Numa tarde inspiradora, vários jovens participavam nas captações do Sport Clube União Torreense. Era para ver quem ficava nos iniciados e o mestre orientador era Toinha, o grande papão, o «mister». O campo era sintético e qualquer encosto ao chão queimava. Os pés aqueciam. Vestir o colete vermelho era sinónimo de «ficar». Um desses putos que queriam jogar no grande clube de Torres Vedras era eu e, naquela tarde, recebi o colete vermelho. «Médio-esquerdo», disse-me o treinador. «Só jogo com o pé direito», respondi eu para me desculpar da falta de jeito que, normalmente, demonstrava possuir. Naquela tarde, talvez por vergonha, não cheguei a levantar as chuteiras da linha de meio-campo. Não corri. Mesmo assim, no dia seguinte, lá estava eu, pronto para mais um treino de captação. E a coisa correu melhor. O colete foi-se habituando ao meu suor e parece mesmo que acabou por se fixar à pele.
As primeiras semanas do Outono eram ainda quentes e, por conseguinte, não faltavam as mangueiradas de água nos descansos da bola. O sintético queimava menos. Havia menos pressão para impressionar e, claro, mais tempo para assistir àquilo que realmente interessava: aos treinos da equipa sénior no relvado do Manuel Marques (o estádio, para quem não saiba). Entre jogadores como Cláudio Oeiras, Jaime Baldé, Mauro, Casaleiro, entre outros não menos castiços, estava Nélson Pereira, a estrela da equipa. É de salientar que alguns deste pequenos craques eliminaram, no ano de 1999, o Futebol Clube do Porto nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Nélson, esse, era diferente de todos os outros. Tinha carisma e os adeptos acarinhavam-no. Tanto assim era que o maior sonho de um puto das escolas só poderia passar pela imitação dos passos do guarda-redes. Não nos esqueçamos de que o Torreense tem uma certa tradição nesta posição. Refira-se, a título de exemplo, a existência de figuras como Humberto (que regressou há pouco a Torres Vedras) ou Nuno Carrapato.
O maior momento de Nélson no Torreense deverá ter sido, muito provavelmente, a subida à então chamada Segunda Divisão de Honra. Grandes defesas fez o homem durante aquela época. Dava, aliás, vontade de ver o Torreense jogar com aquele guardião do templo à frente das redes. Porém, na época de 97/98, Nélson foi para o Sporting, clube onde nem sempre foi bem compreendido. Se Tiago se caracteriza pela sua inépcia para a profissão que pratica, Nélson é exemplar – e certamente seria este ano o suplente de Ricardo, caso o seu contrato não tivesse caducado. Mas nem só de fracos jogadores vive o Sporting. Lembremo-nos do velhinho Peter Boleslaw Schmeichel, um dos melhores guarda-redes da história do futebol e que, inevitavelmente, viria a tapar o lugar ao craque da zona Oeste. Mais tarde, veio Ricardo e tudo se voltou a complicar para Nélson. É verdade que Nélson, ao serviço dos leões, nunca revelou a consistência que um grande jogador deve demonstrar, todavia, só andam afinadas as cordas das guitarras que muito utilizadas são. Não se podem exigir exibições homéricas a jogadores que não jogam, ou que têm a pressão dos erros do antecessor nas costas. Nélson, certo dia, fez uma assistência para um golo de Jardel (que jogava no Porto). Há um ano, Nélson viu o seu clube sair da Taça UEFA contra um fraco clube da Suécia. Paciência, todos falham. Veja-se Ricardo, o jogador que tanto joga para o frango como joga para ser dos melhores da Europa.
Ao fim de nove anos, Nélson saiu do Sporting e esteve para jogar no Huelva. Não deu. Como o SCUT é um clube que não fecha as portas aos bons, a estrela ficou a treinar-se no Manuel Marques durante uns meses. Até que, agora, o Vitória de Setúbal arranjou cabeça para agarrar no excelente jogador. É pena que Nélson tivesse adiado tanto tempo a sua carreira ao permanecer durante tantos anos num clube onde não jogava. É certo que nem só de palcos vivem os artistas e que o seu clube de menino sempre fora o SCP. Mas dava pena ver um jogador idolatrado em Torres Vedras sentado num banco frio, sem ao menos poder cuspir na borracha das luvas. De qualquer forma, Nélson nunca poderia jogar num grande clube. É que Nélson, para ser herói, tem que ser Nélson Pereira. Só o Pereira dá sentido às suas qualidades. Espero que, no Vitória, se compreenda isso. Afinal, se Acosta era matador, Sérgio Santos era implacável capitão, se João Pinto tinha uma capacidade técnica superior, Rosário compensava nas suas saídas nocturnas. Fua foi lançado em Torres. José António também.Paulo Torres quase lá pendurou as botas. Hiroshi está a despontar. Imprimam-lhe o Pereira na camisola, então.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, outubro 12, 2006
quarta-feira, outubro 11, 2006
segunda-feira, outubro 09, 2006
Um indivíduo de 57 anos III
No café, assim que soube o nome do assaltante, alguém desabafa: «Eu sempre disse!».
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Um indivíduo de 57 anos II
Também à entrada do tribunal, o assaltante acaba por sair escoltado. Uma senhora que ia de passagem para a lota aproveita para se libertar. «Ladrãaao!!!», gritou a senhora, sem parar e sem largar os sacos para o peixe.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Um indivíduo de 57 anos I
No dia seguinte ao frustrado assalto a um banco em Setúbal, a advogada de defesa do assaltante estava a «prestar declarações» à entrada do tribunal. Foi só impressão minha ou ao lado da advogada estava uma criatura de rabo-de-cavalo e de óculos escuros a rir e a lambuzar-se com pipocas?
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Coragem em tempo de guerra
As dúvidas que eu pudesse ter sobre a crueza desse país tão sui generis que é a Rússia dissiparam-se ontem, quando soube da morte de uma jornalista. Devo dizer, do assassinato de uma jornalista que criticava abertamente o regime do mais recente czar de Moscovo. Anna Politkóvskaya (1958 - 2006) foi assassinada à porta de casa, num momento em que conseguia consideráveis avanços nas suas investigações sobre a guerra na Tchechénia e, naturalmente, sobre os meandros da política externa/interna de Vladimir Putin. Claro que não parto para as suspeitas mais primárias que qualquer um pode ter, com associações que até parecem demasiado óbvias, mas o direito à suspeita já ninguém pode negar a quem quer que seja. Mas não interessa a política propriamente dita - num país em que nunca foi permitida nem tolerada a opinião aberta e a crítica directa, Politkóvskaya era um mulher de coragem. E isso, seja em que país for e por que opinião for, é sempre insubstituível.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Crítica literária
No Mil Folhas, Eduardo Pitta fez uma recensão a Febre Italiana, de Valerie Martin. Li o artigo, desta vez, com estranha curiosidade pela autora, não sei se levado pela completa ignorância que tenho desta escritora se pelo respeito que tenho pela editora portuguesa que nos traz a edição do livro em português. O problema é que, acabado de ler o artigo, apenas fiquei a saber algo sobre a linha editorial da Cavalo de Ferro, sobre a tradução (aparentemente fraquinha), sobre as notas editoriais na edição e, quando muito, sobre paralelos entre as personagens do livro e de outras obras (como uma de Jane Austen). Ao contrário do que é comum no crítico, sobre o livro em si e sobre a autora, apenas se espremem duas ou três linhas. Acabei a saber, sobre ambos, o mesmo que sabia antes de ler o artigo. É pena. A crítica propriamente dita ficará, creio eu, para um futuro artigo.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
domingo, outubro 08, 2006
Um país de doutores (já o imigrante revoltado...) II
Um gajo que pouco que se confunde com o Marco Borges do Big Brother ou com o seu irmão Aníbal - Durão Barroso não era um mau tipo.
Electricista- O meu amigo nem tente dizer-me uma palavra sobre esse senhor porque eu conheço-o desde os tempos em que ainda mamava leite de vaca.
[Paulo Ferreira]
Electricista- O meu amigo nem tente dizer-me uma palavra sobre esse senhor porque eu conheço-o desde os tempos em que ainda mamava leite de vaca.
[Paulo Ferreira]
Um país de doutores (já o imigrante revoltado o dizia)
Hoje ouvi um electricista de aldeia afirmar a plenos pulmões que o primeiro e-mail enviado por Nuno Severiano Teixeira foi escrito por ele, uma vez que o actual ministro da Defesa não o sabia fazer.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Literatura de chorar até o dia raiar
Nunca li Amar-te depois de amar-te de Fátima Lopes, também nunca li a obra de Cláudio Ramos, de Margarida Rebelo Pinto ou do João Catarré, mas calculo que, em pelo menos um dos trabalhos de um desses pensadores, encontraria um perfeito amastezea, um comestes, ou um tintim na cabeça da prima mais velha. E isto leva-me a pensar que a escrita não faz parte da vida de mentes menos elevadas como a minha.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Vai um mergulho à Bukowski?
Há uns meses, um amigo, que gosta de brincar com os excrementos dos filósofos, contava-me que um intelectual é ele e as suas idas à praia. E eu hoje, cansado como um touro que vai para o matadouro, admito que a razão estava do lado do meu amigo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sábado, outubro 07, 2006
O homem com blusão de penas num dia de calor
Se o caso fosse menos triste, e eu não vivesse no meio de tudo isto, diria que aquele assalto ao banco em Setúbal, por ter falhado e por ter sido de uma incompetência tão grande, teve comparticipação do Estado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, outubro 06, 2006
The H word
Custou, mas foi. A série House acabou por entrar na minha bem baralhada rotina. Perdi quase tudo, mas comecei a ser fã a tempo. Suportando os finais das telenovelas portuguesas e, a maior parte das vezes, combatendo o sono, lá fui fazendo «esperas» (normalmente, o método mais eficaz de conseguir algo em Portugal) a esta excelente série. Sobretudo pela grande personagem que é o Dr. House (i.e. o grande actor que é Hugh Laurie), vale a pena a noite mal dormida de quinta para sexta para apanhar um pouco desta série. Até porque não sou dos que se costumam vingar na Amazon e na FNAC.

