terça-feira, junho 17, 2008

O país emancipado

A minha humilde contribuição no Sempre a Produzir:

Deve ser um dos maiores lugares-comuns de sempre dizer que o futebol é o entretenimento dos burros, dos analfabetos, e que, como se costuma dizer, «não dá para perceber o interesse de ver vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola durante uma hora e meia».

Pois eu, como humilde célula constituinte desta nação de burros e analfabetos, considero-me um devoto do futebol, esse «desporto sem interesse». Gosto de golos, fintas, craques, mascotes, tácticas perfeitas, jogadores conflituosos, santos, pecadores, guarda-redes elásticos e anões que, ao correr, fazem lembrar o Pepe Rápido.

Gosto de tudo isto e até do público português que enche as bancadas. Mas não gosto, desde o malogrado ano de 2004, dos adeptos portugueses.

Não gosto, dizia eu, de adeptos portugueses de futebol desde 2004, desde que Scolari «criou», a partir da sua cadeira do poder, uma nova raça de gente desmiolada que é capaz de atropelar cães e gatos para chegar depressa ao Parque das Nações, onde poderá ter uma oportunidade única na vida de – tal qual o eclipse do Sol, o cometa Haley, um beijinho do Papa ou um bom filme português – ver o jogo da selecção, em directo, juntamente com centenas de pessoas a cheirar a suor estival, a cerveja e a solas de sandália com mijo pisado, ao som de uma banda sonora que, de forma tão portuguesa, passa samba e música de discoteca às cinco da tarde de um dia solarengo.

Adeptos que não concebem outra coisa que não a vitória e que, ainda há poucos anos, apenas conheciam o Figo de vê-lo na Caras, abraçado ao Paulo China num obscuro bar do Algarve, ou, vá lá, o Secretário, por este ter andado a espancar prostitutas e a saltar janelas nos estágios da equipa nacional.

Ah, velhos tempos. Ainda me lembro de 1998, quando eu saía da escola, sem pêlos na cara ou quase em lado nenhum, a correr para ir ver o Croácia-Alemanha ou o Espanha-Nigéria e alguém me perguntava onde é que ficava a Croácia e a Nigéria, logo rindo de seguida (como se o PIB de um país fosse directamente proporcional à qualidade futebolística dos seus jogadores).

Lembro-me de gostar de futebol de selecções quando todos só se interessavam pelos jogos entre os «três grandes» portugueses. Tenho saudades de Mundiais desses, como o de 1998, em que só interessava o futebol, não o fervor nacional de cada um medido à régua (até porque Portugal nem foi apurado), e assim era, graças a Deus, cada um por si.

Ando, por isso, um pouco enjoado da loucura em redor da Selecção Nacional, com direito a novos censores do patriotismo de cada um de nós.

Petróleo a subir até aos píncaros? Crise.
Greves de professores? Sinal do estado das coisas.
Estradas bloqueadas, camiões parados, maternidades encerradas? Este país vai de mal a pior.

Mas quando entra a selecção em campo, para o melhor ou para o pior, o português esquece tudo, chama a Cristiano Ronaldo «o orgulho de todos nós», a Scolari «o representante máximo da nação» (juro que ouvi um jornalista português dizer isto) e obriga o vizinho a pintar a cara de verde e vermelho, sob risco de ser excomungado para sempre do bairro caso não o faça.

Este é daqueles Europeus que tenho visto com atenção, com entusiasmo e até com uma vontade secreta de ver Portugal chegar longe.

Mas ver jogos nos parques integrado na «comunidade», para isso deixem-me de fora. Deixo aos outros essa difícil tarefa de, pela simples vontade, levar um país falhado a emancipar-se por 90 minutos.

domingo, junho 15, 2008

Coisas que não sabia

In the first primaries where Reagan did exceptionally well, he condemned both Ford and Kissinger for their mistaken policy of détente and represented their subservience to the Soviet Union as threatening to make the United States a "second-rate power." Though Reagan failed to take the nomination away from the president, and never considered running as an Independent, repeating the political mistake Roosevelt had made in 1912, he helped give the presdency to Jimmy Carter, the former governor of Georgia. It is impossible to knowwhether Carter's slim majority of a million and a half would have been secured in the absence of the immensely wounding primary battles waged by Reagan against Ford.

Stephen Graubard, The Presidents

Produção

Em resposta ao simpatiquíssimo convite do João Gonçalves, do Sempre a Produzir, escrevi um ressabiado e, nos tempos que correm (no próprio dia de hoje), profano artigo. Está integrado no «ciclo» Outros Bloggers no Sempre a Produzir, para onde já JCS, do Lobi do Chá, escreveu. A minha tese d'O país emancipado está aqui.

Saramago

Gostei da entrevista que José Saramago deu ontem ao Diga Lá, Excelência. E, embora desfasadas da realidade, até mesmo as considerações políticas que Saramago fez têm «direito» a existir. Não precisamos todos de apanhar a mesma frequência. À medida que o tempo passa, vou aprendendo isso. Uns vivem com a cabeça na Lua, outros em Marte, não faz mal: é o planeta deles.

sábado, junho 14, 2008

Homem modelo

Volta pra cama que vou fazer o café.
Servi café com leite, torrada, biscoitos, queijo, mel, iogurte, mamão e tangerina. Desjejum de hotel da serra.
Se eu fosse a titular você ia fazer isso tudo para mim, sempre?
Não sei lavar nem passar roupa.
Basta me foder sempre desse jeito.


Rubem Fonseca, Secreções, Excreções e Desatinos

É proibido proibir a confusão

Gosto do protesto dos camionistas porque há uma parte de mim que gosta de confusão, de anarquia, de encostar o poder às cordas. Pena é a perda da ordem pública e a noção de que as mudanças políticas se fazem à força, nas ruas. Pode valer a pena para abanar Sócrates e os deputados - que muito se entretêm a receber a máfia portuguesa com pompa e circunstância na Assembleia -, mas não deixa de ser perigoso aplaudirmos este tipo de acontecimentos.

sexta-feira, junho 13, 2008

O Método

Homem que escreva ficção mais decadente sem tomar banho não é porco, é um utilizador do Método.

Dividir a unidade em dois

EDDIE: Bem, sabes... o nosso pai apaixonou-se duas vezes. Foi principalmente por causa disso. Uma vez pela minha mãe e outra vez pela mãe dela.

VELHO: Era o mesmo amor. Mas dividiu-se em dois, foi simplesmente isso.


Sam Shepard, Loucos por Amor

Da escrita



A escrita. Uma das profissões mais difíceis do mundo quando levada a sério. Pode, é claro, ser uma das mais desejadas por muitas pessoas. Qualquer homem ou mulher, de criança a velho, que já escreveu com algum afinco, chegou a acomodar a ideia de um dia ser escritor, de ser um autor que alimenta os seus livros com letras mas que é alimentado pelos próprios livros. Pelos lucros, portanto.

Mas não são só as ideias e as letras que alimentam a escrita. É a própria vida do autor que alimenta o livro. A escrita pode sugar toda a vida de quem escreve. Os livros pouco dão ao autor. É uma relação disfuncional, uma relação unilateral em que um dos amantes se dá - e dá mesmo tudo - ao outro e acaba levando tabefe todos os dias, ao fim da noite, quando pensa que dá por encerrada a sua missão diária. Amou e derramou sabedoria, suor, lágrimas e sangue. Falou com, declamou para, gritou a. Mas não teve resposta. O manuscrito não fala de volta. Nem os livros já publicados, nas estantes, nas livrarias, na feira do livro em destaque, numa conferência literária em estudo, numa puta de feira de estação de Metro a um euro, dizem seja o que for ao escritor. O livro, a história, é um produto de uma mente com problemas a resolver, que decide resolvê-los, por experimentação, assim, escrevendo. Escreve-se porque não se tem mais onde pôr estas ideias, estas coisas que nos atormentam. Escreve-se porque se ouve e não se quer esquecer. Porque se pensa e se quer guardar um pensamento para sempre.

Porque a escrita não é mais do que isso. É o sinal da dupla incapacidade humana de conseguir guardar todos os pensamentos rápidos que se tem e de conseguir levar todos os segredos e ideias para a cova. Quando se morre é para sempre, e é por isso que, até lá, se põe tudo o que vale a pena - que passou pela nossa cabeça - em papel, numa escrita que não nos envergonhe nem à nossa língua. Caso se escreve apenas porque é bonito e porque fica bem juntar palavras sem sentido, então não se passa de um artista plástico esteticamente obcecado. É por tudo isto e mais que quem escreve se dispõe a esta relação de amor não correspondido com a folha em branco, uma relação que, muitas vezes, mata como qualquer outra em que «amante deixa amante». É por isso que escrevo. É por isso que todos escrevem e deviam escrever. Mas é por isto, sobretudo, que admiro os escritores profissionais.

Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a Faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturante pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até no meu silêncio e compreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham, não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em Outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado.

