Se tudo o que vive tem de morrer, então, a própria obra de Shakespeare é um paradoxo do tamanho da minha ignorância.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, setembro 12, 2006
Fantasmas II
A rainha, mãe de Hamlet, dizia que tudo o que vive tem de morrer. Concordo. Mas aparecerá sempre algo que me fará discordar. E assim se dão os paradoxos.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
Devoção
Como alguns senhores doutores de uma universidade qualquer fizeram questão de tornar o dia 11 de Setembro difícil para a minha pessoa, só hoje posso assinalar a minha devoção:

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
domingo, setembro 10, 2006
Fantasmas
All that lives must die,
Passing through nature to eternity.
- William Shakespeare, The Tragical History of Hamlet Prince of Denmark
[Paulo Ferreira]
Passing through nature to eternity.
- William Shakespeare, The Tragical History of Hamlet Prince of Denmark
[Paulo Ferreira]
sábado, setembro 09, 2006
Onomástica brasileira
Há momentos, no Rio de Janeiro, uma fiel seguidora das notícias de Portugal deu à luz um belo mulatinho de 4 quilos. Após ter lido o jornal, decidiu-se por um nome para o filho: chamar-lhe-á Caso Mateus da Encarnação.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
A grande fuga dos bichos
Encontrar um bom livro no baú de um familiar antigo e lê-lo, é, sem dúvida alguma, uma tarefa compensadora. O cheiro a guardado, aliado ao pó que desliza pelos dedos aventureiros, o amarelo das páginas, as letras impressas ao modo do antigamente, tudo isso faz com que o acto de ler seja motivo de regozijo. Bichos, livro de contos da autoria de Miguel Torga, escritor que, por diversos motivos, me era familiar apenas pelo nome, foi uma das relíquias que encontrei no meio do pó que me coube de herança.
Um senhor que muito prezo já me havia avisado: «nunca li Torga, mas, pelo que sei, trata-se de um grande prosador.» Nem mais. O senhor André, sempre embebido pelos sonhos que nunca se chegaram a cumprir, não costuma falhar nestas coisas. É um céptico. Além disso, já viveu e conheceu muito. «Tivesse eu a sapiência desse senhor e não leria nem mais um livro», dir-me-ia o Zé Carlos. Por muito idealista que seja, vejo-me, por vezes, obrigado a concordar com o imberbe. A literatura, com o passar dos anos, passa a ser pensada em vez de lida, recordada em vez de memorizada, dita em vez de escrita. Tudo tem o seu tempo, principalmente a época da fanfarronice.
O óbvio: Bichos é um livro onde se conta a história de vários animais que, por serem inferiores ao Homem, ganham o nome de bichos. Nero, homónimo do imperador, nunca chega a ultrapassar a sua condição de cachorro. Mago, o gato, não consegue perceber o real alcance do seu mágico nome. Tenório, o galo, muito «Cá-que-rá-cá» faz mas não atinge o poder de macho. O medo controla-o. Enfim, todas as personagens animalescas desta pequena obra são sempre remetidas para a sua condição inferior. São maltratadas por um homem ainda menos racional que os bichos que aterroriza. Miura, o touro, é posto no meio de uma tourada e nunca percebe o que se passa à sua volta. Só sabe que tem de perseguir o manequim de lantejoulas, o toureiro. No entanto, a dor supera-o sempre. Vejamos: «Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se. Num ímpeto.» Uma engraçada estória de alienação mental está ligada à personagem do Senhor Nicolau, uma das únicas figuras humanas a serem figura central de uma narrativa: «As nações desabavam, sucediam-se guerras, a própria aldeia oscilava nos gonzos. Mas o senhor Nicolau alheio às paixões humanas, continuava a povoar os dias de libélulas e borboletas.»
Apesar de tudo, Bichos, no meio do seu belo discurso rural e anedótico, conhecido para quem conhece o modo de funcionamento da aldeia, consegue formar, na sua essência, um hino à liberdade. A espiritualidade está quase sempre presente nas mentes destes seres humanizados. Vicente, o corvo, não se resignando por estar fechado há quarenta dias nas arca de Noé, não se sentindo culpado pelas fornicações humanas, foge. É perseguido e castigado. Mas nunca desiste de ser livre, de se livrar da condenação terrena. Deus bem o quer castigar por ter fugido a Noé, mas Vicente não aceita a derrota. «Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.» Se este livro não tivesse sido escrito em 1940, diria que Papillon e Vicente eram irmãos. Mas Torga, o criador deste último, nunca escreveria «bastards».
[Paulo Ferreira]
Um senhor que muito prezo já me havia avisado: «nunca li Torga, mas, pelo que sei, trata-se de um grande prosador.» Nem mais. O senhor André, sempre embebido pelos sonhos que nunca se chegaram a cumprir, não costuma falhar nestas coisas. É um céptico. Além disso, já viveu e conheceu muito. «Tivesse eu a sapiência desse senhor e não leria nem mais um livro», dir-me-ia o Zé Carlos. Por muito idealista que seja, vejo-me, por vezes, obrigado a concordar com o imberbe. A literatura, com o passar dos anos, passa a ser pensada em vez de lida, recordada em vez de memorizada, dita em vez de escrita. Tudo tem o seu tempo, principalmente a época da fanfarronice.
O óbvio: Bichos é um livro onde se conta a história de vários animais que, por serem inferiores ao Homem, ganham o nome de bichos. Nero, homónimo do imperador, nunca chega a ultrapassar a sua condição de cachorro. Mago, o gato, não consegue perceber o real alcance do seu mágico nome. Tenório, o galo, muito «Cá-que-rá-cá» faz mas não atinge o poder de macho. O medo controla-o. Enfim, todas as personagens animalescas desta pequena obra são sempre remetidas para a sua condição inferior. São maltratadas por um homem ainda menos racional que os bichos que aterroriza. Miura, o touro, é posto no meio de uma tourada e nunca percebe o que se passa à sua volta. Só sabe que tem de perseguir o manequim de lantejoulas, o toureiro. No entanto, a dor supera-o sempre. Vejamos: «Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se. Num ímpeto.» Uma engraçada estória de alienação mental está ligada à personagem do Senhor Nicolau, uma das únicas figuras humanas a serem figura central de uma narrativa: «As nações desabavam, sucediam-se guerras, a própria aldeia oscilava nos gonzos. Mas o senhor Nicolau alheio às paixões humanas, continuava a povoar os dias de libélulas e borboletas.»
Apesar de tudo, Bichos, no meio do seu belo discurso rural e anedótico, conhecido para quem conhece o modo de funcionamento da aldeia, consegue formar, na sua essência, um hino à liberdade. A espiritualidade está quase sempre presente nas mentes destes seres humanizados. Vicente, o corvo, não se resignando por estar fechado há quarenta dias nas arca de Noé, não se sentindo culpado pelas fornicações humanas, foge. É perseguido e castigado. Mas nunca desiste de ser livre, de se livrar da condenação terrena. Deus bem o quer castigar por ter fugido a Noé, mas Vicente não aceita a derrota. «Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.» Se este livro não tivesse sido escrito em 1940, diria que Papillon e Vicente eram irmãos. Mas Torga, o criador deste último, nunca escreveria «bastards».
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, setembro 08, 2006
Finais
O Independente (1988-2006) teve a sua morte oficial na semana passada. Para uma pessoa de vinte e poucos anos como eu, pouco interessa que um jornal enfadonho e desnecessário chegue ao seu fim. Ora,o referido semanário era um tédio. Despender o meu (escasso) dinheiro europeu em algumas páginas supérfluas, sempre me pareceu mal. Por conseguinte, poucas vezes comprei o rival do espesso Expresso. Refira-se, porém, que O Independente nem sempre foi o sofrimento que se viu. Houve Vasco Pulido Valente, Paulo Portas, Miguel Esteves Cardoso. Houve a colecção Horas Extraordinárias. Houve Pedro Mexia (pela simpatia), Pedro Lomba. Houve Rui Ramos, Vasco Rato e Luciano Amaral. Enfim, houve muita gente que, à custa do seu esforço e talento, conseguiu fazer d’ O Independente um jornal que dava prazer (intelectual) ao leitor. Mas esse jornal acabou. Acabou. Diz-se que tudo tem a sua morte num dado ano. O Independente não morreu em 2006. Nem em 2005. Talvez em 2004 ou 2003. Talvez.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, setembro 04, 2006
Senhor doutor
Estive um mês no Garden State e vim às pressas para ver e ouvir o sr. dr. António Fiúza falar com os srs. da televisão sobre o sr. dr. Macieirinha. Mas logo perdi a fiúza toda.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
A dama do pé de cabra
O historiador britânico Paul Johnson, em A History of the American People (1997), refere que Franklin Delano Roosevelt era um homem deveras necessitado de carinho maternal. Infelizmente, refere ainda Johnson, Eleanor Roosevelt não era mulher para dar ao presidente esse dito carinho, uma vez que a sua libido estava virada para outros homens e para outras mulheres, menos ocupadas do que o seu marido. Era, portanto, bissexual, a companheira de F.D.Roosevelt. Mas isto não interessa nada para a história. O que interessa - e preocupa - é a falta de carinho do presidente. E a benevolência para com Stalin.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
domingo, setembro 03, 2006
O meu amigo Eça
Quem já viu o «programa sobre livros» (como disse?) de Bárbara Guimarães na SIC Notícias já terá notado, certamente, que aquele é um dos locais onde mais frequentemente se pode encontrar o irritante hábito de tratar os livros por tu. Talvez por isso o programa seja saturante e monótono, por ser um fundo poço de frases impessoais como: sempre vivi com os livros; escrever é uma necessidade como respirar; gosto muito, desde pequenino. Para além disso, e o mais mesquinho de tudo, é tratar os autores (clássicos ou contemporâneos) como se fossem o vizinho do 4º esquerdo. «A» Sophia, «o» Pessoa, «o» Camilo e «o» Eça.
