quarta-feira, novembro 15, 2006

Neoplatonismo

Ela era tão excepcional que nunca mais ninguém a viu.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, novembro 14, 2006

Por amor de Deus!

Eduardo Prado Coelho, que ontem gastou a sua habitual crónica no «Público» a falar sobre os mistérios da noite, sobre a procura do Outro no Plateau, no Kremlin, no Lux, etc., faz hoje uma «peça» sobre Marques Mendes. Ora, parece que Eduardo Prado Coelho, à semelhança de Miguel Sousa Tavares, acha o líder do PSD «muito correcto naquilo que faz, mas apenas certinho, nunca brilhante», que é como quem diz, nada que se compare ao brilho do magnânimo primeiro-ministro. Mais à frente no texto, Prado Coelho, como se temesse que o leitor não fosse perceber que Marques Mendes foi apanhado pelo Demo,acrescenta que lhe «parece que um vento de loucura lhe varreu o cérebro.» Digo eu, que muito ignorante sou, que talvez umas mezinhas fizessem bem à alma do pobre Marques Mendes, uma vez que, para além da sua óbvia loucura recente, o homem foi feito «gato-sapato» por José Sócrates na Assembleia da República. É, portanto, de se considerar que Eduardo Prado Coelho, no seu artigo de opinião de hoje, consegue descortinar, na maior das perfeições, toda a acção e todos os problemas que têm envolvido o PSD e o seu líder nos últimos meses.

Eduardo Prado Coelho, sendo filósofo, crítico literário, colunista, ensaísta, professor universitário, enfim, um dos grandes intelectuais deste país, faz bem em expor a sua revolta sempre que esta seja necessária. Apoio-o quando escreve «Que vergonha, meu caro amigo!» Apoio-o quando associa Rui Rio a um «estalinismo larvar.» Afinal de contas, intelectual, neste país, rima com patetice.

[Paulo Ferreira]

Estilo político do doutor primeiro-ministro



Fato Armani, o grisalho como a melhor definição para o seu penteado.E, claro, seriedade, muita seriedade. Pelo desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, novembro 13, 2006

Metáforas da bola

Certo rapaz tinha uma escrita tão prolífica que passou directamente da «cantera» para a política.

[João Carlos Silva]

sábado, novembro 11, 2006

Conhecimento

Também Eduardo Prado Coelho atingiu o estatuto pretendido. De tanto dizer coisas sem sentido, já rima com corte epistemológico. Correcção, ele próprio é um corte epistemológico.

[João Carlos Silva]

Amor

De tanto insistir, lá conseguiu o que queria. João Pedro Pais, agora, rima com amor.

[João Carlos Silva]

Tom Cruise



Do fundo da minha indolente ignorância , afirmo que desconheço aquilo que se chama de Cientologia. Desconheço, de igual modo, o que leva um actor de elevado calibre a sentir-se fascinado pela saga Mission Impossible. Compreenderia melhor a aparição de Katie Holmes, não fosse a existência de Nicole Kidman um facto. Os saltos no Oprah Winfrey Show, esses, não me levam a compreender ou a qualquer outra coisa. Não me interesso demasiadamente pelos assuntos que levam os moralistas ao apupo. Se é aos pulinhos e a fazer macacadas que um homem quer tornar público o seu amor, que seja. Parece-me, no entanto, que Tom Cruise, um dos meus actores preferidos - admito-o sem qualquer tipo de vergonha- anda meio perdido. Anda a faltar-lhe qualquer coisa que aprecio em homens à séria, como George Clooney, George Clooney, ou até mesmo George Clooney. Refiro-me ao estilo, ao saber estar, ao possuir chá. É-me indiferente aquilo que Tom Cruise possa ou não fazer em público. Agora, o penteado mal arranjado ou o fato fora de moda, isso são coisas que me inquietam. Tom Cruise até poderia pertencer à Fenprof que não me incomodaria. Agora, aparições de galã fenecido não vão com nada.

Tom Cruise, como quase todos os grandes actores, já participou em dezenas de péssimos filmes. Porém, também se poderia dizer que, ao contrário de milhares de maus actores que raramente saem da cepa torta, Tom Cruise já se poderia vangloriar por já ter entrado em filmes, diria eu, absolutamente fantásticos. Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick, é um desses filmes que considero irrepreensíveis. Conseguiria um outro actor mostrar a loucura de um homem normal da mesma maneira que Cruise o faz no papel de William Harford? Duvido. Rain Man, Magnolia e Jerry Maguire são outros bons filmes, nos quais Cruise demonstra, de uma forma ou de outra, a sua capacidade para revelar a inquietação provocada pela suposta grandiosidade do sucesso. Numa outra linha, com menor qualidade, Vanilla Sky, adaptação americana de Abre Los Ojos, feita por Cameron Crowe, é a continuação dessa loucura sempre patente na cara bonita do homem que teve a coragem de abandonar a perfeita Kidman. De momento, não me consigo lembrar de um outro actor, digamos, belo, que consiga transformar o que, à partida, não é fácil - a beleza- em tique nervoso, em choro, em pena de quem assiste. Dir-se-ia que alguns filmes de Cruise são feitos para quem gosta de aplaudir a monódia trágica, o canto a solo.

Os thrillers interpretados por este actor já não me dizem muito. Nem Minority Report me consegue seduzir. Fazem lembrar o espírito do sempre aventureiro, mas não menos anedótico, Top Gun. Com efeito, julgo que, das maiores injustiças que se podem cometer, é colocar actores no espírito de Aquiles. Melhor: certos papéis, para chegarem a Aquiles, também deveriam incluir a morte pelo calcanhar. Ora, Tom Cruise, que demonstra, pelo carinho que nutre pelo Hunt de Mission Impossible, não demonstra o actor que é nesse tipo de filmes sem substância. Prefiro vê-lo em filmes em que se sofre e se chora, em que a gravata fica com baba e ranho.