António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

quinta-feira, junho 12, 2008

quarta-feira, junho 11, 2008

O estado das coisas

Continuo a correr atrás do mundo, que parece andar sempre mais rápido do que eu. Mas apanhá-lo-ei um dia destes.

António Lobo Antunes



Homenagem ao escritor português cuja escrita mais representa Portugal.

quinta-feira, junho 05, 2008

Notas rápidas acerca da Feira do Livro



1- voltei a estoirar balúrdios em livros que lá estão todos os anos;

2- o espectáculo que o grupo LeYa fez por causa das suas barraquinhas não corresponde ao recinto vulgaríssimo que têm no Parque Eduardo VII, cheio de agentes dos serviços secretos a guardar as entradas;

3- andar na Feira do Livro de Lisboa continua a ser cansativo.

Taxitramas



Descobri, recentemente, uma versão bem mais simpática de Taxi Driver, das histórias nocturnas dos confins das grandes cidades. Esta versão, sem desejos de matar o Presidente (digo eu), é Taxitramas. Mauro Castro, o autor do blog, é um taxista de Porto Alegre que põe no papel as mil e umas histórias que passa por si, ou pelo banco traseiro do seu táxi, no dia-a-dia. O resultado é um dos melhores e mais originais blogs que tenho encontrado na blogosfera.

quarta-feira, junho 04, 2008

Ferreira Leite e o regresso da confiança

Muito se tem discutido os dotes políticos e financeiros (dotes, no entanto, indiscutíveis por princípio) de Manuela Ferreira Leite, as rugas e a cara da senhora e o passado da mesma, nomeadamente na Educação e nas Finanças. Mas o mais importante com a escolha de Ferreira Leite para liderar o PSD nas próximas eleições - e nas que se seguirão, espero - não tem sequer a ver com os dotes pessoais da senhora. Tem, sobretudo, e isto é o mais importante desta viragem política, a ver com a confiança que trouxe ao partido, a credibilidade de um projecto que não vem preconcebido para a Rua de São Caetano, mas sim sujeito à apreciação e a desvios que dependerão do contexto socio-económico e não da vontade popular. É esta credibilidade que, por fim, permitirá regressar ao partido figuras que não dependem de funções no governo para ter reformas gordas, que não querem a oportunidade política para manter a posição no governo para depois da próxima eleição, mas que querem, isso sim, aplicar a experiência e a leitura que fazem dos tempos que correm.

Seja dito que eu não tenho ilusões com este PSD que agora se tenta reconstruir, mas tenho, no mínimo, confiança num projecto que se vai desenhando. E se isso me anima a mim, imagine-se a vontade de «voltar» que crescerá em muito boa gente - que nos faz falta há alguns anos na política.

terça-feira, junho 03, 2008

Feira do Livro

Francisco José Viegas agitou-me a consciência por causa deste texto magnífico, uma declaração de amor incondicional. Lá terei eu de ir hoje à Feira do Livro, porra. Transcrevo o texto para aqui, à descarada:

Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira.

Gosto deste tipo de prosa, perfeita, que me faz querer ir aos sítios.

segunda-feira, junho 02, 2008

Sem fuga

Está em todo o lado. Não há como fugir. O que ainda não consegui perceber é se sou eu que não consigo tirar os olhos das mamas da Nereida Gallardo, se são as mamas da senhora que pululam por todos os jornais, sites, revistas e esquinas conhecidas.

Mugir e pastar

Acerca de um texto em Word, pediram-me para fazer copy e depois «pastar». Até senti os cornos a brotarem-me das têmporas.

Promessa

Fica desde já prometido que, um dia destes, faço um post como deve ser.

True story

Disse a alguém que agora gostava de Agualusa. Esse alguém perguntou-me, surpreendido, se só agora é que tinha descoberto a água do Luso. Eu disse que sim, só agora.

Agualusa

Comprei hoje a revista LER de Junho, pela primeira vez após anos de separação. Um dos primeiros que me calhou ler foi José Eduardo Agualusa, numa rubrica chamada O Lugar do Morto. Torcia o nariz aos livros de Agualusa, é certo, sobretudo após a leitura de algumas coisas de Mia Couto, que, tirando a simpatia pela linguagem popular das suas personagens, pouca ou nenhuma paixão me despertou. Não sei porquê, associava um escritor a outro. Mas, depois de ler esta rubrica, tive esta outra ideia: Agualusa é bom.

Dois excertos da crónica do homem:

Obama declama e Hillary ri. Não tem de que rir, a hilária (...).

Agrada-me em Obama algo que me aborrece em Hillary - a virilidade. São dois machos alfa em competição, o que estaria muito bem não se desse o caso de um deles ter como marido um outro macho alfa. Por outro lado, tenho de confessar que quase m comove em Hillary a sombra simpática de Bill, o saxofonista. Não há como olhar para ela sem que nos venha à memória o burlesco episódio da sala oral.

Pais e filhas



Para animar a política, e com algum trabalho, até se punha Meghan, a roliça filha de John McCain, na Casa Branca a ajudar o pai. Eu, por exemplo, nem me importava muito.

Vertigo



Agora que menos tempo tenho passado em Setúbal, noto a ausência de alguns locais importantes para a minha sanidade. Um deles é o forte de São Filipe. Do alto das muralhas, olhando lá para a baixo, um homem sente simultaneamente uma terrível e vertiginosa vontade de se atirar no vazio e um medo enorme de ser empurrado. A morte e a omnipotência misturam-se de forma perigosa naquela altura mais do que épica. E, depois, é um óptimo sítio para desaparecer da civilização de vez em quando, em alternativa à casa ser trancada a sete chaves.

domingo, junho 01, 2008

Directos, especiais e afins

Eu, que adoro futebol, chego quase a perder toda a vontade de ver jogos da selecção nacional assim que as estações televisivas começam com a festarola da grossa em redor dos estágios e da «festa do futebol». Toy e companhia começam a encher os fins-de-semana, nos quais eu esperava ver um pouco de futebol aqui e ali, e logo se estraga um dia de descanso. Saber que o Quaresma hoje estava de intestinos presos ou que o Miguel Veloso disse, quando acordou, que «estava feliz», enquanto a tragédia nacional (com notícias sobre a especulação petrolífera) passa em rodapé, é o retrato de uma miséria de país. Parece cliché dizer isto, mas já não há mesmo paciência para os «especiais» e os «directos» com a selecção e a partir do local do estágio dos «incríveis» em Viseu, na Áustria ou no cu de Judas.

Work in progress

Ainda com Aron

O sistema francês «desnacionaliza», como que apaga a tradição original dos imigrantes; o sistema americano, esse, sobrepõe ao fundo cultural dos imigrantes os valores e os modos de conduta tipicamente americanos. O sistema francês sofre, em contrapartida, duma grande fraqueza, pois cria intelectuais em vez de cidadãos.

Raymond Aron, A Revolução Inexistente

sexta-feira, maio 30, 2008

Ciclos

Anda a aumentar, e muito, esse imenso medo que a nossa sociedade «industrial» tem da morte, da doença, do fim. Aperta-se o cerco aos fumadores, aos gordos, ao colestrol, estimula-se o culto do exercício físico, do dentista, do activismo ambiental. Será que ainda não perceberam que não vale a pena, que a Terra continua sem nós? Se até os dinossauros, predadores insuperáveis e vegetarianos gigantes, foram congelaods vivos ou engolidos por uma bola de fogo, porque é que nós, fracas figuras, haveríamos de resistir aos ciclos da Terra?

O cativeiro



Alexander Soljenitsin, em Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, relata um episódio em que os prisioneiros de um gulag só tinham direito a escrever duas cartas por ano. Duas cartas, apenas e só.
Para alguém que tivesse família cá fora, haverá maior tortura? É a «obrigação» de esquecer os outros, de esquecer o mundo conhecido, aquilo que os burocratas e os guardas soviéticos queriam inculcar. O sofrimento é humano, mas não haverá nada mais cruel, e que traga mais sofrimento, do que conseguir acabar com a própria humanidade de um homem, fazer dele um animal e tirar-lhe tudo aquilo pelo qual ele poderia sofrer.

sexta-feira, maio 23, 2008

Cradle Will Rock



Mais um exercício da opinião «liberal» (de esquerda americana) de Tim Robbins, Cradle Will Rock (ou América Anos 30 na tradução portuguesa) vem defender a tese do necessário «empenhamento político-social» da arte, sublinhando a responsabilidade/obrigação crucial desta em atacar o poder, por contraponto aos superficiais magnatas «gordos» e «egoístas» (como um certo castor de uma fábula referida a meio do filme) que desrespeitam a arte «consciente» de figuras revolucionárias como Diego Rivera (uma aparição simpática de Ruben Blades). Este filme de Tim Robbins vale, quase só, pelas interpretações de John Turturro e Bill Murray, e pela inegável qualidade técnica da filmagem.

terça-feira, maio 20, 2008

Se numa tarde de Primavera um taxista

Ao contrário do que pensava há uns míseros dois meses atrás, agora já me interrogo acerca da «alternativa» Democrata (e provável vencedor das eleições de Novembro) para a Presidência dos EUA. Achava que Obama era uma boa lufada de ar fresco para a esquerda americana, não tanto pela sua carga ideológica (perigosamente romântica), mas pela carga simbólica de uma América onde é possível chegar longe independentemente das raízes que se tem - mote, aliás, da própria campanha do «yes, we can» de Barack Obama. Há dias, quando um taxista me disse, em plena viagem, que «andamos todos a querer pedir desculpa aos pretos pondo um deles no lugar do Bush», penso que a razão pela qual Obama tem tanto apoio e reúne tanta simpatia (minha, inclusive) é mais próxima da ideia do taxista do que da ideia tão badalada e tão incipiente de mudança - daquela Mudança com M maiúsculo que se tem prometido. Obama pode não ser tão boa pessoa como nós pensamos, mas eu gosto dele. Obama pode não ser tão inteligente quanto Hillary, mas eu prefiro aquele. No entanto, Obama pode ser muito mais refrescante que McCain, mas continuo a querer um Republicano na Casa Branca.

