terça-feira, maio 06, 2008

Zenith



Ver o Zenith de São Petersburgo jogar futebol é uma lição moderna de futebol «clássico». De um futebol que, hoje em dia, já não existe sem aqueles jogadores de Ferrari e namoradas supermodelos. Talvez esta seja a ideia de um apreciador ingénuo e antiquado do desporto: o jogador pobre e esforçado, entregue de corpo e alma ao futebol, não visto como uma profissão, mas como a prova última de pertença a uma comunidade.

«Futebol total» é um conceito que, muitas vezes, nos últimos tempos, tem sido utilizado gratuitamente para designar qualquer exibição, acima do sofrível, de qualquer equipa portuguesa. Mas há muito que não via este conceito aplicável. Para mim, voltou com o Zenith de São Petersburgo, uma equipa a lembrar não apenas o «futebol total» holandês, com um jogo ao primeiro toque com movimentações rapidíssimas e com uma versatilidade extraordinária da equipa, mas também a máquina soviética de futebol, em que cada jogador jogava tanto a defesa central como a «ponta esquerda» ou a avançado - também os jogadores do Zenith passam, correm, rematam, defendem, pressionam, cabeçeiam com igual qualidade entre si. Estivesse o Zenith na Liga dos Campeões e vê-los-íamos certamente nas meias-finais. Por agora, bastar-lhes-á a Taça UEFA, que bem merecem.

terça-feira, abril 29, 2008

A guerra na era Vitoriana

One of the pleasures of late-Victorian campaigning was that steamships and railways made it possible to attend even the empire's remoter battlefields, then return to one's London chambers for a haircut and a visit to one's tailor before the next bout.

Max Hastings, Warriors

segunda-feira, abril 28, 2008

O estado das coisas



Provei que estou cerebralmente vivo.

Bamboozled



De Spike Lee, Bamboozled é um filme interessante. O conceito do filme e o do «filme dentro do filme» são criativos, mas este é, como muitos outros, um exercício sobre as tensões raciais nos EUA. Para Spike Lee, os negros estão sempre sob fogo cruzado da polícia, da elite branca (dos «WASP»), da televisão, do poder e da classe média. Não será, provavelmente, mentira, mas o tom de Spike Lee acerca disto soa-me sempre que é exacerbado. Não é o Do the Right Thing (1989), mas vale a pena ver, nem que seja pelo balanço final do filme, que resulta num exercício de reflexão útil e numa quase fábula moral da «comunidade negra», numa sátira que não deixa de visar os próprios negros americanos e a imagem que muitos destes produzem e reproduzem de si mesmos.

quinta-feira, abril 24, 2008

Camus



Qual o homem que nunca quis ser como Camus? É a «estrela de futebol» do universo dos escritores (curiosamente, é-o mesmo, tendo jogado futebol amador em Argel, na posição de guarda-redes... e bom, segundo parece), motivo de uma inveja respeitosa por parte de todos os potenciais escritores. Qual o homem que, ao pegar na caneta, nunca quis ser como Camus? Cigarro ao canto da boca, gola levantada, charme magneticamente chamador de mulheres bonitas, existencialista moderado e racional. Os seus romances misturam-se com as temáticas de Dostoiévski, o absurdo cómico-trágico da suas personagens confundem-nos e passam para a nossa visão das coisas. Mersault não sofre menos incompreensão que Joseph K., é certo. Camus, ainda por cima, era um homem de causas. Legítimas, ao que parece. Anti-guerra, mas com reflexão, sem fome de fama. Quem nunca quis ser como Camus? Sartre, pelo que se sabe, queria ser como ele, e mordia-se por dentro por essa razão. Sinceramente, se eu fosse Jean-Paul Sartre, preferiria ser como Camus, verdade seja dita. Equilibrar a caneta numa mão e o cigarro noutra, eis uma verdade que o homem legou a gerações de escritores empenhados.

Fuga ao anonimato

Alguns dos meus bons criminosos tinham, de resto, ao matar, obedecido ao mesmo sentimento. A leitura dos jornais, na lastimosa situação em que se encontravam, trazia-lhes, sem dúvida, uma espécie de triste compensação. como muitos outros homens, eles já não podiam com o anonimato, e esta impaciência tinha podido, em parte, levá-los a difíceis extremos. Para alguém se tornar conhecido, basta, em suma, matar a porteira. Trata-se, infelizmente, de uma reputação efémera, tantas são as porteiras que merecem e recebem as facadas.

Albert Camus, A Queda

Warriors

Em Warriors, Max Hastings traz-nos um retrato de homens e mulheres em guerra. Tanto podem ser militares de carreira, como pessoas «arrastadas» para o conflito pela força das circunstâncias. O objectivo é narrar, como o próprio subtítulo indica, Extraordinary Tales from the Battlefield. No entanto, não se julgue que todas são personagens apaixonantes. Algumas serão falhadas, irracionais, azaradas ou politicamente subservientes. Mas todas trazem algo comum: coragem debaixo de fogo. E isto Hastings sublinha: «No warrior should be promoted to higher command merely because he is brave. A skilled and eager fighter is best rewarded by decorations rather than promotion. He should be retained in a role in which he can make himself useful in personal combat, rather than advanced beyond the merits of the rater limited gift - even for a soldier - of being good at killing people». Ou seja, um «guerreiro de coragem» não resulta, necessariamente, num bom comandante - pelo contrário, normalmente resulta num líder irracional, insensível a esse medo tão normal e compreensível: o medo de morrer.

O primeiro desses retratos é o do Barão Marcellin de Marbot, jovem comandante napoleónico que participou em campanhas desde Portugal à Rússia. Combatente valoroso, fazia-se aos adversários com a ferocidade típica de um militar de carreira inspirado por grandes campanhas. A quase misoginia era um atributo comum: «men such as Marbot became so absorbed in the business of war that they perceived women merely as a source of amusement during leaves, and as childbearers when duty granted an officer leisure to think of such marginal matters as procreation». Marbot atirou-se ao rio, inclusivamente, para salvar inimigos russos, que agitavam a bandeira branca da rendição. E isto diz muito do homem, apesar de militar nas fileiras imperiais. A ética militar não foi suplantada pela vertigem conquistadora de Bonaparte. E, de facto, em muitas alturas Marbot parece não ter sido totalmente cegado por esta, já que diversas vezes discordou do imperador e duvidou dos grandes generais napoleónicos. No entanto, quando a batalha contra ingleses, austríacos e russos chamou, lá foi o Barão.

Menos misógina é a história de Harry Smith e Juana. O brigadeiro das 95th Rifles esteve também em diversos palcos desde América do Sul aos conflitos napoleónicos, inclusivamente no sangrento cerco de Badajoz (1812) e em Waterloo. Combatera, curiosamente, contra Marbot, se bem que seja impossível saber se alguma vez se encontraram fisicamente, frente a frente, no campo de batalha. Mas numa coisa vencera Marbot: acima da vitória militar, estava a sua dedicação a Juana, jovem espanhola que perdera a família em Badajoz com a sua irmã mais velha e que agora procurava clemência. Os oficiais ingleses, ao contrário da sua infantaria - selvagem e destruidora como quase sempre as infantarias em guerra são -, foram sensíveis a isto e acederam ao pedido. Harry Smith foi mais longe, apaixonou-se por Juana, que tinha então 14 anos. A beleza da rapariga foi sublinhada por um camarada de armas de Smith, Johnny Kincaid, se bem que esta não seja comprovada senão por alguns relatos e um retrato incluído na autobiografia de Smith. Um ponto a favor de Hastings: a reflexão acerca do «amor» de Juana por Harry Smith. Até que ponto não seria uma relação maternal retribuída com aquela dedicação? Juana passou uma vida inteira dedicada ao brigadeiro das 95th, mas na sua origem esteve uma paixão dedicada a um oficial que a poderia salvar da ruína completa e mesmo da morte. Assim que se juntou a Smith, foi inclusivamente excomungada da sua cultura católica espanhola, que nunca aceitaria de volta uma mulher que tivesse casado com um herético anglicano. O medo de Juana de perder Harry era, muitas vezes, igualmente, o medo de perder a sua própria vida. Dizer que Juana vivia para Harry Smith era dizer isso mesmo: a «vida dela» era ele.

terça-feira, abril 22, 2008

Vitória



No Bonfim, o Vitória nunca se vai abaixo. Um jogo não tira a imagem de outras 26 exibições no campeonato.

