segunda-feira, agosto 04, 2008
domingo, agosto 03, 2008
sábado, agosto 02, 2008
Obama promete ser um Presidente preto

No Diário de Notícias de hoje, uma carta de um leitor, Victor Morbey Aleixo, acerca de Obama e da «questão da raça» (do próprio candidato), chamou-me a atenção. Por várias razões, mas sobretudo por esta: o leitor falha em tudo o que diz. Mas não está sozinho, nem terá propriamente culpa.
Quando Obama se destacou na corrida pela nomeação democrata, também eu fiquei sorridente. Embora fosse um entusiasta de Giuliani, recebi com simpatia a figura de Obama, um tipo inseguro acerca do que acredita e das suas decisões, mas cheio de boas intenções e de um discurso inspirador pela «Mudança» («a change we can believe in» é o lema principal), que quase todos aceitarão como inevitável e, a nível doméstico, necessária. Obama era, por isso, o candidato Democrata que melhor nos daria uma ideia de crítica ao governo republicano dos últimos oito anos, ou seja, a candidatura que melhor faria pensar o próprio Partido Republicano. Pelo menos era nisto que eu acreditava.
No entanto, assim que Obama ganhou a nomeação (dificilmente conquistada contra a «velha raposa» Hillary Clinton), as incoerências foram surgindo. Na política externa, Obama iscilava entre a retirada total e imediata do Iraque e a manutenção da lei e da ordem naquele país, entre «trazer os rapazes para casa» e o reforço dos contingentes no Afeganistão, entre o «diálogo» com o Irão e a promessa de atacá-los. Nos assuntos domésticos, e entre outros, muito recentemente veio a questão da perfuração petrolífera em casa, defendida por McCain, e que Obama agora admite «poder vir a apoiar». Em vários assuntos específicos, matérias de facto, importantes, Obama tem «deslizado» e mesmo assustado quem o ouve (sobretudo com a sua visão irrealista do mundo e da natureza humana).
Mas a minha embirração com a carta de Victor Mobley Aleixo é, sobretudo, com a questão da cor da pele de Barack Obama, que, supostamente, tem sido criticada. O problema aqui é claro: o Sr. Aleixo, como 90% dos portugueses, só vê as notícias pelos olhos dos portuguesas ou, quando muito, pelos olhos dos europeus. Nos EUA, a realidade é outra, a atenção é outra: McCain nunca referiu a cor da pele de Obama, não só na sua identificação com um eleitorado (apesar do democrata ser, pela razões óbvias de identificação, mais apetecível para os negros) mas, sobretudo, na desvalorização de algo que ele defenda. Diz o Sr. Aleixo que «já não é a primeira vez que se ressalta nas peças jornalísticas a cor da pele do candidato, como sendo uma primeiríssima questão. Se fosse branco também se falaria disso? Esta é precisamente uma das questões que Barack Obama combate, ou seja, sobretudo somos todos pessoas, seres humanos, ponto final!». A questão é que acontece precisamente o contrário, ou seja, é errado que «precisamente Barack Obama, não faz bandeira disso, candidata-se como senador que é, como político, de acordo com a sua consciência e de ponderação racional e culta». O que Obama tem feito, cada vez mais, é aproveitar a história dos direitos civis, e a imagem de outros excelentes oradores negros (como o Dr. Martin Luther King) para lhe dar o carisma do paladino negro.
Obama, saltando por cima do conteúdo, tem focado a retórica da mudança e do sonho de um mundo melhor, numa perspectiva da diplomacia suicida para os Estados Unidos, perigosa para os aliados do seu país e caótica para o Mundo. E, ao contrário do que diz o leitor, tem focado o facto de ser um candidato afro-americano. Muito recentemente, penso que em Jerualém, referiu que sabe que «não se parece com os Presidentes americanos que por lá têm passado» como quem poderia dizer: «serei o primeiro Presidente preto na Casa Branca». Repetiu a gracinha na Europa e tem andado a fazer o mesmo em algumas campanhas domésticas. As pessoas querem ver realizada a sua concepção ideal de um país que oferece oportunidades iguais a todos, e Obama sabe-o bem.
A retórica de Barack Obama deu agora uma volta, e para além de querer fazer lembrar JFK, quer agora fazer lembrar o «sonho» de Luther King... encarnando o «sonho» na sua própria pessoa. Quando a campanha de McCain refere, e com razão, que Obama tem utilizado, isso sim, o facto de ser negro em seu favor (como uma vantagem moral e competitiva) sublinhando-o em discursos seus, o candidato Democrata defende-se, dizendo que os Republicanos só sabem atacar (a «low road politics»), numa auto-vitimação desnecessária e sem razão. Nós é que, cegos pela ideia gira de ver os Americanos liderados por quem nós queremos e pela falta de informação e de imparcialidade dos jornais portugueses, não conseguimos ver isto. Por cá, quem já viu sessões da Assembleia da República com as participações defensivas e histéricas de José Sócrates sabe que o valor e a validade das críticas são o que nós quisermos fazer delas.
O escândalo da ambição aos vinte anos
Uma boa parte dos telejornais tem dado uma atenção desmedida à vontade de dois ou três jogadores portugueses saírem dos seus clubes. Estão danados para sair do país, portanto. A verdade é que não lhes posso censurar isso. Dois deles são Moutinho (Sporting) e Quaresma (Porto), que já treinam e jogam nos jogos de preparação com a vontade e o esforço físico iguais aos do Garfield. Querem sair e ganhar mais dinheiro no estrangeiro, para se reformarem mais cedo e voltarem cá, quem sabe para investir em pequeninas empresas ligadas ao futebol.
Não percebo é porque é que tanta gente fica revoltada com estas notícias relativas a rapazes que ainda nem terão vinte e cinco anos, quando, há pouquíssimos anos, um primeiro-ministro já com idade para ter juízo e responsabilidade, deixou o país de pantanas a sacrificar-se sozinho, enquanto ele (que nunca pecou por inteligência) se juntava a um novo projecto de «harmonia europeia». Pior ainda, temos um governo que navega na crista da onda das mentiras de campanha eleitoral, com «carta verde» para fazer «o que é preciso» e os «sacrifícios» e «reformas» que «fazem falta», sem dar satisfações a ninguém. Devíamos pensar se andamos a exigir o necessário às pessoas certas.
Não percebo é porque é que tanta gente fica revoltada com estas notícias relativas a rapazes que ainda nem terão vinte e cinco anos, quando, há pouquíssimos anos, um primeiro-ministro já com idade para ter juízo e responsabilidade, deixou o país de pantanas a sacrificar-se sozinho, enquanto ele (que nunca pecou por inteligência) se juntava a um novo projecto de «harmonia europeia». Pior ainda, temos um governo que navega na crista da onda das mentiras de campanha eleitoral, com «carta verde» para fazer «o que é preciso» e os «sacrifícios» e «reformas» que «fazem falta», sem dar satisfações a ninguém. Devíamos pensar se andamos a exigir o necessário às pessoas certas.
quinta-feira, julho 31, 2008
Natureza humana
Que é a fealdade,afinal, senão a alma a transparecer através da carne?
J.M. Coetzee, A Idade do Ferro
J.M. Coetzee, A Idade do Ferro
quarta-feira, julho 30, 2008
Psicologia vocacional
Inferno
Em certos dias que por aí têm passado, tenho pedido aos céus que me levem. O meu reino por um cavalo. A minha alma por um sopro de ar fresco que me salve de derreter. Porquê tanta gente com medo de ir parar ao Inferno, quando - paradoxalmente - adoram este calorzinho de fazer bater os dentes e não perdem uma oportunidade para esturricar deitados na areia com o corpinho ao léu? Ir para o Paraíso, escapando assim das chamas e dos graus centígrados do Inferno, devia estar reservado aos mais inaptos para sobreviver nesse destino dantesco dos pecadores. Uma lista de espera, como se faz para os candidatos a transplante, seria uma boa ideia.
Enquanto caminho pelas ruas debaixo deste sol infernal e a roupa se vai pegando ao meu corpo como uma nova pele, vou desatando a pensar em novas coisas para oferecer em troca de algo fresco. «Senhor, leva-me a alma e dá-me uma ventoinha portátil». «Não dou: alma muito herética», responde-me telegraficamente o velho. «Senhor, que maior prova queres da tua omnipotência se sobrevives fresco aí em cima tão perto do Sol?». «Senhor, dai-nos o Outono e leva o Al Gore para tapar o buraco do ozono», e ninguém responde. Pelo menos, vendo as notícias, vejo que não tenho resposta, já que o Al Gore até parece ter voltado à política. Vou tentar uma abordagem budista ou, quem sabe, islâmica. Pode ser que lá para Setembro já me chova na cabeça.
Enquanto caminho pelas ruas debaixo deste sol infernal e a roupa se vai pegando ao meu corpo como uma nova pele, vou desatando a pensar em novas coisas para oferecer em troca de algo fresco. «Senhor, leva-me a alma e dá-me uma ventoinha portátil». «Não dou: alma muito herética», responde-me telegraficamente o velho. «Senhor, que maior prova queres da tua omnipotência se sobrevives fresco aí em cima tão perto do Sol?». «Senhor, dai-nos o Outono e leva o Al Gore para tapar o buraco do ozono», e ninguém responde. Pelo menos, vendo as notícias, vejo que não tenho resposta, já que o Al Gore até parece ter voltado à política. Vou tentar uma abordagem budista ou, quem sabe, islâmica. Pode ser que lá para Setembro já me chova na cabeça.
Pais e mães
- No meu tempo, considerávamos a instrução um privilégio. Os pais poupavam e amealhavam para terem os filhos na escola. Para nós, seria coisa de loucos deitar fogo a uma escola.
- Hoje em dia é diferente - respondeu Florence.
- Acha bem que as crianças deitem fogo às escolas?
- Não está na minha mão dizer às crianças o que hão-de fazer - disse Florence. - Hoje em dia está tudo mudado. Já não há mães nem pais.
- Que disparate - disse eu. - Há-de haver sempre pais e mães.
J.M. Coetzee, A Idade do Ferro
- Hoje em dia é diferente - respondeu Florence.
- Acha bem que as crianças deitem fogo às escolas?
- Não está na minha mão dizer às crianças o que hão-de fazer - disse Florence. - Hoje em dia está tudo mudado. Já não há mães nem pais.
- Que disparate - disse eu. - Há-de haver sempre pais e mães.
J.M. Coetzee, A Idade do Ferro
sábado, julho 26, 2008
Blockbuster

