sócrates poder ver os seus futuros hipotecados.

Outra falácia interessante é a da criação de postos de trabalho com estas obras. Resta a pergunta: o Estado tem dinheiro para pagar mais ordenados? Para além do investimento técnico e material inevitável, o Estado (i.e., os contribuintes portugueses) tem orçamento para prometer mundos e fundos aos portugueses que não poderá cumprir? O endividamento de Portugal foi, nos últimos anos, um dos maiores cancros da nossa balança pública, e não consigo perceber como é que o Estado combate o desemprego gastando mais das magras carteiras dos nossos trabalhadores para pagar a outros trabalhadores. Isto é, por um lado percebo o senhor Rogério Fernandes quando este diz que «um outro sinal distintivo entre a direita e a esquerda é o modelo de distribuição da riqueza, claramente mais acentuado em termos de equidade e justiça no modelo social Europeu defendido pelo PS», ou seja, que, à maneira do Xerife de Nottingham (e não do Robin dos Bosques que Sócrates queria ser), o Estado português vai roubar cada vez mais aos portugueses para criar a ilusão de uma milagrosa generosidade. De facto, o PS quer criar essa equidade de que Rogério Fernandes fala, mas será, sem dúvida, baseada na terraplanagem da riqueza em Portugal, tirando fatias cada vez maiores do fruto do trabalho do português anónimo. Por isso, a «dúvida» aqui é: onde vai o Estado buscar o dinheiro para tudo isto, para as obras titânicas e para as falsas reformas que tem feito? Só aos portugueses. Ou será que não?

Abre-se uma outra possibilidade. O PS não quer endividar os portugueses até cerca de 2012/2013, prazo máximo para a sua extinção da Assembleia da República. E, aparentemente, quer baixar os impostos a tempo de receber uma palmadinha nas costas do eleitorado. Portanto, baixa-se os impostos, ou seja, promete-se aos portugueses que não serão eles a pagar esta dívida. E esta é a maior abjecção política que já vi nos últimos anos no nosso país. A mentira.

Rogério Fernandes menciona a crise do «subprime» mas não parece fazer-lhe a melhora leitura possível, já que nós, animais pouco dotados de capacidade de aprendizagem, queremos ir pelo mesmo caminho, só que desta vez com o exemplo pioneiro do Estado português. A mentira de Rogério Fernandes (no qual personalizo o pecado enquanto porta-voz do Partido Socialista em Setúbal) prende-se, acima de tudo, com a falta de clareza e de honestidade em revelar de onde virá o eterno capital de investimento que o Estado, aparentemente, tem. Vem dos empréstimos e «da Europa», injectando mais dinheiro falso nesta economia já de si fantoche, acrescentando facturas por pagar aos portugueses.

Repare-se que o «subprime» surge de um estilo de vida que existia muito acima das reais capacidades das economias domésticas e da economia nacional nos EUA, que foi sendo sustentado com o crédito a longo prazo e aparentemente grátis que era dado sem discriminação. Em Portugal (embora com grande «culpa» no dinossauro da lei de congelamento das rendas) isso já acontece, embora em menor escala, mas nada tão grave quanto o que o nosso governo vai fazer: vivendo e sonhando acima das suas reais capacidades, vai construir aeroportos, pontes, linhas de alta velocidade, requalificações urbanas (parabéns aos planos de endividamento de António Costa em Lisboa) e, sabe-se lá, porque não, mansões à custa do «fiado» que sempre fazemos desde que entrámos na União Europeia. Tanta preocupação com a crise do «subprime» por parte de Rogério Fernandes, mas tanta falta de inteligência em interpretar essa crise.

Por isso, alguém deve vir a público acordar Rogério Fernandes, assim como os enviados do Partido Socialista que, tal como ele, se perdem em actos de fé de levar às lágrimas, dizendo que «em tempo de "vacas gordas" qualquer um governa, mas governar em tempos de crise é só para aqueles que têm a "garra" e a coragem suficiente para tal… e disso não tenhamos dúvidas que o Sr. Primeiro-Ministro tem!». Com tanta vaidade com a «ideologia mista» de liberalismo com ética social-democrata, não percebem que inseriram em Portugal o melhor (o pior) dos Planos Quinquenais de Estaline juntamente com a pior perspectiva de endividamento público desnecessário das últimas três décadas, tudo em nome da sua devoção e paixão pelo «coração europeu» (a expressão está no artigo de propaganda que estou a criticar).

Quando Rogério Fernandes, ou qualquer outro socialista, vos vier perguntar «qual é a dúvida» em relação ao investimento público suicida que o Estado vai realizar, não se esqueçam de exigir bem claro e explicado: a «dúvida» é acerca de quem paga esse investimento. Pode ser que, com muita insistência, caia o embuste e, por detrás das frases vazias, se veja a realidade: o Partido Socialista vai agravar a crise económica e assaltar os bolsos dos portugueses.

Setúbal na Rede, 14 de Agosto de 2008

quarta-feira, agosto 13, 2008

Lovecraft

H. P. Lovecraft não será, nem por sombras, o meu escritor favorito. Mas Herbert West: Reanimador não deixou de me surpreender pelo interesse em mim estimulado, algo impensável num género que normalmente desprezo, tanto na literatura como no cinema: o terror. Acaba por ser um conto especialmente giro, que parece até ter correspondência no grande écrã. Outra coisa que me despertou a atenção, no entanto, foi a «atenção especial» que Lovecraft dá às raças não-brancas, numa visão marcadamente diferente de como vê Herbert West, o médico «calmo, loiro, de olhos azuis». A dado ponto, Lovecraft deixa cair uma descrição que não envergonharia nenhum líder do Ku Klux Klan:

O negro tinha sido derrotado por K.O., e após um rápido exame concluímos que ele permaneceria prostrado para sempre. Era repugnante, parecido com um gorila, com os braços anormalmente longos, aos quais não poderia deixar de chamar pernas dianteiras, e uma face que evocava inexprimíveis cerimónias secretas do Congo e batidas de tam-tam à luz de uma lua misteriosa. O corpo deveria ter ainda pior aspecto em vida - mas o mundo contém muitas coisas horríveis.

terça-feira, agosto 12, 2008

A ler

Três artigos interessantes sobre o «barril de pólvora» que se tornou a Ossétia do Sul nos últimos dias:

- Anne Applebaum sublinha a imprevisibilidade das acções e da diplomacia da Rússia;

- Victor Davis Hanson alinha mais na tese, que já aqui subscrevi, duma provocação continuada e planeada da Rússia para chegar à situação desejada, na qual seriam obrigados a «intervir» na Geórgia;

- e Svante E. Cornell leva a acusação mais além, numa avaliação moral do dever (enquanto aliado da Geórgia) do Ocidente em trazer os russos à «mesa» para apresentarem explicações, ameaçando-os com sanções reais.

Acquaintance



Actualmente a conhecer um autor e um género literário inteiramente novos. A ver o que sai daqui.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Os Jogos Olímpicos de Putin

Não tenho uma especialização em geopolítica ou geoestratégia, mas a mim não me bate certo que os georgianos fossem atacar soldados de uma nação com quarenta vezes o seu tamanho e poder militar.

Antes de mais, há que saber porque raio tinha a Rússia preparado forças e respectiva logística para sustentar um ataque aquele país, feito assim tão rápido, no preciso dia em que se abriam os Jogos Olímpicos.

Do conflito na Geórgia

Antes sequer de entrar na questão de já se saber mais ou menos como funciona a Rússia em termos de relações com os países soberanos que faziam parte da União Soviética, deve-se partir principalmente para a reflexão acerca disto: o que faziam tropas russas em território da Geórgia?