Lucky Number Slevin



Excelente filme, este realizado em 2006 por Paul McGuigan, com argumento de Jason Smilovic. Corre o risco de ser um filme algo «caricato», tal como Snatch (que é o parente mais próximo, na minha opinião) mas com mais elegância, se bem que este aspecto algo cómico, por vezes, mais não é que uma maneira de atenuar alguma violência. E a violência é a chave do filme, não como violência gratuita (nada do gore que os discípulos de Tarantino por vezes deixam entrar nos filmes) mas sim como a forma que reveste os twists do enredo. Lucky Number Slevin é uma excelente história, bonita mas pessimista, esperançosa mas carregada de destino, de hubris. Uma das frases essenciais é o desejo, de The Boss (Morgan Freeman), de reviver uma lex talionis, uma lei da retribuição - retribuição essa que, no entanto, não vai no sentido que The Boss quer.

Slevin Kelevra (Josh Hartnett, em mais uma excelente interpretação de uma das minhas apostas para o futuro de Hollywood), Mr. Goodkat (Bruce Willis), The Rabbi (Ben Kingsley), Lindsey (a bela Lucy Liu) e o detective Brikowski (Stanley Tucci) são as personagens mais visíveis de um longo elenco de um grande filme que merece ser visto mais que uma vez. Cheguei a ver as cenas cortadas, apenas para apanhar algumas «franjas» subestimadas do filme. Surpreendentemente bom. Para não estragar o enredo, deixo o repto simples: vejam Lucky Number Slevin. Não se arrependem.

sábado, abril 19, 2008

Notas sobre a barbárie

De tanto afirmá-lo e de tanto tratar os judeus como animais, os prisioneiros judeus na Segunda Guerra Mundial tornaram-se, de facto, animais. Seres cujo único intento na vida é a sobrevivência, à custa da vida dos outros, à custa dos próprios familiares no campo - pesos mortos para os mais novos e mais saudáveis. Elie Wiesel e Primo Levi não esqueceram essa dimensão da Humanidade, não esqueceram o que nos podem fazer, que nos podem transformar, de facto, em animais sem qualquer escrúpulo.

A longa noite de Elie Wiesel



«Nunca mais esquecerei esta noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada». Embora esta não seja a primeira frase do livro de Elie Wiesel, Noite, bem que podia sê-la. Wiesel, judeu romeno, foi apanhado na vaga de deportações, juntamente com a sua família e muitos dos seus compatriotas (na sua grande maioria os judeus, tal como ele). As autoridades romenas, lideradas por Antonescu e pelos fascistas, cedo se juntaram à missão dos nazis. E é assim que os romenos são daí enviados para Auschwitz-Birkenau, Buna e, finalmente, Buchenwald, numa viagem de terror por alguns dos mais terríveis campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Segundo diz, numa tenebrosa verdade, um outro prisioneiro de Auschwitz: «Tenho mais confiança em Hitler do que em qualquer outro. Foi o único que manteve as suas promessas, todas as suas promessas, ao povo judeu». Essas promessas eram promessas de morte.

O tema do livro é óbvio. A morte é, sem dúvida, o grande arrepio que atravessa o livro. Mas esta morte não é apenas uma morte física, um genocídio. A morte mais importante, mais grave, é aquela que se dá junto de cada um dos homens presos, uma morte da humanidade, da moral, da ética e de Deus. Como diz François Mauriac no prefácio a Noite: «a morte de Deus na alma daquela criança que descobre, de uma assentada, o mal absoluto». A figura mais representativa das interrogações judaicas é o Maceiro Moché, personagem que transmite estudos cabalísticos a Elie quando este entra na adolescência (nunca dela sai, aliás, já que tinha 16 anos quando foi libertado de Buchenwald). Moché explicava ao narrador «que cada pergunta possuía uma força que a resposta já não continha». Referia-se, claro, às perguntas que se dirigiam a Deus quando se deparavam com a crueldade nazi. «O homem interroga e Deus responde. Mas nós não compreendemos as Suas respostas. Não podemos compreendê-las. Porque elas vêm do fundo da alma e lá permanecem até à hora da morte. As verdadeiras respostas, Eliezer, só as encontrarás em ti mesmo», diz o velho. Moché, aliás, é simbolicamente o judeu «que escapou» e vem avisar os seus conterrâneos do que se passa nos campos. Ninguém quer acreditar nele. Ninguém lhe dá ouvidos, julgando-o louco. Mas Moché tinha razão.

Noite é um livro violento. Um romance que não é romance. Uma narrativa que não tem qualquer imagem bonita. Um enredo sem recompensa ou segredo. Só morte. Só brutalidade. Do princípio ao fim do livro. As cenas mais terríveis são, seguramente, as do crematório, e especialmente as de carrinhas cheias de pequenos cadáveres de crianças atiradas às chamas. Elie Wiesel diz sobre isto o que todos nós diríamos: «Nunca mais esquecerei aquele fumo. Nunca mais esquecerei as pequeninas caras das crianças cujos corpos eu tinha visto transformarem-se em espirais sob um azul mudo. Nunca mais esquecerei estas chamas que consumiram para sempre a minha fé». O mesmo quando é enforcada uma criança no campo, que, pela sua leveza, não morre de imediato e se debate na ponta da corda durante meia hora. Elie e os outros prisioneiros são obrigados a assistir, para desobedecer mais: «Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar: - Onde é que Deus está, então? E eu sentia dentro de mim uma voz que lhe respondia: - Onde é que ele está? Ei-lo - está aqui pendurado nesta forca... Naquela noite, a sopa sabia a cadáver...». Afinal, Deus pode morrer. Foi assim que morreu o Deus de Wiesel.

sexta-feira, abril 18, 2008

I knew it!

«I knew it!», diz a cunhada. Alguém já reparou que John Cheever, escritor americano que escreveu Falconer (traduzido, aliás, para português pela Sextante Editora), é, em Seinfeld, o escritor que relembra noites escaldantes numa cabana dedicando «escandalosas» cartas de amor ao pai da Susan, noiva do George Costanza?

quinta-feira, abril 17, 2008

Election



Há já uns meses, tinha apanhado o filme no canal Hollywood. Um liceu como cenário, Reese Whiterspoon a fazer de menina mimada, um actor (Chris Klein) saído do boçal American Pie (filme que, apesar de tudo, aprendi a respeitar), mais uma personagem martirizada de Matthew Broderick, enfim, tudo o que parecia ser um filme sobre liceus americanos. Passados alguns minutos de má vontade minha, mudei de canal para nunca mais voltar.

Voltei lá, no entanto, há poucas semanas. Sem querer, claro. Apanhei o início. O filme chamava-se Election (realizado em 1999). Só aos poucos fui percebendo que era o mesmo que tinha apanhado cerca de um mês antes. Outros olhos o viram. Até mesmo Broderick, actor com o qual não vou à bola, me pareceu ter profundidade. Comecei a gostar da personagem dele. Do filme também. Fiquei a saber também que o realizador é Alexander Payne, e então tudo começou a encaixar-se. Para quem viu About Schmidt e Sideways, a personagem de Broderick faz todo o sentido.

Jim McAllister, tal como Warren Schmidt (Jack Nicholson), Miles (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church), é um homem em queda. Jim tem uma vida pacata e controlada, e é o quebrar dessa normalidade que o leva a uma completa mudança. Tal como a viagem de Miles e Jack e a outra «viagem espiritual» de Schmidt, a «viagem» de Jim é, precisamente, querer «endireitar» as coisas à sua maneira. Pode mudar um pouquinho o seu dia-a-dia e fazer justiça, mas os pequenos actos acabam levando a consequências catastróficas, seja com os resultados das eleições da escola, seja com o seu casamento.

É este efeito de «bola de neve», de como os pequeninos delitos (misdemeanors) se podem transformar em pecados que nos perseguem uma vida inteira, que arrasta Jim McAllister ao longo do filme. Alexander Payne, tal como voltou a fazer nos filmes seguintes, trata este tema com a maior subtileza, com o cuidado de não deixar descambar para a tragédia de levar às lágrimas, mas sim para os filmes tragicómicos que, estranhamente, nos deixam sempre a reflectir acerca da vida. A questão em Election é: afinal, acabamos sempre por ser apanhados ou não? É ver o filme.

Frase do dia

One thing you can say about mankind:
There's nothing kind about man.


