sexta-feira, fevereiro 29, 2008

A China das contradições



Federico Rampini é o correspondente do La Repubblica em Pequim. Ou seja, um enviado italiano – ocidental – à China. É uma visão ocidental, por vezes apaixonada ou fascinada sobre o futuro da China, assim como sobre o seu passado, embora pejada de críticas à sociedade chinesa, nomeadamente ao que depende do controle do poder. O «período» (ainda que virtual) foco das atenções do jornalista é inaugurado pelas manifestações e pelas repressões de 1989, marcadas pelo incidente da praça Tiananmen, uma espécie de marco histórico a partir do qual Rampini avalia uma China em constante mudança.

Em relação a esses incidentes em Tiananmen, o jornalista italiano salienta a acção de Deng Xiaopeng que, anteriormente visto como um homem mais sensato, mais «pragmático», revela nesse dia ao Ocidente a verdadeira natureza do seu governo, abrindo as hostilidades contra os manifestantes. É um governo de homens imprevisíveis, absolutamente reverentes à autoridade central, cuja única crítica ao poder é aquela dirigida aos poderes locais, aos hipotéticos «burocratas corruptos» que grassam nas províncias e nos sítios onde o poder do governo central não chega. E, de facto, essa corrupção existe, e abusa dos chineses – camponeses ou não – que, muitas vezes, perdem as suas casas sem nenhuma retribuição ou compensação. Burocratas que recebem «luvas» de grandes multinacionais, dirigentes de faculdades que pedem subornos aos pais dos novos alunos, eliminação da oposição através de detenções e assassinatos.

Mas não se pense que tudo isto se faz totalmente à margem do poder central. É, aliás, a própria natureza do comunismo chinês (às vezes penso se isto será, ainda, comunismo) que leva a que os abusos tenham lugar. E é a própria sociedade chinesa que, ao invés do que se pensa, tem tudo menos pureza. Muito pelo contrário, há tiroteios na escolas, tal como na «terra da perdição» dos Estados Unidos da América. Há, mais importante que tudo, uma leviandade na aplicação de penas pesadíssimas, sejam elas dezenas de anos de prisão por oposição política e cívica ou a pena capital aplicada às mãos cheias. Leia-se, por exemplo, este excerto:

«Todos os anos, neste país são fuziladas ou eliminadas por injecção letal pelo menos 10.000 pessoas: um número que ultrapassa em cinco vezes as condenações à morte executadas em todo o resto do mundo, Estados Unidos incluídos.
Não obstante o mal-estar dos intelectuais e dalguns dirigentes mais iluminados, a pena de morte conta ainda com um sólido futuro na China.»


A China não se resume a um país dividido entre as exportações chinesas, as multinacionais nacionais e estrangeiras e o Partido único. Não, O Século Chinês mostra-nos uma China cheia de contradições, cheia de promessas e de ameaças, cheia de poderes autoritários mas também de inúmeros contra-poderes amordaçados espalhados pela sociedade. O livro acaba com uma «balança» entre os poderes emergentes da China e da Índia, competidores que podem resultar no melhor ou, se faltar a confiança em si mesmos, no pior.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sobre a insegurança em Setúbal.

Dois posts do Luís Silva no Office Lounging. E um link para um «resumo» de uma entrevista a Maria das Dores Meira.

Death of a Salesman

Não digo que ele seja um grande homem. Willy Loman nunca ganhou rios de dinheiro. Os jornais nunca falaram nele. Não é nenhum génio, bem entendido. Mas é um ser humano, e está a sofrer terrivelmente. Isso é que é preciso não esquecer. Não se deixa morrer um um homem assim sem mais nem menos como um cão.

Arthur Miller, Morte de um Caixeiro-Viajante

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Insurgentes (emenda)

Uma fonte próxima do Insurgente vem-me agora revelar que, afinal, a «tomada de posse» do blog por um grupo de «palhaços desocupados» - segundo um post meu - foi mais amigável do que pareceu. Eu, que só tinha visto ontem o manifesto inicial, não percebi isso. Retraio-me agora, após aperceber-me da figura «úrsica» que fiz. Viva la revolución, pois então.

Óscares

Hoje é dia de ficar levantado até mais tarde do que o normal. A velhice prematura do meu corpo bem que me diz que não, que não será um dia de serão mas mais um dia de adormecer no sofá, de boca aberta e baba a escorrer para a t-shirt. Mas os Óscares falam mais alto, e o tédio televisivo (sem Sopranos na 2:) precisa de ser quebrado.

Antes de de mais, tenho curiosidade com Jon Stewart, que em tempos me fez rir antes de «afunilar» de vez para o humor liberal sem graça. Não é Robin Williams nem Billy Crystal, mas lá dará para o gasto. Para os próximos anos, gostava de ver, talvez, Conan O'Brien ou Wanda Sykes, dois humoristas geniais muito cá de casa. De resto, tirando a curiosidade competitiva de saber quem ganha as estatuetas, pouco mais me interessa na dita «cerimónia dos vestidos bonitos».

Em relação a filmes, os favoritos serão There Will Be Blood e No Country For Old Men. O primeiro vi, e gostei muito. O segundo tenho vindo a aplaudir antes sequer de o ver, para o que estou ansioso (os irmãos Coen nunca me desiludiram, não será desta vez que isso acontece). Respectivamente, deverão sair vencedores, e com mérito, Daniel Day-Lewis e Javier Bardem, dois homens que estão a entrar, passo a passo, na galeria dos actores de culto do mundo do cinema, provando o espanhol que o mundo das «estrelas» de cinema é universal, assim como o seu mercado.

Uma curiosidade: gostava de ver Ellen Page levar a estatueta. Ainda não vi Juno, mas deverá ser a minha próxima escolha, influenciada também pela pressão feminina cá de casa. E consta que Ellen Page está muito bem nesse filme. Que ganhe ela, mais não seja pela simpatia que me conseguiu roubar.

Insurgentes

É através do blogue do Bruno, em primeira mão, que me apercebo da pobreza de espírito do que se passa na blogosfera. Nomeadamente, neste caso, a tomada de assalto do Insurgente por uns pretensos «activistas». O Bruno chama-lhes «grupo de extrema-esquerda». Eu chamo-lhes «grupo de palhaços desocupados». Espero que os insurgentes apliquem um valente pontapé no cu de alguém e voltem de novo ao serviço. Resumindo: mais um episódio triste e patético da incapacidade de conviver com opiniões alheias.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Patrimony



Um dos melhores livros de Philip Roth terá de ser, sem dúvida, Patrimony. É um romance sobre factos. Uma narrativa simples, humilde e respeitosa sobre os últimos dias do pai do próprio Philip Roth, visto pelos olhos do filho. A maneira como Herman Roth sucumbe, aos poucos, à frustração e à fragilidade de um octagenário judeu seguro de si mesmo mas com um tumor na cabeça, deixa-nos rendidos ao livro, e à história dos Roth. Porque a morte, tal como em quase todos os livros de Philip Roth, mais não é do que uma maneira de pensar a própria vida.

