Numa cabine telefónica, uma bela senhora grita para o seu interlocutor: «Não te aguento mais. Vê se desapareces.»
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, agosto 23, 2007
quarta-feira, agosto 22, 2007
As Harpias
Um pequeno rapaz, sentindo-se extremamente apaixonado por uma pequena rapariga, não sabia como explicar aos pais as razões que o levavam a chegar a casa com o coração apertado. À falta de melhor, decidiu inventar uma história de perseguição, na qual as Harpias lhe tentavam arrebatar o peito.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, agosto 20, 2007
Nota sobre o movimento
Se uma perna não andar, a outra perna, por mais força que faça, não vai longe.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Leveza
Quando a bomba destrói os prédios da cidade, aparece um pó que transforma os dias em noite e as casas em sombras. Depois, quando o barulho das explosões dá lugar a outros sons menos ruidosos, mas não menos sofridos, surge no ar um outro pó. Menos escuro, mais leve, mais próximo dos céus.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
Erro 2
O problema de seres tu a errar nem tem que ver com os outros. Tem que ver com o facto de seres um fracasso para ti próprio.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Erro
Acontecem-te muitos erros que são da tua inteira responsabilidade. Poder-te-ão acontecer erros que não comecem nas tuas mãos, mas cedo farás com que esses ditos erros passem a ser teus. Tudo o que falhas, mesmo que em ti não comece, em ti acaba.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Vida triste
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre a esperança.
- Ricardo Reis, Poesia
[Paulo Ferreira]
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre a esperança.
- Ricardo Reis, Poesia
[Paulo Ferreira]
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Insucesso
O pior medo do escritor deveria ser a página em branco. Infelizmente, é o insucesso.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Prisões
Há quem viva em regimes pouco livres em termos políticos. Há quem viva preso a um matrimónio.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, agosto 17, 2007
Religião
A religião é injusta: Deus não te dá prendas por seres um homem subserviente.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Prática
A grande tragédia que envolve a palavra felicidade tem que ver com o facto de, em milhares e milhares de anos, cientistas, militares, poetas, professores, alunos, loucos, apaixonados, entre outros, nunca lhe terem encontrado uma aplicação prática.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Campeonato
Vences muitas partidas mas ficas sempre com a sensação de que o campeonato não é para ti.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fantasmas 4
Apesar de conheceres os teus fantasmas como a palma da mão, não lhes tocas.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fantasma 3
Tenho um fantasma que, para além de ter nome, tem cara, cheiro, morada e número de telefone.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, agosto 16, 2007
Fantasmas 2
O problema não é saber que os fantasmas existem. É saber que eles têm nome.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, agosto 14, 2007
Asneiras
Se permanecer calado, não digo asneiras. Se não disser asneiras, não existo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Barba grossa
Se não houvesse disputa, seria teu amigo. Mas não seria homem de barba grossa.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Ideias tolas
As minhas ideias são tão absurdas que não coloco a possibilidade de alguém me vir dizer ao ouvido que tenho razão.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Mau mau
domingo, agosto 12, 2007
sábado, agosto 11, 2007
Simpsons
Fui ver o filme dos Simpsons e, escusado será dizer, foi dinheiro bem gasto. Não é surpresa dizer que é bom, tendo em conta que a deturpação da essência da série não aconteceu quando se passou os Simpsons para o cinema. É quase um milagre da criação humana a longevidade do humor da série, que pouco ou nada sofreu com os anos - muito pelo contrário, até veio a refinar-se e a ganhar, subtilmente, contornos mais negros e menos mímicos. Se é possível falar de «obras de uma vida», então os Simpsons são, sem dúvida, uma delas. Não só a «obra da vida» de Matt Groening, como parte das vidas de todos nós, que apanhámos os Simpsons na infância, adolescência, juventude ou, simplesmente, na parte atenta da nossa triste existência.

[João Carlos Silva]

[João Carlos Silva]
Cão
Suspeito desde há muito que o cão é bastante mais esperto do que o homem: sempre estive convencido, até, de que o cão sabe falar, só que tem um feitio teimoso. O cão é um político extraordinário: repara em tudo, em todos os passos do homem.