Se tivéssemos tropas espanholas, de repente, nas Beiras, também não iríamos gostar. E, sobretudo, o mundo iria desconfiar quando os «espanhóis» dissessem que, afinal de conta, tínhamos começado um ataque em massa às forças espanholas espalhadas pela fronteira, num claro ataque suicida. Se estas coisas não me fazem sentido, assim como a proliferação da «tese russa» do conflito na Geórgia, porque haverá de fazer sentido para tanta gente que a Geórgia é o novo «estado-fantoche» para legitimar a expansão do «Império Americano» (vulgo EUA, NATO, ONU, UE) para a região?

domingo, agosto 10, 2008

Soljenitsin



Para muitos, a morte de Soljenitsin trouxe, assim como a sua vida, uma carga política enorme. Para mim, trouxe-me um sentimento de perda ao ver partir um dos últimos grandes escritores russos do século XX, senão o último. Em memória do homem a quem já fiz aqui neste mesmo blog alguns comentários, uns de elogio, outros críticos, fica a inamovível fotografia do lendário Alexander Soljenitsin (1918-2008).

Ah, e começou uma guerra...

O Bruno tirou-me as palavras da boca:

A Geórgia e a Rússia entraram hoje em guerra, quando forças militares russas avançaram para a região da Ossétia do Sul, onde as forças georgianas haviam realizado ontem uma intervenção contra grupos separatistas locais. Esta notícia, do início de uma guerra no continente europeu, não foi mencionada no telejornal das 20 horas da RTP a não ser aos 40 minutos de emissão, imagino que por não ter considerada tão relevante como a conferência de imprensa (em directo) de um novo jogador do Benfica.

sábado, agosto 09, 2008

The american way


Norman Rockwell, The American Way, 1944

sexta-feira, agosto 08, 2008

«O Um Dividiu-se em Dois»

«Nas ruínas do imperialismo, os povos vitoriosos criariam rapidamente uma civilização mil vezes superior ao sistema capitalista e um futuro verdadeiramente belo para si próprios». Este vaticínio, fruto de uma «visão apocalíptica e messiânica da História», na qual o confronto nuclear tem um papel catártico na confrontação entre o proletariado e a burguesia, ou seja, entre os países comunistas ou socialistas e os países capitalistas, surge em Viva o Leninismo!, documento público produzido pelo Partido Comunista Chinês que revela as primeiras grandes divergências com o Partido Comunista da União Soviética.

O ardor destrutivo, defensor de uma guerra nuclear purificadora do domínio capitalista sobre o proletariado, que é reclamado pelos comunistas chineses é um dos primeiros grandes temas de «O Um Dividiu-se em Dois», trabalho recente de José Pacheco Pereira na sua luta «arqueológica» pelo desbravar dos arquivos da extrema-esquerda e do PCP, e consequente interpretação. O «subtítulo» do livro é explicativo do conteúdo: Origens e enquadramento internacional dos movimentos pró-chineses e albaneses nos países ocidentais e em Portugal (1960-65). Confesso que sou um admirador do trabalho e do tema, e por isso não posso deixar de aplaudir a seriedade (seriedade crítica, refira-se) com que Pacheco Pereira aborda a história dos movimentos revolucionários em Portugal.

No livro, é bastante sublinhada a crítica chinesa à linha política adoptada pela União Soviética perto de 1960. A viragem para a dètente, a «coexistência pacífica», é tomada pelo PCC como uma espécie de «revisionismo moderno» que tenta anular toda a doutrina marxista-leninista. A análise desta cisão gradual entre China e URSS, «dividindo em dois» o movimento comunista internacional, ou bipolarizando-o, é talvez o melhor capítulo de «O Um Dividiu-se em Dois». No Viva o Leninismo! afirmava-se com ironia: «Eles [PCUS] defendem que a coexistência pacífica entre países com regimes sociais diferentes significa que o capitalismo pode pacificamente evoluir para o socialismo, que o proletariado nos países governados pela burgesia pode renunciar à luta de classes e entrar em "coexistência pacífica" com a burguesia e os imperialistas». Não se faz «luta de classes» sem «luta», é a tese chinesa.

Outro aspecto importante desta cisão pública é a «projecção» das críticas para partidos nacionais secundários. Ou seja, os chineses, ao criticarem o «revisionismo moderno» do PCUS, personalizavam as maiores críticas nos jugoslavos e, de certa forma, na crítica pessoal que Tito fazia a Stalin. Já os russos apontavam baterias para os «cisionistas europeus» do Partido Trabalhista da Albânia (PTA) de Enver Hoxha, os supostos traidores da unidade do movimento comunista internacional ao criticarem Krutchev. Desta forma, não criavam um conflito directo público que pudesse destabilizar os dois maiores pólos do comunismo internacional.

Mas, diz JPP no livro: «Face ao conflito sino-soviético, o ambiente político do início dos anos sessenta era favorável à radicalização. Em muitos países europeus conhecia-se um recrudescimento dos conflitos, em França com a guerra da Argélia, e em Portugal com o início da guerra colonial. Na América Latina tinha havido a vitória castrista, em África o ascenso dos movimentos de libertação e a descolonização, seguidos da crise dos mísseis, da guerra do Vietname, do conflito fronteiriço entre a China e a Índia. Tudo isto criava um pano de fundo favorável à contestação das doutrinas krutchevianas da coexistência pacífica pelos sectores mais radicais dos partidos comunistas». A «revolução» internacionalizava-se cada vez mais, e a busca de novos apoios tornava-se premente. Assim se vão multiplicar as adesões às teses «dogmáticas» (segundo os soviéticos) do PCC por parte de várias figuras e de novos movimentos: os M-L, marxistas-leninistas que renovavam a fidelidade à bíblia dos pioneiros alemães do movimento comunista.

Uma nota ainda para o capítulo dedicado à ruptura no seio do PCP. Álvaro Cunhal passara a ter de lidar, a partir de certa altura, com noos desvios: para além do «desvio de direita» de Fogaça, agora tinha um núcleo pró-chinês aparentemente (e realmente) a formar-se. É com este núcleo, claramente encabeçado por Francisco Martins Rodrigues, que não se revia nas escolhas de alianças de Cunhal (a ver no livro também as interessantes referências ao «equilibrismo estratégico» que o secretário-geral do PCP fez com União Soviética e China),que se vai formar a Frente de Acção Popular / Comité Marxista-Leninista Português (FAP/CMLP), o primeiro grupo forte a que se viria a chamar, simplesmente, «maoísta».

quinta-feira, agosto 07, 2008

Fuzilamento

- Temos de fuzilar - disse o médico dirigindo-se ao coronel. - Os diabetes são demasiado lentos para acabar com os ricos.

Gabriel García Márquez, Ninguém Escreve ao Coronel

segunda-feira, agosto 04, 2008

A Minguante de parabéns



A Minguante nº 11 já está online. Entre outros textos, está lá uma tentativa minha de literatura, retirada da feia gaveta do «destalento». Para além disso, a revista faz dois anos, o que é sempre um feito notável para uma publicação de qualidade no nosso país. Parabéns à Minguante, e que resista a Portugal.

Match Point

domingo, agosto 03, 2008

sábado, agosto 02, 2008

Obama promete ser um Presidente preto



No Diário de Notícias de hoje, uma carta de um leitor, Victor Morbey Aleixo, acerca de Obama e da «questão da raça» (do próprio candidato), chamou-me a atenção. Por várias razões, mas sobretudo por esta: o leitor falha em tudo o que diz. Mas não está sozinho, nem terá propriamente culpa.

Quando Obama se destacou na corrida pela nomeação democrata, também eu fiquei sorridente. Embora fosse um entusiasta de Giuliani, recebi com simpatia a figura de Obama, um tipo inseguro acerca do que acredita e das suas decisões, mas cheio de boas intenções e de um discurso inspirador pela «Mudança» («a change we can believe in» é o lema principal), que quase todos aceitarão como inevitável e, a nível doméstico, necessária. Obama era, por isso, o candidato Democrata que melhor nos daria uma ideia de crítica ao governo republicano dos últimos oito anos, ou seja, a candidatura que melhor faria pensar o próprio Partido Republicano. Pelo menos era nisto que eu acreditava.