They fought two battles

You know how it was: these kids grew up, they had a tough life, the slums, no money, and they always had an adversary. The Christian religion was an adversary. They fought two battles. They fought because they were fighters, and they fought because they were Jews. They'd put two guys in the ring, an Italian and a Jew, an Irishman and a Jew, and they fought like they meant it, they fought to hurt. There was always a certain amount of hatred in it. Trying to show who was superior.

Philip Roth, Patrimony

domingo, fevereiro 17, 2008

Kids



Kids (1995), de Larry Clark, não é um filme bom de se ver. É o primeiro filme que vejo do homem e, a despeito do culto que lhe é devido, continuo a gostar muito mais de Gus van Sant, comparando dois realizadores que costumam mergulhar no tema da perdição juvenil ou do desafio que é crescer normalmente. Larry Clark é (pelo menos em Kids) brutal, directo e polémico. Tudo isto é muito bom, mas o que fica no fim é também uma certa noção de perversão que, ao avaliar outros filmes do currículo de realizador de Clark, parece ser transversal a Ken Park ou a Bully. Será um bom argumento? Não, muito pouco para dar. Mas será Larry Clark um bom realizador? Para ser sincero, os recursos de cinema são muito bons, e a filmagem tem qualidade e maturidade. Terei de esperar até ver mais filmes seus para confirmar as minhas duas opiniões.

sábado, fevereiro 16, 2008

Mirror


José Sócrates, ao deparar-se com uma manifestação de professores, que assobiavam os dirigentes socialistas à porta da sede do PS, disse que esta é uma atitude «antidemocrática» e «estalinista». E ainda dizem que Portugal não tem boa literatura, bom cinema e bom humor.

Os livros não nadam

Nota para mim próprio: não voltar a andar com um livro na mão quando me debruço sobre a banheira. Porque os livros, para além de não nadarem, são pouco higiénicos e dispensam o banho.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

There Will Be Blood



Ao filme faltam alguns «nós», alguns desfechos que poderiam ser importantes. Falta o desenrolar de uma grande história. There Will Be Blood não é só um dos maiores papéis de Daniel Day-Lewis (ou o seu maior papel da sua maturidade cinematográfica), é também um épico fenomenal, uma saga. Mas deixa uma certa sensação de incompletude no final, uma necessidade de catárse, de um castigo ou um destino mais decisivo para Daniel Plainview (Day-Lewis). Uma intepretação muito boa do homem de In the Name of the Father, mas também uma considerável promessa de Dillon Freasier, mini-actor de talento. Vale muito a pena o tempo pasado no cinema para este filme de P.T.A..

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A queda de Hillary

Barack Obama parece estar de novo à frente da corrida Democrata à Casa Branca. Fico contente. Não apenas por ter esta «personality fever» que por aí anda (tal qual JFK, se bem que eu nunca teria esta atitude com JFK) em relação a Obama, aparentemente franco sem ser ingénuo, relativamente impoluto sem ser inexperiente. Obama inspira-me, sobretudo, pela sua atitude e pela sua história de vida simples, e não tanto pelo seu «conteúdo» ideológico (aparentemente inexistente, segundo muitos).

Ora, isto não acontece com Hillary Clinton. Hillary traz a dinâmica do riso forçado, estético, cirúrgico. Traz a energia de uma candidata que parece ter dedicado décadas da sua vida a preparar-se para isto. O que só comprova a tese da «dinastia Clinton», como se de uma família real se tratasse. É possível confundir, sim, as duas coisas, tal como se Hillary mais não fosse que um princípe tentando agradar à força aos seus súbditos. Tem hipóteses, claro. É mulher, o que agrada às hostes politicamente correctas, com mais pejo de confrontar uma candidata feminina em alguns temas. Tem muitos anos de Casa Branca, o que lhe dá uma proximidade da Presidência que nenhum outro candidato alguma vez teve. E carrega um portfolio de Senado, e de «vampira» de Washington, que Obama não consegue igualar.

Mas Hillary tem igualmente nos seus «trunfos» as nuances que a enfraquecerão no fim: é uma mulher na política, facto pessoal que não lhe traz especial confiança política em alguns estados importantes, o que não deixa de acontecer também com Obama, no entanto; tem demasiados anos de proximidade de uma presidência assombrada por um escândalo sexual (cujo crime foi o perjúrio, não as «facadinhas matrimoniais» do homem), participando Hillary involuntariamente da mentira de Bill Clinton mas ficando no ar a hipótese de aproveitamento político; por fim, os muitos anos no Senado também fizeram dela uma perfeita raposa política, sem sombra de opinião própria e de princípios que não sejam os da maioria, facilmente oscilando de um voto para outro e facilmente, também, perdendo o fio à meada.

Por fim, Hillary, ao tentar «fintar» Obama, ao querer pôr-se mais ao centro, deixou-se ficar mesmo a jeito para o surgimento de um candidato mais moderado (Giuliani ou McCain) entre os republicanos. É que, tentando apelar aos sectores conservadores e fugindo do eleitorado habitual, acabou por se meter na toca do lobo. Huckabee (candidato que aprecio pela representação franca de uma fatia bem definida do eleitorado, surpreendentemente fugindo à demagogia fácil com discursos bastante bons) não terá hipóteses e Romney, felizmente, também não. Resta John McCain que, com o seu cartão de entrada e com os inevitáveis votos republicanos, parece ter contribuído para a situação corrente: Hillary encurralada entre ele e Obama. Para onde se virar agora? Hillary não sabe.

Dor do Século



Alain Besançon, em A Dor do Século, faz o exame imperativo aos sistemas comunista e nazi. Não é a prmeira vez que leio um livro que siga esta linha, nem é um argumento inovador o de afirmar que a destruição causada pelo comunismo não foi menor do que aquela causada pelo nazismo. Uma destruição tanto física, como política e moral. Mas a do comunismo foi (ou é) uma que ultrapassa a impulsividade da ideologia nazi (que preenche completamente a história da experiência nazi alemã, de facto), deixou marcas que dificilmente serão saradas e destruiu valores que, em alguns países, nunca serão recuperados.

Sobretudo, há a ideia de que, enquanto o mundo se unia contra o nazismo, nunca houve um «movimento» equivalente a uma escala europeia ou universal contra o comunismo. Os comunistas russos e chineses, ao expandirem-se de forma mais pontual, nunca conseguiram reunir uma «condenação» universal das nações mais poderosas. Houve e há um certo tabu de admitir que a ideologia comunista provou-se na prática enquanto inviável. E isto não tem só a ver com os exemplos tanto do manual Mein Kampf (reduzindo o pensamento de Hitler especificamente ao homem do Reich) como de qualquer outra vulgata leninista. Tem a ver com o homem criado pelas ideologias.

Diz Besançon: «O homem nazi e comunista oferece-se ao exame clínico do psiquiatra. Parece emparedado, isolado da realidade, capaz de argumentar indefinidamente em círculo com o seu interlocutor, obnubilado, e no entando persuadido de ser racional». Este homem é o soldado-ideólogo, uma mistura de combatente fiel com pastor substituto da personalidade de Hitler e de Estaline. É este homem que, seja qual for a linguagem que use, não hesitará em proceder ao genocídio. Pelo bem da Humanidade, diria qualquer um deles.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

domingo, fevereiro 03, 2008

O seio nu


O senhor Palomar caminha ao longo de uma praia solitária. Encontra poucos banhistas. Uma mulher jovem está estendida na areia, apanhando sol com os seios descobertos. Palomar, homem discreto, volve o seu olhar para o horizonte marinho. Sabe que em semelhantes circunstâncias, quando um desconhecido se aproxima, as mulheres, geralmente, apressam-se a cobrir-se, e isso não lhe parece bem; porque é aborrecido para a banhista que apanha sol tranquilamente; porque o homem que passa sente que importuna; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; porque as convenções não inteiramente respeitadas propagam a insegurança e a incoerência no comportamento, em vez da liberdade e da franqueza.