Nikolai Gógol, Diário de Um Louco
[João Carlos Silva]
Nikolai Gógol, Diário de Um Louco
[João Carlos Silva]
Escrita
Por vezes, a escrita é um ofício impossível. É algo mais frágil do que um emprego de remuneração variável: meses há em que se passa fome.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Doutoramento em Carimbação
Peço um papel numa secretaria. Dizem-me que ainda não chegou a doutora que diz que os papéis estão feitos. Como tal, o papel também não chegou. «A doutora ainda não trouxe o carimbo», diz a simpática e inocente senhora que me atende.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Dona Inês
Hoje ainda não comprei o Expresso. E, portanto, à falta dos artigos que Inês Pedrosa ultimamente tem escrito, tive de me limpar ao papel quando fui à casa-de-banho.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
O mal-estar do Verão
Por vezes, durante o agradabilíssimo calor de Verão, que encharca as pernas de suor e apoquenta o escroto, as livrarias deixam de ser apelativas ao leitor apaixonado. É que estar perante preços altos e troçistas - que escondem livros tentadores - faz transpirar ainda mais e faz o intestino dar a volta final em direcção à catástrofe, e em direcção a um W.C. de café.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
O talento
Quem transporta o talento em si tem de ser o de alma mais pura. A outro qualquer será perdoada muita coisa, mas para ele não haverá perdão. Se um homem sai de casa com o seu fato de cerimónia claro, basta um salpico de lama provocado pela roda de uma carroça para toda a gente o rodear, lhe apontar o dedo e comentar a sua falta de asseio, mas não repara nas muitas nódoas nas roupas de todos os dias que envergam os outros transeuntes. É que na roupa do dia a dia não se vêem as manchas.
Nikolai Gógol, O Retrato
[João Carlos Silva]
Nikolai Gógol, O Retrato
[João Carlos Silva]
sexta-feira, agosto 10, 2007
Deserto
A grande maioria dos visitantes deste cantinho chega aqui através de pesquisas no Google. Palavras como «vaca», «sexo», «rata», «seio», «vadia», entre outras, são essenciais para atravessar o deserto.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Problema na biblioteca
Escrever posts à pressa porque a pessoa do computador do lado também é blogger e também não tem nada para escrever.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Cabra vadia
Um homem não sai de casa durante vários dias e, quando sai, depara-se com um calor insuportável e com um mundo que já não lhe pertence. Mulheres, pernas de mulheres, bronzes, asneiras, suores, piadas. Outras vidas.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, agosto 09, 2007
Berardo
Fui visitar a dispendiosa «Colecção Berardo» ao CCB e fiquei francamente desiludido. Estou, aliás, convicto de que tudo o que possa estar ligado ao CCB seja uma desilusão. Pelo dinheiro gasto, pelo vazio cultural, pela falta de gosto. Quem for a um qualquer museu de renome no estrangeiro, terá oportunidade de ver arte a sério. Aquilo que vi é pouco. Citando um visitante menos acostumado a lidar com o mundo dos livros e da cultura: «Vem um gajo com os putos ver quadros quando podia estar na Costa, pá.»
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Lésbicas
Segundo uns rumores que me chegaram aos ouvidos, uma lésbica britânica foi condenada, embora não tenha sido presa, por bigamia. Parece que «formalizou uma união de facto» com a sua parceira sem estar divorciada do marido. Ora, nunca vi a cara nem o corpo da senhora em causa, no entanto, posso afirmar que sou a favor de tudo o que tenha que ver com contactos corporais entre mulheres. Então, com o calor, não consigo imaginar a prisão de uma mulher que durma com outra. Pior do que a homossexualidade de mulheres, mesmo que pouco bonitas, é a nudez de uma mulher feia.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
J. V. Serrão

A casta nacional não tem tanto paladar quanto a estrangeira, mas, em termos de sensualidade, é o que de melhor se arranja na historiografia portuguesa. Joaquim Veríssimo Serrão.