[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Píncaros do humor
Um homem conta uma piada no café: «Oiçam. Uma jornalista pergunta ao Lance Armstrong se não pondera voltar ao ciclismo. Sabem o que é que ele responde? Não, não há volta a dar».
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Mudanças
Em poucos anos, Nelly Furtado passou de passarinho a devoradora de homens. Desde a Declaração de Independência de 1776 que eu não via um tão excelente exemplo de quando e como se deve revolucionar alguma coisa.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Em verdade vos digo
Vou escrevendo vou escrevendo, mas por volta de Julho já estarei no tijolo e na betoneira, garanto. Apontem aí.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Poema para o dia cinco deste mês
Negaste a luz e o amor.
Edificaste um lugar de lanças, mansardas que dão para as
traseiras de tudo.
Dos jardins outrora belos nada dirás, do que abandonaste
nada esperes, ó sonhador.
Derrotado,
a teus pés jaz um povo.
Terá sido a desdita, o fado negro?
Deus mal levanta o seu chicote de fogo e eles tombam à
vista das cidades, velozes no entardecer.
- José Agostinho Baptista, O centro do universo
[João Carlos Silva]
Edificaste um lugar de lanças, mansardas que dão para as
traseiras de tudo.
Dos jardins outrora belos nada dirás, do que abandonaste
nada esperes, ó sonhador.
Derrotado,
a teus pés jaz um povo.
Terá sido a desdita, o fado negro?
Deus mal levanta o seu chicote de fogo e eles tombam à
vista das cidades, velozes no entardecer.
- José Agostinho Baptista, O centro do universo
[João Carlos Silva]
quinta-feira, outubro 05, 2006
O minuto que antecede o sono
Um dos meus escritores preferidos jogou à bola, tirou licenciatura, mestrado e doutoramento. Fez um filho e comprou um cão. Tem vinte livros publicados. Tem trinta e poucos anos. E eu penso: puta de vida.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
terça-feira, outubro 03, 2006
Momento Verissimo II
Como eu nunca fumei, não tenho muita paciência com o martírio dos amigos que deixam de fumar. Antes eles eram intragáveis, por assim dizer, com aquele ar de superioridade e falso autodesprezo que todo viciado assume diante de nós, inocentes.
-Você não fuma, é? Faz muito bem. Eu já estou perdido...
Mas estava implícito na sua atitude que cada baforada era um gosto do doce prazer da perdição que eu jamais sentiria e que, por não fumar, eu era ingênuo, trouxa, contraído e provavelmente virgem.
Luis Fernando Verissimo, A Mesa Voadora
[João Carlos Silva]
-Você não fuma, é? Faz muito bem. Eu já estou perdido...
Mas estava implícito na sua atitude que cada baforada era um gosto do doce prazer da perdição que eu jamais sentiria e que, por não fumar, eu era ingênuo, trouxa, contraído e provavelmente virgem.
Luis Fernando Verissimo, A Mesa Voadora
[João Carlos Silva]
Momento Verissimo I
O teste é o chopinho. O chopinho é definitivo. Quem sentaria aqui com a gente pra tomar um chopinho, quem não sentaria. Vale para todas as épocas, todos os povos, todas as categorias.
-Por exemplo?
-Revolução Francesa. Danton sentaria para tomar um chopinho.
-Robespierre, nem pensar.
-Exato.
-Lenin sentaria?
-Nunca. Já o Trotski, sim.
-E o Stalin?
-Sentaria, mas ficaria um clima ruim.
Luis Fernando Verissimo, A Mesa Voadora
[João Carlos Silva]
-Por exemplo?
-Revolução Francesa. Danton sentaria para tomar um chopinho.
-Robespierre, nem pensar.
-Exato.
-Lenin sentaria?
-Nunca. Já o Trotski, sim.
-E o Stalin?
-Sentaria, mas ficaria um clima ruim.
Luis Fernando Verissimo, A Mesa Voadora
[João Carlos Silva]
segunda-feira, outubro 02, 2006
Reconhecer
1. Reconhecer é dizer em silêncio o nome das imagens que não desaparecem da memória.
2. A fotografia que ficou com a marca do dedo num canto superior.
3. A lata de Coca-Cola estampada numa t-shirt que diz 1987.
4. O corpo que não se moveu.
[Paulo Ferreira]
2. A fotografia que ficou com a marca do dedo num canto superior.
3. A lata de Coca-Cola estampada numa t-shirt que diz 1987.
4. O corpo que não se moveu.
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, setembro 29, 2006
Rompendo o bloqueio

Confesso que tenho um fascínio enorme por Hugo Chávez. Aliás, muita gente na minha cidade e, especialmente, na minha rua também o tem. Antes do mais, gosto muito da figura física do sr. Hugo Chávez. Faz lembrar o corpo do Karl Rove no final dos faustosos banquetes das campanhas eleitorais do presidente Bush, mas com a cabeça de um defesa central da selecção de futebol colombiana. E atenção que realço a cabeça, e não apenas a expressão facial, pois todos sabemos muito bem o que vai na cabeça do Rove (que «pôs lá o outro não sei como»), e como tal decidimos compará-lo antes a um intelecto digno do melhor regime democrático sul-americano.
Mais a mais, a minha rua gosta imenso do Hugo Chávez porque ele poderia muito bem misturar-se no café do sítio e beber minis seguidas sem ser reconhecido. Sendo ele um líder internacional de grande habilidade retórica, saberia adaptar o discurso a nós, que temos menos estudos, e falar connosco do Diabo e do có-bói do Texas que facilmente arranjava um lugar na lista do plantel da sueca. E por falar em có-bóis, ficámos muito impressionados quando, encontrando uma revista Time no chão do Estádio do Bonfim, lemos com atenção (e estupefacção) uma entrevista ao Presidente Chávez onde ele respondia que gostava mais dos filmes do Danny Glover do que dos do Clint Eastwood, o que é uma coisa louvável nos dias que correm, sendo o Danny Glover de raça negra e tudo o mais.
E como ele gosta tanto de nós, pobres e minoritários, não pode escapar a uma admiração mútua, e a uma homenagem que agora, voluntariamente, quisemos fazer. Acima de tudo, queríamos Hugo Chávez como candidato à Câmara Municipal, agora que mandaram o outro embora. Era mesmo isso que nós queríamos. Ou ele o Diego Maradona, ou mesmo o Professor Neca, que, para além de ter mais estudos que os outros, deve governar mais à esquerda e até já deve ter estado em Lisboa. Mas pronto, «só cá estão os que já contámos»... Como era mesmo aquela expressão?
[João Carlos Silva]*
*em representação de uma ínfima, muito sumida, parcela da cidade de Setúbal
A ler
Merece ser lido, o artigo de Esther Mucznik no Público de hoje. Pelo ponto de vista intelectual (e eventualmente académico), e não apenas pelo religioso, Mucznik escreve um texto muito oportuno, como aliás quase sempre:
«Nos manuais escolares, a religião judaica simplesmente não existe, nem como religião, nem como presença histórica, restam apenas os preconceitos, esses sim amplamente veiculados, e uns vagos textos alusivos ao Holocausto. (...) De uma forma geral, a religião surge como marginal à história da humanidade, a não ser como causa de guerras e atrocidades, e é definitivamente relegada para as aulas de Religião e Moral.»
[João Carlos Silva]
«Nos manuais escolares, a religião judaica simplesmente não existe, nem como religião, nem como presença histórica, restam apenas os preconceitos, esses sim amplamente veiculados, e uns vagos textos alusivos ao Holocausto. (...) De uma forma geral, a religião surge como marginal à história da humanidade, a não ser como causa de guerras e atrocidades, e é definitivamente relegada para as aulas de Religião e Moral.»
[João Carlos Silva]
quarta-feira, setembro 27, 2006
Trivialidade
A quem não tem nada é proibido não amar a merda.
- Samuel Beckett, Molloy
[Paulo Ferreira]
- Samuel Beckett, Molloy
[Paulo Ferreira]
Exemplaridade
A empregada do velho alfarrabista era tão cumpridora das suas funções que só se peidava atrás do balcão, longe dos livros.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Perfume
O velho disse que aquele perfume era fogo. O neto não acreditou e queimou-se. Porém, se alguém perguntasse ao rapaz de onde provinham as cicatrizes, ele responderia que a culpa era da puta.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
domingo, setembro 24, 2006
Sabedoria antiga
Conheci ontem um homem que me demonstrava a sagacidade dos assassinos na hora do crime. Segundo ele, e segundo os gestos que fez, tanto Lee Harvey Oswald como Ali Agca e o assassino de D. Carlos cuspiram na mão (na bala), carregaram a arma e fecharam um olho para apontar. «Adeus meu amor!», cada um deles gritou, antes de puxar o gatilho. «Pum, e ficava tudo resolvido».
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
On top
«A SIC Mulher tem um programa no qual quatro mulheres discutem os homens e outro em que quatro homens discutem as mulheres. Chamam-se, respectivamente, "Elas sobre eles" e "Eles sobre elas". Dada a ubiquidade do tema "sexo", ambos os títulos podem ser lidos no sentido acrobático.»
Paulo Nogueira, Expresso 23/09/2006
[João Carlos Silva]
Paulo Nogueira, Expresso 23/09/2006
[João Carlos Silva]
sábado, setembro 23, 2006
Troféus
As fezes da menina eram tão boas e tão bonitas que a avó, ao vê-las caírem do rabinho da criança, decidiu emoldurá-las.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
United 93

É raro haver filmes que nos prendam ao écrã, física e emocionalmente, durante todo o tempo. United 93, no entanto, pertence a esse restrito lote de películas. O filme de Paul Greengrass sobre o que aconteceu no voo 93 da United Airlines e sobre o que se soube e viu do 11 de Setembro em terra (especialmente, pelos controladores do tráfego aéreo) é um que nos catapulta cinco anos para trás sem nos darmos conta disso, e que nos desperta novamente sentimentos que surgiram à pele, com todo o seu fulgor, nesse dia 11.