Por isso, assim que vê aparecer à distância a nuvem brônzeo-rósea de um torso nu feminino, apressa-se a colocar a cabeça de molde a que a trajectória do seu olhar permaneça suspensa no vazio, como garante do seu respeito cívico pela fronteira invisível que circunda as pessoas.


Italo Calvino, Palomar

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

D. Carlos

O homem deixou-me saudades, e não só nunca o conheci ou ouvi a sua voz, como nem sequer sonho como será ter vivido sob o seu reinado. Não sou monárquico, não sou saudosista da monarquia e não acho que um Estado sem sangue azul esteja condenado ao naufrágio. Não o acho particularmente bonito ou fotogénico, não sei se votaria nele se se candidatasse a cargos públicos. Nunca vi pinturas suas (por reputação jeitosas) ou admirei algo feito por si. Não o adoro, mas também não desgosto da figura. Não pego num rei martirizado por oposição à malfadada República, mas também não nego que fico um vácuo de ar e de veneno no espaço que o rei deixou. Mil e uma coisas que poderia procurar em D. Carlos para gostar dele como estadista, mas a simples verdade é que fico com a impressão de gostar do homem por ele mesmo. E uma impressão de que, acima de tudo, se acabou com um homem muito decente, equilibrado e prometedor em nome de muito pouco.

A decisão de matar o rei foi tomada a 1 de Fevereiro de 1908, há precisamente 100 anos. Buiça e Costa, personagens misteriosas e ao mesmo tempo prosaicas, deitaram D. Carlos e D. Luís ao chão, lavando a ideologia republicana em sangue. Não se pode é censurar os republicanos por este acto de coerência ideológica: não imagino a República a nascer sem esta manifestação dos radicais. Uma pena.

Substituições



Ando muito preocupado com estas substituições que andam por aí a ser «efectuadas» (tal como o agente da GNR que hoje, na televisão, ouvi recomendar que não se «efectue a condução» quando «sob o efeito de álcool ou psicotrópicos» - isso mesmo, efectuar a condução). Falo, claro está, das futuras substituições de Matheus e Edinho, jogadores-chave do meu Vitória, cada um a sair para o seu sítio. Como é que substitui um jogador importante num clube em dificuldades financeiras? Com esperança e audácia... e um jogador vitoriano mais fraquito (jogadores esses que eu prefiro chamar, eufemisticamente, «diamantes em bruto por delapidar») a tentar superar-se a si mesmo.

Por outro lado, preocupam-me as substituições das encomendas da Amazon que, nos últimos dois meses, parecem chegar aleatoriamente à minha casa. Umas vezes chegam, outras vezes não. E não há substituição à vista. Onde vão aqueles livros parar, ninguém sabe. Tanta reorganização e remodelação geográfica e ninguém me diz o que se passa com os CTT?

E, por falar em assuntos políticos fracturantes, tenho reparado que muito boa gente anda por aí a aplaudir a fantochada da subtituição de dois ministros deste governo. Sai Correia de Campos, um ministro maldito que foi (ingenuamente ou não) encarregue de sujar as mãos de sangue - sem intenção de trocadilho - no Ministério da Saúde e, com ele, José Sócrates rasga e põe no cesto uma página da sua «obra», como se de redenção se tratasse. Entra uma mulher desconhecida no meio político e logo vibram os portugueses, sem pensar no que aí vem e, sobretudo, no que precedeu esta substituição.
Pior ainda é a mudança no Ministério da Cultura. Se, na Azambuja, não tivessem fugido dois tigres do Circo Chen, eu diria que a «remodelação» da pasta da Cultura foi o maior momento de entretenimento da semana. Não querendo diminuir António Pinto Ribeiro, soa-me apenas a manobra de diversão por parte de Sócrates. Mário Lino ainda tem de sujar as mãos com algo mais - não é ainda o tempo de o sacrificar, porque «sujo» já ele está. E, se sou eu o único a ver isto e a não «aplaudir», então da minha parte é apenas uma de duas coisas: cepticismo ou paranóia.

O estado das coisas



Hoje não me apeteceu ir trabalhar, e portanto não fui. Haverá algo melhor do que ouvir Highway 61 Revisited num dia destes?

Das máquinas, dos homens

Os homens são máquinas. E nós, por imitação, somos homens. Pode-se ensinar uma máquina, mas não se pode retirar dela amor e vida. A máquina não pensa nem ama, apenas repete e responde.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Pequenas nostalgias

Ouvir Mário Soares, numa sessão do Câmara Clara, a falar do «senhor André» da livraria.

Mao e a herança do poder



Mao tornou-se um símbolo, não do comunismo «antigo» chinês, nem do Partido Comunista na actualidade. Mao Tsé-Tung não é mais do que um ícone nacionalista que todos querem capitalizar para si mesmos.
Nadando à tona da verdade em relação às vítimas da Revolução Cultural, do Grande Salto em Frente, a nomenclatura do partido único chinês legitima a sua própria existência, enquanto «partido único», predominantemente a partir do mito de Mao como defensor da independência e dos valores da China contra o invasor nipónico. Descendentes de Mao, as elites chinesas serão assim as únicas figuras possíveis para liderar os chineses.

Ao criticarem Mao, estas elites perderiam um pai ideológico, perderiam o cordão umbilical à génese do nacionalismo chinês que ainda hoje inspira muita da população da China, em especial agricultores.
Nacionalismo e valores caducos, a memória mentirosa de Mao, é esta a cruz que os governantes da China ainda carregam. Que volta a dar? Ninguém sabe...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Crença

Mas se não fosse para atrasados não era crença. Tu queres que a crença seja racional. Mas então não era crença. A queda dos graves não é uma crença. Dois e dois são quatro não é uma crença. Houve um santo que disse «creio porque é absurdo». Pois está claro que se não fosse absurdo, não era coisa de se crer.

Vergílio Ferreira, Para Sempre

terça-feira, janeiro 22, 2008

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Corda na garganta

Relações de trabalho: ter a corda na garganta tem muito que se lhe diga. Já não é o mesmo que ser judeu na Alemanha ou sunita no Iraque, mas traz um certa atitude paranóica com essa «corda». Quando alguém nos quer longe, há que ter cuidado em não pisar o risco, mas também é importante não trilhar o caminho que os outros escolhem. Não ter controlo sobre o sentido que se toma deixa uma marca igual ou pior do que a da corda na garganta.