[Paulo Ferreira]
Elvis de Campolide
terça-feira, agosto 07, 2007
Do rico pobre
Um pobre de espírito julgava-se rico por ter dinheiro. Mas o cheiro a fezes fazia com que a verdade não fosse ao fundo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, agosto 06, 2007
Sms
Pela quantidade de vezes que recebi mensagens de L. F. Menezes, posso afirmar que o homem merece ser expatriado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Imbecilidade
Se um génio, que é génio, nada faz para viver melhor consigo próprio, por que razão se preocupará um imbecil com coisas tão complicadas?
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Antes e agora
Ao carregar com móveis vários às costas para um segundo andar, lembro-me da infância e de jogar às casinhas. Já nesse tempo imaginava que isto deveria ser complicado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Pavese (nota)
A misoginia de Pavese não se limita a um simples ódio ao elemento feminino. É, mais do que isso, um amor que, por se alimentar exclusivamente de solidões, se transforma em ódio e em desprezo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Deus
Novamente a experiência de que desejamos a dor para nos aproximarmos de Deus.
- Cesare Pavese, O Ofício de Viver
[Paulo Ferreira]
- Cesare Pavese, O Ofício de Viver
[Paulo Ferreira]
Fundamental
Quando uma mulher casa, pertence a outro; e quando pertence a outro, nada mais há a dizer-lhe.
- Cesare Pavese, O Ofício de Viver
[Paulo Ferreira]
- Cesare Pavese, O Ofício de Viver
[Paulo Ferreira]
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domingo, agosto 05, 2007
A bela estupidez
A estupidez constitui um encanto especial numa mulher bonita. Pelo menos, conheci muitos maridos entusiasmados com a estupidez das suas esposas e que vêem nela todos os sinais da ingenuidade infantil. A beleza produz verdadeiros milagres. Todos os defeitos espirituais de uma beldade, em vez de causarem repugnância, tornam-se de algum modo incrivelmente atraentes, e o próprio vício, nelas, respira beleza; porém, se a beleza desaparecer, a mulher precisará de ser vinte vezes mais inteligente do que o homem para inspirar, se não o amor, pelo menos o respeito.
Nikolai Gógol, Avenida Névski
[João Carlos Silva]
Nikolai Gógol, Avenida Névski
[João Carlos Silva]
Acto falhado
A verdadeira ganância: encomendar uma pizza por telefone e ir buscá-la (por engano) a uma churrasqueira brasileira.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 04, 2007
Roupa positiva
Fique-se sabendo que, na ânsia de criar uma (tenebrosa) religião positivista, Saint-Simon e Comte inventaram, entre muitas outras coisas, umas roupas que todos deveriam usar, com a particularidade de terem o fecho meio das costas. Ora, este obrigava a que fosse outra pessoa a fechar o dito cujo para ajudar a vestir. O objectivo: obrigar ao altruísmo. O resultado: rusgas policiais por desconfiança de orgias.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
A única prisão
Vejo um documentário interessante sobre Cuba na RTP e vejo as largas dezenas de prisões espalhadas pela ilha ao serviço de Fidel Castro, ao serviço da ditadura castrista e dos órgãos de tortura política. Vejo um outro documentário sobre torturadores jugoslavos, um outro sobre franceses (e aí lembro-me, claro está, da abjecta Ilha do Diabo). Multiplicam-se os relatos históricos nas últimas semanas para me lembrar de quantas prisões encerram ou encerraram pessoas, muitas vezes inocentes, dentro das suas portas e as submeteram às mais terríveis torturas. E então pergunto-me: porquê fazer crer às pessoas que Guantánamo é a «causa de todos nós», que é a única e primeira das prisões a eliminar, que a América é o Grande Satã?