É, precisamente, por ter visto umas quantas vezes o programa de Bárbara Guimarães (que, apesar de ler romances tristes com aquele sorriso sempre aberto e de ter casado com o dr. Carrilho, também merece ser vista) que eu já sonhei que era convidado para esse programa para falar de livros. A conversa seria qualquer coisa como isto:
-Boa noite, João.
-Boa tarde, Bárbara.
-Sei que tem um profundo amor aos livros.
-Uma paixoneta, vá lá.
-É por isso que refere os livros como a sua maior fonte de aprendizagem na vida?
-Não.
-Respirar, viver, dormir, sentir. A seguir vem o acto de ler?
-Vem antes.
-É portanto o momento mais importante dos seus dias...
-Não. Escrevo quando não tenho mais nada que fazer ou nada para ler.
-Escolheu um livro de referência. «Servidão Humana».
-De Somerset Maugham.
-É um livro com um olhar muito frio sobre a vida de um homem.
-Não, é mais um livro sobre um corno crónico.
-Uma sua outra referência é, disse há dias, um livro de Jack London.
-Exacto.
-É um escritor problemático. Um homem perturbado pelas questões mais básicas da humanidade.
-É um bêbado.
-Realçaria um episódio elementar para a compreensão desse autor e da sua obra?
-Sim, um em que o Jack London apanha uma cadela e se atira à água para se suicidar. Com o impacto na água, desperta e arrepende-se.
-Ah ah ah, hm hm hmm. Um episódio hilariante, sem dúvida. Jack London é, portanto, um ícone.
-Não, é um bêbado.
-Na poesia portuguesa destacou Vasco Graça Moura como um poeta subvalorizado.
-Sim, vendo-o na vida política esquecem o excelente poeta.
-Traz à memória a ideia do «fingidor», de Pessoa.
-Não traz não.
-Gosta de Pessoa?
-Muito.
-Defina-o.
-É um bêbado.
-E da poesia da Sophia, não gosta?
-A Sofia nunca me disse que escrevia.
-Sophia de Mello Breyner?
-Ah sim. Pensei que era outra Sofia, uma assim meio... Não. A poetisa respeito imenso.
-Boa noite, João.
-Até amanhã.
[João Carlos Silva]
É, precisamente, por ter visto umas quantas vezes o programa de Bárbara Guimarães (que, apesar de ler romances tristes com aquele sorriso sempre aberto e de ter casado com o dr. Carrilho, também merece ser vista) que eu já sonhei que era convidado para esse programa para falar de livros. A conversa seria qualquer coisa como isto:
-Boa noite, João.
-Boa tarde, Bárbara.
-Sei que tem um profundo amor aos livros.
-Uma paixoneta, vá lá.
-É por isso que refere os livros como a sua maior fonte de aprendizagem na vida?
-Não.
-Respirar, viver, dormir, sentir. A seguir vem o acto de ler?
-Vem antes.
-É portanto o momento mais importante dos seus dias...
-Não. Escrevo quando não tenho mais nada que fazer ou nada para ler.
-Escolheu um livro de referência. «Servidão Humana».
-De Somerset Maugham.
-É um livro com um olhar muito frio sobre a vida de um homem.
-Não, é mais um livro sobre um corno crónico.
-Uma sua outra referência é, disse há dias, um livro de Jack London.
-Exacto.
-É um escritor problemático. Um homem perturbado pelas questões mais básicas da humanidade.
-É um bêbado.
-Realçaria um episódio elementar para a compreensão desse autor e da sua obra?
-Sim, um em que o Jack London apanha uma cadela e se atira à água para se suicidar. Com o impacto na água, desperta e arrepende-se.
-Ah ah ah, hm hm hmm. Um episódio hilariante, sem dúvida. Jack London é, portanto, um ícone.
-Não, é um bêbado.
-Na poesia portuguesa destacou Vasco Graça Moura como um poeta subvalorizado.
-Sim, vendo-o na vida política esquecem o excelente poeta.
-Traz à memória a ideia do «fingidor», de Pessoa.
-Não traz não.
-Gosta de Pessoa?
-Muito.
-Defina-o.
-É um bêbado.
-E da poesia da Sophia, não gosta?
-A Sofia nunca me disse que escrevia.
-Sophia de Mello Breyner?
-Ah sim. Pensei que era outra Sofia, uma assim meio... Não. A poetisa respeito imenso.
-Boa noite, João.
-Até amanhã.
[João Carlos Silva]
sexta-feira, setembro 01, 2006
terça-feira, agosto 29, 2006
sábado, agosto 26, 2006
sexta-feira, agosto 25, 2006
Limpezas autárquicas

Há alguns dias, o PCP (ou, vá lá, a CDU) resolveu enxotar o Presidente da Câmara de Setúbal Carlos Sousa. A desculpa: um imbróglio envolvendo as reformas de trabalhadores ou elementos da Câmara. É claro que, como bom camarada, o autarca resolveu sair de palco. Alegando sanidade e ética (que, para ser franco, reconheço no senhor), Carlos Sousa aproveitou para se livrar de maiores complicações pessoais e judiciais que lhe seriam, sem dúvida, criadas pelo partido mais totalitário do distrito.
Para trás ficam, por outro lado, a obra feita e o método que Carlos Sousa alegadamente preferia seguir para agir: trabalhar na Câmara. Método esse que nunca agradou muito à «rapaziada» que já cá está há tanto tempo (com idade e juízo de sobra) mas ainda não assimilou o conceito de glasnost que o suposto «traidor» Gorbachev pôs em prática há décadas.
Afinal, o centralismo democrático existe mesmo - depois de ser eleito, o partido pode fazer toda e qualquer coisa. Até troçar da escolha dos eleitores.
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 19, 2006
Três elementos para um bom sábado
1- a compra de um saco cheio de livros antigos.
2- um jogo do Vitória para matar saudades.
3- a capa da Notícias Sábado de hoje.
[João Carlos Silva]
2- um jogo do Vitória para matar saudades.
3- a capa da Notícias Sábado de hoje.
[João Carlos Silva]
Dona Bárbara
«Há coisas que irritam. Gente que fura as filas, que corta as unhas em público, que pára o carro no meio da estrada. Mas nada é tão irritante quanto Bárbara Guimarães a declamar Eugénio de Andrade na promoção do seu programa da SIC Notícias, Páginas Soltas. Aqueles 20 segundos de televisão são a maior piroseira cultural alguma vez vista em Portugal, pelo menos desde os tempos em que Manuel Alegre gravava discos de poesia com voz épica e cavernosa.»
João Miguel Tavares, Diário de Notícias 19/08/06
[João Carlos Silva]
João Miguel Tavares, Diário de Notícias 19/08/06
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 12, 2006
Os «jantadores» tardios
Como «jantador» imprevisível, partilho a angústia do JCS: «Em Carnide, em pleno Agosto, não se consegue jantar às dez e meia da noite. Os restaurantes, imagine-se, já fecharam as suas cozinhas». Isto sim, é uma boa causa para uma manifestação em S. Bento. Vale a pena ler.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
Ovo a galope
Não há nada no mundo mais saudável e pitoresco do que estar em Setúbal e pedir, numa tasca, um bife com ovo a cavalo. Melhor do que isso, só mesmo saber fazer um com mestria.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
O velho das montanhas

Sobre o que se tem escrito sobre Fidel Castro e o seu debilitado estado de saúde, sempre achei mais piada ao que disse a sua própria filha: «Tenho pena do meu pai, mas tenho muito mais pena do povo cubano».
[João Carlos Silva]
Os artigos de Rui Tavares
Certos colunistas dão-nos mesmo uma grande prazer de odiar. É claro que isso depende do lado em que nos encontramos, da trincheira que escolhemos. Mesmo não tendo escolhido trincheira para me aninhar fardado, com suma ideológica debaixo do braço, juntamente com alguns idealistas, tenho alguma ideia de onde me encontro politicamente. Sobretudo, sei onde me encontro por oposição aos outros.
Sendo assim, também tenho alguns colunistas de estimação. E também, especificamente, alguns «ódios de estimação». Ainda que eu próprio não seja ninguém, devo reconhecer a minha grande incapacidade para absorver a matéria que é, por exemplo, explanada nos artigos de Ana Sá Lopes. De tanta rejeição, não consigo evitar passar os olhos por tudo o que a colunista escreve. Outro exemplo é Miguel Sousa Tavares... pelo menos enquanto tinha a coragem de o ler.
Mas um caso peculiar é o de Rui Tavares. O historiador, que já esteve em distintos blogs para as bandas do Bloco de Esquerda, passou a escrever para o jornal Público há algum tempo, e veio dar uma nova cor às leituras de sábado. Começou bem, com temas menos comuns, menos batidos, e com um estilo diferente, não necessariamente «irreverente» (como tanto está na moda e como tanta gente gosta). Só é pena que Tavares, ultimamente, tenha desabado para uma certa repetição semanal das previsíveis posições que poderá tomar (e efectivamente toma) um militante ou ardente simpatizante do BE. Não falo da disposição libertária (que até é saudável) nem das preocupações sociais. Falo da atitude perante Estados Unidos, Reino Unido, Médio Oriente, Cavaco Silva e uns tantos que me ficaram na retina mas estão no esquecimento.
A sua particularidade, no entanto, vem da inteligência com que escreve. Vem, sobretudo da inteligência no humor com que escreve. Sem ser irritantemente irónico como o típico colunista contestatário nem profundamente assertivo ou pretensamente académico como um jovem colunista em ascensão, Rui Tavares consegue fazer-me obrigar a ler os seus artigos com toda a atenção todas as semanas. Até mesmo para desancar em Israel e desenrolar tudo aquilo que já se esperava que achasse sobre o conflito no Líbano, teve o cuidado de tentar elogiar «o povo de Israel» (embora eu ache que tal recurso seja uma pobre desculpa para debitar, em seguida, a tese geral das «potências agressoras»).
