terça-feira, janeiro 29, 2008
Pequenas nostalgias
Ouvir Mário Soares, numa sessão do Câmara Clara, a falar do «senhor André» da livraria.
Mao e a herança do poder

Mao tornou-se um símbolo, não do comunismo «antigo» chinês, nem do Partido Comunista na actualidade. Mao Tsé-Tung não é mais do que um ícone nacionalista que todos querem capitalizar para si mesmos.
Nadando à tona da verdade em relação às vítimas da Revolução Cultural, do Grande Salto em Frente, a nomenclatura do partido único chinês legitima a sua própria existência, enquanto «partido único», predominantemente a partir do mito de Mao como defensor da independência e dos valores da China contra o invasor nipónico. Descendentes de Mao, as elites chinesas serão assim as únicas figuras possíveis para liderar os chineses.
Ao criticarem Mao, estas elites perderiam um pai ideológico, perderiam o cordão umbilical à génese do nacionalismo chinês que ainda hoje inspira muita da população da China, em especial agricultores.
Nacionalismo e valores caducos, a memória mentirosa de Mao, é esta a cruz que os governantes da China ainda carregam. Que volta a dar? Ninguém sabe...
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Crença
Mas se não fosse para atrasados não era crença. Tu queres que a crença seja racional. Mas então não era crença. A queda dos graves não é uma crença. Dois e dois são quatro não é uma crença. Houve um santo que disse «creio porque é absurdo». Pois está claro que se não fosse absurdo, não era coisa de se crer.
Vergílio Ferreira, Para Sempre
Vergílio Ferreira, Para Sempre
terça-feira, janeiro 22, 2008
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Corda na garganta
Relações de trabalho: ter a corda na garganta tem muito que se lhe diga. Já não é o mesmo que ser judeu na Alemanha ou sunita no Iraque, mas traz um certa atitude paranóica com essa «corda». Quando alguém nos quer longe, há que ter cuidado em não pisar o risco, mas também é importante não trilhar o caminho que os outros escolhem. Não ter controlo sobre o sentido que se toma deixa uma marca igual ou pior do que a da corda na garganta.
Ritmo de trabalho
Sou o que menos produz no sítio onde trabalho. Mas também me sinto mais são ao fim do dia.
sábado, janeiro 12, 2008
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Chora Hillary, chora
Honestamente, aquela lágrima e a voz tremida que a acompanhou pareceram-me genuínas, o que, longe de "humanizar" Hillary, apenas a prejudica. Tudo porque ela "chora" por estar a perder a corrida eleitoral que julgava há anos estar ganha à partida, o que em vez de provocar a empatia dos eleitores, apenas acaba por lhes confirmar a ideia de que Hillary é uma mulher obcecada com o poder: ela "só chora" por perder eleições. Genuína ou encenada, a lágrima de Hillary é tudo menos uma ajuda à candidata.
Bruno Alves, Desesperada Esperança, mais aqui.
Bruno Alves, Desesperada Esperança, mais aqui.
Eraserhead

Eraserhead: o filme mais irritante de David Lynch. Desde Lost Highway que a minha opinião acerca de Lynch, e sobretudo acerca dos que idolatram Lynch, não descia tanto. Claro que The Elephant Man é um dos meus filmes favoritos. Claro que Dune tem a qualidade e nostalgia da ficção científica que eu adorava enquanto menino. Claro que The Straight Story é um filme muito bonito (bonito é a palavra certa, e olhem que é uma palavra que muito honro e protejo no mundo do cinema). Mas nada disto retira a Eraserhead a categoria de filme sobrevalorizado da qual eu definitivamente não recuo.
O único ponto positivo deste filme é Henry, a personagem principal insone e tensa, peculiar, facilmente comparável com o próprio Lynch. Mas, em geral, Eraserhead é confuso, barulhento e irritante. Sons de fábrica, apitos, guinchos, cenas oníricas mais parecidas com tripes de heroína. Para mim, ir vê-lo ao cinema foi mesmo uma má experiência. Dizer que fiquei desiludido é até muito simpático para com Lynch, porque não deixo de gostar bastante de outros filmes do homem.
Advertência ao leitor
A ausência de computador normalmente implica que não se possa escrever no blogue. É precisamente isso que tem acontecido. Como todos os homens, as máquinas também se vão abaixo. Promete-se mais regularidade dentro em breve.
domingo, dezembro 30, 2007
Colombo e a viagem falhada
Hoje, se pegarmos um avião da Espanha para Calcutá e aterrisarmos no Caribe, só há duas possibilidades: ou o piloto bebeu, ou sequestraram o avião. Claro, você também pode estar no avião errado. Chance remotíssima, os embarques são controlados electronicamente.
No entanto, foi exactamente isto que aconteceu a Cristóvão Colombo (...).
Angela Dutra de Menezes, O Português que nos Pariu
No entanto, foi exactamente isto que aconteceu a Cristóvão Colombo (...).
Angela Dutra de Menezes, O Português que nos Pariu
A Dúvida

O cenário: uma escola católica no Bronx, Nova Iorque - no ano de 1964 -, depara-se com o dilema da inocência ou culpa de um padre, acusado de assediar sexualmente um rapaz de doze anos. Ir ver A Dúvida ao Teatro Maria Matos teve logo o sucesso inicial de me levar ao teatro, coisa que, por maldade ou cautela, evito. Talvez seja preconceito não ir mais vezes. Talvez seja ignorância. Ou talvez eu apenas não acredite na qualidade geral do nosso teatro. Mas A Dúvida, de John Patrick Shanley, teve o dom de me colocar em permanente dúvida (perdoem-me o trocadilho). Ver Diogo Infante - um dos melhores actores portugueses vivos - e Eunice Muñoz - carisma impermeável à idade - juntos no mesmo palco deixa-nos de boca aberta e sem noção do tempo. O teatro pode-nos deixar agarrados horas e horas e horas seguidas, sem sequer pensar em levantar o rabo do assento. Aprendi isso hoje, com a peça de Shanley. E aprendi que o cinema não deve monopolizar a minha atenção. Há espaço para eu admirar o palco.
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Zelig