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Memórias do cárcere comunista
Foi Assim, o livro de memórias dos «tempos de luta» de Zita Seabra, é um livro enriquecedor. De todos os lados têm partido os ataques ao livro da senhora. Independentemente de se gostar ou não da actual posição política de Zita Seabra (eu, pessoalmente, até nem gosto da sua rigidez ideológica adquirida, por oposto à antiga rigidez dos tempos da ortodoxia comunista), esta autobiografia «específica» cai que nem ginjas a qualquer um. Estou em crer que sim. Mas mesmo assim as baterias abrem fogo contra o livro. Porquê? Porque fala de outras pessoas. Porque, supostamente e realmente, «denuncia» a verdadeira personalidade de Álvaro Cunhal. Porque, supostamente e apenas supostamente, é um exercício revisionista de quem não se revê naqueles anos. De quem diz que não sabia de nada.
Infelizmente, para quem leu o livro com alguma atenção, a verdade é outra: Zita Seabra diz que não há como fugir daqueles anos; diz que voltaria a fazer tudo de novo; e que, tal como os outros, as notícias que recebia acerca do que realmente se passava na URSS chegavam-lhe mas não se deixou demover. Foi fanática e, tristemente, aceita esse facto como tal. Não renega a história. A sua e a do seu ex-partido. Nem a de Cunhal, que tanto admirou durante todos os seus anos de «Partido» (e durante a maior parte do livro).
Para não ter medo do livro ou, simplesmente, para não achar que é mais um incipiente livro de memórias, era bom dar uma vista de olhos por aquelas 400 e tal páginas. Não se abre mais a história do PCP tal como a conhecemos, mas as pequenas portas ao longo desse corredor historiográfico vão abrir-se, revelando talvez pequenas pérolas do dia-a-dia dos comunistas portugueses, mesmo depois do 25 de Abril. Ou isso ou podemos fazer como aquela senhora, que Zita refere no livro, que deixou de ver as notícias aquando da queda do comunismo, para manter a chama viva dentro dela, independentemente do que a «propaganda capitalista» andasse por aí a papaguear.
[João Carlos Silva]
Infelizmente, para quem leu o livro com alguma atenção, a verdade é outra: Zita Seabra diz que não há como fugir daqueles anos; diz que voltaria a fazer tudo de novo; e que, tal como os outros, as notícias que recebia acerca do que realmente se passava na URSS chegavam-lhe mas não se deixou demover. Foi fanática e, tristemente, aceita esse facto como tal. Não renega a história. A sua e a do seu ex-partido. Nem a de Cunhal, que tanto admirou durante todos os seus anos de «Partido» (e durante a maior parte do livro).
Para não ter medo do livro ou, simplesmente, para não achar que é mais um incipiente livro de memórias, era bom dar uma vista de olhos por aquelas 400 e tal páginas. Não se abre mais a história do PCP tal como a conhecemos, mas as pequenas portas ao longo desse corredor historiográfico vão abrir-se, revelando talvez pequenas pérolas do dia-a-dia dos comunistas portugueses, mesmo depois do 25 de Abril. Ou isso ou podemos fazer como aquela senhora, que Zita refere no livro, que deixou de ver as notícias aquando da queda do comunismo, para manter a chama viva dentro dela, independentemente do que a «propaganda capitalista» andasse por aí a papaguear.
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 31, 2007
Putas
A misoginia de Pavese é preocupante para um dos seus leitores. Ora, mas se um homem é fraco ao ponto de se dar com putas, o que se pode fazer?
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Calor
Calculo que os homens casados, no Verão, devam viver com a cabeça feita em água.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sábado, julho 28, 2007
Viver no Verão
Com este calor, o meu primeiro pensamento, de manhã ao sair de casa, evoca um velho título de Pedro Paixão: viver todos os dias cansa.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quarta-feira, julho 25, 2007
Adeus, Princesa

Há livros que dão inveja a quem escreve. Adeus, Princesa, de Clara Pinto Correia, é um desses livros. Parece lugar-comum afirmar uma coisa destas - e talvez seja - mas é inevitável: não abundam romances como este nas livrarias portuguesas.