O estado das coisas

Ritmo de trabalho

Sou o que menos produz no sítio onde trabalho. Mas também me sinto mais são ao fim do dia.

sábado, janeiro 12, 2008

O líder da «guerrilha»



Rui Ramos sobre Luiz Pacheco (1925-2008), aqui.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Aventuras revolucionárias

Chora Hillary, chora

Honestamente, aquela lágrima e a voz tremida que a acompanhou pareceram-me genuínas, o que, longe de "humanizar" Hillary, apenas a prejudica. Tudo porque ela "chora" por estar a perder a corrida eleitoral que julgava há anos estar ganha à partida, o que em vez de provocar a empatia dos eleitores, apenas acaba por lhes confirmar a ideia de que Hillary é uma mulher obcecada com o poder: ela "só chora" por perder eleições. Genuína ou encenada, a lágrima de Hillary é tudo menos uma ajuda à candidata.

Bruno Alves, Desesperada Esperança, mais aqui.

Eraserhead



Eraserhead: o filme mais irritante de David Lynch. Desde Lost Highway que a minha opinião acerca de Lynch, e sobretudo acerca dos que idolatram Lynch, não descia tanto. Claro que The Elephant Man é um dos meus filmes favoritos. Claro que Dune tem a qualidade e nostalgia da ficção científica que eu adorava enquanto menino. Claro que The Straight Story é um filme muito bonito (bonito é a palavra certa, e olhem que é uma palavra que muito honro e protejo no mundo do cinema). Mas nada disto retira a Eraserhead a categoria de filme sobrevalorizado da qual eu definitivamente não recuo.

O único ponto positivo deste filme é Henry, a personagem principal insone e tensa, peculiar, facilmente comparável com o próprio Lynch. Mas, em geral, Eraserhead é confuso, barulhento e irritante. Sons de fábrica, apitos, guinchos, cenas oníricas mais parecidas com tripes de heroína. Para mim, ir vê-lo ao cinema foi mesmo uma má experiência. Dizer que fiquei desiludido é até muito simpático para com Lynch, porque não deixo de gostar bastante de outros filmes do homem.

Advertência ao leitor

A ausência de computador normalmente implica que não se possa escrever no blogue. É precisamente isso que tem acontecido. Como todos os homens, as máquinas também se vão abaixo. Promete-se mais regularidade dentro em breve.

domingo, dezembro 30, 2007

Colombo e a viagem falhada

Hoje, se pegarmos um avião da Espanha para Calcutá e aterrisarmos no Caribe, só há duas possibilidades: ou o piloto bebeu, ou sequestraram o avião. Claro, você também pode estar no avião errado. Chance remotíssima, os embarques são controlados electronicamente.
No entanto, foi exactamente isto que aconteceu a Cristóvão Colombo (...).


Angela Dutra de Menezes, O Português que nos Pariu

Combater o Mal

Para combater o Mal, afastamo-nos de Deus.

John Patrick Shanley, A Dúvida

A Dúvida



O cenário: uma escola católica no Bronx, Nova Iorque - no ano de 1964 -, depara-se com o dilema da inocência ou culpa de um padre, acusado de assediar sexualmente um rapaz de doze anos. Ir ver A Dúvida ao Teatro Maria Matos teve logo o sucesso inicial de me levar ao teatro, coisa que, por maldade ou cautela, evito. Talvez seja preconceito não ir mais vezes. Talvez seja ignorância. Ou talvez eu apenas não acredite na qualidade geral do nosso teatro. Mas A Dúvida, de John Patrick Shanley, teve o dom de me colocar em permanente dúvida (perdoem-me o trocadilho). Ver Diogo Infante - um dos melhores actores portugueses vivos - e Eunice Muñoz - carisma impermeável à idade - juntos no mesmo palco deixa-nos de boca aberta e sem noção do tempo. O teatro pode-nos deixar agarrados horas e horas e horas seguidas, sem sequer pensar em levantar o rabo do assento. Aprendi isso hoje, com a peça de Shanley. E aprendi que o cinema não deve monopolizar a minha atenção. Há espaço para eu admirar o palco.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Zelig



Zelig é um filme «muito cá de casa», e revi-o há dias com a maior das euforias. Tem o humor mais subtil de Woody Allen e uma viagem de reflexão/desafio/respeito/gozo à personalidade humana e à psicanálise. Ainda por cima tem figuras como Saul Bellow ou Bruno Betelheim a participarem no filme da forma mais convincente possível. É um dos grandes filmes do século XX e sobre o século XX.

Menezes isn´t there



Quando Marques Mendes estava à frente do PSD, fazia-se oposição na Assembleia. As vozes logo se levantaram contra o homem que, para além de ser «muito piquenino para ir a algum lado», não fazia «oposição como deve ser». Quis-se Luís Filipe Menezes, que prometia dar uma nova cara à oposição. Dizia-se que ele iria «abanar o barco». O próprio Menezes dizia que iria trazer uma mudança radical «já». E trouxe: a oposição do PSD praticamente desintegrou-se. Afinal, tinha razão quando falava da rapidez do seu trabalho. É até, na verdade, um recorde memorável: nunca um político desapareceu tão depressa.

O dono da faca

O dono da faca nem sempre é o verdadeiro criminoso.

Graham Greene, O Terceiro Homem

Holanda

A Holanda é um país que não inspira amantes. Todos os homens usam chapéu e cumprimentam em protocolo translúcido -, as crianças fumam cigarrilhas, todos talhos são floridos em contraste português,- se um carniceiro em Portugal pusesse flores nas montras do talho passava a ser considerado como pederasta oficialmente reconhecido pelo grémio.

Ruben A., Páginas I

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Na Consoada, acampar no Cambodja



Antes do Pai Natal chegar, ainda há tempo para exprimir aqui a minha gratidão para com Rui Ramos por nos ter trazido as palavras sábias de Luís Filipe Menezes. É de louvar, sobretudo, a coragem e paciência de Rui Ramos ao mergulhar no livro Coragem de Mudar, da autoria da referida personagem política. Por exemplo, esta passagem do artigo matou-me a sobriedade cinzenta de Consoada: «O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora sobre a sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: "sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição". Ou isto: o "cosmopolitismo para mim é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no norte do Cambodja" (p. 21)». Ou então, também podemos reflectir neste nostálgico devaneio de Menezes: «"Há dois anos atrás, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena que estas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão..." (p. 44)».

Muito bom. Apenas ultrapassado em qualidade pela resposta do líder do PSD, em entrevista no Expresso, quando lhe perguntam o que achou deste artigo de Rui Ramos: «mas esse senhor não terá filhos?». Só por isto, Menezes já merecia o meu voto de confiança. Toda a gente gosta de comediantes, e ninguém leva a mal a parvoíce. Agora começar a fazer política a sério? Isso é que eu nunca lhe perdoaria.

domingo, dezembro 23, 2007

Xmas

A Causa das Coisas deseja que o leitor tenha um Feliz Natal. E, para quem não aprecia muito o Pai Natal, então deixo também um conselho: aproveitar a quadra para ouvir boa música, como a que é tocada pelas únicas boas pessoas a vestir de vermelho.