Zelig é um filme «muito cá de casa», e revi-o há dias com a maior das euforias. Tem o humor mais subtil de Woody Allen e uma viagem de reflexão/desafio/respeito/gozo à personalidade humana e à psicanálise. Ainda por cima tem figuras como Saul Bellow ou Bruno Betelheim a participarem no filme da forma mais convincente possível. É um dos grandes filmes do século XX e sobre o século XX.
Menezes isn´t there

Quando Marques Mendes estava à frente do PSD, fazia-se oposição na Assembleia. As vozes logo se levantaram contra o homem que, para além de ser «muito piquenino para ir a algum lado», não fazia «oposição como deve ser». Quis-se Luís Filipe Menezes, que prometia dar uma nova cara à oposição. Dizia-se que ele iria «abanar o barco». O próprio Menezes dizia que iria trazer uma mudança radical «já». E trouxe: a oposição do PSD praticamente desintegrou-se. Afinal, tinha razão quando falava da rapidez do seu trabalho. É até, na verdade, um recorde memorável: nunca um político desapareceu tão depressa.
Holanda
A Holanda é um país que não inspira amantes. Todos os homens usam chapéu e cumprimentam em protocolo translúcido -, as crianças fumam cigarrilhas, todos talhos são floridos em contraste português,- se um carniceiro em Portugal pusesse flores nas montras do talho passava a ser considerado como pederasta oficialmente reconhecido pelo grémio.
Ruben A., Páginas I
Ruben A., Páginas I
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Na Consoada, acampar no Cambodja

Antes do Pai Natal chegar, ainda há tempo para exprimir aqui a minha gratidão para com Rui Ramos por nos ter trazido as palavras sábias de Luís Filipe Menezes. É de louvar, sobretudo, a coragem e paciência de Rui Ramos ao mergulhar no livro Coragem de Mudar, da autoria da referida personagem política. Por exemplo, esta passagem do artigo matou-me a sobriedade cinzenta de Consoada: «O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora sobre a sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: "sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição". Ou isto: o "cosmopolitismo para mim é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no norte do Cambodja" (p. 21)». Ou então, também podemos reflectir neste nostálgico devaneio de Menezes: «"Há dois anos atrás, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena que estas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão..." (p. 44)».
Muito bom. Apenas ultrapassado em qualidade pela resposta do líder do PSD, em entrevista no Expresso, quando lhe perguntam o que achou deste artigo de Rui Ramos: «mas esse senhor não terá filhos?». Só por isto, Menezes já merecia o meu voto de confiança. Toda a gente gosta de comediantes, e ninguém leva a mal a parvoíce. Agora começar a fazer política a sério? Isso é que eu nunca lhe perdoaria.
domingo, dezembro 23, 2007
Xmas
domingo, dezembro 16, 2007
Argumentos pessoais para a «via alternativa»*
«O que tem Obama de novo? Como o próprio Sullivan o diz: His face. A sua cara. A sua miscelânea. O que ela representa. O que esta significa para os inimigos recentes da América. Nascido no Havai, filho de pai queniano e mãe americana, Obama personifica a abertura do ideal americano às preocupações do mundo. A busca de uma vida melhor e, mais importante que tudo isso, a possibilidade de essa vida melhor ser encontrada na América. O país onde até um mestiço pode ser o homem mais poderoso do planeta. Haverá , de acordo com Sullivan, melhor mensagem para um miúdo que viva no Paquistão?»
André Abrantes Amaral, O Observador
*«via alternativa»: em quem votar quando não se vota em Giuliani
André Abrantes Amaral, O Observador
*«via alternativa»: em quem votar quando não se vota em Giuliani
O melhor confronto possível
Byblos

Fui à Byblos e já lá gastei dinheiro. Gostei muito do espaço e, sobretudo, da parte da literatura estrangeira (a portuguesa, de facto, está ainda fraquinha em comparação com muitas livrarias de Lisboa, da «velha guarda»). Fiquei com vontade de lá voltar. Hei-de continuar a ir regularmente, por isso mesmo. E bardamerda para quem acha que é populareco gostar daquela livraria. Nem sempre é preciso cheirar mofo nos livros e nas estantes para se ser um leitor fiel. Acho que a Byblos tem o seu espaço no mundo das livrarias em Portugal.
sábado, dezembro 15, 2007
Doblagens revolucionárias

