terça-feira, abril 01, 2008

Pela espada

Segundo a condessa de Mangualde, que falou com ele na própria manhã em que Couceiro se insurgiu no Porto, Aires D'Ornelas comentou: «É a tal coisa! O Couceiro quer tudo à ponta da espada, quando isto pela política ia muito bem!»

Vasco Pulido Valente, Um Herói Português - Henrique Paiva Couceiro (1861-1944)

Revolução na realização



Nadine Labaki

sábado, março 29, 2008

À bruta

Alguém chegou a este blogue em busca de Telma Monteiro sexo à bruta. O Causa das Coisas agradece, é claro, a imagem mental criada pelo leitor.

Primeira Antologia de Microficção Portuguesa



Já está disponível nas livrarias a excelente (e talvez pioneira) iniciativa de pôr em livro a micronarrativa portuguesa e abrir espaço na literatura portuguesa para este género. A editora é a Exodus e a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa pode ser vista e encomendada, pelo menos, aqui. Eu, que dei o meu humilde contributo em palavras para a antologia, sob a batuta persistente e paciente de Rui Costa e André Sebastião (selecção e organização), não posso deixar de me sentir babado por me ver ao lado de excelentes prosadores nacionais.

Os erros de Soljenitsin



O Erro do Ocidente, de Alexander Soljenitsin, não é uma obra na verdadeira acepção da palavra. O livro (disponível em português em edições já escassas da Europa-América) não foi concebido pelo autor para ser um livro mas sim construído a partir de artigos do mesmo nas revistas Time e Foreign Affairs. Nesta última, o artigo publicado foi agressivamente dirigido aos EUA, acusando-os (e ao Ocidente em geral) de um paternalismo ignorante da verdadeira cultura dos Russos. Para Soljenitsin, os americanos têm o defeito de não acreditarem que a Rússia é um país de confessas virtudes atacado pelo «vírus do comunismo». Para o escritor, a Rússia czarista está pejada de virtudes, de progressos médicos e sociais, de liberdades e de tolerância religiosa. Ou seja, os russos rejeitaram e rejeitam (durante a Guerra Fria) o comunismo. É um acesso fantasista, o de Soljenitsin, que afirma que Rússia e União soviética são dois conceitos impossíveis de misturar, tal como água e azeite. Diz o próprio em frase que põe em balança a importância do nacionalismo russo (com o qual ele se identifica): «...uma Rússia a caminho a cura faria recuar a loucura comunista. O renascimento e a libertação nacional russos significam a morte do comunismo russo e, seguidamente, a do comunismo mundial».

De um ponto de vista estratégico-político, o nacionalismo russo de que Soljenitsin falava seria, de facto, um golpe fatal e endémico no comunismo. Mas isso não retira a natureza russa do comunismo russo. Este não teve o género de violência irracional e descontrolada que teve nas experiências asiáticas, mas os métodos calculados de destruição da sociedade, da economia e do próprio povo da Rússia, levados a cabo por Lenine e Estaline, não são isolados da história da Rússia. O conceito de participação democrática nos destinos do país é algo que, mesmo antes de 1917, é pouco claro naquele país. Ainda hoje, se tenta definir e perceber até onde é que, na Rússia de Putin, chegam as liberdades pessoais e a democracia.

sexta-feira, março 21, 2008

Contre l'équinoxe

Os meus votos de apoio ao Bruno, para mais esta luta pela sobrevivência na mudança de estação. Eu, como filho da sinusite, percebo a tormenta de não ter uma meteorologia estável durante toda a minha existência.

Da Frente Popular


Para os homens de esquerda, a Frente Popular é uma grande data da história social e da reforma social em França. Pensam evidentemente nas manifestações, no entusiasmo, nas férias pagas. Pensam na redução da duração do trabalho, no aumento dos salários. Houve certamente durante algumas semanas para muitos, uma ilusão lírica de semi-revolução pacífica. Mas há uma metade da França, uma metadezinha da França, que se lembra por seu lado daquela espécie de anarquia, da ocupação das fábricas, do pôr em causa da sua ordem. Aqueles que não são de direita nem de esquerda, ou quando muito se esforçam por estar acima de ambas, são, como eu próprio, partilhados entre dois fortes sentimentos. De um lado, sem sombra de dúvida, foi um grande movimento de reformas sociais e do outro aquilo foi uma política económica absurda, cujas consequências foram lamentáveis. Agora quando se celebra a Frente Popular na esquerda é um tanto a propensão da esquerda para celebrar as suas derrotas, porque, ao cabo de seis meses ou de doze meses, a Frente Popular estava perdida, e a derrota era devida a uma política económica insensata.

Raymond Aron, O Espectador Comprometido

O estado das coisas



Novamente apaixonado pela NBA, graças às limpezas que os Boston Celtics têm feito aos seus adversários (Kevin Garnett é, cada vez mais, um jogador do outro mundo).

Psycho



Clássico que também resolvi descobrir é Psycho, de Alfred Hitchcock. Sobre ele, pouco tenho a dizer. Sobre obras de génio, quanto mais palavras se gastam, mais se estraga a delicada embalagem que as envolve. Puco tenho a dizer: grande, grande, grande filme. Hitchcock e Freud a «darem» muito de si para a obra-prima que é Psycho. Anthony Perkins tem a actuação de uma vida, e com razão. Eu pensava que Psycho era um cliché. Enganei-me: é mesmo uma obra de génio.

Willy Wonka



Charlie and the Chocolate Factory, realizado em 2005 por Tim Burton, não é um mau filme. Aliás, Burton é um dos meus realizadores preferidos (revi, recentemente, Big Fish e este continua a ter a mesma magia de sempre) e o filme encaixa-se bem no seu percurso. No entanto, passei a ver a história de Roald Dahl com outros olhos depois de ter visto, na semana passada, o anterior filme sobre Willy Wonka e a sua fábrica de confeitaria.

Em 1971, Mel Stuart trouxe-nos uma visão sobre os pirralhos que visitam a fábrica de Wonka e desta visão brotou uma grande obra da Sétima Arte. Willy Wonka & the Chocolate Factory é um mimo. Não tem certos elementos inculcados por Tim Burton: não há uma simpatia pelas personagens trágicas nem uma caricatura geral destas e do ambiente; não há os recursos visuais que estão disponíveis em 2005; não há a deriva de argumento que se nota um pouco na «versão» de Burton; e, sobretudo, não há um Willy Wonka (à la Johnny Depp) com ar de pervertido sexual, a pedir uma maquilhagem como a dos Kiss.

No Wonka de 1971, a moral impera. As crianças são, de facto, pirralhos irremediáveis na sua maioria, e Mel Stuart faz questão de o afirmar, em letras bem gordas nas partes mais musicais, apontando os dedos aos pais que estragaram a personalidade aos filhos. Mel Stuart tem mesmo uma palavra a dizer sobre as crianças que não pegam em livros, e isto, em televisão, é um tesouro. Gene Wilder tem uma excelente interpretação de um Willy Wonka menos absorvido na sua loucura mas mais cínico, com mais maldade e ironia. Para minha surpresa, Willy Wonka & the Chocolate Factory, de Mel Stuart, é um excelente filme. Para quem não viu, devo aconselhar a vê-lo. Se já viu o de Tim Burton e não gostou, não se rale: dê uma chance a esta versão e vai ver que se pode surpreender. Foi o que aconteceu comigo.

segunda-feira, março 17, 2008

Dos massacres na Bósnia

Here [in Bosnia] was genocide. Where was the United Nations? The answer is that it was right there; indeed, with grotesque irony, its forces effectively presided over the worst of the genocidal atrocities.