Obama é o perfeito produto das máquinas publicitárias do mundo moderno, muito mais do que o mero produto das máquinas de propaganda do Partido Democrata e seus simpatizantes e contribuidores «locais». Mas nisto Obama - à imagem de vários líderes políticos na Europa - tem igualmente o seu mérito: também ele consegue «vender» o próprio produto (ele mesmo) baseando-se nos seus dotes retóricos e oratórios. No final deste ano, soa-me que, infelizmente, tal como todos os «blockbusters» maus do Verão, a campanha vai render o que pretendiam.
O «mundo mágico» de Obama
A ler Victor Davis Hanson sobre o discurso de Berlim de Barack Obama. Uma parte do mesmo fica aqui:
What disturbed me about Barack Obama's Berlin speech were some reoccurring utopian assumptions about cause and effect — namely, that bad things happen almost as if by accident, and are to be addressed by faceless, universal forces of good will.
(...)
With all due respect, I also don't believe the world did anything to save Berlin, just as it did nothing to save the Rwandans or the Iraqis under Saddam — or will do anything for those of Darfur; it was only the U.S. Air Force that risked war to feed the helpless of Berlin as it saved the Muslims of the Balkans. And I don't think we have much to do in America with creating a world in which “famine spreads and terrible storms devastate our lands.” Bad, often evil, autocratic governments abroad cause hunger, often despite rich natural landscapes; and nature, in tragic fashion, not “the carbon we send into atmosphere,” causes “terrible storms,” just as it has and will for millennia.
Perhaps conflict-resolution theory posits there are no villains, only misunderstandings; but I think military history suggests that culpability exists — and is not merely hopelessly relative or just in the eye of the beholder. So despite Obama’s soaring moral rhetoric, I am troubled by his historical revisionism that, “The two superpowers that faced each other across the wall of this city came too close too often to destroying all we have built and all that we love.”
I would beg to differ again, and suggest instead that a mass-murdering Soviet tyranny came close to destroying the European continent (as it had, in fact, wiped out millions of its own people) and much beyond as well — and was checked only by an often lone and caricatured U.S. superpower and its nuclear deterrence. When the Soviet Union collapsed, there was no danger to the world from American nuclear weapons “destroying all we have built” — while the inverse would not have been true, had nuclear and totalitarian communism prevailed. We sleep too lightly tonight not because democratic Israel has obtained nuclear weapons, but because a frightening Iran just might.
What disturbed me about Barack Obama's Berlin speech were some reoccurring utopian assumptions about cause and effect — namely, that bad things happen almost as if by accident, and are to be addressed by faceless, universal forces of good will.
(...)
With all due respect, I also don't believe the world did anything to save Berlin, just as it did nothing to save the Rwandans or the Iraqis under Saddam — or will do anything for those of Darfur; it was only the U.S. Air Force that risked war to feed the helpless of Berlin as it saved the Muslims of the Balkans. And I don't think we have much to do in America with creating a world in which “famine spreads and terrible storms devastate our lands.” Bad, often evil, autocratic governments abroad cause hunger, often despite rich natural landscapes; and nature, in tragic fashion, not “the carbon we send into atmosphere,” causes “terrible storms,” just as it has and will for millennia.
Perhaps conflict-resolution theory posits there are no villains, only misunderstandings; but I think military history suggests that culpability exists — and is not merely hopelessly relative or just in the eye of the beholder. So despite Obama’s soaring moral rhetoric, I am troubled by his historical revisionism that, “The two superpowers that faced each other across the wall of this city came too close too often to destroying all we have built and all that we love.”
I would beg to differ again, and suggest instead that a mass-murdering Soviet tyranny came close to destroying the European continent (as it had, in fact, wiped out millions of its own people) and much beyond as well — and was checked only by an often lone and caricatured U.S. superpower and its nuclear deterrence. When the Soviet Union collapsed, there was no danger to the world from American nuclear weapons “destroying all we have built” — while the inverse would not have been true, had nuclear and totalitarian communism prevailed. We sleep too lightly tonight not because democratic Israel has obtained nuclear weapons, but because a frightening Iran just might.
Omnipresença
É impressão minha ou há uma conspiração dos meios de comunicação social mundiais para erradicar John McCain do horário nobre e oferecer esse tempo a qualquer coisinha que Obama faça?
terça-feira, julho 22, 2008
Promessas

E muito baixinho disse: deixá-lo-ei para sempre, se o deixares viver, e enterrava mais e mais as unhas até sentir a pele romper-se. E continuei: as pessoas podem amar-se sem se ver, amam-Te sem Te ver a vida inteira - e ele apareceu à porta e estava vivo, e eu pensei: a agonia de viver sem ele começa, e desejei-o outra vez definitivamente morto, debaixo da porta.
Graham Greene, O Fim da Aventura
segunda-feira, julho 21, 2008
Tadpole

Tadpole (Gary Winick, 2002) foi uma surpresa para mim, e é um dos filmezinhos mais agradáveis que já vi. Poderia ser considerado um «ensaio» para The Royal Tenenbaums (de Wes Anderson), se não fosse o azar de er surgido mais tarde. Neste caso, a história de aprendizagem, fracasso e desilusão de Oscar Grubman (Aaron Stanford) mistura-se com uma curiosa paixão avassaladora por Eve (Sigourney Weaver), que, para além de ser bem mais velha é... a própria madrasta. Para um filme do qual nunca ouvi falar, pareceu-me francamente bom, independentemente das falhas que possa ter.
Enzensberger e a guerra civil

Em Perspectivas da Guerra Civil, Hans Magnus Enzensberger traz-nos uma excelente reflexão acerca da guerra civil. Mas, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, daqui não resulta um ensaio político, e muito menos um desfile de possíveis causas e culpados da «guerra civil». Não, em Perspectivas... Enzensberger tenta traçar um quadro bem mais moral (e, poder-se-ia dizer, psicológico) do agressor no contexto de guerra civil. E é na definição desta última, da guerra civil, que se encontra o real desafio e originalidade do ensaio. Sem demoras, Enzensberger qualifica como «guerra civil» toda e qualquer agressão continuada (ou persistente, ainda que rapidamente detida) ao «próximo», ao «vizinho», isto é, «não apenas um velho hábito, mas a forma primária de todos os conflitos colectivos».
Assim, para localizar as «guerras civis» perto de todos nós, o escritor alemão vai buscar o esvaziamento ideológico actual (o ensaio data de 1993) para desvalorizar a violência imanente que os delinquentes, skinheads ou hooligans terão para descarregar no primeiro sujeito que encontrarem, por comparação aos guerrilheiros e terroristas dos anos 60 e 70 (com destaque para os marxistas, atiro). Mais importante ainda, Enzensberger tem uma leitura muito simples mas quase perfeita da caracterização psicológica da dinâmica da relação do «vândalo» com o «outro», com o mundo da ordem: «Nos delitos espontâneos os vândalos manifestam - numa amálgama indissolúvel com o ódio a si mesmos - a raiva pelas coisas intactas, o ódio a tudo o que funciona». Quem, no seu perfeito juízo, não terá inveja e ódio à «ordem» quando tudo na sua própria vida parece estar a falhar sem melhoras?
Mas o que é realmente louvável neste ensaio é o pessimismo antropológico e escatológico de Hans Magnus Enzensberger. Ele não vislumbra nenhuma salvação ao fundo do túnel, e não tem pena dos delinquentes, que considera os únicos culpados pela violência que eles próprios distribuem pelo mundo imediato. Tal como os terroristas, não é a ideologia nem os «maus tratos» da sociedade que os levam a empunhar a faca contra os inocentes, mas sim a sua própria condição falível enquanto seres humanos, levando-os a praticar um dos mais velhos crimes da humanidade: o fratricídio.
Mais louvável ainda é a saudável constatação, do ensaísta, de que as pessoas (não menciona qualquer nação, mas o cidadão comum) não têm o dever moral - que se diz ter - de ajudar alguém no outro lado do mundo. Defende a lógica de «first things first», ou seja, é preciso antes de mais praticar o possível, impedindo que alguém vandalize o nosso próprio quintal. Na medida do possível, cooperar com o vizinho. E por aí fora. África é muito longe para as boas intenções de um funcionário público na Europa. Como o próprio vaticina: «Onde quer que estejamos, a guerra está à porta das nossas casas». Mesmo que ainda não tenhamos reparado nela.
Uma metáfora para a desconfiança xenófoba
Dois passageiros num compartimento de comboio. Não sabemos nada do seu passado, origem ou destino. Instalaram-se como se estivessem em casa, ocupando mesinhas, cabides, cubículos para bagagem. Há jornais, casacos e malas de mão espalhados pelos lugares vagos. Abre-se a porta e entram dois novos viajantes. A sua chegada não é bem-vinda. Há uma evidente má-vontade por terem de se chegar , retirar as coisasdos lugares vagos e partilhar o espaço disponível. Neste caso, os primeiros passageiros comportam-se de forma particularmente solidária, apesar de não se conhecerem. Confrontam, como grupo, os recém-chegados. É o «seu» território que está a ser disputado. Qualquer um que apareça é visto como intruso. Consideram-se nativos e revindicam a totalidade do espaço. Esta atitude não se pode explicar de forma racional, parece estar profundamente enraizada.
Hans Magnus Enzensberger, A Grande Migração
Hans Magnus Enzensberger, A Grande Migração
domingo, julho 13, 2008
Nacionalismo à portuguesa
Em Portugal, o nacionalismo não teve como no resto da Europa um conteúdo laico e liberalizante (excepto nos breves episódios da Patuleia e da propaganda republicana entre 1890 e 1910). Pelo contrário, quase sempre não se distinguiu do ultramontanismo católico e das causas típicas da conservação.
Vasco Pulido Valente, Ir Prò Maneta - A Revolta contra os Franceses (1808)
Vasco Pulido Valente, Ir Prò Maneta - A Revolta contra os Franceses (1808)
Seleccionador
Para acabar com todo este zum-zum em redor do hipotético novo seleccionador nacional, por mim convidava-se Luís Freitas Lobo e ficava o assunto arrumado.
terça-feira, julho 08, 2008
A good WC is hard to find

As casas de banho públicas deixam-me a tremer até ao osso. Nunca pensei que isto chegasse a este ponto. Para ser científico, deixam-me em completo estado de paranóia. A aventura repete-se sempre da mesma forma: entro no sítio, normalmente, empurrando a porta para o lado (que se vem a fechar automaticamente atrás de mim), dirijo-me ao local do crime e faço o que tenho a fazer. Até aqui é sempre perfeito, tal como se fazia antigamente nas esquinas das ruas e nas árvores da escola quando se era pequeno. Tempos em que o pragmatismo se sobrepunha à funcionalidade. Por mim tudo bem, mijo num complexo construído em laboratório, de regra e esquadro, para o efeito, como mijo do alto de um penedo para o centro da colónia de formigas, exercendo ocasionalmente o meu direito darwiniano de abuso dos mais fracos (pelo que sei e sinto quando me sento na base de uma árvore, no campo, as formigas comer-nos-iam a todos vivos se tivessem mais metro e meio de altura).
Mas toda a expressão que traga «público» ou «pública» no comboio, normalmente no fim do mesmo, é sinal de tempestade. As casas de banho não são excepção. O cheiro a urina, que mais parece estar espalhada pelas paredes e, não raras vezes, pelo espelho, pauta o ritmo acelerado que qualquer pessoa normal leva para acabar o mais rápido possível o seu trabalho e sair dali. As figuras sinistras que, uma ou outra vez, povoam estes locais quebrando (durante largos segundos) a regra de nunca cruzar o olhar com outro homem dentro do teatro de guerra. As torneiras que se desligam sozinhas após três segundos. O sabonete esgotado. O papel inexistente. O secador avariado. São todos ecos da única palavra que pode qualificar uma casa de banho pública: obsoleto.
Mas o pior, o meu pesadelo, é mesmo, a partida. Como tirar os habitantes desta colónia de férias de bactérias das mãos? Mexe-se na torneira, lava-se as mãos, mexe-na caixa do sabonete, lava-se, seca-se. E depois, quem abre a porta? Já alguém pensou que, invariavelmente, todas as almas que já entraram numa determinada casa de banho pública tiveram de abrir a porta para sair? O que quer dizer que pelo menos uma mão, de cada uma das pessoas que já usaram essa casa de banho, esteve no puxador da porta. Como mexer no puxador sem estragar a meticulosa missão de lavagem? Ninguém sabe. Para minha contínua perdição psicológica, ainda nenhum arquitecto pensou nisso a fundo.
Antes a única coisa com a qual nos preocupávamos era se estaria alguém à vista ao pé da árvore de eleição. Na idade selvagem dos anos 80 e 90. Tempo em que o homem usava o meio-ambiente à vontade. Hoje em dia, é o meio-ambiente que usa o homem. Ou, pelo menos, me usa a mim.
Caçadores
Confissões, pedidos de desculpa: porquê esta sede de humilhação? Segue-se um momento de silêncio. Permanecem em torno dele como caçadores que encurralaram um animal desconhecido e não sabem como matá-lo.
J.M. Coetzee, Desgraça
J.M. Coetzee, Desgraça
Haverá sangue