Quanto à vida pessoal, julgo que a vida de Tom Cruise, para mim, será sempre um molde de Far and Away, filme que, segundo se diz, o juntou a Nicole Kidman. É o horizonte longínquo da pradaria que o faz correr pela dama e cometer as maiores infantilidades. É o sonho da terra prometida e da felicidade. Irei sempre associar a australiana a Cruise e Cruise à australiana. E não gosto de telenovelas. Quanto mais se gostasse.


[Paulo Ferreira]

Um poema

Tom Cruise em Eyes Wide Shut.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, novembro 10, 2006

Mudar de vida

Em declarações ao elaboradíssimo «Correio da Manhã» (jornal que, devido à minha grande erudição, não leio) Jorge Nuno Pinto da Costa, esse grande declamador de poesia, confessou ser um ex-grande viciado em tabaco. Chegou a fumar três maços e meio por dia. E não se ficou. Chegou a fumar no banho (pessoalmente, prefiro que digam «banhinho»). Mas, como sempre teve um grande querer, há vinte e cinco anos atrás, nos primórdios do futebol, Jorge Nuno largou tudo. Ricardo Quaresma, que estava ao lado do patrão na ocasião (que desconheço qual tenha sido), foi mais expressivo: disse, num tom que me pareceu de enjoo, que nunca lhes tocou. Nos cigarros. No cigano, porém, não acreditei.

[Paulo Ferreira]

Sobre violência II

Os artigos de Pulido Valente a puxar escarro.

[Paulo Ferreira]

Sobre violência

Alguém afirmar sem corar que Maquiavel ensina governantes a governar e, no raciocínio seguinte, escandalizar-se com o cão peludo do Casal Arnolfini (Van Eyck).

[Paulo Ferreira]

Entrevista

A ler, a pequena entrevista do amigo Bruno Alves no Miniscente. Leia-se também o que o desesperado escriba escreveu a propósito do último filme de Scorcese.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, novembro 09, 2006

Da sinceridade

Sinceramente, já nem vale a pena surgir em campo e sujar a roupa lavada contra eles.

À moda do outro, mais sinceras só as diarreias do Barroso.

[Paulo Ferreira]

Momento

«Ele tem uma grande capacidade criativa, está mesmo a despontar!», disse eu a alguém, no grande momento Jardel da minha vida. Depois calei-me, sem marcar um golo ou sequer receber um aplauso pelo meu calo histórico (a barriga).

[Paulo Ferreira]

Goodbye, Maria Ivone



Algo me diz que a demissão de Donald Rumsfeld, que já veio com um par de anos de atraso, vai ser mais mencionada do que a guerra no Iraque nos próximos tempos. Pelo menos, já deu aspecto de largar lastro no mar.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ao toque do punho

Vergílio Ferreira diz num dos seus livros que toda a educação é uma violência.

[Paulo Ferreira]

Um ser violento IV

Voluntarismo: «the pen is mightier than the sword». Facto: os primeiros homens, antes de tentar escrever, tentaram matar-se uns aos outros.

[João Carlos Silva]

Gerir o tempo

No seguimento de parábolas literárias sobre o debate do Orçamento do Estado, o meu caro amigo Bruno Alves ensina a gerir o tempo:

Alberto Martins começou a discursar. Melhor momento para ir à casa de banho, só a intervenção daquela senhora d'"Os Verdes".

[João Carlos Silva]

terça-feira, novembro 07, 2006

Um ser violento III


A Clockwork Orange (1971)

[João Carlos Silva]

Um ser violento II

Procurava causas para justificar um temperamento violento, até que Primo Levi me abriu as portas de Auschwitz-Birkenau e me explicou que nem tudo precisa de razões. Nem a violência. Nem a morte. Nem a sobrevivência:

«Lutámos com todas as nossas forças para que o Inverno não chegasse. Agarrámo-nos a todas as horas tépidas, a cada fim de dia procurámos reter o Sol no céu mais um pouco, mas tudo foi inútil. (...)

Em Birkenau a chaminé do Forno Crematório fumega há dez dias. Estão a arranjar lugar para um enorme transporte que está prestes a chegar do gueto de Posen. Os jovens dizem aos jovens que serão todos os velhos a ser escolhidos. Os sãos dizem aos sãos que serão só os doentes a ser escolhidos. Os especialistas serão excluídos. Os judeus alemães serão excluídos. Os Números Baixos serão excluídos. Tu serás escolhido. Eu serei excluído.» (Se isto é um homem, 1958)

[João Carlos Silva]

Um ser violento I

O aço. Sempre o medo do aço. Uma vida inteira a aprender a lidar com ele, na mesma medida em que, desde cedo, aprendi a evitá-lo. As crianças brincavam com pedras, paus, bolos de madeira ou de areia, a gravilha na palma da mão. Para arremessar a um adversário tudo servia.

Mas curiosamente, ninguém se atrevia a empunhar qualquer objecto feito em aço. Estava reservado aos mais crescidos, versados na arte da guerra. No fundo, no fundo, o aço não era mais que o formato da morte - conceito estranho e algo temível a uma criança que apenas queria conhecer a violência.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, novembro 06, 2006

Travesti

Hoje, afirmei que o Manifesto do Partido Comunista é um panfleto interessante.

[João Carlos Silva]

O estado das coisas



A recuperar de um longo dia...

[João Carlos Silva]

Ler mal


Ernst Jünger conhecia as batidas do coração. Viu a trincheira. Cheirou a mistura de sangue com pólvora. Falou de guerra como experiência interior. A multidão, por seu lado, assustada com a fotografia da realidade, colocou o nome de Hitler nos livros do pensador, confundindo, desse modo, as leituras.

[Paulo Ferreira]

Literatura em Maquiavel II

E os homens em geral julgam mais pelos olhos que pelas mãos, porque ver é coisa que toca a todos, e sentir a poucos.