No entanto, assim que Obama ganhou a nomeação (dificilmente conquistada contra a «velha raposa» Hillary Clinton), as incoerências foram surgindo. Na política externa, Obama iscilava entre a retirada total e imediata do Iraque e a manutenção da lei e da ordem naquele país, entre «trazer os rapazes para casa» e o reforço dos contingentes no Afeganistão, entre o «diálogo» com o Irão e a promessa de atacá-los. Nos assuntos domésticos, e entre outros, muito recentemente veio a questão da perfuração petrolífera em casa, defendida por McCain, e que Obama agora admite «poder vir a apoiar». Em vários assuntos específicos, matérias de facto, importantes, Obama tem «deslizado» e mesmo assustado quem o ouve (sobretudo com a sua visão irrealista do mundo e da natureza humana).

Mas a minha embirração com a carta de Victor Mobley Aleixo é, sobretudo, com a questão da cor da pele de Barack Obama, que, supostamente, tem sido criticada. O problema aqui é claro: o Sr. Aleixo, como 90% dos portugueses, só vê as notícias pelos olhos dos portuguesas ou, quando muito, pelos olhos dos europeus. Nos EUA, a realidade é outra, a atenção é outra: McCain nunca referiu a cor da pele de Obama, não só na sua identificação com um eleitorado (apesar do democrata ser, pela razões óbvias de identificação, mais apetecível para os negros) mas, sobretudo, na desvalorização de algo que ele defenda. Diz o Sr. Aleixo que «já não é a primeira vez que se ressalta nas peças jornalísticas a cor da pele do candidato, como sendo uma primeiríssima questão. Se fosse branco também se falaria disso? Esta é precisamente uma das questões que Barack Obama combate, ou seja, sobretudo somos todos pessoas, seres humanos, ponto final!». A questão é que acontece precisamente o contrário, ou seja, é errado que «precisamente Barack Obama, não faz bandeira disso, candidata-se como senador que é, como político, de acordo com a sua consciência e de ponderação racional e culta». O que Obama tem feito, cada vez mais, é aproveitar a história dos direitos civis, e a imagem de outros excelentes oradores negros (como o Dr. Martin Luther King) para lhe dar o carisma do paladino negro.

Obama, saltando por cima do conteúdo, tem focado a retórica da mudança e do sonho de um mundo melhor, numa perspectiva da diplomacia suicida para os Estados Unidos, perigosa para os aliados do seu país e caótica para o Mundo. E, ao contrário do que diz o leitor, tem focado o facto de ser um candidato afro-americano. Muito recentemente, penso que em Jerualém, referiu que sabe que «não se parece com os Presidentes americanos que por lá têm passado» como quem poderia dizer: «serei o primeiro Presidente preto na Casa Branca». Repetiu a gracinha na Europa e tem andado a fazer o mesmo em algumas campanhas domésticas. As pessoas querem ver realizada a sua concepção ideal de um país que oferece oportunidades iguais a todos, e Obama sabe-o bem.

A retórica de Barack Obama deu agora uma volta, e para além de querer fazer lembrar JFK, quer agora fazer lembrar o «sonho» de Luther King... encarnando o «sonho» na sua própria pessoa. Quando a campanha de McCain refere, e com razão, que Obama tem utilizado, isso sim, o facto de ser negro em seu favor (como uma vantagem moral e competitiva) sublinhando-o em discursos seus, o candidato Democrata defende-se, dizendo que os Republicanos só sabem atacar (a «low road politics»), numa auto-vitimação desnecessária e sem razão. Nós é que, cegos pela ideia gira de ver os Americanos liderados por quem nós queremos e pela falta de informação e de imparcialidade dos jornais portugueses, não conseguimos ver isto. Por cá, quem já viu sessões da Assembleia da República com as participações defensivas e histéricas de José Sócrates sabe que o valor e a validade das críticas são o que nós quisermos fazer delas.

O escândalo da ambição aos vinte anos

Uma boa parte dos telejornais tem dado uma atenção desmedida à vontade de dois ou três jogadores portugueses saírem dos seus clubes. Estão danados para sair do país, portanto. A verdade é que não lhes posso censurar isso. Dois deles são Moutinho (Sporting) e Quaresma (Porto), que já treinam e jogam nos jogos de preparação com a vontade e o esforço físico iguais aos do Garfield. Querem sair e ganhar mais dinheiro no estrangeiro, para se reformarem mais cedo e voltarem cá, quem sabe para investir em pequeninas empresas ligadas ao futebol.

Não percebo é porque é que tanta gente fica revoltada com estas notícias relativas a rapazes que ainda nem terão vinte e cinco anos, quando, há pouquíssimos anos, um primeiro-ministro já com idade para ter juízo e responsabilidade, deixou o país de pantanas a sacrificar-se sozinho, enquanto ele (que nunca pecou por inteligência) se juntava a um novo projecto de «harmonia europeia». Pior ainda, temos um governo que navega na crista da onda das mentiras de campanha eleitoral, com «carta verde» para fazer «o que é preciso» e os «sacrifícios» e «reformas» que «fazem falta», sem dar satisfações a ninguém. Devíamos pensar se andamos a exigir o necessário às pessoas certas.

quinta-feira, julho 31, 2008

Natureza humana

Que é a fealdade,afinal, senão a alma a transparecer através da carne?

J.M. Coetzee, A Idade do Ferro

quarta-feira, julho 30, 2008

Psicologia vocacional


Ontem, quando mudei de canal para a RTP2, vi este senhor a comentar a atitude da «comunidade internacional» em relação a Robert Mugabe, a quem acusou de «ampliar a dimensão do genocídio e da corrupção» no Zimbabwe.

Inferno

Em certos dias que por aí têm passado, tenho pedido aos céus que me levem. O meu reino por um cavalo. A minha alma por um sopro de ar fresco que me salve de derreter. Porquê tanta gente com medo de ir parar ao Inferno, quando - paradoxalmente - adoram este calorzinho de fazer bater os dentes e não perdem uma oportunidade para esturricar deitados na areia com o corpinho ao léu? Ir para o Paraíso, escapando assim das chamas e dos graus centígrados do Inferno, devia estar reservado aos mais inaptos para sobreviver nesse destino dantesco dos pecadores. Uma lista de espera, como se faz para os candidatos a transplante, seria uma boa ideia.
Enquanto caminho pelas ruas debaixo deste sol infernal e a roupa se vai pegando ao meu corpo como uma nova pele, vou desatando a pensar em novas coisas para oferecer em troca de algo fresco. «Senhor, leva-me a alma e dá-me uma ventoinha portátil». «Não dou: alma muito herética», responde-me telegraficamente o velho. «Senhor, que maior prova queres da tua omnipotência se sobrevives fresco aí em cima tão perto do Sol?». «Senhor, dai-nos o Outono e leva o Al Gore para tapar o buraco do ozono», e ninguém responde. Pelo menos, vendo as notícias, vejo que não tenho resposta, já que o Al Gore até parece ter voltado à política. Vou tentar uma abordagem budista ou, quem sabe, islâmica. Pode ser que lá para Setembro já me chova na cabeça.

Pais e mães

- No meu tempo, considerávamos a instrução um privilégio. Os pais poupavam e amealhavam para terem os filhos na escola. Para nós, seria coisa de loucos deitar fogo a uma escola.
- Hoje em dia é diferente - respondeu Florence.
- Acha bem que as crianças deitem fogo às escolas?
- Não está na minha mão dizer às crianças o que hão-de fazer - disse Florence. - Hoje em dia está tudo mudado. Já não há mães nem pais.
- Que disparate - disse eu. - Há-de haver sempre pais e mães.