Pelo estranho vício de o ler, considero, por isso, Rui Tavares uma leitura obrigatória nos jornais da semana. Se há muita gente que marchou com a UDP nos bons velhos anos 70 mas hoje gosta sempre de visitar a coluna de Vasco Pulido Valente, eu pertenço a um outro género: os que, quando cansados da ladaínha extremamente desapaixonada do lado mais conservador, não hesita em ler Rui Tavares. Provavelmente, um futuro VPV. Na outra banda, é claro.
[João Carlos Silva]
Sendo assim, também tenho alguns colunistas de estimação. E também, especificamente, alguns «ódios de estimação». Ainda que eu próprio não seja ninguém, devo reconhecer a minha grande incapacidade para absorver a matéria que é, por exemplo, explanada nos artigos de Ana Sá Lopes. De tanta rejeição, não consigo evitar passar os olhos por tudo o que a colunista escreve. Outro exemplo é Miguel Sousa Tavares... pelo menos enquanto tinha a coragem de o ler.
Mas um caso peculiar é o de Rui Tavares. O historiador, que já esteve em distintos blogs para as bandas do Bloco de Esquerda, passou a escrever para o jornal Público há algum tempo, e veio dar uma nova cor às leituras de sábado. Começou bem, com temas menos comuns, menos batidos, e com um estilo diferente, não necessariamente «irreverente» (como tanto está na moda e como tanta gente gosta). Só é pena que Tavares, ultimamente, tenha desabado para uma certa repetição semanal das previsíveis posições que poderá tomar (e efectivamente toma) um militante ou ardente simpatizante do BE. Não falo da disposição libertária (que até é saudável) nem das preocupações sociais. Falo da atitude perante Estados Unidos, Reino Unido, Médio Oriente, Cavaco Silva e uns tantos que me ficaram na retina mas estão no esquecimento.
A sua particularidade, no entanto, vem da inteligência com que escreve. Vem, sobretudo da inteligência no humor com que escreve. Sem ser irritantemente irónico como o típico colunista contestatário nem profundamente assertivo ou pretensamente académico como um jovem colunista em ascensão, Rui Tavares consegue fazer-me obrigar a ler os seus artigos com toda a atenção todas as semanas. Até mesmo para desancar em Israel e desenrolar tudo aquilo que já se esperava que achasse sobre o conflito no Líbano, teve o cuidado de tentar elogiar «o povo de Israel» (embora eu ache que tal recurso seja uma pobre desculpa para debitar, em seguida, a tese geral das «potências agressoras»).
Pelo estranho vício de o ler, considero, por isso, Rui Tavares uma leitura obrigatória nos jornais da semana. Se há muita gente que marchou com a UDP nos bons velhos anos 70 mas hoje gosta sempre de visitar a coluna de Vasco Pulido Valente, eu pertenço a um outro género: os que, quando cansados da ladaínha extremamente desapaixonada do lado mais conservador, não hesita em ler Rui Tavares. Provavelmente, um futuro VPV. Na outra banda, é claro.
[João Carlos Silva]
Pequenos golpes
Mesmo durante uma curta ausência, fui-me apercebendo do facto de José Rodrigues dos Santos ser, talvez, o jornalista mais isento/honesto da nossa televisão nas reportagens sobre o conflito em Israel e no Líbano. O meu caro Bruno Alves chamara a atenção, há umas semanas, para o mesmo: «Rodrigues dos Santos (...) mostra também o que se passa nos locais atingidos por Israel. Mostra como são controlados pelo Hezbollah, como o Hezbollah tudo domina, e em todos manda. Pena que, mal acabem as reportagens de Rodrigues dos Santos, a RTP regresse à ladaínha dos "alvos exclusivamente civis", desmentida nas reportagens que ela própria emite, e que ela própria ignora».
Como tal, e como prémio para o sempre bem informado telespectador português, o jornalista já lá não está.
[João Carlos Silva]
Como tal, e como prémio para o sempre bem informado telespectador português, o jornalista já lá não está.
[João Carlos Silva]
sábado, agosto 05, 2006
Jogadores milionários
«Meu caro, o futebol dos heróis morreu. O futebol amor-da-pátria não existe mais. O craque quer é levar vida de milionário, crisálida que nasceu da sua miséria anterior. E mira-se orgulhoso no exemplo ao mesmo tempo maravilhoso e cheio de ciladas do caso racial e humano de Pelé. Antigamente os nossos cobras não tinham confiança em si próprios. Agora têm até de mais. E o Brasil não encontra onze que aceitem a ideia de que futebol tem de ser de novo sacrifício. Sabe? Tudo se chateia, porque, ricos, não têm mais a juventude sublime dos 18 anos...»
- Chianca de Garcia, Cartas do Brasil
[João Carlos Silva]
- Chianca de Garcia, Cartas do Brasil
[João Carlos Silva]
sexta-feira, agosto 04, 2006
O peso da desonestidade

Há dias vi com atenção esse grande clássico do cinema burlesco que é o Bowling for Columbine, de Michael Moore. A peça já era sobejamente conhecida. O realizador também. A insolência do homem é que merece sempre uma segunda e uma terceira revisões, no mínimo. Tal como um livro genial, o filme de Michael Moore merece ser visto inúmeras vezes. Verdade. Porquê? Porque Moore, do alto da sua ignorância, espalha várias pepitas da insignificância do seu carácter por tudo o que faz. E essas pequenas pérolas não são encontradas logo à primeira.
Facto: todos os jovens de Columbine, e de outros crimes, foram realmente atingidos em cheio pela violência dos acontecimentos. Facto: há, de facto, uma grande fatia de americanos que deseja ardentemente a total liberdade de possuir armas de determinado calibre, o que resulta na multiplicação das «armas de casa». Mas também há outros aspectos a apontar: primeiro, as pessoas envolvidas (a maioria involuntariamente, calculo) na montagem e realização do filme nunca tiveram noção do que Moore queria fazer com aquilo, ou onde iria com a sua brincadeira; segundo, a desonestidade de Moore, especialmente na montagem das sequências de filme, não tem limites; terceiro, a referida criatura usa e abusa, de forma desumana, dos dramas pessoais de cada um dos que estiveram no liceu de Columbine no fatídico dia do massacre ou em outras escolas com outros acontecimentos semelhantes.
Facto final: Moore tenta fazer um documentário de um filme onde manipula tudo e todos, num exercício de pobre retórica que enerva o ser mais pacífico, chegando ao ponto de filmar (com tal macabra intenção) Charlton Heston, no alto da sua já avançada idade, com já visíveis dificuldade em andar. A personalidade de Moore é portanto uma digna da mais carregada desconfiança, um ser complicado que sofreu graves perturbações morais - provavelmente como efeito secundário de visitas em excesso ao posto McDonald's local. Confesso que não consegui compreender onde queria Moore chegar com Bowling for Columbine. Mas não acho que tal seja grave, ou um defeito apenas meu. Aliás, até hoje só Clint Eastwood conseguiu compreender bem a criatura: «Se Michael Moore bater à minha porta, disparo contra ele».
[João Carlos Silva]
quinta-feira, agosto 03, 2006
Uma história da violência
A propósito das possíveis discorrências que nascem do assassinato de Gisberta, haverá talvez muito a dizer, a reflectir. O ponto final dessa discussão é que, parece-me, é um que nunca terá lugar para aparecer. Tal como a primeira linha, a primeira voz, dessa discussão, que se perde no passado. A discussão: deverão as «crianças» ser julgadas como adultos? Sou um dos indecisos crónicos que não tem um sólido tutano moral para responder prontamente.
As crianças não são os «anjos sem asas» de que toda a gente fala. Para além da falta de asas, têm uma notável falta de halo sobre as suas pequenas mas capazes cabeças. A sua excepcionalidade vem da vulnerabilidade física que têm. Por outro lado, a sua faculdade mais assustadora vem daquilo a que nós, bárbaros urbanos ultracivilizados, já não estamos habituados: a inexperiência. A mente como tábua rasa. Este aspecto assusta-nos, pondo-nos perante as mais macabras e violentas situações. Mas, crianças ou não, não deixam de ser humanos - em crescimento.
A verdadeira questão não está na idade a partir da qual deverão ou não ser julgados, assim como na questão do aborto não se deve tomar cinicamente como importante a partir de quantos meses um feto é ou não um feto, ou, como se diz, a partir de quantos meses é vida. A verdadeira questão é uma que está oculta, uma questão ética que nunca poderá ser resolvida. Assim como nunca um adulto cumpridor da lei conseguirá compreender o porquê das crianças, tal como os adultos, se insultarem mutuamente, e em especial ao «menino gordo» e ao «menino maricas». Essa crueldade das crianças é uma crueldade que, por muito que se analise ou se queira compreender, não poderá ser eliminada.
Devem as crianças ser educadas no sentido contrário desses comportamentos? Sim, seria um idiota se negasse que tal didáctica poderá ter efeitos positivos. Deverão as crianças ser protegidas para não tomarem certos comportamentos violentos como normais? Sim, se me explicarem como tal coisa pode ser feita sem afastar as crianças do mundo em que vivem. Mas se me perguntarem se devem ser castigadas, responsabilizadas pelos seus actos (como o que está em causa no «caso» das Oficinas de S. José no Porto), a resposta terá de ser afirmativa. Não positiva, mas afirmativa: não fazer dos jovens «exemplos», mas castigá-los pelo que fizeram. À falta dos instrumentos mágicos que façam do ser humano um ser pacífico, sociável, a lei - igual para todos mas responsável e responsabilizadora (tendo em conta a condição mental ou a idade do arguido) - ainda é o melhor que temos, o mais próximo que temos de uma sociabilidade mais segura.
