sexta-feira, dezembro 29, 2006

Da cultura individual


Sentado num apertado banco de autocarro, tento escrever uma ideia, mas, por vergonha, não consigo.Demasiada gente a observar. Começo a fazer-me perguntas mentais. E se alguém repara que, por debaixo do casaco à Vila-Matas, se esconde um autêntico Zé Bento? E se alguém descobre que a minha relação com a caneta é a mesma que o menino de oiro mantinha com Paulinho Santos? E se alguém descobre que não sou nenhum Paulo Futre, nenhum feiticeiro da técnica? E se notarem que, de facto, não passo de um Jaime Magalhães com jeitos de bode de campo?

[Paulo Ferreira]






Dormir ao sol

Nos últimos meses de 2006 desconfio ter sofrido um primeiro indício, quase imperceptível, de esgotamento intelectual. Talvez por isso não me lembre, se o quiser lembrar, da totalidade dos (bons) livros que li durante este ano. Mas numa semana em que gostamos de fazer balanços, veio-me à memória um pequeno grande livro que poderia dizer que me marcou. Quando surpreende, marca sempre. Numa edição meio esquecida, meio perdida pelos cantos escusos de livrarias, um alfarrábio da Estampa surgiu-me nas mãos: Dormir ao Sol, de Bioy Casares. Por recomendação de um amigo, parti à descoberta. Não tem a unânime «genialidade» de outros «bioy casares», mas é sem dúvida um excelente livro. Sobretudo inteligente. Deste ano, ficou-me marcado na carne este discreto vislumbre da profundidade da narrativa de Casares. Para quem gosta ou não do homem.

[João Carlos Silva]

O estado das coisas



«Pode-se viver bem sem pensar». (Júlio Cortázar, Bestiário)

[João Carlos Silva]

Da cultura

Balakov aos flancos.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Do simpático ferro

O comboio passou-lhe por cima, mas não não conseguiu apagar-lhe o sorriso dos lábios.

[Paulo Ferreira]

Pureza de alma no livro de Voltaire

Depois de ter sido enforcado, depois de ter sido feito escravo, o bom Pangloss continuava a dizer a Cândido: Todos os acontecimentos se encaminham no melhor dos mundos possíveis.

[Paulo Ferreira]

Uma morte brilhante


No dia 5 de Agosto de 1951, Eduardo Chibás, um cubano revoltado com os defeitos do corrupto Batista, dá um tiro em cheio no seu próprio estômago, vindo a morrer onze dias depois. Refira-se que o tiro foi disparado num programa de rádio habitualmente apresentado por Chibás.


[Paulo Ferreira]

Escritor erudito

Um homem lia tanto, tanto, mas tanto, que, um dia, acabou de ler o último livro de todos. Claro que ficou preocupado, mas logo arranjou a solução: começar a escrever.

[Paulo Ferreira]

OVNI

Tenho curiosidade em ler Estórias Domésticas, de Henrique Manuel Bento Fialho. Porém, como ainda não ganhei coragem para comprar seja o que for pela net (atrasado, pois sou), vou tentando vasculhar essas livrarias da cidade, a ver se alguém viu algum OVNI. Também queria ler o livro de Fernando Sorrentino porque gosto muito de Bioy Casares e essas coisas. Mas, até ao momento, ainda não houve OVNIS para ninguém. Entretanto, apercebo-me de que não tenho rigorosamente piada nenhuma e vou-me deitar.

[Paulo Ferreira]

Joyce

Dubliners, de Joyce, é o melhor livro que li em Dezembro. Provavelmente, não afirmo que é o melhor livro que li este ano por ser um indivíduo extremamente pretensioso. Além disso, a verdade é que só me fascinei realmente pelo último conto do livro, intitulado The Dead.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Prenda no sapatinho

Rasgou o papel de embrulho e encontrou D. Quixote de la Mancha. No meio da emoção, só se lembrou de perguntar pelo tempo que, obviamente, não tinha para ler aquelas merdas.

[Paulo Ferreira]

How?

I did not know wether I would ever speak to her or not, if I spoke to her, how I could tell her of my confused adoration. But my body was like a harp and her words and gestures were like fingers running upon the wires.

- James Joyce, Dubliners

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Subscrever uma moção

«Eu sou um indeciso e gostava humildemente, publicamente, de reconhecer que tenho um problema. Nós, os indecisos, temos problemas. Somos doentes. Somos guterristas. Precisamos de cura, de tratamento, mas também de tolerância e de compaixão. Queremos ser compreendidos. Merecemos ser compreendidos. Ao contrário do que dizem os simplistas, o nosso suplício não está em não saber o que queremos. Não somos fracos. Sabemos o que queremos. Só que queremos tudo. Somos de um perfeccionismo, de um imperialismo, de uma arrogância sem limites. Alguém, por favor, que nos ensine o sentido das proporções.»