J.M. Coetzee, A Idade do Ferro

sábado, julho 26, 2008

Blockbuster



Obama é o perfeito produto das máquinas publicitárias do mundo moderno, muito mais do que o mero produto das máquinas de propaganda do Partido Democrata e seus simpatizantes e contribuidores «locais». Mas nisto Obama - à imagem de vários líderes políticos na Europa - tem igualmente o seu mérito: também ele consegue «vender» o próprio produto (ele mesmo) baseando-se nos seus dotes retóricos e oratórios. No final deste ano, soa-me que, infelizmente, tal como todos os «blockbusters» maus do Verão, a campanha vai render o que pretendiam.

O «mundo mágico» de Obama

A ler Victor Davis Hanson sobre o discurso de Berlim de Barack Obama. Uma parte do mesmo fica aqui:

What disturbed me about Barack Obama's Berlin speech were some reoccurring utopian assumptions about cause and effect — namely, that bad things happen almost as if by accident, and are to be addressed by faceless, universal forces of good will.

(...)

With all due respect, I also don't believe the world did anything to save Berlin, just as it did nothing to save the Rwandans or the Iraqis under Saddam — or will do anything for those of Darfur; it was only the U.S. Air Force that risked war to feed the helpless of Berlin as it saved the Muslims of the Balkans. And I don't think we have much to do in America with creating a world in which “famine spreads and terrible storms devastate our lands.” Bad, often evil, autocratic governments abroad cause hunger, often despite rich natural landscapes; and nature, in tragic fashion, not “the carbon we send into atmosphere,” causes “terrible storms,” just as it has and will for millennia.

Perhaps conflict-resolution theory posits there are no villains, only misunderstandings; but I think military history suggests that culpability exists — and is not merely hopelessly relative or just in the eye of the beholder. So despite Obama’s soaring moral rhetoric, I am troubled by his historical revisionism that, “The two superpowers that faced each other across the wall of this city came too close too often to destroying all we have built and all that we love.”

I would beg to differ again, and suggest instead that a mass-murdering Soviet tyranny came close to destroying the European continent (as it had, in fact, wiped out millions of its own people) and much beyond as well — and was checked only by an often lone and caricatured U.S. superpower and its nuclear deterrence. When the Soviet Union collapsed, there was no danger to the world from American nuclear weapons “destroying all we have built” — while the inverse would not have been true, had nuclear and totalitarian communism prevailed. We sleep too lightly tonight not because democratic Israel has obtained nuclear weapons, but because a frightening Iran just might.

Omnipresença

É impressão minha ou há uma conspiração dos meios de comunicação social mundiais para erradicar John McCain do horário nobre e oferecer esse tempo a qualquer coisinha que Obama faça?

terça-feira, julho 22, 2008

Promessas



E muito baixinho disse: deixá-lo-ei para sempre, se o deixares viver, e enterrava mais e mais as unhas até sentir a pele romper-se. E continuei: as pessoas podem amar-se sem se ver, amam-Te sem Te ver a vida inteira - e ele apareceu à porta e estava vivo, e eu pensei: a agonia de viver sem ele começa, e desejei-o outra vez definitivamente morto, debaixo da porta.

Graham Greene, O Fim da Aventura

segunda-feira, julho 21, 2008

Tadpole



Tadpole (Gary Winick, 2002) foi uma surpresa para mim, e é um dos filmezinhos mais agradáveis que já vi. Poderia ser considerado um «ensaio» para The Royal Tenenbaums (de Wes Anderson), se não fosse o azar de er surgido mais tarde. Neste caso, a história de aprendizagem, fracasso e desilusão de Oscar Grubman (Aaron Stanford) mistura-se com uma curiosa paixão avassaladora por Eve (Sigourney Weaver), que, para além de ser bem mais velha é... a própria madrasta. Para um filme do qual nunca ouvi falar, pareceu-me francamente bom, independentemente das falhas que possa ter.

Enzensberger e a guerra civil


Em Perspectivas da Guerra Civil, Hans Magnus Enzensberger traz-nos uma excelente reflexão acerca da guerra civil. Mas, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, daqui não resulta um ensaio político, e muito menos um desfile de possíveis causas e culpados da «guerra civil». Não, em Perspectivas... Enzensberger tenta traçar um quadro bem mais moral (e, poder-se-ia dizer, psicológico) do agressor no contexto de guerra civil. E é na definição desta última, da guerra civil, que se encontra o real desafio e originalidade do ensaio. Sem demoras, Enzensberger qualifica como «guerra civil» toda e qualquer agressão continuada (ou persistente, ainda que rapidamente detida) ao «próximo», ao «vizinho», isto é, «não apenas um velho hábito, mas a forma primária de todos os conflitos colectivos».

Assim, para localizar as «guerras civis» perto de todos nós, o escritor alemão vai buscar o esvaziamento ideológico actual (o ensaio data de 1993) para desvalorizar a violência imanente que os delinquentes, skinheads ou hooligans terão para descarregar no primeiro sujeito que encontrarem, por comparação aos guerrilheiros e terroristas dos anos 60 e 70 (com destaque para os marxistas, atiro). Mais importante ainda, Enzensberger tem uma leitura muito simples mas quase perfeita da caracterização psicológica da dinâmica da relação do «vândalo» com o «outro», com o mundo da ordem: «Nos delitos espontâneos os vândalos manifestam - numa amálgama indissolúvel com o ódio a si mesmos - a raiva pelas coisas intactas, o ódio a tudo o que funciona». Quem, no seu perfeito juízo, não terá inveja e ódio à «ordem» quando tudo na sua própria vida parece estar a falhar sem melhoras?

Mas o que é realmente louvável neste ensaio é o pessimismo antropológico e escatológico de Hans Magnus Enzensberger. Ele não vislumbra nenhuma salvação ao fundo do túnel, e não tem pena dos delinquentes, que considera os únicos culpados pela violência que eles próprios distribuem pelo mundo imediato. Tal como os terroristas, não é a ideologia nem os «maus tratos» da sociedade que os levam a empunhar a faca contra os inocentes, mas sim a sua própria condição falível enquanto seres humanos, levando-os a praticar um dos mais velhos crimes da humanidade: o fratricídio.

Mais louvável ainda é a saudável constatação, do ensaísta, de que as pessoas (não menciona qualquer nação, mas o cidadão comum) não têm o dever moral - que se diz ter - de ajudar alguém no outro lado do mundo. Defende a lógica de «first things first», ou seja, é preciso antes de mais praticar o possível, impedindo que alguém vandalize o nosso próprio quintal. Na medida do possível, cooperar com o vizinho. E por aí fora. África é muito longe para as boas intenções de um funcionário público na Europa. Como o próprio vaticina: «Onde quer que estejamos, a guerra está à porta das nossas casas». Mesmo que ainda não tenhamos reparado nela.

O estado das coisas





Leonard Cohen

Uma metáfora para a desconfiança xenófoba

Dois passageiros num compartimento de comboio. Não sabemos nada do seu passado, origem ou destino. Instalaram-se como se estivessem em casa, ocupando mesinhas, cabides, cubículos para bagagem. Há jornais, casacos e malas de mão espalhados pelos lugares vagos. Abre-se a porta e entram dois novos viajantes. A sua chegada não é bem-vinda. Há uma evidente má-vontade por terem de se chegar , retirar as coisasdos lugares vagos e partilhar o espaço disponível. Neste caso, os primeiros passageiros comportam-se de forma particularmente solidária, apesar de não se conhecerem. Confrontam, como grupo, os recém-chegados. É o «seu» território que está a ser disputado. Qualquer um que apareça é visto como intruso. Consideram-se nativos e revindicam a totalidade do espaço. Esta atitude não se pode explicar de forma racional, parece estar profundamente enraizada.