3 anos sem dormir bem

O Insónia foi um dos dois primeiros blogues sobre literatura (a par do Da Literatura) que começei a ler diariamente na blogosfera. A admirável imprevisibilidade da vítima das pragas certeiras que o Henrique Fialho fluentemente roga (um dos melhores portugueses na arte da chapada de luva branca), o humor refinado da escrita da Maria João Lopes Fernandes (que bate Oscar Wilde aos pontos), a cultura literária e poética do Rui Costa e a melancólica poesia do Jorge Aguiar de Oliveira dão ao Insónia um espaço sempre especial na coluna de blogues aqui ao lado. Parabéns pelos três anos.

60 anos de identidade política

Normalmente, não me sinto muito bem da cabeça, nem do coração, quando acabo de ler algo da jornalista Fernanda Câncio. Nem sequer é doença crónica, penso que é apenas opinião ultra-divergente. Mas nem sempre isso acontece, fiquei hoje a perceber. Até parece blasfémia eu aplaudir esta senhora, mas este artigo/post sobre os 60 anos de Israel, de facto, merece a leitura. Ainda que tenha mais de uma semana de atraso.

segunda-feira, maio 19, 2008

Castigo no trabalho

Pensar que podia estar a ler os romances que tenho em casa.

Antídoto para o trabalho

Pensar nos romances que estão em casa por ler.

«Plano quinquenal» da ASAE

A ler o seguinte artigo de José Pacheco Pereira no Abrupto, que transcrevo aqui:

O Plano Quinquenal soviético era um monumento à planificação socialista. Definia quantas cadeiras deveria produzir uma carpintaria em Moscovo, quantas toneladas de carvão deveria extrair uma mina nos Urais, quantas lâmpadas deveria fazer uma fábrica na Estónia, quantas toneladas de trigo deveria produzir a Ucrânia e quantas toneladas de algodão no Cazaquistão. Os objectivos eram emoldurados em cartazes e traduzidos em estatísticas que adornavam a entrada dos Kolkozes e dos “combinados siderúrgicos”. Uma multidão de stakanovistas, trabalhadores de choque, à força de reuniões de partido e da “emulação socialista”, lá aparecia no quadro de honra dos “heróis do trabalho” por ter ultrapassado a sua quota.

Este era o mundo que Staline fez e era uma grande mentira: a relação dos grandiosos planos quinquenais com a realidade era escassa, as estatísticas eram falseadas e os operários e os kolkozianos trabalhavam à força da inspiração do NKVD e depois do KGB e da sombra siberiana do Gulag. O mundo de fantasia dos Planos Quinquenais escondia a brutalidade da vida soviética, a completa ineficácia da planificação e a Grande Mentira do socialismo real.

Mas o Plano Quinquenal soviético seduz os burocratas de todo o mundo. Em particular, seduz os burocratas autoritários que em Estados fracos gostam de pavonear a sua força com o beneplácito do governo. A ASAE é uma instituição fundamental para a nossa segurança, qualidade de vida e boas práticas nos negócios, no fisco, na competição. Mas, como é costume em Portugal, não se sabe passar do laxismo para uma actuação equilibrada, passa-se sempre do laxismo para a prepotência e a violação dos direitos dos cidadãos. O resultado, a prazo, é que se acaba por voltar de novo ao laxismo. Está a ser assim no fisco, é assim na ASAE.

O documento que apresenta como objectivos anuais para a ASAE 410 detenções, 1640 processos-crime, 12 contra-ordenações é um exemplo da distorção da instituição. Se os objectivos fossem inspeccionar 500 feiras e 20000 restaurantes, muito bem. Mas como é que se faz em Dezembro, quando só se prenderam 310 pessoas da quota de 410? Vai-se à pressa prender cem para cumprir o Plano Quinquenal? Este absurdo desvirtua o estado de direito e a lei, torna uma polícia especial como é a ASAE em perseguidora dos cidadãos e das empresas e não em defensora da legalidade.

Não admira, por isso, que o seu principal responsável tenha faltado à verdade sobre a existência e alcance deste documento que agora o Expresso publicou. Não admira que o governo Sócrates, que sempre lhe deu cobertura, esteja agora embaraçado. É que o Inspector-geral da ASAE deixou de ter condições para continuar no cargo e cada dia que passe no seu lugar a ASAE perde autoridade para o exercício das suas funções.

O estado das coisas



Eu à procura do sono e o sono à minha procura.

A minha leitura saudosista do Maio de 68



Que modelo satisfaria as aspirações dos revolucionários se o modelo soviético é superburocrático? Os verdadeiros revolucionários do período de Maio invocavam a democracia directa, num certo sentido mais anti-soviéticos do que antipaitalistas. Todavida, dizem-se inspirados no marxismo, o que é um paradoxo, pois não se vê bem como uma sociedade planificada poderia ser menos burocrática que uma sociedade de capitalismo semiliberal.

Raymond Aron, A Revolução Inexistente

domingo, maio 18, 2008

Dez



Saíu há já alguns dias o número dez da revista Minguante. Não a vai encontrar nas bancas, mas, melhor ainda, pode encontrá-la aqui mesmo, online. Entre vários textos da melhor qualidade possível e da maior experiência verificável, pode ler lá a minha humilde mas empenhada contribuição.

Hitchcock



Durante a maior parte da minha vida, ignorei Hitchcock, apesar do longínquo respeito. Só Os Pássaros passaram pelo meu vídeo, e mesmo esses passaram demasiado depressa, e por olhos demasiado desatentos, para deixarem marca profunda - da maneira que Scorsese e Coppola haviam deixado. Portanto, o homem pairava apenas num momento de fundo do cinema. Para mim, claro.
Finda a dolescência, fui aos poucos descobrindo a obra-prima de Alfred Hitchcock. The Man Who Knew Too Much (o de 1931 com Peter Lorre) deu-me outra ideia da capacidade técnica do realizador inglês, e North by Northwest tornou-se um clássico entre os clássicos na minha memória. Mais recentemente, no entanto, mais filmes caíram, e Psycho e Vertigo foram os eleitos. Devo dizer que Psycho, sobretudo, é um dos melhores filmes de suspense que alguma vez vi. Aliás, géneros à parte, é um grande filme, que merece a fama (aliás, infundada no sentido em que toda a gente conhece e gosta mas quase ninguém viu) que parece ter. Pela experiência que tenho tido, e embora Vertigo seja o que mais inconsistências tem a nível de argumento (não obstante o facto de ser excelente), acho deve ser impossível vir a ter uma má experiência com Hitchcock.

terça-feira, maio 06, 2008

As crises

Porque é que os socialistas dizem que, no seio do partido, há «um debate saudável e essencial para a democracia» quando José Sócrates pisa e humilha os opositores internos no PS, e dizem que há uma «grave crise no PSD e na direita» sempre que há mais que um candidato à liderança do PSD?

Lutas do derrière

Judite de Sousa, há umas semanas, perguntou a Rui Rio algo acerca do espaço de oposição ao PS à direita, tendo em conta que as «lutas intestinas» (e cito a própria Judite) no partido minam a força e credibilidade desta oposição ao governo. Francamente, quando falam de «lutas intestinas», soa-me sempre que alguém comeu algo estragado ao jantar. Não podiam utilizar outros termos e menor gravidade?

Zenith



Ver o Zenith de São Petersburgo jogar futebol é uma lição moderna de futebol «clássico». De um futebol que, hoje em dia, já não existe sem aqueles jogadores de Ferrari e namoradas supermodelos. Talvez esta seja a ideia de um apreciador ingénuo e antiquado do desporto: o jogador pobre e esforçado, entregue de corpo e alma ao futebol, não visto como uma profissão, mas como a prova última de pertença a uma comunidade.