- Maquiavel, O Príncipe

[Paulo Ferreira]

Literatura em Maquiavel I

Oferecendo-se David a Saul para ir combater com Golias, provocador filisteu, Saul, para lhe dar ânimo, armou-o com as suas armas, as quais, depois de as ter vestido, David recusou, dizendo que com elas, se não poderia bem valer de si mesmo, e que queria defrontar o inimigo com a sua funda e o seu punhal.

- Maquiavel, O Príncipe

[Paulo Ferreira]

domingo, novembro 05, 2006

Vida trágica

Um homem nunca ter sido grande espingarda e não ter perspectivas de um dia vir a ser.

[Paulo Ferreira]

Crítica literária portuguesa

Eu, de Florbela, apenas gosto do nome. Espanca.

[Paulo Ferreira]

Arriscar a guilhotina é isto:

Ary dos Santos, nome de poeta (um bom brasileiro chama sempre o castiço de poeta), poesia zero.

[Paulo Ferreira]

A noite

O homem medieval acreditava em mitos e lendas que, para o homem de hoje, são susceptíveis de alimentar boas anedotas de café. No entanto, na Idade Média, espaços como a floresta estavam relacionados com o desconhecido, com o misterioso, com o funesto. A noite era a altura do dia em que os medos invadiam os espíritos amedrontados . Ou seja, naquela altura, o atraso empírico era grande e as fronteiras por ultrapassar eram muitas. Só no século XIV é que se começam, por exemplo, a refutar as concepções cristãs da Terra plana.

Pois bem, eu que não sou um homem medieval, no sentido cronológico do termo, sinto-me, por vezes, ligado àquela época. Principalmente, quando a noite chega. Para mim, a noite é a vivência de vários mitos ao mesmo tempo. Em criança, o fim da tarde significava o aparecimento da mula de sete cabeças, o demónio que se escondia atrás dos postes de electridade. Mais tarde, outros monstros apareceram com a noite. Refira-se, no entanto, que, à medida que o corpo foi crescendo, os monstros metamorfosearam-se. Comecei a temer discotecas, homens de pouca temperança, mulheres despudoradas, enfim, ambientes sociais que implicassem certa ciência. Como não sou muito ligado a mezinhas, cheguei à conclusão de que, para indivíduos como eu, a única solução eficaz para combater a noite seria ficar em casa. E assim tem sido. Tranca-se a porta de casa e começa-se a ler, a escrever, a namorar. Os caros caderninhos pretos que ficam sempre bem ao homem pretensioso, têm-me dado jeito. Os livros que não se podem ler na rua também. Porém, de certa maneira, a reclusão caseira não consegue ser total, uma vez que os medos e as memórias persistem.

Há quem diga que é no escurinho do quarto que o sentido de humilhação mais se dá a mostrar. De certo modo, concordo. Todavia, é bom não esquecer que a noite, para além de ser violenta para os que não convivem, humilha. Embora se possa afirmar que, se o escurinho do quarto é o espaço de eleição para a memória e a lembrança do que fracassa, a noite e a rua são os espaços onde essas memórias acontecem.

As definições de noite, na maior parte dos dicionários, devem ser, mais coisa menos coisa, estas: f. Espaço de tempo que vai desde o crepúsculo da tarde até o crepúsculo da manhã. Escuridão. Noitada. Fig. Trevas do espírito. Ignorância. Noite velha, alta noite. Gosto de pensar em noite como metáfora para uma certa realidade. Treva de espírito e ignorância, escuridão e cegueira. Insónia, desvelo. Tudo isto é noite. E eu sou o pássaro fissirrostro, uma pessoa que só aparece de noite, mas onde? Não na rua, não na paisagem social. No fundo, sou o pássaro de bico fendido que se encontra com os lençóis, com a caneta. E nem sempre.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, novembro 02, 2006

Obra poética VIII

Poesia transatlântica: uma brasileira chamada Maria-você-me-mata.

[João Carlos Silva]

Obra poética VII

Uma brincadeira a duas mãos sobre poesia: dois homens, nenhum destino.

[João Carlos Silva]

Obra poética VI

Desconfio sempre de um poeta que saiba voar.

[João Carlos Silva]

Obra poética V

Poesia: trasladação do corpo.

[João Carlos Silva]

Sobre poesia XI

A poetisa Sylvia Plath morreu com a cabeça dentro do fogão.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia X


Elliott Smith

Um cantor matou-se com duas facadas no coração.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia IX

A pogoníase de Frida Khalo.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia VIII

Em 1938, na cidade de Paris, um «estranho» passa pelo génio e desfere-lhe uma facada no peito. Pouco tempo depois, aparece Suzanne Deschevaux-Dusmenoil e «é» para toda a vida.



[Paulo Ferreira]

quarta-feira, novembro 01, 2006

Obra poética IV

A primeira coisa que se deve ver na obra de um poeta é a seguinte: porque sofre. A segunda coisa: como sofre. Ninguém procura uma cura na poesia.

[João Carlos Silva]

Obra poética III

Sou um homem do contra. Aprendi a preferir:
- uma poesia prosaica;
- uma prosa poética.

[João Carlos Silva]

Obra poética II

Qualquer poeta que se preze deveria conseguir, ou saber, escrever «estou aqui».

[João Carlos Silva]

Obra poética I

Uma referência:


Paul Celan

[João Carlos Silva]

Sobre poesia VII


O cigarro de Samuel Beckett como sinal de algo maior.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, outubro 31, 2006

O senhor Arnolfini

O doutor Eduardo Prado Coelho, para muitos conhecido como Inquisidor-Mor do reino, decidiu soltar a sua férrea lança sobre a populaça. No Público de ontem, o homem que me ensinou o significado de «orgasmo horizontal», criticou Luís Aguiar-Conraria, autor do A destreza das dúvidas por razões que não se percebem muito bem. Por esse motivo, e sendo também eu um apreciador do estilo “tu cá tu lá”, permito-me a tecer algumas considerações.