Hans Magnus Enzensberger, A Grande Migração

domingo, julho 13, 2008

Nacionalismo à portuguesa

Em Portugal, o nacionalismo não teve como no resto da Europa um conteúdo laico e liberalizante (excepto nos breves episódios da Patuleia e da propaganda republicana entre 1890 e 1910). Pelo contrário, quase sempre não se distinguiu do ultramontanismo católico e das causas típicas da conservação.

Vasco Pulido Valente, Ir Prò Maneta - A Revolta contra os Franceses (1808)

Seleccionador

Para acabar com todo este zum-zum em redor do hipotético novo seleccionador nacional, por mim convidava-se Luís Freitas Lobo e ficava o assunto arrumado.

terça-feira, julho 08, 2008

Bergman e a nostalgia



Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

A good WC is hard to find


As casas de banho públicas deixam-me a tremer até ao osso. Nunca pensei que isto chegasse a este ponto. Para ser científico, deixam-me em completo estado de paranóia. A aventura repete-se sempre da mesma forma: entro no sítio, normalmente, empurrando a porta para o lado (que se vem a fechar automaticamente atrás de mim), dirijo-me ao local do crime e faço o que tenho a fazer. Até aqui é sempre perfeito, tal como se fazia antigamente nas esquinas das ruas e nas árvores da escola quando se era pequeno. Tempos em que o pragmatismo se sobrepunha à funcionalidade. Por mim tudo bem, mijo num complexo construído em laboratório, de regra e esquadro, para o efeito, como mijo do alto de um penedo para o centro da colónia de formigas, exercendo ocasionalmente o meu direito darwiniano de abuso dos mais fracos (pelo que sei e sinto quando me sento na base de uma árvore, no campo, as formigas comer-nos-iam a todos vivos se tivessem mais metro e meio de altura).

Mas toda a expressão que traga «público» ou «pública» no comboio, normalmente no fim do mesmo, é sinal de tempestade. As casas de banho não são excepção. O cheiro a urina, que mais parece estar espalhada pelas paredes e, não raras vezes, pelo espelho, pauta o ritmo acelerado que qualquer pessoa normal leva para acabar o mais rápido possível o seu trabalho e sair dali. As figuras sinistras que, uma ou outra vez, povoam estes locais quebrando (durante largos segundos) a regra de nunca cruzar o olhar com outro homem dentro do teatro de guerra. As torneiras que se desligam sozinhas após três segundos. O sabonete esgotado. O papel inexistente. O secador avariado. São todos ecos da única palavra que pode qualificar uma casa de banho pública: obsoleto.

Mas o pior, o meu pesadelo, é mesmo, a partida. Como tirar os habitantes desta colónia de férias de bactérias das mãos? Mexe-se na torneira, lava-se as mãos, mexe-na caixa do sabonete, lava-se, seca-se. E depois, quem abre a porta? Já alguém pensou que, invariavelmente, todas as almas que já entraram numa determinada casa de banho pública tiveram de abrir a porta para sair? O que quer dizer que pelo menos uma mão, de cada uma das pessoas que já usaram essa casa de banho, esteve no puxador da porta. Como mexer no puxador sem estragar a meticulosa missão de lavagem? Ninguém sabe. Para minha contínua perdição psicológica, ainda nenhum arquitecto pensou nisso a fundo.

Antes a única coisa com a qual nos preocupávamos era se estaria alguém à vista ao pé da árvore de eleição. Na idade selvagem dos anos 80 e 90. Tempo em que o homem usava o meio-ambiente à vontade. Hoje em dia, é o meio-ambiente que usa o homem. Ou, pelo menos, me usa a mim.

Caçadores

Confissões, pedidos de desculpa: porquê esta sede de humilhação? Segue-se um momento de silêncio. Permanecem em torno dele como caçadores que encurralaram um animal desconhecido e não sabem como matá-lo.

J.M. Coetzee, Desgraça

Haverá sangue


J.M. Coetzee. Tiro o chapéu a este homem.

E tiro, de forma generosa, o chapéu à «literatura africana». Num pequeno parêntesis, passo a explicar esta última expressão, deveras ambígua: África, como fica bem provado em Desgraça, de Coetzee, é um continente «quente», que ao longo dos tempos tem sido palco de revoluções, convulsões, tumultos e mudanças sociais e políticas intermináveis, logo, é o palco ideal para uma narrativa pela imprevisibilidade (mesmo nos dias que correm) do que pode acontecer a qualquer momento. A ficção neste continente, misturada com a liberdade de exploração da África profunda, tem, por isso, em si um mundo de possibilidades.

Desgraça, obra de J.M. Coetzee, surge um pouco dessa situação. Da situação de tensão racial na África do Sul, pátria de Coetzee e do próprio romance. É a tensão racial que, inesperadamente, sem antes se revelar, se vai cruzar com a história de David Lurie (a personagem principal, segundo alguns feita à imagem do autor), um professor branco na Universidade do Cabo que parte, já «em desgraça», para o campo, onde partilhará os seus dias com a filha Lucy. É nesta propriedade que se dará o clímax precoce mas terrível da obra, que muito deverá à tensão racial acima referida. David e Lucy terão as suas vidas completamente mudadas por um acontecimento hediondo.

O espírito da narrativa, aliás, fez-me lembrar, e muito, o filme de P.T. Anderson Haverá Sangue (There Will Be Blood). Não tanto pelo conteúdo, mas pela construção dos actos e consequências de Daniel Plainview, que nos levam necessariamente a levar à letra o título do filme: haverá sangue. E, à medida que se vai lendo Desgraça, é isso que se sente. Que a qualquer momento, num golpe terrível do destino, «haverá sangue». Embora não queira estragar a surpresa, a verdade é que, realmente, esse sangue é derramado.

Desgraça poderá não ser o melhor romance de J.M. Coetzee. Haverá, até, melhores escritores que o sul-africano e com temas e enredos bem mais abrangentes e over the top. Mas no que toca a literatura do final do século XX, poucos terão a capacidade de envolvência moral que este tem. E, para além da carga moral, também há a meticulosidade estrutural e técnica da trama, que claramente fecha o leitor numa jaula de curiosidade. Se há romances perfeitos, posso arriscar que Desgraça, de Coetzee, pode bem ser um deles.

sexta-feira, julho 04, 2008

Diplomacia



Como sempre nestas coisas, as Nações Unidas têm feito «o melhor que podem» para pressionar, de forma «diplomática» e «civilizada», o imperador Robert Mugabe e seus sequazes no Zimbabwe. Mas é óbvio que, como também é habitual, esta pressão das Nações Unidas é o símbolo da nulidade e da inércia da instituição e de todos os que depositam esperança na mesma. É a diplomacia frouxa do «se não nos obedecem, nós vamos chatear-nos e fazer queixinhas a alguém». Nisto de lidar com predadores com jeito para ganhar e reter o poder, sempre gostei mais do estilo de Churchill do que do estilo de Chamberlain.

Coisas que me assustam

A partir de hoje os novos cães portugueses passam a ter obrigatoriamente implantado um micro processador que os identifica. Os cães passam a ter bilhete de identidade escrito no corpo, e um número único, como se fosse um código de barras. Nada impede que o que se está a fazer aos cães se faça aos humanos e estou convencido que será apenas uma questão de tempo. No século XX muitos humanos estiveram já marcados, como o gado, nos campos de concentração.

José Pacheco Pereira, no Abrupto

quinta-feira, julho 03, 2008

O estado das coisas



Depois de revisto Man on the Moon (nove anos depois de o ver uma primeira vez), fico com a certeza de que este é um grande filme.