Os desenhos animados dobrados são a maior parvoíce jamais criada pelo ser humano. É qualquer coisa como pintar sorrisos nas figuras do Guernica do Picasso. Apercebo-me disto no momento em que dou com o facto deste novo filme de animação com abelhas vir a ser dobrado para português. Ora, por duas coisas isto é terrível: primeiro, porque perder a oportunidade de ouvir Seinfeld (mesmo numa situação que não traz grande piada) é torturante para uma criança no futuro; segundo, porque ensina às crianças o dever de «não ler» as legendas, logo condenando-as às telenovelas do Tozé Martinho; terceiro, porque simplesmente trata as crianças como estúpidas.
Veja-se agora um PREC mais apertado no controlo televisivo. Imagine-se, por exemplo, o que seria ver desenhos animados do Tom Sawyer com controlo popular. «Desenhos animados para o povo», justificar-se-ia. É preciso dar ao povo as ferramentas para compreender o mundo e os desenhos animados. E, já agora, que também não custa nada, aproveita-se para reeducá-lo.
Não gostaria de ouvir Tom Sawyer, por exemplo, a convencer os amigos e vizinhos a pintar a cerca da tia Polly porque «o trabalho para bem dos outros dignifica o homem e a sociedade». Já não seria uma cena genial em que o Tom convence os amigos a pintar a cerca (terrível tarefa) enganando-os pela inveja - diz que prefere fazer aquilo a brincar - mas sim uma cena em que Tom realmente prefere trabalhar do que brincar. «Eh Tom, que estás a fazer?» «Estou a pintar a cerca.» «Deve ser muito chato.» «Não. É óptimo e dignificante, como nos ensinou o Camarada Vasco.» «Porque não me disseste isso antes? Dá-me já uma trincha, Tom».
Seria feio, isso sim, ver o tratamento dado a Huckleberry Finn. Huck é um rapaz preguiçoso e sem maneiras. Come e dorme quando pode e quando quer, sem regras mas sempre pela lei da necessidade. Vem de uma família destroçada e, logo, aprendeu a viver segundo as suas próprias regras. Uma boa alma, no fundo. Mas Huck chegaria ao pé do Tom e da cerca e começaria o controlo operário. «Eh Tom, estás a pintar a cerca?» «Claro, o Camarada Vasco quer isto pintado até ao fim do dia.» «Eu não faço isso, vou mas é jogar ao pião». E pronto, tudo está bem quando acaba bem. Huckleberry Finn, no fundo, é a representação de um perfeito reaccionário, afecto a cada um de nós, por razões que variam de pessoa para pessoa. Todos nós somos reaccionários, mas só uma parte escapa ao controlo.
No fundo, é o que se passa com os desenhos animados. Em todos eles, há uma ou outra personagem que, mesmo com as doblagens da década de 70 portuguesa, escaparia ao controle. Caso do Huck, que não deixa levar pelas palavras propagandistas de Tom, claramente alterado pela controleira «tia Polly». Corajosa e louvável atitude que não teria, por exemplo, o rato Pompom, de Dartacão. Rato esquivo e matreiro, rapidamente entregava os Moscãoteiros à PIDE do Cardeal Richelieu. Enfim, atitudes contra-revolucionárias.
terça-feira, dezembro 11, 2007
Às avessas

Portugal estabelece relações de amizade com Putin, Chávez e José Eduardo dos Santos. Dezenas e dezenas de ditadores africanos corruptos juntaram-se em Portugal para dois dias de férias. José Sócrates é primeiro-ministro de Portugal. O melhor jogador português do momento é um cigano. E depois venham-me dizer que Portugal não é um país às avessas.
A vida na aldeia: #1- Segurança pública