«Futebol total» é um conceito que, muitas vezes, nos últimos tempos, tem sido utilizado gratuitamente para designar qualquer exibição, acima do sofrível, de qualquer equipa portuguesa. Mas há muito que não via este conceito aplicável. Para mim, voltou com o Zenith de São Petersburgo, uma equipa a lembrar não apenas o «futebol total» holandês, com um jogo ao primeiro toque com movimentações rapidíssimas e com uma versatilidade extraordinária da equipa, mas também a máquina soviética de futebol, em que cada jogador jogava tanto a defesa central como a «ponta esquerda» ou a avançado - também os jogadores do Zenith passam, correm, rematam, defendem, pressionam, cabeçeiam com igual qualidade entre si. Estivesse o Zenith na Liga dos Campeões e vê-los-íamos certamente nas meias-finais. Por agora, bastar-lhes-á a Taça UEFA, que bem merecem.

terça-feira, abril 29, 2008

A guerra na era Vitoriana

One of the pleasures of late-Victorian campaigning was that steamships and railways made it possible to attend even the empire's remoter battlefields, then return to one's London chambers for a haircut and a visit to one's tailor before the next bout.

Max Hastings, Warriors

segunda-feira, abril 28, 2008

O estado das coisas



Provei que estou cerebralmente vivo.

Bamboozled



De Spike Lee, Bamboozled é um filme interessante. O conceito do filme e o do «filme dentro do filme» são criativos, mas este é, como muitos outros, um exercício sobre as tensões raciais nos EUA. Para Spike Lee, os negros estão sempre sob fogo cruzado da polícia, da elite branca (dos «WASP»), da televisão, do poder e da classe média. Não será, provavelmente, mentira, mas o tom de Spike Lee acerca disto soa-me sempre que é exacerbado. Não é o Do the Right Thing (1989), mas vale a pena ver, nem que seja pelo balanço final do filme, que resulta num exercício de reflexão útil e numa quase fábula moral da «comunidade negra», numa sátira que não deixa de visar os próprios negros americanos e a imagem que muitos destes produzem e reproduzem de si mesmos.

quinta-feira, abril 24, 2008

Camus



Qual o homem que nunca quis ser como Camus? É a «estrela de futebol» do universo dos escritores (curiosamente, é-o mesmo, tendo jogado futebol amador em Argel, na posição de guarda-redes... e bom, segundo parece), motivo de uma inveja respeitosa por parte de todos os potenciais escritores. Qual o homem que, ao pegar na caneta, nunca quis ser como Camus? Cigarro ao canto da boca, gola levantada, charme magneticamente chamador de mulheres bonitas, existencialista moderado e racional. Os seus romances misturam-se com as temáticas de Dostoiévski, o absurdo cómico-trágico da suas personagens confundem-nos e passam para a nossa visão das coisas. Mersault não sofre menos incompreensão que Joseph K., é certo. Camus, ainda por cima, era um homem de causas. Legítimas, ao que parece. Anti-guerra, mas com reflexão, sem fome de fama. Quem nunca quis ser como Camus? Sartre, pelo que se sabe, queria ser como ele, e mordia-se por dentro por essa razão. Sinceramente, se eu fosse Jean-Paul Sartre, preferiria ser como Camus, verdade seja dita. Equilibrar a caneta numa mão e o cigarro noutra, eis uma verdade que o homem legou a gerações de escritores empenhados.

Fuga ao anonimato

Alguns dos meus bons criminosos tinham, de resto, ao matar, obedecido ao mesmo sentimento. A leitura dos jornais, na lastimosa situação em que se encontravam, trazia-lhes, sem dúvida, uma espécie de triste compensação. como muitos outros homens, eles já não podiam com o anonimato, e esta impaciência tinha podido, em parte, levá-los a difíceis extremos. Para alguém se tornar conhecido, basta, em suma, matar a porteira. Trata-se, infelizmente, de uma reputação efémera, tantas são as porteiras que merecem e recebem as facadas.

Albert Camus, A Queda

Warriors

Em Warriors, Max Hastings traz-nos um retrato de homens e mulheres em guerra. Tanto podem ser militares de carreira, como pessoas «arrastadas» para o conflito pela força das circunstâncias. O objectivo é narrar, como o próprio subtítulo indica, Extraordinary Tales from the Battlefield. No entanto, não se julgue que todas são personagens apaixonantes. Algumas serão falhadas, irracionais, azaradas ou politicamente subservientes. Mas todas trazem algo comum: coragem debaixo de fogo. E isto Hastings sublinha: «No warrior should be promoted to higher command merely because he is brave. A skilled and eager fighter is best rewarded by decorations rather than promotion. He should be retained in a role in which he can make himself useful in personal combat, rather than advanced beyond the merits of the rater limited gift - even for a soldier - of being good at killing people». Ou seja, um «guerreiro de coragem» não resulta, necessariamente, num bom comandante - pelo contrário, normalmente resulta num líder irracional, insensível a esse medo tão normal e compreensível: o medo de morrer.

O primeiro desses retratos é o do Barão Marcellin de Marbot, jovem comandante napoleónico que participou em campanhas desde Portugal à Rússia. Combatente valoroso, fazia-se aos adversários com a ferocidade típica de um militar de carreira inspirado por grandes campanhas. A quase misoginia era um atributo comum: «men such as Marbot became so absorbed in the business of war that they perceived women merely as a source of amusement during leaves, and as childbearers when duty granted an officer leisure to think of such marginal matters as procreation». Marbot atirou-se ao rio, inclusivamente, para salvar inimigos russos, que agitavam a bandeira branca da rendição. E isto diz muito do homem, apesar de militar nas fileiras imperiais. A ética militar não foi suplantada pela vertigem conquistadora de Bonaparte. E, de facto, em muitas alturas Marbot parece não ter sido totalmente cegado por esta, já que diversas vezes discordou do imperador e duvidou dos grandes generais napoleónicos. No entanto, quando a batalha contra ingleses, austríacos e russos chamou, lá foi o Barão.

Menos misógina é a história de Harry Smith e Juana. O brigadeiro das 95th Rifles esteve também em diversos palcos desde América do Sul aos conflitos napoleónicos, inclusivamente no sangrento cerco de Badajoz (1812) e em Waterloo. Combatera, curiosamente, contra Marbot, se bem que seja impossível saber se alguma vez se encontraram fisicamente, frente a frente, no campo de batalha. Mas numa coisa vencera Marbot: acima da vitória militar, estava a sua dedicação a Juana, jovem espanhola que perdera a família em Badajoz com a sua irmã mais velha e que agora procurava clemência. Os oficiais ingleses, ao contrário da sua infantaria - selvagem e destruidora como quase sempre as infantarias em guerra são -, foram sensíveis a isto e acederam ao pedido. Harry Smith foi mais longe, apaixonou-se por Juana, que tinha então 14 anos. A beleza da rapariga foi sublinhada por um camarada de armas de Smith, Johnny Kincaid, se bem que esta não seja comprovada senão por alguns relatos e um retrato incluído na autobiografia de Smith. Um ponto a favor de Hastings: a reflexão acerca do «amor» de Juana por Harry Smith. Até que ponto não seria uma relação maternal retribuída com aquela dedicação? Juana passou uma vida inteira dedicada ao brigadeiro das 95th, mas na sua origem esteve uma paixão dedicada a um oficial que a poderia salvar da ruína completa e mesmo da morte. Assim que se juntou a Smith, foi inclusivamente excomungada da sua cultura católica espanhola, que nunca aceitaria de volta uma mulher que tivesse casado com um herético anglicano. O medo de Juana de perder Harry era, muitas vezes, igualmente, o medo de perder a sua própria vida. Dizer que Juana vivia para Harry Smith era dizer isso mesmo: a «vida dela» era ele.

terça-feira, abril 22, 2008

Vitória



No Bonfim, o Vitória nunca se vai abaixo. Um jogo não tira a imagem de outras 26 exibições no campeonato.

Lucky Number Slevin



Excelente filme, este realizado em 2006 por Paul McGuigan, com argumento de Jason Smilovic. Corre o risco de ser um filme algo «caricato», tal como Snatch (que é o parente mais próximo, na minha opinião) mas com mais elegância, se bem que este aspecto algo cómico, por vezes, mais não é que uma maneira de atenuar alguma violência. E a violência é a chave do filme, não como violência gratuita (nada do gore que os discípulos de Tarantino por vezes deixam entrar nos filmes) mas sim como a forma que reveste os twists do enredo. Lucky Number Slevin é uma excelente história, bonita mas pessimista, esperançosa mas carregada de destino, de hubris. Uma das frases essenciais é o desejo, de The Boss (Morgan Freeman), de reviver uma lex talionis, uma lei da retribuição - retribuição essa que, no entanto, não vai no sentido que The Boss quer.