Gárcia Márquez



Mais uma prova de que se deve esquecer a vida política de um autor para encontrar o verdadeiro valor da sua obra escrita está em Gabriel García Márquez. Por outro lado, mais a nível pessoal, é, como se costuma dizer nos fóruns de opinião, a «prova provada» de que estou sempre a aprender e sempre a surpreender-me com o mundo da literatura. A obra de García Márquez segue, de forma terna - e com «vontade de contar histórias», à maneira de Sepúlveda - aquilo que eu mais gosto na literatura e que é aquilo que é também mais importante na criação: pegar em algo no qual ninguém acredita e torná-lo numa situação ou história que ninguém quer esquecer. O colombiano consegue isso mesmo, e muito mais.

Culpa

Iam em três noites sem dormir, mas não conseguiam descansar, pois assim que começavam a adormecer lá voltavam eles a cometer o crime. Já quase velho, tentando explicar-me o seu estado naquele dia interminável, Pablo Vicario disse-me sem nenhum esforço: «Era como estar acordado duas vezes.» Essa frase fez-me pensar que o mais insuportável para eles no calabouço deve ter sido a lucidez.

Gabriel García Márquez, Crónica de uma Morte Anunciada

Lester Ballard


Lester Ballard é uma das figuras mais sinistras, mais assustadoras, mais violentas, mais desequilibradas e mais imprevisíveis que já conheci. E é também uma personagem de Cormac McCarthy, saída do livro Filho de Deus (Child of God). Ballard deambula pelas montanhas, pelos bosques e pelas cavernas de uma região no Tennessee (estado, aliás, que McCarthy bem conhece, já que foi lá que nasceu), levando uma vida solitária, sem afecto nem qualquer tipo de solidariedade. Um assassino impiedoso, mas que não mata por qualquer razão específica, nem por obsessões, mas por uma série interminável de ódios bem primitivos encavalitados uns nos outros. O facto de Ballard ser visto, de vez em quando, a passear com um vestido de mulher e a cabeleira (e escalpe) de raparigas assassinadas talvez ajude a explicar um ou outro comportamento (rever o Psico de Hitchcock também ajuda a estabelecer pontes), que Lester leva a cabo sem qualquer escrúpulo, mágoa ou remorso. São, aliás, os casais de namorados clandestinos nos carros que param em sítios desertos para o namoro que figuram entre as principais vítimas. E são as raparigas que lhe parecem insinuar sexualidade que lhe despertam o instinto mais primário, que oscila entre a predação e o ódio ressabiado.
Ballard é, para muitos leitores, uma personagem abjecta que vai despertando simpatias ao longo da obra. A mim, o homem não me despertou qualquer abjecção, mas simplesmente um sentimento bem vincado: Ballard é a personagem humana mais selvagem que me lembro de ter conhecido num romance.

quarta-feira, junho 25, 2008

Catch me if you can

Será que quando Vale e Azevedo chegar a Portugal, escoltado pela Polícia Judiciária, também se irá interromper uma entrevista televisiva, em directo, de José Mourinho?

terça-feira, junho 24, 2008

Velhos

- Nesta guerra, os miúdos matam por ódio contra o velho que vão ser. Um ódio bastante assustado..

Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos

segunda-feira, junho 23, 2008

terça-feira, junho 17, 2008

O país emancipado

A minha humilde contribuição no Sempre a Produzir:

Deve ser um dos maiores lugares-comuns de sempre dizer que o futebol é o entretenimento dos burros, dos analfabetos, e que, como se costuma dizer, «não dá para perceber o interesse de ver vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola durante uma hora e meia».

Pois eu, como humilde célula constituinte desta nação de burros e analfabetos, considero-me um devoto do futebol, esse «desporto sem interesse». Gosto de golos, fintas, craques, mascotes, tácticas perfeitas, jogadores conflituosos, santos, pecadores, guarda-redes elásticos e anões que, ao correr, fazem lembrar o Pepe Rápido.

Gosto de tudo isto e até do público português que enche as bancadas. Mas não gosto, desde o malogrado ano de 2004, dos adeptos portugueses.

Não gosto, dizia eu, de adeptos portugueses de futebol desde 2004, desde que Scolari «criou», a partir da sua cadeira do poder, uma nova raça de gente desmiolada que é capaz de atropelar cães e gatos para chegar depressa ao Parque das Nações, onde poderá ter uma oportunidade única na vida de – tal qual o eclipse do Sol, o cometa Haley, um beijinho do Papa ou um bom filme português – ver o jogo da selecção, em directo, juntamente com centenas de pessoas a cheirar a suor estival, a cerveja e a solas de sandália com mijo pisado, ao som de uma banda sonora que, de forma tão portuguesa, passa samba e música de discoteca às cinco da tarde de um dia solarengo.

Adeptos que não concebem outra coisa que não a vitória e que, ainda há poucos anos, apenas conheciam o Figo de vê-lo na Caras, abraçado ao Paulo China num obscuro bar do Algarve, ou, vá lá, o Secretário, por este ter andado a espancar prostitutas e a saltar janelas nos estágios da equipa nacional.

Ah, velhos tempos. Ainda me lembro de 1998, quando eu saía da escola, sem pêlos na cara ou quase em lado nenhum, a correr para ir ver o Croácia-Alemanha ou o Espanha-Nigéria e alguém me perguntava onde é que ficava a Croácia e a Nigéria, logo rindo de seguida (como se o PIB de um país fosse directamente proporcional à qualidade futebolística dos seus jogadores).

Lembro-me de gostar de futebol de selecções quando todos só se interessavam pelos jogos entre os «três grandes» portugueses. Tenho saudades de Mundiais desses, como o de 1998, em que só interessava o futebol, não o fervor nacional de cada um medido à régua (até porque Portugal nem foi apurado), e assim era, graças a Deus, cada um por si.

Ando, por isso, um pouco enjoado da loucura em redor da Selecção Nacional, com direito a novos censores do patriotismo de cada um de nós.

Petróleo a subir até aos píncaros? Crise.
Greves de professores? Sinal do estado das coisas.
Estradas bloqueadas, camiões parados, maternidades encerradas? Este país vai de mal a pior.

Mas quando entra a selecção em campo, para o melhor ou para o pior, o português esquece tudo, chama a Cristiano Ronaldo «o orgulho de todos nós», a Scolari «o representante máximo da nação» (juro que ouvi um jornalista português dizer isto) e obriga o vizinho a pintar a cara de verde e vermelho, sob risco de ser excomungado para sempre do bairro caso não o faça.

Este é daqueles Europeus que tenho visto com atenção, com entusiasmo e até com uma vontade secreta de ver Portugal chegar longe.

Mas ver jogos nos parques integrado na «comunidade», para isso deixem-me de fora. Deixo aos outros essa difícil tarefa de, pela simples vontade, levar um país falhado a emancipar-se por 90 minutos.

domingo, junho 15, 2008

Coisas que não sabia

In the first primaries where Reagan did exceptionally well, he condemned both Ford and Kissinger for their mistaken policy of détente and represented their subservience to the Soviet Union as threatening to make the United States a "second-rate power." Though Reagan failed to take the nomination away from the president, and never considered running as an Independent, repeating the political mistake Roosevelt had made in 1912, he helped give the presdency to Jimmy Carter, the former governor of Georgia. It is impossible to knowwhether Carter's slim majority of a million and a half would have been secured in the absence of the immensely wounding primary battles waged by Reagan against Ford.

Stephen Graubard, The Presidents

Produção

Em resposta ao simpatiquíssimo convite do João Gonçalves, do Sempre a Produzir, escrevi um ressabiado e, nos tempos que correm (no próprio dia de hoje), profano artigo. Está integrado no «ciclo» Outros Bloggers no Sempre a Produzir, para onde já JCS, do Lobi do Chá, escreveu. A minha tese d'O país emancipado está aqui.