As pessoas cruzam-se numa estrada do interior (isto é, do «interior do Portugal profundo») com um carro da GNR e pensam: «lá vem a polícia local». Enganam-se. A GNR é, realmente, uma figura da autoridade fora das cidades, mas não é a polícia local. É mais, digamos, uma espécie de FBI das localidades. O Bureau das vilas. Aliás, a GNR desempenha um papel essencial na resolução dos casos mais bicudos das pequenas localidades - disputas de heranças, roubo de gado, mutilação de santinhos na paróquia -, sempre com grande profissionalismo e postura. Isso ninguém lhes pode negar. Mas não é, de facto, a força de segurança preferida das pessoas.
A força de segurança que mais apela ao comum português da vila/aldeia é outra. Face ao visível afastamento moral entre a Guarda Nacional Republicana e o cidadão honesto, os portugueses manifestam-se escolhendo como polícia preferida não a GNR, a PSP, ou a Securitas. O português sóbrio escolhe, isso sim, o Campino como principal agente para guardar o seu dia-a-dia.
O campino é objecto do mais sincero amor do português da aldeia. Fresco, modesto e trabalhador, o campino mantém a austeridade e o visual dos seus antepassados de gerações e gerações atrás. E as razões estão aí debaixo do nariz, senão veja-se: colete encarnado, mostrando coragem perante o touro mais bravo; bota de montar, claramente pondo a nu o sangue azul dos seus bisavós; camisa branca que nunca suja (Don Johnson no Miami Vice também vestia um fato branco que, mesmo no meio do mais feroz dos tiroteios, nunca se sujava); uma versátil faixa vermelha como cinto que, no Inverno, também serve de cachecol, para proteger o agente prevenido; o barrete verde, que não envergonha nenhum soldado de elite e que, devido às suas parecenças com o barrete do Noddy, convence as crianças da bondade do campino; e, finalmente, o pampilho, pau lutador da maior modernidade, que assume simultaneamente a classe e a virilidade do dito agente da autoridade.
Imagine-se o leitor, por exemplo, em Arruda dos Vinhos. Quereria o leitor ser parado em plena estrada por um GNR barrigudo, de bigode farfalhudo, de botas de montar (nunca percebi para que são precisas botas de montar se a GNR só anda de jipe) e de boné a tombar para a testa? Não me parece. Nem o leitor quer, nem eu quero. Por outro lado, toda a gente gosta de ser advertida por um campino. E normalmente passa-se assim: o campino assobia ao condutor acelerado. E este, apercebendo-se da aproximação de um generoso homem vestido de verde e vermelho, montado num cavalo lusitano, rende-se imediatamente ao seu dever patriótico de abrandar o carro e colaborar com a justiça.
Ninguém resiste à simpatia de um campino. Se na sua vila ainda não foi dada inteira exclusividade da segurança pública ao campino, então é hora de apertar com os vizinhos e fazer correr uma petição pela zona. Por um campino mais próximo do cidadão. Se não é assim que é, então é assim que devia ser.
domingo, dezembro 09, 2007
Frágil
Após busca cuidada, perdido no Bairro Alto, marquei presença no Frágil, no dia 6 de Dezembro (quinta-feira), para a apresentação dos Contos de Algibeira, uma louvada iniciativa de Laís Chaffe e da Casa Verde. Para além da estranha situação de ter Jorge Silva Melo a apresentar um livro onde também participo, a noite valeu a pena para ver algumas caras conhecidas. Tímido como sou, não estive «como peixe na água» em evento tão concorrido, mas tive o prazer de conhecer pessoalmente o Luís Ene (afabilíssimo, mas muito franco ao admitir que eu afinal sou mais gordo do que as fotos revelam) e de reencontrar o Paulo.
Quanto ao livro, ainda não está todo corrido. Mas tenho gostado bastante de alguns textos. Favoritos? Tenho, mas isso fica para mim.
Quanto ao livro, ainda não está todo corrido. Mas tenho gostado bastante de alguns textos. Favoritos? Tenho, mas isso fica para mim.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Lost in translation
Para tentar falar inglês no dia a dia, perdi o hábito de falar em português. Perdi-me no caminho entre as duas línguas. Agora nem inglês, nem português.
Prendas
Em alturas de Natal, chega a decisão importante: o que comprar para os outros, com boa relação qualidade/preço? Importante é que a melhor prenda seja sempre a minha para mim mesmo. Aceitam-se sugestões, claro.
Lançamento reúne minicontos de portugueses e brasileiros
«Uma grande festa organizada por Nuno Costa Santos vai unir a literatura portuguesa e brasileira no próximo dia 6 de dezembro, às 21h30min, no Frágil (Rua da Atalaia, 126 – Bairro Alto - Lisboa). Jorge Silva Melo apresenta o livro Contos de Algibeira, lançamento do selo editorial Casa Verde, do Brasil, organizado pela escritora Laís Chaffe. O livro é o terceiro volume da Série Lilliput, dedicada aos minicontos – os primeiros são Contos de bolso (2005) e Contos de bolsa (2006). A novidade é que Contos de algibeira, além de importantes escritores brasileiros, traz colaborações de 36 autores de Portugal.
Já confirmaram presenças no Frágil os escritores Alexandre Borges, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Fernando Gomes, João Carlos Silva, João Ventura, Joel Neto, Luís Ene, Maria João Fernandes, Mário Calado Pedro, Paulo Rodrigues Ferreira, Rui Zink, Sara Monteiro. O Brasil estará representado no lançamento por Luciana Veiga e Berenice Sica Lamas. Luciana faz parte do grupo de escritores que integram a Casa Verde, criada em 2004 por Laís Chaffe, com o objetivo de aprofundar discussões literárias e publicar com independência. Os demais autores da Casa são Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding.»
domingo, dezembro 02, 2007
A tarefa mais importante
Quando o trabalho e a necessidade de dinheiro afastam o homem da escrita, há uma parcela de depressão que se instala. Um homem sabe quando falta fazer alguma coisa. Mesmo quando o dia nos deu um pouco de tudo, sabe-se isto: não se cumpriu a tarefa mais importante, a de juntar palavras.
Inércia
É provável que, em cada dez metros de vida, apenas um metro seja de real existência. E em algumas pessoas a percentagem de criatividade, de «força viva», é ainda mais pequena. Esta tese faz de mim um ser praticamente inanimado.
domingo, novembro 18, 2007
The Brave One

Para quem viu Taxi Driver, este novo filme de Neil Jordan é, sem dúvida, uma boa lembrança. The Brave One, com Jodie Foster e Terrence Howard (dois actores que muito prezo) não é uma revolução do cinema, como foi com o filme de Scorsese. Mas é um murro no estômago. É uma viagem pela perda, pela vingança e pelo ódio. É um estereótipo de «drama humano», mas sem luto. Sem lágrimas. Será possível preencher o vazio deixado pela perda (morte) de uma pessoa próxima, através da justiça pelas próprias mãos? The Brave One tenta dar a resposta. Falha, mas a reflexão fica lá, assim como um bom filme.
A Vida dos Outros