Slevin Kelevra (Josh Hartnett, em mais uma excelente interpretação de uma das minhas apostas para o futuro de Hollywood), Mr. Goodkat (Bruce Willis), The Rabbi (Ben Kingsley), Lindsey (a bela Lucy Liu) e o detective Brikowski (Stanley Tucci) são as personagens mais visíveis de um longo elenco de um grande filme que merece ser visto mais que uma vez. Cheguei a ver as cenas cortadas, apenas para apanhar algumas «franjas» subestimadas do filme. Surpreendentemente bom. Para não estragar o enredo, deixo o repto simples: vejam Lucky Number Slevin. Não se arrependem.

sábado, abril 19, 2008

Notas sobre a barbárie

De tanto afirmá-lo e de tanto tratar os judeus como animais, os prisioneiros judeus na Segunda Guerra Mundial tornaram-se, de facto, animais. Seres cujo único intento na vida é a sobrevivência, à custa da vida dos outros, à custa dos próprios familiares no campo - pesos mortos para os mais novos e mais saudáveis. Elie Wiesel e Primo Levi não esqueceram essa dimensão da Humanidade, não esqueceram o que nos podem fazer, que nos podem transformar, de facto, em animais sem qualquer escrúpulo.

A longa noite de Elie Wiesel



«Nunca mais esquecerei esta noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada». Embora esta não seja a primeira frase do livro de Elie Wiesel, Noite, bem que podia sê-la. Wiesel, judeu romeno, foi apanhado na vaga de deportações, juntamente com a sua família e muitos dos seus compatriotas (na sua grande maioria os judeus, tal como ele). As autoridades romenas, lideradas por Antonescu e pelos fascistas, cedo se juntaram à missão dos nazis. E é assim que os romenos são daí enviados para Auschwitz-Birkenau, Buna e, finalmente, Buchenwald, numa viagem de terror por alguns dos mais terríveis campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Segundo diz, numa tenebrosa verdade, um outro prisioneiro de Auschwitz: «Tenho mais confiança em Hitler do que em qualquer outro. Foi o único que manteve as suas promessas, todas as suas promessas, ao povo judeu». Essas promessas eram promessas de morte.

O tema do livro é óbvio. A morte é, sem dúvida, o grande arrepio que atravessa o livro. Mas esta morte não é apenas uma morte física, um genocídio. A morte mais importante, mais grave, é aquela que se dá junto de cada um dos homens presos, uma morte da humanidade, da moral, da ética e de Deus. Como diz François Mauriac no prefácio a Noite: «a morte de Deus na alma daquela criança que descobre, de uma assentada, o mal absoluto». A figura mais representativa das interrogações judaicas é o Maceiro Moché, personagem que transmite estudos cabalísticos a Elie quando este entra na adolescência (nunca dela sai, aliás, já que tinha 16 anos quando foi libertado de Buchenwald). Moché explicava ao narrador «que cada pergunta possuía uma força que a resposta já não continha». Referia-se, claro, às perguntas que se dirigiam a Deus quando se deparavam com a crueldade nazi. «O homem interroga e Deus responde. Mas nós não compreendemos as Suas respostas. Não podemos compreendê-las. Porque elas vêm do fundo da alma e lá permanecem até à hora da morte. As verdadeiras respostas, Eliezer, só as encontrarás em ti mesmo», diz o velho. Moché, aliás, é simbolicamente o judeu «que escapou» e vem avisar os seus conterrâneos do que se passa nos campos. Ninguém quer acreditar nele. Ninguém lhe dá ouvidos, julgando-o louco. Mas Moché tinha razão.

Noite é um livro violento. Um romance que não é romance. Uma narrativa que não tem qualquer imagem bonita. Um enredo sem recompensa ou segredo. Só morte. Só brutalidade. Do princípio ao fim do livro. As cenas mais terríveis são, seguramente, as do crematório, e especialmente as de carrinhas cheias de pequenos cadáveres de crianças atiradas às chamas. Elie Wiesel diz sobre isto o que todos nós diríamos: «Nunca mais esquecerei aquele fumo. Nunca mais esquecerei as pequeninas caras das crianças cujos corpos eu tinha visto transformarem-se em espirais sob um azul mudo. Nunca mais esquecerei estas chamas que consumiram para sempre a minha fé». O mesmo quando é enforcada uma criança no campo, que, pela sua leveza, não morre de imediato e se debate na ponta da corda durante meia hora. Elie e os outros prisioneiros são obrigados a assistir, para desobedecer mais: «Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar: - Onde é que Deus está, então? E eu sentia dentro de mim uma voz que lhe respondia: - Onde é que ele está? Ei-lo - está aqui pendurado nesta forca... Naquela noite, a sopa sabia a cadáver...». Afinal, Deus pode morrer. Foi assim que morreu o Deus de Wiesel.

sexta-feira, abril 18, 2008

I knew it!

«I knew it!», diz a cunhada. Alguém já reparou que John Cheever, escritor americano que escreveu Falconer (traduzido, aliás, para português pela Sextante Editora), é, em Seinfeld, o escritor que relembra noites escaldantes numa cabana dedicando «escandalosas» cartas de amor ao pai da Susan, noiva do George Costanza?

quinta-feira, abril 17, 2008

Election



Há já uns meses, tinha apanhado o filme no canal Hollywood. Um liceu como cenário, Reese Whiterspoon a fazer de menina mimada, um actor (Chris Klein) saído do boçal American Pie (filme que, apesar de tudo, aprendi a respeitar), mais uma personagem martirizada de Matthew Broderick, enfim, tudo o que parecia ser um filme sobre liceus americanos. Passados alguns minutos de má vontade minha, mudei de canal para nunca mais voltar.

Voltei lá, no entanto, há poucas semanas. Sem querer, claro. Apanhei o início. O filme chamava-se Election (realizado em 1999). Só aos poucos fui percebendo que era o mesmo que tinha apanhado cerca de um mês antes. Outros olhos o viram. Até mesmo Broderick, actor com o qual não vou à bola, me pareceu ter profundidade. Comecei a gostar da personagem dele. Do filme também. Fiquei a saber também que o realizador é Alexander Payne, e então tudo começou a encaixar-se. Para quem viu About Schmidt e Sideways, a personagem de Broderick faz todo o sentido.

Jim McAllister, tal como Warren Schmidt (Jack Nicholson), Miles (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church), é um homem em queda. Jim tem uma vida pacata e controlada, e é o quebrar dessa normalidade que o leva a uma completa mudança. Tal como a viagem de Miles e Jack e a outra «viagem espiritual» de Schmidt, a «viagem» de Jim é, precisamente, querer «endireitar» as coisas à sua maneira. Pode mudar um pouquinho o seu dia-a-dia e fazer justiça, mas os pequenos actos acabam levando a consequências catastróficas, seja com os resultados das eleições da escola, seja com o seu casamento.

É este efeito de «bola de neve», de como os pequeninos delitos (misdemeanors) se podem transformar em pecados que nos perseguem uma vida inteira, que arrasta Jim McAllister ao longo do filme. Alexander Payne, tal como voltou a fazer nos filmes seguintes, trata este tema com a maior subtileza, com o cuidado de não deixar descambar para a tragédia de levar às lágrimas, mas sim para os filmes tragicómicos que, estranhamente, nos deixam sempre a reflectir acerca da vida. A questão em Election é: afinal, acabamos sempre por ser apanhados ou não? É ver o filme.

Frase do dia

One thing you can say about mankind:
There's nothing kind about man.


Tom Waits

quarta-feira, abril 16, 2008

Os «santos privilégios» dos dirigentes republicanos


Convém (...) sublinhar que, apesar da fraseologia plebeia e igualitária dominante de todos os partidos ou grupos republicanos, só a Carbonária Portuguesa se pareceu com uma autêntica organização popular. No PRP e, a seguir, no Partido Democrático de Afonso Costa, os dirigentes e os militantes não provinham dos mesmos grupos sociais: e, se os dirigentes estavam dispostos a usar os militantes para os seus próprios fins, não estavam, evidentemente, dispostos a permitir que se pusessem em causa os seus santos privilégios.

Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo (A Revolução de 1910)

quarta-feira, abril 09, 2008

Work in progress

Lampedusa



O Leopardo é um romance representativo de uma época, mas não o considero marcante do ponto de vista literário. Muitas foram as vezes em que me perdia na leitura e me distraía do próprio enredo, desinteressante e aborrecido. Mas, independentemente desta sensação, há uma coerência que, podendo ou não ser deliberada, está lá: há uma ligação entre o ritmo do texto e o tenue pulsar de uma aristocracia moribunda que é retratada nesta obra como em nenhuma outra obra. Tal como diz Don Fabrizio no livro, que é «um representante da velha classe, inevitavelmente comprometido com o regime dos Bourbon, e a ele ligado pelos laços da decência, já para não falar dos laços de afecto. Pertenço a uma geração desafortunada que assiste ao final dos velhos tempos e ao início dos novos, e que tanto nuns como noutros se sente deslocada».

O livro (único, aliás) de Giuseppe Tomasi di Lampedusa é, sobretudo, uma obra que marca a resistência dos velhos tempos à mudança e à «modernidade». Não uma resistência enérgica e proselitista, mas uma fechamento da aristocracia sobre si mesma, passando a viver do poder sem representação, do património sem dinheiro, como metáfora da sua real utilidade e importância para o «choque garibaldino» que uma República liberal oferecia aos italianos. Tal como muitas vezes no livro, as personagens olham para os tectos, para as paredes dos seus palácios e palacetes e vêem representações da sociedade que os rodeia. O exemplo mais flagrante do «fim dos tempos» desta aristocracia vem mais para o fim do livro, num momento de viragem, num vaticínio, num mau agoiro: «No tecto, os deuses, reclinados em tronos dourados, olhavam para baixo sorridentes e inexoráveis como o céu de Verão. Julgavam-se eternos; em 1943 uma bomba fabricada em Pitzburg, Pensilvânia, iria provar-lhes o contrário».