O estado das coisas



Entrar numas merecidas férias (o que é bom é sempre merecido) depois de dez dias sem fazer a barba.

domingo, dezembro 16, 2007

Argumentos pessoais para a «via alternativa»*

«O que tem Obama de novo? Como o próprio Sullivan o diz: His face. A sua cara. A sua miscelânea. O que ela representa. O que esta significa para os inimigos recentes da América. Nascido no Havai, filho de pai queniano e mãe americana, Obama personifica a abertura do ideal americano às preocupações do mundo. A busca de uma vida melhor e, mais importante que tudo isso, a possibilidade de essa vida melhor ser encontrada na América. O país onde até um mestiço pode ser o homem mais poderoso do planeta. Haverá , de acordo com Sullivan, melhor mensagem para um miúdo que viva no Paquistão?»

André Abrantes Amaral, O Observador

*«via alternativa»: em quem votar quando não se vota em Giuliani

O melhor confronto possível



Giuliani vs. Obama. O melhor confronto possível para 2008 (é sobretudo importante que a hipótese democrata seja Barack Obama e não Hillary Clinton). É o meu «pré-desejo» presidencial para o novo ano.

Byblos



Fui à Byblos e já lá gastei dinheiro. Gostei muito do espaço e, sobretudo, da parte da literatura estrangeira (a portuguesa, de facto, está ainda fraquinha em comparação com muitas livrarias de Lisboa, da «velha guarda»). Fiquei com vontade de lá voltar. Hei-de continuar a ir regularmente, por isso mesmo. E bardamerda para quem acha que é populareco gostar daquela livraria. Nem sempre é preciso cheirar mofo nos livros e nas estantes para se ser um leitor fiel. Acho que a Byblos tem o seu espaço no mundo das livrarias em Portugal.

sábado, dezembro 15, 2007

Doblagens revolucionárias



Os desenhos animados dobrados são a maior parvoíce jamais criada pelo ser humano. É qualquer coisa como pintar sorrisos nas figuras do Guernica do Picasso. Apercebo-me disto no momento em que dou com o facto deste novo filme de animação com abelhas vir a ser dobrado para português. Ora, por duas coisas isto é terrível: primeiro, porque perder a oportunidade de ouvir Seinfeld (mesmo numa situação que não traz grande piada) é torturante para uma criança no futuro; segundo, porque ensina às crianças o dever de «não ler» as legendas, logo condenando-as às telenovelas do Tozé Martinho; terceiro, porque simplesmente trata as crianças como estúpidas.

Veja-se agora um PREC mais apertado no controlo televisivo. Imagine-se, por exemplo, o que seria ver desenhos animados do Tom Sawyer com controlo popular. «Desenhos animados para o povo», justificar-se-ia. É preciso dar ao povo as ferramentas para compreender o mundo e os desenhos animados. E, já agora, que também não custa nada, aproveita-se para reeducá-lo.

Não gostaria de ouvir Tom Sawyer, por exemplo, a convencer os amigos e vizinhos a pintar a cerca da tia Polly porque «o trabalho para bem dos outros dignifica o homem e a sociedade». Já não seria uma cena genial em que o Tom convence os amigos a pintar a cerca (terrível tarefa) enganando-os pela inveja - diz que prefere fazer aquilo a brincar - mas sim uma cena em que Tom realmente prefere trabalhar do que brincar. «Eh Tom, que estás a fazer?» «Estou a pintar a cerca.» «Deve ser muito chato.» «Não. É óptimo e dignificante, como nos ensinou o Camarada Vasco.» «Porque não me disseste isso antes? Dá-me já uma trincha, Tom».

Seria feio, isso sim, ver o tratamento dado a Huckleberry Finn. Huck é um rapaz preguiçoso e sem maneiras. Come e dorme quando pode e quando quer, sem regras mas sempre pela lei da necessidade. Vem de uma família destroçada e, logo, aprendeu a viver segundo as suas próprias regras. Uma boa alma, no fundo. Mas Huck chegaria ao pé do Tom e da cerca e começaria o controlo operário. «Eh Tom, estás a pintar a cerca?» «Claro, o Camarada Vasco quer isto pintado até ao fim do dia.» «Eu não faço isso, vou mas é jogar ao pião». E pronto, tudo está bem quando acaba bem. Huckleberry Finn, no fundo, é a representação de um perfeito reaccionário, afecto a cada um de nós, por razões que variam de pessoa para pessoa. Todos nós somos reaccionários, mas só uma parte escapa ao controlo.

No fundo, é o que se passa com os desenhos animados. Em todos eles, há uma ou outra personagem que, mesmo com as doblagens da década de 70 portuguesa, escaparia ao controle. Caso do Huck, que não deixa levar pelas palavras propagandistas de Tom, claramente alterado pela controleira «tia Polly». Corajosa e louvável atitude que não teria, por exemplo, o rato Pompom, de Dartacão. Rato esquivo e matreiro, rapidamente entregava os Moscãoteiros à PIDE do Cardeal Richelieu. Enfim, atitudes contra-revolucionárias.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Às avessas



Portugal estabelece relações de amizade com Putin, Chávez e José Eduardo dos Santos. Dezenas e dezenas de ditadores africanos corruptos juntaram-se em Portugal para dois dias de férias. José Sócrates é primeiro-ministro de Portugal. O melhor jogador português do momento é um cigano. E depois venham-me dizer que Portugal não é um país às avessas.

O estado das coisas

Entraves

Querer livros que estão a 19 euros nas livrarias.

Inédito

O meu amigo Bruno, pela primeira vez na vida, deu um beijinho ao Portas.

A vida na aldeia: #1- Segurança pública



As pessoas cruzam-se numa estrada do interior (isto é, do «interior do Portugal profundo») com um carro da GNR e pensam: «lá vem a polícia local». Enganam-se. A GNR é, realmente, uma figura da autoridade fora das cidades, mas não é a polícia local. É mais, digamos, uma espécie de FBI das localidades. O Bureau das vilas. Aliás, a GNR desempenha um papel essencial na resolução dos casos mais bicudos das pequenas localidades - disputas de heranças, roubo de gado, mutilação de santinhos na paróquia -, sempre com grande profissionalismo e postura. Isso ninguém lhes pode negar. Mas não é, de facto, a força de segurança preferida das pessoas.

A força de segurança que mais apela ao comum português da vila/aldeia é outra. Face ao visível afastamento moral entre a Guarda Nacional Republicana e o cidadão honesto, os portugueses manifestam-se escolhendo como polícia preferida não a GNR, a PSP, ou a Securitas. O português sóbrio escolhe, isso sim, o Campino como principal agente para guardar o seu dia-a-dia.

O campino é objecto do mais sincero amor do português da aldeia. Fresco, modesto e trabalhador, o campino mantém a austeridade e o visual dos seus antepassados de gerações e gerações atrás. E as razões estão aí debaixo do nariz, senão veja-se: colete encarnado, mostrando coragem perante o touro mais bravo; bota de montar, claramente pondo a nu o sangue azul dos seus bisavós; camisa branca que nunca suja (Don Johnson no Miami Vice também vestia um fato branco que, mesmo no meio do mais feroz dos tiroteios, nunca se sujava); uma versátil faixa vermelha como cinto que, no Inverno, também serve de cachecol, para proteger o agente prevenido; o barrete verde, que não envergonha nenhum soldado de elite e que, devido às suas parecenças com o barrete do Noddy, convence as crianças da bondade do campino; e, finalmente, o pampilho, pau lutador da maior modernidade, que assume simultaneamente a classe e a virilidade do dito agente da autoridade.