Tom Waits

quarta-feira, abril 16, 2008

Os «santos privilégios» dos dirigentes republicanos


Convém (...) sublinhar que, apesar da fraseologia plebeia e igualitária dominante de todos os partidos ou grupos republicanos, só a Carbonária Portuguesa se pareceu com uma autêntica organização popular. No PRP e, a seguir, no Partido Democrático de Afonso Costa, os dirigentes e os militantes não provinham dos mesmos grupos sociais: e, se os dirigentes estavam dispostos a usar os militantes para os seus próprios fins, não estavam, evidentemente, dispostos a permitir que se pusessem em causa os seus santos privilégios.

Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo (A Revolução de 1910)

quarta-feira, abril 09, 2008

Work in progress

Lampedusa



O Leopardo é um romance representativo de uma época, mas não o considero marcante do ponto de vista literário. Muitas foram as vezes em que me perdia na leitura e me distraía do próprio enredo, desinteressante e aborrecido. Mas, independentemente desta sensação, há uma coerência que, podendo ou não ser deliberada, está lá: há uma ligação entre o ritmo do texto e o tenue pulsar de uma aristocracia moribunda que é retratada nesta obra como em nenhuma outra obra. Tal como diz Don Fabrizio no livro, que é «um representante da velha classe, inevitavelmente comprometido com o regime dos Bourbon, e a ele ligado pelos laços da decência, já para não falar dos laços de afecto. Pertenço a uma geração desafortunada que assiste ao final dos velhos tempos e ao início dos novos, e que tanto nuns como noutros se sente deslocada».

O livro (único, aliás) de Giuseppe Tomasi di Lampedusa é, sobretudo, uma obra que marca a resistência dos velhos tempos à mudança e à «modernidade». Não uma resistência enérgica e proselitista, mas uma fechamento da aristocracia sobre si mesma, passando a viver do poder sem representação, do património sem dinheiro, como metáfora da sua real utilidade e importância para o «choque garibaldino» que uma República liberal oferecia aos italianos. Tal como muitas vezes no livro, as personagens olham para os tectos, para as paredes dos seus palácios e palacetes e vêem representações da sociedade que os rodeia. O exemplo mais flagrante do «fim dos tempos» desta aristocracia vem mais para o fim do livro, num momento de viragem, num vaticínio, num mau agoiro: «No tecto, os deuses, reclinados em tronos dourados, olhavam para baixo sorridentes e inexoráveis como o céu de Verão. Julgavam-se eternos; em 1943 uma bomba fabricada em Pitzburg, Pensilvânia, iria provar-lhes o contrário».

A obra de Lampedusa é, sem dúvida, um livro aborrecido. Não nos identificamos necessariamente com estas personagens, com esta aristocracia defunta (já estavam mortos mas ainda não sabiam). Mas é um livro essencial na literatura italiana e europeia. É um romance sobre as fundações do mundo moderno e, mais importante que tudo, sobre o fim de uma outra Europa, de uma outra Itália. Uma faísca de mudança numa aristocracia monótona, como, aliás, também o foi a vida de Lampedusa, que Javier Marías considera um homem igualmente monótono e sozinho, vida na qual O Leopardo, segundo as palavras do escritor espanhol, «foi a única coisa extraordinária que aconteceu na sua vida, e na relaidade aconteceu na sua morte, dezaseis meses depois de ter deixado este mundo».

Numa nota adicional, refira-se o capítulo sobre Lampedusa em Vidas Escritas, de Marias. Se se é leitor compulsivo, não se pode deixar de simpatizar com este homem que, sem ocupação, saía de casa de manhã e lia, lia e lia durante todo o dia, seja num jardim, num café ou num degrau de casa. Saía com um malão sempre cheio de livros (vício com o qual, para minha infelicidade e esforço físico, irremediavelmente me identifico), por medo de ficar sem leitura longe de casa. O maior elogio aos «dotes de leitor» de Lampedusa vem de Marías: «Não só tinha lido todos os autores importantes ou imprescindíveis mas também os de segundo plano e os medíocres, que, sobretudo no que respeita ao romance, considerava tão necessários como os grandes: "Também é preciso sabermos aborrecer-nos", dizia, e lia, com interesse e paciência, a má literatura».

Definhar

Não sei falar sobre isso mas parece que estamos mais ou menos programados para parar. Quer dizer, para morrer. O corpo e o juízo querem paz e não há mais nada que consiga maravilhar. Dores espalhadas pelo corpo, doença crónica, limitações na alimentação, no movimento, ouve-se mal, vê-se pior, socializar torna-se desinteressante. Acho que chega a altura do cansaço e parar assoma com naturalidade. Ontem uma velha dizia para a vizinha, enquanto cavava à beira da estrada na Aldeia do Futuro, concelho de Grândola, «parar é morrer». Ainda não ligamos a esses ditos de velhos. Eu próprio noto as pequenas alterações que o meu corpo sofre. Depois de um dia de trabalho (longo) o meu corpo cheira pior do que há cinco anos. Mesmo com a farsa necessária dos cosméticos o meu corpo começa paulatinamente a apodrecer.


Samuel Filipe, no Esse Cavalheiro

sábado, abril 05, 2008

Vulcano

Tranquilizado, penteou-se, mandou que o calçassem e lhe vestissem a sobrecasaca. Meteu o jornal numa gaveta. Eram quase horas do Rosário, mas o salão ainda estava vazio. Sentou-se num sofá e enquanto esperava, reparou que o Vulcano do tecto se parecia um pouco com as litografias de Garibaldi que vira em Turim. Sorriu. «Um cornudo».

Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo

quarta-feira, abril 02, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

Fidel Neeson



Ainda ninguém me conseguiu provar, com certeza, que não foi Liam Neeson que esteve a governar Cuba todos estes anos, enquanto agente da CIA infiltrado nas Caraíbas.

Pela espada

Segundo a condessa de Mangualde, que falou com ele na própria manhã em que Couceiro se insurgiu no Porto, Aires D'Ornelas comentou: «É a tal coisa! O Couceiro quer tudo à ponta da espada, quando isto pela política ia muito bem!»

Vasco Pulido Valente, Um Herói Português - Henrique Paiva Couceiro (1861-1944)

Revolução na realização



Nadine Labaki

sábado, março 29, 2008

À bruta

Alguém chegou a este blogue em busca de Telma Monteiro sexo à bruta. O Causa das Coisas agradece, é claro, a imagem mental criada pelo leitor.

Primeira Antologia de Microficção Portuguesa



Já está disponível nas livrarias a excelente (e talvez pioneira) iniciativa de pôr em livro a micronarrativa portuguesa e abrir espaço na literatura portuguesa para este género. A editora é a Exodus e a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa pode ser vista e encomendada, pelo menos, aqui. Eu, que dei o meu humilde contributo em palavras para a antologia, sob a batuta persistente e paciente de Rui Costa e André Sebastião (selecção e organização), não posso deixar de me sentir babado por me ver ao lado de excelentes prosadores nacionais.

Os erros de Soljenitsin



O Erro do Ocidente, de Alexander Soljenitsin, não é uma obra na verdadeira acepção da palavra. O livro (disponível em português em edições já escassas da Europa-América) não foi concebido pelo autor para ser um livro mas sim construído a partir de artigos do mesmo nas revistas Time e Foreign Affairs. Nesta última, o artigo publicado foi agressivamente dirigido aos EUA, acusando-os (e ao Ocidente em geral) de um paternalismo ignorante da verdadeira cultura dos Russos. Para Soljenitsin, os americanos têm o defeito de não acreditarem que a Rússia é um país de confessas virtudes atacado pelo «vírus do comunismo». Para o escritor, a Rússia czarista está pejada de virtudes, de progressos médicos e sociais, de liberdades e de tolerância religiosa. Ou seja, os russos rejeitaram e rejeitam (durante a Guerra Fria) o comunismo. É um acesso fantasista, o de Soljenitsin, que afirma que Rússia e União soviética são dois conceitos impossíveis de misturar, tal como água e azeite. Diz o próprio em frase que põe em balança a importância do nacionalismo russo (com o qual ele se identifica): «...uma Rússia a caminho a cura faria recuar a loucura comunista. O renascimento e a libertação nacional russos significam a morte do comunismo russo e, seguidamente, a do comunismo mundial».