J.M. Coetzee. Tiro o chapéu a este homem.
E tiro, de forma generosa, o chapéu à «literatura africana». Num pequeno parêntesis, passo a explicar esta última expressão, deveras ambígua: África, como fica bem provado em Desgraça, de Coetzee, é um continente «quente», que ao longo dos tempos tem sido palco de revoluções, convulsões, tumultos e mudanças sociais e políticas intermináveis, logo, é o palco ideal para uma narrativa pela imprevisibilidade (mesmo nos dias que correm) do que pode acontecer a qualquer momento. A ficção neste continente, misturada com a liberdade de exploração da África profunda, tem, por isso, em si um mundo de possibilidades.
Desgraça, obra de J.M. Coetzee, surge um pouco dessa situação. Da situação de tensão racial na África do Sul, pátria de Coetzee e do próprio romance. É a tensão racial que, inesperadamente, sem antes se revelar, se vai cruzar com a história de David Lurie (a personagem principal, segundo alguns feita à imagem do autor), um professor branco na Universidade do Cabo que parte, já «em desgraça», para o campo, onde partilhará os seus dias com a filha Lucy. É nesta propriedade que se dará o clímax precoce mas terrível da obra, que muito deverá à tensão racial acima referida. David e Lucy terão as suas vidas completamente mudadas por um acontecimento hediondo.
O espírito da narrativa, aliás, fez-me lembrar, e muito, o filme de P.T. Anderson Haverá Sangue (There Will Be Blood). Não tanto pelo conteúdo, mas pela construção dos actos e consequências de Daniel Plainview, que nos levam necessariamente a levar à letra o título do filme: haverá sangue. E, à medida que se vai lendo Desgraça, é isso que se sente. Que a qualquer momento, num golpe terrível do destino, «haverá sangue». Embora não queira estragar a surpresa, a verdade é que, realmente, esse sangue é derramado.
Desgraça poderá não ser o melhor romance de J.M. Coetzee. Haverá, até, melhores escritores que o sul-africano e com temas e enredos bem mais abrangentes e over the top. Mas no que toca a literatura do final do século XX, poucos terão a capacidade de envolvência moral que este tem. E, para além da carga moral, também há a meticulosidade estrutural e técnica da trama, que claramente fecha o leitor numa jaula de curiosidade. Se há romances perfeitos, posso arriscar que Desgraça, de Coetzee, pode bem ser um deles.
sexta-feira, julho 04, 2008
Diplomacia

Como sempre nestas coisas, as Nações Unidas têm feito «o melhor que podem» para pressionar, de forma «diplomática» e «civilizada», o imperador Robert Mugabe e seus sequazes no Zimbabwe. Mas é óbvio que, como também é habitual, esta pressão das Nações Unidas é o símbolo da nulidade e da inércia da instituição e de todos os que depositam esperança na mesma. É a diplomacia frouxa do «se não nos obedecem, nós vamos chatear-nos e fazer queixinhas a alguém». Nisto de lidar com predadores com jeito para ganhar e reter o poder, sempre gostei mais do estilo de Churchill do que do estilo de Chamberlain.
Coisas que me assustam
A partir de hoje os novos cães portugueses passam a ter obrigatoriamente implantado um micro processador que os identifica. Os cães passam a ter bilhete de identidade escrito no corpo, e um número único, como se fosse um código de barras. Nada impede que o que se está a fazer aos cães se faça aos humanos e estou convencido que será apenas uma questão de tempo. No século XX muitos humanos estiveram já marcados, como o gado, nos campos de concentração.
José Pacheco Pereira, no Abrupto
José Pacheco Pereira, no Abrupto
quinta-feira, julho 03, 2008
O estado das coisas
Gárcia Márquez

Mais uma prova de que se deve esquecer a vida política de um autor para encontrar o verdadeiro valor da sua obra escrita está em Gabriel García Márquez. Por outro lado, mais a nível pessoal, é, como se costuma dizer nos fóruns de opinião, a «prova provada» de que estou sempre a aprender e sempre a surpreender-me com o mundo da literatura. A obra de García Márquez segue, de forma terna - e com «vontade de contar histórias», à maneira de Sepúlveda - aquilo que eu mais gosto na literatura e que é aquilo que é também mais importante na criação: pegar em algo no qual ninguém acredita e torná-lo numa situação ou história que ninguém quer esquecer. O colombiano consegue isso mesmo, e muito mais.
Culpa
Iam em três noites sem dormir, mas não conseguiam descansar, pois assim que começavam a adormecer lá voltavam eles a cometer o crime. Já quase velho, tentando explicar-me o seu estado naquele dia interminável, Pablo Vicario disse-me sem nenhum esforço: «Era como estar acordado duas vezes.» Essa frase fez-me pensar que o mais insuportável para eles no calabouço deve ter sido a lucidez.
Gabriel García Márquez, Crónica de uma Morte Anunciada
Gabriel García Márquez, Crónica de uma Morte Anunciada
Lester Ballard