[João Carlos Silva]
As crianças não são os «anjos sem asas» de que toda a gente fala. Para além da falta de asas, têm uma notável falta de halo sobre as suas pequenas mas capazes cabeças. A sua excepcionalidade vem da vulnerabilidade física que têm. Por outro lado, a sua faculdade mais assustadora vem daquilo a que nós, bárbaros urbanos ultracivilizados, já não estamos habituados: a inexperiência. A mente como tábua rasa. Este aspecto assusta-nos, pondo-nos perante as mais macabras e violentas situações. Mas, crianças ou não, não deixam de ser humanos - em crescimento.
A verdadeira questão não está na idade a partir da qual deverão ou não ser julgados, assim como na questão do aborto não se deve tomar cinicamente como importante a partir de quantos meses um feto é ou não um feto, ou, como se diz, a partir de quantos meses é vida. A verdadeira questão é uma que está oculta, uma questão ética que nunca poderá ser resolvida. Assim como nunca um adulto cumpridor da lei conseguirá compreender o porquê das crianças, tal como os adultos, se insultarem mutuamente, e em especial ao «menino gordo» e ao «menino maricas». Essa crueldade das crianças é uma crueldade que, por muito que se analise ou se queira compreender, não poderá ser eliminada.
Devem as crianças ser educadas no sentido contrário desses comportamentos? Sim, seria um idiota se negasse que tal didáctica poderá ter efeitos positivos. Deverão as crianças ser protegidas para não tomarem certos comportamentos violentos como normais? Sim, se me explicarem como tal coisa pode ser feita sem afastar as crianças do mundo em que vivem. Mas se me perguntarem se devem ser castigadas, responsabilizadas pelos seus actos (como o que está em causa no «caso» das Oficinas de S. José no Porto), a resposta terá de ser afirmativa. Não positiva, mas afirmativa: não fazer dos jovens «exemplos», mas castigá-los pelo que fizeram. À falta dos instrumentos mágicos que façam do ser humano um ser pacífico, sociável, a lei - igual para todos mas responsável e responsabilizadora (tendo em conta a condição mental ou a idade do arguido) - ainda é o melhor que temos, o mais próximo que temos de uma sociabilidade mais segura.
[João Carlos Silva]
quarta-feira, agosto 02, 2006
O falso veraneante
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Qualquer bom português espera o momento das férias para atirar ao ar a pastinha do emprego e assobiar bem alto. O destino agora é outro. As manhãs agora serão dedicadas a acordar... às 6 da manhã. O destino é outro, portanto. Depois de um ano de trabalho, é agora oportunidade para se dedicarem ao seu grande prazer, ao prazer mais perene e metafísico de todos. O destino: as praias...
Parece haver uma comovente mobilização geral todos os anos neste canto da Europa no que toca aos topos assoalhados. Tal qual um Ícaro especialmente eufórico, o português normal voa em direcção ao Sol, onde quer que ele esteja. Caso eu gostasse de fazer o mesmo, diria: com toda a razão. Mas não gosto.
A praia é, de facto, um sítio imemoriavelmente maldito para «a minha pessoa». Queimaduras. Cansaço. Tempo perdido. Sol nos olhos, nas costas e na cabeça. Impossível a leitura. Não o recomendo a ninguém, é claro. Mas, tal como as pessoas que não suportam o fumo mas evitam fazer a cara de nojinho e agitar a mão à frente do nariz, também eu evito reprovar aquilo que a esmagadora maioria dos outros parece fazer sem problemas... e sem pensar nas possíveis consequências «menos positivas».
A minha relação com a praia não é melhor do que aquela que Roy Scheider tinha com a água em Jaws. Por isso, insiro-me naquele curto, mas valente, lote de pessoas que anseia pelas férias como pela reforma, pela possibilidade de se fecharem em casa com mais afinco e mais livros, até o dia chegar no qual se sentirão um pouco sozinhas. Aí, nesse dia, talvez - apenas talvez - as portas de casa se voltarão a abrir revelando uma nesga de areia, um bracinho de água e um sol necessariamente murchinho. Só com esse sol de outono poderei voltar a pensar numa visita às praias de Portugal, esquecendo qualquer efeito nefasto da estrela maior. Até porque, não esqueço, foi debaixo de um sol assassino de Verão que este rapaz perdeu os sentidos e cometeu a imprudência de ler Manuel Tiago.
[João Carlos Silva]
domingo, julho 23, 2006
Os israelitas, esses opressores da região
Segundo uma reportagem num canal (respeitável) de outro país, uma família libanesa entrevistada - de aparência pobre - declarava, furiosa, que os membros do Hezbollah («terroristas», pelas suas palavras) são os culpados da crise e deviam ser apanhados. Disseram ainda que «só queriam condições para viver».
Nem uma menção, nem uma palavra contra Israel.
[João Carlos Silva]
Nem uma menção, nem uma palavra contra Israel.
[João Carlos Silva]
Segundo tratado sobre tascos
Passar por um tasco recôndito, na minha cidade, apenas para fazer a digestão não deve ser um acto menosprezado. Na verdade, é uma das acções mais gratificantes que um homem pode fazer. Eu diria mesmo que é uma das «cinco coisas a fazer antes de morrer», isso e votar em Mário Soares, entre outras tantas.
Ao passar a porta da baiuca para dentro, rapidamente ganhamos uma outra dimensão no nosso pequeno meio social. Como o exemplo do senhor José, que a dona Maria (dona da tasca) nunca antes viu, ganhar o apelido de «Baixinho» - apenas para ser tratado mais directamente pela matrona de serviço. Esqueçam o «se faz favor» e o «obrigado» (duas frases das quais admito não conseguir abdicar), não, na tasca os modos e a educação seguem outras linhas de orientação, outros graus: quer seja conhecer toda a gente, gostar do Vitória ou ser um dos últimos a abandonar o local do crime ao fim do dia.
Por outro lado, o elemento gastronómico é igualmente importante. Não só as moelas adquirem um valor comestível (que não consigo encontrar em qualquer outro lado), talvez pelo aroma que as frigideiras excessivamente usadas transmitem à comida, como também a bebida tem uma personalidade própria. Só nas tascas se bebem pequenos copos a vinte cêntimos, onde nem o vinho nem a gasosa que aí se misturam têm marca. Basta ver escrito nas garrafas Vinho e Gasosa para saber o que se bebe: nas tascas não se faz o vinho, o vinho acontece.
[João Carlos Silva]
Ao passar a porta da baiuca para dentro, rapidamente ganhamos uma outra dimensão no nosso pequeno meio social. Como o exemplo do senhor José, que a dona Maria (dona da tasca) nunca antes viu, ganhar o apelido de «Baixinho» - apenas para ser tratado mais directamente pela matrona de serviço. Esqueçam o «se faz favor» e o «obrigado» (duas frases das quais admito não conseguir abdicar), não, na tasca os modos e a educação seguem outras linhas de orientação, outros graus: quer seja conhecer toda a gente, gostar do Vitória ou ser um dos últimos a abandonar o local do crime ao fim do dia.
Por outro lado, o elemento gastronómico é igualmente importante. Não só as moelas adquirem um valor comestível (que não consigo encontrar em qualquer outro lado), talvez pelo aroma que as frigideiras excessivamente usadas transmitem à comida, como também a bebida tem uma personalidade própria. Só nas tascas se bebem pequenos copos a vinte cêntimos, onde nem o vinho nem a gasosa que aí se misturam têm marca. Basta ver escrito nas garrafas Vinho e Gasosa para saber o que se bebe: nas tascas não se faz o vinho, o vinho acontece.
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 18, 2006
Louçã: o cândido
Há dias, comentando o intensificar do conflito entre Israel e Líbano, Francisco Louçã declarou que aquele era apenas mais uma oportunidade para «George W. Bush» - o «dâbliu búsh» proferido em raiva traz outro sentido, tem sempre todo um mundo semântico por trás - fazer guerra ao Irão.
Eu sei que Louçã, entre outros milhares em Portugal, sonha com o dia em que o presidente americano tropeçará como Fidel tropeçou no palanque da outra vez. Mas sonhar com Bush dia e noite, sete dias por semana, todo o ano, ultrapassa mesmo a fé política mais carregada de alguma direita americana.
E esta obsessão de Louçã, atirada ao ar juntamente com a sua aversão primária a Israel (enquanto nação fundada naquela zona e enquanto aliada dos EUA), atropela a memória de todas as vezes em que a América condenou retaliações exageradas do exército israelita. Mais ainda, revela o oportunismo quase desumano de alguém que, distante do conflito, provavelmente achará mais grave Bush dizer «merda» do que o facto de soldados e civis israelitas serem sucessivamente raptados por grupos terroristas que se declaram (com o devido apoio) muçulmanos.
[João Carlos Silva]
Eu sei que Louçã, entre outros milhares em Portugal, sonha com o dia em que o presidente americano tropeçará como Fidel tropeçou no palanque da outra vez. Mas sonhar com Bush dia e noite, sete dias por semana, todo o ano, ultrapassa mesmo a fé política mais carregada de alguma direita americana.
E esta obsessão de Louçã, atirada ao ar juntamente com a sua aversão primária a Israel (enquanto nação fundada naquela zona e enquanto aliada dos EUA), atropela a memória de todas as vezes em que a América condenou retaliações exageradas do exército israelita. Mais ainda, revela o oportunismo quase desumano de alguém que, distante do conflito, provavelmente achará mais grave Bush dizer «merda» do que o facto de soldados e civis israelitas serem sucessivamente raptados por grupos terroristas que se declaram (com o devido apoio) muçulmanos.