De um ponto de vista estratégico-político, o nacionalismo russo de que Soljenitsin falava seria, de facto, um golpe fatal e endémico no comunismo. Mas isso não retira a natureza russa do comunismo russo. Este não teve o género de violência irracional e descontrolada que teve nas experiências asiáticas, mas os métodos calculados de destruição da sociedade, da economia e do próprio povo da Rússia, levados a cabo por Lenine e Estaline, não são isolados da história da Rússia. O conceito de participação democrática nos destinos do país é algo que, mesmo antes de 1917, é pouco claro naquele país. Ainda hoje, se tenta definir e perceber até onde é que, na Rússia de Putin, chegam as liberdades pessoais e a democracia.

sexta-feira, março 21, 2008

Contre l'équinoxe

Os meus votos de apoio ao Bruno, para mais esta luta pela sobrevivência na mudança de estação. Eu, como filho da sinusite, percebo a tormenta de não ter uma meteorologia estável durante toda a minha existência.

Da Frente Popular


Para os homens de esquerda, a Frente Popular é uma grande data da história social e da reforma social em França. Pensam evidentemente nas manifestações, no entusiasmo, nas férias pagas. Pensam na redução da duração do trabalho, no aumento dos salários. Houve certamente durante algumas semanas para muitos, uma ilusão lírica de semi-revolução pacífica. Mas há uma metade da França, uma metadezinha da França, que se lembra por seu lado daquela espécie de anarquia, da ocupação das fábricas, do pôr em causa da sua ordem. Aqueles que não são de direita nem de esquerda, ou quando muito se esforçam por estar acima de ambas, são, como eu próprio, partilhados entre dois fortes sentimentos. De um lado, sem sombra de dúvida, foi um grande movimento de reformas sociais e do outro aquilo foi uma política económica absurda, cujas consequências foram lamentáveis. Agora quando se celebra a Frente Popular na esquerda é um tanto a propensão da esquerda para celebrar as suas derrotas, porque, ao cabo de seis meses ou de doze meses, a Frente Popular estava perdida, e a derrota era devida a uma política económica insensata.

Raymond Aron, O Espectador Comprometido

O estado das coisas



Novamente apaixonado pela NBA, graças às limpezas que os Boston Celtics têm feito aos seus adversários (Kevin Garnett é, cada vez mais, um jogador do outro mundo).

Psycho



Clássico que também resolvi descobrir é Psycho, de Alfred Hitchcock. Sobre ele, pouco tenho a dizer. Sobre obras de génio, quanto mais palavras se gastam, mais se estraga a delicada embalagem que as envolve. Puco tenho a dizer: grande, grande, grande filme. Hitchcock e Freud a «darem» muito de si para a obra-prima que é Psycho. Anthony Perkins tem a actuação de uma vida, e com razão. Eu pensava que Psycho era um cliché. Enganei-me: é mesmo uma obra de génio.

Willy Wonka



Charlie and the Chocolate Factory, realizado em 2005 por Tim Burton, não é um mau filme. Aliás, Burton é um dos meus realizadores preferidos (revi, recentemente, Big Fish e este continua a ter a mesma magia de sempre) e o filme encaixa-se bem no seu percurso. No entanto, passei a ver a história de Roald Dahl com outros olhos depois de ter visto, na semana passada, o anterior filme sobre Willy Wonka e a sua fábrica de confeitaria.

Em 1971, Mel Stuart trouxe-nos uma visão sobre os pirralhos que visitam a fábrica de Wonka e desta visão brotou uma grande obra da Sétima Arte. Willy Wonka & the Chocolate Factory é um mimo. Não tem certos elementos inculcados por Tim Burton: não há uma simpatia pelas personagens trágicas nem uma caricatura geral destas e do ambiente; não há os recursos visuais que estão disponíveis em 2005; não há a deriva de argumento que se nota um pouco na «versão» de Burton; e, sobretudo, não há um Willy Wonka (à la Johnny Depp) com ar de pervertido sexual, a pedir uma maquilhagem como a dos Kiss.

No Wonka de 1971, a moral impera. As crianças são, de facto, pirralhos irremediáveis na sua maioria, e Mel Stuart faz questão de o afirmar, em letras bem gordas nas partes mais musicais, apontando os dedos aos pais que estragaram a personalidade aos filhos. Mel Stuart tem mesmo uma palavra a dizer sobre as crianças que não pegam em livros, e isto, em televisão, é um tesouro. Gene Wilder tem uma excelente interpretação de um Willy Wonka menos absorvido na sua loucura mas mais cínico, com mais maldade e ironia. Para minha surpresa, Willy Wonka & the Chocolate Factory, de Mel Stuart, é um excelente filme. Para quem não viu, devo aconselhar a vê-lo. Se já viu o de Tim Burton e não gostou, não se rale: dê uma chance a esta versão e vai ver que se pode surpreender. Foi o que aconteceu comigo.

segunda-feira, março 17, 2008

Dos massacres na Bósnia

Here [in Bosnia] was genocide. Where was the United Nations? The answer is that it was right there; indeed, with grotesque irony, its forces effectively presided over the worst of the genocidal atrocities.

Niall Ferguson, Colossus

Sobre Saddam

Considering the list of Saddam´s violations of international law and his manifest contempt for the numerous UN Security Council resolutions he had inspired - seventeenth in just four years - the only mystery is why Iraq was not invaded before 2003.

Niall Ferguson, Colossus

Work in progress

TV voto

Ontem, uma vez mais, perdi o meu preciosíssimo mas inutilíssimo tempo a ver uma edição do saudoso Raios & Coriscos na RTP Memória. Como muitos saberão, o programa apresentado por Manuela Moura Guedes foi um grande ícone da «televisão bizarra», juntamente com, vá lá, o Programa do Além, apresentado por Teresa Guilherme, onde um homem ressuscitou um canário com o pescoço partido.

Ressuscitações à parte, o que se passou no Raios & Coriscos de «ontem», que tinha o tema da «Prostituição» e apresentou como convidado principal o major Valentim Loureiro (convite não deliberadamente relacionado com o tema), foi um excelente caso de plebiscito popular e que dá razão a um recente pedido de Valentim (que queria ser julgado na televisão, pelo «povo»): o major, reputado político corrupto e bon vivant (ou, numa versão mais prosaica e menos Casanova, reputado mafioso e putanheiro), resolveu a meio do programa lançar um longo discurso improvisado acerca das condições sociais e económicas em que as pobres raparigas viviam e de que como ele garantia que ia fazer tudo para combater estas causas de desigualdade social. Elevando a voz, tornou-se o centro das atenções. Ao gritar, causou tumulto entre os outros convidados e recebeu uma chuva de palmas da plateia.

Como sempre na história política, ganha quem grita mais e melhor. O povo apoia quem se zanga. Parece séria e firme, a expressão de um homem como Valentim Loureiro, quando grita com alguém. Aplaudem as pessoas, em voto virtual que se perpetua no futuro. Os tubarões da política local, como Valentim, agradecem.

Buckley Jr., 1925-2008



Já conheci William Buckley Jr. em idade mais tenrinha. Não aos 17 ou 18 anos, como muitos começam a conhecer os seus modelos e os tornam em ídolos de forma imediata. Mais desobstinado, eu apenas começei a ler textos de William Buckley Jr. há poucos anos, quer seja na National Review (que pouco compro pela raridade da oferta), quer seja online. Buckley deixou-nos, sobretudo, um pensamento político muito importante, uma linha (flexível e «adaptável», no bom sentido) que não encarrilava pela «união» dos conservadores americanos mas sim pelo debate e combate internos. Ambicionava-se uma saudável separação das águas, embora não querendo ser uma publicação exclusiva de uma direita. A National Review, filho pródigo (embora consensualmente em crise de identidade) de William F. Buckley Jr., foi um dos seus maiores legados. Tal como a revista, a morte de Buckley passou despercebida aos portugueses. Mas ainda há, felizmente, quem reconheça a sua importância. Importância esta que, na segunda metade do século XX americano, é incontornável.

My Fair Lady

Enquanto lia a peça Pigmalião (aliás, genialmente cínica), de Bernard Shaw, estava convencido que encontrava humor na erudição. Lia Shaw, afinal de contas. Já outras vozes, ao espreitar o mesmo livro, diziam-me que eu lia uma versão do My Fair Lady. Infelizmente, parece ser verdade. E o filme de George Cukor talvez mereça a espreitadela nostálgica. Eu, que nunca vi o My Fair Lady ou nada sobre este, dou agora por mim a pensar: será que, afinal... gosto de musicais? Será que os musicais têm então substância? Reviralhos da vida.