- Pedro Lomba, Diário de Notícias, 23/12/2006

[João Carlos Silva]

domingo, dezembro 24, 2006

Micro-leituras

Muchas Veces me Sucede Olvidar Quien Soy é um livro que, por diversas razões, me renova o gosto pela narrativa de passo curto. O seu autor é Luís Ene.

Um homem foi ao fundo uma vez, outra, e outra ainda, mas não morreu. A questão que lhes quero colocar, caros leitores, não é quantas vezes mais pode ele ir ao fundo e ficar vivo, mas sim quanto tempo poderá ele ainda estar vivo sem ir de novo ao fundo.

Mi mujer es excepcionalmente caliente, y a mi me gusta encender los cigarros en su cuerpo, declaró ayer un hombre detenido por malos tratos conyugales.


[Paulo Ferreira]

Deslumbre

Acordo e a primeira reportagem que vejo é sobre o Natal dos futebolistas «estrangeiros» em Portugal. Culturas dos antípodas? Ora... Um angolano e um colombiano.

[João Carlos Silva]

Crise de meia idade



A dada altura, Gauguin afirmou: mulheres brancas nunca mais.

[João Carlos Silva]

sábado, dezembro 23, 2006

Questão de tempo

No outro dia, comecei a pensar que, se Joyce acabou o seu Dubliners aos 25 anos, a minha pessoa ainda iria a tempo de fazer uma obra-prima - talvez uma espécie de Serões na Província (Júlio Dinis) - ainda antes do fecho da precocidade. No entanto, estava eu nesse dia a imaginar-me com 20 anos. A realidade, no entanto, diz-me 22. O que só pode querer dizer que, nunca como hoje, fez tanto sentido a aplicação da expressão «apre que se faz tarde!».

[Paulo Ferreira]

Problemas no existir

«O que entende o meu amigo por saúde?», perguntou o médico ao paciente, que se queixava da sua falta de phatos.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Condições (supostamente) indispensáveis


Em A Cultura Integral do Indivíduo, um erudito do século XX português, Bento de Jesus Caraça, pergunta-nos o que é o homem culto. Dá três respostas excepcionais:

1º- Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;

2º- Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;

3º- Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida.

Não teria qualquer tipo de problema em substituir tudo o que aqui já escrevi para colocar estas três ideias de Jesus Caraça. Simplesmente, quando se tem a arte de nada de relevante se dizer, de nada vale usar a borracha ou apelar ao esquecimento. Isto porque tudo o que aqui se passa não é relevante, não tem pretensões de ensinar ou de se elevar a grupo em hipotética ascensão «política». O grémio passa sempre ao lado deste espaço simples e, admito, bacoco. Sigamos, no entanto, as excelsas palavras de Caraça:

Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.

A aquisição de cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a «conquista da liberdade.»

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Melhor homem no melhor dos mundos


«Ai meu Deus!, disse, matei o meu antigo Amo, o meu cunhado; sou o melhor homem do mundo, e já vai em três os homens que assassino; e destes três há dois que são Padres.»

- Voltaire, Cândido ou O Optimismo

[Paulo Ferreira]

Ler?

Não me dá muito para isso, dizia ele, enquanto mirava a pernoca da mais velha da Alcinda.

[Paulo Ferreira]

Rotina

A ideia de atribuir conceitos àquilo que vou fazendo, já me fascinou bastante. Gostava de me apelidar de conservador. Ainda hoje penso que esse termo me fica bem na pele. Gosto de ir à mesma livraria todos os dias. Gosto de beber o café todas as noites no mesmo estabelecimento. Provavelmente, o conservadorismo funciona um pouco de acordo com esse tipo de comportamentos. Mas já não me fascino. Sou um pé rapado que não tem onde cair morto.

[Paulo Ferreira]

Desgostos

Ele vertia lágrimas sinceras ao escrever os seus livros.

[Paulo Ferreira]

Médico dos ossos

Questão muito simples: osteólogo ou osteologista?

[Paulo Ferreira]

domingo, dezembro 17, 2006

Rédea solta


Deram o «Apito Dourado» a Maria José Morgado, uma espécie de diabinho com princípios éticos. Sinceramente, era mesmo o que nós precisávamos para renovar (nunca eliminar, aceite-se isto) as redes de corrupção e promiscuidade entre futebol e «política». É uma boa notícia. Mesmo que seja pela possibilidade de ainda em 2007 já começarmos a ter alguns autos de fé em público - isto porque, pessoalmente, até prefiro os de Maria José Morgado aos da stripper vestida Carolina Salgado.