Lester Ballard é uma das figuras mais sinistras, mais assustadoras, mais violentas, mais desequilibradas e mais imprevisíveis que já conheci. E é também uma personagem de Cormac McCarthy, saída do livro Filho de Deus (Child of God). Ballard deambula pelas montanhas, pelos bosques e pelas cavernas de uma região no Tennessee (estado, aliás, que McCarthy bem conhece, já que foi lá que nasceu), levando uma vida solitária, sem afecto nem qualquer tipo de solidariedade. Um assassino impiedoso, mas que não mata por qualquer razão específica, nem por obsessões, mas por uma série interminável de ódios bem primitivos encavalitados uns nos outros. O facto de Ballard ser visto, de vez em quando, a passear com um vestido de mulher e a cabeleira (e escalpe) de raparigas assassinadas talvez ajude a explicar um ou outro comportamento (rever o Psico de Hitchcock também ajuda a estabelecer pontes), que Lester leva a cabo sem qualquer escrúpulo, mágoa ou remorso. São, aliás, os casais de namorados clandestinos nos carros que param em sítios desertos para o namoro que figuram entre as principais vítimas. E são as raparigas que lhe parecem insinuar sexualidade que lhe despertam o instinto mais primário, que oscila entre a predação e o ódio ressabiado.
Ballard é, para muitos leitores, uma personagem abjecta que vai despertando simpatias ao longo da obra. A mim, o homem não me despertou qualquer abjecção, mas simplesmente um sentimento bem vincado: Ballard é a personagem humana mais selvagem que me lembro de ter conhecido num romance.
quarta-feira, junho 25, 2008
Catch me if you can
Será que quando Vale e Azevedo chegar a Portugal, escoltado pela Polícia Judiciária, também se irá interromper uma entrevista televisiva, em directo, de José Mourinho?
terça-feira, junho 24, 2008
Velhos
- Nesta guerra, os miúdos matam por ódio contra o velho que vão ser. Um ódio bastante assustado..
Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos
Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos
segunda-feira, junho 23, 2008
terça-feira, junho 17, 2008
O país emancipado
A minha humilde contribuição no Sempre a Produzir:
Deve ser um dos maiores lugares-comuns de sempre dizer que o futebol é o entretenimento dos burros, dos analfabetos, e que, como se costuma dizer, «não dá para perceber o interesse de ver vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola durante uma hora e meia».
Pois eu, como humilde célula constituinte desta nação de burros e analfabetos, considero-me um devoto do futebol, esse «desporto sem interesse». Gosto de golos, fintas, craques, mascotes, tácticas perfeitas, jogadores conflituosos, santos, pecadores, guarda-redes elásticos e anões que, ao correr, fazem lembrar o Pepe Rápido.
Gosto de tudo isto e até do público português que enche as bancadas. Mas não gosto, desde o malogrado ano de 2004, dos adeptos portugueses.
Não gosto, dizia eu, de adeptos portugueses de futebol desde 2004, desde que Scolari «criou», a partir da sua cadeira do poder, uma nova raça de gente desmiolada que é capaz de atropelar cães e gatos para chegar depressa ao Parque das Nações, onde poderá ter uma oportunidade única na vida de – tal qual o eclipse do Sol, o cometa Haley, um beijinho do Papa ou um bom filme português – ver o jogo da selecção, em directo, juntamente com centenas de pessoas a cheirar a suor estival, a cerveja e a solas de sandália com mijo pisado, ao som de uma banda sonora que, de forma tão portuguesa, passa samba e música de discoteca às cinco da tarde de um dia solarengo.
Adeptos que não concebem outra coisa que não a vitória e que, ainda há poucos anos, apenas conheciam o Figo de vê-lo na Caras, abraçado ao Paulo China num obscuro bar do Algarve, ou, vá lá, o Secretário, por este ter andado a espancar prostitutas e a saltar janelas nos estágios da equipa nacional.
Ah, velhos tempos. Ainda me lembro de 1998, quando eu saía da escola, sem pêlos na cara ou quase em lado nenhum, a correr para ir ver o Croácia-Alemanha ou o Espanha-Nigéria e alguém me perguntava onde é que ficava a Croácia e a Nigéria, logo rindo de seguida (como se o PIB de um país fosse directamente proporcional à qualidade futebolística dos seus jogadores).
Lembro-me de gostar de futebol de selecções quando todos só se interessavam pelos jogos entre os «três grandes» portugueses. Tenho saudades de Mundiais desses, como o de 1998, em que só interessava o futebol, não o fervor nacional de cada um medido à régua (até porque Portugal nem foi apurado), e assim era, graças a Deus, cada um por si.
Ando, por isso, um pouco enjoado da loucura em redor da Selecção Nacional, com direito a novos censores do patriotismo de cada um de nós.
Petróleo a subir até aos píncaros? Crise.
Greves de professores? Sinal do estado das coisas.
Estradas bloqueadas, camiões parados, maternidades encerradas? Este país vai de mal a pior.
Mas quando entra a selecção em campo, para o melhor ou para o pior, o português esquece tudo, chama a Cristiano Ronaldo «o orgulho de todos nós», a Scolari «o representante máximo da nação» (juro que ouvi um jornalista português dizer isto) e obriga o vizinho a pintar a cara de verde e vermelho, sob risco de ser excomungado para sempre do bairro caso não o faça.
Este é daqueles Europeus que tenho visto com atenção, com entusiasmo e até com uma vontade secreta de ver Portugal chegar longe.
Mas ver jogos nos parques integrado na «comunidade», para isso deixem-me de fora. Deixo aos outros essa difícil tarefa de, pela simples vontade, levar um país falhado a emancipar-se por 90 minutos.
Deve ser um dos maiores lugares-comuns de sempre dizer que o futebol é o entretenimento dos burros, dos analfabetos, e que, como se costuma dizer, «não dá para perceber o interesse de ver vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola durante uma hora e meia».Pois eu, como humilde célula constituinte desta nação de burros e analfabetos, considero-me um devoto do futebol, esse «desporto sem interesse». Gosto de golos, fintas, craques, mascotes, tácticas perfeitas, jogadores conflituosos, santos, pecadores, guarda-redes elásticos e anões que, ao correr, fazem lembrar o Pepe Rápido.
Gosto de tudo isto e até do público português que enche as bancadas. Mas não gosto, desde o malogrado ano de 2004, dos adeptos portugueses.
Não gosto, dizia eu, de adeptos portugueses de futebol desde 2004, desde que Scolari «criou», a partir da sua cadeira do poder, uma nova raça de gente desmiolada que é capaz de atropelar cães e gatos para chegar depressa ao Parque das Nações, onde poderá ter uma oportunidade única na vida de – tal qual o eclipse do Sol, o cometa Haley, um beijinho do Papa ou um bom filme português – ver o jogo da selecção, em directo, juntamente com centenas de pessoas a cheirar a suor estival, a cerveja e a solas de sandália com mijo pisado, ao som de uma banda sonora que, de forma tão portuguesa, passa samba e música de discoteca às cinco da tarde de um dia solarengo.
Adeptos que não concebem outra coisa que não a vitória e que, ainda há poucos anos, apenas conheciam o Figo de vê-lo na Caras, abraçado ao Paulo China num obscuro bar do Algarve, ou, vá lá, o Secretário, por este ter andado a espancar prostitutas e a saltar janelas nos estágios da equipa nacional.
Ah, velhos tempos. Ainda me lembro de 1998, quando eu saía da escola, sem pêlos na cara ou quase em lado nenhum, a correr para ir ver o Croácia-Alemanha ou o Espanha-Nigéria e alguém me perguntava onde é que ficava a Croácia e a Nigéria, logo rindo de seguida (como se o PIB de um país fosse directamente proporcional à qualidade futebolística dos seus jogadores).
Lembro-me de gostar de futebol de selecções quando todos só se interessavam pelos jogos entre os «três grandes» portugueses. Tenho saudades de Mundiais desses, como o de 1998, em que só interessava o futebol, não o fervor nacional de cada um medido à régua (até porque Portugal nem foi apurado), e assim era, graças a Deus, cada um por si.
Ando, por isso, um pouco enjoado da loucura em redor da Selecção Nacional, com direito a novos censores do patriotismo de cada um de nós.
Petróleo a subir até aos píncaros? Crise.
Greves de professores? Sinal do estado das coisas.
Estradas bloqueadas, camiões parados, maternidades encerradas? Este país vai de mal a pior.
Mas quando entra a selecção em campo, para o melhor ou para o pior, o português esquece tudo, chama a Cristiano Ronaldo «o orgulho de todos nós», a Scolari «o representante máximo da nação» (juro que ouvi um jornalista português dizer isto) e obriga o vizinho a pintar a cara de verde e vermelho, sob risco de ser excomungado para sempre do bairro caso não o faça.
Este é daqueles Europeus que tenho visto com atenção, com entusiasmo e até com uma vontade secreta de ver Portugal chegar longe.
Mas ver jogos nos parques integrado na «comunidade», para isso deixem-me de fora. Deixo aos outros essa difícil tarefa de, pela simples vontade, levar um país falhado a emancipar-se por 90 minutos.
domingo, junho 15, 2008
Coisas que não sabia
In the first primaries where Reagan did exceptionally well, he condemned both Ford and Kissinger for their mistaken policy of détente and represented their subservience to the Soviet Union as threatening to make the United States a "second-rate power." Though Reagan failed to take the nomination away from the president, and never considered running as an Independent, repeating the political mistake Roosevelt had made in 1912, he helped give the presdency to Jimmy Carter, the former governor of Georgia. It is impossible to knowwhether Carter's slim majority of a million and a half would have been secured in the absence of the immensely wounding primary battles waged by Reagan against Ford.
Stephen Graubard, The Presidents
Stephen Graubard, The Presidents
Produção
Em resposta ao simpatiquíssimo convite do João Gonçalves, do Sempre a Produzir, escrevi um ressabiado e, nos tempos que correm (no próprio dia de hoje), profano artigo. Está integrado no «ciclo» Outros Bloggers no Sempre a Produzir, para onde já JCS, do Lobi do Chá, escreveu. A minha tese d'O país emancipado está aqui.
Saramago
Gostei da entrevista que José Saramago deu ontem ao Diga Lá, Excelência. E, embora desfasadas da realidade, até mesmo as considerações políticas que Saramago fez têm «direito» a existir. Não precisamos todos de apanhar a mesma frequência. À medida que o tempo passa, vou aprendendo isso. Uns vivem com a cabeça na Lua, outros em Marte, não faz mal: é o planeta deles.
sábado, junho 14, 2008
Homem modelo
Volta pra cama que vou fazer o café.
Servi café com leite, torrada, biscoitos, queijo, mel, iogurte, mamão e tangerina. Desjejum de hotel da serra.
Se eu fosse a titular você ia fazer isso tudo para mim, sempre?
Não sei lavar nem passar roupa.
Basta me foder sempre desse jeito.
Rubem Fonseca, Secreções, Excreções e Desatinos
Servi café com leite, torrada, biscoitos, queijo, mel, iogurte, mamão e tangerina. Desjejum de hotel da serra.
Se eu fosse a titular você ia fazer isso tudo para mim, sempre?
Não sei lavar nem passar roupa.
Basta me foder sempre desse jeito.
Rubem Fonseca, Secreções, Excreções e Desatinos
É proibido proibir a confusão
Gosto do protesto dos camionistas porque há uma parte de mim que gosta de confusão, de anarquia, de encostar o poder às cordas. Pena é a perda da ordem pública e a noção de que as mudanças políticas se fazem à força, nas ruas. Pode valer a pena para abanar Sócrates e os deputados - que muito se entretêm a receber a máfia portuguesa com pompa e circunstância na Assembleia -, mas não deixa de ser perigoso aplaudirmos este tipo de acontecimentos.
sexta-feira, junho 13, 2008
O Método
Homem que escreva ficção mais decadente sem tomar banho não é porco, é um utilizador do Método.
Dividir a unidade em dois
EDDIE: Bem, sabes... o nosso pai apaixonou-se duas vezes. Foi principalmente por causa disso. Uma vez pela minha mãe e outra vez pela mãe dela.
VELHO: Era o mesmo amor. Mas dividiu-se em dois, foi simplesmente isso.
Sam Shepard, Loucos por Amor
VELHO: Era o mesmo amor. Mas dividiu-se em dois, foi simplesmente isso.
Sam Shepard, Loucos por Amor
Da escrita

A escrita. Uma das profissões mais difíceis do mundo quando levada a sério. Pode, é claro, ser uma das mais desejadas por muitas pessoas. Qualquer homem ou mulher, de criança a velho, que já escreveu com algum afinco, chegou a acomodar a ideia de um dia ser escritor, de ser um autor que alimenta os seus livros com letras mas que é alimentado pelos próprios livros. Pelos lucros, portanto.
Mas não são só as ideias e as letras que alimentam a escrita. É a própria vida do autor que alimenta o livro. A escrita pode sugar toda a vida de quem escreve. Os livros pouco dão ao autor. É uma relação disfuncional, uma relação unilateral em que um dos amantes se dá - e dá mesmo tudo - ao outro e acaba levando tabefe todos os dias, ao fim da noite, quando pensa que dá por encerrada a sua missão diária. Amou e derramou sabedoria, suor, lágrimas e sangue. Falou com, declamou para, gritou a. Mas não teve resposta. O manuscrito não fala de volta. Nem os livros já publicados, nas estantes, nas livrarias, na feira do livro em destaque, numa conferência literária em estudo, numa puta de feira de estação de Metro a um euro, dizem seja o que for ao escritor. O livro, a história, é um produto de uma mente com problemas a resolver, que decide resolvê-los, por experimentação, assim, escrevendo. Escreve-se porque não se tem mais onde pôr estas ideias, estas coisas que nos atormentam. Escreve-se porque se ouve e não se quer esquecer. Porque se pensa e se quer guardar um pensamento para sempre.
Porque a escrita não é mais do que isso. É o sinal da dupla incapacidade humana de conseguir guardar todos os pensamentos rápidos que se tem e de conseguir levar todos os segredos e ideias para a cova. Quando se morre é para sempre, e é por isso que, até lá, se põe tudo o que vale a pena - que passou pela nossa cabeça - em papel, numa escrita que não nos envergonhe nem à nossa língua. Caso se escreve apenas porque é bonito e porque fica bem juntar palavras sem sentido, então não se passa de um artista plástico esteticamente obcecado. É por tudo isto e mais que quem escreve se dispõe a esta relação de amor não correspondido com a folha em branco, uma relação que, muitas vezes, mata como qualquer outra em que «amante deixa amante». É por isso que escrevo. É por isso que todos escrevem e deviam escrever. Mas é por isto, sobretudo, que admiro os escritores profissionais.
Só
Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a Faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturante pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até no meu silêncio e compreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham, não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em Outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado.
António Lobo Antunes, Os Cus de Judas
António Lobo Antunes, Os Cus de Judas
quinta-feira, junho 12, 2008
quarta-feira, junho 11, 2008
O estado das coisas
quinta-feira, junho 05, 2008
Notas rápidas acerca da Feira do Livro

1- voltei a estoirar balúrdios em livros que lá estão todos os anos;
2- o espectáculo que o grupo LeYa fez por causa das suas barraquinhas não corresponde ao recinto vulgaríssimo que têm no Parque Eduardo VII, cheio de agentes dos serviços secretos a guardar as entradas;
3- andar na Feira do Livro de Lisboa continua a ser cansativo.
Taxitramas