Pigmalião

HIGGINS-... Se voltares eu continuarei a tratar-te exactamente da mesma maneira como te tratei até aqui. Não posso mudar o meu feitio; não tenciono mudar de maneiras. As minhas maneiras são exactamente iguais às do coronel Pickering.

LIZA- Isso não é verdade. Ele trata uma florista como se ela fosse uma duquesa.

HIGGINS- E eu trato uma duquesa como se ela fosse uma florista.


George Bernard Shaw, Pigmalião

terça-feira, março 11, 2008

quinta-feira, março 06, 2008

Robin Hood em Setúbal

Já está disponível o meu último artigo no Setúbal na Rede, aqui.
Na origem do artigo, está o sentimento de insegurança reinante em Setúbal. Um excerto: «A senhora Meira tem em crer que o que falta aqui é “inclusão social”. Ou seja, que o crime e a insegurança em Setúbal vêm dos problemas de “exclusão social”. E resolveu vender esta teoria de Hollywood aos munícipes da cidade. Acredita a senhora – e os comunistas na Câmara, pois então – que a “Setúbal rica” está sob o fogo da “Setúbal pobre”. Ora, ou a senhora andou a ler Dickens à balda e acha que estamos no tempo das crianças que roubam maçãs do expositor da mercearia, ou então anda a tentar atirar-nos areia para os olhos com esta fábula de Robin Hood na qual o que se está a passar é uma espécie de justiça social que comete o único erro de ser feita à bruta».

Insónias

Depois de uma noite a pé para ver o resultado das eleições primárias no Texas e no Ohio, fiquei com os sonos trocados. Mas com a certeza redobrada de que, mesmo que a insuportável Hillary Clinton ganhe a nomeação, isso só vai melhorar a situação de John McCain na corrida à presidência. Fico só com pena de Obama não estar a responder como devia ao «cerco» da campanha de Hillary, o que só mostra a diferença de experiência e «tomates» entre os dois, muito embora isto não seja uma razão (sobretudo tendo em conta a natureza das últimas investidas contra o rival democrata) para ter a senhora do sorriso em boa conta.

Manhattan



O filme começa com uma passagem lenta do argumento, «paisagístico», num passeio turístico por Nova Iorque, mais precisamente por Manhattan. Woody Allen começa assim a sua filmagem do excelente Manhattan, um dos melhores filmes do mestre. Os diálogos são a pedra de toque neste filme, como em todos os outros. Mas, um pouco diferente de outros filmes de Allen, Manhattan traz ternura nas relações, sobretudo na relação de Isaac (Woody) com Tracy (Mariel Hemingway). Uma vez mais, não é uma lição sobre a Humanidade nem sobre o Amor. Quando muito, é uma advertência sobre como não se pode viver em Nova Iorque sem um bom psicanalista.

quarta-feira, março 05, 2008

Conquistador



Hugo Chávez podia perfeitamente, nesta imagem, estar a pedir às alminhas dos céus que protejam as suas aventuras na América do Sul, que protejam a sua sorte ao meter-se onde não é chamado e ao mostrar a sua gula a todo o continente. Numa visão mais política e menos subjectiva, está, seguramente, a pedir aos céus que não metam os Estados Unidos no que se vai passar na Colômbia. A guerra no Iraque (e a consequente ocupação dos recursos militares americanos) foi o melhor que aconteceu a Chávez.

terça-feira, março 04, 2008

Napoleão em 1808 e 2008

Os Napoleões chegam e partem, seja qual for o país. O pecado (grego) da hubris atinge qualquer homem ou mulher embriagado de poder, seja esse poder dado pelo cargo ou dado pelo triunfo. É claro que depois dependerá do sítio onde esse Bonaparte governa. Em pequenos países com pequenos costumes, os Napoleões triunfam de forma diferente, e com um horizonte peculiar. Isso não quer dizer que, em 2008, não existam personagens portuguesas com um «apetite» igual ao de Bonaparte de 1808.

Veja-se um excerto de The Age of Napoleon, pequeno livro sobre o também pequeno ditador da Córsega: «Ruling a France intoxicated with glory, after Tilsit the Emperor was no longer in a mood to listen to anybody. He closed down the Tribunate and, on Talleyrand's resignation, replaced him by the docile, sycophantic Minister of the Interior, Champagny. Among other changes, a more rigorous court etiquette kept everyone literally at arm´s length, unable to approach him without the approval of Duroc, Grand Marshall of the Palace. Thus Napoleon became surrounded by sycophants, a sure sign of the corruption of power».

sábado, março 01, 2008

Minguante


A Minguante nº 9 já está disponível. Dentro dela, entre excelentes textos e e-books, mais um texto muito modesto da minha autoria.

O sonho apodrece

Coitado do Rodrigues... Plantara a vida no sonho, o sonho apodrecera. Passava tudo por ele tão depressa... Queria que o sonho durasse. Segurar o instante perdido - as gerações novas chegavam, partiam, ele ficava ainda. Uma bala suicida sagrou-o enfim jovem para sempre.

Vergílio Ferreira, Apelo da Noite

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

A China das contradições



Federico Rampini é o correspondente do La Repubblica em Pequim. Ou seja, um enviado italiano – ocidental – à China. É uma visão ocidental, por vezes apaixonada ou fascinada sobre o futuro da China, assim como sobre o seu passado, embora pejada de críticas à sociedade chinesa, nomeadamente ao que depende do controle do poder. O «período» (ainda que virtual) foco das atenções do jornalista é inaugurado pelas manifestações e pelas repressões de 1989, marcadas pelo incidente da praça Tiananmen, uma espécie de marco histórico a partir do qual Rampini avalia uma China em constante mudança.

Em relação a esses incidentes em Tiananmen, o jornalista italiano salienta a acção de Deng Xiaopeng que, anteriormente visto como um homem mais sensato, mais «pragmático», revela nesse dia ao Ocidente a verdadeira natureza do seu governo, abrindo as hostilidades contra os manifestantes. É um governo de homens imprevisíveis, absolutamente reverentes à autoridade central, cuja única crítica ao poder é aquela dirigida aos poderes locais, aos hipotéticos «burocratas corruptos» que grassam nas províncias e nos sítios onde o poder do governo central não chega. E, de facto, essa corrupção existe, e abusa dos chineses – camponeses ou não – que, muitas vezes, perdem as suas casas sem nenhuma retribuição ou compensação. Burocratas que recebem «luvas» de grandes multinacionais, dirigentes de faculdades que pedem subornos aos pais dos novos alunos, eliminação da oposição através de detenções e assassinatos.

Mas não se pense que tudo isto se faz totalmente à margem do poder central. É, aliás, a própria natureza do comunismo chinês (às vezes penso se isto será, ainda, comunismo) que leva a que os abusos tenham lugar. E é a própria sociedade chinesa que, ao invés do que se pensa, tem tudo menos pureza. Muito pelo contrário, há tiroteios na escolas, tal como na «terra da perdição» dos Estados Unidos da América. Há, mais importante que tudo, uma leviandade na aplicação de penas pesadíssimas, sejam elas dezenas de anos de prisão por oposição política e cívica ou a pena capital aplicada às mãos cheias. Leia-se, por exemplo, este excerto:

«Todos os anos, neste país são fuziladas ou eliminadas por injecção letal pelo menos 10.000 pessoas: um número que ultrapassa em cinco vezes as condenações à morte executadas em todo o resto do mundo, Estados Unidos incluídos.
Não obstante o mal-estar dos intelectuais e dalguns dirigentes mais iluminados, a pena de morte conta ainda com um sólido futuro na China.»


A China não se resume a um país dividido entre as exportações chinesas, as multinacionais nacionais e estrangeiras e o Partido único. Não, O Século Chinês mostra-nos uma China cheia de contradições, cheia de promessas e de ameaças, cheia de poderes autoritários mas também de inúmeros contra-poderes amordaçados espalhados pela sociedade. O livro acaba com uma «balança» entre os poderes emergentes da China e da Índia, competidores que podem resultar no melhor ou, se faltar a confiança em si mesmos, no pior.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sobre a insegurança em Setúbal.

Dois posts do Luís Silva no Office Lounging. E um link para um «resumo» de uma entrevista a Maria das Dores Meira.