[João Carlos Silva]

Sem comentários

Segundo uma notícia, a União Europeia apela à calma na Palestina.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Love, love

Através dos Joy Division, Love will tear us apart (again). E a rua tão escura.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, dezembro 12, 2006

Leitura

Uma certa mágoa lá para os lados do Bonfim.

[Paulo Ferreira]

O quarto escuro


Ele brincava quando os amigos iam ter com as namoradas. Lá vai ele ter com o amor, gritava sempre. Por detrás destas máscaras, no entanto, se escondia um freelancer não menos aplicado do que os apaixonados casais que se beijam demoradamente. No seu caso, a aplicação era ditada pela mão e os trabalhos, sempre flexíveis e deslocalizados, garantiam-lhe uma estabilidade emocional extrema.


[Paulo Ferreira]

Fina morte

Enquanto a criançada jogava ao berlinde, o avô abriu a janela do quarto e, como quem não quer a coisa, atirou-se. Escusado será dizer que morreu de uma morte sossegada.

[Paulo Ferreira]

Carolina Salgado



Pouco me interesso por Carolina Salgado e pelo seu Jorge Nuno. Mulheres feias, homens feios, editoras feias, tudo coisas que pouco ou nada me interessam. Poderia dizer que a senhora Carolina deveria ter o pudor de não falar dos lupanares onde trabalhou. As flatulências do Jorge Nuno também seriam escusadas. De uma coisa, porém, me lembro: à semelhança de Esopo,o escravo grego, esta mulher, esta cortesã dos tempos do multibanco, a Carolina, a feia da Carolina, faz livros de cabeça. Quem sabe se também perderá a sua liberdade.

[Paulo Ferreira]

A morte do ditador

Não condenes a barbárie de um homem que só com a morte se livrará dos tormentos da dor física constante, disse o velho. E pôs-se a esperar, a esperar, a esperar.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Filho macaco

O filho só descansou quando espreitou para o que se escondia debaixo da saia da mãe. Antes disso, um castigo. Depois, sossego, acalmia, destroços o resto da vida.

[Paulo Ferreira]

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou


- José Tolentino Mendonça, Baldios

[Paulo Ferreira]

Do fim de um romance

Maldita hora em que entrei no Calor da Noite.

[Paulo Ferreira]

domingo, dezembro 10, 2006

Vigor antigo

Sobre a força da corrente dos rios, João de Barros (1496-1570) escreve «o tesão da água».

[João Carlos Silva]

Ouvir

Noel Gallagher ao vivo. Para ouvir aqui.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Nassar



Para além de ter o tipo de paixão pela escrita que se alimenta da própria vontade, e não só do trabalho, e da sua escrita equivaler a uma respiração por longos movimentos ininterruptos, Raduan Nassar tem um pormenor particular, mas não inédito, de ter decidido «parar de escrever» depois de deixar um espólio de enorme qualidade. Lavoura Arcaica é parte desse espólio. O tema da obra: «assim que entrei, fui me pôr atrás dela, passando eu mesmo, num murmúrio denso, a engrolar meu terço, era a corda do meu poço que eu puxava, caroço por caroço, "te amo, Ana" "te amo, Ana" "te amo, Ana" eu fui dizendo num incêndio alucinado, como quem ora, cheio de sentimentos dúbios, e que gozo intenso açular-lhe a espinha, riscar suas vértebras, espicaçar-lhe a nuca com a mornidão da minha língua». O tema mesmo? Ana é irmã de André, personagem tentada e narrador.

[João Carlos Silva]

Tempo para ler

Entre outros fragmentos de «Condomínio Fechado» (que merecem ser lidos), escreve Henrique Fialho sobre Herman José: «Ao contrário de Karl Marx, não descobriu o elixir da eterna juventude. Comprou rolexes, jaguares, iates, roupas pirosas. Pintou o cabelo de várias cores. Queria desesperadamente rir de si próprio, mas as rugas não deixavam. Quem muito ri dos outros nem sempre acaba conseguindo rir de si próprio».

A acrescentar a isso, indicaria o facto de Herman ter dito a Fernando Assis Pacheco, numa entrevista de cerca de 1986, que não tinha muito tempo para ler. Algo me diz que ele, de facto, já não tem tempo para ler há vinte anos. Mas é só um palpite. Ainfal de contas, há não muito tempo li em determinada revista a confissão do treinador de futebol José Peseiro, que punha a mulher a fazer-lhe resumos de romances. É sempre bom ver interesse pelos livros. E, neste último caso, provavelmente foi o Código da Vinci que o acordou para a literatura. Quando li isso, pensei para mim: Peseiro merece um abraço. Ainda merece.