Saramago

Gostei da entrevista que José Saramago deu ontem ao Diga Lá, Excelência. E, embora desfasadas da realidade, até mesmo as considerações políticas que Saramago fez têm «direito» a existir. Não precisamos todos de apanhar a mesma frequência. À medida que o tempo passa, vou aprendendo isso. Uns vivem com a cabeça na Lua, outros em Marte, não faz mal: é o planeta deles.

sábado, junho 14, 2008

Homem modelo

Volta pra cama que vou fazer o café.
Servi café com leite, torrada, biscoitos, queijo, mel, iogurte, mamão e tangerina. Desjejum de hotel da serra.
Se eu fosse a titular você ia fazer isso tudo para mim, sempre?
Não sei lavar nem passar roupa.
Basta me foder sempre desse jeito.


Rubem Fonseca, Secreções, Excreções e Desatinos

É proibido proibir a confusão

Gosto do protesto dos camionistas porque há uma parte de mim que gosta de confusão, de anarquia, de encostar o poder às cordas. Pena é a perda da ordem pública e a noção de que as mudanças políticas se fazem à força, nas ruas. Pode valer a pena para abanar Sócrates e os deputados - que muito se entretêm a receber a máfia portuguesa com pompa e circunstância na Assembleia -, mas não deixa de ser perigoso aplaudirmos este tipo de acontecimentos.

sexta-feira, junho 13, 2008

O Método

Homem que escreva ficção mais decadente sem tomar banho não é porco, é um utilizador do Método.

Dividir a unidade em dois

EDDIE: Bem, sabes... o nosso pai apaixonou-se duas vezes. Foi principalmente por causa disso. Uma vez pela minha mãe e outra vez pela mãe dela.

VELHO: Era o mesmo amor. Mas dividiu-se em dois, foi simplesmente isso.


Sam Shepard, Loucos por Amor

Da escrita



A escrita. Uma das profissões mais difíceis do mundo quando levada a sério. Pode, é claro, ser uma das mais desejadas por muitas pessoas. Qualquer homem ou mulher, de criança a velho, que já escreveu com algum afinco, chegou a acomodar a ideia de um dia ser escritor, de ser um autor que alimenta os seus livros com letras mas que é alimentado pelos próprios livros. Pelos lucros, portanto.

Mas não são só as ideias e as letras que alimentam a escrita. É a própria vida do autor que alimenta o livro. A escrita pode sugar toda a vida de quem escreve. Os livros pouco dão ao autor. É uma relação disfuncional, uma relação unilateral em que um dos amantes se dá - e dá mesmo tudo - ao outro e acaba levando tabefe todos os dias, ao fim da noite, quando pensa que dá por encerrada a sua missão diária. Amou e derramou sabedoria, suor, lágrimas e sangue. Falou com, declamou para, gritou a. Mas não teve resposta. O manuscrito não fala de volta. Nem os livros já publicados, nas estantes, nas livrarias, na feira do livro em destaque, numa conferência literária em estudo, numa puta de feira de estação de Metro a um euro, dizem seja o que for ao escritor. O livro, a história, é um produto de uma mente com problemas a resolver, que decide resolvê-los, por experimentação, assim, escrevendo. Escreve-se porque não se tem mais onde pôr estas ideias, estas coisas que nos atormentam. Escreve-se porque se ouve e não se quer esquecer. Porque se pensa e se quer guardar um pensamento para sempre.

Porque a escrita não é mais do que isso. É o sinal da dupla incapacidade humana de conseguir guardar todos os pensamentos rápidos que se tem e de conseguir levar todos os segredos e ideias para a cova. Quando se morre é para sempre, e é por isso que, até lá, se põe tudo o que vale a pena - que passou pela nossa cabeça - em papel, numa escrita que não nos envergonhe nem à nossa língua. Caso se escreve apenas porque é bonito e porque fica bem juntar palavras sem sentido, então não se passa de um artista plástico esteticamente obcecado. É por tudo isto e mais que quem escreve se dispõe a esta relação de amor não correspondido com a folha em branco, uma relação que, muitas vezes, mata como qualquer outra em que «amante deixa amante». É por isso que escrevo. É por isso que todos escrevem e deviam escrever. Mas é por isto, sobretudo, que admiro os escritores profissionais.

Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a Faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturante pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até no meu silêncio e compreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham, não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em Outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado.

António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

quinta-feira, junho 12, 2008

quarta-feira, junho 11, 2008

O estado das coisas

Continuo a correr atrás do mundo, que parece andar sempre mais rápido do que eu. Mas apanhá-lo-ei um dia destes.

António Lobo Antunes



Homenagem ao escritor português cuja escrita mais representa Portugal.

quinta-feira, junho 05, 2008

Notas rápidas acerca da Feira do Livro



1- voltei a estoirar balúrdios em livros que lá estão todos os anos;

2- o espectáculo que o grupo LeYa fez por causa das suas barraquinhas não corresponde ao recinto vulgaríssimo que têm no Parque Eduardo VII, cheio de agentes dos serviços secretos a guardar as entradas;

3- andar na Feira do Livro de Lisboa continua a ser cansativo.

Taxitramas



Descobri, recentemente, uma versão bem mais simpática de Taxi Driver, das histórias nocturnas dos confins das grandes cidades. Esta versão, sem desejos de matar o Presidente (digo eu), é Taxitramas. Mauro Castro, o autor do blog, é um taxista de Porto Alegre que põe no papel as mil e umas histórias que passa por si, ou pelo banco traseiro do seu táxi, no dia-a-dia. O resultado é um dos melhores e mais originais blogs que tenho encontrado na blogosfera.

quarta-feira, junho 04, 2008

Ferreira Leite e o regresso da confiança

Muito se tem discutido os dotes políticos e financeiros (dotes, no entanto, indiscutíveis por princípio) de Manuela Ferreira Leite, as rugas e a cara da senhora e o passado da mesma, nomeadamente na Educação e nas Finanças. Mas o mais importante com a escolha de Ferreira Leite para liderar o PSD nas próximas eleições - e nas que se seguirão, espero - não tem sequer a ver com os dotes pessoais da senhora. Tem, sobretudo, e isto é o mais importante desta viragem política, a ver com a confiança que trouxe ao partido, a credibilidade de um projecto que não vem preconcebido para a Rua de São Caetano, mas sim sujeito à apreciação e a desvios que dependerão do contexto socio-económico e não da vontade popular. É esta credibilidade que, por fim, permitirá regressar ao partido figuras que não dependem de funções no governo para ter reformas gordas, que não querem a oportunidade política para manter a posição no governo para depois da próxima eleição, mas que querem, isso sim, aplicar a experiência e a leitura que fazem dos tempos que correm.

Seja dito que eu não tenho ilusões com este PSD que agora se tenta reconstruir, mas tenho, no mínimo, confiança num projecto que se vai desenhando. E se isso me anima a mim, imagine-se a vontade de «voltar» que crescerá em muito boa gente - que nos faz falta há alguns anos na política.

terça-feira, junho 03, 2008

Feira do Livro

Francisco José Viegas agitou-me a consciência por causa deste texto magnífico, uma declaração de amor incondicional. Lá terei eu de ir hoje à Feira do Livro, porra. Transcrevo o texto para aqui, à descarada:

Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira.

Gosto deste tipo de prosa, perfeita, que me faz querer ir aos sítios.

segunda-feira, junho 02, 2008

Sem fuga

Está em todo o lado. Não há como fugir. O que ainda não consegui perceber é se sou eu que não consigo tirar os olhos das mamas da Nereida Gallardo, se são as mamas da senhora que pululam por todos os jornais, sites, revistas e esquinas conhecidas.

Mugir e pastar

Acerca de um texto em Word, pediram-me para fazer copy e depois «pastar». Até senti os cornos a brotarem-me das têmporas.

Promessa

Fica desde já prometido que, um dia destes, faço um post como deve ser.