Death of a Salesman

Não digo que ele seja um grande homem. Willy Loman nunca ganhou rios de dinheiro. Os jornais nunca falaram nele. Não é nenhum génio, bem entendido. Mas é um ser humano, e está a sofrer terrivelmente. Isso é que é preciso não esquecer. Não se deixa morrer um um homem assim sem mais nem menos como um cão.

Arthur Miller, Morte de um Caixeiro-Viajante

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Insurgentes (emenda)

Uma fonte próxima do Insurgente vem-me agora revelar que, afinal, a «tomada de posse» do blog por um grupo de «palhaços desocupados» - segundo um post meu - foi mais amigável do que pareceu. Eu, que só tinha visto ontem o manifesto inicial, não percebi isso. Retraio-me agora, após aperceber-me da figura «úrsica» que fiz. Viva la revolución, pois então.

Óscares

Hoje é dia de ficar levantado até mais tarde do que o normal. A velhice prematura do meu corpo bem que me diz que não, que não será um dia de serão mas mais um dia de adormecer no sofá, de boca aberta e baba a escorrer para a t-shirt. Mas os Óscares falam mais alto, e o tédio televisivo (sem Sopranos na 2:) precisa de ser quebrado.

Antes de de mais, tenho curiosidade com Jon Stewart, que em tempos me fez rir antes de «afunilar» de vez para o humor liberal sem graça. Não é Robin Williams nem Billy Crystal, mas lá dará para o gasto. Para os próximos anos, gostava de ver, talvez, Conan O'Brien ou Wanda Sykes, dois humoristas geniais muito cá de casa. De resto, tirando a curiosidade competitiva de saber quem ganha as estatuetas, pouco mais me interessa na dita «cerimónia dos vestidos bonitos».

Em relação a filmes, os favoritos serão There Will Be Blood e No Country For Old Men. O primeiro vi, e gostei muito. O segundo tenho vindo a aplaudir antes sequer de o ver, para o que estou ansioso (os irmãos Coen nunca me desiludiram, não será desta vez que isso acontece). Respectivamente, deverão sair vencedores, e com mérito, Daniel Day-Lewis e Javier Bardem, dois homens que estão a entrar, passo a passo, na galeria dos actores de culto do mundo do cinema, provando o espanhol que o mundo das «estrelas» de cinema é universal, assim como o seu mercado.

Uma curiosidade: gostava de ver Ellen Page levar a estatueta. Ainda não vi Juno, mas deverá ser a minha próxima escolha, influenciada também pela pressão feminina cá de casa. E consta que Ellen Page está muito bem nesse filme. Que ganhe ela, mais não seja pela simpatia que me conseguiu roubar.

Insurgentes

É através do blogue do Bruno, em primeira mão, que me apercebo da pobreza de espírito do que se passa na blogosfera. Nomeadamente, neste caso, a tomada de assalto do Insurgente por uns pretensos «activistas». O Bruno chama-lhes «grupo de extrema-esquerda». Eu chamo-lhes «grupo de palhaços desocupados». Espero que os insurgentes apliquem um valente pontapé no cu de alguém e voltem de novo ao serviço. Resumindo: mais um episódio triste e patético da incapacidade de conviver com opiniões alheias.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Patrimony



Um dos melhores livros de Philip Roth terá de ser, sem dúvida, Patrimony. É um romance sobre factos. Uma narrativa simples, humilde e respeitosa sobre os últimos dias do pai do próprio Philip Roth, visto pelos olhos do filho. A maneira como Herman Roth sucumbe, aos poucos, à frustração e à fragilidade de um octagenário judeu seguro de si mesmo mas com um tumor na cabeça, deixa-nos rendidos ao livro, e à história dos Roth. Porque a morte, tal como em quase todos os livros de Philip Roth, mais não é do que uma maneira de pensar a própria vida.

They fought two battles

You know how it was: these kids grew up, they had a tough life, the slums, no money, and they always had an adversary. The Christian religion was an adversary. They fought two battles. They fought because they were fighters, and they fought because they were Jews. They'd put two guys in the ring, an Italian and a Jew, an Irishman and a Jew, and they fought like they meant it, they fought to hurt. There was always a certain amount of hatred in it. Trying to show who was superior.

Philip Roth, Patrimony

domingo, fevereiro 17, 2008

Kids



Kids (1995), de Larry Clark, não é um filme bom de se ver. É o primeiro filme que vejo do homem e, a despeito do culto que lhe é devido, continuo a gostar muito mais de Gus van Sant, comparando dois realizadores que costumam mergulhar no tema da perdição juvenil ou do desafio que é crescer normalmente. Larry Clark é (pelo menos em Kids) brutal, directo e polémico. Tudo isto é muito bom, mas o que fica no fim é também uma certa noção de perversão que, ao avaliar outros filmes do currículo de realizador de Clark, parece ser transversal a Ken Park ou a Bully. Será um bom argumento? Não, muito pouco para dar. Mas será Larry Clark um bom realizador? Para ser sincero, os recursos de cinema são muito bons, e a filmagem tem qualidade e maturidade. Terei de esperar até ver mais filmes seus para confirmar as minhas duas opiniões.

sábado, fevereiro 16, 2008

Mirror


José Sócrates, ao deparar-se com uma manifestação de professores, que assobiavam os dirigentes socialistas à porta da sede do PS, disse que esta é uma atitude «antidemocrática» e «estalinista». E ainda dizem que Portugal não tem boa literatura, bom cinema e bom humor.

Os livros não nadam

Nota para mim próprio: não voltar a andar com um livro na mão quando me debruço sobre a banheira. Porque os livros, para além de não nadarem, são pouco higiénicos e dispensam o banho.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

There Will Be Blood



Ao filme faltam alguns «nós», alguns desfechos que poderiam ser importantes. Falta o desenrolar de uma grande história. There Will Be Blood não é só um dos maiores papéis de Daniel Day-Lewis (ou o seu maior papel da sua maturidade cinematográfica), é também um épico fenomenal, uma saga. Mas deixa uma certa sensação de incompletude no final, uma necessidade de catárse, de um castigo ou um destino mais decisivo para Daniel Plainview (Day-Lewis). Uma intepretação muito boa do homem de In the Name of the Father, mas também uma considerável promessa de Dillon Freasier, mini-actor de talento. Vale muito a pena o tempo pasado no cinema para este filme de P.T.A..

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A queda de Hillary

Barack Obama parece estar de novo à frente da corrida Democrata à Casa Branca. Fico contente. Não apenas por ter esta «personality fever» que por aí anda (tal qual JFK, se bem que eu nunca teria esta atitude com JFK) em relação a Obama, aparentemente franco sem ser ingénuo, relativamente impoluto sem ser inexperiente. Obama inspira-me, sobretudo, pela sua atitude e pela sua história de vida simples, e não tanto pelo seu «conteúdo» ideológico (aparentemente inexistente, segundo muitos).

Ora, isto não acontece com Hillary Clinton. Hillary traz a dinâmica do riso forçado, estético, cirúrgico. Traz a energia de uma candidata que parece ter dedicado décadas da sua vida a preparar-se para isto. O que só comprova a tese da «dinastia Clinton», como se de uma família real se tratasse. É possível confundir, sim, as duas coisas, tal como se Hillary mais não fosse que um princípe tentando agradar à força aos seus súbditos. Tem hipóteses, claro. É mulher, o que agrada às hostes politicamente correctas, com mais pejo de confrontar uma candidata feminina em alguns temas. Tem muitos anos de Casa Branca, o que lhe dá uma proximidade da Presidência que nenhum outro candidato alguma vez teve. E carrega um portfolio de Senado, e de «vampira» de Washington, que Obama não consegue igualar.

Mas Hillary tem igualmente nos seus «trunfos» as nuances que a enfraquecerão no fim: é uma mulher na política, facto pessoal que não lhe traz especial confiança política em alguns estados importantes, o que não deixa de acontecer também com Obama, no entanto; tem demasiados anos de proximidade de uma presidência assombrada por um escândalo sexual (cujo crime foi o perjúrio, não as «facadinhas matrimoniais» do homem), participando Hillary involuntariamente da mentira de Bill Clinton mas ficando no ar a hipótese de aproveitamento político; por fim, os muitos anos no Senado também fizeram dela uma perfeita raposa política, sem sombra de opinião própria e de princípios que não sejam os da maioria, facilmente oscilando de um voto para outro e facilmente, também, perdendo o fio à meada.