Imagine-se o leitor, por exemplo, em Arruda dos Vinhos. Quereria o leitor ser parado em plena estrada por um GNR barrigudo, de bigode farfalhudo, de botas de montar (nunca percebi para que são precisas botas de montar se a GNR só anda de jipe) e de boné a tombar para a testa? Não me parece. Nem o leitor quer, nem eu quero. Por outro lado, toda a gente gosta de ser advertida por um campino. E normalmente passa-se assim: o campino assobia ao condutor acelerado. E este, apercebendo-se da aproximação de um generoso homem vestido de verde e vermelho, montado num cavalo lusitano, rende-se imediatamente ao seu dever patriótico de abrandar o carro e colaborar com a justiça.

Ninguém resiste à simpatia de um campino. Se na sua vila ainda não foi dada inteira exclusividade da segurança pública ao campino, então é hora de apertar com os vizinhos e fazer correr uma petição pela zona. Por um campino mais próximo do cidadão. Se não é assim que é, então é assim que devia ser.

domingo, dezembro 09, 2007

Frágil

Após busca cuidada, perdido no Bairro Alto, marquei presença no Frágil, no dia 6 de Dezembro (quinta-feira), para a apresentação dos Contos de Algibeira, uma louvada iniciativa de Laís Chaffe e da Casa Verde. Para além da estranha situação de ter Jorge Silva Melo a apresentar um livro onde também participo, a noite valeu a pena para ver algumas caras conhecidas. Tímido como sou, não estive «como peixe na água» em evento tão concorrido, mas tive o prazer de conhecer pessoalmente o Luís Ene (afabilíssimo, mas muito franco ao admitir que eu afinal sou mais gordo do que as fotos revelam) e de reencontrar o Paulo.

Quanto ao livro, ainda não está todo corrido. Mas tenho gostado bastante de alguns textos. Favoritos? Tenho, mas isso fica para mim.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Lost in translation

Para tentar falar inglês no dia a dia, perdi o hábito de falar em português. Perdi-me no caminho entre as duas línguas. Agora nem inglês, nem português.

Prendas

Em alturas de Natal, chega a decisão importante: o que comprar para os outros, com boa relação qualidade/preço? Importante é que a melhor prenda seja sempre a minha para mim mesmo. Aceitam-se sugestões, claro.

CONVITE AO LEITOR

Lançamento reúne minicontos de portugueses e brasileiros


«Uma grande festa organizada por Nuno Costa Santos vai unir a literatura portuguesa e brasileira no próximo dia 6 de dezembro, às 21h30min, no Frágil (Rua da Atalaia, 126 – Bairro Alto - Lisboa). Jorge Silva Melo apresenta o livro Contos de Algibeira, lançamento do selo editorial Casa Verde, do Brasil, organizado pela escritora Laís Chaffe. O livro é o terceiro volume da Série Lilliput, dedicada aos minicontos – os primeiros são Contos de bolso (2005) e Contos de bolsa (2006). A novidade é que Contos de algibeira, além de importantes escritores brasileiros, traz colaborações de 36 autores de Portugal.

Já confirmaram presenças no Frágil os escritores Alexandre Borges, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Fernando Gomes, João Carlos Silva, João Ventura, Joel Neto, Luís Ene, Maria João Fernandes, Mário Calado Pedro, Paulo Rodrigues Ferreira, Rui Zink, Sara Monteiro. O Brasil estará representado no lançamento por Luciana Veiga e Berenice Sica Lamas. Luciana faz parte do grupo de escritores que integram a Casa Verde, criada em 2004 por Laís Chaffe, com o objetivo de aprofundar discussões literárias e publicar com independência. Os demais autores da Casa são Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding.»

domingo, dezembro 02, 2007

O estado das coisas

Dia a dia

Ele: I'm being chased.

Eu: Sir, that's normal. They just want more. Ignore it.

A tarefa mais importante

Quando o trabalho e a necessidade de dinheiro afastam o homem da escrita, há uma parcela de depressão que se instala. Um homem sabe quando falta fazer alguma coisa. Mesmo quando o dia nos deu um pouco de tudo, sabe-se isto: não se cumpriu a tarefa mais importante, a de juntar palavras.

Inércia

É provável que, em cada dez metros de vida, apenas um metro seja de real existência. E em algumas pessoas a percentagem de criatividade, de «força viva», é ainda mais pequena. Esta tese faz de mim um ser praticamente inanimado.

domingo, novembro 18, 2007

The Brave One



Para quem viu Taxi Driver, este novo filme de Neil Jordan é, sem dúvida, uma boa lembrança. The Brave One, com Jodie Foster e Terrence Howard (dois actores que muito prezo) não é uma revolução do cinema, como foi com o filme de Scorsese. Mas é um murro no estômago. É uma viagem pela perda, pela vingança e pelo ódio. É um estereótipo de «drama humano», mas sem luto. Sem lágrimas. Será possível preencher o vazio deixado pela perda (morte) de uma pessoa próxima, através da justiça pelas próprias mãos? The Brave One tenta dar a resposta. Falha, mas a reflexão fica lá, assim como um bom filme.

A Vida dos Outros



Há dias, fui ver, pela primeira vez, A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck. Parti para a sala de cinema com uma opinião a ecoar na cabeça, uma opinião negativa que Vasco Pulido Valente havia deixado numa revista. No fim do filme, fiquei com vontade de rasgar o artigo de VPV. A razão é simples: o filme não é medíocre nem é suposto ser um documentário sobre a RDA. E passo a explicar.

Começo pela segunda premissa, acerca da veracidade de algumas coisas que surgem no filme. VPV acusa Donnersmarck de alguma ingenuidade em relação às pessoas em geral e à «redenção pela arte». O problema dessa acusação, no entanto, é o seguinte: um filme não é um tratado moral. Pelo menos, não o é em si, enquanto forma. Se aparecem frases feitas (como as há no meio de filme, uma ou duas, de facto), não são essas frases que fazem todo um filme. Há vida para além da «veracidade» e da «credibilidade» humana das personagens e da acção. E Wiesler, o Stasi que supostamente se redime e se «transforma» pela arte, é uma personagem cativante, sem necessariamente ser verdadeira. Provavelmente, nunca existiu nenhum Wiesler. Provavelmente, nunca houve na PIDE um homem que, atingido pela culpa, acabasse praticamente a «lutar» contra a própria organização, o próprio Estado que servisse, e pagasse o preço por isso. Mas a mensagem do filme - ou melhor, a história hipotética - não deixa de ser bonita. Os filmes não são a realidade, são a realidade que queremos. Hollywood ensinou-nos isso.

Depois, uma suposta acusação de mediocridade do filme. Aqui estamos no domínio das opiniões. Achei A Vida dos Outros um filme muito bom. Não o melhor que já vi, mas um muito bom. Muito interessante. Uma espécie de tragédia shakespeariana motivada pela culpa, pelo acaso, pela vingança e, não menos, pelo sexo. É o sexo que motiva o encontro de todas estas personagens, em especial o interesse sexual «devorista» e destruidor do ministro Bruno Hempf pela actriz namorada de Dreyman, o escritor que passa a ficar sob escuta para eventualmente ser «acusado» de algo, seja qual for a acusação. É o sexo que, tal como em Shakespeare, move muitos peões aqui. E isso é algo que, ao contrário de muitas peças, Shakespeare introduz de forma muito humana e muito cínica. Donnersmarck teve o cuidado de nos pôr um dilema shakespeariano em cinema, num cenário comunista. E em alemão, o que é obra.