Niall Ferguson, Colossus

Sobre Saddam

Considering the list of Saddam´s violations of international law and his manifest contempt for the numerous UN Security Council resolutions he had inspired - seventeenth in just four years - the only mystery is why Iraq was not invaded before 2003.

Niall Ferguson, Colossus

Work in progress

TV voto

Ontem, uma vez mais, perdi o meu preciosíssimo mas inutilíssimo tempo a ver uma edição do saudoso Raios & Coriscos na RTP Memória. Como muitos saberão, o programa apresentado por Manuela Moura Guedes foi um grande ícone da «televisão bizarra», juntamente com, vá lá, o Programa do Além, apresentado por Teresa Guilherme, onde um homem ressuscitou um canário com o pescoço partido.

Ressuscitações à parte, o que se passou no Raios & Coriscos de «ontem», que tinha o tema da «Prostituição» e apresentou como convidado principal o major Valentim Loureiro (convite não deliberadamente relacionado com o tema), foi um excelente caso de plebiscito popular e que dá razão a um recente pedido de Valentim (que queria ser julgado na televisão, pelo «povo»): o major, reputado político corrupto e bon vivant (ou, numa versão mais prosaica e menos Casanova, reputado mafioso e putanheiro), resolveu a meio do programa lançar um longo discurso improvisado acerca das condições sociais e económicas em que as pobres raparigas viviam e de que como ele garantia que ia fazer tudo para combater estas causas de desigualdade social. Elevando a voz, tornou-se o centro das atenções. Ao gritar, causou tumulto entre os outros convidados e recebeu uma chuva de palmas da plateia.

Como sempre na história política, ganha quem grita mais e melhor. O povo apoia quem se zanga. Parece séria e firme, a expressão de um homem como Valentim Loureiro, quando grita com alguém. Aplaudem as pessoas, em voto virtual que se perpetua no futuro. Os tubarões da política local, como Valentim, agradecem.

Buckley Jr., 1925-2008



Já conheci William Buckley Jr. em idade mais tenrinha. Não aos 17 ou 18 anos, como muitos começam a conhecer os seus modelos e os tornam em ídolos de forma imediata. Mais desobstinado, eu apenas começei a ler textos de William Buckley Jr. há poucos anos, quer seja na National Review (que pouco compro pela raridade da oferta), quer seja online. Buckley deixou-nos, sobretudo, um pensamento político muito importante, uma linha (flexível e «adaptável», no bom sentido) que não encarrilava pela «união» dos conservadores americanos mas sim pelo debate e combate internos. Ambicionava-se uma saudável separação das águas, embora não querendo ser uma publicação exclusiva de uma direita. A National Review, filho pródigo (embora consensualmente em crise de identidade) de William F. Buckley Jr., foi um dos seus maiores legados. Tal como a revista, a morte de Buckley passou despercebida aos portugueses. Mas ainda há, felizmente, quem reconheça a sua importância. Importância esta que, na segunda metade do século XX americano, é incontornável.

My Fair Lady

Enquanto lia a peça Pigmalião (aliás, genialmente cínica), de Bernard Shaw, estava convencido que encontrava humor na erudição. Lia Shaw, afinal de contas. Já outras vozes, ao espreitar o mesmo livro, diziam-me que eu lia uma versão do My Fair Lady. Infelizmente, parece ser verdade. E o filme de George Cukor talvez mereça a espreitadela nostálgica. Eu, que nunca vi o My Fair Lady ou nada sobre este, dou agora por mim a pensar: será que, afinal... gosto de musicais? Será que os musicais têm então substância? Reviralhos da vida.

Pigmalião

HIGGINS-... Se voltares eu continuarei a tratar-te exactamente da mesma maneira como te tratei até aqui. Não posso mudar o meu feitio; não tenciono mudar de maneiras. As minhas maneiras são exactamente iguais às do coronel Pickering.

LIZA- Isso não é verdade. Ele trata uma florista como se ela fosse uma duquesa.

HIGGINS- E eu trato uma duquesa como se ela fosse uma florista.


George Bernard Shaw, Pigmalião

terça-feira, março 11, 2008

quinta-feira, março 06, 2008

Robin Hood em Setúbal

Já está disponível o meu último artigo no Setúbal na Rede, aqui.
Na origem do artigo, está o sentimento de insegurança reinante em Setúbal. Um excerto: «A senhora Meira tem em crer que o que falta aqui é “inclusão social”. Ou seja, que o crime e a insegurança em Setúbal vêm dos problemas de “exclusão social”. E resolveu vender esta teoria de Hollywood aos munícipes da cidade. Acredita a senhora – e os comunistas na Câmara, pois então – que a “Setúbal rica” está sob o fogo da “Setúbal pobre”. Ora, ou a senhora andou a ler Dickens à balda e acha que estamos no tempo das crianças que roubam maçãs do expositor da mercearia, ou então anda a tentar atirar-nos areia para os olhos com esta fábula de Robin Hood na qual o que se está a passar é uma espécie de justiça social que comete o único erro de ser feita à bruta».

Insónias

Depois de uma noite a pé para ver o resultado das eleições primárias no Texas e no Ohio, fiquei com os sonos trocados. Mas com a certeza redobrada de que, mesmo que a insuportável Hillary Clinton ganhe a nomeação, isso só vai melhorar a situação de John McCain na corrida à presidência. Fico só com pena de Obama não estar a responder como devia ao «cerco» da campanha de Hillary, o que só mostra a diferença de experiência e «tomates» entre os dois, muito embora isto não seja uma razão (sobretudo tendo em conta a natureza das últimas investidas contra o rival democrata) para ter a senhora do sorriso em boa conta.

Manhattan



O filme começa com uma passagem lenta do argumento, «paisagístico», num passeio turístico por Nova Iorque, mais precisamente por Manhattan. Woody Allen começa assim a sua filmagem do excelente Manhattan, um dos melhores filmes do mestre. Os diálogos são a pedra de toque neste filme, como em todos os outros. Mas, um pouco diferente de outros filmes de Allen, Manhattan traz ternura nas relações, sobretudo na relação de Isaac (Woody) com Tracy (Mariel Hemingway). Uma vez mais, não é uma lição sobre a Humanidade nem sobre o Amor. Quando muito, é uma advertência sobre como não se pode viver em Nova Iorque sem um bom psicanalista.

quarta-feira, março 05, 2008

Conquistador



Hugo Chávez podia perfeitamente, nesta imagem, estar a pedir às alminhas dos céus que protejam as suas aventuras na América do Sul, que protejam a sua sorte ao meter-se onde não é chamado e ao mostrar a sua gula a todo o continente. Numa visão mais política e menos subjectiva, está, seguramente, a pedir aos céus que não metam os Estados Unidos no que se vai passar na Colômbia. A guerra no Iraque (e a consequente ocupação dos recursos militares americanos) foi o melhor que aconteceu a Chávez.

terça-feira, março 04, 2008

Napoleão em 1808 e 2008

Os Napoleões chegam e partem, seja qual for o país. O pecado (grego) da hubris atinge qualquer homem ou mulher embriagado de poder, seja esse poder dado pelo cargo ou dado pelo triunfo. É claro que depois dependerá do sítio onde esse Bonaparte governa. Em pequenos países com pequenos costumes, os Napoleões triunfam de forma diferente, e com um horizonte peculiar. Isso não quer dizer que, em 2008, não existam personagens portuguesas com um «apetite» igual ao de Bonaparte de 1808.