Descobri, recentemente, uma versão bem mais simpática de Taxi Driver, das histórias nocturnas dos confins das grandes cidades. Esta versão, sem desejos de matar o Presidente (digo eu), é Taxitramas. Mauro Castro, o autor do blog, é um taxista de Porto Alegre que põe no papel as mil e umas histórias que passa por si, ou pelo banco traseiro do seu táxi, no dia-a-dia. O resultado é um dos melhores e mais originais blogs que tenho encontrado na blogosfera.
quarta-feira, junho 04, 2008
Ferreira Leite e o regresso da confiança
Muito se tem discutido os dotes políticos e financeiros (dotes, no entanto, indiscutíveis por princípio) de Manuela Ferreira Leite, as rugas e a cara da senhora e o passado da mesma, nomeadamente na Educação e nas Finanças. Mas o mais importante com a escolha de Ferreira Leite para liderar o PSD nas próximas eleições - e nas que se seguirão, espero - não tem sequer a ver com os dotes pessoais da senhora. Tem, sobretudo, e isto é o mais importante desta viragem política, a ver com a confiança que trouxe ao partido, a credibilidade de um projecto que não vem preconcebido para a Rua de São Caetano, mas sim sujeito à apreciação e a desvios que dependerão do contexto socio-económico e não da vontade popular. É esta credibilidade que, por fim, permitirá regressar ao partido figuras que não dependem de funções no governo para ter reformas gordas, que não querem a oportunidade política para manter a posição no governo para depois da próxima eleição, mas que querem, isso sim, aplicar a experiência e a leitura que fazem dos tempos que correm.
Seja dito que eu não tenho ilusões com este PSD que agora se tenta reconstruir, mas tenho, no mínimo, confiança num projecto que se vai desenhando. E se isso me anima a mim, imagine-se a vontade de «voltar» que crescerá em muito boa gente - que nos faz falta há alguns anos na política.
Seja dito que eu não tenho ilusões com este PSD que agora se tenta reconstruir, mas tenho, no mínimo, confiança num projecto que se vai desenhando. E se isso me anima a mim, imagine-se a vontade de «voltar» que crescerá em muito boa gente - que nos faz falta há alguns anos na política.
terça-feira, junho 03, 2008
Feira do Livro
Francisco José Viegas agitou-me a consciência por causa deste texto magnífico, uma declaração de amor incondicional. Lá terei eu de ir hoje à Feira do Livro, porra. Transcrevo o texto para aqui, à descarada:
Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira.
Gosto deste tipo de prosa, perfeita, que me faz querer ir aos sítios.
Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira.
Gosto deste tipo de prosa, perfeita, que me faz querer ir aos sítios.
segunda-feira, junho 02, 2008
Sem fuga
Está em todo o lado. Não há como fugir. O que ainda não consegui perceber é se sou eu que não consigo tirar os olhos das mamas da Nereida Gallardo, se são as mamas da senhora que pululam por todos os jornais, sites, revistas e esquinas conhecidas.
Mugir e pastar
Acerca de um texto em Word, pediram-me para fazer copy e depois «pastar». Até senti os cornos a brotarem-me das têmporas.
True story
Disse a alguém que agora gostava de Agualusa. Esse alguém perguntou-me, surpreendido, se só agora é que tinha descoberto a água do Luso. Eu disse que sim, só agora.
Agualusa
Comprei hoje a revista LER de Junho, pela primeira vez após anos de separação. Um dos primeiros que me calhou ler foi José Eduardo Agualusa, numa rubrica chamada O Lugar do Morto. Torcia o nariz aos livros de Agualusa, é certo, sobretudo após a leitura de algumas coisas de Mia Couto, que, tirando a simpatia pela linguagem popular das suas personagens, pouca ou nenhuma paixão me despertou. Não sei porquê, associava um escritor a outro. Mas, depois de ler esta rubrica, tive esta outra ideia: Agualusa é bom.
Dois excertos da crónica do homem:
Obama declama e Hillary ri. Não tem de que rir, a hilária (...).
Agrada-me em Obama algo que me aborrece em Hillary - a virilidade. São dois machos alfa em competição, o que estaria muito bem não se desse o caso de um deles ter como marido um outro macho alfa. Por outro lado, tenho de confessar que quase m comove em Hillary a sombra simpática de Bill, o saxofonista. Não há como olhar para ela sem que nos venha à memória o burlesco episódio da sala oral.
Dois excertos da crónica do homem:
Obama declama e Hillary ri. Não tem de que rir, a hilária (...).
Agrada-me em Obama algo que me aborrece em Hillary - a virilidade. São dois machos alfa em competição, o que estaria muito bem não se desse o caso de um deles ter como marido um outro macho alfa. Por outro lado, tenho de confessar que quase m comove em Hillary a sombra simpática de Bill, o saxofonista. Não há como olhar para ela sem que nos venha à memória o burlesco episódio da sala oral.
Pais e filhas

Para animar a política, e com algum trabalho, até se punha Meghan, a roliça filha de John McCain, na Casa Branca a ajudar o pai. Eu, por exemplo, nem me importava muito.
Vertigo

Agora que menos tempo tenho passado em Setúbal, noto a ausência de alguns locais importantes para a minha sanidade. Um deles é o forte de São Filipe. Do alto das muralhas, olhando lá para a baixo, um homem sente simultaneamente uma terrível e vertiginosa vontade de se atirar no vazio e um medo enorme de ser empurrado. A morte e a omnipotência misturam-se de forma perigosa naquela altura mais do que épica. E, depois, é um óptimo sítio para desaparecer da civilização de vez em quando, em alternativa à casa ser trancada a sete chaves.
domingo, junho 01, 2008
Directos, especiais e afins
Eu, que adoro futebol, chego quase a perder toda a vontade de ver jogos da selecção nacional assim que as estações televisivas começam com a festarola da grossa em redor dos estágios e da «festa do futebol». Toy e companhia começam a encher os fins-de-semana, nos quais eu esperava ver um pouco de futebol aqui e ali, e logo se estraga um dia de descanso. Saber que o Quaresma hoje estava de intestinos presos ou que o Miguel Veloso disse, quando acordou, que «estava feliz», enquanto a tragédia nacional (com notícias sobre a especulação petrolífera) passa em rodapé, é o retrato de uma miséria de país. Parece cliché dizer isto, mas já não há mesmo paciência para os «especiais» e os «directos» com a selecção e a partir do local do estágio dos «incríveis» em Viseu, na Áustria ou no cu de Judas.
Ainda com Aron
O sistema francês «desnacionaliza», como que apaga a tradição original dos imigrantes; o sistema americano, esse, sobrepõe ao fundo cultural dos imigrantes os valores e os modos de conduta tipicamente americanos. O sistema francês sofre, em contrapartida, duma grande fraqueza, pois cria intelectuais em vez de cidadãos.
Raymond Aron, A Revolução Inexistente
Raymond Aron, A Revolução Inexistente
sexta-feira, maio 30, 2008
Ciclos
Anda a aumentar, e muito, esse imenso medo que a nossa sociedade «industrial» tem da morte, da doença, do fim. Aperta-se o cerco aos fumadores, aos gordos, ao colestrol, estimula-se o culto do exercício físico, do dentista, do activismo ambiental. Será que ainda não perceberam que não vale a pena, que a Terra continua sem nós? Se até os dinossauros, predadores insuperáveis e vegetarianos gigantes, foram congelaods vivos ou engolidos por uma bola de fogo, porque é que nós, fracas figuras, haveríamos de resistir aos ciclos da Terra?
O cativeiro

Alexander Soljenitsin, em Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, relata um episódio em que os prisioneiros de um gulag só tinham direito a escrever duas cartas por ano. Duas cartas, apenas e só.
Para alguém que tivesse família cá fora, haverá maior tortura? É a «obrigação» de esquecer os outros, de esquecer o mundo conhecido, aquilo que os burocratas e os guardas soviéticos queriam inculcar. O sofrimento é humano, mas não haverá nada mais cruel, e que traga mais sofrimento, do que conseguir acabar com a própria humanidade de um homem, fazer dele um animal e tirar-lhe tudo aquilo pelo qual ele poderia sofrer.
sexta-feira, maio 23, 2008
Cradle Will Rock