A obra de Lampedusa é, sem dúvida, um livro aborrecido. Não nos identificamos necessariamente com estas personagens, com esta aristocracia defunta (já estavam mortos mas ainda não sabiam). Mas é um livro essencial na literatura italiana e europeia. É um romance sobre as fundações do mundo moderno e, mais importante que tudo, sobre o fim de uma outra Europa, de uma outra Itália. Uma faísca de mudança numa aristocracia monótona, como, aliás, também o foi a vida de Lampedusa, que Javier Marías considera um homem igualmente monótono e sozinho, vida na qual O Leopardo, segundo as palavras do escritor espanhol, «foi a única coisa extraordinária que aconteceu na sua vida, e na relaidade aconteceu na sua morte, dezaseis meses depois de ter deixado este mundo».

Numa nota adicional, refira-se o capítulo sobre Lampedusa em Vidas Escritas, de Marias. Se se é leitor compulsivo, não se pode deixar de simpatizar com este homem que, sem ocupação, saía de casa de manhã e lia, lia e lia durante todo o dia, seja num jardim, num café ou num degrau de casa. Saía com um malão sempre cheio de livros (vício com o qual, para minha infelicidade e esforço físico, irremediavelmente me identifico), por medo de ficar sem leitura longe de casa. O maior elogio aos «dotes de leitor» de Lampedusa vem de Marías: «Não só tinha lido todos os autores importantes ou imprescindíveis mas também os de segundo plano e os medíocres, que, sobretudo no que respeita ao romance, considerava tão necessários como os grandes: "Também é preciso sabermos aborrecer-nos", dizia, e lia, com interesse e paciência, a má literatura».

Definhar

Não sei falar sobre isso mas parece que estamos mais ou menos programados para parar. Quer dizer, para morrer. O corpo e o juízo querem paz e não há mais nada que consiga maravilhar. Dores espalhadas pelo corpo, doença crónica, limitações na alimentação, no movimento, ouve-se mal, vê-se pior, socializar torna-se desinteressante. Acho que chega a altura do cansaço e parar assoma com naturalidade. Ontem uma velha dizia para a vizinha, enquanto cavava à beira da estrada na Aldeia do Futuro, concelho de Grândola, «parar é morrer». Ainda não ligamos a esses ditos de velhos. Eu próprio noto as pequenas alterações que o meu corpo sofre. Depois de um dia de trabalho (longo) o meu corpo cheira pior do que há cinco anos. Mesmo com a farsa necessária dos cosméticos o meu corpo começa paulatinamente a apodrecer.


Samuel Filipe, no Esse Cavalheiro

sábado, abril 05, 2008

Vulcano

Tranquilizado, penteou-se, mandou que o calçassem e lhe vestissem a sobrecasaca. Meteu o jornal numa gaveta. Eram quase horas do Rosário, mas o salão ainda estava vazio. Sentou-se num sofá e enquanto esperava, reparou que o Vulcano do tecto se parecia um pouco com as litografias de Garibaldi que vira em Turim. Sorriu. «Um cornudo».

Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo

quarta-feira, abril 02, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

Fidel Neeson



Ainda ninguém me conseguiu provar, com certeza, que não foi Liam Neeson que esteve a governar Cuba todos estes anos, enquanto agente da CIA infiltrado nas Caraíbas.

Pela espada

Segundo a condessa de Mangualde, que falou com ele na própria manhã em que Couceiro se insurgiu no Porto, Aires D'Ornelas comentou: «É a tal coisa! O Couceiro quer tudo à ponta da espada, quando isto pela política ia muito bem!»

Vasco Pulido Valente, Um Herói Português - Henrique Paiva Couceiro (1861-1944)

Revolução na realização



Nadine Labaki

sábado, março 29, 2008

À bruta

Alguém chegou a este blogue em busca de Telma Monteiro sexo à bruta. O Causa das Coisas agradece, é claro, a imagem mental criada pelo leitor.

Primeira Antologia de Microficção Portuguesa



Já está disponível nas livrarias a excelente (e talvez pioneira) iniciativa de pôr em livro a micronarrativa portuguesa e abrir espaço na literatura portuguesa para este género. A editora é a Exodus e a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa pode ser vista e encomendada, pelo menos, aqui. Eu, que dei o meu humilde contributo em palavras para a antologia, sob a batuta persistente e paciente de Rui Costa e André Sebastião (selecção e organização), não posso deixar de me sentir babado por me ver ao lado de excelentes prosadores nacionais.

Os erros de Soljenitsin



O Erro do Ocidente, de Alexander Soljenitsin, não é uma obra na verdadeira acepção da palavra. O livro (disponível em português em edições já escassas da Europa-América) não foi concebido pelo autor para ser um livro mas sim construído a partir de artigos do mesmo nas revistas Time e Foreign Affairs. Nesta última, o artigo publicado foi agressivamente dirigido aos EUA, acusando-os (e ao Ocidente em geral) de um paternalismo ignorante da verdadeira cultura dos Russos. Para Soljenitsin, os americanos têm o defeito de não acreditarem que a Rússia é um país de confessas virtudes atacado pelo «vírus do comunismo». Para o escritor, a Rússia czarista está pejada de virtudes, de progressos médicos e sociais, de liberdades e de tolerância religiosa. Ou seja, os russos rejeitaram e rejeitam (durante a Guerra Fria) o comunismo. É um acesso fantasista, o de Soljenitsin, que afirma que Rússia e União soviética são dois conceitos impossíveis de misturar, tal como água e azeite. Diz o próprio em frase que põe em balança a importância do nacionalismo russo (com o qual ele se identifica): «...uma Rússia a caminho a cura faria recuar a loucura comunista. O renascimento e a libertação nacional russos significam a morte do comunismo russo e, seguidamente, a do comunismo mundial».

De um ponto de vista estratégico-político, o nacionalismo russo de que Soljenitsin falava seria, de facto, um golpe fatal e endémico no comunismo. Mas isso não retira a natureza russa do comunismo russo. Este não teve o género de violência irracional e descontrolada que teve nas experiências asiáticas, mas os métodos calculados de destruição da sociedade, da economia e do próprio povo da Rússia, levados a cabo por Lenine e Estaline, não são isolados da história da Rússia. O conceito de participação democrática nos destinos do país é algo que, mesmo antes de 1917, é pouco claro naquele país. Ainda hoje, se tenta definir e perceber até onde é que, na Rússia de Putin, chegam as liberdades pessoais e a democracia.

sexta-feira, março 21, 2008

Contre l'équinoxe

Os meus votos de apoio ao Bruno, para mais esta luta pela sobrevivência na mudança de estação. Eu, como filho da sinusite, percebo a tormenta de não ter uma meteorologia estável durante toda a minha existência.

Da Frente Popular


Para os homens de esquerda, a Frente Popular é uma grande data da história social e da reforma social em França. Pensam evidentemente nas manifestações, no entusiasmo, nas férias pagas. Pensam na redução da duração do trabalho, no aumento dos salários. Houve certamente durante algumas semanas para muitos, uma ilusão lírica de semi-revolução pacífica. Mas há uma metade da França, uma metadezinha da França, que se lembra por seu lado daquela espécie de anarquia, da ocupação das fábricas, do pôr em causa da sua ordem. Aqueles que não são de direita nem de esquerda, ou quando muito se esforçam por estar acima de ambas, são, como eu próprio, partilhados entre dois fortes sentimentos. De um lado, sem sombra de dúvida, foi um grande movimento de reformas sociais e do outro aquilo foi uma política económica absurda, cujas consequências foram lamentáveis. Agora quando se celebra a Frente Popular na esquerda é um tanto a propensão da esquerda para celebrar as suas derrotas, porque, ao cabo de seis meses ou de doze meses, a Frente Popular estava perdida, e a derrota era devida a uma política económica insensata.

Raymond Aron, O Espectador Comprometido

O estado das coisas



Novamente apaixonado pela NBA, graças às limpezas que os Boston Celtics têm feito aos seus adversários (Kevin Garnett é, cada vez mais, um jogador do outro mundo).

Psycho



Clássico que também resolvi descobrir é Psycho, de Alfred Hitchcock. Sobre ele, pouco tenho a dizer. Sobre obras de génio, quanto mais palavras se gastam, mais se estraga a delicada embalagem que as envolve. Puco tenho a dizer: grande, grande, grande filme. Hitchcock e Freud a «darem» muito de si para a obra-prima que é Psycho. Anthony Perkins tem a actuação de uma vida, e com razão. Eu pensava que Psycho era um cliché. Enganei-me: é mesmo uma obra de génio.