Eduardo Prado Coelho, um amante das artes e dos céus arroxeados, no seu artigo, comete a disparate de afirmar que «puxa da pistola» sempre que ouve alguém criticar aqueles que gastam o dinheiro dos contribuintes em coisas que o doutor Prado Coelho aprecia, como aquilo a que em Portugal se costuma chamar de artes, etc. A revolta fica mal em alguém que passou grande parte da sua vida a sugar dinheiro do Estado, sem nada de relevante fazer. Quer dizer, no meu anónimo entendimento, quando se passa uma vida a falar de temáticas como o amor e a realizar estudos abstractamente definidos como filosófico-literários, não se faz muito que seja digno de pensão estatal.

Outra questão levantada pelo artigo do doutor Prado Coelho é a do meu próprio devir. Não me refiro propriamente ao aparecimento do lexema «aparvalhado» no meio do belo texto. Refiro-me à parte em que o doutor Prado Coelho confunde o blogger Luís Pedro Coelho com um mero funcionário do Continente. Essa questão do devir do Eu torna-se importante, e de inadiável discussão, uma vez que tenho perdido algumas horas de sono por causa do assunto. Simplificando: será que o Estado me vai deixar entrar? Patrocínios? Verbas loucas escondidas debaixo do espesso manto da Cultura? Dinheiro para mim? Estado? Ou terei eu que pendurar as botas e vestir a camisola do Modelo ou do Pingo-Doce, se me disserem que a investigação em História ou a publicação de literatura não me dá comida? Bem, o doutor Prado Coelho, do alto da sua toga inquisitorial, tocou num ponto bastante importante, que é o da arrogância do funcionalismo público quando comparado com quem não está ou não pode estar «lá dentro».


Existem certas situações na vida do ser humano que fazem duvidar da integridade mental dos que nos rodeiam. Saramago, por exemplo, parece um céptico (exilado em Lanzarote). Manuel Maria Carrilho dá a sensação de ser um basbaque com um doutoramento (logo, superior ao meu anonimato e com capacidades para, se quiser, me desfazer). Enfim, o cérebro não acompanha os tempos que mudam. Não sei se a isso se chama paralisia. Não sei. Mas sei que o doutor Prado Coelho vai a conferências que um cidadão que não receba bolsas governamentais vitalícias não pode ir. Ele é tertúlias no Brasil, ele é romances imaginários em Paris. Ele é livros escritos às três pancadas. Muita razão tinha Miguel Sousa Tavares quando dizia que não se punha num avião com o doutor Prado Coelho para as jornadas literárias que, para alguns, são quase semanais.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, outubro 30, 2006

Sobre poesia VI

A fotografia é o objecto de trabalho do poeta, no entanto, só a caneta se move no chão branco de papel.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia V

O Belo é a mulher, não a estrofe. Só por si, um verso bonito não ganha valor. O Belo é a memória.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia IV

Poderá a caneta superar a lírica?

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia III

Nomes existem que superam estantes carregadas de antologias poéticas. Paul Valéry e o Senhor Teste, por exemplo, abalam as estruturas do verso.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia II

Nem tudo o que rima é belo.

[Paulo Ferreira]

Sobre poesia I

A poesia não sente necessidade de rimar.

[Paulo Ferreira]

domingo, outubro 29, 2006

Propaganda

«Numa evocação dos 150 anos dos Caminhos de Ferro em Portugal, a RTP incluíu uma referência ao TGV. Se há 150 anos se tinha aberto o caminho para o desenvolvimento do país, hoje, os portugueses "aguardam" o TGV. Tudo dito pela boca da servil jornalista. Melhor propaganda que esta é difícil. Pena é que não tenha sido num tempo de antena do PS, mas sim numa televisão paga pelos impostos de todos nós.»

- Bruno Alves, Desesperada Esperança, 28/10/2006

[João Carlos Silva]

Pragmatismo

Um homem, certo dia, cansado de cuidar do filho, ofereceu-o a Madonna.

[João Carlos Silva]

quinta-feira, outubro 26, 2006

O estado das coisas



A boa relação entre os dois bloggers

Percurso empresarial

O Paulo deu o passo definitivo para se tornar presidente do Benfica. Depois só falta deixar crescer e acarinhar um bigode, receber um dossier em casa e demitir-se.

[João Carlos Silva]

De um homem importante

Não sou muito agarrado à vida.

-
Erasmo, 1518

[Paulo Ferreira]

Sobre Nélson Pereira

No Record , jornal essencial na vida de um homem culto, Gomes Ferreira, membro da destacada família de um amigo, faz referência a um post que aqui escrevi há dias num artigo intitulado Chamem-lhe Nélson Pereira. Pelos vistos, parece que isto do Pereira deve mesmo ir para a frente. Quem sabe se não surgirão movimentos a defender a qualidade nas balizas portuguesas.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, outubro 25, 2006

Biografia

Em tão pouco cabe a extensão de uma vida
os olhos perdemos no vasto norte
afinal em nós sempre estiveram fixos
recolheram o volume das ilhas
presos a nós que nada sabemos

eu só dizia:
foge comigo
desce também o rio
escuro salgueiro

- José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos

[Paulo Ferreira]

terça-feira, outubro 24, 2006

Da genialidade

Querem que eu seja sábio, sabendo que tenho dores na nuca, que as moscas me devoram e que o céu não pode alterar seja o que for.

-
Samuel Beckett, O Inominável

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, outubro 23, 2006

«Coitus»

Grande dinamismo no dar e no receber.