Mais um exercício da opinião «liberal» (de esquerda americana) de Tim Robbins, Cradle Will Rock (ou América Anos 30 na tradução portuguesa) vem defender a tese do necessário «empenhamento político-social» da arte, sublinhando a responsabilidade/obrigação crucial desta em atacar o poder, por contraponto aos superficiais magnatas «gordos» e «egoístas» (como um certo castor de uma fábula referida a meio do filme) que desrespeitam a arte «consciente» de figuras revolucionárias como Diego Rivera (uma aparição simpática de Ruben Blades). Este filme de Tim Robbins vale, quase só, pelas interpretações de John Turturro e Bill Murray, e pela inegável qualidade técnica da filmagem.
terça-feira, maio 20, 2008
Se numa tarde de Primavera um taxista
Ao contrário do que pensava há uns míseros dois meses atrás, agora já me interrogo acerca da «alternativa» Democrata (e provável vencedor das eleições de Novembro) para a Presidência dos EUA. Achava que Obama era uma boa lufada de ar fresco para a esquerda americana, não tanto pela sua carga ideológica (perigosamente romântica), mas pela carga simbólica de uma América onde é possível chegar longe independentemente das raízes que se tem - mote, aliás, da própria campanha do «yes, we can» de Barack Obama. Há dias, quando um taxista me disse, em plena viagem, que «andamos todos a querer pedir desculpa aos pretos pondo um deles no lugar do Bush», penso que a razão pela qual Obama tem tanto apoio e reúne tanta simpatia (minha, inclusive) é mais próxima da ideia do taxista do que da ideia tão badalada e tão incipiente de mudança - daquela Mudança com M maiúsculo que se tem prometido. Obama pode não ser tão boa pessoa como nós pensamos, mas eu gosto dele. Obama pode não ser tão inteligente quanto Hillary, mas eu prefiro aquele. No entanto, Obama pode ser muito mais refrescante que McCain, mas continuo a querer um Republicano na Casa Branca.
3 anos sem dormir bem
O Insónia foi um dos dois primeiros blogues sobre literatura (a par do Da Literatura) que começei a ler diariamente na blogosfera. A admirável imprevisibilidade da vítima das pragas certeiras que o Henrique Fialho fluentemente roga (um dos melhores portugueses na arte da chapada de luva branca), o humor refinado da escrita da Maria João Lopes Fernandes (que bate Oscar Wilde aos pontos), a cultura literária e poética do Rui Costa e a melancólica poesia do Jorge Aguiar de Oliveira dão ao Insónia um espaço sempre especial na coluna de blogues aqui ao lado. Parabéns pelos três anos.
60 anos de identidade política
Normalmente, não me sinto muito bem da cabeça, nem do coração, quando acabo de ler algo da jornalista Fernanda Câncio. Nem sequer é doença crónica, penso que é apenas opinião ultra-divergente. Mas nem sempre isso acontece, fiquei hoje a perceber. Até parece blasfémia eu aplaudir esta senhora, mas este artigo/post sobre os 60 anos de Israel, de facto, merece a leitura. Ainda que tenha mais de uma semana de atraso.
segunda-feira, maio 19, 2008
«Plano quinquenal» da ASAE
A ler o seguinte artigo de José Pacheco Pereira no Abrupto, que transcrevo aqui:
O Plano Quinquenal soviético era um monumento à planificação socialista. Definia quantas cadeiras deveria produzir uma carpintaria em Moscovo, quantas toneladas de carvão deveria extrair uma mina nos Urais, quantas lâmpadas deveria fazer uma fábrica na Estónia, quantas toneladas de trigo deveria produzir a Ucrânia e quantas toneladas de algodão no Cazaquistão. Os objectivos eram emoldurados em cartazes e traduzidos em estatísticas que adornavam a entrada dos Kolkozes e dos “combinados siderúrgicos”. Uma multidão de stakanovistas, trabalhadores de choque, à força de reuniões de partido e da “emulação socialista”, lá aparecia no quadro de honra dos “heróis do trabalho” por ter ultrapassado a sua quota.
Este era o mundo que Staline fez e era uma grande mentira: a relação dos grandiosos planos quinquenais com a realidade era escassa, as estatísticas eram falseadas e os operários e os kolkozianos trabalhavam à força da inspiração do NKVD e depois do KGB e da sombra siberiana do Gulag. O mundo de fantasia dos Planos Quinquenais escondia a brutalidade da vida soviética, a completa ineficácia da planificação e a Grande Mentira do socialismo real.
Mas o Plano Quinquenal soviético seduz os burocratas de todo o mundo. Em particular, seduz os burocratas autoritários que em Estados fracos gostam de pavonear a sua força com o beneplácito do governo. A ASAE é uma instituição fundamental para a nossa segurança, qualidade de vida e boas práticas nos negócios, no fisco, na competição. Mas, como é costume em Portugal, não se sabe passar do laxismo para uma actuação equilibrada, passa-se sempre do laxismo para a prepotência e a violação dos direitos dos cidadãos. O resultado, a prazo, é que se acaba por voltar de novo ao laxismo. Está a ser assim no fisco, é assim na ASAE.
O documento que apresenta como objectivos anuais para a ASAE 410 detenções, 1640 processos-crime, 12 contra-ordenações é um exemplo da distorção da instituição. Se os objectivos fossem inspeccionar 500 feiras e 20000 restaurantes, muito bem. Mas como é que se faz em Dezembro, quando só se prenderam 310 pessoas da quota de 410? Vai-se à pressa prender cem para cumprir o Plano Quinquenal? Este absurdo desvirtua o estado de direito e a lei, torna uma polícia especial como é a ASAE em perseguidora dos cidadãos e das empresas e não em defensora da legalidade.
Não admira, por isso, que o seu principal responsável tenha faltado à verdade sobre a existência e alcance deste documento que agora o Expresso publicou. Não admira que o governo Sócrates, que sempre lhe deu cobertura, esteja agora embaraçado. É que o Inspector-geral da ASAE deixou de ter condições para continuar no cargo e cada dia que passe no seu lugar a ASAE perde autoridade para o exercício das suas funções.
O Plano Quinquenal soviético era um monumento à planificação socialista. Definia quantas cadeiras deveria produzir uma carpintaria em Moscovo, quantas toneladas de carvão deveria extrair uma mina nos Urais, quantas lâmpadas deveria fazer uma fábrica na Estónia, quantas toneladas de trigo deveria produzir a Ucrânia e quantas toneladas de algodão no Cazaquistão. Os objectivos eram emoldurados em cartazes e traduzidos em estatísticas que adornavam a entrada dos Kolkozes e dos “combinados siderúrgicos”. Uma multidão de stakanovistas, trabalhadores de choque, à força de reuniões de partido e da “emulação socialista”, lá aparecia no quadro de honra dos “heróis do trabalho” por ter ultrapassado a sua quota.
Este era o mundo que Staline fez e era uma grande mentira: a relação dos grandiosos planos quinquenais com a realidade era escassa, as estatísticas eram falseadas e os operários e os kolkozianos trabalhavam à força da inspiração do NKVD e depois do KGB e da sombra siberiana do Gulag. O mundo de fantasia dos Planos Quinquenais escondia a brutalidade da vida soviética, a completa ineficácia da planificação e a Grande Mentira do socialismo real.
Mas o Plano Quinquenal soviético seduz os burocratas de todo o mundo. Em particular, seduz os burocratas autoritários que em Estados fracos gostam de pavonear a sua força com o beneplácito do governo. A ASAE é uma instituição fundamental para a nossa segurança, qualidade de vida e boas práticas nos negócios, no fisco, na competição. Mas, como é costume em Portugal, não se sabe passar do laxismo para uma actuação equilibrada, passa-se sempre do laxismo para a prepotência e a violação dos direitos dos cidadãos. O resultado, a prazo, é que se acaba por voltar de novo ao laxismo. Está a ser assim no fisco, é assim na ASAE.
O documento que apresenta como objectivos anuais para a ASAE 410 detenções, 1640 processos-crime, 12 contra-ordenações é um exemplo da distorção da instituição. Se os objectivos fossem inspeccionar 500 feiras e 20000 restaurantes, muito bem. Mas como é que se faz em Dezembro, quando só se prenderam 310 pessoas da quota de 410? Vai-se à pressa prender cem para cumprir o Plano Quinquenal? Este absurdo desvirtua o estado de direito e a lei, torna uma polícia especial como é a ASAE em perseguidora dos cidadãos e das empresas e não em defensora da legalidade.
Não admira, por isso, que o seu principal responsável tenha faltado à verdade sobre a existência e alcance deste documento que agora o Expresso publicou. Não admira que o governo Sócrates, que sempre lhe deu cobertura, esteja agora embaraçado. É que o Inspector-geral da ASAE deixou de ter condições para continuar no cargo e cada dia que passe no seu lugar a ASAE perde autoridade para o exercício das suas funções.
A minha leitura saudosista do Maio de 68

Que modelo satisfaria as aspirações dos revolucionários se o modelo soviético é superburocrático? Os verdadeiros revolucionários do período de Maio invocavam a democracia directa, num certo sentido mais anti-soviéticos do que antipaitalistas. Todavida, dizem-se inspirados no marxismo, o que é um paradoxo, pois não se vê bem como uma sociedade planificada poderia ser menos burocrática que uma sociedade de capitalismo semiliberal.
Raymond Aron, A Revolução Inexistente
domingo, maio 18, 2008
Dez

Saíu há já alguns dias o número dez da revista Minguante. Não a vai encontrar nas bancas, mas, melhor ainda, pode encontrá-la aqui mesmo, online. Entre vários textos da melhor qualidade possível e da maior experiência verificável, pode ler lá a minha humilde mas empenhada contribuição.
Hitchcock

Durante a maior parte da minha vida, ignorei Hitchcock, apesar do longínquo respeito. Só Os Pássaros passaram pelo meu vídeo, e mesmo esses passaram demasiado depressa, e por olhos demasiado desatentos, para deixarem marca profunda - da maneira que Scorsese e Coppola haviam deixado. Portanto, o homem pairava apenas num momento de fundo do cinema. Para mim, claro.
Finda a dolescência, fui aos poucos descobrindo a obra-prima de Alfred Hitchcock. The Man Who Knew Too Much (o de 1931 com Peter Lorre) deu-me outra ideia da capacidade técnica do realizador inglês, e North by Northwest tornou-se um clássico entre os clássicos na minha memória. Mais recentemente, no entanto, mais filmes caíram, e Psycho e Vertigo foram os eleitos. Devo dizer que Psycho, sobretudo, é um dos melhores filmes de suspense que alguma vez vi. Aliás, géneros à parte, é um grande filme, que merece a fama (aliás, infundada no sentido em que toda a gente conhece e gosta mas quase ninguém viu) que parece ter. Pela experiência que tenho tido, e embora Vertigo seja o que mais inconsistências tem a nível de argumento (não obstante o facto de ser excelente), acho deve ser impossível vir a ter uma má experiência com Hitchcock.
terça-feira, maio 06, 2008
As crises
Porque é que os socialistas dizem que, no seio do partido, há «um debate saudável e essencial para a democracia» quando José Sócrates pisa e humilha os opositores internos no PS, e dizem que há uma «grave crise no PSD e na direita» sempre que há mais que um candidato à liderança do PSD?
Lutas do derrière
Judite de Sousa, há umas semanas, perguntou a Rui Rio algo acerca do espaço de oposição ao PS à direita, tendo em conta que as «lutas intestinas» (e cito a própria Judite) no partido minam a força e credibilidade desta oposição ao governo. Francamente, quando falam de «lutas intestinas», soa-me sempre que alguém comeu algo estragado ao jantar. Não podiam utilizar outros termos e menor gravidade?
Zenith

Ver o Zenith de São Petersburgo jogar futebol é uma lição moderna de futebol «clássico». De um futebol que, hoje em dia, já não existe sem aqueles jogadores de Ferrari e namoradas supermodelos. Talvez esta seja a ideia de um apreciador ingénuo e antiquado do desporto: o jogador pobre e esforçado, entregue de corpo e alma ao futebol, não visto como uma profissão, mas como a prova última de pertença a uma comunidade.
«Futebol total» é um conceito que, muitas vezes, nos últimos tempos, tem sido utilizado gratuitamente para designar qualquer exibição, acima do sofrível, de qualquer equipa portuguesa. Mas há muito que não via este conceito aplicável. Para mim, voltou com o Zenith de São Petersburgo, uma equipa a lembrar não apenas o «futebol total» holandês, com um jogo ao primeiro toque com movimentações rapidíssimas e com uma versatilidade extraordinária da equipa, mas também a máquina soviética de futebol, em que cada jogador jogava tanto a defesa central como a «ponta esquerda» ou a avançado - também os jogadores do Zenith passam, correm, rematam, defendem, pressionam, cabeçeiam com igual qualidade entre si. Estivesse o Zenith na Liga dos Campeões e vê-los-íamos certamente nas meias-finais. Por agora, bastar-lhes-á a Taça UEFA, que bem merecem.
terça-feira, abril 29, 2008
A guerra na era Vitoriana
One of the pleasures of late-Victorian campaigning was that steamships and railways made it possible to attend even the empire's remoter battlefields, then return to one's London chambers for a haircut and a visit to one's tailor before the next bout.
Max Hastings, Warriors
Max Hastings, Warriors
segunda-feira, abril 28, 2008
Bamboozled

De Spike Lee, Bamboozled é um filme interessante. O conceito do filme e o do «filme dentro do filme» são criativos, mas este é, como muitos outros, um exercício sobre as tensões raciais nos EUA. Para Spike Lee, os negros estão sempre sob fogo cruzado da polícia, da elite branca (dos «WASP»), da televisão, do poder e da classe média. Não será, provavelmente, mentira, mas o tom de Spike Lee acerca disto soa-me sempre que é exacerbado. Não é o Do the Right Thing (1989), mas vale a pena ver, nem que seja pelo balanço final do filme, que resulta num exercício de reflexão útil e numa quase fábula moral da «comunidade negra», numa sátira que não deixa de visar os próprios negros americanos e a imagem que muitos destes produzem e reproduzem de si mesmos.
quinta-feira, abril 24, 2008
Camus