A forma como os tripulantes e passageiros do voo 93 são apanhados de surpresa é, de facto, arrepiante. Mas o que realmente nos deixa de rastos (imaginando o que pensariam essas pessoas) não é o desvio do avião em si, mas o desvio do avião no contexto dos ataques terroristas de Nova Iorque. Ao entrarem em contacto com famílias e alguns cidadãos anónimos (civis e autoridades), os passageiros relatam o que se passa lá dentro e ficam a conhecer o que se passou nessa manhã em Nova Iorque e Washington. Ou melhor, ficam a conhecer o que se passou nessa manhã na América: um ataque terrorista de uma magnitude sem precedentes.
A «luta» dessas pessoas (no ar e em terra) para manter o auto-controle e a forma como o conseguem e decidem enfrentar a situação - lutando, verdadeiramente - é, portanto, o principal fio da interpretação do realizador, que tentou, com todos os documentos disponíveis, retratar o que realmente se passou. Como um filme que recorda o 11 de Setembro de 2001 e evoca a memória dos passageiros do voo 93, em toda a sua coragem e recusa de perecer por um plano terrorista de que acabavam de ter conhecimento, United 93 traz-nos algumas das lágrimas que ficaram por cair com as primeiras imagens da tragédia do World Trade Center. Mas é sobretudo enquanto relato da vontade de lutar, pela defesa das suas vidas e dos que o rodeiam, dos passageiros que o filme mais nos comove, e mais nos deixa devastados nas cadeiras de cinema. Sem tiques de filme épico, mas ainda assim digno da galeria dos filmes mais respeitáveis do último ano.
[João Carlos Silva]
quinta-feira, setembro 21, 2006
De uma conversa sobre fé

«Ai Chico Zé...»
«Diz mulher!»
«Não gosto nada deste papa novo que a gente tem. É demasiado religioso.»
[João Carlos Silva]
sábado, setembro 16, 2006
Fazer escola
Conheço um homem que, durante o acto sexual, gera estrondosos hinos à masculinidade, chamando a sua mulher de puta. Seguindo a vida desse homem que conheço, confesso que aprecio aqueles que incluem, entre literaturas menores e enfadonhas, a palavrinha de quatro letras nos seus escritos. Puta. É bonito, prático e barato. «Minha grandessíssima mulher da vida!», não soaria tão bem, nem a coisa sairia como se desejaria. Mas, infelizmente, o Politicamente Correcto (leia-se Portugal Contemporâneo) ainda predomina. E, devido à predominância de uma alma colectiva, repleta de defesas da honra e de fotogenias, estamos todos obrigados, varões da consciência da preservação intelectual, obrigados a dizer mariquices. Chega-se a namorada e o rapagão exclama: «ai, minha marota/macaca/malandra/cabrita/afoita/desnaturada, agora é que me lixastes!» Não dá.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, setembro 15, 2006
Pause / Break
Engraçado passar uma vida ligado ao computador e nunca ligar a certas teclas em que se costuma carregar. Home, End, Delete, Pause, Break, Control. Enfim, um roteiro sentimental para um dia de chuva. Um indício de tempestade.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
quinta-feira, setembro 14, 2006
Antes pesado que Chefe-de-Estado

A barriga, dilema existencial que me acompanha neste último par de anos. Ora, o meu conselho e contributo para a discussão em causa é este: respeitar a protuberância, dá aquele simpático ar de quem negligencia a imagem pública.
[João Carlos Silva]
The right stuff
José Alberto Carvalho (RTP) fez, há momentos, uma piada sobre o controle anti-armas do Canadá. Não me venham agora dizer que não é um homem com a cabeça no sítio.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
«Segundo um rigoroso estudo»
A Universidade de Bona fez mais um estudo, desta vez sobre as diferenças entre lavar pratos à mão e lavar pratos à máquina. Sei que a coisa não era bem assim, mas decidi aproveitar, também eu, para escrever «Universidade de Bona.» Passei a infância a ouvir dizer da referida instituição (diz que isto, diz que aquilo), cresci com estudos vindos de Bona, engasguei-me hoje ao almoço a ouvir esse nome. Tinha direito e já fazia falta um pouco de espírito académico a esta balbúrdia.
Bona, Bona. Meus ricos carapaus.
[Paulo Ferreira]
Bona, Bona. Meus ricos carapaus.
[Paulo Ferreira]
De assinalar
«(...)é importante não olharem tanto para o vosso umbigo. É que podem perder de vista a tal que não se importa.» Um bom conselho para jovens imberbes, e pouco virados para o essencial, como eu.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Preocupação

O Bruno disse tudo: «método David Hasselhoff de encolhimento prolongado da barriga.» Gostei. Não é todos os dias que um amigo nos associa a grandes fazedores de escola. Espero é que, como em tudo o resto, este método só se torne prática comum em Portugal daqui a muitos anos.
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, setembro 13, 2006
86
Oitenta e seis quilos. Nem queria acreditar. Pesar setenta e nove, oitenta, vá lá que não vá. Agora, oitenta e seis quilos é algo que só está ao alcance de poucos. Pesei-me e pensei: acabei de regressar dos Estados Unidos, logo, é normal que o meu peso não corresponda à minha grande beleza. Mas não. Antes de viajar para a civilização, já gozava de uma considerável protuberância no lugar dos abdominais, no entanto, como todos os grandes sedutores, encolhia-a sempre que não estávamos a sós (eu e ela, minha barriga e possível futura companheira). Sempre que entrava alguém nas nossas conversas, ela, envergonhada,escondia-se. Cobarde, como quem lhe deu comida para a boca.
Realmente, a minha deslocação ao Garden State (ficou-me a alcunha do Estado) pode explicar o facto de este menino que aqui escreve possuir mais seis quilos do que possuía nos tempos em que apenas navegava pela costa africana (Portugal, mais precisamente). Um país rico oferece, para além de inteligência e educação, comida. Ora, eu, que nunca fui enjoado, fartei-me de comer (desde as «bagels» aos deliciosos aperitivos da Dunkin'Donuts, desde as marisqueiras da grande Red Lobster aos petisquinhos dos barzinhos de Nova Iorque). Tudo o que fiz nos Estados Unidos no mês de Agosto teve relação com a comida. Até a ler comia. Ia ao mar nadar e, três a quatro braçadas depois, o ataque cardíaco chamava por mim. Deste modo, e sabendo que quem vai às américas fica logo melhor da constipação intelectual, posso dizer, sem medos de ironias dos senhores doutores pátrios, que fiquei um boi. Há quem diga que até mamas ganhei. E eu observo-me ao espelho e penso: és bonito.
Um desgraçado da aldeia da minha avó costuma avisar que «bonitos são os bois.»Pois bem, admito, sou um boi. Mereço: quem engorda assim ou é boi ou é cavalo. Por via das dúvidas, escolho o título de boi, diferente do cavalo, conhecido por cheirar mal. Já me chamaram também de chibo. Mas não me vejo como cabrito. Nem pensar. Parolo é que não. Já ouviram falar de Miura, o touro? Torga sabia sobre o que escrevia. Prefiro ter farpas e cornos a cheirar mal. Pelo menos, a dignidade permanece dentro de mim.
Hoje corri. Ia morrendo. Transpirei, transpirei, transpirei. No final, oitenta e seis quilos. Levanto pesos. Leio livros, a ver se perder estupidez também dá direito a perder peso. Penso e aborreço-me. E o coração bate. O que vai ser das fãs? Dos milhares e milhares de jovens a delirarem por uma aparição pública? O que vai ser de mim ? Pára lá com isso.
Um amigo meu diz que «elas», as mulheres, pérfidas ladras de sentimentos, gostam de «nós» assim, gordos. Contudo, a minha opinião é a de que ele só me dá esse tipo de revelações por ser magro, muito magro, e, claro, por não ter nada que se aproxime do conceito de namorada. É um bom rapaz, no entanto, o meu amigo.
Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues,Moacyr Scliar, entre outros brasileiros sábios e razoáveis (que contradição, falar-se em brasileiros e sábios), põem a mulher em segundo plano. Ela é a mulher que leva na tromba porque não faz as coisas (dos homens) a tempo e horas, ela é a mulher supérflua que pinta as unhas e pensa imediatamente em orgasmos e em músculos. Ela é a mulher, que por ser mulher, nunca será grande coisa. Pode ser que, no meio de várias verdades, estes autores levem a coisa na brincadeira e que atribuam real e merecido valor à mulher. Fica, no entanto, a mensagem: se perdes a barriga por causa das mulheres, és traído e, por conseguinte, tornas-te num eterno marido, num corno. Esta é uma das mensagens do anjo pornográfico.
Gordo ou magro, não morrerei, para já. Continuarei a seguir os passos dos outros, a tentar sobreviver num país onde a nutrição é feita a sopro de ar e a «sandes» (raio de palavra). O pior são as saudades da América. América.
[Paulo Ferreira]
Realmente, a minha deslocação ao Garden State (ficou-me a alcunha do Estado) pode explicar o facto de este menino que aqui escreve possuir mais seis quilos do que possuía nos tempos em que apenas navegava pela costa africana (Portugal, mais precisamente). Um país rico oferece, para além de inteligência e educação, comida. Ora, eu, que nunca fui enjoado, fartei-me de comer (desde as «bagels» aos deliciosos aperitivos da Dunkin'Donuts, desde as marisqueiras da grande Red Lobster aos petisquinhos dos barzinhos de Nova Iorque). Tudo o que fiz nos Estados Unidos no mês de Agosto teve relação com a comida. Até a ler comia. Ia ao mar nadar e, três a quatro braçadas depois, o ataque cardíaco chamava por mim. Deste modo, e sabendo que quem vai às américas fica logo melhor da constipação intelectual, posso dizer, sem medos de ironias dos senhores doutores pátrios, que fiquei um boi. Há quem diga que até mamas ganhei. E eu observo-me ao espelho e penso: és bonito.
Um desgraçado da aldeia da minha avó costuma avisar que «bonitos são os bois.»Pois bem, admito, sou um boi. Mereço: quem engorda assim ou é boi ou é cavalo. Por via das dúvidas, escolho o título de boi, diferente do cavalo, conhecido por cheirar mal. Já me chamaram também de chibo. Mas não me vejo como cabrito. Nem pensar. Parolo é que não. Já ouviram falar de Miura, o touro? Torga sabia sobre o que escrevia. Prefiro ter farpas e cornos a cheirar mal. Pelo menos, a dignidade permanece dentro de mim.