[Paulo Ferreira]

domingo, outubro 22, 2006

Descer as sombras

vens
caindo
pela dor
acomodando

nuas palavras
à ferida de ter
perdido. a face é
pequena para sentir

o que em nós sobrevive
no instante em que a voz
desce as sombras desse dia

onde voltar já não se escreve
com medo das marés. podes agora
subir: é como estar (de novo) na luz


- João Luís Barreto Guimarães, 3

[João Carlos Silva]

O estado das coisas



[João Carlos Silva]

F1

Não aprecio carros. Não percebo nada de velocidades. Para dizer a verdade, nem gosto de corridas em geral. Mas sempre tive um certo apego aos fins-de-semana de Fórmula 1 na RTP. Ora, Michael Schumacher acaba hoje, em princípio, a sua actividade. Ou melhor, hoje reforma-se um mito vivo. Para muita gente, Schumacher é (ou foi) o Diabo em pessoa. Lúcifer em carne e osso, dentro de um carro de Fórmula 1. Provavelmente, têm razão: Schumacher raramente se preocupou, na sua carreira, em reservar um lugar no céu. Aliás, ao contrário dos homens santos, nunca se lembrou que poderia ser amado pelos fãs. Só se preocupava com uma coisa: a vitória. Vencer vencer vencer. E isso teve os seus contras: alguns acidentes, muitos ódios.

Mas o que o fez odiado também dele fez um dos melhores automobilistas de sempre. Desde que comecei a ver Fórmula 1, à parte Damon Hill, apenas Schumacher mostrava claramente aquilo que todos tinham: a vontade de vencer. E, também ao contrário de quase todos, não se fazia rogado em «abrir» o seu próprio espaço na pista. Se hoje (na sua última corrida) não ganhar, azar. Mas amanhã a Fórmula 1 já estará mais pobre. Uma espécie de desmoronar do império de Alexandre, em que todos lutarão pelo ceptro mas sem nunca um só merecê-lo como o antecessor. Na melhor das condições, nenhum deles conseguirá, tão cedo, igualar a carreira de um dos únicos «boches» decentes do século XX.



[João Carlos Silva]

sábado, outubro 21, 2006

Minguante

A Minguante, revista de micronarrativas que conheci através de Henrique Fialho, já lançou o seu segundo número, no qual eu também participo com um texto muito à minha linha, isto é, pobrezinho. É ainda de salientar que o João aqui do blogue também participa neste número da revista.

[Paulo Ferreira]

Gostei

Do artigo de Inês Pedrosa na Única. Aqui fica um curto, mas esclarecedor, excerto:

Sim, ela é péssima: inteligente, frontal, trabalhadora, alegre. E, mesmo assim, não desiste de Portugal.

[Paulo Ferreira]

Virtudes

Em televisão, querer agradar a gregos e a troianos torna os comentadores (ou os analistas) muito insípidos. Medina Carreira tem a virtude de falar o que lhe vai na cabeça, sem calculismos estratégicos. Muito sinceramente e não é só pelo diálogo que transcrevo neste primeiro parágrafo, eu delegava o poder em Medina Carreira. Sem eleições. Toma lá, executa.

- José Costa e Silva, Lóbi do Chá, 21/10/2006

[João Carlos Silva]

O futuro estado das coisas


José Mattoso


[Paulo Ferreira]

sexta-feira, outubro 20, 2006

Posts sobre mulheres aristocráticas

A ler o extenso e dedicado post do Bruno sobre Kirsten Dunst, sobre Kirsten Dunst, sobre Kirsten Dunst. Ah, e sobre Marie Antoinette.

[João Carlos Silva]

Em sociedades perfeitas

Aquilo que o homem uniu, a Natureza é impotente para separar.

- Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo

[João Carlos Silva]

A culpa é inteiramente de António Castro Guerra



[João Carlos Silva]

Marianne

Voltaram a calar-se. De repente Bruno puxou por uma fotografia da mulher, pô-la em frente dela e queimou-a com o isqueiro. A mulher tentou não sorrir, olhou noutra direcção, mas depois sorriu.

- Peter Handke, A mulher Canhota

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, outubro 19, 2006

A culpa é inteiramente de António Castro Guerra



[João Carlos Silva]

Tenha vergonha

O senhor António Castro Guerra, secretário de Estado Adjunto da Indústria e da Inovação, saiu do seu Porsche para ir à TSF de propósito para nos esclarecer: a culpa dos aumentos no preço da electricidade é inteiramente nossa, dos consumidores. Melhor, disse isto: «são os consumidores que devem este dinheiro».

Ora, não tendo uma carteira recheada nem privilégios de função pública, cá em casa todos pagam o que consomem e o que devem. Por conseguinte, ninguém deve nada a ninguém e, a dever, seria um governo medíocre ou uma empresa de distribuição de electricidade a fazê-lo, sem o meu conhecimento.

Se há ou houve incompetência na negociação de contratos ou na garantia de concorrência, devo lembrar ao senhor Castro Guerra que isso é algo que passa ao lado do «consumidor» quando este liga ou desliga a luz da sala. E nem seria preciso perceber muito de Economia para compreender que esse secretário de Estado Adjunto apenas nos tentou, de uma forma muito pouco habilidosa, atirar areia aos olhos. Eu diria mesmo que ofendeu a inteligência de todos os portugueses. A isto se chamaria, em aldeias mais eruditas, um «alarve». Como diria alguém conhecido: tenha vergonha.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, outubro 16, 2006

O chichi do guarda-redes

Já vi muitas coisas aberrantes durante a minha curta vida. Já vi Rui Correia e Pedro Espinha jogarem no FCP. Já vi Silvino. Já vi John Terry vestir a camisola de Hilário, o gordo que nasceu para o futebol nas Antas. Já vi um jogador aplicar um rotativo em plena pequena área, enquanto a bola redonda descansava perto da bandeirola de canto. Já vi Neno no Benfica. O pobre do Marco, que, pelas suas mãos, só poderia ser Tábuas, também já vi. E sempre me espantei. Ou não. Só se espanta quem se ilude. O tábuas do Bonfim não ilude. Rui Correia, o maior mascador de pastilha a seguir a Rui Costa, também não. O que verdadeiramente me pode espantar é saber que o Postiga marca golos ou saber que João Pinto, esse grande impulsionador do romantismo (como fonte de irracionalismo), é suplente num clube com a mania das grandezas, como o Sporting de Braga.