Para começar, temos Joaquim Peixoto, um estagiário da revista Actualidades que é incumbido de ir para Baleizão, uma pequena aldeia alentejana, fazer uma reportagem sobre a morte de um alemão. É a primeira reportagem deste estagiário pouco convicto, que não gosta de falar com pessoas. A morte do mecânico Helmut Schneider, um alemão de vinte e três anos em serviço na Base Aérea da Nato, na estrada que vem de Ferreira, parece estranha. Foi encontrado morto com a cabeça enfiada num tubo de escape de um automóvel que lhe pertencia. Desconfia-se de assassinato. A principal suspeita é Maria Vitória (Mitó), uma miúda de dezoito anos que, fora do seu juízo, confessa que matou o namorado quando este a tentara violar. O primeiro trabalho de Joaquim Peixoto será, portanto, um trabalho de investigação. Será que a rapariga matou realmente o namorado?
Mitó, feia e franzina, é irmã de uma bonita e atraente Vitória Maria, que em tudo lhe é diferente. É bela, desejada, bem-comportada. Mitó não tem ponta por onde se pegue. Além disso, não tem tino. Põe-se na droga. Põe-se com os homens. É má na escola. O pai destas duas irmãs tem o nome de Bernardo Formosinho Rosado e é, como bom homem alentejano do período pós-revolucionário, dirigente do Centro de Trabalho do Partido Comunista Português de Baleizão. É um bom homem. Trabalhador, sincero, honesto, humilde. Perfil soviético. Fica desfeito quando sabe que Mitó era vista nas discotecas e nos bares da região com o mecânico mas, mesmo assim, defende a filha (que só lhe dá desgostos).
O estagiário ao qual compete a tarefa de fazer a reportagem sobre a estranha morte de Helmut, o pobre Joaquim Peixoto, para além de ser pouco convicto e de não gostar de falar, não aprecia os prazeres da mesa e odeia mulheres. «Odiava-as a todas, pronto. Odeio as mulheres.»(p.145) O seu ódio pelas mulheres, porém, não se deve a uma qualquer falta de desejo pelo sexo oposto. Deve-se antes a um sentimento de humilhação que elas lhe dão. Parece que nunca teria hipóteses com nenhuma. Repare-se: «Nessa altura, Joaquim Peixoto tinha já perfeitamente interiorizada a sua triste condição de eterno vencido, e como tal nunca ousaria tentar nem o mais inocente dos avanços.» (p.19) A descoberta de uma resolução para o caso do «alemanito» parece demasiado difícil para tão nublado pretendente a repórter. Sabe-se, no entanto, que não foi Mitó a matar Helmut. Ela bem o queria ter desfeito. E arrepende-se por não ter sido ela a criminosa. Sobre o alemão, sabemos que é da raça nazi, um sujeito da pior espécie. Era um cabresto. Merecia morrer. Refira-se, todavia, que Mitó vivia embevecida com o rapaz que morreu com a boca no escape do seu Ford Escort. Ele é que a tratava mal. Na noite da sua morte, Helmut tratou Mitó especialmente mal. Fez cenas de ciúmes ao vê-la dançando com outros homens. Já depois das quatro da manhã, o casal briga fora da discoteca. Helmut leva uma pancada. Mitó, porém, de nada se lembra. Esta é a versão que fica para a posteridade. Sebastião Curto, amigo de Peixoto, tem uma história diferente: foi a namorada que o matou, foi Mitó. A confissão da rapariga era verdadeira e não loucura, como defendiam o pai e toda a gente. Só que, por interesses corporativos de muita gente associada à rapariga, calhava bem que os culpados ficassem a ser os contrabandistas que assolavam as estradas alentejanas.
Este romance policial, pelo que se viu, não vale tanto pelo desfecho da narrativa mas sim por tudo o que o rodeia. Vale, essencialmente, por Joaquim Peixoto, um homem condenado a não ser jornalista. Quando regressou a Lisboa, a sua reportagem não teve qualquer tipo de sucesso, nem sequer apareceu assinada. Foi aconselhado a ir para Direito, a mudar de carreira. A única coisa que lhe valeu foi o namoro com a dactilógrafa do Centro de Saúde de Baleizão, que, após recusar o rapaz por tantas vezes, vai atrás dele para Lisboa. Um excelente desfecho para os dois, aliás.