Veja-se um excerto de The Age of Napoleon, pequeno livro sobre o também pequeno ditador da Córsega: «Ruling a France intoxicated with glory, after Tilsit the Emperor was no longer in a mood to listen to anybody. He closed down the Tribunate and, on Talleyrand's resignation, replaced him by the docile, sycophantic Minister of the Interior, Champagny. Among other changes, a more rigorous court etiquette kept everyone literally at arm´s length, unable to approach him without the approval of Duroc, Grand Marshall of the Palace. Thus Napoleon became surrounded by sycophants, a sure sign of the corruption of power».

sábado, março 01, 2008

Minguante


A Minguante nº 9 já está disponível. Dentro dela, entre excelentes textos e e-books, mais um texto muito modesto da minha autoria.

O sonho apodrece

Coitado do Rodrigues... Plantara a vida no sonho, o sonho apodrecera. Passava tudo por ele tão depressa... Queria que o sonho durasse. Segurar o instante perdido - as gerações novas chegavam, partiam, ele ficava ainda. Uma bala suicida sagrou-o enfim jovem para sempre.

Vergílio Ferreira, Apelo da Noite

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

A China das contradições



Federico Rampini é o correspondente do La Repubblica em Pequim. Ou seja, um enviado italiano – ocidental – à China. É uma visão ocidental, por vezes apaixonada ou fascinada sobre o futuro da China, assim como sobre o seu passado, embora pejada de críticas à sociedade chinesa, nomeadamente ao que depende do controle do poder. O «período» (ainda que virtual) foco das atenções do jornalista é inaugurado pelas manifestações e pelas repressões de 1989, marcadas pelo incidente da praça Tiananmen, uma espécie de marco histórico a partir do qual Rampini avalia uma China em constante mudança.

Em relação a esses incidentes em Tiananmen, o jornalista italiano salienta a acção de Deng Xiaopeng que, anteriormente visto como um homem mais sensato, mais «pragmático», revela nesse dia ao Ocidente a verdadeira natureza do seu governo, abrindo as hostilidades contra os manifestantes. É um governo de homens imprevisíveis, absolutamente reverentes à autoridade central, cuja única crítica ao poder é aquela dirigida aos poderes locais, aos hipotéticos «burocratas corruptos» que grassam nas províncias e nos sítios onde o poder do governo central não chega. E, de facto, essa corrupção existe, e abusa dos chineses – camponeses ou não – que, muitas vezes, perdem as suas casas sem nenhuma retribuição ou compensação. Burocratas que recebem «luvas» de grandes multinacionais, dirigentes de faculdades que pedem subornos aos pais dos novos alunos, eliminação da oposição através de detenções e assassinatos.

Mas não se pense que tudo isto se faz totalmente à margem do poder central. É, aliás, a própria natureza do comunismo chinês (às vezes penso se isto será, ainda, comunismo) que leva a que os abusos tenham lugar. E é a própria sociedade chinesa que, ao invés do que se pensa, tem tudo menos pureza. Muito pelo contrário, há tiroteios na escolas, tal como na «terra da perdição» dos Estados Unidos da América. Há, mais importante que tudo, uma leviandade na aplicação de penas pesadíssimas, sejam elas dezenas de anos de prisão por oposição política e cívica ou a pena capital aplicada às mãos cheias. Leia-se, por exemplo, este excerto:

«Todos os anos, neste país são fuziladas ou eliminadas por injecção letal pelo menos 10.000 pessoas: um número que ultrapassa em cinco vezes as condenações à morte executadas em todo o resto do mundo, Estados Unidos incluídos.
Não obstante o mal-estar dos intelectuais e dalguns dirigentes mais iluminados, a pena de morte conta ainda com um sólido futuro na China.»


A China não se resume a um país dividido entre as exportações chinesas, as multinacionais nacionais e estrangeiras e o Partido único. Não, O Século Chinês mostra-nos uma China cheia de contradições, cheia de promessas e de ameaças, cheia de poderes autoritários mas também de inúmeros contra-poderes amordaçados espalhados pela sociedade. O livro acaba com uma «balança» entre os poderes emergentes da China e da Índia, competidores que podem resultar no melhor ou, se faltar a confiança em si mesmos, no pior.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sobre a insegurança em Setúbal.

Dois posts do Luís Silva no Office Lounging. E um link para um «resumo» de uma entrevista a Maria das Dores Meira.

Death of a Salesman

Não digo que ele seja um grande homem. Willy Loman nunca ganhou rios de dinheiro. Os jornais nunca falaram nele. Não é nenhum génio, bem entendido. Mas é um ser humano, e está a sofrer terrivelmente. Isso é que é preciso não esquecer. Não se deixa morrer um um homem assim sem mais nem menos como um cão.

Arthur Miller, Morte de um Caixeiro-Viajante

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Insurgentes (emenda)

Uma fonte próxima do Insurgente vem-me agora revelar que, afinal, a «tomada de posse» do blog por um grupo de «palhaços desocupados» - segundo um post meu - foi mais amigável do que pareceu. Eu, que só tinha visto ontem o manifesto inicial, não percebi isso. Retraio-me agora, após aperceber-me da figura «úrsica» que fiz. Viva la revolución, pois então.

Óscares

Hoje é dia de ficar levantado até mais tarde do que o normal. A velhice prematura do meu corpo bem que me diz que não, que não será um dia de serão mas mais um dia de adormecer no sofá, de boca aberta e baba a escorrer para a t-shirt. Mas os Óscares falam mais alto, e o tédio televisivo (sem Sopranos na 2:) precisa de ser quebrado.

Antes de de mais, tenho curiosidade com Jon Stewart, que em tempos me fez rir antes de «afunilar» de vez para o humor liberal sem graça. Não é Robin Williams nem Billy Crystal, mas lá dará para o gasto. Para os próximos anos, gostava de ver, talvez, Conan O'Brien ou Wanda Sykes, dois humoristas geniais muito cá de casa. De resto, tirando a curiosidade competitiva de saber quem ganha as estatuetas, pouco mais me interessa na dita «cerimónia dos vestidos bonitos».

Em relação a filmes, os favoritos serão There Will Be Blood e No Country For Old Men. O primeiro vi, e gostei muito. O segundo tenho vindo a aplaudir antes sequer de o ver, para o que estou ansioso (os irmãos Coen nunca me desiludiram, não será desta vez que isso acontece). Respectivamente, deverão sair vencedores, e com mérito, Daniel Day-Lewis e Javier Bardem, dois homens que estão a entrar, passo a passo, na galeria dos actores de culto do mundo do cinema, provando o espanhol que o mundo das «estrelas» de cinema é universal, assim como o seu mercado.

Uma curiosidade: gostava de ver Ellen Page levar a estatueta. Ainda não vi Juno, mas deverá ser a minha próxima escolha, influenciada também pela pressão feminina cá de casa. E consta que Ellen Page está muito bem nesse filme. Que ganhe ela, mais não seja pela simpatia que me conseguiu roubar.

Insurgentes

É através do blogue do Bruno, em primeira mão, que me apercebo da pobreza de espírito do que se passa na blogosfera. Nomeadamente, neste caso, a tomada de assalto do Insurgente por uns pretensos «activistas». O Bruno chama-lhes «grupo de extrema-esquerda». Eu chamo-lhes «grupo de palhaços desocupados». Espero que os insurgentes apliquem um valente pontapé no cu de alguém e voltem de novo ao serviço. Resumindo: mais um episódio triste e patético da incapacidade de conviver com opiniões alheias.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Patrimony



Um dos melhores livros de Philip Roth terá de ser, sem dúvida, Patrimony. É um romance sobre factos. Uma narrativa simples, humilde e respeitosa sobre os últimos dias do pai do próprio Philip Roth, visto pelos olhos do filho. A maneira como Herman Roth sucumbe, aos poucos, à frustração e à fragilidade de um octagenário judeu seguro de si mesmo mas com um tumor na cabeça, deixa-nos rendidos ao livro, e à história dos Roth. Porque a morte, tal como em quase todos os livros de Philip Roth, mais não é do que uma maneira de pensar a própria vida.