[João Carlos Silva]
segunda-feira, julho 17, 2006
3
Três anos. Há três anos anda este rapaz a carregar uma desesperada esperança. Uma que, por muito desesperada que seja, continua e continuará cá por mais tempo. Parabéns.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sexta-feira, julho 14, 2006
As cadeiras
A minha atracção por cafés «semi-vazios» voltou, agora que o Mundial (infelizmente, por outro lado) acabou. Já voltou a ser possível chegar a qualquer hora do dia ao café da rua, do fim da rua, ou da esquina, e escolher uma mesa decente para me sentar - com as distâncias bem medidas, para que seja possível, com igual facilidade, gritar e arreliar o dono do café e atirar as beatas para a rua num jeitinho de dedos à taberneiro.
Com as vagas de calor e com uma antipatia muito pessoal em relação à praia, o snack-bar ou o café voltam a ser obrigatórios para alguns fins de tardes dedicados a livros, folhas e canetas. Especialmente porque, no dia em que o francês deu uma cabeçada ao italiano e em que Blatter nos deu uma cabeçada a todos nós, acabou (nos cafés) aquela dança das cadeiras que mais parecia a tomada de posse de um governo do PS.
[João Carlos Silva]
Com as vagas de calor e com uma antipatia muito pessoal em relação à praia, o snack-bar ou o café voltam a ser obrigatórios para alguns fins de tardes dedicados a livros, folhas e canetas. Especialmente porque, no dia em que o francês deu uma cabeçada ao italiano e em que Blatter nos deu uma cabeçada a todos nós, acabou (nos cafés) aquela dança das cadeiras que mais parecia a tomada de posse de um governo do PS.
[João Carlos Silva]
Viver na aldeia
Muitos de nós gostaremos ou saberemos dizer, prontamente, que uma das coisas que nos dá mais gosto fazer é ler um bom livro. No entanto, para quem ler bons livros se tornou já uma rotina aqui e ali viciante mas desapaixonada, um dos grandes prazeres continua a ser gritar depois de almoço, com um palito a aprumar o sorriso, à mulher: «Maria, guarda os ossos que é para dar de comer aos animais!». Isto, é claro, enquanto se aproveita para estampar as costas da mão na bochecha da criança.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quinta-feira, julho 13, 2006
O estado das coisas
Há aí um jovem promissor que escreveu uma frase muito profunda.
«Recordar é bem capaz de ser pior do que levar um tiro no peito.»
[Paulo Ferreira]
«Recordar é bem capaz de ser pior do que levar um tiro no peito.»
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, julho 12, 2006
Leitores
Há dois tipos de leitores: aqueles que procuram identificar-se com o escritor; e aqueles que procuram identificar-se com uma personagem.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 11, 2006
O homem que ria para escrever

Fernando Assis Pacheco (1937-1995), um grande escritor? A pergunta poderá cair num grande vazio, onde ninguém a espera, onde ninguém lhe oferece resposta. De facto, mesmo se esse vazio estiver preenchido, é difícil trazer-lhe resposta. É difícil, mesmo, avaliar Assis Pacheco enquanto escritor, ou apenas como tal. Assis Pacheco ramificou (talvez de forma nefasta para vingar no campo do romance) a sua obra, os seus caminhos, de escritor em diversas áreas: romance, poesia, crítica, crónicas, até entrevistas. É, realmente, difícil encontrar um campo em que ele não tenha dado uma perninha. Mas, curiosamente, em todos eles Fernando Assis Pacheco traz a mesma «pena».
A escrita de Pacheco tem, sim, sempre o mesmo motor por trás: um grande sentido de humor. Não serão, portanto, alheias ao leitor expressões aproximadas a «passando-lhe o tempero de alto a abaixo, enfiou-lhe um espeto de pau pelas nalgas e pô-lo a assar». Ou mesmo, num outro registo, «enchi a pata» ou «olé que lá vai ela». A Assirio & Alvim tem, feito, inclusivamente, um pequeno esforço para trazer a lume alguns inéditos de um autor já de si fragmentado nas editoras ou, pelo menos, de escassa edição (normalmente, tem as suas obras na ASA), e o Memórias de um Craque é um «pequeno» livro imperdível dentro do espaço desse esforço da Assírio.
Será um grande escritor? Tendo em conta o seu género de humor, muito a puxar para o vernáculo (e eu, admito, derreto-me com uma escrita que saiba utilizá-lo bem), poderá ser tido como um «granda escritor» por muita gente menos exigente, que esquece o que está sob essa primeira camada literária. Debaixo dela está um homem de grande sensibilidade, cultíssimo, com uma modéstia digna de um génio capaz de deixar obra importante até em crónicas da bola, mas também com um talento considerável capaz de pôr burgessos na lista de personagens a reter na literatura portuguesa. Pode não ter sido um «grande escritor», mas foi sem dúvida um grande homem com talento para a escrita.
[João Carlos Silva]
domingo, julho 09, 2006
Namora: entre a simpatia e o tédio
Leio vários livros de Fernando Namora e fico com uma vontade enorme de doar todo o meu sangue a quem dele precisa. Mas também eu preciso do meu sangue. Sou muito egoísta. Namora escreve elegias à União Soviética, sonha com o Estado Social dos países nórdicos, fala com uma bondade extrema. E eu sensibilizo-me. Mas sou egoísta. Não posso gostar de regimes que lutavam pela igualdade (inexistente enquanto conceito aplicável ao mundo dos vivos, esta palavra). Não posso gostar de regimes que partiam do operariado para os senhores do partido. Não posso. E, por isso, não posso concordar com nada do que aparece nos livros do homem que morreu a praticar o bem. Contudo, tem de se perceber o contexto da época do homem que escreveu coisas como Os Adoradores do Sol. Esse contexto era o neo-realismo, era um contexto, mais que literário, cultural, no qual se escrevia com uma mão pouco desprendida, no qual o amor aos heróis que lutaram pelo povo se impunha à barbárie corrupta dos tempos modernos. A América nunca poderia ser adorada por intelectuais apegados ao campesinato. É muito mais fácil nutrir carinho por sociedades onde a população vive toda pobre mas igual, do que por sociedades repletas de desigualdades e de oportunidade de ascensão e de queda por parte daqueles que procuram viver de dinheiro (perceba-se que o dinheiro, neste momento, é tudo, inclusive a literatura).
Fernando Namora não é um homem de difícil compreensão. Apesar de escrever bem, muito bem, este intelectual, que também foi médico e filantropo, não entusiasma. Os livros de Namora são de entediar as moscas mais atarantadas. Exceptuando O Rio Triste ou Cidade Solitária, pouco de interessante há a retirar da obra de Namora. Temos os livros de viagens propagandísticos que, vá-se lá saber porquê, Namora apelidou de cadernos de um escritor, que são das coisas mais aborrecidas que tive oportunidade de ler. Temos narrativas literário-sociológicas ( Estamos no Vento, por exemplo), temos, enfim, escritos que não satisfazem o olhar, ao mesmo tempo aguçado e desprevenido, do leitor que queira conhecer a literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Refira-se, no entanto, que a literatura portuguesa, seja de que século for, não costuma ser conhecida pela sua qualidade elevada. Há até quem fale de «Portugalzinho» quando aparece um novo escritor ou colunista de mangas arregaçadas e pronto a escandalizar as mentes provinciais da paróquia nacional com os seus comentários acutilantes, com os seus rasgos de estilo geniais, do género «amei, sofri». No fundo, Namora não tem nada de novo. É pouco original. Traz pouco ao mundo da literatura. Não obstante tudo isso, eu simpatizo com ele.
[Paulo Ferreira]
Fernando Namora não é um homem de difícil compreensão. Apesar de escrever bem, muito bem, este intelectual, que também foi médico e filantropo, não entusiasma. Os livros de Namora são de entediar as moscas mais atarantadas. Exceptuando O Rio Triste ou Cidade Solitária, pouco de interessante há a retirar da obra de Namora. Temos os livros de viagens propagandísticos que, vá-se lá saber porquê, Namora apelidou de cadernos de um escritor, que são das coisas mais aborrecidas que tive oportunidade de ler. Temos narrativas literário-sociológicas ( Estamos no Vento, por exemplo), temos, enfim, escritos que não satisfazem o olhar, ao mesmo tempo aguçado e desprevenido, do leitor que queira conhecer a literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Refira-se, no entanto, que a literatura portuguesa, seja de que século for, não costuma ser conhecida pela sua qualidade elevada. Há até quem fale de «Portugalzinho» quando aparece um novo escritor ou colunista de mangas arregaçadas e pronto a escandalizar as mentes provinciais da paróquia nacional com os seus comentários acutilantes, com os seus rasgos de estilo geniais, do género «amei, sofri». No fundo, Namora não tem nada de novo. É pouco original. Traz pouco ao mundo da literatura. Não obstante tudo isso, eu simpatizo com ele.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, julho 06, 2006
Herói
Com as suas fintas lentas, com o seu cabelo caprichado, com o seu estilo guerreiro, Luís Figo, o melhor jogador nacional (quase) de sempre, merecia estar presente numa final de um Campeonato do Mundo. Ontem sofri por ele.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
terça-feira, julho 04, 2006
quarta-feira, junho 28, 2006
terça-feira, junho 27, 2006
Calças Brancas
A série Miami Vice marcou tanto a minha infância que, ainda hoje, me imagino na pele do homem que prendia criminosos sem sujar as suas calças brancas. Bum!, Bum!, tiro neste, tiro naquele e o Nené sempre de camisa limpinha.