Por fim, Hillary, ao tentar «fintar» Obama, ao querer pôr-se mais ao centro, deixou-se ficar mesmo a jeito para o surgimento de um candidato mais moderado (Giuliani ou McCain) entre os republicanos. É que, tentando apelar aos sectores conservadores e fugindo do eleitorado habitual, acabou por se meter na toca do lobo. Huckabee (candidato que aprecio pela representação franca de uma fatia bem definida do eleitorado, surpreendentemente fugindo à demagogia fácil com discursos bastante bons) não terá hipóteses e Romney, felizmente, também não. Resta John McCain que, com o seu cartão de entrada e com os inevitáveis votos republicanos, parece ter contribuído para a situação corrente: Hillary encurralada entre ele e Obama. Para onde se virar agora? Hillary não sabe.

Dor do Século



Alain Besançon, em A Dor do Século, faz o exame imperativo aos sistemas comunista e nazi. Não é a prmeira vez que leio um livro que siga esta linha, nem é um argumento inovador o de afirmar que a destruição causada pelo comunismo não foi menor do que aquela causada pelo nazismo. Uma destruição tanto física, como política e moral. Mas a do comunismo foi (ou é) uma que ultrapassa a impulsividade da ideologia nazi (que preenche completamente a história da experiência nazi alemã, de facto), deixou marcas que dificilmente serão saradas e destruiu valores que, em alguns países, nunca serão recuperados.

Sobretudo, há a ideia de que, enquanto o mundo se unia contra o nazismo, nunca houve um «movimento» equivalente a uma escala europeia ou universal contra o comunismo. Os comunistas russos e chineses, ao expandirem-se de forma mais pontual, nunca conseguiram reunir uma «condenação» universal das nações mais poderosas. Houve e há um certo tabu de admitir que a ideologia comunista provou-se na prática enquanto inviável. E isto não tem só a ver com os exemplos tanto do manual Mein Kampf (reduzindo o pensamento de Hitler especificamente ao homem do Reich) como de qualquer outra vulgata leninista. Tem a ver com o homem criado pelas ideologias.

Diz Besançon: «O homem nazi e comunista oferece-se ao exame clínico do psiquiatra. Parece emparedado, isolado da realidade, capaz de argumentar indefinidamente em círculo com o seu interlocutor, obnubilado, e no entando persuadido de ser racional». Este homem é o soldado-ideólogo, uma mistura de combatente fiel com pastor substituto da personalidade de Hitler e de Estaline. É este homem que, seja qual for a linguagem que use, não hesitará em proceder ao genocídio. Pelo bem da Humanidade, diria qualquer um deles.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

domingo, fevereiro 03, 2008

O seio nu


O senhor Palomar caminha ao longo de uma praia solitária. Encontra poucos banhistas. Uma mulher jovem está estendida na areia, apanhando sol com os seios descobertos. Palomar, homem discreto, volve o seu olhar para o horizonte marinho. Sabe que em semelhantes circunstâncias, quando um desconhecido se aproxima, as mulheres, geralmente, apressam-se a cobrir-se, e isso não lhe parece bem; porque é aborrecido para a banhista que apanha sol tranquilamente; porque o homem que passa sente que importuna; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; porque as convenções não inteiramente respeitadas propagam a insegurança e a incoerência no comportamento, em vez da liberdade e da franqueza.

Por isso, assim que vê aparecer à distância a nuvem brônzeo-rósea de um torso nu feminino, apressa-se a colocar a cabeça de molde a que a trajectória do seu olhar permaneça suspensa no vazio, como garante do seu respeito cívico pela fronteira invisível que circunda as pessoas.


Italo Calvino, Palomar

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

D. Carlos

O homem deixou-me saudades, e não só nunca o conheci ou ouvi a sua voz, como nem sequer sonho como será ter vivido sob o seu reinado. Não sou monárquico, não sou saudosista da monarquia e não acho que um Estado sem sangue azul esteja condenado ao naufrágio. Não o acho particularmente bonito ou fotogénico, não sei se votaria nele se se candidatasse a cargos públicos. Nunca vi pinturas suas (por reputação jeitosas) ou admirei algo feito por si. Não o adoro, mas também não desgosto da figura. Não pego num rei martirizado por oposição à malfadada República, mas também não nego que fico um vácuo de ar e de veneno no espaço que o rei deixou. Mil e uma coisas que poderia procurar em D. Carlos para gostar dele como estadista, mas a simples verdade é que fico com a impressão de gostar do homem por ele mesmo. E uma impressão de que, acima de tudo, se acabou com um homem muito decente, equilibrado e prometedor em nome de muito pouco.

A decisão de matar o rei foi tomada a 1 de Fevereiro de 1908, há precisamente 100 anos. Buiça e Costa, personagens misteriosas e ao mesmo tempo prosaicas, deitaram D. Carlos e D. Luís ao chão, lavando a ideologia republicana em sangue. Não se pode é censurar os republicanos por este acto de coerência ideológica: não imagino a República a nascer sem esta manifestação dos radicais. Uma pena.

Substituições



Ando muito preocupado com estas substituições que andam por aí a ser «efectuadas» (tal como o agente da GNR que hoje, na televisão, ouvi recomendar que não se «efectue a condução» quando «sob o efeito de álcool ou psicotrópicos» - isso mesmo, efectuar a condução). Falo, claro está, das futuras substituições de Matheus e Edinho, jogadores-chave do meu Vitória, cada um a sair para o seu sítio. Como é que substitui um jogador importante num clube em dificuldades financeiras? Com esperança e audácia... e um jogador vitoriano mais fraquito (jogadores esses que eu prefiro chamar, eufemisticamente, «diamantes em bruto por delapidar») a tentar superar-se a si mesmo.

Por outro lado, preocupam-me as substituições das encomendas da Amazon que, nos últimos dois meses, parecem chegar aleatoriamente à minha casa. Umas vezes chegam, outras vezes não. E não há substituição à vista. Onde vão aqueles livros parar, ninguém sabe. Tanta reorganização e remodelação geográfica e ninguém me diz o que se passa com os CTT?

E, por falar em assuntos políticos fracturantes, tenho reparado que muito boa gente anda por aí a aplaudir a fantochada da subtituição de dois ministros deste governo. Sai Correia de Campos, um ministro maldito que foi (ingenuamente ou não) encarregue de sujar as mãos de sangue - sem intenção de trocadilho - no Ministério da Saúde e, com ele, José Sócrates rasga e põe no cesto uma página da sua «obra», como se de redenção se tratasse. Entra uma mulher desconhecida no meio político e logo vibram os portugueses, sem pensar no que aí vem e, sobretudo, no que precedeu esta substituição.
Pior ainda é a mudança no Ministério da Cultura. Se, na Azambuja, não tivessem fugido dois tigres do Circo Chen, eu diria que a «remodelação» da pasta da Cultura foi o maior momento de entretenimento da semana. Não querendo diminuir António Pinto Ribeiro, soa-me apenas a manobra de diversão por parte de Sócrates. Mário Lino ainda tem de sujar as mãos com algo mais - não é ainda o tempo de o sacrificar, porque «sujo» já ele está. E, se sou eu o único a ver isto e a não «aplaudir», então da minha parte é apenas uma de duas coisas: cepticismo ou paranóia.

O estado das coisas



Hoje não me apeteceu ir trabalhar, e portanto não fui. Haverá algo melhor do que ouvir Highway 61 Revisited num dia destes?

Das máquinas, dos homens

Os homens são máquinas. E nós, por imitação, somos homens. Pode-se ensinar uma máquina, mas não se pode retirar dela amor e vida. A máquina não pensa nem ama, apenas repete e responde.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Pequenas nostalgias

Ouvir Mário Soares, numa sessão do Câmara Clara, a falar do «senhor André» da livraria.

Mao e a herança do poder



Mao tornou-se um símbolo, não do comunismo «antigo» chinês, nem do Partido Comunista na actualidade. Mao Tsé-Tung não é mais do que um ícone nacionalista que todos querem capitalizar para si mesmos.
Nadando à tona da verdade em relação às vítimas da Revolução Cultural, do Grande Salto em Frente, a nomenclatura do partido único chinês legitima a sua própria existência, enquanto «partido único», predominantemente a partir do mito de Mao como defensor da independência e dos valores da China contra o invasor nipónico. Descendentes de Mao, as elites chinesas serão assim as únicas figuras possíveis para liderar os chineses.