They fought two battles

You know how it was: these kids grew up, they had a tough life, the slums, no money, and they always had an adversary. The Christian religion was an adversary. They fought two battles. They fought because they were fighters, and they fought because they were Jews. They'd put two guys in the ring, an Italian and a Jew, an Irishman and a Jew, and they fought like they meant it, they fought to hurt. There was always a certain amount of hatred in it. Trying to show who was superior.

Philip Roth, Patrimony

domingo, fevereiro 17, 2008

Kids



Kids (1995), de Larry Clark, não é um filme bom de se ver. É o primeiro filme que vejo do homem e, a despeito do culto que lhe é devido, continuo a gostar muito mais de Gus van Sant, comparando dois realizadores que costumam mergulhar no tema da perdição juvenil ou do desafio que é crescer normalmente. Larry Clark é (pelo menos em Kids) brutal, directo e polémico. Tudo isto é muito bom, mas o que fica no fim é também uma certa noção de perversão que, ao avaliar outros filmes do currículo de realizador de Clark, parece ser transversal a Ken Park ou a Bully. Será um bom argumento? Não, muito pouco para dar. Mas será Larry Clark um bom realizador? Para ser sincero, os recursos de cinema são muito bons, e a filmagem tem qualidade e maturidade. Terei de esperar até ver mais filmes seus para confirmar as minhas duas opiniões.

sábado, fevereiro 16, 2008

Mirror


José Sócrates, ao deparar-se com uma manifestação de professores, que assobiavam os dirigentes socialistas à porta da sede do PS, disse que esta é uma atitude «antidemocrática» e «estalinista». E ainda dizem que Portugal não tem boa literatura, bom cinema e bom humor.

Os livros não nadam

Nota para mim próprio: não voltar a andar com um livro na mão quando me debruço sobre a banheira. Porque os livros, para além de não nadarem, são pouco higiénicos e dispensam o banho.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

There Will Be Blood



Ao filme faltam alguns «nós», alguns desfechos que poderiam ser importantes. Falta o desenrolar de uma grande história. There Will Be Blood não é só um dos maiores papéis de Daniel Day-Lewis (ou o seu maior papel da sua maturidade cinematográfica), é também um épico fenomenal, uma saga. Mas deixa uma certa sensação de incompletude no final, uma necessidade de catárse, de um castigo ou um destino mais decisivo para Daniel Plainview (Day-Lewis). Uma intepretação muito boa do homem de In the Name of the Father, mas também uma considerável promessa de Dillon Freasier, mini-actor de talento. Vale muito a pena o tempo pasado no cinema para este filme de P.T.A..

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A queda de Hillary

Barack Obama parece estar de novo à frente da corrida Democrata à Casa Branca. Fico contente. Não apenas por ter esta «personality fever» que por aí anda (tal qual JFK, se bem que eu nunca teria esta atitude com JFK) em relação a Obama, aparentemente franco sem ser ingénuo, relativamente impoluto sem ser inexperiente. Obama inspira-me, sobretudo, pela sua atitude e pela sua história de vida simples, e não tanto pelo seu «conteúdo» ideológico (aparentemente inexistente, segundo muitos).

Ora, isto não acontece com Hillary Clinton. Hillary traz a dinâmica do riso forçado, estético, cirúrgico. Traz a energia de uma candidata que parece ter dedicado décadas da sua vida a preparar-se para isto. O que só comprova a tese da «dinastia Clinton», como se de uma família real se tratasse. É possível confundir, sim, as duas coisas, tal como se Hillary mais não fosse que um princípe tentando agradar à força aos seus súbditos. Tem hipóteses, claro. É mulher, o que agrada às hostes politicamente correctas, com mais pejo de confrontar uma candidata feminina em alguns temas. Tem muitos anos de Casa Branca, o que lhe dá uma proximidade da Presidência que nenhum outro candidato alguma vez teve. E carrega um portfolio de Senado, e de «vampira» de Washington, que Obama não consegue igualar.

Mas Hillary tem igualmente nos seus «trunfos» as nuances que a enfraquecerão no fim: é uma mulher na política, facto pessoal que não lhe traz especial confiança política em alguns estados importantes, o que não deixa de acontecer também com Obama, no entanto; tem demasiados anos de proximidade de uma presidência assombrada por um escândalo sexual (cujo crime foi o perjúrio, não as «facadinhas matrimoniais» do homem), participando Hillary involuntariamente da mentira de Bill Clinton mas ficando no ar a hipótese de aproveitamento político; por fim, os muitos anos no Senado também fizeram dela uma perfeita raposa política, sem sombra de opinião própria e de princípios que não sejam os da maioria, facilmente oscilando de um voto para outro e facilmente, também, perdendo o fio à meada.

Por fim, Hillary, ao tentar «fintar» Obama, ao querer pôr-se mais ao centro, deixou-se ficar mesmo a jeito para o surgimento de um candidato mais moderado (Giuliani ou McCain) entre os republicanos. É que, tentando apelar aos sectores conservadores e fugindo do eleitorado habitual, acabou por se meter na toca do lobo. Huckabee (candidato que aprecio pela representação franca de uma fatia bem definida do eleitorado, surpreendentemente fugindo à demagogia fácil com discursos bastante bons) não terá hipóteses e Romney, felizmente, também não. Resta John McCain que, com o seu cartão de entrada e com os inevitáveis votos republicanos, parece ter contribuído para a situação corrente: Hillary encurralada entre ele e Obama. Para onde se virar agora? Hillary não sabe.

Dor do Século



Alain Besançon, em A Dor do Século, faz o exame imperativo aos sistemas comunista e nazi. Não é a prmeira vez que leio um livro que siga esta linha, nem é um argumento inovador o de afirmar que a destruição causada pelo comunismo não foi menor do que aquela causada pelo nazismo. Uma destruição tanto física, como política e moral. Mas a do comunismo foi (ou é) uma que ultrapassa a impulsividade da ideologia nazi (que preenche completamente a história da experiência nazi alemã, de facto), deixou marcas que dificilmente serão saradas e destruiu valores que, em alguns países, nunca serão recuperados.

Sobretudo, há a ideia de que, enquanto o mundo se unia contra o nazismo, nunca houve um «movimento» equivalente a uma escala europeia ou universal contra o comunismo. Os comunistas russos e chineses, ao expandirem-se de forma mais pontual, nunca conseguiram reunir uma «condenação» universal das nações mais poderosas. Houve e há um certo tabu de admitir que a ideologia comunista provou-se na prática enquanto inviável. E isto não tem só a ver com os exemplos tanto do manual Mein Kampf (reduzindo o pensamento de Hitler especificamente ao homem do Reich) como de qualquer outra vulgata leninista. Tem a ver com o homem criado pelas ideologias.