Don Johnson
[Paulo Ferreira]

Don Johnson
[Paulo Ferreira]
Gender Studies III
Ao ler Lust, da austríaca feminista Elfriede Jelinek, apercebi-me de que se usam palavras como «piça», em vez de «pénis», para dar mais ênfase ao «instrumento» da personagem do director. Presumo que, ao fazer a tradução para o português, a tradutora não se tenha excitado com o que ia lendo, caso contrário, a «piça» não viria da austríaca mas sim da vagina e eu estaria enganado na colocação da empáfia. De qualquer forma, se fosse eu a traduzir o texto original, usaria lexemas como maça, moca, clava, ou mesmo cachaporra para definir aquilo que nunca pode ser «piça». Piça, piça, mas qual piça qual quê! Piça faz lembrar pinça e a coisa tem de ser grande.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 26, 2006
Earth

KELVIN : I work in the city now. After work I wander and lose myself. I am silent and attentive. I follow the current. I make a conscious effort to smile, nod, stand, and perform the millions of gestures that constitute life on Earth.
(George Clooney em Solaris, de Steven Soderbergh)
[Paulo Ferreira]
Gender Studies II
E nunca se satisfazem os senhores, mesmo que nos fizéssemos de rainhas.
- Elfriede Jelinek, Lust
[Paulo Ferreira]
- Elfriede Jelinek, Lust
[Paulo Ferreira]
sábado, junho 24, 2006
Ouvir a cidade
-19 aninhos...
-Aquilo foi de estudar, de certeza.
-Estudava tanto, tanto, tanto. Uma vida pela frente...
-É, temos de andar a pau com eles. Veja lá que ainda no outro dia cheguei a encontrar a minha Sónia a estudar de noite!
-Credo!
-Verdade. Bem lhe digo: «filha, põe os olhos no outro, vê bem o que fazes». Mas ela não me ouve.
-É das idades.
-E não é que é mesmo? Ainda no outro dia eram dez da noite e ela para mim: «vou sair um bocadinho para tomar um café». Não tive rodeios, «tá bem tá, eu sei muito bem qual é o teu café... vais mas é estudar prá biblioteca que eu já sei qual é o teu café». Ela a querer dar-me a volta a dizer que era pró café. Esta mulher que vê aqui já cá está há muitos aninhos.
-Hoje em dia já não há aquele respeito de antigamente.
-Pois não. Mas eu disse-lhe logo: «filha, ficas hoje em casa a ver um bocadinho de televisão, que não tens idade para isso e a tua mãe bem conhece essas coisas».
-E ficou?
-Ficou.
-Temos de cuidar dos nossos.
-Temos pois. Se eu não pusesse mão na minha Sónia havia de ser o lindo.
-Olha o outro.
-Esse aí diz que nem almoçava para estudar...
-19 aninhos...
-É uma pena.
[João Carlos Silva]
-Aquilo foi de estudar, de certeza.
-Estudava tanto, tanto, tanto. Uma vida pela frente...
-É, temos de andar a pau com eles. Veja lá que ainda no outro dia cheguei a encontrar a minha Sónia a estudar de noite!
-Credo!
-Verdade. Bem lhe digo: «filha, põe os olhos no outro, vê bem o que fazes». Mas ela não me ouve.
-É das idades.
-E não é que é mesmo? Ainda no outro dia eram dez da noite e ela para mim: «vou sair um bocadinho para tomar um café». Não tive rodeios, «tá bem tá, eu sei muito bem qual é o teu café... vais mas é estudar prá biblioteca que eu já sei qual é o teu café». Ela a querer dar-me a volta a dizer que era pró café. Esta mulher que vê aqui já cá está há muitos aninhos.
-Hoje em dia já não há aquele respeito de antigamente.
-Pois não. Mas eu disse-lhe logo: «filha, ficas hoje em casa a ver um bocadinho de televisão, que não tens idade para isso e a tua mãe bem conhece essas coisas».
-E ficou?
-Ficou.
-Temos de cuidar dos nossos.
-Temos pois. Se eu não pusesse mão na minha Sónia havia de ser o lindo.
-Olha o outro.
-Esse aí diz que nem almoçava para estudar...
-19 aninhos...
-É uma pena.
[João Carlos Silva]
quinta-feira, junho 22, 2006
quarta-feira, junho 21, 2006
Verso para um aeroporto
Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
- António Franco Alexandre, Uma Fábula
[Paulo Ferreira]
- António Franco Alexandre, Uma Fábula
[Paulo Ferreira]
Novidade
O meu pretensiosmo vai passar para este blog. Por seu lado, o Causa das Coisas vai voltar ao seu estilo primitivo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, junho 20, 2006
Diferença
Não percebe de futebol quem passa um jogo a dizer que o Ronaldo Nazario de Sousa anda em baixo de forma, para depois afirmar, sem vergonha ou temor, que o senhor Pedro Miguel Carreiro Resendes («Pauleta») faz jogos heróicos.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 19, 2006
O desconhecido
Pois claro que as tuas ideias podem não ser melhores do que as ideias dos outros. É normal que nem toda a gente seja dotada da mesma capacidade criativa. É, de igual modo, normal que as melhores ideias não te venham à cabeça quando mais precisas delas (não és um computador). O que não é normal é que ninguém apele à originalidade para pensar.
Erro: o pensamento não é conhecido pela sua originalidade. No outro dia, ao pensar em mortes, lembrei-me de um cantor norte-americano que espetou uma faca no peito e lembrei-me de concluir o seguinte: a ideia, não passando de uma representação imaginária, raramente se pode associar a algo que nunca tenha acontecido. A não ser assim, viveríamos na abstracção, no extra-cosmos.
Poucas coisas vivas têm carácter próprio.
Poucas coisas são feitas sem modelo.
Tudo o que pode ser construído com excêntricidade tem dificuldades em ser singular.
Não há nada na mente humana que já não tenha sido feito.
[Paulo Ferreira]
Erro: o pensamento não é conhecido pela sua originalidade. No outro dia, ao pensar em mortes, lembrei-me de um cantor norte-americano que espetou uma faca no peito e lembrei-me de concluir o seguinte: a ideia, não passando de uma representação imaginária, raramente se pode associar a algo que nunca tenha acontecido. A não ser assim, viveríamos na abstracção, no extra-cosmos.
Poucas coisas vivas têm carácter próprio.
Poucas coisas são feitas sem modelo.
Tudo o que pode ser construído com excêntricidade tem dificuldades em ser singular.
Não há nada na mente humana que já não tenha sido feito.
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, junho 14, 2006
Milagre
Reza a lenda que uma das mais brutais formas de tortura milagrosa costumava estar associada a leves gotas de água. Expliquemo-nos: rapando o cabelo a um homem (preso) e deixando que ao longo de vários dias lhe caíssem várias gotas de água em cima do crânio desprotegido, assistir-se-ia à teoria do milagre: a água transformava-se em tijolo e as pancadas começavam a doer.
Porém,os milagres não são milagres quando se está a pensar em metáforas. A ausência, com o tempo, começa a ter efeito cortante. Quanto à água, essa apenas molha.
[Paulo Ferreira]
Porém,os milagres não são milagres quando se está a pensar em metáforas. A ausência, com o tempo, começa a ter efeito cortante. Quanto à água, essa apenas molha.
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 12, 2006
Morte em palco
O actor manchado de sangue (tinta vermelha) ri-se para o público, demonstrando, dessa forma, que também os que morrem têm direito a momentos de felicidade.
Mas que tipo de felicidade terão os moribundos, os verdadeiros moribundos, aqueles que sofrem a vida real?
Será preciso espetar um punhal no peito para se compreender a felicidade dos que partem?
Voltemos ao actor. Retiremos-lhe o palco e a tinta vermelha e incutamos-lhe um pouco de dor física (basta uma forte enxaqueca). Rir-se-á ele para os espectadores quando já não tiver palco que o ampare ou fingimento que lhe sirva para atenuar a dor? Se for bom actor, sim, rir-se-á. Actuar também é esconder a própria agonia, pelo menos se a personagem tiver que morrer com um sorriso nos lábios.
Mas nem toda a gente morre com dor. Nos filmes, morre-se com um friozinho na espinha e diz-se adeus aos amados com um «amo-te muito». O mesmo acontece na vida real. O velho desdentado que afaga os cabelos do neto antes de partir para outro mundo nunca pode ser esquecido.
Fingir a alegria, portanto, é o que todos nós fazemos quando já ninguém nos dá oportunidade para prolongarmos o ar e a respiração. Ou tudo o que fazes na vida tem que corresponder exactamente àquilo que és e sempre foste, cá dentro e lá fora?
[Paulo Ferreira]
Mas que tipo de felicidade terão os moribundos, os verdadeiros moribundos, aqueles que sofrem a vida real?
Será preciso espetar um punhal no peito para se compreender a felicidade dos que partem?
Voltemos ao actor. Retiremos-lhe o palco e a tinta vermelha e incutamos-lhe um pouco de dor física (basta uma forte enxaqueca). Rir-se-á ele para os espectadores quando já não tiver palco que o ampare ou fingimento que lhe sirva para atenuar a dor? Se for bom actor, sim, rir-se-á. Actuar também é esconder a própria agonia, pelo menos se a personagem tiver que morrer com um sorriso nos lábios.
Mas nem toda a gente morre com dor. Nos filmes, morre-se com um friozinho na espinha e diz-se adeus aos amados com um «amo-te muito». O mesmo acontece na vida real. O velho desdentado que afaga os cabelos do neto antes de partir para outro mundo nunca pode ser esquecido.
Fingir a alegria, portanto, é o que todos nós fazemos quando já ninguém nos dá oportunidade para prolongarmos o ar e a respiração. Ou tudo o que fazes na vida tem que corresponder exactamente àquilo que és e sempre foste, cá dentro e lá fora?