[João Carlos Silva]

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Daysleeper #3

Um político, de gravata, apanhou um molho de folhetos na sua secretária e veio para a rua gritar, em cima de um caixote: «A vida não é só livros! Não é, prometo!»

[João Carlos Silva]

Daysleeper #2

Noite. Poderia jurar que uma prostituta me piscou o olho. E no entanto não me atrevo a rever o momento na memória.

[João Carlos Silva]

Daysleeper #1

Duas mulheres num transporte público. Uma propõe à outra: «nas próximas férias vamos fazer o roteiro turístico do Código da Vinci!». Tivesse eu mais tomates e tinha-lhe proposto o roteiro Henry Miller. Mas estava demasiado sonolento para isso.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Do futebol com uma certa mágoa

Um dia houve em que a poesia quebrou: um tal de Paulo Jorge, que tanto poderia ser Carlos de Soure como Manel de Palhavã, entrou num estádio a que se dá o nome de Old Trafford.

[Paulo Ferreira]

Plano de leitura

Gostei de ler Pedro Salinas (1891-1951). Nem só de Murphys e de Watts vive um homem. E é preciso romantismo. Aqui fica um belo poema madrileno.

Se te está viendo la otra

Se te está viendo la otra.
Se parece a ti:
los pasos, el mismo ceño,
los mismos tacones altos
todos manchados de estrellas.
Cuando vayáis por la calle
juntas, las dos,
qué difícil el saber
quién eres, quién no eres tú!
Tan iguales ya, que sea
imposible vivir más
así, siendo tan iguales.
Y como tú eres la frágil,
la apenas siendo, tiernísima,
tú tienes que ser la muerta.
Tú dejaras que te mate,
que siga viviendo ella,
embustera, falsa tú,
pero tan igual a ti
que nadie se acordará
sino yo de lo que eras.
Y vendrá un día
- porque vendrá, sí, vendrá-
en que al mirarme a los ojos
tú veas
que pienso en ella y la quiero:
tú veas que no eres tú.

- Pedro Salinas, La Voz a Ti Debida

[Paulo Ferreira]

terça-feira, dezembro 05, 2006

Casamento

Naquela tarde, vestiu a saia da mulher e partiu para as ruas, dizendo que era corno, que era corno. Até metia dó.

[Paulo Ferreira]

Virar a página

Preciso de um Código da Vinci na minha vida, disse a mulher ao marido, que gostava de ler.

[Paulo Ferreira]

Do mercado

Cansado de tudo, disse: a partir de hoje, não mais apelarei ao direito de usar estilo nas frases que escrevo. Assim foi. «Gosto de fiambre, gosto de queijo, gosto de mulheres, as mulheres não gostam de mim.» Foi best-seller.

[Paulo Ferreira]

De um homem só

É agora, é agora, pensou. Mas logo se calou, porque nada aconteceu naquele momento, nem nos momentos seguintes. O agora nunca chegou e ele ficou caladinho a ouvir a chuva que caía.

[Paulo Ferreira]

Medidas que curam #3

Com o TLEBS, até os que não sabem ler vão fazer pinotes com a língua portuguesa.

[João Carlos Silva]

Medidas que curam #2

Os portugueses sempre sonharam ler o Código da Vinci mais depressa ainda, de forma indolor. Trazemos-lhes, portanto, o Plano Nacional de Leitura, levando Dan Brown ao Portugal profundo.

[João Carlos Silva]

Medidas que curam #1

O choque tecnológico virá. E nós queremos estar preparadinhos para o receber, não queremos? Em coro: queremos!

[João Carlos Silva]

número três

Na Minguante nº3, para além de excelentes textos que por lá tenho lido, surgem também dois dos rapazes deste blogue: um do Paulo e um meu (fruto suado e sangrado de uma desinspiração comovente). Entre outras coisas, destaque para as «microteorias». Veja-se este excerto da de Luís N: E poder-se-á dizer que tem princípio meio e fim? Talvez a micronarrativa seja um qualquer texto de ficção para o qual se levante afinal a questão, mas isto ainda é um conto? E talvez não seja. Vale a pena visitar. Digo eu.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Da traição



We don't live here anymore.

[Paulo Ferreira]

Sempre ON

Não lhes chegava a manhã, a tarde, a noite, o telefone. Fizeram um blog cada um, de modo a estarem permanentemente abraçados.

[Paulo Ferreira]

Da genialidade

Genial é o homem que não consegue morrer com apenas uma facada no peito.