Diz Besançon: «O homem nazi e comunista oferece-se ao exame clínico do psiquiatra. Parece emparedado, isolado da realidade, capaz de argumentar indefinidamente em círculo com o seu interlocutor, obnubilado, e no entando persuadido de ser racional». Este homem é o soldado-ideólogo, uma mistura de combatente fiel com pastor substituto da personalidade de Hitler e de Estaline. É este homem que, seja qual for a linguagem que use, não hesitará em proceder ao genocídio. Pelo bem da Humanidade, diria qualquer um deles.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

domingo, fevereiro 03, 2008

O seio nu


O senhor Palomar caminha ao longo de uma praia solitária. Encontra poucos banhistas. Uma mulher jovem está estendida na areia, apanhando sol com os seios descobertos. Palomar, homem discreto, volve o seu olhar para o horizonte marinho. Sabe que em semelhantes circunstâncias, quando um desconhecido se aproxima, as mulheres, geralmente, apressam-se a cobrir-se, e isso não lhe parece bem; porque é aborrecido para a banhista que apanha sol tranquilamente; porque o homem que passa sente que importuna; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; porque as convenções não inteiramente respeitadas propagam a insegurança e a incoerência no comportamento, em vez da liberdade e da franqueza.

Por isso, assim que vê aparecer à distância a nuvem brônzeo-rósea de um torso nu feminino, apressa-se a colocar a cabeça de molde a que a trajectória do seu olhar permaneça suspensa no vazio, como garante do seu respeito cívico pela fronteira invisível que circunda as pessoas.


Italo Calvino, Palomar

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

D. Carlos

O homem deixou-me saudades, e não só nunca o conheci ou ouvi a sua voz, como nem sequer sonho como será ter vivido sob o seu reinado. Não sou monárquico, não sou saudosista da monarquia e não acho que um Estado sem sangue azul esteja condenado ao naufrágio. Não o acho particularmente bonito ou fotogénico, não sei se votaria nele se se candidatasse a cargos públicos. Nunca vi pinturas suas (por reputação jeitosas) ou admirei algo feito por si. Não o adoro, mas também não desgosto da figura. Não pego num rei martirizado por oposição à malfadada República, mas também não nego que fico um vácuo de ar e de veneno no espaço que o rei deixou. Mil e uma coisas que poderia procurar em D. Carlos para gostar dele como estadista, mas a simples verdade é que fico com a impressão de gostar do homem por ele mesmo. E uma impressão de que, acima de tudo, se acabou com um homem muito decente, equilibrado e prometedor em nome de muito pouco.

A decisão de matar o rei foi tomada a 1 de Fevereiro de 1908, há precisamente 100 anos. Buiça e Costa, personagens misteriosas e ao mesmo tempo prosaicas, deitaram D. Carlos e D. Luís ao chão, lavando a ideologia republicana em sangue. Não se pode é censurar os republicanos por este acto de coerência ideológica: não imagino a República a nascer sem esta manifestação dos radicais. Uma pena.

Substituições



Ando muito preocupado com estas substituições que andam por aí a ser «efectuadas» (tal como o agente da GNR que hoje, na televisão, ouvi recomendar que não se «efectue a condução» quando «sob o efeito de álcool ou psicotrópicos» - isso mesmo, efectuar a condução). Falo, claro está, das futuras substituições de Matheus e Edinho, jogadores-chave do meu Vitória, cada um a sair para o seu sítio. Como é que substitui um jogador importante num clube em dificuldades financeiras? Com esperança e audácia... e um jogador vitoriano mais fraquito (jogadores esses que eu prefiro chamar, eufemisticamente, «diamantes em bruto por delapidar») a tentar superar-se a si mesmo.

Por outro lado, preocupam-me as substituições das encomendas da Amazon que, nos últimos dois meses, parecem chegar aleatoriamente à minha casa. Umas vezes chegam, outras vezes não. E não há substituição à vista. Onde vão aqueles livros parar, ninguém sabe. Tanta reorganização e remodelação geográfica e ninguém me diz o que se passa com os CTT?

E, por falar em assuntos políticos fracturantes, tenho reparado que muito boa gente anda por aí a aplaudir a fantochada da subtituição de dois ministros deste governo. Sai Correia de Campos, um ministro maldito que foi (ingenuamente ou não) encarregue de sujar as mãos de sangue - sem intenção de trocadilho - no Ministério da Saúde e, com ele, José Sócrates rasga e põe no cesto uma página da sua «obra», como se de redenção se tratasse. Entra uma mulher desconhecida no meio político e logo vibram os portugueses, sem pensar no que aí vem e, sobretudo, no que precedeu esta substituição.
Pior ainda é a mudança no Ministério da Cultura. Se, na Azambuja, não tivessem fugido dois tigres do Circo Chen, eu diria que a «remodelação» da pasta da Cultura foi o maior momento de entretenimento da semana. Não querendo diminuir António Pinto Ribeiro, soa-me apenas a manobra de diversão por parte de Sócrates. Mário Lino ainda tem de sujar as mãos com algo mais - não é ainda o tempo de o sacrificar, porque «sujo» já ele está. E, se sou eu o único a ver isto e a não «aplaudir», então da minha parte é apenas uma de duas coisas: cepticismo ou paranóia.

O estado das coisas



Hoje não me apeteceu ir trabalhar, e portanto não fui. Haverá algo melhor do que ouvir Highway 61 Revisited num dia destes?

Das máquinas, dos homens

Os homens são máquinas. E nós, por imitação, somos homens. Pode-se ensinar uma máquina, mas não se pode retirar dela amor e vida. A máquina não pensa nem ama, apenas repete e responde.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Pequenas nostalgias

Ouvir Mário Soares, numa sessão do Câmara Clara, a falar do «senhor André» da livraria.

Mao e a herança do poder



Mao tornou-se um símbolo, não do comunismo «antigo» chinês, nem do Partido Comunista na actualidade. Mao Tsé-Tung não é mais do que um ícone nacionalista que todos querem capitalizar para si mesmos.
Nadando à tona da verdade em relação às vítimas da Revolução Cultural, do Grande Salto em Frente, a nomenclatura do partido único chinês legitima a sua própria existência, enquanto «partido único», predominantemente a partir do mito de Mao como defensor da independência e dos valores da China contra o invasor nipónico. Descendentes de Mao, as elites chinesas serão assim as únicas figuras possíveis para liderar os chineses.

Ao criticarem Mao, estas elites perderiam um pai ideológico, perderiam o cordão umbilical à génese do nacionalismo chinês que ainda hoje inspira muita da população da China, em especial agricultores.
Nacionalismo e valores caducos, a memória mentirosa de Mao, é esta a cruz que os governantes da China ainda carregam. Que volta a dar? Ninguém sabe...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Crença

Mas se não fosse para atrasados não era crença. Tu queres que a crença seja racional. Mas então não era crença. A queda dos graves não é uma crença. Dois e dois são quatro não é uma crença. Houve um santo que disse «creio porque é absurdo». Pois está claro que se não fosse absurdo, não era coisa de se crer.

Vergílio Ferreira, Para Sempre

terça-feira, janeiro 22, 2008

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Corda na garganta

Relações de trabalho: ter a corda na garganta tem muito que se lhe diga. Já não é o mesmo que ser judeu na Alemanha ou sunita no Iraque, mas traz um certa atitude paranóica com essa «corda». Quando alguém nos quer longe, há que ter cuidado em não pisar o risco, mas também é importante não trilhar o caminho que os outros escolhem. Não ter controlo sobre o sentido que se toma deixa uma marca igual ou pior do que a da corda na garganta.

O estado das coisas

Ritmo de trabalho

Sou o que menos produz no sítio onde trabalho. Mas também me sinto mais são ao fim do dia.

sábado, janeiro 12, 2008

O líder da «guerrilha»



Rui Ramos sobre Luiz Pacheco (1925-2008), aqui.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Aventuras revolucionárias

Chora Hillary, chora

Honestamente, aquela lágrima e a voz tremida que a acompanhou pareceram-me genuínas, o que, longe de "humanizar" Hillary, apenas a prejudica. Tudo porque ela "chora" por estar a perder a corrida eleitoral que julgava há anos estar ganha à partida, o que em vez de provocar a empatia dos eleitores, apenas acaba por lhes confirmar a ideia de que Hillary é uma mulher obcecada com o poder: ela "só chora" por perder eleições. Genuína ou encenada, a lágrima de Hillary é tudo menos uma ajuda à candidata.