Moretto é um guarda-redes dotado de todas as faculdades que compõem um grande jogador de futebol: ambição, qualidade técnica, imbecilidade, cara (dizem) bonita, imprevisibilidade, etc. Por isso, não me espantei quando soube que o Vieira da Luz o tinha contratado ao Vitória de Setúbal. O tipo defendia bem. Também não me surpreendeu que o presidente do Benfica tenha sido obrigado a defender a sua contratação à bolachada no aeroporto. O gajo era bom, logo, se houvesse algo ou alguém que não tivesse que ficar na Luz, só poderia ser o soco do segurança do Luís, que não é doutor mas presidente de milhões. Mas Moretto era dotado de uma característica que um idiota intelectual como eu não poderia adivinhar: a fraqueza de coração. O homem começa por defender tudo e, depois, os frangos. Um, dois, três. Isto depois de fazer pirraça com jogadores como Ronaldinho, Deco ou Eto'o (lembram-se da grande penalidade defendida em Camp Nou?). Moretto começou a sofrer e, penso eu, ninguém foi a tempo de reparar porque não se viu a barba do guarda-redes crescer à desgarrada. Acredito que, se fosse o Richie dos Tenenbaums, seria mais fácil de se perceber quando alguém sofre de tristeza.

O frango é algo que também passa pela vida dos melhores. No entanto, não é minha pretensão afirmar que Moretto é dos melhores. No que se refere a guarda-redes brasileiros recentes, só Tafarel teve para mim esse estatuto. De resto, nem Dida. E Helton já não entra nas contas porque ainda não é certeza (precisaria que ele estivesse numa equipa que sofresse golos para tirar dúvidas mais rapidamente). Moretto não é um grande guarda-redes. É bom. Mas não chega. Pode bem ser tecnicamente superior a Quim, mas não é tão seguro no que diz respeito a não fazer chichi nas cuecas. Moretto não cospe no chão, não fuma. Moretto não tem cara de desgraçado, como o pobre do Jorginho. Moretto é brasileiro e não percebe que esse tipo de gente, para chegar à invencibilidade, tem que dançar sambinha na rua ou, nos casos de maior refinação, alugar um quartel de prostitutas. Cá para mim, Moretto contentou-se com os fatos da Armani e deixou-se morrer. É pena. O meu Torreense só lá tem o Humberto.

[Paulo Ferreira]

domingo, outubro 15, 2006

Sobre o destino

Depois de Bismarck, o povo alemão não teve grande sorte com os seus dirigentes.

- Norbert Elias, A Condição Humana

[Paulo Ferreira]

Sobre o nacional-socialismo

Brutalidades de toda a espécie são, no nosso mundo, uma coisa trivial. O que ainda hoje assusta é, por um lado, a edificação minuciosa, quase racional ou realista, de uma grande organização e da utilização de tecnologias científicas e, simultaneamente, a neutralização e a anulação radicais da consciência face ao sofrimento e à morte de milhões de homens, mulheres e crianças – de seres humanos que não representavam qualquer perigo para o grupo dominante, que não possuíam quaisquer armas e que foram chacinados pior do que reses num matadouro, de uma maneira abominável.

- Norbert Elias, A Condição Humana

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, outubro 12, 2006

Nélson Pereira

Numa tarde inspiradora, vários jovens participavam nas captações do Sport Clube União Torreense. Era para ver quem ficava nos iniciados e o mestre orientador era Toinha, o grande papão, o «mister». O campo era sintético e qualquer encosto ao chão queimava. Os pés aqueciam. Vestir o colete vermelho era sinónimo de «ficar». Um desses putos que queriam jogar no grande clube de Torres Vedras era eu e, naquela tarde, recebi o colete vermelho. «Médio-esquerdo», disse-me o treinador. «Só jogo com o pé direito», respondi eu para me desculpar da falta de jeito que, normalmente, demonstrava possuir. Naquela tarde, talvez por vergonha, não cheguei a levantar as chuteiras da linha de meio-campo. Não corri. Mesmo assim, no dia seguinte, lá estava eu, pronto para mais um treino de captação. E a coisa correu melhor. O colete foi-se habituando ao meu suor e parece mesmo que acabou por se fixar à pele.

As primeiras semanas do Outono eram ainda quentes e, por conseguinte, não faltavam as mangueiradas de água nos descansos da bola. O sintético queimava menos. Havia menos pressão para impressionar e, claro, mais tempo para assistir àquilo que realmente interessava: aos treinos da equipa sénior no relvado do Manuel Marques (o estádio, para quem não saiba). Entre jogadores como Cláudio Oeiras, Jaime Baldé, Mauro, Casaleiro, entre outros não menos castiços, estava Nélson Pereira, a estrela da equipa. É de salientar que alguns deste pequenos craques eliminaram, no ano de 1999, o Futebol Clube do Porto nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Nélson, esse, era diferente de todos os outros. Tinha carisma e os adeptos acarinhavam-no. Tanto assim era que o maior sonho de um puto das escolas só poderia passar pela imitação dos passos do guarda-redes. Não nos esqueçamos de que o Torreense tem uma certa tradição nesta posição. Refira-se, a título de exemplo, a existência de figuras como Humberto (que regressou há pouco a Torres Vedras) ou Nuno Carrapato.