Adeus, Princesa, não se contentando com o facto de ser um dos melhores romances publicados em português na década de oitenta, oferece ao leitor uma visão muito bem cuidada daquilo que se passava no Alentejo da reforma agrária, especialmente, quando falamos em quadros mentais. Assim, Baleizão, como qualquer outra aldeia da região, é propícia ao fechamento mental, a opressão é enorme. Todos sabem da vida de cada um. Mitó era frequentemente vista na má vida. Era o estigma da droga (haxixe), do início de uma forma de vida até então desconhecida. Mulheres na noite a frequentarem bares com nome estrangeiro (John Player). Vive-se no medo. Os jovens são criticados pelos autóctones. Não fazem nada. Não querem trabalhar. São ociosos. Pertencem, enfim, a um contexto «rasca». Do ponto de vista social, esta é uma obra muito bem trabalhada. Até do ponto de vista da linguagem das personagens se reflecte o cuidado da autora. As falas coloquiais são muito bem captadas. Não raras são as aparições de expressões como «moinante» ou «bezana». Os alentejanos falam como provincianos. Os revolucionários falam como revolucionários. Cada um dentro do seu estilo.
Como nota final, poder-se-ia argumentar que Adeus, Princesa é um livro que segue uma orientação mais humorística do que negra, ao estilo de um Rubem Fonseca. E não perde com essa inclinação para o humor. Nada mesmo. Só ganha. Por outro lado, se explora as realidades sociais do Alentejo, é para as criticar, para as usar num tom parodiante e muito pouco ligado a realidades partidárias. É com descomprometimento e erudição que Clara Pinto Correia escreve.
Com quase tudo dito, acabo por pegar nas palavras de Helmut. Au Wiederzehen, Prizessin.
[Paulo Ferreira]
Este romance policial, pelo que se viu, não vale tanto pelo desfecho da narrativa mas sim por tudo o que o rodeia. Vale, essencialmente, por Joaquim Peixoto, um homem condenado a não ser jornalista. Quando regressou a Lisboa, a sua reportagem não teve qualquer tipo de sucesso, nem sequer apareceu assinada. Foi aconselhado a ir para Direito, a mudar de carreira. A única coisa que lhe valeu foi o namoro com a dactilógrafa do Centro de Saúde de Baleizão, que, após recusar o rapaz por tantas vezes, vai atrás dele para Lisboa. Um excelente desfecho para os dois, aliás.
Adeus, Princesa, não se contentando com o facto de ser um dos melhores romances publicados em português na década de oitenta, oferece ao leitor uma visão muito bem cuidada daquilo que se passava no Alentejo da reforma agrária, especialmente, quando falamos em quadros mentais. Assim, Baleizão, como qualquer outra aldeia da região, é propícia ao fechamento mental, a opressão é enorme. Todos sabem da vida de cada um. Mitó era frequentemente vista na má vida. Era o estigma da droga (haxixe), do início de uma forma de vida até então desconhecida. Mulheres na noite a frequentarem bares com nome estrangeiro (John Player). Vive-se no medo. Os jovens são criticados pelos autóctones. Não fazem nada. Não querem trabalhar. São ociosos. Pertencem, enfim, a um contexto «rasca». Do ponto de vista social, esta é uma obra muito bem trabalhada. Até do ponto de vista da linguagem das personagens se reflecte o cuidado da autora. As falas coloquiais são muito bem captadas. Não raras são as aparições de expressões como «moinante» ou «bezana». Os alentejanos falam como provincianos. Os revolucionários falam como revolucionários. Cada um dentro do seu estilo.
Como nota final, poder-se-ia argumentar que Adeus, Princesa é um livro que segue uma orientação mais humorística do que negra, ao estilo de um Rubem Fonseca. E não perde com essa inclinação para o humor. Nada mesmo. Só ganha. Por outro lado, se explora as realidades sociais do Alentejo, é para as criticar, para as usar num tom parodiante e muito pouco ligado a realidades partidárias. É com descomprometimento e erudição que Clara Pinto Correia escreve.
Com quase tudo dito, acabo por pegar nas palavras de Helmut. Au Wiederzehen, Prizessin.