Há dias, fui ver, pela primeira vez, A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck. Parti para a sala de cinema com uma opinião a ecoar na cabeça, uma opinião negativa que Vasco Pulido Valente havia deixado numa revista. No fim do filme, fiquei com vontade de rasgar o artigo de VPV. A razão é simples: o filme não é medíocre nem é suposto ser um documentário sobre a RDA. E passo a explicar.
Começo pela segunda premissa, acerca da veracidade de algumas coisas que surgem no filme. VPV acusa Donnersmarck de alguma ingenuidade em relação às pessoas em geral e à «redenção pela arte». O problema dessa acusação, no entanto, é o seguinte: um filme não é um tratado moral. Pelo menos, não o é em si, enquanto forma. Se aparecem frases feitas (como as há no meio de filme, uma ou duas, de facto), não são essas frases que fazem todo um filme. Há vida para além da «veracidade» e da «credibilidade» humana das personagens e da acção. E Wiesler, o Stasi que supostamente se redime e se «transforma» pela arte, é uma personagem cativante, sem necessariamente ser verdadeira. Provavelmente, nunca existiu nenhum Wiesler. Provavelmente, nunca houve na PIDE um homem que, atingido pela culpa, acabasse praticamente a «lutar» contra a própria organização, o próprio Estado que servisse, e pagasse o preço por isso. Mas a mensagem do filme - ou melhor, a história hipotética - não deixa de ser bonita. Os filmes não são a realidade, são a realidade que queremos. Hollywood ensinou-nos isso.
Depois, uma suposta acusação de mediocridade do filme. Aqui estamos no domínio das opiniões. Achei A Vida dos Outros um filme muito bom. Não o melhor que já vi, mas um muito bom. Muito interessante. Uma espécie de tragédia shakespeariana motivada pela culpa, pelo acaso, pela vingança e, não menos, pelo sexo. É o sexo que motiva o encontro de todas estas personagens, em especial o interesse sexual «devorista» e destruidor do ministro Bruno Hempf pela actriz namorada de Dreyman, o escritor que passa a ficar sob escuta para eventualmente ser «acusado» de algo, seja qual for a acusação. É o sexo que, tal como em Shakespeare, move muitos peões aqui. E isso é algo que, ao contrário de muitas peças, Shakespeare introduz de forma muito humana e muito cínica. Donnersmarck teve o cuidado de nos pôr um dilema shakespeariano em cinema, num cenário comunista. E em alemão, o que é obra.
Putin
Já se pode ler um novo artigo meu no Setúbal na Rede, acerca da visita de Putin a Portugal e das «lições de democracia» que dessa visita brotaram.
A moral orientadora do artigo é esta: «em matéria de “democracia” e de subsidiariedade, não estamos propriamente a ganhar terreno sobre Putin. A perda contínua de capacidade e mobilidade económicas dos pequenos poderes na Europa, e em Portugal isso é visível, corta-nos a palavra quando queremos ensinar Vladimir Putin a governar. Tanto Sócrates como Putin acham que sabem o que é melhor para o seu povo, e nisso, como sabemos, não há voz que lhes chegue aos ouvidos».
A moral orientadora do artigo é esta: «em matéria de “democracia” e de subsidiariedade, não estamos propriamente a ganhar terreno sobre Putin. A perda contínua de capacidade e mobilidade económicas dos pequenos poderes na Europa, e em Portugal isso é visível, corta-nos a palavra quando queremos ensinar Vladimir Putin a governar. Tanto Sócrates como Putin acham que sabem o que é melhor para o seu povo, e nisso, como sabemos, não há voz que lhes chegue aos ouvidos».
segunda-feira, novembro 12, 2007
Schmeichel e Bukowski

Depois de uma busca recomendada pelo Paulo, fico acidentalmente a saber que há uma dupla musical no Brasil chamada «Schmeichel e Bukowski». O que, pegando moda, dará certamente origem a uma hipotética dupla de samba «Buffon e Saramago».
Orgulho ibérico
O episódio foi este: na Cimeira Ibero-Americana que está a decorrer no Chile, Hugo Chávez não se fartava de dizer, debaixo das barbas de toda a gente, que José María Aznar era «um fascista». Zapatero tentou pedir respeito ao ditador venezuelano com calma e profissionalismo (desequilibradamente simpático, na minha opinião), já que Aznar tinha sido «eleito pelos espanhóis» democraticamente. Isto não foi suficiente para calar Chávez. Mas é aí que entra o herói desta história. O rei Juan Carlos, sentado entre Zapatero e Chávez, perde as estribeiras (com razão) e, tirando-me as palavras da boca, dirige-se a Hugo Chávez levantando a mão na sua direcção: «Por qué no te callas?».
Ainda dizem que a monarquia não faz falta nos dias que correm.
Ainda dizem que a monarquia não faz falta nos dias que correm.
Sensação de realização
Quem não se sente realizado depois de comprar os seis volumes das Páginas de Ruben A., em desconto?
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Os «projectos olímpicos» da Baixa de Lisboa
A Baixa voltará a ser o centro da cidade se os lisboetas virem nisso alguma conveniência, porque foi por ter sido conveniente que a Baixa foi famosa no passado. Gastar milhões em projectos com o intuito de incentivar as pessoas a irem à Baixa é uma política condenada ao fracasso. Além do mais, prejudica os interesses de quem assumiu o risco de investir noutras zonas da cidade e, com o fruto do seu trabalho, paga os impostos que financiam a autarquia.
André Abrantes Amaral, Atlântico, Novembro 2007
André Abrantes Amaral, Atlântico, Novembro 2007
Atlântico
Vale a pena comprar a Atlântico deste mês. Para além das contribuições habituais, que valem sempre a pena, traz como bónus um pequeno ensaio de Rui Ramos sobre as invasões francesas (que peca por alguma falta de profundidade, tendo em conta a extensão do «material» em análise), um excelente artigo de André Abrantes Amaral dando uma «luz liberal» ao planeamento de Lisboa, um texto de João Marques de Ameida dando um ensaio de porrada a Al Gore e ao «Comité Central» do Nobel, Fernando C. Gabriel sobre a África do Sul ou uma entrevista de Pedro Mexia a Paul Auster.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Um estudo sobre Telma Monteiro

Não, não és o único, Bruno. Mas, machismo à parte, com as medalhas e o treino a Telma está a ganhar uma certa virilidade. Não deixa de ser uma mulher de talento, e uma atleta de talento também.
[João Carlos Silva]
Página 161, versículo 5
O meu caro conterrâneo e co-vitoriano Luís Silva meteu-me na seguinte alhada: devo «esticar o braço» e enfiá-lo por entre as páginas do livro que «estiver mais à mão de semear», mais precisamente na página 161, e pôr aqui a 5ª frase completa que encontrar nessa mesma página. Como não poderia deixar pendurada uma pessoa como o Luís (até porque já lhe dei castigo semelhante), foi o que fiz. Esticando o braço para a leitura actual, o Dracula de Bram Stoker (em edição da Dover), dei de caras com isto:
I smiled, and said: -
"I was ill, I have had a shock, but you have cured me already."
É pena não andar em leituras mais interessantes. Até porque há passagens bem mais interessantes tanto neste livro como noutros aqui nos arredores.
[João Carlos Silva]
I smiled, and said: -
"I was ill, I have had a shock, but you have cured me already."
É pena não andar em leituras mais interessantes. Até porque há passagens bem mais interessantes tanto neste livro como noutros aqui nos arredores.
[João Carlos Silva]
quarta-feira, novembro 07, 2007
Contos de Algibeira