Hoje corri. Ia morrendo. Transpirei, transpirei, transpirei. No final, oitenta e seis quilos. Levanto pesos. Leio livros, a ver se perder estupidez também dá direito a perder peso. Penso e aborreço-me. E o coração bate. O que vai ser das fãs? Dos milhares e milhares de jovens a delirarem por uma aparição pública? O que vai ser de mim ? Pára lá com isso.
Um amigo meu diz que «elas», as mulheres, pérfidas ladras de sentimentos, gostam de «nós» assim, gordos. Contudo, a minha opinião é a de que ele só me dá esse tipo de revelações por ser magro, muito magro, e, claro, por não ter nada que se aproxime do conceito de namorada. É um bom rapaz, no entanto, o meu amigo.
Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues,Moacyr Scliar, entre outros brasileiros sábios e razoáveis (que contradição, falar-se em brasileiros e sábios), põem a mulher em segundo plano. Ela é a mulher que leva na tromba porque não faz as coisas (dos homens) a tempo e horas, ela é a mulher supérflua que pinta as unhas e pensa imediatamente em orgasmos e em músculos. Ela é a mulher, que por ser mulher, nunca será grande coisa. Pode ser que, no meio de várias verdades, estes autores levem a coisa na brincadeira e que atribuam real e merecido valor à mulher. Fica, no entanto, a mensagem: se perdes a barriga por causa das mulheres, és traído e, por conseguinte, tornas-te num eterno marido, num corno. Esta é uma das mensagens do anjo pornográfico.
Gordo ou magro, não morrerei, para já. Continuarei a seguir os passos dos outros, a tentar sobreviver num país onde a nutrição é feita a sopro de ar e a «sandes» (raio de palavra). O pior são as saudades da América. América.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, setembro 12, 2006
A mão que leva, traz
Todas as noites, pela mesma hora, o louco camponês pegava na sua enxada e ia para a rua gritar. Como ninguém o ouvia a não ser o céu, que lhe devolvia a voz através do eco, o componês assustava-se e ainda mais gritava. Um dia, tudo acabou numa horrível mas bela tragédia: o camponês, farto de repercussões demoníacas e de pensamentos devastadores,lançou a sua enxada pelos ventos e ela foi-lhe devolvida ao pescoço.
[[Paulo Ferreira]
[[Paulo Ferreira]
Fantasmas III
Se tudo o que vive tem de morrer, então, a própria obra de Shakespeare é um paradoxo do tamanho da minha ignorância.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fantasmas II
A rainha, mãe de Hamlet, dizia que tudo o que vive tem de morrer. Concordo. Mas aparecerá sempre algo que me fará discordar. E assim se dão os paradoxos.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
Devoção
Como alguns senhores doutores de uma universidade qualquer fizeram questão de tornar o dia 11 de Setembro difícil para a minha pessoa, só hoje posso assinalar a minha devoção:

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
domingo, setembro 10, 2006
Fantasmas
All that lives must die,
Passing through nature to eternity.
- William Shakespeare, The Tragical History of Hamlet Prince of Denmark
[Paulo Ferreira]
Passing through nature to eternity.
- William Shakespeare, The Tragical History of Hamlet Prince of Denmark
[Paulo Ferreira]
sábado, setembro 09, 2006
Onomástica brasileira
Há momentos, no Rio de Janeiro, uma fiel seguidora das notícias de Portugal deu à luz um belo mulatinho de 4 quilos. Após ter lido o jornal, decidiu-se por um nome para o filho: chamar-lhe-á Caso Mateus da Encarnação.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
A grande fuga dos bichos
Encontrar um bom livro no baú de um familiar antigo e lê-lo, é, sem dúvida alguma, uma tarefa compensadora. O cheiro a guardado, aliado ao pó que desliza pelos dedos aventureiros, o amarelo das páginas, as letras impressas ao modo do antigamente, tudo isso faz com que o acto de ler seja motivo de regozijo. Bichos, livro de contos da autoria de Miguel Torga, escritor que, por diversos motivos, me era familiar apenas pelo nome, foi uma das relíquias que encontrei no meio do pó que me coube de herança.
Um senhor que muito prezo já me havia avisado: «nunca li Torga, mas, pelo que sei, trata-se de um grande prosador.» Nem mais. O senhor André, sempre embebido pelos sonhos que nunca se chegaram a cumprir, não costuma falhar nestas coisas. É um céptico. Além disso, já viveu e conheceu muito. «Tivesse eu a sapiência desse senhor e não leria nem mais um livro», dir-me-ia o Zé Carlos. Por muito idealista que seja, vejo-me, por vezes, obrigado a concordar com o imberbe. A literatura, com o passar dos anos, passa a ser pensada em vez de lida, recordada em vez de memorizada, dita em vez de escrita. Tudo tem o seu tempo, principalmente a época da fanfarronice.
O óbvio: Bichos é um livro onde se conta a história de vários animais que, por serem inferiores ao Homem, ganham o nome de bichos. Nero, homónimo do imperador, nunca chega a ultrapassar a sua condição de cachorro. Mago, o gato, não consegue perceber o real alcance do seu mágico nome. Tenório, o galo, muito «Cá-que-rá-cá» faz mas não atinge o poder de macho. O medo controla-o. Enfim, todas as personagens animalescas desta pequena obra são sempre remetidas para a sua condição inferior. São maltratadas por um homem ainda menos racional que os bichos que aterroriza. Miura, o touro, é posto no meio de uma tourada e nunca percebe o que se passa à sua volta. Só sabe que tem de perseguir o manequim de lantejoulas, o toureiro. No entanto, a dor supera-o sempre. Vejamos: «Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se. Num ímpeto.» Uma engraçada estória de alienação mental está ligada à personagem do Senhor Nicolau, uma das únicas figuras humanas a serem figura central de uma narrativa: «As nações desabavam, sucediam-se guerras, a própria aldeia oscilava nos gonzos. Mas o senhor Nicolau alheio às paixões humanas, continuava a povoar os dias de libélulas e borboletas.»
Apesar de tudo, Bichos, no meio do seu belo discurso rural e anedótico, conhecido para quem conhece o modo de funcionamento da aldeia, consegue formar, na sua essência, um hino à liberdade. A espiritualidade está quase sempre presente nas mentes destes seres humanizados. Vicente, o corvo, não se resignando por estar fechado há quarenta dias nas arca de Noé, não se sentindo culpado pelas fornicações humanas, foge. É perseguido e castigado. Mas nunca desiste de ser livre, de se livrar da condenação terrena. Deus bem o quer castigar por ter fugido a Noé, mas Vicente não aceita a derrota. «Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.» Se este livro não tivesse sido escrito em 1940, diria que Papillon e Vicente eram irmãos. Mas Torga, o criador deste último, nunca escreveria «bastards».
[Paulo Ferreira]
Um senhor que muito prezo já me havia avisado: «nunca li Torga, mas, pelo que sei, trata-se de um grande prosador.» Nem mais. O senhor André, sempre embebido pelos sonhos que nunca se chegaram a cumprir, não costuma falhar nestas coisas. É um céptico. Além disso, já viveu e conheceu muito. «Tivesse eu a sapiência desse senhor e não leria nem mais um livro», dir-me-ia o Zé Carlos. Por muito idealista que seja, vejo-me, por vezes, obrigado a concordar com o imberbe. A literatura, com o passar dos anos, passa a ser pensada em vez de lida, recordada em vez de memorizada, dita em vez de escrita. Tudo tem o seu tempo, principalmente a época da fanfarronice.
O óbvio: Bichos é um livro onde se conta a história de vários animais que, por serem inferiores ao Homem, ganham o nome de bichos. Nero, homónimo do imperador, nunca chega a ultrapassar a sua condição de cachorro. Mago, o gato, não consegue perceber o real alcance do seu mágico nome. Tenório, o galo, muito «Cá-que-rá-cá» faz mas não atinge o poder de macho. O medo controla-o. Enfim, todas as personagens animalescas desta pequena obra são sempre remetidas para a sua condição inferior. São maltratadas por um homem ainda menos racional que os bichos que aterroriza. Miura, o touro, é posto no meio de uma tourada e nunca percebe o que se passa à sua volta. Só sabe que tem de perseguir o manequim de lantejoulas, o toureiro. No entanto, a dor supera-o sempre. Vejamos: «Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se. Num ímpeto.» Uma engraçada estória de alienação mental está ligada à personagem do Senhor Nicolau, uma das únicas figuras humanas a serem figura central de uma narrativa: «As nações desabavam, sucediam-se guerras, a própria aldeia oscilava nos gonzos. Mas o senhor Nicolau alheio às paixões humanas, continuava a povoar os dias de libélulas e borboletas.»
Apesar de tudo, Bichos, no meio do seu belo discurso rural e anedótico, conhecido para quem conhece o modo de funcionamento da aldeia, consegue formar, na sua essência, um hino à liberdade. A espiritualidade está quase sempre presente nas mentes destes seres humanizados. Vicente, o corvo, não se resignando por estar fechado há quarenta dias nas arca de Noé, não se sentindo culpado pelas fornicações humanas, foge. É perseguido e castigado. Mas nunca desiste de ser livre, de se livrar da condenação terrena. Deus bem o quer castigar por ter fugido a Noé, mas Vicente não aceita a derrota. «Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.» Se este livro não tivesse sido escrito em 1940, diria que Papillon e Vicente eram irmãos. Mas Torga, o criador deste último, nunca escreveria «bastards».