O maior momento de Nélson no Torreense deverá ter sido, muito provavelmente, a subida à então chamada Segunda Divisão de Honra. Grandes defesas fez o homem durante aquela época. Dava, aliás, vontade de ver o Torreense jogar com aquele guardião do templo à frente das redes. Porém, na época de 97/98, Nélson foi para o Sporting, clube onde nem sempre foi bem compreendido. Se Tiago se caracteriza pela sua inépcia para a profissão que pratica, Nélson é exemplar – e certamente seria este ano o suplente de Ricardo, caso o seu contrato não tivesse caducado. Mas nem só de fracos jogadores vive o Sporting. Lembremo-nos do velhinho Peter Boleslaw Schmeichel, um dos melhores guarda-redes da história do futebol e que, inevitavelmente, viria a tapar o lugar ao craque da zona Oeste. Mais tarde, veio Ricardo e tudo se voltou a complicar para Nélson. É verdade que Nélson, ao serviço dos leões, nunca revelou a consistência que um grande jogador deve demonstrar, todavia, só andam afinadas as cordas das guitarras que muito utilizadas são. Não se podem exigir exibições homéricas a jogadores que não jogam, ou que têm a pressão dos erros do antecessor nas costas. Nélson, certo dia, fez uma assistência para um golo de Jardel (que jogava no Porto). Há um ano, Nélson viu o seu clube sair da Taça UEFA contra um fraco clube da Suécia. Paciência, todos falham. Veja-se Ricardo, o jogador que tanto joga para o frango como joga para ser dos melhores da Europa.

Ao fim de nove anos, Nélson saiu do Sporting e esteve para jogar no Huelva. Não deu. Como o SCUT é um clube que não fecha as portas aos bons, a estrela ficou a treinar-se no Manuel Marques durante uns meses. Até que, agora, o Vitória de Setúbal arranjou cabeça para agarrar no excelente jogador. É pena que Nélson tivesse adiado tanto tempo a sua carreira ao permanecer durante tantos anos num clube onde não jogava. É certo que nem só de palcos vivem os artistas e que o seu clube de menino sempre fora o SCP. Mas dava pena ver um jogador idolatrado em Torres Vedras sentado num banco frio, sem ao menos poder cuspir na borracha das luvas. De qualquer forma, Nélson nunca poderia jogar num grande clube. É que Nélson, para ser herói, tem que ser Nélson Pereira. Só o Pereira dá sentido às suas qualidades. Espero que, no Vitória, se compreenda isso. Afinal, se Acosta era matador, Sérgio Santos era implacável capitão, se João Pinto tinha uma capacidade técnica superior, Rosário compensava nas suas saídas nocturnas. Fua foi lançado em Torres. José António também.Paulo Torres quase lá pendurou as botas. Hiroshi está a despontar. Imprimam-lhe o Pereira na camisola, então.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, outubro 11, 2006

segunda-feira, outubro 09, 2006

Nota

Ao escrever «as moelas de João Carlos Silva» no Google, o primeiro link disponível é para este blog.

[João Carlos Silva]

Um indivíduo de 57 anos III

No café, assim que soube o nome do assaltante, alguém desabafa: «Eu sempre disse!».

[João Carlos Silva]

Um indivíduo de 57 anos II

Também à entrada do tribunal, o assaltante acaba por sair escoltado. Uma senhora que ia de passagem para a lota aproveita para se libertar. «Ladrãaao!!!», gritou a senhora, sem parar e sem largar os sacos para o peixe.

[João Carlos Silva]

Um indivíduo de 57 anos I

No dia seguinte ao frustrado assalto a um banco em Setúbal, a advogada de defesa do assaltante estava a «prestar declarações» à entrada do tribunal. Foi só impressão minha ou ao lado da advogada estava uma criatura de rabo-de-cavalo e de óculos escuros a rir e a lambuzar-se com pipocas?

[João Carlos Silva]

Carta de amor:

Presunto de Chaves + vinho tinto Rosa Santa

[João Carlos Silva]

Coragem em tempo de guerra

As dúvidas que eu pudesse ter sobre a crueza desse país tão sui generis que é a Rússia dissiparam-se ontem, quando soube da morte de uma jornalista. Devo dizer, do assassinato de uma jornalista que criticava abertamente o regime do mais recente czar de Moscovo. Anna Politkóvskaya (1958 - 2006) foi assassinada à porta de casa, num momento em que conseguia consideráveis avanços nas suas investigações sobre a guerra na Tchechénia e, naturalmente, sobre os meandros da política externa/interna de Vladimir Putin. Claro que não parto para as suspeitas mais primárias que qualquer um pode ter, com associações que até parecem demasiado óbvias, mas o direito à suspeita já ninguém pode negar a quem quer que seja. Mas não interessa a política propriamente dita - num país em que nunca foi permitida nem tolerada a opinião aberta e a crítica directa, Politkóvskaya era um mulher de coragem. E isso, seja em que país for e por que opinião for, é sempre insubstituível.

[João Carlos Silva]

Crítica literária

No Mil Folhas, Eduardo Pitta fez uma recensão a Febre Italiana, de Valerie Martin. Li o artigo, desta vez, com estranha curiosidade pela autora, não sei se levado pela completa ignorância que tenho desta escritora se pelo respeito que tenho pela editora portuguesa que nos traz a edição do livro em português. O problema é que, acabado de ler o artigo, apenas fiquei a saber algo sobre a linha editorial da Cavalo de Ferro, sobre a tradução (aparentemente fraquinha), sobre as notas editoriais na edição e, quando muito, sobre paralelos entre as personagens do livro e de outras obras (como uma de Jane Austen). Ao contrário do que é comum no crítico, sobre o livro em si e sobre a autora, apenas se espremem duas ou três linhas. Acabei a saber, sobre ambos, o mesmo que sabia antes de ler o artigo. É pena. A crítica propriamente dita ficará, creio eu, para um futuro artigo.