True story

Disse a alguém que agora gostava de Agualusa. Esse alguém perguntou-me, surpreendido, se só agora é que tinha descoberto a água do Luso. Eu disse que sim, só agora.

Agualusa

Comprei hoje a revista LER de Junho, pela primeira vez após anos de separação. Um dos primeiros que me calhou ler foi José Eduardo Agualusa, numa rubrica chamada O Lugar do Morto. Torcia o nariz aos livros de Agualusa, é certo, sobretudo após a leitura de algumas coisas de Mia Couto, que, tirando a simpatia pela linguagem popular das suas personagens, pouca ou nenhuma paixão me despertou. Não sei porquê, associava um escritor a outro. Mas, depois de ler esta rubrica, tive esta outra ideia: Agualusa é bom.

Dois excertos da crónica do homem:

Obama declama e Hillary ri. Não tem de que rir, a hilária (...).

Agrada-me em Obama algo que me aborrece em Hillary - a virilidade. São dois machos alfa em competição, o que estaria muito bem não se desse o caso de um deles ter como marido um outro macho alfa. Por outro lado, tenho de confessar que quase m comove em Hillary a sombra simpática de Bill, o saxofonista. Não há como olhar para ela sem que nos venha à memória o burlesco episódio da sala oral.

Pais e filhas



Para animar a política, e com algum trabalho, até se punha Meghan, a roliça filha de John McCain, na Casa Branca a ajudar o pai. Eu, por exemplo, nem me importava muito.

Vertigo



Agora que menos tempo tenho passado em Setúbal, noto a ausência de alguns locais importantes para a minha sanidade. Um deles é o forte de São Filipe. Do alto das muralhas, olhando lá para a baixo, um homem sente simultaneamente uma terrível e vertiginosa vontade de se atirar no vazio e um medo enorme de ser empurrado. A morte e a omnipotência misturam-se de forma perigosa naquela altura mais do que épica. E, depois, é um óptimo sítio para desaparecer da civilização de vez em quando, em alternativa à casa ser trancada a sete chaves.

domingo, junho 01, 2008

Directos, especiais e afins

Eu, que adoro futebol, chego quase a perder toda a vontade de ver jogos da selecção nacional assim que as estações televisivas começam com a festarola da grossa em redor dos estágios e da «festa do futebol». Toy e companhia começam a encher os fins-de-semana, nos quais eu esperava ver um pouco de futebol aqui e ali, e logo se estraga um dia de descanso. Saber que o Quaresma hoje estava de intestinos presos ou que o Miguel Veloso disse, quando acordou, que «estava feliz», enquanto a tragédia nacional (com notícias sobre a especulação petrolífera) passa em rodapé, é o retrato de uma miséria de país. Parece cliché dizer isto, mas já não há mesmo paciência para os «especiais» e os «directos» com a selecção e a partir do local do estágio dos «incríveis» em Viseu, na Áustria ou no cu de Judas.

Work in progress

Ainda com Aron

O sistema francês «desnacionaliza», como que apaga a tradição original dos imigrantes; o sistema americano, esse, sobrepõe ao fundo cultural dos imigrantes os valores e os modos de conduta tipicamente americanos. O sistema francês sofre, em contrapartida, duma grande fraqueza, pois cria intelectuais em vez de cidadãos.

Raymond Aron, A Revolução Inexistente

sexta-feira, maio 30, 2008

Ciclos

Anda a aumentar, e muito, esse imenso medo que a nossa sociedade «industrial» tem da morte, da doença, do fim. Aperta-se o cerco aos fumadores, aos gordos, ao colestrol, estimula-se o culto do exercício físico, do dentista, do activismo ambiental. Será que ainda não perceberam que não vale a pena, que a Terra continua sem nós? Se até os dinossauros, predadores insuperáveis e vegetarianos gigantes, foram congelaods vivos ou engolidos por uma bola de fogo, porque é que nós, fracas figuras, haveríamos de resistir aos ciclos da Terra?

O cativeiro



Alexander Soljenitsin, em Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, relata um episódio em que os prisioneiros de um gulag só tinham direito a escrever duas cartas por ano. Duas cartas, apenas e só.
Para alguém que tivesse família cá fora, haverá maior tortura? É a «obrigação» de esquecer os outros, de esquecer o mundo conhecido, aquilo que os burocratas e os guardas soviéticos queriam inculcar. O sofrimento é humano, mas não haverá nada mais cruel, e que traga mais sofrimento, do que conseguir acabar com a própria humanidade de um homem, fazer dele um animal e tirar-lhe tudo aquilo pelo qual ele poderia sofrer.

sexta-feira, maio 23, 2008

Cradle Will Rock



Mais um exercício da opinião «liberal» (de esquerda americana) de Tim Robbins, Cradle Will Rock (ou América Anos 30 na tradução portuguesa) vem defender a tese do necessário «empenhamento político-social» da arte, sublinhando a responsabilidade/obrigação crucial desta em atacar o poder, por contraponto aos superficiais magnatas «gordos» e «egoístas» (como um certo castor de uma fábula referida a meio do filme) que desrespeitam a arte «consciente» de figuras revolucionárias como Diego Rivera (uma aparição simpática de Ruben Blades). Este filme de Tim Robbins vale, quase só, pelas interpretações de John Turturro e Bill Murray, e pela inegável qualidade técnica da filmagem.

terça-feira, maio 20, 2008

Se numa tarde de Primavera um taxista

Ao contrário do que pensava há uns míseros dois meses atrás, agora já me interrogo acerca da «alternativa» Democrata (e provável vencedor das eleições de Novembro) para a Presidência dos EUA. Achava que Obama era uma boa lufada de ar fresco para a esquerda americana, não tanto pela sua carga ideológica (perigosamente romântica), mas pela carga simbólica de uma América onde é possível chegar longe independentemente das raízes que se tem - mote, aliás, da própria campanha do «yes, we can» de Barack Obama. Há dias, quando um taxista me disse, em plena viagem, que «andamos todos a querer pedir desculpa aos pretos pondo um deles no lugar do Bush», penso que a razão pela qual Obama tem tanto apoio e reúne tanta simpatia (minha, inclusive) é mais próxima da ideia do taxista do que da ideia tão badalada e tão incipiente de mudança - daquela Mudança com M maiúsculo que se tem prometido. Obama pode não ser tão boa pessoa como nós pensamos, mas eu gosto dele. Obama pode não ser tão inteligente quanto Hillary, mas eu prefiro aquele. No entanto, Obama pode ser muito mais refrescante que McCain, mas continuo a querer um Republicano na Casa Branca.

3 anos sem dormir bem

O Insónia foi um dos dois primeiros blogues sobre literatura (a par do Da Literatura) que começei a ler diariamente na blogosfera. A admirável imprevisibilidade da vítima das pragas certeiras que o Henrique Fialho fluentemente roga (um dos melhores portugueses na arte da chapada de luva branca), o humor refinado da escrita da Maria João Lopes Fernandes (que bate Oscar Wilde aos pontos), a cultura literária e poética do Rui Costa e a melancólica poesia do Jorge Aguiar de Oliveira dão ao Insónia um espaço sempre especial na coluna de blogues aqui ao lado. Parabéns pelos três anos.

60 anos de identidade política

Normalmente, não me sinto muito bem da cabeça, nem do coração, quando acabo de ler algo da jornalista Fernanda Câncio. Nem sequer é doença crónica, penso que é apenas opinião ultra-divergente. Mas nem sempre isso acontece, fiquei hoje a perceber. Até parece blasfémia eu aplaudir esta senhora, mas este artigo/post sobre os 60 anos de Israel, de facto, merece a leitura. Ainda que tenha mais de uma semana de atraso.

segunda-feira, maio 19, 2008

Castigo no trabalho

Pensar que podia estar a ler os romances que tenho em casa.

Antídoto para o trabalho

Pensar nos romances que estão em casa por ler.