Willy Wonka



Charlie and the Chocolate Factory, realizado em 2005 por Tim Burton, não é um mau filme. Aliás, Burton é um dos meus realizadores preferidos (revi, recentemente, Big Fish e este continua a ter a mesma magia de sempre) e o filme encaixa-se bem no seu percurso. No entanto, passei a ver a história de Roald Dahl com outros olhos depois de ter visto, na semana passada, o anterior filme sobre Willy Wonka e a sua fábrica de confeitaria.

Em 1971, Mel Stuart trouxe-nos uma visão sobre os pirralhos que visitam a fábrica de Wonka e desta visão brotou uma grande obra da Sétima Arte. Willy Wonka & the Chocolate Factory é um mimo. Não tem certos elementos inculcados por Tim Burton: não há uma simpatia pelas personagens trágicas nem uma caricatura geral destas e do ambiente; não há os recursos visuais que estão disponíveis em 2005; não há a deriva de argumento que se nota um pouco na «versão» de Burton; e, sobretudo, não há um Willy Wonka (à la Johnny Depp) com ar de pervertido sexual, a pedir uma maquilhagem como a dos Kiss.

No Wonka de 1971, a moral impera. As crianças são, de facto, pirralhos irremediáveis na sua maioria, e Mel Stuart faz questão de o afirmar, em letras bem gordas nas partes mais musicais, apontando os dedos aos pais que estragaram a personalidade aos filhos. Mel Stuart tem mesmo uma palavra a dizer sobre as crianças que não pegam em livros, e isto, em televisão, é um tesouro. Gene Wilder tem uma excelente interpretação de um Willy Wonka menos absorvido na sua loucura mas mais cínico, com mais maldade e ironia. Para minha surpresa, Willy Wonka & the Chocolate Factory, de Mel Stuart, é um excelente filme. Para quem não viu, devo aconselhar a vê-lo. Se já viu o de Tim Burton e não gostou, não se rale: dê uma chance a esta versão e vai ver que se pode surpreender. Foi o que aconteceu comigo.

segunda-feira, março 17, 2008

Dos massacres na Bósnia

Here [in Bosnia] was genocide. Where was the United Nations? The answer is that it was right there; indeed, with grotesque irony, its forces effectively presided over the worst of the genocidal atrocities.

Niall Ferguson, Colossus

Sobre Saddam

Considering the list of Saddam´s violations of international law and his manifest contempt for the numerous UN Security Council resolutions he had inspired - seventeenth in just four years - the only mystery is why Iraq was not invaded before 2003.

Niall Ferguson, Colossus

Work in progress

TV voto

Ontem, uma vez mais, perdi o meu preciosíssimo mas inutilíssimo tempo a ver uma edição do saudoso Raios & Coriscos na RTP Memória. Como muitos saberão, o programa apresentado por Manuela Moura Guedes foi um grande ícone da «televisão bizarra», juntamente com, vá lá, o Programa do Além, apresentado por Teresa Guilherme, onde um homem ressuscitou um canário com o pescoço partido.

Ressuscitações à parte, o que se passou no Raios & Coriscos de «ontem», que tinha o tema da «Prostituição» e apresentou como convidado principal o major Valentim Loureiro (convite não deliberadamente relacionado com o tema), foi um excelente caso de plebiscito popular e que dá razão a um recente pedido de Valentim (que queria ser julgado na televisão, pelo «povo»): o major, reputado político corrupto e bon vivant (ou, numa versão mais prosaica e menos Casanova, reputado mafioso e putanheiro), resolveu a meio do programa lançar um longo discurso improvisado acerca das condições sociais e económicas em que as pobres raparigas viviam e de que como ele garantia que ia fazer tudo para combater estas causas de desigualdade social. Elevando a voz, tornou-se o centro das atenções. Ao gritar, causou tumulto entre os outros convidados e recebeu uma chuva de palmas da plateia.

Como sempre na história política, ganha quem grita mais e melhor. O povo apoia quem se zanga. Parece séria e firme, a expressão de um homem como Valentim Loureiro, quando grita com alguém. Aplaudem as pessoas, em voto virtual que se perpetua no futuro. Os tubarões da política local, como Valentim, agradecem.

Buckley Jr., 1925-2008



Já conheci William Buckley Jr. em idade mais tenrinha. Não aos 17 ou 18 anos, como muitos começam a conhecer os seus modelos e os tornam em ídolos de forma imediata. Mais desobstinado, eu apenas começei a ler textos de William Buckley Jr. há poucos anos, quer seja na National Review (que pouco compro pela raridade da oferta), quer seja online. Buckley deixou-nos, sobretudo, um pensamento político muito importante, uma linha (flexível e «adaptável», no bom sentido) que não encarrilava pela «união» dos conservadores americanos mas sim pelo debate e combate internos. Ambicionava-se uma saudável separação das águas, embora não querendo ser uma publicação exclusiva de uma direita. A National Review, filho pródigo (embora consensualmente em crise de identidade) de William F. Buckley Jr., foi um dos seus maiores legados. Tal como a revista, a morte de Buckley passou despercebida aos portugueses. Mas ainda há, felizmente, quem reconheça a sua importância. Importância esta que, na segunda metade do século XX americano, é incontornável.

My Fair Lady

Enquanto lia a peça Pigmalião (aliás, genialmente cínica), de Bernard Shaw, estava convencido que encontrava humor na erudição. Lia Shaw, afinal de contas. Já outras vozes, ao espreitar o mesmo livro, diziam-me que eu lia uma versão do My Fair Lady. Infelizmente, parece ser verdade. E o filme de George Cukor talvez mereça a espreitadela nostálgica. Eu, que nunca vi o My Fair Lady ou nada sobre este, dou agora por mim a pensar: será que, afinal... gosto de musicais? Será que os musicais têm então substância? Reviralhos da vida.

Pigmalião

HIGGINS-... Se voltares eu continuarei a tratar-te exactamente da mesma maneira como te tratei até aqui. Não posso mudar o meu feitio; não tenciono mudar de maneiras. As minhas maneiras são exactamente iguais às do coronel Pickering.

LIZA- Isso não é verdade. Ele trata uma florista como se ela fosse uma duquesa.

HIGGINS- E eu trato uma duquesa como se ela fosse uma florista.


George Bernard Shaw, Pigmalião

terça-feira, março 11, 2008

quinta-feira, março 06, 2008

Robin Hood em Setúbal

Já está disponível o meu último artigo no Setúbal na Rede, aqui.
Na origem do artigo, está o sentimento de insegurança reinante em Setúbal. Um excerto: «A senhora Meira tem em crer que o que falta aqui é “inclusão social”. Ou seja, que o crime e a insegurança em Setúbal vêm dos problemas de “exclusão social”. E resolveu vender esta teoria de Hollywood aos munícipes da cidade. Acredita a senhora – e os comunistas na Câmara, pois então – que a “Setúbal rica” está sob o fogo da “Setúbal pobre”. Ora, ou a senhora andou a ler Dickens à balda e acha que estamos no tempo das crianças que roubam maçãs do expositor da mercearia, ou então anda a tentar atirar-nos areia para os olhos com esta fábula de Robin Hood na qual o que se está a passar é uma espécie de justiça social que comete o único erro de ser feita à bruta».

Insónias

Depois de uma noite a pé para ver o resultado das eleições primárias no Texas e no Ohio, fiquei com os sonos trocados. Mas com a certeza redobrada de que, mesmo que a insuportável Hillary Clinton ganhe a nomeação, isso só vai melhorar a situação de John McCain na corrida à presidência. Fico só com pena de Obama não estar a responder como devia ao «cerco» da campanha de Hillary, o que só mostra a diferença de experiência e «tomates» entre os dois, muito embora isto não seja uma razão (sobretudo tendo em conta a natureza das últimas investidas contra o rival democrata) para ter a senhora do sorriso em boa conta.

Manhattan



O filme começa com uma passagem lenta do argumento, «paisagístico», num passeio turístico por Nova Iorque, mais precisamente por Manhattan. Woody Allen começa assim a sua filmagem do excelente Manhattan, um dos melhores filmes do mestre. Os diálogos são a pedra de toque neste filme, como em todos os outros. Mas, um pouco diferente de outros filmes de Allen, Manhattan traz ternura nas relações, sobretudo na relação de Isaac (Woody) com Tracy (Mariel Hemingway). Uma vez mais, não é uma lição sobre a Humanidade nem sobre o Amor. Quando muito, é uma advertência sobre como não se pode viver em Nova Iorque sem um bom psicanalista.

quarta-feira, março 05, 2008

Conquistador



Hugo Chávez podia perfeitamente, nesta imagem, estar a pedir às alminhas dos céus que protejam as suas aventuras na América do Sul, que protejam a sua sorte ao meter-se onde não é chamado e ao mostrar a sua gula a todo o continente. Numa visão mais política e menos subjectiva, está, seguramente, a pedir aos céus que não metam os Estados Unidos no que se vai passar na Colômbia. A guerra no Iraque (e a consequente ocupação dos recursos militares americanos) foi o melhor que aconteceu a Chávez.

terça-feira, março 04, 2008

Napoleão em 1808 e 2008

Os Napoleões chegam e partem, seja qual for o país. O pecado (grego) da hubris atinge qualquer homem ou mulher embriagado de poder, seja esse poder dado pelo cargo ou dado pelo triunfo. É claro que depois dependerá do sítio onde esse Bonaparte governa. Em pequenos países com pequenos costumes, os Napoleões triunfam de forma diferente, e com um horizonte peculiar. Isso não quer dizer que, em 2008, não existam personagens portuguesas com um «apetite» igual ao de Bonaparte de 1808.