[Paulo Ferreira]

Minguante

A Minguante nº 3 já aí está para quem quiser ler. O meu texto, desta vez ainda mais fraquinho, também.

[Paulo Ferreira]

domingo, dezembro 03, 2006

Bottoms up

Ontem relembrei um momento há muito recalcado. A SIC voltou a mostrar imagens dos «protestos estudantis» de 1992 (o muito português não pagamos dirigido, então, às propinas), que vi quando era criança mas me ficou na memória. Mas, mais importante, a SIC lembrou esse momento focando os célebres estudantes que mostraram o rabo ao ministro Couto dos Santos. Se bem me lembro, esse gesto de baixar as calças pondo o dito traseiro mano a mano com um político teve algumas repugnantes e reprováveis tentativas de reprodução - fracassadas, é claro, pela sua infantilidade. Mas nesse dia de 1992, durante uma reunião entre associações estudantis e governo executivo, o gesto foi cronológica e esteticamente perfeito. Por mim, até podiam tê-la desnudado em nome do Sendero Luminoso, mas mostrar a peidola a um ministro da educação - perturbando uma mão-cheia de imberbes de associações de estudantes que pacificamente tentavam subir na carreira política - não deixa de merecer o meu mais sincero aplauso.

Nota - referi no post que a reportagem tinha passado na RTP quando realmente foi na SIC. Já corrigi. Obrigado pelo reparo.

[João Carlos Silva]

sábado, dezembro 02, 2006

O estado das coisas



[João Carlos Silva]

Witch hunt

Sobre impostos e caça popularucha ao devedor-não-pagador: (...) a caça "aos que não pagam" faz aumentar a popularidade do governo. A liberdade individual, por sua vez, vai ficando cada vez mais diminuta. E os que têm mais a temer são precisamente os que não devem. (Bruno Alves, Desesperada Esperança)

[João Carlos Silva]

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Lucky

Na música, gosto, entre outras coisas, de cantorias simples. Gosto de pegar no OK Computer e ouvir a voz de Thom Yorke a sussurrar isto:

Kill me Sarah,
kill me again with love


[Paulo Ferreira]

Da beleza conquistada


O homem que tem noção da cara que o divino lhe deu, tem a grande vantagem de retirar benefícios da beleza que, manifestamente, não possui.

[Paulo Ferreira]

domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny 1923-2006



Não sou um adepto confesso do surrealismo. Mas uma parte do que leio ou procuro escrever hoje é, sem dúvida, influenciada pela irreverência que Cesariny deixou como seu legado. Essa irreverência, digna de muito respeito, ficou cá.

*

poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a contura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


[João Carlos Silva]

sábado, novembro 25, 2006

Do sentimento

Head down to toes a reaction to you

(Elliott Smith)

[Paulo Ferreira]

Letras lapidares



Tom Waits:

One thing you can say about mankind:
There's nothing kind about man.


[João Carlos Silva]

quinta-feira, novembro 23, 2006

X

No local onde ela o deixou, desenhou o desgraçado um X. E todos os dias lá foi rezar para que ela para os seus braços voltasse.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, novembro 22, 2006

Silêncio

Vale a pena (mesmo a esta preguiçosa distância de três dias do fim-de-semana anterior) ler o ensaio de Alda Rocha, na revista Actual, sobre o silêncio. Numa referência mais literal aos sons e sua ausência, destaque-se a referência a John Cage e à sua célebre composição musical: «Em termos conceptuais não é possível falar-se de música sem silêncio, mas John Cage deu-lhe outra dimensão ao compor 4'33", uma peça em três movimentos, sem nenhuma nota. A primeira vez que foi apresentada, em 1952, inserida num recital de piano contemporâneo, David Tudor sentou-se, para se levantar quatro silenciosos minutos e meio depois».

[João Carlos Silva]

Um presente para Tom Cruise



Orelhas de cientologia.

[João Carlos Silva]

Homens santos

Um novo artigo de um sujeito desconhecido, intitulado «A infalibilidade humana na política». O assunto é inequívoco: como o próprio nome indica, o tema é José Sócrates.

[João Carlos Silva]

Memória

Na adolescência, houve uma repetição prolongada do mesmo acontecimento que me tornou num devorador de livros. Passo a relatar: o mais forte, o latagão, sempre que me via, digamos, entornando um pouco de conversa a alguém do sexo feminino, apertava-me os testículos, gritando: «agora, assobia jogador!»

[Paulo Ferreira]

Da perfeição nos cafés da cidade

Ele, de penteado perfeito, com o dente recentemente branqueado, disse, entre charmes e deslumbres, a quem quisesse ouvir que, dali, só saía com uma «toira» na palma da mão. A partir daí, basta ler o que Gibbon escreveu sobre o Império Romano.