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, setembro 08, 2006
Finais
O Independente (1988-2006) teve a sua morte oficial na semana passada. Para uma pessoa de vinte e poucos anos como eu, pouco interessa que um jornal enfadonho e desnecessário chegue ao seu fim. Ora,o referido semanário era um tédio. Despender o meu (escasso) dinheiro europeu em algumas páginas supérfluas, sempre me pareceu mal. Por conseguinte, poucas vezes comprei o rival do espesso Expresso. Refira-se, porém, que O Independente nem sempre foi o sofrimento que se viu. Houve Vasco Pulido Valente, Paulo Portas, Miguel Esteves Cardoso. Houve a colecção Horas Extraordinárias. Houve Pedro Mexia (pela simpatia), Pedro Lomba. Houve Rui Ramos, Vasco Rato e Luciano Amaral. Enfim, houve muita gente que, à custa do seu esforço e talento, conseguiu fazer d’ O Independente um jornal que dava prazer (intelectual) ao leitor. Mas esse jornal acabou. Acabou. Diz-se que tudo tem a sua morte num dado ano. O Independente não morreu em 2006. Nem em 2005. Talvez em 2004 ou 2003. Talvez.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, setembro 04, 2006
Senhor doutor
Estive um mês no Garden State e vim às pressas para ver e ouvir o sr. dr. António Fiúza falar com os srs. da televisão sobre o sr. dr. Macieirinha. Mas logo perdi a fiúza toda.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
A dama do pé de cabra
O historiador britânico Paul Johnson, em A History of the American People (1997), refere que Franklin Delano Roosevelt era um homem deveras necessitado de carinho maternal. Infelizmente, refere ainda Johnson, Eleanor Roosevelt não era mulher para dar ao presidente esse dito carinho, uma vez que a sua libido estava virada para outros homens e para outras mulheres, menos ocupadas do que o seu marido. Era, portanto, bissexual, a companheira de F.D.Roosevelt. Mas isto não interessa nada para a história. O que interessa - e preocupa - é a falta de carinho do presidente. E a benevolência para com Stalin.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
domingo, setembro 03, 2006
O meu amigo Eça
Quem já viu o «programa sobre livros» (como disse?) de Bárbara Guimarães na SIC Notícias já terá notado, certamente, que aquele é um dos locais onde mais frequentemente se pode encontrar o irritante hábito de tratar os livros por tu. Talvez por isso o programa seja saturante e monótono, por ser um fundo poço de frases impessoais como: sempre vivi com os livros; escrever é uma necessidade como respirar; gosto muito, desde pequenino. Para além disso, e o mais mesquinho de tudo, é tratar os autores (clássicos ou contemporâneos) como se fossem o vizinho do 4º esquerdo. «A» Sophia, «o» Pessoa, «o» Camilo e «o» Eça.
É, precisamente, por ter visto umas quantas vezes o programa de Bárbara Guimarães (que, apesar de ler romances tristes com aquele sorriso sempre aberto e de ter casado com o dr. Carrilho, também merece ser vista) que eu já sonhei que era convidado para esse programa para falar de livros. A conversa seria qualquer coisa como isto:
-Boa noite, João.
-Boa tarde, Bárbara.
-Sei que tem um profundo amor aos livros.
-Uma paixoneta, vá lá.
-É por isso que refere os livros como a sua maior fonte de aprendizagem na vida?
-Não.
-Respirar, viver, dormir, sentir. A seguir vem o acto de ler?
-Vem antes.
-É portanto o momento mais importante dos seus dias...
-Não. Escrevo quando não tenho mais nada que fazer ou nada para ler.
-Escolheu um livro de referência. «Servidão Humana».
-De Somerset Maugham.
-É um livro com um olhar muito frio sobre a vida de um homem.
-Não, é mais um livro sobre um corno crónico.
-Uma sua outra referência é, disse há dias, um livro de Jack London.
-Exacto.
-É um escritor problemático. Um homem perturbado pelas questões mais básicas da humanidade.
-É um bêbado.
-Realçaria um episódio elementar para a compreensão desse autor e da sua obra?
-Sim, um em que o Jack London apanha uma cadela e se atira à água para se suicidar. Com o impacto na água, desperta e arrepende-se.
-Ah ah ah, hm hm hmm. Um episódio hilariante, sem dúvida. Jack London é, portanto, um ícone.
-Não, é um bêbado.
-Na poesia portuguesa destacou Vasco Graça Moura como um poeta subvalorizado.
-Sim, vendo-o na vida política esquecem o excelente poeta.
-Traz à memória a ideia do «fingidor», de Pessoa.
-Não traz não.
-Gosta de Pessoa?
-Muito.
-Defina-o.
-É um bêbado.
-E da poesia da Sophia, não gosta?
-A Sofia nunca me disse que escrevia.
-Sophia de Mello Breyner?
-Ah sim. Pensei que era outra Sofia, uma assim meio... Não. A poetisa respeito imenso.
-Boa noite, João.
-Até amanhã.
[João Carlos Silva]
É, precisamente, por ter visto umas quantas vezes o programa de Bárbara Guimarães (que, apesar de ler romances tristes com aquele sorriso sempre aberto e de ter casado com o dr. Carrilho, também merece ser vista) que eu já sonhei que era convidado para esse programa para falar de livros. A conversa seria qualquer coisa como isto:
-Boa noite, João.
-Boa tarde, Bárbara.
-Sei que tem um profundo amor aos livros.
-Uma paixoneta, vá lá.
-É por isso que refere os livros como a sua maior fonte de aprendizagem na vida?
-Não.
-Respirar, viver, dormir, sentir. A seguir vem o acto de ler?
-Vem antes.
-É portanto o momento mais importante dos seus dias...
-Não. Escrevo quando não tenho mais nada que fazer ou nada para ler.
-Escolheu um livro de referência. «Servidão Humana».
-De Somerset Maugham.
-É um livro com um olhar muito frio sobre a vida de um homem.
-Não, é mais um livro sobre um corno crónico.
-Uma sua outra referência é, disse há dias, um livro de Jack London.
-Exacto.
-É um escritor problemático. Um homem perturbado pelas questões mais básicas da humanidade.
-É um bêbado.
-Realçaria um episódio elementar para a compreensão desse autor e da sua obra?
-Sim, um em que o Jack London apanha uma cadela e se atira à água para se suicidar. Com o impacto na água, desperta e arrepende-se.
-Ah ah ah, hm hm hmm. Um episódio hilariante, sem dúvida. Jack London é, portanto, um ícone.
-Não, é um bêbado.
-Na poesia portuguesa destacou Vasco Graça Moura como um poeta subvalorizado.
-Sim, vendo-o na vida política esquecem o excelente poeta.
-Traz à memória a ideia do «fingidor», de Pessoa.
-Não traz não.
-Gosta de Pessoa?
-Muito.
-Defina-o.
-É um bêbado.
-E da poesia da Sophia, não gosta?
-A Sofia nunca me disse que escrevia.
-Sophia de Mello Breyner?
-Ah sim. Pensei que era outra Sofia, uma assim meio... Não. A poetisa respeito imenso.
-Boa noite, João.
-Até amanhã.
[João Carlos Silva]
sexta-feira, setembro 01, 2006
terça-feira, agosto 29, 2006
sábado, agosto 26, 2006
sexta-feira, agosto 25, 2006
Limpezas autárquicas

Há alguns dias, o PCP (ou, vá lá, a CDU) resolveu enxotar o Presidente da Câmara de Setúbal Carlos Sousa. A desculpa: um imbróglio envolvendo as reformas de trabalhadores ou elementos da Câmara. É claro que, como bom camarada, o autarca resolveu sair de palco. Alegando sanidade e ética (que, para ser franco, reconheço no senhor), Carlos Sousa aproveitou para se livrar de maiores complicações pessoais e judiciais que lhe seriam, sem dúvida, criadas pelo partido mais totalitário do distrito.
Para trás ficam, por outro lado, a obra feita e o método que Carlos Sousa alegadamente preferia seguir para agir: trabalhar na Câmara. Método esse que nunca agradou muito à «rapaziada» que já cá está há tanto tempo (com idade e juízo de sobra) mas ainda não assimilou o conceito de glasnost que o suposto «traidor» Gorbachev pôs em prática há décadas.
Afinal, o centralismo democrático existe mesmo - depois de ser eleito, o partido pode fazer toda e qualquer coisa. Até troçar da escolha dos eleitores.
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 19, 2006
Três elementos para um bom sábado
1- a compra de um saco cheio de livros antigos.
2- um jogo do Vitória para matar saudades.
3- a capa da Notícias Sábado de hoje.
[João Carlos Silva]
2- um jogo do Vitória para matar saudades.
3- a capa da Notícias Sábado de hoje.
[João Carlos Silva]
Dona Bárbara
«Há coisas que irritam. Gente que fura as filas, que corta as unhas em público, que pára o carro no meio da estrada. Mas nada é tão irritante quanto Bárbara Guimarães a declamar Eugénio de Andrade na promoção do seu programa da SIC Notícias, Páginas Soltas. Aqueles 20 segundos de televisão são a maior piroseira cultural alguma vez vista em Portugal, pelo menos desde os tempos em que Manuel Alegre gravava discos de poesia com voz épica e cavernosa.»
João Miguel Tavares, Diário de Notícias 19/08/06
[João Carlos Silva]
João Miguel Tavares, Diário de Notícias 19/08/06
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 12, 2006
Os «jantadores» tardios
Como «jantador» imprevisível, partilho a angústia do JCS: «Em Carnide, em pleno Agosto, não se consegue jantar às dez e meia da noite. Os restaurantes, imagine-se, já fecharam as suas cozinhas». Isto sim, é uma boa causa para uma manifestação em S. Bento. Vale a pena ler.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Ovo a galope
Não há nada no mundo mais saudável e pitoresco do que estar em Setúbal e pedir, numa tasca, um bife com ovo a cavalo. Melhor do que isso, só mesmo saber fazer um com mestria.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
O velho das montanhas

Sobre o que se tem escrito sobre Fidel Castro e o seu debilitado estado de saúde, sempre achei mais piada ao que disse a sua própria filha: «Tenho pena do meu pai, mas tenho muito mais pena do povo cubano».
[João Carlos Silva]
Os artigos de Rui Tavares
Certos colunistas dão-nos mesmo uma grande prazer de odiar. É claro que isso depende do lado em que nos encontramos, da trincheira que escolhemos. Mesmo não tendo escolhido trincheira para me aninhar fardado, com suma ideológica debaixo do braço, juntamente com alguns idealistas, tenho alguma ideia de onde me encontro politicamente. Sobretudo, sei onde me encontro por oposição aos outros.