A antologia de micronarrativas Contos de Algibeira sairá já no dia 1 de Dezembro, às 18h30, em Porto Alegre, Brasil - na Alameda dos Escritores do Shopping Total (para quem conhece). Para além de excelentes escritores brasileiros, os portugueses também estão representados, sob a batuta sábia de Laís Chaffe. Entre tantos outros, contam-se por lá Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Rosa, João Ventura, Luís Ene, manuel a. domingos, Maria João Lopes Fernandes, Nuno Costa Santos, Paulo Kellerman, Rafael Miranda, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rui Zink ou Rute Mota (perdoem-me as graves omissões). Também eu entrei nesta empreitada com um texto, assim como o meu amigo Paulo Rodrigues Ferreira.
[João Carlos Silva]
sexta-feira, novembro 02, 2007
Minguante

Já saiu a Minguante nº8, de Novembro, agora que se tornou trimestral. Entre tantos outros muito melhores, está um medíocre texto meu.
[João Carlos Silva]
segunda-feira, outubro 29, 2007
Oposição a Marques Mendes
Isto em política é preciso ter uma paciência de Job, em particular quando se atravessa um período de vacas magras; um período de casa sem pão, onde todos ralham e ninguém tem razão; um período de fome má conselheira; um período em que se é preso por ter cão e por não ter. E há muitos provérbios populares significativos para o caso. Antes de Marques Mendes tomar uma posição, todos a exigiam: depois de a tomar, todos a criticam. E nem sequer é uma decisão entre muitas, é esta mesmo, precisamente a que tomou, a que lhe exigiam, esta mesmo que lhe criticam. Ou porque é tarde de mais, ou porque é cedo de mais, ou por mil e umas razões que servem agora e não servem depois. (2007)
José Pacheco Pereira, O Paradoxo do Ornitorrinco - textos sobre o PSD
[João Carlos Silva]
José Pacheco Pereira, O Paradoxo do Ornitorrinco - textos sobre o PSD
[João Carlos Silva]
sexta-feira, outubro 26, 2007
quarta-feira, outubro 24, 2007
Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares não é um mago das palavras. Não tem uma escrita poética nem melódica. As palavras que correm nos livros de Tavares são curtas, escassas e científicas. «A ciência da carne, do metal, do osso» - poderia ser o lema deste escritor. Não é um escritor que escreva calhamaços para o Nobel ou para a crítica política. Não é. Mas garanto que nunca nenhum escritor me fez pensar como Gonçalo M. Tavares me faz pensar depois de ler um livro seu. Para qualquer escritor, então, é uma leitura obrigatória: um dínamo da mente humana.
[João Carlos Silva]
domingo, outubro 21, 2007
sexta-feira, outubro 19, 2007
Despertares
quinta-feira, outubro 18, 2007
National pride
No post «A Longa Campanha De Durão», o Bruno interroga-se: Serei sou eu, ou haverá mais gente já farta da campanha que Durão Barroso anda já a fazer para as Presidenciais de 2016?
Eu, pela minha parte, só posso dizer isto: um voto em Durão seria um voto da má memória, um voto amnésico.
[João Carlos Silva]
Eu, pela minha parte, só posso dizer isto: um voto em Durão seria um voto da má memória, um voto amnésico.
[João Carlos Silva]
quarta-feira, outubro 17, 2007
Barreto quote IV
Esse é o ponto: a «ideologia» dos brandos costumes pretende justificar e desculpar a opressão; disfarçar a violência; e impor a passividade aos cidadãos.
António Barreto, Sem Emenda
[João Carlos Silva]
António Barreto, Sem Emenda
[João Carlos Silva]
Barreto quote III
Um dos mais sérios problemas portugueses é o da ausência de contra-poderes. O Estado é a nação. O Governo é o Estado. Há séculos que é assim. Embora ténue em certos momentos, o único contrapoder digno desse nome é sem dúvida a Igreja Católica.
António Barreto, Sem Emenda
[João Carlos Silva]
António Barreto, Sem Emenda
[João Carlos Silva]
Barreto quote II
António Barreto, em Sem Emenda, tem um artigo (de uma ironia genial) em que admite que não gosta de Espanha nem de espanhóis. E resume os seus defeitos:
Como se pode gostar de um povo que fez a Inquisição, expulsou estrangeiros, queimou judeus, assassinou protestantes, bateu nos árabes, massacrou os índios, escravizou pretos, expulsou jesuítas, matou comunistas e anarquistas, prendeu socialistas e democratas, expulsou frades, violou freiras, nacionalizou conventos, deu o poder à Igreja e aos militares, proibiu os partidos e as eleições durante quarenta anos, deportou artistas, forçou militares ao exílio, deixou partir centenas de milhar de emigrantes clandestinos, censurou os livros e os jornais e quer fazer a Federação Europeia? Como é possível gostar de tal povo?
Mas será mesmo de Espanha que António Barreto está a falar?
[João Carlos Silva]
Como se pode gostar de um povo que fez a Inquisição, expulsou estrangeiros, queimou judeus, assassinou protestantes, bateu nos árabes, massacrou os índios, escravizou pretos, expulsou jesuítas, matou comunistas e anarquistas, prendeu socialistas e democratas, expulsou frades, violou freiras, nacionalizou conventos, deu o poder à Igreja e aos militares, proibiu os partidos e as eleições durante quarenta anos, deportou artistas, forçou militares ao exílio, deixou partir centenas de milhar de emigrantes clandestinos, censurou os livros e os jornais e quer fazer a Federação Europeia? Como é possível gostar de tal povo?
Mas será mesmo de Espanha que António Barreto está a falar?
[João Carlos Silva]
Barreto quote I
Os funcionários da revolução eram sempre piores do que os do poder? Os esquerdistas piores do que os yuppies? Mais uma vez, só a liberdade nos salva. E o inconformismo, quando há. Querer mudar tudo é uma estupidez. Pretender fazer um homem novo é um disparate. Mas os que querem obedecer e chamar-lhe sucesso, não são melhores.
António Barreto, Sem Emenda
[João Carlos Silva]
António Barreto, Sem Emenda
[João Carlos Silva]
terça-feira, outubro 16, 2007
Mau cenário
Há tempos, num espírito «tanto se me dá como se me deu» e inspirado pelo abandono do homem de uma entrevista, disse que não me importava de ver Santana Lopes como líder parlamentar do PSD. Por três razões: porque já era deputado; porque é da laia de Menezes (se bem que eu não tenha semelhante antipatia por Santana); e porque já não queria saber de nada. Mas não pensei, não pensei mesmo. A piada de ver o «guerreiro-menino» à frente das tropas não é tão grande se, num cenário pós-Santana, o PSD entrar num deserto enquanto partido. Um PS sem qualquer oposição séria seria uma catástrofe, não para o PSD, mas para o Portugal onde vivo. Por muito populista que Menezes já seja e por muito inepto que o PSD já esteja, quando Santana Lopes chegar para ajudar à festa há sempre um cenário pior. Disse disparate, portanto. Mas é mesmo por poder admitir isto, e sem grande jeito para a coisa, que não sou político.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Case study
Será possível criar sempre um novo desfecho para doenças existentes? É.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Abdómen
Através de uma janela no meu abdómen, tenho andado a olhar a morte nos olhos.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
O acto solene de desaparecer