[Paulo Ferreira]

Thom Yorke e eu IV

Pensei que, em vez de estar aqui a ressumar palavras por baixo do título «Thom Yorke e eu», deveria ter escrito poesia com florete e apelar ao nome de Cavafis. No entanto, o que aqui importa é a fealdade, nada mais.

[Paulo Ferreira]

Thom Yorke e eu III

Ele não sabia por que razão ela o ignorava, não sabia por que razão ela o fazia corar. Desconfiava ele que a culpa fosse das variações metereológicas ou de qualquer outra coisa menos relevante. De uma coisa, porém, ele não se esquecia, não se privava. De cantar.

I don’t know why
I feel so tongue-tied

Faltando a guitarra, ele colocava assobio.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, novembro 21, 2006

Thom Yorke e eu II

Abstinência, castidade. Palavras proibidas para quem se julgue esbelto. Dá-me, no entanto, a parecer que o significado contrário dessas palavras tem apenas que ver com carne, não com sentimento. É, aliás, por isso que um determinado bonitão, no momento em que encontrou o amor, começou a cantar «And for a minute there, I lost myself, I lost myself».

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, novembro 20, 2006

Thom Yorke e eu

Com o passar dos anos, fui-me esquecendo do essencial, do que realmente importa. Nos tempos de rapazola, não era assim. Gostava, por exemplo, de olhar para o rosto feio de Thom Yorke. Gostava de pensar que existe sempre alguém pior do que o espelho. Mas, como digo, com o passar dos anos, perdi a capacidade de reter o que interessa. Deixei de achar Thom Yorke feio. Deixei de ouvir Radiohead. E, a partir daí, o massacre fui eu. Até hoje, que voltei a dizer que o gajo que canta Karma police é feio.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, novembro 16, 2006

fanny



fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto, e
filha de uma inglesa,

tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.

uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e

deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro

se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e

fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,

na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.

Vasco Graça Moura, Antologia dos Sessenta Anos

[João Carlos Silva]

quarta-feira, novembro 15, 2006

Subsídios (mais EPC)

Diz-se que há crianças que têm um «mau comer». Na verdade, penso que a maioria das mães se queixa disso, numa altura ou noutra do crescimento do filho. Mas também há as excepções. Por exemplo, veja-se o modelo EPC: sessenta e dois anos, mas ainda mama muito bem.

[João Carlos Silva]

Humor, mas do bom

Martinho Lutero foi o primeiro homem a chegar à idade da reforma.

[João Carlos Silva]

Dama do palácio

Escrever é a alegria sem dama.

[Paulo Ferreira]

Alma de pedinte

No soluço que antecede a lágrima, ele só se lembrou de lhe pedir «por favor, não vás!»

[Paulo Ferreira]

Neoplatonismo

Ela era tão excepcional que nunca mais ninguém a viu.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, novembro 14, 2006

Por amor de Deus!

Eduardo Prado Coelho, que ontem gastou a sua habitual crónica no «Público» a falar sobre os mistérios da noite, sobre a procura do Outro no Plateau, no Kremlin, no Lux, etc., faz hoje uma «peça» sobre Marques Mendes. Ora, parece que Eduardo Prado Coelho, à semelhança de Miguel Sousa Tavares, acha o líder do PSD «muito correcto naquilo que faz, mas apenas certinho, nunca brilhante», que é como quem diz, nada que se compare ao brilho do magnânimo primeiro-ministro. Mais à frente no texto, Prado Coelho, como se temesse que o leitor não fosse perceber que Marques Mendes foi apanhado pelo Demo,acrescenta que lhe «parece que um vento de loucura lhe varreu o cérebro.» Digo eu, que muito ignorante sou, que talvez umas mezinhas fizessem bem à alma do pobre Marques Mendes, uma vez que, para além da sua óbvia loucura recente, o homem foi feito «gato-sapato» por José Sócrates na Assembleia da República. É, portanto, de se considerar que Eduardo Prado Coelho, no seu artigo de opinião de hoje, consegue descortinar, na maior das perfeições, toda a acção e todos os problemas que têm envolvido o PSD e o seu líder nos últimos meses.

Eduardo Prado Coelho, sendo filósofo, crítico literário, colunista, ensaísta, professor universitário, enfim, um dos grandes intelectuais deste país, faz bem em expor a sua revolta sempre que esta seja necessária. Apoio-o quando escreve «Que vergonha, meu caro amigo!» Apoio-o quando associa Rui Rio a um «estalinismo larvar.» Afinal de contas, intelectual, neste país, rima com patetice.