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, junho 09, 2006
Dever dinheiro
Dever dinheiro tem o seu quê de trágico. Nem que sejam os trinta e sete cêntimos que não nos lembramos de pagar ao credor. A qualquer momento surge a interrogação desinteressada: «olha, estás-me a dever dinheiro, não é? Não é preciso dares-mo já, era só para saber...». Pela largueza de espírito, um prémio. O devedor crucificado em praça pública. O que não deixa de ter graça. Clap clap clap, a contradição entre o agiota e o pobre, por trinta e sete cêntimos dos quais nunca se percebe bem de onde vieram os sete. Esta tragédia retratou-a melhor Joseph Roth num seu livro: um bêbado que deve duzentos francos à Santa (exactamente, à «santinha») não deixa de ser uma forma genialmente literária do drama do devedor-não-pagador.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quinta-feira, junho 08, 2006
Apenas desistir
Era uma vez um homem que se apaixonava como quem tem enxaquecas. Mas, como era muito feio e ninguém o queria, o homem nunca se envolvia fisicamente com ninguém (alimentava os seus amores exclusivamente a partir de casa).
E tudo o que era verdade na vida deste ser era a preponderância da não desistência.
«Não desistir, nunca desistir», pensava abundantemente.
Mas ninguém mantém uma persistência inabalável quando muito se caminha e poucas vezes se consegue manter o equilíbrio. Mas ele queria tanto. Mas ele precisava tanto. E ninguém olhava para ele. O seu telefone, quando tocava, ou anunciava um curso de línguas fantástico ou simplesmente reafirmava o inexorável caminho de um desgraçado: «Enganei-me no número.» Os seus familiares, quando o visitavam, apenas davam conta das tragédias do mundo. O seu trabalho não existia (secção: desemprego).
No entanto, como nem tudo na existência desta aberração poderia correr mal, um dia deu-se o amor. E o resultado foi: três balas com partida do maxilar para o tecto.
Muito carinho recebeu o senhor daquela pistola. Sim senhor.
[Paulo Ferreira]
E tudo o que era verdade na vida deste ser era a preponderância da não desistência.
«Não desistir, nunca desistir», pensava abundantemente.
Mas ninguém mantém uma persistência inabalável quando muito se caminha e poucas vezes se consegue manter o equilíbrio. Mas ele queria tanto. Mas ele precisava tanto. E ninguém olhava para ele. O seu telefone, quando tocava, ou anunciava um curso de línguas fantástico ou simplesmente reafirmava o inexorável caminho de um desgraçado: «Enganei-me no número.» Os seus familiares, quando o visitavam, apenas davam conta das tragédias do mundo. O seu trabalho não existia (secção: desemprego).
No entanto, como nem tudo na existência desta aberração poderia correr mal, um dia deu-se o amor. E o resultado foi: três balas com partida do maxilar para o tecto.
Muito carinho recebeu o senhor daquela pistola. Sim senhor.
[Paulo Ferreira]
O cadáver
«Debruçou-se para o cadáver, apalpou a queixada e verificou que estava firme: arreganhou os lábios e meteu o cartão nos dentes e gengivas. Era o momento; o assistente observava com indefectível admiração o subtil adejar dos polegares com que ele levantou os cantos do cartão, a carícia das pontas dos dedos com que ele repôs no seu lugar os lábios descorados e secos. E - atentai! - onde houvera a linha áspera do sofrimento havia agora um sorriso.»
- Evelyn Waugh, O Ente Querido, trad. de Jorge de Sena
[João Carlos Silva]
- Evelyn Waugh, O Ente Querido, trad. de Jorge de Sena
[João Carlos Silva]
quarta-feira, junho 07, 2006
Ilhas
Cair no chão estatelado é tudo o que um homem pode fazer quando nada mais existe.
Deixa-se de viver quando uma válvula do coração deixa de funcionar.
Morre-se quando o amor se acaba e quando se quer muito mas muito uma pessoa que já não nos conhece.
A loucura aparece no momento em que, depois de versos como «I used to pray to recover you» (Sylvia Plath), se põe a cabeça dentro de um forno de fogo e se explode o cérebro, como se este fosse um gafanhoto prazenteiramente esmagado por uma sola de sapato.
Tropeçar numa pedra e partir um pouco de osso é algo que não costuma matar: como as costureiras, também os médicos são profissionais na arte de coser. Mas o amor.
A vida separa-nos a todos, seres apaixonados, em dois e dois seremos até morrermos. Não somos como o chumbo que se derrete e se pode unir. Não somos como a bala que rompe o pêlo, a pele e a carne até se unificar com um órgão que, mais tarde, se tornará podre e escuro como a noite em que três pescadores de tubarões choraram em alto mar a perseguir os seus sonhos.
Somos ilhas aos tropeções.
[Paulo Ferreira]
Deixa-se de viver quando uma válvula do coração deixa de funcionar.
Morre-se quando o amor se acaba e quando se quer muito mas muito uma pessoa que já não nos conhece.
A loucura aparece no momento em que, depois de versos como «I used to pray to recover you» (Sylvia Plath), se põe a cabeça dentro de um forno de fogo e se explode o cérebro, como se este fosse um gafanhoto prazenteiramente esmagado por uma sola de sapato.
Tropeçar numa pedra e partir um pouco de osso é algo que não costuma matar: como as costureiras, também os médicos são profissionais na arte de coser. Mas o amor.
A vida separa-nos a todos, seres apaixonados, em dois e dois seremos até morrermos. Não somos como o chumbo que se derrete e se pode unir. Não somos como a bala que rompe o pêlo, a pele e a carne até se unificar com um órgão que, mais tarde, se tornará podre e escuro como a noite em que três pescadores de tubarões choraram em alto mar a perseguir os seus sonhos.
Somos ilhas aos tropeções.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, junho 06, 2006
O esquerdo e o direito III
O olho esquerdo pisca, o olho direito permanece aberto: fazes testes de visão para tentares perceber com qual dos dois olhos vês pior, mas não chegas a conclusão alguma (apenas ficas mais confuso e assustado).
Um dia se passa.
Dois dias se passam.
Três dias se passam.
O teu amor atira-se de um quarto andar e tu não entendes.
Quatro dias se passam.
Piscas os olhos intermitentemente: um pouco de névoa aqui, uma letra tremida ali.
Dá-se uma praga de borboletas na cidade e tu não dás por isso: continuas preocupado com o esquerdo e com o direito.
[Paulo Ferreira]
Um dia se passa.
Dois dias se passam.
Três dias se passam.
O teu amor atira-se de um quarto andar e tu não entendes.
Quatro dias se passam.
Piscas os olhos intermitentemente: um pouco de névoa aqui, uma letra tremida ali.
Dá-se uma praga de borboletas na cidade e tu não dás por isso: continuas preocupado com o esquerdo e com o direito.
[Paulo Ferreira]
domingo, junho 04, 2006
Festa gorda
Não percebo o porquê de se achar que anda aí uma euforia exagerada e imbecil com o Mundial de futebol. Que é o mesmo que dizer que eu também acho que anda aí uma euforia exagerada e imbecil com o Mundial de futebol. Mas realmente não percebo o porquê desta pequena repulsa, visto que a par do Mundial, que a esmagadora maioria vai ver em casa ou no café, também começou o tal Rock in Rio - se é verdade que muita gente que anda agora pelos cantos a chorar os jogos de Portugal ou a passagem do príncipe Cristiano Ronaldo pelo Alentejo nunca se interessou por futebol, não o é menos que há gente sem o menor interesse por música e sem conhecer uma única banda que gastou duas dezenas de contos só para meter o bedelho no centro comercial da música.
Nem o facto de, segundo o telejornal, no Rock in Rio, haver cinco meninas a esconder preservativos nas cuecas para qualquer voluntário as revistar parece fazer valer a pena todo aquele circo em volta do que se diz ser uma série de concertos. Assim como o facto de eu não querer que a selecção portuguesa perca (pelo menos) os primeiros quatro ou cinco jogos consegue fazer valer a pena horas e horas de notícias dedicadas ao pequeno-almoço do Pauleta em Évora. Mas deve ser coisa de gerações: antes nem todos conheciam o Axel Rose e o Tim, e nunca viram ninguém a chorar pela bela peruca do Fernando Couto, pois não?

[João Carlos Silva]
Nem o facto de, segundo o telejornal, no Rock in Rio, haver cinco meninas a esconder preservativos nas cuecas para qualquer voluntário as revistar parece fazer valer a pena todo aquele circo em volta do que se diz ser uma série de concertos. Assim como o facto de eu não querer que a selecção portuguesa perca (pelo menos) os primeiros quatro ou cinco jogos consegue fazer valer a pena horas e horas de notícias dedicadas ao pequeno-almoço do Pauleta em Évora. Mas deve ser coisa de gerações: antes nem todos conheciam o Axel Rose e o Tim, e nunca viram ninguém a chorar pela bela peruca do Fernando Couto, pois não?

[João Carlos Silva]
sábado, junho 03, 2006
O esquerdo e o direito II
Uma bruxa à tua frente e não a vês: és cego. Apesar de essas míticas feiticeiras se esconderem para praticarem o mal, nada impede que tu as vejas. Nem a escuridão. Nem o sol que te encandeia. Só não reparas nelas se fores cego.
Mas não te preocupes. Não morrerás de cegueira se não conseguires ver o mundo à tua volta. Há escritores que fazem livros de cabeça. Há políticos que aprendem a sua profissão no cabeleireiro. Portanto, relaxa. As bruxas não interessam a ninguém.
No entanto, se alguém te disser que os olhos só servem para coisas como a coscuvilhice ou o caciquismo, mente-te.
Os teus olhos são a visão.
Os teus olhos são a ciência que se reproduz nos animais que acasalam incessantemente.