Putin

Já se pode ler um novo artigo meu no Setúbal na Rede, acerca da visita de Putin a Portugal e das «lições de democracia» que dessa visita brotaram.

A moral orientadora do artigo é esta: «em matéria de “democracia” e de subsidiariedade, não estamos propriamente a ganhar terreno sobre Putin. A perda contínua de capacidade e mobilidade económicas dos pequenos poderes na Europa, e em Portugal isso é visível, corta-nos a palavra quando queremos ensinar Vladimir Putin a governar. Tanto Sócrates como Putin acham que sabem o que é melhor para o seu povo, e nisso, como sabemos, não há voz que lhes chegue aos ouvidos».

segunda-feira, novembro 12, 2007

Schmeichel e Bukowski



Depois de uma busca recomendada pelo Paulo, fico acidentalmente a saber que há uma dupla musical no Brasil chamada «Schmeichel e Bukowski». O que, pegando moda, dará certamente origem a uma hipotética dupla de samba «Buffon e Saramago».

Orgulho ibérico

O episódio foi este: na Cimeira Ibero-Americana que está a decorrer no Chile, Hugo Chávez não se fartava de dizer, debaixo das barbas de toda a gente, que José María Aznar era «um fascista». Zapatero tentou pedir respeito ao ditador venezuelano com calma e profissionalismo (desequilibradamente simpático, na minha opinião), já que Aznar tinha sido «eleito pelos espanhóis» democraticamente. Isto não foi suficiente para calar Chávez. Mas é aí que entra o herói desta história. O rei Juan Carlos, sentado entre Zapatero e Chávez, perde as estribeiras (com razão) e, tirando-me as palavras da boca, dirige-se a Hugo Chávez levantando a mão na sua direcção: «Por qué no te callas?».
Ainda dizem que a monarquia não faz falta nos dias que correm.

Sensação de realização

Quem não se sente realizado depois de comprar os seis volumes das Páginas de Ruben A., em desconto?

[João Carlos Silva]

Os «projectos olímpicos» da Baixa de Lisboa

A Baixa voltará a ser o centro da cidade se os lisboetas virem nisso alguma conveniência, porque foi por ter sido conveniente que a Baixa foi famosa no passado. Gastar milhões em projectos com o intuito de incentivar as pessoas a irem à Baixa é uma política condenada ao fracasso. Além do mais, prejudica os interesses de quem assumiu o risco de investir noutras zonas da cidade e, com o fruto do seu trabalho, paga os impostos que financiam a autarquia.

André Abrantes Amaral, Atlântico, Novembro 2007

Atlântico

Vale a pena comprar a Atlântico deste mês. Para além das contribuições habituais, que valem sempre a pena, traz como bónus um pequeno ensaio de Rui Ramos sobre as invasões francesas (que peca por alguma falta de profundidade, tendo em conta a extensão do «material» em análise), um excelente artigo de André Abrantes Amaral dando uma «luz liberal» ao planeamento de Lisboa, um texto de João Marques de Ameida dando um ensaio de porrada a Al Gore e ao «Comité Central» do Nobel, Fernando C. Gabriel sobre a África do Sul ou uma entrevista de Pedro Mexia a Paul Auster.

[João Carlos Silva]

Um estudo sobre Telma Monteiro



Não, não és o único, Bruno. Mas, machismo à parte, com as medalhas e o treino a Telma está a ganhar uma certa virilidade. Não deixa de ser uma mulher de talento, e uma atleta de talento também.

[João Carlos Silva]

Página 161, versículo 5

O meu caro conterrâneo e co-vitoriano Luís Silva meteu-me na seguinte alhada: devo «esticar o braço» e enfiá-lo por entre as páginas do livro que «estiver mais à mão de semear», mais precisamente na página 161, e pôr aqui a 5ª frase completa que encontrar nessa mesma página. Como não poderia deixar pendurada uma pessoa como o Luís (até porque já lhe dei castigo semelhante), foi o que fiz. Esticando o braço para a leitura actual, o Dracula de Bram Stoker (em edição da Dover), dei de caras com isto:

I smiled, and said: -
"I was ill, I have had a shock, but you have cured me already."


É pena não andar em leituras mais interessantes. Até porque há passagens bem mais interessantes tanto neste livro como noutros aqui nos arredores.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, novembro 07, 2007

Contos de Algibeira



A antologia de micronarrativas Contos de Algibeira sairá já no dia 1 de Dezembro, às 18h30, em Porto Alegre, Brasil - na Alameda dos Escritores do Shopping Total (para quem conhece). Para além de excelentes escritores brasileiros, os portugueses também estão representados, sob a batuta sábia de Laís Chaffe. Entre tantos outros, contam-se por lá Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Rosa, João Ventura, Luís Ene, manuel a. domingos, Maria João Lopes Fernandes, Nuno Costa Santos, Paulo Kellerman, Rafael Miranda, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rui Zink ou Rute Mota (perdoem-me as graves omissões). Também eu entrei nesta empreitada com um texto, assim como o meu amigo Paulo Rodrigues Ferreira.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, novembro 02, 2007

Minguante



Já saiu a Minguante nº8, de Novembro, agora que se tornou trimestral. Entre tantos outros muito melhores, está um medíocre texto meu.

[João Carlos Silva]

O estado das coisas



O rei está moribundo, e não me parece nada bem.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, outubro 29, 2007

Oposição a Marques Mendes

Isto em política é preciso ter uma paciência de Job, em particular quando se atravessa um período de vacas magras; um período de casa sem pão, onde todos ralham e ninguém tem razão; um período de fome má conselheira; um período em que se é preso por ter cão e por não ter. E há muitos provérbios populares significativos para o caso. Antes de Marques Mendes tomar uma posição, todos a exigiam: depois de a tomar, todos a criticam. E nem sequer é uma decisão entre muitas, é esta mesmo, precisamente a que tomou, a que lhe exigiam, esta mesmo que lhe criticam. Ou porque é tarde de mais, ou porque é cedo de mais, ou por mil e umas razões que servem agora e não servem depois. (2007)

José Pacheco Pereira, O Paradoxo do Ornitorrinco - textos sobre o PSD

[João Carlos Silva]

sexta-feira, outubro 26, 2007

Aviso

Quem quiser, pode ler-me também neste blog:

00:04


[Paulo Ferreira]

quarta-feira, outubro 24, 2007

Micróbio



A partir de agora também escrevo no Micróbio Megalómano.

[João Carlos Silva]

Gonçalo M. Tavares



Gonçalo M. Tavares não é um mago das palavras. Não tem uma escrita poética nem melódica. As palavras que correm nos livros de Tavares são curtas, escassas e científicas. «A ciência da carne, do metal, do osso» - poderia ser o lema deste escritor. Não é um escritor que escreva calhamaços para o Nobel ou para a crítica política. Não é. Mas garanto que nunca nenhum escritor me fez pensar como Gonçalo M. Tavares me faz pensar depois de ler um livro seu. Para qualquer escritor, então, é uma leitura obrigatória: um dínamo da mente humana.