[Paulo Ferreira]

Estilo político do doutor primeiro-ministro



Fato Armani, o grisalho como a melhor definição para o seu penteado.E, claro, seriedade, muita seriedade. Pelo desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, novembro 13, 2006

Metáforas da bola

Certo rapaz tinha uma escrita tão prolífica que passou directamente da «cantera» para a política.

[João Carlos Silva]

sábado, novembro 11, 2006

Conhecimento

Também Eduardo Prado Coelho atingiu o estatuto pretendido. De tanto dizer coisas sem sentido, já rima com corte epistemológico. Correcção, ele próprio é um corte epistemológico.

[João Carlos Silva]

Amor

De tanto insistir, lá conseguiu o que queria. João Pedro Pais, agora, rima com amor.

[João Carlos Silva]

Tom Cruise



Do fundo da minha indolente ignorância , afirmo que desconheço aquilo que se chama de Cientologia. Desconheço, de igual modo, o que leva um actor de elevado calibre a sentir-se fascinado pela saga Mission Impossible. Compreenderia melhor a aparição de Katie Holmes, não fosse a existência de Nicole Kidman um facto. Os saltos no Oprah Winfrey Show, esses, não me levam a compreender ou a qualquer outra coisa. Não me interesso demasiadamente pelos assuntos que levam os moralistas ao apupo. Se é aos pulinhos e a fazer macacadas que um homem quer tornar público o seu amor, que seja. Parece-me, no entanto, que Tom Cruise, um dos meus actores preferidos - admito-o sem qualquer tipo de vergonha- anda meio perdido. Anda a faltar-lhe qualquer coisa que aprecio em homens à séria, como George Clooney, George Clooney, ou até mesmo George Clooney. Refiro-me ao estilo, ao saber estar, ao possuir chá. É-me indiferente aquilo que Tom Cruise possa ou não fazer em público. Agora, o penteado mal arranjado ou o fato fora de moda, isso são coisas que me inquietam. Tom Cruise até poderia pertencer à Fenprof que não me incomodaria. Agora, aparições de galã fenecido não vão com nada.

Tom Cruise, como quase todos os grandes actores, já participou em dezenas de péssimos filmes. Porém, também se poderia dizer que, ao contrário de milhares de maus actores que raramente saem da cepa torta, Tom Cruise já se poderia vangloriar por já ter entrado em filmes, diria eu, absolutamente fantásticos. Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick, é um desses filmes que considero irrepreensíveis. Conseguiria um outro actor mostrar a loucura de um homem normal da mesma maneira que Cruise o faz no papel de William Harford? Duvido. Rain Man, Magnolia e Jerry Maguire são outros bons filmes, nos quais Cruise demonstra, de uma forma ou de outra, a sua capacidade para revelar a inquietação provocada pela suposta grandiosidade do sucesso. Numa outra linha, com menor qualidade, Vanilla Sky, adaptação americana de Abre Los Ojos, feita por Cameron Crowe, é a continuação dessa loucura sempre patente na cara bonita do homem que teve a coragem de abandonar a perfeita Kidman. De momento, não me consigo lembrar de um outro actor, digamos, belo, que consiga transformar o que, à partida, não é fácil - a beleza- em tique nervoso, em choro, em pena de quem assiste. Dir-se-ia que alguns filmes de Cruise são feitos para quem gosta de aplaudir a monódia trágica, o canto a solo.

Os thrillers interpretados por este actor já não me dizem muito. Nem Minority Report me consegue seduzir. Fazem lembrar o espírito do sempre aventureiro, mas não menos anedótico, Top Gun. Com efeito, julgo que, das maiores injustiças que se podem cometer, é colocar actores no espírito de Aquiles. Melhor: certos papéis, para chegarem a Aquiles, também deveriam incluir a morte pelo calcanhar. Ora, Tom Cruise, que demonstra, pelo carinho que nutre pelo Hunt de Mission Impossible, não demonstra o actor que é nesse tipo de filmes sem substância. Prefiro vê-lo em filmes em que se sofre e se chora, em que a gravata fica com baba e ranho.


Quanto à vida pessoal, julgo que a vida de Tom Cruise, para mim, será sempre um molde de Far and Away, filme que, segundo se diz, o juntou a Nicole Kidman. É o horizonte longínquo da pradaria que o faz correr pela dama e cometer as maiores infantilidades. É o sonho da terra prometida e da felicidade. Irei sempre associar a australiana a Cruise e Cruise à australiana. E não gosto de telenovelas. Quanto mais se gostasse.