[João Carlos Silva]

domingo, outubro 08, 2006

Um país de doutores (já o imigrante revoltado...) II

Um gajo que pouco que se confunde com o Marco Borges do Big Brother ou com o seu irmão Aníbal - Durão Barroso não era um mau tipo.

Electricista- O meu amigo nem tente dizer-me uma palavra sobre esse senhor porque eu conheço-o desde os tempos em que ainda mamava leite de vaca.

[Paulo Ferreira]

Um país de doutores (já o imigrante revoltado o dizia)

Hoje ouvi um electricista de aldeia afirmar a plenos pulmões que o primeiro e-mail enviado por Nuno Severiano Teixeira foi escrito por ele, uma vez que o actual ministro da Defesa não o sabia fazer.

[Paulo Ferreira]

Literatura de chorar até o dia raiar

Nunca li Amar-te depois de amar-te de Fátima Lopes, também nunca li a obra de Cláudio Ramos, de Margarida Rebelo Pinto ou do João Catarré, mas calculo que, em pelo menos um dos trabalhos de um desses pensadores, encontraria um perfeito amastezea, um comestes, ou um tintim na cabeça da prima mais velha. E isto leva-me a pensar que a escrita não faz parte da vida de mentes menos elevadas como a minha.

[Paulo Ferreira]

Vai um mergulho à Bukowski?

Há uns meses, um amigo, que gosta de brincar com os excrementos dos filósofos, contava-me que um intelectual é ele e as suas idas à praia. E eu hoje, cansado como um touro que vai para o matadouro, admito que a razão estava do lado do meu amigo.

[Paulo Ferreira]

sábado, outubro 07, 2006

Função Pública



O homem que é uma metáfora para algo mais abrangente.

[Paulo Ferreira]

O homem com blusão de penas num dia de calor

Se o caso fosse menos triste, e eu não vivesse no meio de tudo isto, diria que aquele assalto ao banco em Setúbal, por ter falhado e por ter sido de uma incompetência tão grande, teve comparticipação do Estado.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, outubro 06, 2006

The H word

Custou, mas foi. A série House acabou por entrar na minha bem baralhada rotina. Perdi quase tudo, mas comecei a ser fã a tempo. Suportando os finais das telenovelas portuguesas e, a maior parte das vezes, combatendo o sono, lá fui fazendo «esperas» (normalmente, o método mais eficaz de conseguir algo em Portugal) a esta excelente série. Sobretudo pela grande personagem que é o Dr. House (i.e. o grande actor que é Hugh Laurie), vale a pena a noite mal dormida de quinta para sexta para apanhar um pouco desta série. Até porque não sou dos que se costumam vingar na Amazon e na FNAC.



[João Carlos Silva]

Píncaros do humor

Um homem conta uma piada no café: «Oiçam. Uma jornalista pergunta ao Lance Armstrong se não pondera voltar ao ciclismo. Sabem o que é que ele responde? Não, não há volta a dar».

[João Carlos Silva]

Mudanças

Em poucos anos, Nelly Furtado passou de passarinho a devoradora de homens. Desde a Declaração de Independência de 1776 que eu não via um tão excelente exemplo de quando e como se deve revolucionar alguma coisa.

[João Carlos Silva]

Em verdade vos digo

Vou escrevendo vou escrevendo, mas por volta de Julho já estarei no tijolo e na betoneira, garanto. Apontem aí.

[João Carlos Silva]

Poema para o dia cinco deste mês

Negaste a luz e o amor.
Edificaste um lugar de lanças, mansardas que dão para as
traseiras de tudo.
Dos jardins outrora belos nada dirás, do que abandonaste
nada esperes, ó sonhador.

Derrotado,
a teus pés jaz um povo.
Terá sido a desdita, o fado negro?
Deus mal levanta o seu chicote de fogo e eles tombam à
vista das cidades, velozes no entardecer.


- José Agostinho Baptista, O centro do universo

[João Carlos Silva]

quinta-feira, outubro 05, 2006

O minuto que antecede o sono

Um dos meus escritores preferidos jogou à bola, tirou licenciatura, mestrado e doutoramento. Fez um filho e comprou um cão. Tem vinte livros publicados. Tem trinta e poucos anos. E eu penso: puta de vida.



[Paulo Ferreira]

terça-feira, outubro 03, 2006

O estado das coisas



[João Carlos Silva]

Momento Verissimo II

Como eu nunca fumei, não tenho muita paciência com o martírio dos amigos que deixam de fumar. Antes eles eram intragáveis, por assim dizer, com aquele ar de superioridade e falso autodesprezo que todo viciado assume diante de nós, inocentes.

-Você não fuma, é? Faz muito bem. Eu já estou perdido...

Mas estava implícito na sua atitude que cada baforada era um gosto do doce prazer da perdição que eu jamais sentiria e que, por não fumar, eu era ingênuo, trouxa, contraído e provavelmente virgem.


Luis Fernando Verissimo, A Mesa Voadora

[João Carlos Silva]

Momento Verissimo I

O teste é o chopinho. O chopinho é definitivo. Quem sentaria aqui com a gente pra tomar um chopinho, quem não sentaria. Vale para todas as épocas, todos os povos, todas as categorias.
-Por exemplo?
-Revolução Francesa. Danton sentaria para tomar um chopinho.
-Robespierre, nem pensar.
-Exato.
-Lenin sentaria?
-Nunca. Já o Trotski, sim.
-E o Stalin?
-Sentaria, mas ficaria um clima ruim.


Luis Fernando Verissimo, A Mesa Voadora

[João Carlos Silva]

segunda-feira, outubro 02, 2006

Reconhecer

1. Reconhecer é dizer em silêncio o nome das imagens que não desaparecem da memória.

2. A fotografia que ficou com a marca do dedo num canto superior.

3. A lata de Coca-Cola estampada numa t-shirt que diz 1987.

4. O corpo que não se moveu.

[Paulo Ferreira]