Sendo assim, também tenho alguns colunistas de estimação. E também, especificamente, alguns «ódios de estimação». Ainda que eu próprio não seja ninguém, devo reconhecer a minha grande incapacidade para absorver a matéria que é, por exemplo, explanada nos artigos de Ana Sá Lopes. De tanta rejeição, não consigo evitar passar os olhos por tudo o que a colunista escreve. Outro exemplo é Miguel Sousa Tavares... pelo menos enquanto tinha a coragem de o ler.
Mas um caso peculiar é o de Rui Tavares. O historiador, que já esteve em distintos blogs para as bandas do Bloco de Esquerda, passou a escrever para o jornal Público há algum tempo, e veio dar uma nova cor às leituras de sábado. Começou bem, com temas menos comuns, menos batidos, e com um estilo diferente, não necessariamente «irreverente» (como tanto está na moda e como tanta gente gosta). Só é pena que Tavares, ultimamente, tenha desabado para uma certa repetição semanal das previsíveis posições que poderá tomar (e efectivamente toma) um militante ou ardente simpatizante do BE. Não falo da disposição libertária (que até é saudável) nem das preocupações sociais. Falo da atitude perante Estados Unidos, Reino Unido, Médio Oriente, Cavaco Silva e uns tantos que me ficaram na retina mas estão no esquecimento.
A sua particularidade, no entanto, vem da inteligência com que escreve. Vem, sobretudo da inteligência no humor com que escreve. Sem ser irritantemente irónico como o típico colunista contestatário nem profundamente assertivo ou pretensamente académico como um jovem colunista em ascensão, Rui Tavares consegue fazer-me obrigar a ler os seus artigos com toda a atenção todas as semanas. Até mesmo para desancar em Israel e desenrolar tudo aquilo que já se esperava que achasse sobre o conflito no Líbano, teve o cuidado de tentar elogiar «o povo de Israel» (embora eu ache que tal recurso seja uma pobre desculpa para debitar, em seguida, a tese geral das «potências agressoras»).
Pelo estranho vício de o ler, considero, por isso, Rui Tavares uma leitura obrigatória nos jornais da semana. Se há muita gente que marchou com a UDP nos bons velhos anos 70 mas hoje gosta sempre de visitar a coluna de Vasco Pulido Valente, eu pertenço a um outro género: os que, quando cansados da ladaínha extremamente desapaixonada do lado mais conservador, não hesita em ler Rui Tavares. Provavelmente, um futuro VPV. Na outra banda, é claro.
[João Carlos Silva]
Sendo assim, também tenho alguns colunistas de estimação. E também, especificamente, alguns «ódios de estimação». Ainda que eu próprio não seja ninguém, devo reconhecer a minha grande incapacidade para absorver a matéria que é, por exemplo, explanada nos artigos de Ana Sá Lopes. De tanta rejeição, não consigo evitar passar os olhos por tudo o que a colunista escreve. Outro exemplo é Miguel Sousa Tavares... pelo menos enquanto tinha a coragem de o ler.
Mas um caso peculiar é o de Rui Tavares. O historiador, que já esteve em distintos blogs para as bandas do Bloco de Esquerda, passou a escrever para o jornal Público há algum tempo, e veio dar uma nova cor às leituras de sábado. Começou bem, com temas menos comuns, menos batidos, e com um estilo diferente, não necessariamente «irreverente» (como tanto está na moda e como tanta gente gosta). Só é pena que Tavares, ultimamente, tenha desabado para uma certa repetição semanal das previsíveis posições que poderá tomar (e efectivamente toma) um militante ou ardente simpatizante do BE. Não falo da disposição libertária (que até é saudável) nem das preocupações sociais. Falo da atitude perante Estados Unidos, Reino Unido, Médio Oriente, Cavaco Silva e uns tantos que me ficaram na retina mas estão no esquecimento.
A sua particularidade, no entanto, vem da inteligência com que escreve. Vem, sobretudo da inteligência no humor com que escreve. Sem ser irritantemente irónico como o típico colunista contestatário nem profundamente assertivo ou pretensamente académico como um jovem colunista em ascensão, Rui Tavares consegue fazer-me obrigar a ler os seus artigos com toda a atenção todas as semanas. Até mesmo para desancar em Israel e desenrolar tudo aquilo que já se esperava que achasse sobre o conflito no Líbano, teve o cuidado de tentar elogiar «o povo de Israel» (embora eu ache que tal recurso seja uma pobre desculpa para debitar, em seguida, a tese geral das «potências agressoras»).
Pelo estranho vício de o ler, considero, por isso, Rui Tavares uma leitura obrigatória nos jornais da semana. Se há muita gente que marchou com a UDP nos bons velhos anos 70 mas hoje gosta sempre de visitar a coluna de Vasco Pulido Valente, eu pertenço a um outro género: os que, quando cansados da ladaínha extremamente desapaixonada do lado mais conservador, não hesita em ler Rui Tavares. Provavelmente, um futuro VPV. Na outra banda, é claro.
[João Carlos Silva]
Pequenos golpes
Mesmo durante uma curta ausência, fui-me apercebendo do facto de José Rodrigues dos Santos ser, talvez, o jornalista mais isento/honesto da nossa televisão nas reportagens sobre o conflito em Israel e no Líbano. O meu caro Bruno Alves chamara a atenção, há umas semanas, para o mesmo: «Rodrigues dos Santos (...) mostra também o que se passa nos locais atingidos por Israel. Mostra como são controlados pelo Hezbollah, como o Hezbollah tudo domina, e em todos manda. Pena que, mal acabem as reportagens de Rodrigues dos Santos, a RTP regresse à ladaínha dos "alvos exclusivamente civis", desmentida nas reportagens que ela própria emite, e que ela própria ignora».
Como tal, e como prémio para o sempre bem informado telespectador português, o jornalista já lá não está.
[João Carlos Silva]
Como tal, e como prémio para o sempre bem informado telespectador português, o jornalista já lá não está.
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 05, 2006
Jogadores milionários
«Meu caro, o futebol dos heróis morreu. O futebol amor-da-pátria não existe mais. O craque quer é levar vida de milionário, crisálida que nasceu da sua miséria anterior. E mira-se orgulhoso no exemplo ao mesmo tempo maravilhoso e cheio de ciladas do caso racial e humano de Pelé. Antigamente os nossos cobras não tinham confiança em si próprios. Agora têm até de mais. E o Brasil não encontra onze que aceitem a ideia de que futebol tem de ser de novo sacrifício. Sabe? Tudo se chateia, porque, ricos, não têm mais a juventude sublime dos 18 anos...»
- Chianca de Garcia, Cartas do Brasil
[João Carlos Silva]
- Chianca de Garcia, Cartas do Brasil
[João Carlos Silva]
sexta-feira, agosto 04, 2006
O peso da desonestidade

Há dias vi com atenção esse grande clássico do cinema burlesco que é o Bowling for Columbine, de Michael Moore. A peça já era sobejamente conhecida. O realizador também. A insolência do homem é que merece sempre uma segunda e uma terceira revisões, no mínimo. Tal como um livro genial, o filme de Michael Moore merece ser visto inúmeras vezes. Verdade. Porquê? Porque Moore, do alto da sua ignorância, espalha várias pepitas da insignificância do seu carácter por tudo o que faz. E essas pequenas pérolas não são encontradas logo à primeira.
Facto: todos os jovens de Columbine, e de outros crimes, foram realmente atingidos em cheio pela violência dos acontecimentos. Facto: há, de facto, uma grande fatia de americanos que deseja ardentemente a total liberdade de possuir armas de determinado calibre, o que resulta na multiplicação das «armas de casa». Mas também há outros aspectos a apontar: primeiro, as pessoas envolvidas (a maioria involuntariamente, calculo) na montagem e realização do filme nunca tiveram noção do que Moore queria fazer com aquilo, ou onde iria com a sua brincadeira; segundo, a desonestidade de Moore, especialmente na montagem das sequências de filme, não tem limites; terceiro, a referida criatura usa e abusa, de forma desumana, dos dramas pessoais de cada um dos que estiveram no liceu de Columbine no fatídico dia do massacre ou em outras escolas com outros acontecimentos semelhantes.
Facto final: Moore tenta fazer um documentário de um filme onde manipula tudo e todos, num exercício de pobre retórica que enerva o ser mais pacífico, chegando ao ponto de filmar (com tal macabra intenção) Charlton Heston, no alto da sua já avançada idade, com já visíveis dificuldade em andar. A personalidade de Moore é portanto uma digna da mais carregada desconfiança, um ser complicado que sofreu graves perturbações morais - provavelmente como efeito secundário de visitas em excesso ao posto McDonald's local. Confesso que não consegui compreender onde queria Moore chegar com Bowling for Columbine. Mas não acho que tal seja grave, ou um defeito apenas meu. Aliás, até hoje só Clint Eastwood conseguiu compreender bem a criatura: «Se Michael Moore bater à minha porta, disparo contra ele».
[João Carlos Silva]
quinta-feira, agosto 03, 2006
Uma história da violência
A propósito das possíveis discorrências que nascem do assassinato de Gisberta, haverá talvez muito a dizer, a reflectir. O ponto final dessa discussão é que, parece-me, é um que nunca terá lugar para aparecer. Tal como a primeira linha, a primeira voz, dessa discussão, que se perde no passado. A discussão: deverão as «crianças» ser julgadas como adultos? Sou um dos indecisos crónicos que não tem um sólido tutano moral para responder prontamente.
As crianças não são os «anjos sem asas» de que toda a gente fala. Para além da falta de asas, têm uma notável falta de halo sobre as suas pequenas mas capazes cabeças. A sua excepcionalidade vem da vulnerabilidade física que têm. Por outro lado, a sua faculdade mais assustadora vem daquilo a que nós, bárbaros urbanos ultracivilizados, já não estamos habituados: a inexperiência. A mente como tábua rasa. Este aspecto assusta-nos, pondo-nos perante as mais macabras e violentas situações. Mas, crianças ou não, não deixam de ser humanos - em crescimento.