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Sexo em tudo
É um problema muito grande veres sexo em tudo porque presumes que nem toda a gente veja sexo em tudo.
[Paulo Ferreira]
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Carroça
Se tens pressa, não andes de carroça. Se só tiveres uma carroça, não tenhas pressa.
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terça-feira, julho 24, 2007
Pó
Comes tanto pó ao longo dos anos que, quando te aparece algo puro para provares, sabe-te ao mesmo.
[Paulo Ferreira]
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Perfume
Já na cama, formulou com relativa lucidez (péssimo sintoma para o acordado): «Cheguei a uma altura da vida em que o cansaço não serve para dormir e o sono não serve para descansar.»
- Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos
[Paulo Ferreira]
- Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra aos Porcos
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Bioy Casares
Após a leitura de Diário da Guerra aos Porcos, posso garantir que já li tudo o que existe de Bioy Casares na nossa língua. Faço essa afirmação com orgulho. Bioy Casares é um grande escritor, provavelmente, é um dos meus cinco escritores preferidos. Logo, é óbvio que sinto um grande orgulho por ter lido duzentas e quarenta e poucas páginas num dia. O melhor que a Cavalo de Ferro me poderia fazer era lançar La trama celeste, El heróe de las mujeres, entre outro livros do falecido escritor argentino.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, julho 23, 2007
sábado, julho 21, 2007
Work in Progress
sexta-feira, julho 20, 2007
Os amigos da liberdade
Em termos de ciência política, estamos bem. Toda a gente sabe o que quer dizer liberdade. Toda a gente nasceu para a democracia. O primeiro-ministro, inclusivamente, recusa-se a receber lições nessas matérias. É por isso que se consegue viver tão acolhedoramente nesta santa terra igualitária.
[Paulo Ferrreira]
[Paulo Ferrreira]
Dicionário
Existe uma planta chamada «não-me-deixes» e outra chamada «não-me-toques».
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Cat Power
Poeta dezembrista
Ouço, numa apresentação de um livro, um vetusto poeta afirmar que toda a gente escreve no nosso país, mas que quase ninguém o faz com qualidade. Ora, fascina-me ouvir alguém que anda nesta terra há tanto tempo proferir lugar-comum de tão grande dimensão. Parece-me que nem toda a gente escreve. Parece-me que nem toda a gente acha piada a escrever. Parece-me que escrever não dá grande dinheiro. Mais importante: não viria mal ao mundo, se os portugueses se quisessem todos armar em eruditos. Melhor seria se andassem todos a ler e a escrever. Não se diria que a Filosofia ou a História não levam a lado algum. Entre outras coisas.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Sexo
Vêm ao blogue à procura de putas, de vacas. Mandam mails com ofertas de Viagra. Fazem propaganda à pornografia. Conhecem bem os autores deste cantinho.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, julho 19, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
Sobre uma frase de Akhmátova
Pegas na memória quando estás longe daquilo que já te acompanhou todos os dias. Adormeces quando estás ao lado daquilo que já não está contigo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, julho 17, 2007
Uma expressão
«Julgas que és mais do que os outros?» Esta é uma frase que muita gente cultivada já deve ter ouvido. É uma expressão que implica inveja, traição, mesquinhez, pobreza, tacanhez. Faz parte de Portugal e da sua tendência para os igualitarismos e para as faltas de liberdade. «Aqui não és ninguém!» Realmente.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
O país do papelinho
Para um indivíduo conseguir obter um papel numa repartição pública, é preciso muito tempo de espera e muita sola de sapato gasta. Eu, pelo menos, quando preciso de recorrer ao Estado, fico com os pés e as pernas feitas em farrapos, espero horas intermináveis, percorro corredores que remontam ao velho K., mas falta sempre um papelinho, uma notinha, uma coisinha.[Paulo Ferreira]
Remédio
A ausência é o melhor remédio contra o esquecimento.
- Anna Akhmátova, Prosas Escolhidas e Poema Sem Herói
[Paulo Ferreira]
- Anna Akhmátova, Prosas Escolhidas e Poema Sem Herói
[Paulo Ferreira]
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