«Desaparecido». Esta maneira de sair da cena da vida parece ter sido muito conhecida no século XVII; mas era então considerada um privilégio dos que tinham sangue régio e jamais seria concedida a um boticário. Por volta de 1686, de facto, um poeta com um nome de mau agorio (ao qual, de resto, fez justiça), Mr. Flat-Man, falando da morte de Carlos II, exprimia a sua surpresa por um príncipe ter cometido um acto tão absurdo como morrer; diz ele que «Deveriam os reis não morrer mas sumir-se».
Ou seja, deveriam eclipsar-se no outro mundo.
Thomas de Quincey, Confissões de um Opiómano Inglês
[João Carlos Silva]
sexta-feira, outubro 12, 2007
Escreve, escreve
Então, estou fora? Não, escrevendo não me tornei melhor, apenas dissipei um pouco, a ansiosa e inconsistente juventude. Que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o voto, não valerão mais do que tu. Nunca disse que escrevendo se salva a alma. Escreve, escreve, e a tua alma já está perdida.*
Italo Calvino, O Cavaleiro Inexistente
*nota: é uma monja narradora que escreve estas linhas.
[João Carlos Silva]
Italo Calvino, O Cavaleiro Inexistente
*nota: é uma monja narradora que escreve estas linhas.
[João Carlos Silva]
As leis da Venezuela
É favor espreitar esta notícia. E eu que nunca pensei vir a gostar do Alejandro Sanz. É bom saber que, na música como em Hollywood, o barco não está totalmente desequilibrado para o «outro lado». Tal como Andy Garcia motiva a oposição a Fidel, também Sanz critica Chávez. E «El Presidente» não se esquece.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quarta-feira, outubro 10, 2007
Sangue na cabeça
Não há uma noite em que consigas ir para a cama com a cabeça limpa de sangue.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Objectivos
No momento em que alguém se decidir a criar uma associação que tenha como único objectivo o de me salvar, passarei a acreditar no conceito de humanidade.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Caminhos
Do mesmo modo que existem várias formas de ganhar a vida, há diferentes formas de a perder. Eu, por exemplo, farto-me de encontrar caminhos para a desgraça.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Perder anos
Mesmo não saindo do sofá, consegues perder anos de vida em poucas horas.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, outubro 09, 2007
Razões para acreditar
Apesar deste Inferno que é o passado, o presente e o futuro, acredito que dias virão em que os céus azuis nos ofuscarão os olhos ao ponto de não conseguirmos ver o bicho que temos dentro de nós.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Amanhã
Sou daquelas pessoas que estão sempre à espera dos amanhãs. Sou daquelas pessoas que vivem desiludidas com os dias que passam.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Quatro paredes
Um suicida que amava a vida construiu uma casa sem janelas para que, nos momentos de angústia, não conseguisse encontrar pontos de fuga.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, outubro 08, 2007
Futuro escuro
Tinha tão poucas expectativas em relação ao futuro que nunca se lembrou de sair da cama.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Manchas
O facto de seres humano não desculpa as tuas falhas. Mas o facto de seres falhado desculpa o ser humano que és.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Escolhas
Se um dia precisares de fazer escolhas, usa o cérebro em vez do coração. Reconheça-se, no entanto, que muito dificilmente um animal da nossa espécie consegue fazer escolhas com o cérebro. O coração é sempre a nossa grande ferramenta. Até quando a ferramenta é uma má ferramenta.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Prova de esforço
Quem conseguir passar mais do que quatro horas com a sua senhora num centro comercial de grande dimensão, para além de estar a bater o meu máximo histórico, está pronto para o casório.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sábado, outubro 06, 2007
Sátira
H. L. Mencken tem uma forma engraçada de contar as suas opiniões ao público, uma vez que, ao fazer isso, brinca dizendo coisas sérias e consegue não cair em ridículo. Por exemplo, a ideia geral de Os Americanos é esta:
Está claro que gente de terceira categoria existe em todos os países, mas só que aqui lhes é confiado o leme do Estado e, ao mesmo tempo, a guarda dos valores nacionais.
Outro qualquer escriba, a dizer isto sobre os Estados Unidos, dar-me-ia vómitos. Mas Mencken não. Mencken sabia escrever, sabia pensar, sabia brincar. Mais importante, Mencken sabia que, fora de portas, o vazio era maior.
[Paulo Ferreira]
Está claro que gente de terceira categoria existe em todos os países, mas só que aqui lhes é confiado o leme do Estado e, ao mesmo tempo, a guarda dos valores nacionais.
Outro qualquer escriba, a dizer isto sobre os Estados Unidos, dar-me-ia vómitos. Mas Mencken não. Mencken sabia escrever, sabia pensar, sabia brincar. Mais importante, Mencken sabia que, fora de portas, o vazio era maior.
[Paulo Ferreira]
Felicidade
Em Os Americanos, Henry Louis Mencken (1880-1956) dá a receita necessária para a felicidade:
a) Bem alimentado, livre de preocupações mesquinhas, à vontade na mãe-pátria;
b) Repleto de um reconfortante sentimento de superioridade em relação à grande massa dos meus compatriotas;
c) Permanentemente divertido, com finura de espírito e de acordo com o meu gosto.
[Paulo Ferreira]
a) Bem alimentado, livre de preocupações mesquinhas, à vontade na mãe-pátria;
b) Repleto de um reconfortante sentimento de superioridade em relação à grande massa dos meus compatriotas;
c) Permanentemente divertido, com finura de espírito e de acordo com o meu gosto.
[Paulo Ferreira]
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sexta-feira, outubro 05, 2007
Raça
Não conhecendo em profundidade a figura de Ângelo Correia, falo daquilo que vejo e que leio. Esta semana, numa entrevista ao Expresso, o homem refere, a propósito das reacções de Pacheco Pereira em relação à vitória de Menezes, o seguinte: O dr. Pacheco queria ser expulso para ser mártir, mas não lhe faremos a vontade. Parece-me que por aqui se vê de que material esta gente é feita.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Ser português
Sobre Arte de Ser Português, de Teixeira de Pascoaes, nada melhor do que a leitura do prefácio de Miguel Esteves Cardoso. Aqui fica um excerto:
Os Portugueses não queriam ser quem ele queria. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes nunca percebeu que era tudo invenção dele.
[Paulo Ferreira]
Os Portugueses não queriam ser quem ele queria. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes nunca percebeu que era tudo invenção dele.
[Paulo Ferreira]
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Rei
Tentando averiguar se o ambiente na SIC continua tão eroticamente carregado como nos nossos tempos, eu e a minha mulher deslocámo-nos aos estúdios no passado domingo. Como fazíamos sete anos de casados nesse dia, convencia-a a ir vestida de noiva, para a fotografia.
- Miguel Esteves Cardoso, Única/ Expresso
[Paulo Ferreira]
- Miguel Esteves Cardoso, Única/ Expresso
[Paulo Ferreira]
Naquele dia
Poderia jurar que, naquele dia, o culpado não fui eu. Mas reconheço que todos os outros dias se têm parecido com aquele.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Lupa
Ontem comprei uma lupa e enviei-a a Deus, a ver se Ele me descobre no meio disto tudo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Deus
Permanecer levantado no ar como um filho de Deus à espera da redenção. Permanecer crucificado como um pecador que, mesmo não suportando mais dor, só recebe dor.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, outubro 04, 2007
Homenzinho
Santana Lopes já é um homenzinho. Já não faz as noitadas de antigamente. Agora, em vez das habituais «directas», Santana deita-se às cinco, seis da manhã, para chegar fresquinho ao trabalho.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Mundo mau
A dor faz-te dizer constantemente que este mundo não é bom, que este mundo não é bom.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Menezes e Santana