Ao criticarem Mao, estas elites perderiam um pai ideológico, perderiam o cordão umbilical à génese do nacionalismo chinês que ainda hoje inspira muita da população da China, em especial agricultores.
Nacionalismo e valores caducos, a memória mentirosa de Mao, é esta a cruz que os governantes da China ainda carregam. Que volta a dar? Ninguém sabe...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Crença

Mas se não fosse para atrasados não era crença. Tu queres que a crença seja racional. Mas então não era crença. A queda dos graves não é uma crença. Dois e dois são quatro não é uma crença. Houve um santo que disse «creio porque é absurdo». Pois está claro que se não fosse absurdo, não era coisa de se crer.

Vergílio Ferreira, Para Sempre

terça-feira, janeiro 22, 2008

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Corda na garganta

Relações de trabalho: ter a corda na garganta tem muito que se lhe diga. Já não é o mesmo que ser judeu na Alemanha ou sunita no Iraque, mas traz um certa atitude paranóica com essa «corda». Quando alguém nos quer longe, há que ter cuidado em não pisar o risco, mas também é importante não trilhar o caminho que os outros escolhem. Não ter controlo sobre o sentido que se toma deixa uma marca igual ou pior do que a da corda na garganta.

O estado das coisas

Ritmo de trabalho

Sou o que menos produz no sítio onde trabalho. Mas também me sinto mais são ao fim do dia.

sábado, janeiro 12, 2008

O líder da «guerrilha»



Rui Ramos sobre Luiz Pacheco (1925-2008), aqui.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Aventuras revolucionárias

Chora Hillary, chora

Honestamente, aquela lágrima e a voz tremida que a acompanhou pareceram-me genuínas, o que, longe de "humanizar" Hillary, apenas a prejudica. Tudo porque ela "chora" por estar a perder a corrida eleitoral que julgava há anos estar ganha à partida, o que em vez de provocar a empatia dos eleitores, apenas acaba por lhes confirmar a ideia de que Hillary é uma mulher obcecada com o poder: ela "só chora" por perder eleições. Genuína ou encenada, a lágrima de Hillary é tudo menos uma ajuda à candidata.

Bruno Alves, Desesperada Esperança, mais aqui.

Eraserhead



Eraserhead: o filme mais irritante de David Lynch. Desde Lost Highway que a minha opinião acerca de Lynch, e sobretudo acerca dos que idolatram Lynch, não descia tanto. Claro que The Elephant Man é um dos meus filmes favoritos. Claro que Dune tem a qualidade e nostalgia da ficção científica que eu adorava enquanto menino. Claro que The Straight Story é um filme muito bonito (bonito é a palavra certa, e olhem que é uma palavra que muito honro e protejo no mundo do cinema). Mas nada disto retira a Eraserhead a categoria de filme sobrevalorizado da qual eu definitivamente não recuo.

O único ponto positivo deste filme é Henry, a personagem principal insone e tensa, peculiar, facilmente comparável com o próprio Lynch. Mas, em geral, Eraserhead é confuso, barulhento e irritante. Sons de fábrica, apitos, guinchos, cenas oníricas mais parecidas com tripes de heroína. Para mim, ir vê-lo ao cinema foi mesmo uma má experiência. Dizer que fiquei desiludido é até muito simpático para com Lynch, porque não deixo de gostar bastante de outros filmes do homem.

Advertência ao leitor

A ausência de computador normalmente implica que não se possa escrever no blogue. É precisamente isso que tem acontecido. Como todos os homens, as máquinas também se vão abaixo. Promete-se mais regularidade dentro em breve.

domingo, dezembro 30, 2007

Colombo e a viagem falhada

Hoje, se pegarmos um avião da Espanha para Calcutá e aterrisarmos no Caribe, só há duas possibilidades: ou o piloto bebeu, ou sequestraram o avião. Claro, você também pode estar no avião errado. Chance remotíssima, os embarques são controlados electronicamente.
No entanto, foi exactamente isto que aconteceu a Cristóvão Colombo (...).


Angela Dutra de Menezes, O Português que nos Pariu

Combater o Mal

Para combater o Mal, afastamo-nos de Deus.

John Patrick Shanley, A Dúvida

A Dúvida



O cenário: uma escola católica no Bronx, Nova Iorque - no ano de 1964 -, depara-se com o dilema da inocência ou culpa de um padre, acusado de assediar sexualmente um rapaz de doze anos. Ir ver A Dúvida ao Teatro Maria Matos teve logo o sucesso inicial de me levar ao teatro, coisa que, por maldade ou cautela, evito. Talvez seja preconceito não ir mais vezes. Talvez seja ignorância. Ou talvez eu apenas não acredite na qualidade geral do nosso teatro. Mas A Dúvida, de John Patrick Shanley, teve o dom de me colocar em permanente dúvida (perdoem-me o trocadilho). Ver Diogo Infante - um dos melhores actores portugueses vivos - e Eunice Muñoz - carisma impermeável à idade - juntos no mesmo palco deixa-nos de boca aberta e sem noção do tempo. O teatro pode-nos deixar agarrados horas e horas e horas seguidas, sem sequer pensar em levantar o rabo do assento. Aprendi isso hoje, com a peça de Shanley. E aprendi que o cinema não deve monopolizar a minha atenção. Há espaço para eu admirar o palco.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Zelig



Zelig é um filme «muito cá de casa», e revi-o há dias com a maior das euforias. Tem o humor mais subtil de Woody Allen e uma viagem de reflexão/desafio/respeito/gozo à personalidade humana e à psicanálise. Ainda por cima tem figuras como Saul Bellow ou Bruno Betelheim a participarem no filme da forma mais convincente possível. É um dos grandes filmes do século XX e sobre o século XX.

Menezes isn´t there



Quando Marques Mendes estava à frente do PSD, fazia-se oposição na Assembleia. As vozes logo se levantaram contra o homem que, para além de ser «muito piquenino para ir a algum lado», não fazia «oposição como deve ser». Quis-se Luís Filipe Menezes, que prometia dar uma nova cara à oposição. Dizia-se que ele iria «abanar o barco». O próprio Menezes dizia que iria trazer uma mudança radical «já». E trouxe: a oposição do PSD praticamente desintegrou-se. Afinal, tinha razão quando falava da rapidez do seu trabalho. É até, na verdade, um recorde memorável: nunca um político desapareceu tão depressa.

O dono da faca

O dono da faca nem sempre é o verdadeiro criminoso.

Graham Greene, O Terceiro Homem

Holanda

A Holanda é um país que não inspira amantes. Todos os homens usam chapéu e cumprimentam em protocolo translúcido -, as crianças fumam cigarrilhas, todos talhos são floridos em contraste português,- se um carniceiro em Portugal pusesse flores nas montras do talho passava a ser considerado como pederasta oficialmente reconhecido pelo grémio.

Ruben A., Páginas I

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Na Consoada, acampar no Cambodja



Antes do Pai Natal chegar, ainda há tempo para exprimir aqui a minha gratidão para com Rui Ramos por nos ter trazido as palavras sábias de Luís Filipe Menezes. É de louvar, sobretudo, a coragem e paciência de Rui Ramos ao mergulhar no livro Coragem de Mudar, da autoria da referida personagem política. Por exemplo, esta passagem do artigo matou-me a sobriedade cinzenta de Consoada: «O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora sobre a sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: "sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição". Ou isto: o "cosmopolitismo para mim é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no norte do Cambodja" (p. 21)». Ou então, também podemos reflectir neste nostálgico devaneio de Menezes: «"Há dois anos atrás, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena que estas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão..." (p. 44)».

Muito bom. Apenas ultrapassado em qualidade pela resposta do líder do PSD, em entrevista no Expresso, quando lhe perguntam o que achou deste artigo de Rui Ramos: «mas esse senhor não terá filhos?». Só por isto, Menezes já merecia o meu voto de confiança. Toda a gente gosta de comediantes, e ninguém leva a mal a parvoíce. Agora começar a fazer política a sério? Isso é que eu nunca lhe perdoaria.

domingo, dezembro 23, 2007

Xmas

A Causa das Coisas deseja que o leitor tenha um Feliz Natal. E, para quem não aprecia muito o Pai Natal, então deixo também um conselho: aproveitar a quadra para ouvir boa música, como a que é tocada pelas únicas boas pessoas a vestir de vermelho.