Qual o homem que nunca quis ser como Camus? É a «estrela de futebol» do universo dos escritores (curiosamente, é-o mesmo, tendo jogado futebol amador em Argel, na posição de guarda-redes... e bom, segundo parece), motivo de uma inveja respeitosa por parte de todos os potenciais escritores. Qual o homem que, ao pegar na caneta, nunca quis ser como Camus? Cigarro ao canto da boca, gola levantada, charme magneticamente chamador de mulheres bonitas, existencialista moderado e racional. Os seus romances misturam-se com as temáticas de Dostoiévski, o absurdo cómico-trágico da suas personagens confundem-nos e passam para a nossa visão das coisas. Mersault não sofre menos incompreensão que Joseph K., é certo. Camus, ainda por cima, era um homem de causas. Legítimas, ao que parece. Anti-guerra, mas com reflexão, sem fome de fama. Quem nunca quis ser como Camus? Sartre, pelo que se sabe, queria ser como ele, e mordia-se por dentro por essa razão. Sinceramente, se eu fosse Jean-Paul Sartre, preferiria ser como Camus, verdade seja dita. Equilibrar a caneta numa mão e o cigarro noutra, eis uma verdade que o homem legou a gerações de escritores empenhados.
Fuga ao anonimato
Alguns dos meus bons criminosos tinham, de resto, ao matar, obedecido ao mesmo sentimento. A leitura dos jornais, na lastimosa situação em que se encontravam, trazia-lhes, sem dúvida, uma espécie de triste compensação. como muitos outros homens, eles já não podiam com o anonimato, e esta impaciência tinha podido, em parte, levá-los a difíceis extremos. Para alguém se tornar conhecido, basta, em suma, matar a porteira. Trata-se, infelizmente, de uma reputação efémera, tantas são as porteiras que merecem e recebem as facadas.
Albert Camus, A Queda
Albert Camus, A Queda
Warriors
Em Warriors, Max Hastings traz-nos um retrato de homens e mulheres em guerra. Tanto podem ser militares de carreira, como pessoas «arrastadas» para o conflito pela força das circunstâncias. O objectivo é narrar, como o próprio subtítulo indica, Extraordinary Tales from the Battlefield. No entanto, não se julgue que todas são personagens apaixonantes. Algumas serão falhadas, irracionais, azaradas ou politicamente subservientes. Mas todas trazem algo comum: coragem debaixo de fogo. E isto Hastings sublinha: «No warrior should be promoted to higher command merely because he is brave. A skilled and eager fighter is best rewarded by decorations rather than promotion. He should be retained in a role in which he can make himself useful in personal combat, rather than advanced beyond the merits of the rater limited gift - even for a soldier - of being good at killing people». Ou seja, um «guerreiro de coragem» não resulta, necessariamente, num bom comandante - pelo contrário, normalmente resulta num líder irracional, insensível a esse medo tão normal e compreensível: o medo de morrer.
O primeiro desses retratos é o do Barão Marcellin de Marbot, jovem comandante napoleónico que participou em campanhas desde Portugal à Rússia. Combatente valoroso, fazia-se aos adversários com a ferocidade típica de um militar de carreira inspirado por grandes campanhas. A quase misoginia era um atributo comum: «men such as Marbot became so absorbed in the business of war that they perceived women merely as a source of amusement during leaves, and as childbearers when duty granted an officer leisure to think of such marginal matters as procreation». Marbot atirou-se ao rio, inclusivamente, para salvar inimigos russos, que agitavam a bandeira branca da rendição. E isto diz muito do homem, apesar de militar nas fileiras imperiais. A ética militar não foi suplantada pela vertigem conquistadora de Bonaparte. E, de facto, em muitas alturas Marbot parece não ter sido totalmente cegado por esta, já que diversas vezes discordou do imperador e duvidou dos grandes generais napoleónicos. No entanto, quando a batalha contra ingleses, austríacos e russos chamou, lá foi o Barão.
Menos misógina é a história de Harry Smith e Juana. O brigadeiro das 95th Rifles esteve também em diversos palcos desde América do Sul aos conflitos napoleónicos, inclusivamente no sangrento cerco de Badajoz (1812) e em Waterloo. Combatera, curiosamente, contra Marbot, se bem que seja impossível saber se alguma vez se encontraram fisicamente, frente a frente, no campo de batalha. Mas numa coisa vencera Marbot: acima da vitória militar, estava a sua dedicação a Juana, jovem espanhola que perdera a família em Badajoz com a sua irmã mais velha e que agora procurava clemência. Os oficiais ingleses, ao contrário da sua infantaria - selvagem e destruidora como quase sempre as infantarias em guerra são -, foram sensíveis a isto e acederam ao pedido. Harry Smith foi mais longe, apaixonou-se por Juana, que tinha então 14 anos. A beleza da rapariga foi sublinhada por um camarada de armas de Smith, Johnny Kincaid, se bem que esta não seja comprovada senão por alguns relatos e um retrato incluído na autobiografia de Smith. Um ponto a favor de Hastings: a reflexão acerca do «amor» de Juana por Harry Smith. Até que ponto não seria uma relação maternal retribuída com aquela dedicação? Juana passou uma vida inteira dedicada ao brigadeiro das 95th, mas na sua origem esteve uma paixão dedicada a um oficial que a poderia salvar da ruína completa e mesmo da morte. Assim que se juntou a Smith, foi inclusivamente excomungada da sua cultura católica espanhola, que nunca aceitaria de volta uma mulher que tivesse casado com um herético anglicano. O medo de Juana de perder Harry era, muitas vezes, igualmente, o medo de perder a sua própria vida. Dizer que Juana vivia para Harry Smith era dizer isso mesmo: a «vida dela» era ele.
O primeiro desses retratos é o do Barão Marcellin de Marbot, jovem comandante napoleónico que participou em campanhas desde Portugal à Rússia. Combatente valoroso, fazia-se aos adversários com a ferocidade típica de um militar de carreira inspirado por grandes campanhas. A quase misoginia era um atributo comum: «men such as Marbot became so absorbed in the business of war that they perceived women merely as a source of amusement during leaves, and as childbearers when duty granted an officer leisure to think of such marginal matters as procreation». Marbot atirou-se ao rio, inclusivamente, para salvar inimigos russos, que agitavam a bandeira branca da rendição. E isto diz muito do homem, apesar de militar nas fileiras imperiais. A ética militar não foi suplantada pela vertigem conquistadora de Bonaparte. E, de facto, em muitas alturas Marbot parece não ter sido totalmente cegado por esta, já que diversas vezes discordou do imperador e duvidou dos grandes generais napoleónicos. No entanto, quando a batalha contra ingleses, austríacos e russos chamou, lá foi o Barão.
Menos misógina é a história de Harry Smith e Juana. O brigadeiro das 95th Rifles esteve também em diversos palcos desde América do Sul aos conflitos napoleónicos, inclusivamente no sangrento cerco de Badajoz (1812) e em Waterloo. Combatera, curiosamente, contra Marbot, se bem que seja impossível saber se alguma vez se encontraram fisicamente, frente a frente, no campo de batalha. Mas numa coisa vencera Marbot: acima da vitória militar, estava a sua dedicação a Juana, jovem espanhola que perdera a família em Badajoz com a sua irmã mais velha e que agora procurava clemência. Os oficiais ingleses, ao contrário da sua infantaria - selvagem e destruidora como quase sempre as infantarias em guerra são -, foram sensíveis a isto e acederam ao pedido. Harry Smith foi mais longe, apaixonou-se por Juana, que tinha então 14 anos. A beleza da rapariga foi sublinhada por um camarada de armas de Smith, Johnny Kincaid, se bem que esta não seja comprovada senão por alguns relatos e um retrato incluído na autobiografia de Smith. Um ponto a favor de Hastings: a reflexão acerca do «amor» de Juana por Harry Smith. Até que ponto não seria uma relação maternal retribuída com aquela dedicação? Juana passou uma vida inteira dedicada ao brigadeiro das 95th, mas na sua origem esteve uma paixão dedicada a um oficial que a poderia salvar da ruína completa e mesmo da morte. Assim que se juntou a Smith, foi inclusivamente excomungada da sua cultura católica espanhola, que nunca aceitaria de volta uma mulher que tivesse casado com um herético anglicano. O medo de Juana de perder Harry era, muitas vezes, igualmente, o medo de perder a sua própria vida. Dizer que Juana vivia para Harry Smith era dizer isso mesmo: a «vida dela» era ele.
terça-feira, abril 22, 2008
Lucky Number Slevin

Excelente filme, este realizado em 2006 por Paul McGuigan, com argumento de Jason Smilovic. Corre o risco de ser um filme algo «caricato», tal como Snatch (que é o parente mais próximo, na minha opinião) mas com mais elegância, se bem que este aspecto algo cómico, por vezes, mais não é que uma maneira de atenuar alguma violência. E a violência é a chave do filme, não como violência gratuita (nada do gore que os discípulos de Tarantino por vezes deixam entrar nos filmes) mas sim como a forma que reveste os twists do enredo. Lucky Number Slevin é uma excelente história, bonita mas pessimista, esperançosa mas carregada de destino, de hubris. Uma das frases essenciais é o desejo, de The Boss (Morgan Freeman), de reviver uma lex talionis, uma lei da retribuição - retribuição essa que, no entanto, não vai no sentido que The Boss quer.
Slevin Kelevra (Josh Hartnett, em mais uma excelente interpretação de uma das minhas apostas para o futuro de Hollywood), Mr. Goodkat (Bruce Willis), The Rabbi (Ben Kingsley), Lindsey (a bela Lucy Liu) e o detective Brikowski (Stanley Tucci) são as personagens mais visíveis de um longo elenco de um grande filme que merece ser visto mais que uma vez. Cheguei a ver as cenas cortadas, apenas para apanhar algumas «franjas» subestimadas do filme. Surpreendentemente bom. Para não estragar o enredo, deixo o repto simples: vejam Lucky Number Slevin. Não se arrependem.
sábado, abril 19, 2008
Notas sobre a barbárie
De tanto afirmá-lo e de tanto tratar os judeus como animais, os prisioneiros judeus na Segunda Guerra Mundial tornaram-se, de facto, animais. Seres cujo único intento na vida é a sobrevivência, à custa da vida dos outros, à custa dos próprios familiares no campo - pesos mortos para os mais novos e mais saudáveis. Elie Wiesel e Primo Levi não esqueceram essa dimensão da Humanidade, não esqueceram o que nos podem fazer, que nos podem transformar, de facto, em animais sem qualquer escrúpulo.
A longa noite de Elie Wiesel