Veja-se um excerto de The Age of Napoleon, pequeno livro sobre o também pequeno ditador da Córsega: «Ruling a France intoxicated with glory, after Tilsit the Emperor was no longer in a mood to listen to anybody. He closed down the Tribunate and, on Talleyrand's resignation, replaced him by the docile, sycophantic Minister of the Interior, Champagny. Among other changes, a more rigorous court etiquette kept everyone literally at arm´s length, unable to approach him without the approval of Duroc, Grand Marshall of the Palace. Thus Napoleon became surrounded by sycophants, a sure sign of the corruption of power».

sábado, março 01, 2008

Minguante


A Minguante nº 9 já está disponível. Dentro dela, entre excelentes textos e e-books, mais um texto muito modesto da minha autoria.

O sonho apodrece

Coitado do Rodrigues... Plantara a vida no sonho, o sonho apodrecera. Passava tudo por ele tão depressa... Queria que o sonho durasse. Segurar o instante perdido - as gerações novas chegavam, partiam, ele ficava ainda. Uma bala suicida sagrou-o enfim jovem para sempre.

Vergílio Ferreira, Apelo da Noite

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

A China das contradições



Federico Rampini é o correspondente do La Repubblica em Pequim. Ou seja, um enviado italiano – ocidental – à China. É uma visão ocidental, por vezes apaixonada ou fascinada sobre o futuro da China, assim como sobre o seu passado, embora pejada de críticas à sociedade chinesa, nomeadamente ao que depende do controle do poder. O «período» (ainda que virtual) foco das atenções do jornalista é inaugurado pelas manifestações e pelas repressões de 1989, marcadas pelo incidente da praça Tiananmen, uma espécie de marco histórico a partir do qual Rampini avalia uma China em constante mudança.

Em relação a esses incidentes em Tiananmen, o jornalista italiano salienta a acção de Deng Xiaopeng que, anteriormente visto como um homem mais sensato, mais «pragmático», revela nesse dia ao Ocidente a verdadeira natureza do seu governo, abrindo as hostilidades contra os manifestantes. É um governo de homens imprevisíveis, absolutamente reverentes à autoridade central, cuja única crítica ao poder é aquela dirigida aos poderes locais, aos hipotéticos «burocratas corruptos» que grassam nas províncias e nos sítios onde o poder do governo central não chega. E, de facto, essa corrupção existe, e abusa dos chineses – camponeses ou não – que, muitas vezes, perdem as suas casas sem nenhuma retribuição ou compensação. Burocratas que recebem «luvas» de grandes multinacionais, dirigentes de faculdades que pedem subornos aos pais dos novos alunos, eliminação da oposição através de detenções e assassinatos.

Mas não se pense que tudo isto se faz totalmente à margem do poder central. É, aliás, a própria natureza do comunismo chinês (às vezes penso se isto será, ainda, comunismo) que leva a que os abusos tenham lugar. E é a própria sociedade chinesa que, ao invés do que se pensa, tem tudo menos pureza. Muito pelo contrário, há tiroteios na escolas, tal como na «terra da perdição» dos Estados Unidos da América. Há, mais importante que tudo, uma leviandade na aplicação de penas pesadíssimas, sejam elas dezenas de anos de prisão por oposição política e cívica ou a pena capital aplicada às mãos cheias. Leia-se, por exemplo, este excerto:

«Todos os anos, neste país são fuziladas ou eliminadas por injecção letal pelo menos 10.000 pessoas: um número que ultrapassa em cinco vezes as condenações à morte executadas em todo o resto do mundo, Estados Unidos incluídos.
Não obstante o mal-estar dos intelectuais e dalguns dirigentes mais iluminados, a pena de morte conta ainda com um sólido futuro na China.»


A China não se resume a um país dividido entre as exportações chinesas, as multinacionais nacionais e estrangeiras e o Partido único. Não, O Século Chinês mostra-nos uma China cheia de contradições, cheia de promessas e de ameaças, cheia de poderes autoritários mas também de inúmeros contra-poderes amordaçados espalhados pela sociedade. O livro acaba com uma «balança» entre os poderes emergentes da China e da Índia, competidores que podem resultar no melhor ou, se faltar a confiança em si mesmos, no pior.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sobre a insegurança em Setúbal.

Dois posts do Luís Silva no Office Lounging. E um link para um «resumo» de uma entrevista a Maria das Dores Meira.

Death of a Salesman

Não digo que ele seja um grande homem. Willy Loman nunca ganhou rios de dinheiro. Os jornais nunca falaram nele. Não é nenhum génio, bem entendido. Mas é um ser humano, e está a sofrer terrivelmente. Isso é que é preciso não esquecer. Não se deixa morrer um um homem assim sem mais nem menos como um cão.

Arthur Miller, Morte de um Caixeiro-Viajante

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Insurgentes (emenda)

Uma fonte próxima do Insurgente vem-me agora revelar que, afinal, a «tomada de posse» do blog por um grupo de «palhaços desocupados» - segundo um post meu - foi mais amigável do que pareceu. Eu, que só tinha visto ontem o manifesto inicial, não percebi isso. Retraio-me agora, após aperceber-me da figura «úrsica» que fiz. Viva la revolución, pois então.

Óscares

Hoje é dia de ficar levantado até mais tarde do que o normal. A velhice prematura do meu corpo bem que me diz que não, que não será um dia de serão mas mais um dia de adormecer no sofá, de boca aberta e baba a escorrer para a t-shirt. Mas os Óscares falam mais alto, e o tédio televisivo (sem Sopranos na 2:) precisa de ser quebrado.

Antes de de mais, tenho curiosidade com Jon Stewart, que em tempos me fez rir antes de «afunilar» de vez para o humor liberal sem graça. Não é Robin Williams nem Billy Crystal, mas lá dará para o gasto. Para os próximos anos, gostava de ver, talvez, Conan O'Brien ou Wanda Sykes, dois humoristas geniais muito cá de casa. De resto, tirando a curiosidade competitiva de saber quem ganha as estatuetas, pouco mais me interessa na dita «cerimónia dos vestidos bonitos».

Em relação a filmes, os favoritos serão There Will Be Blood e No Country For Old Men. O primeiro vi, e gostei muito. O segundo tenho vindo a aplaudir antes sequer de o ver, para o que estou ansioso (os irmãos Coen nunca me desiludiram, não será desta vez que isso acontece). Respectivamente, deverão sair vencedores, e com mérito, Daniel Day-Lewis e Javier Bardem, dois homens que estão a entrar, passo a passo, na galeria dos actores de culto do mundo do cinema, provando o espanhol que o mundo das «estrelas» de cinema é universal, assim como o seu mercado.

Uma curiosidade: gostava de ver Ellen Page levar a estatueta. Ainda não vi Juno, mas deverá ser a minha próxima escolha, influenciada também pela pressão feminina cá de casa. E consta que Ellen Page está muito bem nesse filme. Que ganhe ela, mais não seja pela simpatia que me conseguiu roubar.

Insurgentes

É através do blogue do Bruno, em primeira mão, que me apercebo da pobreza de espírito do que se passa na blogosfera. Nomeadamente, neste caso, a tomada de assalto do Insurgente por uns pretensos «activistas». O Bruno chama-lhes «grupo de extrema-esquerda». Eu chamo-lhes «grupo de palhaços desocupados». Espero que os insurgentes apliquem um valente pontapé no cu de alguém e voltem de novo ao serviço. Resumindo: mais um episódio triste e patético da incapacidade de conviver com opiniões alheias.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Patrimony



Um dos melhores livros de Philip Roth terá de ser, sem dúvida, Patrimony. É um romance sobre factos. Uma narrativa simples, humilde e respeitosa sobre os últimos dias do pai do próprio Philip Roth, visto pelos olhos do filho. A maneira como Herman Roth sucumbe, aos poucos, à frustração e à fragilidade de um octagenário judeu seguro de si mesmo mas com um tumor na cabeça, deixa-nos rendidos ao livro, e à história dos Roth. Porque a morte, tal como em quase todos os livros de Philip Roth, mais não é do que uma maneira de pensar a própria vida.

They fought two battles

You know how it was: these kids grew up, they had a tough life, the slums, no money, and they always had an adversary. The Christian religion was an adversary. They fought two battles. They fought because they were fighters, and they fought because they were Jews. They'd put two guys in the ring, an Italian and a Jew, an Irishman and a Jew, and they fought like they meant it, they fought to hurt. There was always a certain amount of hatred in it. Trying to show who was superior.

Philip Roth, Patrimony