A propósito deste meu post, onde eu admitia que não ficava demasiado abatido com a escolha de Santana Lopes para líder parlamentar do PSD, o meu amigo Bruno fez um comentário: «sendo que o João não se deixa enganar pela histeria de Menezes, estranho que ele use para Santana o argumento que os apoiantes do novo líder usaram na sua campanha (o de que, com ele, haveria "verdadeira" oposição, ou seja, berraria)». Ora, a minha justificação para tal «aceitação» de Santana como parlamentar está no próprio excerto que escolhi do comentário do Bruno. Ou seja, que o argumento que se tem usado para escolher os líderes do PSD terá de ser aceite se se referir ao líder parlamentar. É a única abordagem congruente. Menezes e Santana sempre fizeram par, e aos olhos das «bases» é a única continuidade aceitável. A visibilidade que ele (Santana) terá é natural e, com alguma esperança, não será pelos piores espectáculos que já protagonizou. Será um líder parlamentar que qualquer pessoa ouve, mesmo sem querer.
Resumindo: o espectáculo mediático que muitos quiseram ver no líder do partido podia já ter sido fornecido pela escolha de Santana Lopes para líder parlamentar, sem ter descambado nesta pobre via de liderança. Com a condição - e esta é a parte mais importante - de não «andar por aí» e de, se Menezes cair, aprender de vez a lição. Acho, Bruno, que, com o líder que o PSD tem neste momento, Santana Lopes é a única escolha óbvia.
[João Carlos Silva]
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