«Nunca mais esquecerei esta noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada». Embora esta não seja a primeira frase do livro de Elie Wiesel, Noite, bem que podia sê-la. Wiesel, judeu romeno, foi apanhado na vaga de deportações, juntamente com a sua família e muitos dos seus compatriotas (na sua grande maioria os judeus, tal como ele). As autoridades romenas, lideradas por Antonescu e pelos fascistas, cedo se juntaram à missão dos nazis. E é assim que os romenos são daí enviados para Auschwitz-Birkenau, Buna e, finalmente, Buchenwald, numa viagem de terror por alguns dos mais terríveis campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Segundo diz, numa tenebrosa verdade, um outro prisioneiro de Auschwitz: «Tenho mais confiança em Hitler do que em qualquer outro. Foi o único que manteve as suas promessas, todas as suas promessas, ao povo judeu». Essas promessas eram promessas de morte.
O tema do livro é óbvio. A morte é, sem dúvida, o grande arrepio que atravessa o livro. Mas esta morte não é apenas uma morte física, um genocídio. A morte mais importante, mais grave, é aquela que se dá junto de cada um dos homens presos, uma morte da humanidade, da moral, da ética e de Deus. Como diz François Mauriac no prefácio a Noite: «a morte de Deus na alma daquela criança que descobre, de uma assentada, o mal absoluto». A figura mais representativa das interrogações judaicas é o Maceiro Moché, personagem que transmite estudos cabalísticos a Elie quando este entra na adolescência (nunca dela sai, aliás, já que tinha 16 anos quando foi libertado de Buchenwald). Moché explicava ao narrador «que cada pergunta possuía uma força que a resposta já não continha». Referia-se, claro, às perguntas que se dirigiam a Deus quando se deparavam com a crueldade nazi. «O homem interroga e Deus responde. Mas nós não compreendemos as Suas respostas. Não podemos compreendê-las. Porque elas vêm do fundo da alma e lá permanecem até à hora da morte. As verdadeiras respostas, Eliezer, só as encontrarás em ti mesmo», diz o velho. Moché, aliás, é simbolicamente o judeu «que escapou» e vem avisar os seus conterrâneos do que se passa nos campos. Ninguém quer acreditar nele. Ninguém lhe dá ouvidos, julgando-o louco. Mas Moché tinha razão.
Noite é um livro violento. Um romance que não é romance. Uma narrativa que não tem qualquer imagem bonita. Um enredo sem recompensa ou segredo. Só morte. Só brutalidade. Do princípio ao fim do livro. As cenas mais terríveis são, seguramente, as do crematório, e especialmente as de carrinhas cheias de pequenos cadáveres de crianças atiradas às chamas. Elie Wiesel diz sobre isto o que todos nós diríamos: «Nunca mais esquecerei aquele fumo. Nunca mais esquecerei as pequeninas caras das crianças cujos corpos eu tinha visto transformarem-se em espirais sob um azul mudo. Nunca mais esquecerei estas chamas que consumiram para sempre a minha fé». O mesmo quando é enforcada uma criança no campo, que, pela sua leveza, não morre de imediato e se debate na ponta da corda durante meia hora. Elie e os outros prisioneiros são obrigados a assistir, para desobedecer mais: «Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar: - Onde é que Deus está, então? E eu sentia dentro de mim uma voz que lhe respondia: - Onde é que ele está? Ei-lo - está aqui pendurado nesta forca... Naquela noite, a sopa sabia a cadáver...». Afinal, Deus pode morrer. Foi assim que morreu o Deus de Wiesel.
sexta-feira, abril 18, 2008
I knew it!
«I knew it!», diz a cunhada. Alguém já reparou que John Cheever, escritor americano que escreveu Falconer (traduzido, aliás, para português pela Sextante Editora), é, em Seinfeld, o escritor que relembra noites escaldantes numa cabana dedicando «escandalosas» cartas de amor ao pai da Susan, noiva do George Costanza?
quinta-feira, abril 17, 2008
Election

Há já uns meses, tinha apanhado o filme no canal Hollywood. Um liceu como cenário, Reese Whiterspoon a fazer de menina mimada, um actor (Chris Klein) saído do boçal American Pie (filme que, apesar de tudo, aprendi a respeitar), mais uma personagem martirizada de Matthew Broderick, enfim, tudo o que parecia ser um filme sobre liceus americanos. Passados alguns minutos de má vontade minha, mudei de canal para nunca mais voltar.
Voltei lá, no entanto, há poucas semanas. Sem querer, claro. Apanhei o início. O filme chamava-se Election (realizado em 1999). Só aos poucos fui percebendo que era o mesmo que tinha apanhado cerca de um mês antes. Outros olhos o viram. Até mesmo Broderick, actor com o qual não vou à bola, me pareceu ter profundidade. Comecei a gostar da personagem dele. Do filme também. Fiquei a saber também que o realizador é Alexander Payne, e então tudo começou a encaixar-se. Para quem viu About Schmidt e Sideways, a personagem de Broderick faz todo o sentido.
Jim McAllister, tal como Warren Schmidt (Jack Nicholson), Miles (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church), é um homem em queda. Jim tem uma vida pacata e controlada, e é o quebrar dessa normalidade que o leva a uma completa mudança. Tal como a viagem de Miles e Jack e a outra «viagem espiritual» de Schmidt, a «viagem» de Jim é, precisamente, querer «endireitar» as coisas à sua maneira. Pode mudar um pouquinho o seu dia-a-dia e fazer justiça, mas os pequenos actos acabam levando a consequências catastróficas, seja com os resultados das eleições da escola, seja com o seu casamento.
É este efeito de «bola de neve», de como os pequeninos delitos (misdemeanors) se podem transformar em pecados que nos perseguem uma vida inteira, que arrasta Jim McAllister ao longo do filme. Alexander Payne, tal como voltou a fazer nos filmes seguintes, trata este tema com a maior subtileza, com o cuidado de não deixar descambar para a tragédia de levar às lágrimas, mas sim para os filmes tragicómicos que, estranhamente, nos deixam sempre a reflectir acerca da vida. A questão em Election é: afinal, acabamos sempre por ser apanhados ou não? É ver o filme.
quarta-feira, abril 16, 2008
Os «santos privilégios» dos dirigentes republicanos

Convém (...) sublinhar que, apesar da fraseologia plebeia e igualitária dominante de todos os partidos ou grupos republicanos, só a Carbonária Portuguesa se pareceu com uma autêntica organização popular. No PRP e, a seguir, no Partido Democrático de Afonso Costa, os dirigentes e os militantes não provinham dos mesmos grupos sociais: e, se os dirigentes estavam dispostos a usar os militantes para os seus próprios fins, não estavam, evidentemente, dispostos a permitir que se pusessem em causa os seus santos privilégios.
Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo (A Revolução de 1910)
quarta-feira, abril 09, 2008
Lampedusa

O Leopardo é um romance representativo de uma época, mas não o considero marcante do ponto de vista literário. Muitas foram as vezes em que me perdia na leitura e me distraía do próprio enredo, desinteressante e aborrecido. Mas, independentemente desta sensação, há uma coerência que, podendo ou não ser deliberada, está lá: há uma ligação entre o ritmo do texto e o tenue pulsar de uma aristocracia moribunda que é retratada nesta obra como em nenhuma outra obra. Tal como diz Don Fabrizio no livro, que é «um representante da velha classe, inevitavelmente comprometido com o regime dos Bourbon, e a ele ligado pelos laços da decência, já para não falar dos laços de afecto. Pertenço a uma geração desafortunada que assiste ao final dos velhos tempos e ao início dos novos, e que tanto nuns como noutros se sente deslocada».
O livro (único, aliás) de Giuseppe Tomasi di Lampedusa é, sobretudo, uma obra que marca a resistência dos velhos tempos à mudança e à «modernidade». Não uma resistência enérgica e proselitista, mas uma fechamento da aristocracia sobre si mesma, passando a viver do poder sem representação, do património sem dinheiro, como metáfora da sua real utilidade e importância para o «choque garibaldino» que uma República liberal oferecia aos italianos. Tal como muitas vezes no livro, as personagens olham para os tectos, para as paredes dos seus palácios e palacetes e vêem representações da sociedade que os rodeia. O exemplo mais flagrante do «fim dos tempos» desta aristocracia vem mais para o fim do livro, num momento de viragem, num vaticínio, num mau agoiro: «No tecto, os deuses, reclinados em tronos dourados, olhavam para baixo sorridentes e inexoráveis como o céu de Verão. Julgavam-se eternos; em 1943 uma bomba fabricada em Pitzburg, Pensilvânia, iria provar-lhes o contrário».
A obra de Lampedusa é, sem dúvida, um livro aborrecido. Não nos identificamos necessariamente com estas personagens, com esta aristocracia defunta (já estavam mortos mas ainda não sabiam). Mas é um livro essencial na literatura italiana e europeia. É um romance sobre as fundações do mundo moderno e, mais importante que tudo, sobre o fim de uma outra Europa, de uma outra Itália. Uma faísca de mudança numa aristocracia monótona, como, aliás, também o foi a vida de Lampedusa, que Javier Marías considera um homem igualmente monótono e sozinho, vida na qual O Leopardo, segundo as palavras do escritor espanhol, «foi a única coisa extraordinária que aconteceu na sua vida, e na relaidade aconteceu na sua morte, dezaseis meses depois de ter deixado este mundo».
Numa nota adicional, refira-se o capítulo sobre Lampedusa em Vidas Escritas, de Marias. Se se é leitor compulsivo, não se pode deixar de simpatizar com este homem que, sem ocupação, saía de casa de manhã e lia, lia e lia durante todo o dia, seja num jardim, num café ou num degrau de casa. Saía com um malão sempre cheio de livros (vício com o qual, para minha infelicidade e esforço físico, irremediavelmente me identifico), por medo de ficar sem leitura longe de casa. O maior elogio aos «dotes de leitor» de Lampedusa vem de Marías: «Não só tinha lido todos os autores importantes ou imprescindíveis mas também os de segundo plano e os medíocres, que, sobretudo no que respeita ao romance, considerava tão necessários como os grandes: "Também é preciso sabermos aborrecer-nos", dizia, e lia, com interesse e paciência, a má literatura».
Definhar
Não sei falar sobre isso mas parece que estamos mais ou menos programados para parar. Quer dizer, para morrer. O corpo e o juízo querem paz e não há mais nada que consiga maravilhar. Dores espalhadas pelo corpo, doença crónica, limitações na alimentação, no movimento, ouve-se mal, vê-se pior, socializar torna-se desinteressante. Acho que chega a altura do cansaço e parar assoma com naturalidade. Ontem uma velha dizia para a vizinha, enquanto cavava à beira da estrada na Aldeia do Futuro, concelho de Grândola, «parar é morrer». Ainda não ligamos a esses ditos de velhos. Eu próprio noto as pequenas alterações que o meu corpo sofre. Depois de um dia de trabalho (longo) o meu corpo cheira pior do que há cinco anos. Mesmo com a farsa necessária dos cosméticos o meu corpo começa paulatinamente a apodrecer.
Samuel Filipe, no Esse Cavalheiro
Samuel Filipe, no Esse Cavalheiro
sábado, abril 05, 2008
Vulcano
Tranquilizado, penteou-se, mandou que o calçassem e lhe vestissem a sobrecasaca. Meteu o jornal numa gaveta. Eram quase horas do Rosário, mas o salão ainda estava vazio. Sentou-se num sofá e enquanto esperava, reparou que o Vulcano do tecto se parecia um pouco com as litografias de Garibaldi que vira em Turim. Sorriu. «Um cornudo».
Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo
Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo
quarta-feira, abril 02, 2008
terça-feira, abril 01, 2008
Fidel Neeson
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