Bruno Alves, Desesperada Esperança, mais aqui.

Eraserhead



Eraserhead: o filme mais irritante de David Lynch. Desde Lost Highway que a minha opinião acerca de Lynch, e sobretudo acerca dos que idolatram Lynch, não descia tanto. Claro que The Elephant Man é um dos meus filmes favoritos. Claro que Dune tem a qualidade e nostalgia da ficção científica que eu adorava enquanto menino. Claro que The Straight Story é um filme muito bonito (bonito é a palavra certa, e olhem que é uma palavra que muito honro e protejo no mundo do cinema). Mas nada disto retira a Eraserhead a categoria de filme sobrevalorizado da qual eu definitivamente não recuo.

O único ponto positivo deste filme é Henry, a personagem principal insone e tensa, peculiar, facilmente comparável com o próprio Lynch. Mas, em geral, Eraserhead é confuso, barulhento e irritante. Sons de fábrica, apitos, guinchos, cenas oníricas mais parecidas com tripes de heroína. Para mim, ir vê-lo ao cinema foi mesmo uma má experiência. Dizer que fiquei desiludido é até muito simpático para com Lynch, porque não deixo de gostar bastante de outros filmes do homem.

Advertência ao leitor

A ausência de computador normalmente implica que não se possa escrever no blogue. É precisamente isso que tem acontecido. Como todos os homens, as máquinas também se vão abaixo. Promete-se mais regularidade dentro em breve.

domingo, dezembro 30, 2007

Colombo e a viagem falhada

Hoje, se pegarmos um avião da Espanha para Calcutá e aterrisarmos no Caribe, só há duas possibilidades: ou o piloto bebeu, ou sequestraram o avião. Claro, você também pode estar no avião errado. Chance remotíssima, os embarques são controlados electronicamente.
No entanto, foi exactamente isto que aconteceu a Cristóvão Colombo (...).


Angela Dutra de Menezes, O Português que nos Pariu

Combater o Mal

Para combater o Mal, afastamo-nos de Deus.

John Patrick Shanley, A Dúvida

A Dúvida



O cenário: uma escola católica no Bronx, Nova Iorque - no ano de 1964 -, depara-se com o dilema da inocência ou culpa de um padre, acusado de assediar sexualmente um rapaz de doze anos. Ir ver A Dúvida ao Teatro Maria Matos teve logo o sucesso inicial de me levar ao teatro, coisa que, por maldade ou cautela, evito. Talvez seja preconceito não ir mais vezes. Talvez seja ignorância. Ou talvez eu apenas não acredite na qualidade geral do nosso teatro. Mas A Dúvida, de John Patrick Shanley, teve o dom de me colocar em permanente dúvida (perdoem-me o trocadilho). Ver Diogo Infante - um dos melhores actores portugueses vivos - e Eunice Muñoz - carisma impermeável à idade - juntos no mesmo palco deixa-nos de boca aberta e sem noção do tempo. O teatro pode-nos deixar agarrados horas e horas e horas seguidas, sem sequer pensar em levantar o rabo do assento. Aprendi isso hoje, com a peça de Shanley. E aprendi que o cinema não deve monopolizar a minha atenção. Há espaço para eu admirar o palco.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Zelig



Zelig é um filme «muito cá de casa», e revi-o há dias com a maior das euforias. Tem o humor mais subtil de Woody Allen e uma viagem de reflexão/desafio/respeito/gozo à personalidade humana e à psicanálise. Ainda por cima tem figuras como Saul Bellow ou Bruno Betelheim a participarem no filme da forma mais convincente possível. É um dos grandes filmes do século XX e sobre o século XX.

Menezes isn´t there



Quando Marques Mendes estava à frente do PSD, fazia-se oposição na Assembleia. As vozes logo se levantaram contra o homem que, para além de ser «muito piquenino para ir a algum lado», não fazia «oposição como deve ser». Quis-se Luís Filipe Menezes, que prometia dar uma nova cara à oposição. Dizia-se que ele iria «abanar o barco». O próprio Menezes dizia que iria trazer uma mudança radical «já». E trouxe: a oposição do PSD praticamente desintegrou-se. Afinal, tinha razão quando falava da rapidez do seu trabalho. É até, na verdade, um recorde memorável: nunca um político desapareceu tão depressa.

O dono da faca

O dono da faca nem sempre é o verdadeiro criminoso.

Graham Greene, O Terceiro Homem

Holanda

A Holanda é um país que não inspira amantes. Todos os homens usam chapéu e cumprimentam em protocolo translúcido -, as crianças fumam cigarrilhas, todos talhos são floridos em contraste português,- se um carniceiro em Portugal pusesse flores nas montras do talho passava a ser considerado como pederasta oficialmente reconhecido pelo grémio.

Ruben A., Páginas I

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Na Consoada, acampar no Cambodja



Antes do Pai Natal chegar, ainda há tempo para exprimir aqui a minha gratidão para com Rui Ramos por nos ter trazido as palavras sábias de Luís Filipe Menezes. É de louvar, sobretudo, a coragem e paciência de Rui Ramos ao mergulhar no livro Coragem de Mudar, da autoria da referida personagem política. Por exemplo, esta passagem do artigo matou-me a sobriedade cinzenta de Consoada: «O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora sobre a sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: "sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição". Ou isto: o "cosmopolitismo para mim é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no norte do Cambodja" (p. 21)». Ou então, também podemos reflectir neste nostálgico devaneio de Menezes: «"Há dois anos atrás, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena que estas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão..." (p. 44)».

Muito bom. Apenas ultrapassado em qualidade pela resposta do líder do PSD, em entrevista no Expresso, quando lhe perguntam o que achou deste artigo de Rui Ramos: «mas esse senhor não terá filhos?». Só por isto, Menezes já merecia o meu voto de confiança. Toda a gente gosta de comediantes, e ninguém leva a mal a parvoíce. Agora começar a fazer política a sério? Isso é que eu nunca lhe perdoaria.

domingo, dezembro 23, 2007

Xmas

A Causa das Coisas deseja que o leitor tenha um Feliz Natal. E, para quem não aprecia muito o Pai Natal, então deixo também um conselho: aproveitar a quadra para ouvir boa música, como a que é tocada pelas únicas boas pessoas a vestir de vermelho.

O estado das coisas



Entrar numas merecidas férias (o que é bom é sempre merecido) depois de dez dias sem fazer a barba.

domingo, dezembro 16, 2007

Argumentos pessoais para a «via alternativa»*

«O que tem Obama de novo? Como o próprio Sullivan o diz: His face. A sua cara. A sua miscelânea. O que ela representa. O que esta significa para os inimigos recentes da América. Nascido no Havai, filho de pai queniano e mãe americana, Obama personifica a abertura do ideal americano às preocupações do mundo. A busca de uma vida melhor e, mais importante que tudo isso, a possibilidade de essa vida melhor ser encontrada na América. O país onde até um mestiço pode ser o homem mais poderoso do planeta. Haverá , de acordo com Sullivan, melhor mensagem para um miúdo que viva no Paquistão?»