[João Carlos Silva]

domingo, outubro 21, 2007

Work in Progress



[João Carlos Silva]

sexta-feira, outubro 19, 2007

Despertares



Há grandes clássicos entre os meus filmes que, passem os anos que passarem e veja-os as vezes que os vir, serão sempre grandes lições.

[João Carlos Silva]

quinta-feira, outubro 18, 2007

National pride

No post «A Longa Campanha De Durão», o Bruno interroga-se: Serei sou eu, ou haverá mais gente já farta da campanha que Durão Barroso anda já a fazer para as Presidenciais de 2016?

Eu, pela minha parte, só posso dizer isto: um voto em Durão seria um voto da má memória, um voto amnésico.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, outubro 17, 2007

Barreto quote IV

Esse é o ponto: a «ideologia» dos brandos costumes pretende justificar e desculpar a opressão; disfarçar a violência; e impor a passividade aos cidadãos.

António Barreto, Sem Emenda

[João Carlos Silva]

Barreto quote III

Um dos mais sérios problemas portugueses é o da ausência de contra-poderes. O Estado é a nação. O Governo é o Estado. Há séculos que é assim. Embora ténue em certos momentos, o único contrapoder digno desse nome é sem dúvida a Igreja Católica.

António Barreto, Sem Emenda

[João Carlos Silva]

Barreto quote II

António Barreto, em Sem Emenda, tem um artigo (de uma ironia genial) em que admite que não gosta de Espanha nem de espanhóis. E resume os seus defeitos:

Como se pode gostar de um povo que fez a Inquisição, expulsou estrangeiros, queimou judeus, assassinou protestantes, bateu nos árabes, massacrou os índios, escravizou pretos, expulsou jesuítas, matou comunistas e anarquistas, prendeu socialistas e democratas, expulsou frades, violou freiras, nacionalizou conventos, deu o poder à Igreja e aos militares, proibiu os partidos e as eleições durante quarenta anos, deportou artistas, forçou militares ao exílio, deixou partir centenas de milhar de emigrantes clandestinos, censurou os livros e os jornais e quer fazer a Federação Europeia? Como é possível gostar de tal povo?

Mas será mesmo de Espanha que António Barreto está a falar?

[João Carlos Silva]

Barreto quote I

Os funcionários da revolução eram sempre piores do que os do poder? Os esquerdistas piores do que os yuppies? Mais uma vez, só a liberdade nos salva. E o inconformismo, quando há. Querer mudar tudo é uma estupidez. Pretender fazer um homem novo é um disparate. Mas os que querem obedecer e chamar-lhe sucesso, não são melhores.

António Barreto, Sem Emenda

[João Carlos Silva]

terça-feira, outubro 16, 2007

Mau cenário

Há tempos, num espírito «tanto se me dá como se me deu» e inspirado pelo abandono do homem de uma entrevista, disse que não me importava de ver Santana Lopes como líder parlamentar do PSD. Por três razões: porque já era deputado; porque é da laia de Menezes (se bem que eu não tenha semelhante antipatia por Santana); e porque já não queria saber de nada. Mas não pensei, não pensei mesmo. A piada de ver o «guerreiro-menino» à frente das tropas não é tão grande se, num cenário pós-Santana, o PSD entrar num deserto enquanto partido. Um PS sem qualquer oposição séria seria uma catástrofe, não para o PSD, mas para o Portugal onde vivo. Por muito populista que Menezes já seja e por muito inepto que o PSD já esteja, quando Santana Lopes chegar para ajudar à festa há sempre um cenário pior. Disse disparate, portanto. Mas é mesmo por poder admitir isto, e sem grande jeito para a coisa, que não sou político.

[João Carlos Silva]

Dor

Sem analgésicos é mais giro.

[João Carlos Silva]

Case study

Será possível criar sempre um novo desfecho para doenças existentes? É.

[João Carlos Silva]

Abdómen

Através de uma janela no meu abdómen, tenho andado a olhar a morte nos olhos.

[João Carlos Silva]

O acto solene de desaparecer



«Desaparecido». Esta maneira de sair da cena da vida parece ter sido muito conhecida no século XVII; mas era então considerada um privilégio dos que tinham sangue régio e jamais seria concedida a um boticário. Por volta de 1686, de facto, um poeta com um nome de mau agorio (ao qual, de resto, fez justiça), Mr. Flat-Man, falando da morte de Carlos II, exprimia a sua surpresa por um príncipe ter cometido um acto tão absurdo como morrer; diz ele que «Deveriam os reis não morrer mas sumir-se».
Ou seja, deveriam eclipsar-se no outro mundo.


Thomas de Quincey, Confissões de um Opiómano Inglês

[João Carlos Silva]

sexta-feira, outubro 12, 2007

Escreve, escreve

Então, estou fora? Não, escrevendo não me tornei melhor, apenas dissipei um pouco, a ansiosa e inconsistente juventude. Que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o voto, não valerão mais do que tu. Nunca disse que escrevendo se salva a alma. Escreve, escreve, e a tua alma já está perdida.*

Italo Calvino, O Cavaleiro Inexistente

*nota: é uma monja narradora que escreve estas linhas.

[João Carlos Silva]

As leis da Venezuela

É favor espreitar esta notícia. E eu que nunca pensei vir a gostar do Alejandro Sanz. É bom saber que, na música como em Hollywood, o barco não está totalmente desequilibrado para o «outro lado». Tal como Andy Garcia motiva a oposição a Fidel, também Sanz critica Chávez. E «El Presidente» não se esquece.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, outubro 10, 2007

Sangue na cabeça

Não há uma noite em que consigas ir para a cama com a cabeça limpa de sangue.

[Paulo Ferreira]

Contar gotas

O Verão acabou mas o meu sofrimento com o suor não.

[Paulo Ferreira]

Falta de comparência

Pior do que uma grande derrota é uma falta de comparência.

[Paulo Ferreira]

Objectivos

No momento em que alguém se decidir a criar uma associação que tenha como único objectivo o de me salvar, passarei a acreditar no conceito de humanidade.

[Paulo Ferreira]

Caminhos

Do mesmo modo que existem várias formas de ganhar a vida, há diferentes formas de a perder. Eu, por exemplo, farto-me de encontrar caminhos para a desgraça.

[Paulo Ferreira]

Perder anos

Mesmo não saindo do sofá, consegues perder anos de vida em poucas horas.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, outubro 09, 2007

Mundo cão

O chão é de terra. O tecto é de ar. Não confio neste mundo.

[Paulo Ferreira]

Razões para acreditar

Apesar deste Inferno que é o passado, o presente e o futuro, acredito que dias virão em que os céus azuis nos ofuscarão os olhos ao ponto de não conseguirmos ver o bicho que temos dentro de nós.

[Paulo Ferreira]

Amanhã

Sou daquelas pessoas que estão sempre à espera dos amanhãs. Sou daquelas pessoas que vivem desiludidas com os dias que passam.

[Paulo Ferreira]