[Paulo Ferreira]

Um poema

Tom Cruise em Eyes Wide Shut.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, novembro 10, 2006

Mudar de vida

Em declarações ao elaboradíssimo «Correio da Manhã» (jornal que, devido à minha grande erudição, não leio) Jorge Nuno Pinto da Costa, esse grande declamador de poesia, confessou ser um ex-grande viciado em tabaco. Chegou a fumar três maços e meio por dia. E não se ficou. Chegou a fumar no banho (pessoalmente, prefiro que digam «banhinho»). Mas, como sempre teve um grande querer, há vinte e cinco anos atrás, nos primórdios do futebol, Jorge Nuno largou tudo. Ricardo Quaresma, que estava ao lado do patrão na ocasião (que desconheço qual tenha sido), foi mais expressivo: disse, num tom que me pareceu de enjoo, que nunca lhes tocou. Nos cigarros. No cigano, porém, não acreditei.

[Paulo Ferreira]

Sobre violência II

Os artigos de Pulido Valente a puxar escarro.

[Paulo Ferreira]

Sobre violência

Alguém afirmar sem corar que Maquiavel ensina governantes a governar e, no raciocínio seguinte, escandalizar-se com o cão peludo do Casal Arnolfini (Van Eyck).

[Paulo Ferreira]

Entrevista

A ler, a pequena entrevista do amigo Bruno Alves no Miniscente. Leia-se também o que o desesperado escriba escreveu a propósito do último filme de Scorcese.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, novembro 09, 2006

Da sinceridade

Sinceramente, já nem vale a pena surgir em campo e sujar a roupa lavada contra eles.

À moda do outro, mais sinceras só as diarreias do Barroso.

[Paulo Ferreira]

Momento

«Ele tem uma grande capacidade criativa, está mesmo a despontar!», disse eu a alguém, no grande momento Jardel da minha vida. Depois calei-me, sem marcar um golo ou sequer receber um aplauso pelo meu calo histórico (a barriga).

[Paulo Ferreira]

Goodbye, Maria Ivone



Algo me diz que a demissão de Donald Rumsfeld, que já veio com um par de anos de atraso, vai ser mais mencionada do que a guerra no Iraque nos próximos tempos. Pelo menos, já deu aspecto de largar lastro no mar.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ao toque do punho

Vergílio Ferreira diz num dos seus livros que toda a educação é uma violência.

[Paulo Ferreira]

Um ser violento IV

Voluntarismo: «the pen is mightier than the sword». Facto: os primeiros homens, antes de tentar escrever, tentaram matar-se uns aos outros.

[João Carlos Silva]

Gerir o tempo

No seguimento de parábolas literárias sobre o debate do Orçamento do Estado, o meu caro amigo Bruno Alves ensina a gerir o tempo:

Alberto Martins começou a discursar. Melhor momento para ir à casa de banho, só a intervenção daquela senhora d'"Os Verdes".

[João Carlos Silva]

terça-feira, novembro 07, 2006

Um ser violento III


A Clockwork Orange (1971)

[João Carlos Silva]

Um ser violento II

Procurava causas para justificar um temperamento violento, até que Primo Levi me abriu as portas de Auschwitz-Birkenau e me explicou que nem tudo precisa de razões. Nem a violência. Nem a morte. Nem a sobrevivência:

«Lutámos com todas as nossas forças para que o Inverno não chegasse. Agarrámo-nos a todas as horas tépidas, a cada fim de dia procurámos reter o Sol no céu mais um pouco, mas tudo foi inútil. (...)

Em Birkenau a chaminé do Forno Crematório fumega há dez dias. Estão a arranjar lugar para um enorme transporte que está prestes a chegar do gueto de Posen. Os jovens dizem aos jovens que serão todos os velhos a ser escolhidos. Os sãos dizem aos sãos que serão só os doentes a ser escolhidos. Os especialistas serão excluídos. Os judeus alemães serão excluídos. Os Números Baixos serão excluídos. Tu serás escolhido. Eu serei excluído.» (Se isto é um homem, 1958)

[João Carlos Silva]

Um ser violento I

O aço. Sempre o medo do aço. Uma vida inteira a aprender a lidar com ele, na mesma medida em que, desde cedo, aprendi a evitá-lo. As crianças brincavam com pedras, paus, bolos de madeira ou de areia, a gravilha na palma da mão. Para arremessar a um adversário tudo servia.

Mas curiosamente, ninguém se atrevia a empunhar qualquer objecto feito em aço. Estava reservado aos mais crescidos, versados na arte da guerra. No fundo, no fundo, o aço não era mais que o formato da morte - conceito estranho e algo temível a uma criança que apenas queria conhecer a violência.

[João Carlos Silva]