
O debate mensal no Parlamento foi, para mim, bastante elucidativo do estado em que está a política nacional. Sentado num trono «dourado», José Sócrates respondia às questões (legítimas) levantadas pela oposição com um ataque baixo e pessoal ao carácter desses deputados. É fácil ver como a comunicação pessoal, e a opinião pública em geral, sofre a manipualação do governo: Sócrates respondia às questões insultando o seu interlocutor e rematando
«não vale a pena atacar-me pessoalmente», quando é o próprio Primeiro-Ministro quem tem esse estilo. Projectando nos outros o que ele próprio faz, passa para uma opinião pública desinformada a ideia, e o «soundbyte», dos
«ataques pessoais da oposição».
A determinado ponto, Heloísa Apolónia (figura que nem me agrada particularmente) refere uma questão específica e simples: a do amianto utilizado na construção de escolas - por contraponto às maravilhas tecnológicas que o PM garante estarem a brotar do chão escolar em pleno recreio - que seriam nefastas para a saúde dos petizes. Relevante ou não, a questão era simpoes. Mas Sócrates resolveu responder com um insulto à relevância política da senhora e à «questão Verde Eufémia», que não sei como se poderia relacionar com aquele caso.
Já Francisco Loução e Jerónimo de Sousa (figuras que também não me agradas, respectivamente, a nível pessoal e a nível ideológico) levantaram questões essenciais das relações próximas entre Estado e privado (concordo que estes não devem estar promiscuamente envolvidos em quase nada, apesar de esta não ser a visão do sr. Louçã) e depararam com ataques à validade dos seus partidos e ao carácter de Louçã. Independentemente do que possam merecer, nem Apolónia, nem Louçã, nem Jerónimo viram as suas perguntas respondidas.
Com Marques Mendes e Paulo Portas, adversários naturais, o mesmo se passou, não sendo isso novidade, mas com a particularidade de terem dado um belo «contra» ao histerismo de José Sócrates. Gostei da intervenção de ambos, especialmente da de Mendes (com mais conteúdo e mais argumentado).
Por isto tudo, da próxima que ouvirem alguém referir que os políticos da oposição fazem «ataques pessoais» ao Primeiro-Ministro, mostrem-lhes a última sessão de debate mensal no Parlamento. Só acredito nisto: num Parlamento britânico, Sócrates teria sido trucidado politicamente, sem hipótese de escapar às questões. E será que iriam dizer que os deputados tinham sido malcriados? Acho que não.
P.S.- a propósito de aliados do Governo no Parlamento, Alberto Martins tem um rival na sua disputa pelo amor do Primeiro-Ministro. A relativa brandura de Sócrates para com o Bloco de Esquerda deixa entrever uma coisa: o PS não está a fechar aquela porta para 2009, ou seja, o Bloco está na lista de amigos de Hi5 do PM. A rever dentro de meses.[João Carlos Silva]