A verdadeira questão não está na idade a partir da qual deverão ou não ser julgados, assim como na questão do aborto não se deve tomar cinicamente como importante a partir de quantos meses um feto é ou não um feto, ou, como se diz, a partir de quantos meses é vida. A verdadeira questão é uma que está oculta, uma questão ética que nunca poderá ser resolvida. Assim como nunca um adulto cumpridor da lei conseguirá compreender o porquê das crianças, tal como os adultos, se insultarem mutuamente, e em especial ao «menino gordo» e ao «menino maricas». Essa crueldade das crianças é uma crueldade que, por muito que se analise ou se queira compreender, não poderá ser eliminada.
Devem as crianças ser educadas no sentido contrário desses comportamentos? Sim, seria um idiota se negasse que tal didáctica poderá ter efeitos positivos. Deverão as crianças ser protegidas para não tomarem certos comportamentos violentos como normais? Sim, se me explicarem como tal coisa pode ser feita sem afastar as crianças do mundo em que vivem. Mas se me perguntarem se devem ser castigadas, responsabilizadas pelos seus actos (como o que está em causa no «caso» das Oficinas de S. José no Porto), a resposta terá de ser afirmativa. Não positiva, mas afirmativa: não fazer dos jovens «exemplos», mas castigá-los pelo que fizeram. À falta dos instrumentos mágicos que façam do ser humano um ser pacífico, sociável, a lei - igual para todos mas responsável e responsabilizadora (tendo em conta a condição mental ou a idade do arguido) - ainda é o melhor que temos, o mais próximo que temos de uma sociabilidade mais segura.
[João Carlos Silva]
As crianças não são os «anjos sem asas» de que toda a gente fala. Para além da falta de asas, têm uma notável falta de halo sobre as suas pequenas mas capazes cabeças. A sua excepcionalidade vem da vulnerabilidade física que têm. Por outro lado, a sua faculdade mais assustadora vem daquilo a que nós, bárbaros urbanos ultracivilizados, já não estamos habituados: a inexperiência. A mente como tábua rasa. Este aspecto assusta-nos, pondo-nos perante as mais macabras e violentas situações. Mas, crianças ou não, não deixam de ser humanos - em crescimento.
A verdadeira questão não está na idade a partir da qual deverão ou não ser julgados, assim como na questão do aborto não se deve tomar cinicamente como importante a partir de quantos meses um feto é ou não um feto, ou, como se diz, a partir de quantos meses é vida. A verdadeira questão é uma que está oculta, uma questão ética que nunca poderá ser resolvida. Assim como nunca um adulto cumpridor da lei conseguirá compreender o porquê das crianças, tal como os adultos, se insultarem mutuamente, e em especial ao «menino gordo» e ao «menino maricas». Essa crueldade das crianças é uma crueldade que, por muito que se analise ou se queira compreender, não poderá ser eliminada.
Devem as crianças ser educadas no sentido contrário desses comportamentos? Sim, seria um idiota se negasse que tal didáctica poderá ter efeitos positivos. Deverão as crianças ser protegidas para não tomarem certos comportamentos violentos como normais? Sim, se me explicarem como tal coisa pode ser feita sem afastar as crianças do mundo em que vivem. Mas se me perguntarem se devem ser castigadas, responsabilizadas pelos seus actos (como o que está em causa no «caso» das Oficinas de S. José no Porto), a resposta terá de ser afirmativa. Não positiva, mas afirmativa: não fazer dos jovens «exemplos», mas castigá-los pelo que fizeram. À falta dos instrumentos mágicos que façam do ser humano um ser pacífico, sociável, a lei - igual para todos mas responsável e responsabilizadora (tendo em conta a condição mental ou a idade do arguido) - ainda é o melhor que temos, o mais próximo que temos de uma sociabilidade mais segura.
[João Carlos Silva]
quarta-feira, agosto 02, 2006
O falso veraneante
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Qualquer bom português espera o momento das férias para atirar ao ar a pastinha do emprego e assobiar bem alto. O destino agora é outro. As manhãs agora serão dedicadas a acordar... às 6 da manhã. O destino é outro, portanto. Depois de um ano de trabalho, é agora oportunidade para se dedicarem ao seu grande prazer, ao prazer mais perene e metafísico de todos. O destino: as praias...
Parece haver uma comovente mobilização geral todos os anos neste canto da Europa no que toca aos topos assoalhados. Tal qual um Ícaro especialmente eufórico, o português normal voa em direcção ao Sol, onde quer que ele esteja. Caso eu gostasse de fazer o mesmo, diria: com toda a razão. Mas não gosto.
A praia é, de facto, um sítio imemoriavelmente maldito para «a minha pessoa». Queimaduras. Cansaço. Tempo perdido. Sol nos olhos, nas costas e na cabeça. Impossível a leitura. Não o recomendo a ninguém, é claro. Mas, tal como as pessoas que não suportam o fumo mas evitam fazer a cara de nojinho e agitar a mão à frente do nariz, também eu evito reprovar aquilo que a esmagadora maioria dos outros parece fazer sem problemas... e sem pensar nas possíveis consequências «menos positivas».
A minha relação com a praia não é melhor do que aquela que Roy Scheider tinha com a água em Jaws. Por isso, insiro-me naquele curto, mas valente, lote de pessoas que anseia pelas férias como pela reforma, pela possibilidade de se fecharem em casa com mais afinco e mais livros, até o dia chegar no qual se sentirão um pouco sozinhas. Aí, nesse dia, talvez - apenas talvez - as portas de casa se voltarão a abrir revelando uma nesga de areia, um bracinho de água e um sol necessariamente murchinho. Só com esse sol de outono poderei voltar a pensar numa visita às praias de Portugal, esquecendo qualquer efeito nefasto da estrela maior. Até porque, não esqueço, foi debaixo de um sol assassino de Verão que este rapaz perdeu os sentidos e cometeu a imprudência de ler Manuel Tiago.
[João Carlos Silva]
domingo, julho 23, 2006
Os israelitas, esses opressores da região
Segundo uma reportagem num canal (respeitável) de outro país, uma família libanesa entrevistada - de aparência pobre - declarava, furiosa, que os membros do Hezbollah («terroristas», pelas suas palavras) são os culpados da crise e deviam ser apanhados. Disseram ainda que «só queriam condições para viver».
Nem uma menção, nem uma palavra contra Israel.
[João Carlos Silva]
Nem uma menção, nem uma palavra contra Israel.
[João Carlos Silva]
Segundo tratado sobre tascos
Passar por um tasco recôndito, na minha cidade, apenas para fazer a digestão não deve ser um acto menosprezado. Na verdade, é uma das acções mais gratificantes que um homem pode fazer. Eu diria mesmo que é uma das «cinco coisas a fazer antes de morrer», isso e votar em Mário Soares, entre outras tantas.
Ao passar a porta da baiuca para dentro, rapidamente ganhamos uma outra dimensão no nosso pequeno meio social. Como o exemplo do senhor José, que a dona Maria (dona da tasca) nunca antes viu, ganhar o apelido de «Baixinho» - apenas para ser tratado mais directamente pela matrona de serviço. Esqueçam o «se faz favor» e o «obrigado» (duas frases das quais admito não conseguir abdicar), não, na tasca os modos e a educação seguem outras linhas de orientação, outros graus: quer seja conhecer toda a gente, gostar do Vitória ou ser um dos últimos a abandonar o local do crime ao fim do dia.
Por outro lado, o elemento gastronómico é igualmente importante. Não só as moelas adquirem um valor comestível (que não consigo encontrar em qualquer outro lado), talvez pelo aroma que as frigideiras excessivamente usadas transmitem à comida, como também a bebida tem uma personalidade própria. Só nas tascas se bebem pequenos copos a vinte cêntimos, onde nem o vinho nem a gasosa que aí se misturam têm marca. Basta ver escrito nas garrafas Vinho e Gasosa para saber o que se bebe: nas tascas não se faz o vinho, o vinho acontece.
[João Carlos Silva]
Ao passar a porta da baiuca para dentro, rapidamente ganhamos uma outra dimensão no nosso pequeno meio social. Como o exemplo do senhor José, que a dona Maria (dona da tasca) nunca antes viu, ganhar o apelido de «Baixinho» - apenas para ser tratado mais directamente pela matrona de serviço. Esqueçam o «se faz favor» e o «obrigado» (duas frases das quais admito não conseguir abdicar), não, na tasca os modos e a educação seguem outras linhas de orientação, outros graus: quer seja conhecer toda a gente, gostar do Vitória ou ser um dos últimos a abandonar o local do crime ao fim do dia.
Por outro lado, o elemento gastronómico é igualmente importante. Não só as moelas adquirem um valor comestível (que não consigo encontrar em qualquer outro lado), talvez pelo aroma que as frigideiras excessivamente usadas transmitem à comida, como também a bebida tem uma personalidade própria. Só nas tascas se bebem pequenos copos a vinte cêntimos, onde nem o vinho nem a gasosa que aí se misturam têm marca. Basta ver escrito nas garrafas Vinho e Gasosa para saber o que se bebe: nas tascas não se faz o vinho, o vinho acontece.
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 18, 2006
Louçã: o cândido
Há dias, comentando o intensificar do conflito entre Israel e Líbano, Francisco Louçã declarou que aquele era apenas mais uma oportunidade para «George W. Bush» - o «dâbliu búsh» proferido em raiva traz outro sentido, tem sempre todo um mundo semântico por trás - fazer guerra ao Irão.
Eu sei que Louçã, entre outros milhares em Portugal, sonha com o dia em que o presidente americano tropeçará como Fidel tropeçou no palanque da outra vez. Mas sonhar com Bush dia e noite, sete dias por semana, todo o ano, ultrapassa mesmo a fé política mais carregada de alguma direita americana.
E esta obsessão de Louçã, atirada ao ar juntamente com a sua aversão primária a Israel (enquanto nação fundada naquela zona e enquanto aliada dos EUA), atropela a memória de todas as vezes em que a América condenou retaliações exageradas do exército israelita. Mais ainda, revela o oportunismo quase desumano de alguém que, distante do conflito, provavelmente achará mais grave Bush dizer «merda» do que o facto de soldados e civis israelitas serem sucessivamente raptados por grupos terroristas que se declaram (com o devido apoio) muçulmanos.