André Abrantes Amaral, O Observador

*«via alternativa»: em quem votar quando não se vota em Giuliani

O melhor confronto possível



Giuliani vs. Obama. O melhor confronto possível para 2008 (é sobretudo importante que a hipótese democrata seja Barack Obama e não Hillary Clinton). É o meu «pré-desejo» presidencial para o novo ano.

Byblos



Fui à Byblos e já lá gastei dinheiro. Gostei muito do espaço e, sobretudo, da parte da literatura estrangeira (a portuguesa, de facto, está ainda fraquinha em comparação com muitas livrarias de Lisboa, da «velha guarda»). Fiquei com vontade de lá voltar. Hei-de continuar a ir regularmente, por isso mesmo. E bardamerda para quem acha que é populareco gostar daquela livraria. Nem sempre é preciso cheirar mofo nos livros e nas estantes para se ser um leitor fiel. Acho que a Byblos tem o seu espaço no mundo das livrarias em Portugal.

sábado, dezembro 15, 2007

Doblagens revolucionárias



Os desenhos animados dobrados são a maior parvoíce jamais criada pelo ser humano. É qualquer coisa como pintar sorrisos nas figuras do Guernica do Picasso. Apercebo-me disto no momento em que dou com o facto deste novo filme de animação com abelhas vir a ser dobrado para português. Ora, por duas coisas isto é terrível: primeiro, porque perder a oportunidade de ouvir Seinfeld (mesmo numa situação que não traz grande piada) é torturante para uma criança no futuro; segundo, porque ensina às crianças o dever de «não ler» as legendas, logo condenando-as às telenovelas do Tozé Martinho; terceiro, porque simplesmente trata as crianças como estúpidas.

Veja-se agora um PREC mais apertado no controlo televisivo. Imagine-se, por exemplo, o que seria ver desenhos animados do Tom Sawyer com controlo popular. «Desenhos animados para o povo», justificar-se-ia. É preciso dar ao povo as ferramentas para compreender o mundo e os desenhos animados. E, já agora, que também não custa nada, aproveita-se para reeducá-lo.

Não gostaria de ouvir Tom Sawyer, por exemplo, a convencer os amigos e vizinhos a pintar a cerca da tia Polly porque «o trabalho para bem dos outros dignifica o homem e a sociedade». Já não seria uma cena genial em que o Tom convence os amigos a pintar a cerca (terrível tarefa) enganando-os pela inveja - diz que prefere fazer aquilo a brincar - mas sim uma cena em que Tom realmente prefere trabalhar do que brincar. «Eh Tom, que estás a fazer?» «Estou a pintar a cerca.» «Deve ser muito chato.» «Não. É óptimo e dignificante, como nos ensinou o Camarada Vasco.» «Porque não me disseste isso antes? Dá-me já uma trincha, Tom».

Seria feio, isso sim, ver o tratamento dado a Huckleberry Finn. Huck é um rapaz preguiçoso e sem maneiras. Come e dorme quando pode e quando quer, sem regras mas sempre pela lei da necessidade. Vem de uma família destroçada e, logo, aprendeu a viver segundo as suas próprias regras. Uma boa alma, no fundo. Mas Huck chegaria ao pé do Tom e da cerca e começaria o controlo operário. «Eh Tom, estás a pintar a cerca?» «Claro, o Camarada Vasco quer isto pintado até ao fim do dia.» «Eu não faço isso, vou mas é jogar ao pião». E pronto, tudo está bem quando acaba bem. Huckleberry Finn, no fundo, é a representação de um perfeito reaccionário, afecto a cada um de nós, por razões que variam de pessoa para pessoa. Todos nós somos reaccionários, mas só uma parte escapa ao controlo.

No fundo, é o que se passa com os desenhos animados. Em todos eles, há uma ou outra personagem que, mesmo com as doblagens da década de 70 portuguesa, escaparia ao controle. Caso do Huck, que não deixa levar pelas palavras propagandistas de Tom, claramente alterado pela controleira «tia Polly». Corajosa e louvável atitude que não teria, por exemplo, o rato Pompom, de Dartacão. Rato esquivo e matreiro, rapidamente entregava os Moscãoteiros à PIDE do Cardeal Richelieu. Enfim, atitudes contra-revolucionárias.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Às avessas



Portugal estabelece relações de amizade com Putin, Chávez e José Eduardo dos Santos. Dezenas e dezenas de ditadores africanos corruptos juntaram-se em Portugal para dois dias de férias. José Sócrates é primeiro-ministro de Portugal. O melhor jogador português do momento é um cigano. E depois venham-me dizer que Portugal não é um país às avessas.

O estado das coisas

Entraves

Querer livros que estão a 19 euros nas livrarias.

Inédito

O meu amigo Bruno, pela primeira vez na vida, deu um beijinho ao Portas.

A vida na aldeia: #1- Segurança pública



As pessoas cruzam-se numa estrada do interior (isto é, do «interior do Portugal profundo») com um carro da GNR e pensam: «lá vem a polícia local». Enganam-se. A GNR é, realmente, uma figura da autoridade fora das cidades, mas não é a polícia local. É mais, digamos, uma espécie de FBI das localidades. O Bureau das vilas. Aliás, a GNR desempenha um papel essencial na resolução dos casos mais bicudos das pequenas localidades - disputas de heranças, roubo de gado, mutilação de santinhos na paróquia -, sempre com grande profissionalismo e postura. Isso ninguém lhes pode negar. Mas não é, de facto, a força de segurança preferida das pessoas.

A força de segurança que mais apela ao comum português da vila/aldeia é outra. Face ao visível afastamento moral entre a Guarda Nacional Republicana e o cidadão honesto, os portugueses manifestam-se escolhendo como polícia preferida não a GNR, a PSP, ou a Securitas. O português sóbrio escolhe, isso sim, o Campino como principal agente para guardar o seu dia-a-dia.

O campino é objecto do mais sincero amor do português da aldeia. Fresco, modesto e trabalhador, o campino mantém a austeridade e o visual dos seus antepassados de gerações e gerações atrás. E as razões estão aí debaixo do nariz, senão veja-se: colete encarnado, mostrando coragem perante o touro mais bravo; bota de montar, claramente pondo a nu o sangue azul dos seus bisavós; camisa branca que nunca suja (Don Johnson no Miami Vice também vestia um fato branco que, mesmo no meio do mais feroz dos tiroteios, nunca se sujava); uma versátil faixa vermelha como cinto que, no Inverno, também serve de cachecol, para proteger o agente prevenido; o barrete verde, que não envergonha nenhum soldado de elite e que, devido às suas parecenças com o barrete do Noddy, convence as crianças da bondade do campino; e, finalmente, o pampilho, pau lutador da maior modernidade, que assume simultaneamente a classe e a virilidade do dito agente da autoridade.

Imagine-se o leitor, por exemplo, em Arruda dos Vinhos. Quereria o leitor ser parado em plena estrada por um GNR barrigudo, de bigode farfalhudo, de botas de montar (nunca percebi para que são precisas botas de montar se a GNR só anda de jipe) e de boné a tombar para a testa? Não me parece. Nem o leitor quer, nem eu quero. Por outro lado, toda a gente gosta de ser advertida por um campino. E normalmente passa-se assim: o campino assobia ao condutor acelerado. E este, apercebendo-se da aproximação de um generoso homem vestido de verde e vermelho, montado num cavalo lusitano, rende-se imediatamente ao seu dever patriótico de abrandar o carro e colaborar com a justiça.

Ninguém resiste à simpatia de um campino. Se na sua vila ainda não foi dada inteira exclusividade da segurança pública ao campino, então é hora de apertar com os vizinhos e fazer correr uma petição pela zona. Por um campino mais próximo do cidadão. Se não é assim que é, então é assim que devia ser.

domingo, dezembro 09, 2007

Frágil

Após busca cuidada, perdido no Bairro Alto, marquei presença no Frágil, no dia 6 de Dezembro (quinta-feira), para a apresentação dos Contos de Algibeira, uma louvada iniciativa de Laís Chaffe e da Casa Verde. Para além da estranha situação de ter Jorge Silva Melo a apresentar um livro onde também participo, a noite valeu a pena para ver algumas caras conhecidas. Tímido como sou, não estive «como peixe na água» em evento tão concorrido, mas tive o prazer de conhecer pessoalmente o Luís Ene (afabilíssimo, mas muito franco ao admitir que eu afinal sou mais gordo do que as fotos revelam) e de reencontrar o Paulo.

Quanto ao livro, ainda não está todo corrido. Mas tenho gostado bastante de alguns textos. Favoritos? Tenho, mas isso fica para mim.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Lost in translation

Para tentar falar inglês no dia a dia, perdi o hábito de falar em português. Perdi-me no caminho entre as duas línguas. Agora nem inglês, nem português.

Prendas

Em alturas de Natal, chega a decisão importante: o que comprar para os outros, com boa relação qualidade/preço? Importante é que a melhor prenda seja sempre a minha para mim mesmo. Aceitam-se sugestões, claro.

CONVITE AO LEITOR

Lançamento reúne minicontos de portugueses e brasileiros


«Uma grande festa organizada por Nuno Costa Santos vai unir a literatura portuguesa e brasileira no próximo dia 6 de dezembro, às 21h30min, no Frágil (Rua da Atalaia, 126 – Bairro Alto - Lisboa). Jorge Silva Melo apresenta o livro Contos de Algibeira, lançamento do selo editorial Casa Verde, do Brasil, organizado pela escritora Laís Chaffe. O livro é o terceiro volume da Série Lilliput, dedicada aos minicontos – os primeiros são Contos de bolso (2005) e Contos de bolsa (2006). A novidade é que Contos de algibeira, além de importantes escritores brasileiros, traz colaborações de 36 autores de Portugal.

Já confirmaram presenças no Frágil os escritores Alexandre Borges, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Fernando Gomes, João Carlos Silva, João Ventura, Joel Neto, Luís Ene, Maria João Fernandes, Mário Calado Pedro, Paulo Rodrigues Ferreira, Rui Zink, Sara Monteiro. O Brasil estará representado no lançamento por Luciana Veiga e Berenice Sica Lamas. Luciana faz parte do grupo de escritores que integram a Casa Verde, criada em 2004 por Laís Chaffe, com o objetivo de aprofundar discussões literárias e publicar com independência. Os demais autores da Casa são Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding.»

domingo, dezembro 02, 2007

O estado das coisas

Dia a dia

Ele: I'm being chased.

Eu: Sir, that's normal. They just want more. Ignore it.

A tarefa mais importante

Quando o trabalho e a necessidade de dinheiro afastam o homem da escrita, há uma parcela de depressão que se instala. Um homem sabe quando falta fazer alguma coisa. Mesmo quando o dia nos deu um pouco de tudo, sabe-se isto: não se cumpriu a tarefa mais importante, a de juntar palavras.

Inércia

É provável que, em cada dez metros de vida, apenas um metro seja de real existência. E em algumas pessoas a percentagem de criatividade, de «força viva», é ainda mais pequena. Esta tese faz de mim um ser praticamente inanimado.

domingo, novembro 18, 2007

The Brave One



Para quem viu Taxi Driver, este novo filme de Neil Jordan é, sem dúvida, uma boa lembrança. The Brave One, com Jodie Foster e Terrence Howard (dois actores que muito prezo) não é uma revolução do cinema, como foi com o filme de Scorsese. Mas é um murro no estômago. É uma viagem pela perda, pela vingança e pelo ódio. É um estereótipo de «drama humano», mas sem luto. Sem lágrimas. Será possível preencher o vazio deixado pela perda (morte) de uma pessoa próxima, através da justiça pelas próprias mãos? The Brave One tenta dar a resposta. Falha, mas a reflexão fica lá, assim como um bom filme.

A Vida dos Outros



Há dias, fui ver, pela primeira vez, A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck. Parti para a sala de cinema com uma opinião a ecoar na cabeça, uma opinião negativa que Vasco Pulido Valente havia deixado numa revista. No fim do filme, fiquei com vontade de rasgar o artigo de VPV. A razão é simples: o filme não é medíocre nem é suposto ser um documentário sobre a RDA. E passo a explicar.

Começo pela segunda premissa, acerca da veracidade de algumas coisas que surgem no filme. VPV acusa Donnersmarck de alguma ingenuidade em relação às pessoas em geral e à «redenção pela arte». O problema dessa acusação, no entanto, é o seguinte: um filme não é um tratado moral. Pelo menos, não o é em si, enquanto forma. Se aparecem frases feitas (como as há no meio de filme, uma ou duas, de facto), não são essas frases que fazem todo um filme. Há vida para além da «veracidade» e da «credibilidade» humana das personagens e da acção. E Wiesler, o Stasi que supostamente se redime e se «transforma» pela arte, é uma personagem cativante, sem necessariamente ser verdadeira. Provavelmente, nunca existiu nenhum Wiesler. Provavelmente, nunca houve na PIDE um homem que, atingido pela culpa, acabasse praticamente a «lutar» contra a própria organização, o próprio Estado que servisse, e pagasse o preço por isso. Mas a mensagem do filme - ou melhor, a história hipotética - não deixa de ser bonita. Os filmes não são a realidade, são a realidade que queremos. Hollywood ensinou-nos isso.

Depois, uma suposta acusação de mediocridade do filme. Aqui estamos no domínio das opiniões. Achei A Vida dos Outros um filme muito bom. Não o melhor que já vi, mas um muito bom. Muito interessante. Uma espécie de tragédia shakespeariana motivada pela culpa, pelo acaso, pela vingança e, não menos, pelo sexo. É o sexo que motiva o encontro de todas estas personagens, em especial o interesse sexual «devorista» e destruidor do ministro Bruno Hempf pela actriz namorada de Dreyman, o escritor que passa a ficar sob escuta para eventualmente ser «acusado» de algo, seja qual for a acusação. É o sexo que, tal como em Shakespeare, move muitos peões aqui. E isso é algo que, ao contrário de muitas peças, Shakespeare introduz de forma muito humana e muito cínica. Donnersmarck teve o cuidado de nos pôr um dilema shakespeariano em cinema, num cenário comunista. E em alemão, o que é obra.

Putin

Já se pode ler um novo artigo meu no Setúbal na Rede, acerca da visita de Putin a Portugal e das «lições de democracia» que dessa visita brotaram.

A moral orientadora do artigo é esta: «em matéria de “democracia” e de subsidiariedade, não estamos propriamente a ganhar terreno sobre Putin. A perda contínua de capacidade e mobilidade económicas dos pequenos poderes na Europa, e em Portugal isso é visível, corta-nos a palavra quando queremos ensinar Vladimir Putin a governar. Tanto Sócrates como Putin acham que sabem o que é melhor para o seu povo, e nisso, como sabemos, não há voz que lhes chegue aos ouvidos».

segunda-feira, novembro 12, 2007

Schmeichel e Bukowski



Depois de uma busca recomendada pelo Paulo, fico acidentalmente a saber que há uma dupla musical no Brasil chamada «Schmeichel e Bukowski». O que, pegando moda, dará certamente origem a uma hipotética dupla de samba «Buffon e Saramago».