[João Carlos Silva]
Eu sei que Louçã, entre outros milhares em Portugal, sonha com o dia em que o presidente americano tropeçará como Fidel tropeçou no palanque da outra vez. Mas sonhar com Bush dia e noite, sete dias por semana, todo o ano, ultrapassa mesmo a fé política mais carregada de alguma direita americana.
E esta obsessão de Louçã, atirada ao ar juntamente com a sua aversão primária a Israel (enquanto nação fundada naquela zona e enquanto aliada dos EUA), atropela a memória de todas as vezes em que a América condenou retaliações exageradas do exército israelita. Mais ainda, revela o oportunismo quase desumano de alguém que, distante do conflito, provavelmente achará mais grave Bush dizer «merda» do que o facto de soldados e civis israelitas serem sucessivamente raptados por grupos terroristas que se declaram (com o devido apoio) muçulmanos.
[João Carlos Silva]
segunda-feira, julho 17, 2006
3
Três anos. Há três anos anda este rapaz a carregar uma desesperada esperança. Uma que, por muito desesperada que seja, continua e continuará cá por mais tempo. Parabéns.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sexta-feira, julho 14, 2006
As cadeiras
A minha atracção por cafés «semi-vazios» voltou, agora que o Mundial (infelizmente, por outro lado) acabou. Já voltou a ser possível chegar a qualquer hora do dia ao café da rua, do fim da rua, ou da esquina, e escolher uma mesa decente para me sentar - com as distâncias bem medidas, para que seja possível, com igual facilidade, gritar e arreliar o dono do café e atirar as beatas para a rua num jeitinho de dedos à taberneiro.
Com as vagas de calor e com uma antipatia muito pessoal em relação à praia, o snack-bar ou o café voltam a ser obrigatórios para alguns fins de tardes dedicados a livros, folhas e canetas. Especialmente porque, no dia em que o francês deu uma cabeçada ao italiano e em que Blatter nos deu uma cabeçada a todos nós, acabou (nos cafés) aquela dança das cadeiras que mais parecia a tomada de posse de um governo do PS.
[João Carlos Silva]
Com as vagas de calor e com uma antipatia muito pessoal em relação à praia, o snack-bar ou o café voltam a ser obrigatórios para alguns fins de tardes dedicados a livros, folhas e canetas. Especialmente porque, no dia em que o francês deu uma cabeçada ao italiano e em que Blatter nos deu uma cabeçada a todos nós, acabou (nos cafés) aquela dança das cadeiras que mais parecia a tomada de posse de um governo do PS.
[João Carlos Silva]
Viver na aldeia
Muitos de nós gostaremos ou saberemos dizer, prontamente, que uma das coisas que nos dá mais gosto fazer é ler um bom livro. No entanto, para quem ler bons livros se tornou já uma rotina aqui e ali viciante mas desapaixonada, um dos grandes prazeres continua a ser gritar depois de almoço, com um palito a aprumar o sorriso, à mulher: «Maria, guarda os ossos que é para dar de comer aos animais!». Isto, é claro, enquanto se aproveita para estampar as costas da mão na bochecha da criança.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quinta-feira, julho 13, 2006
O estado das coisas
Há aí um jovem promissor que escreveu uma frase muito profunda.
«Recordar é bem capaz de ser pior do que levar um tiro no peito.»
[Paulo Ferreira]
«Recordar é bem capaz de ser pior do que levar um tiro no peito.»
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, julho 12, 2006
Leitores
Há dois tipos de leitores: aqueles que procuram identificar-se com o escritor; e aqueles que procuram identificar-se com uma personagem.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 11, 2006
O homem que ria para escrever

Fernando Assis Pacheco (1937-1995), um grande escritor? A pergunta poderá cair num grande vazio, onde ninguém a espera, onde ninguém lhe oferece resposta. De facto, mesmo se esse vazio estiver preenchido, é difícil trazer-lhe resposta. É difícil, mesmo, avaliar Assis Pacheco enquanto escritor, ou apenas como tal. Assis Pacheco ramificou (talvez de forma nefasta para vingar no campo do romance) a sua obra, os seus caminhos, de escritor em diversas áreas: romance, poesia, crítica, crónicas, até entrevistas. É, realmente, difícil encontrar um campo em que ele não tenha dado uma perninha. Mas, curiosamente, em todos eles Fernando Assis Pacheco traz a mesma «pena».
A escrita de Pacheco tem, sim, sempre o mesmo motor por trás: um grande sentido de humor. Não serão, portanto, alheias ao leitor expressões aproximadas a «passando-lhe o tempero de alto a abaixo, enfiou-lhe um espeto de pau pelas nalgas e pô-lo a assar». Ou mesmo, num outro registo, «enchi a pata» ou «olé que lá vai ela». A Assirio & Alvim tem, feito, inclusivamente, um pequeno esforço para trazer a lume alguns inéditos de um autor já de si fragmentado nas editoras ou, pelo menos, de escassa edição (normalmente, tem as suas obras na ASA), e o Memórias de um Craque é um «pequeno» livro imperdível dentro do espaço desse esforço da Assírio.
Será um grande escritor? Tendo em conta o seu género de humor, muito a puxar para o vernáculo (e eu, admito, derreto-me com uma escrita que saiba utilizá-lo bem), poderá ser tido como um «granda escritor» por muita gente menos exigente, que esquece o que está sob essa primeira camada literária. Debaixo dela está um homem de grande sensibilidade, cultíssimo, com uma modéstia digna de um génio capaz de deixar obra importante até em crónicas da bola, mas também com um talento considerável capaz de pôr burgessos na lista de personagens a reter na literatura portuguesa. Pode não ter sido um «grande escritor», mas foi sem dúvida um grande homem com talento para a escrita.
[João Carlos Silva]
domingo, julho 09, 2006
Namora: entre a simpatia e o tédio
Leio vários livros de Fernando Namora e fico com uma vontade enorme de doar todo o meu sangue a quem dele precisa. Mas também eu preciso do meu sangue. Sou muito egoísta. Namora escreve elegias à União Soviética, sonha com o Estado Social dos países nórdicos, fala com uma bondade extrema. E eu sensibilizo-me. Mas sou egoísta. Não posso gostar de regimes que lutavam pela igualdade (inexistente enquanto conceito aplicável ao mundo dos vivos, esta palavra). Não posso gostar de regimes que partiam do operariado para os senhores do partido. Não posso. E, por isso, não posso concordar com nada do que aparece nos livros do homem que morreu a praticar o bem. Contudo, tem de se perceber o contexto da época do homem que escreveu coisas como Os Adoradores do Sol. Esse contexto era o neo-realismo, era um contexto, mais que literário, cultural, no qual se escrevia com uma mão pouco desprendida, no qual o amor aos heróis que lutaram pelo povo se impunha à barbárie corrupta dos tempos modernos. A América nunca poderia ser adorada por intelectuais apegados ao campesinato. É muito mais fácil nutrir carinho por sociedades onde a população vive toda pobre mas igual, do que por sociedades repletas de desigualdades e de oportunidade de ascensão e de queda por parte daqueles que procuram viver de dinheiro (perceba-se que o dinheiro, neste momento, é tudo, inclusive a literatura).
Fernando Namora não é um homem de difícil compreensão. Apesar de escrever bem, muito bem, este intelectual, que também foi médico e filantropo, não entusiasma. Os livros de Namora são de entediar as moscas mais atarantadas. Exceptuando O Rio Triste ou Cidade Solitária, pouco de interessante há a retirar da obra de Namora. Temos os livros de viagens propagandísticos que, vá-se lá saber porquê, Namora apelidou de cadernos de um escritor, que são das coisas mais aborrecidas que tive oportunidade de ler. Temos narrativas literário-sociológicas ( Estamos no Vento, por exemplo), temos, enfim, escritos que não satisfazem o olhar, ao mesmo tempo aguçado e desprevenido, do leitor que queira conhecer a literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Refira-se, no entanto, que a literatura portuguesa, seja de que século for, não costuma ser conhecida pela sua qualidade elevada. Há até quem fale de «Portugalzinho» quando aparece um novo escritor ou colunista de mangas arregaçadas e pronto a escandalizar as mentes provinciais da paróquia nacional com os seus comentários acutilantes, com os seus rasgos de estilo geniais, do género «amei, sofri». No fundo, Namora não tem nada de novo. É pouco original. Traz pouco ao mundo da literatura. Não obstante tudo isso, eu simpatizo com ele.
[Paulo Ferreira]
Fernando Namora não é um homem de difícil compreensão. Apesar de escrever bem, muito bem, este intelectual, que também foi médico e filantropo, não entusiasma. Os livros de Namora são de entediar as moscas mais atarantadas. Exceptuando O Rio Triste ou Cidade Solitária, pouco de interessante há a retirar da obra de Namora. Temos os livros de viagens propagandísticos que, vá-se lá saber porquê, Namora apelidou de cadernos de um escritor, que são das coisas mais aborrecidas que tive oportunidade de ler. Temos narrativas literário-sociológicas ( Estamos no Vento, por exemplo), temos, enfim, escritos que não satisfazem o olhar, ao mesmo tempo aguçado e desprevenido, do leitor que queira conhecer a literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Refira-se, no entanto, que a literatura portuguesa, seja de que século for, não costuma ser conhecida pela sua qualidade elevada. Há até quem fale de «Portugalzinho» quando aparece um novo escritor ou colunista de mangas arregaçadas e pronto a escandalizar as mentes provinciais da paróquia nacional com os seus comentários acutilantes, com os seus rasgos de estilo geniais, do género «amei, sofri». No fundo, Namora não tem nada de novo. É pouco original. Traz pouco ao mundo da literatura. Não obstante tudo isso, eu simpatizo com ele.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, julho 06, 2006
Herói
Com as suas fintas lentas, com o seu cabelo caprichado, com o seu estilo guerreiro, Luís Figo, o melhor jogador nacional (quase) de sempre, merecia estar presente numa final de um Campeonato do Mundo. Ontem sofri por ele.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
terça-feira, julho 04, 2006
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