Os teus olhos são a tua certeza, o teu método de análise, a tua margem de erro.
Os teus olhos são como pequenas pérolas preciosas que têm de ser preservadas: não os gastes.
[Paulo Ferreira]
Mas não te preocupes. Não morrerás de cegueira se não conseguires ver o mundo à tua volta. Há escritores que fazem livros de cabeça. Há políticos que aprendem a sua profissão no cabeleireiro. Portanto, relaxa. As bruxas não interessam a ninguém.
No entanto, se alguém te disser que os olhos só servem para coisas como a coscuvilhice ou o caciquismo, mente-te.
Os teus olhos são a visão.
Os teus olhos são a ciência que se reproduz nos animais que acasalam incessantemente.
Os teus olhos são a tua certeza, o teu método de análise, a tua margem de erro.
Os teus olhos são como pequenas pérolas preciosas que têm de ser preservadas: não os gastes.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, junho 01, 2006
O branco do papel
Uma folha de papel em branco não serve ao escritor porque representa o vazio.
A música e a leitura dão asas à literatura. O mesmo acontece com o cinema ou com a vida real. Tudo o que simbolize um pequeno gesto respiratório ajuda, portanto, o artista das palavras a movimentar-se dentro do pequeno rectângulo. Mas o mesmo acontece com os pequenos silêncios que marcam a ascendência nervosa. Ou com a morte e a ausência.
Não há escritor que parta do branco para a sua viagem horizontal.
Os fantasmas não vêm do nada.
[Paulo Ferreira]
A música e a leitura dão asas à literatura. O mesmo acontece com o cinema ou com a vida real. Tudo o que simbolize um pequeno gesto respiratório ajuda, portanto, o artista das palavras a movimentar-se dentro do pequeno rectângulo. Mas o mesmo acontece com os pequenos silêncios que marcam a ascendência nervosa. Ou com a morte e a ausência.
Não há escritor que parta do branco para a sua viagem horizontal.
Os fantasmas não vêm do nada.
[Paulo Ferreira]
O tronco de árvore
Concepção sacralizada do mundo: um par de seios.
Vejo uma mulher a bambolear-se com um leque e excito-me (só fica com o pénis erecto quem se excita; se quisesse emocionar-me, chorava).
Uma saia de verão e uns cabelos encaracolados. Nabokov.
«Quero-te esta tarde.»
Os nossos corações não batem como se fossem um, mas ela é bela e os seus seios são sagrados. Nunca lhes toquei.
Ser jovem é não ler e sorrir (o seu sorriso incendeia-me os ossos).
E o calor aparece e nós vivemos na lua.
E um dia virá o Outono.
[Paulo Ferreira]
Vejo uma mulher a bambolear-se com um leque e excito-me (só fica com o pénis erecto quem se excita; se quisesse emocionar-me, chorava).
Uma saia de verão e uns cabelos encaracolados. Nabokov.
«Quero-te esta tarde.»
Os nossos corações não batem como se fossem um, mas ela é bela e os seus seios são sagrados. Nunca lhes toquei.
Ser jovem é não ler e sorrir (o seu sorriso incendeia-me os ossos).
E o calor aparece e nós vivemos na lua.
E um dia virá o Outono.
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 31, 2006
A mais bela história
A mais bela das mulheres (porque tu a amas) apaixona-se por ti e tu deixa-la fugir, como se ela fosse um pássaro que, a pouco e pouco, vai perdendo as penas até se deixar morrer.
Uma grande mentira que se inventou foi o amor correspondido.
Quando duas pessoas se enamoram uma pela outra, tudo parece indicar que se gera um sentimento universal, inabalável. No entanto, o Amor tem uma substância demasiadamente pesada para que possa ser suportado por duas pessoas ao mesmo tempo. É por isso que uma relação nunca é vivida da mesma maneira pelo par. Enquanto um sofre, o outro pensa que tudo decorre de forma perfeita. Enquanto um está em casa à espera que uma nova manhã apareça para que possa ver o seu amado, o outro está num hotel a fornicar uma brasileira calejada.
Todas as moedas têm duas faces. Eu posso ser a insígnia real e tu a cara do imperador. Mas nunca nos podemos juntar do mesmo lado. Com os sentimentos se passa o mesmo. O que não quer dizer que amar seja impossível: olhando para a fotografia da minha esposa, posso amar de uma forma que nunca ninguém amou.
Contudo, a mais bela das mulheres apaixonou-se por mim e eu deixei-a fugir. E ela amou-me de uma forma impossível, já que fugiu e eu não a apanhei. E ela agora chora.
[Paulo Ferreira]
Uma grande mentira que se inventou foi o amor correspondido.
Quando duas pessoas se enamoram uma pela outra, tudo parece indicar que se gera um sentimento universal, inabalável. No entanto, o Amor tem uma substância demasiadamente pesada para que possa ser suportado por duas pessoas ao mesmo tempo. É por isso que uma relação nunca é vivida da mesma maneira pelo par. Enquanto um sofre, o outro pensa que tudo decorre de forma perfeita. Enquanto um está em casa à espera que uma nova manhã apareça para que possa ver o seu amado, o outro está num hotel a fornicar uma brasileira calejada.
Todas as moedas têm duas faces. Eu posso ser a insígnia real e tu a cara do imperador. Mas nunca nos podemos juntar do mesmo lado. Com os sentimentos se passa o mesmo. O que não quer dizer que amar seja impossível: olhando para a fotografia da minha esposa, posso amar de uma forma que nunca ninguém amou.
Contudo, a mais bela das mulheres apaixonou-se por mim e eu deixei-a fugir. E ela amou-me de uma forma impossível, já que fugiu e eu não a apanhei. E ela agora chora.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, maio 30, 2006
Sorteio
É possível que a cada três homens dois deles estejam destinados à mediocridade. Assim como outros dois deles estejam destinados a ser alguém na vida.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
autobiografia 10
Uma ausência é sempre uma longa ausência. E forçada, para ser um pouco mais azeda. Qualquer homem que se preze tira uma mês de vez em quando para morrer um pouco mais. Sozinho.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sábado, maio 27, 2006
Descer ao pó
Bater com o queixo no chão pode não ser das coisas mais fascinantes da existência humana, mas às vezes é necessário que se percam algumas gotas de sangue num soalho de madeira para que se perceba que a superioridade não advém da inteligência ou da precocidade intelectual.
Em miúdo parti o queixo enquanto tentava iludir uma inocente ninfeta com promessas de uma paixão que, só anos mais tarde, viria a reconhecer como urgente para a minha sobrevivência. Ganhei uma cicatriz vitalícia, um traço de sangue para acalmar o medo nas horas de maior aflição.
Mas nunca percebi.
O entendimento ganha uma maior lucidez quando se vivem situações de real perigo ou aflição.
Ouvi na televisão que um jogador de futebol perdeu um dedo a festejar um golo com os seus adeptos. Isso não é chegar a entender. Se o jogador voltar a marcar um golo, não se importará de voltar a perder outro dedo.
Entender é um indivíduo de quatro dedos marcar um golo e não ficar disponível para perder outro dedo.
A prostituta que se casa com um trintão desdentado ou a velhota que se apaixona por um puto de vinte anos, eis alguns casos de inteligência não reconhecida. A prostituta não se veste de noiva para um desdentado, a menos que o seu rabo desça até ao chão. Nenhuma sexagenária consegue fazer com que um rapaz de tenra idade se enamore por ela.
Mas, do mesmo modo que uma velha precisa de amar até morrer, também uma prostituta precisa de um lugar que possa ser seu. Se esse lugar for entre as gengivas vazias do marido, paciência.
A inteligência não requer um prémio Nobel ou um lugar de destaque em todas as conferências políticas. Eu nunca fui inteligente porque nunca dancei música progressiva quando alguma mulher precisava de companhia.
Tenho três dedos numa mão que poderia ter cinco. O que não quer dizer que nunca tenha aprendido com a vida: já parti o queixo. Mas os velhos bêbedos também já foram todos atropelados e continuam bêbedos.
Como te percebo, minha querida avó.
[Paulo Ferreira]
Em miúdo parti o queixo enquanto tentava iludir uma inocente ninfeta com promessas de uma paixão que, só anos mais tarde, viria a reconhecer como urgente para a minha sobrevivência. Ganhei uma cicatriz vitalícia, um traço de sangue para acalmar o medo nas horas de maior aflição.
Mas nunca percebi.
O entendimento ganha uma maior lucidez quando se vivem situações de real perigo ou aflição.
Ouvi na televisão que um jogador de futebol perdeu um dedo a festejar um golo com os seus adeptos. Isso não é chegar a entender. Se o jogador voltar a marcar um golo, não se importará de voltar a perder outro dedo.
Entender é um indivíduo de quatro dedos marcar um golo e não ficar disponível para perder outro dedo.
A prostituta que se casa com um trintão desdentado ou a velhota que se apaixona por um puto de vinte anos, eis alguns casos de inteligência não reconhecida. A prostituta não se veste de noiva para um desdentado, a menos que o seu rabo desça até ao chão. Nenhuma sexagenária consegue fazer com que um rapaz de tenra idade se enamore por ela.
Mas, do mesmo modo que uma velha precisa de amar até morrer, também uma prostituta precisa de um lugar que possa ser seu. Se esse lugar for entre as gengivas vazias do marido, paciência.
A inteligência não requer um prémio Nobel ou um lugar de destaque em todas as conferências políticas. Eu nunca fui inteligente porque nunca dancei música progressiva quando alguma mulher precisava de companhia.
Tenho três dedos numa mão que poderia ter cinco. O que não quer dizer que nunca tenha aprendido com a vida: já parti o queixo. Mas os velhos bêbedos também já foram todos atropelados e continuam bêbedos.
Como te percebo, minha querida avó.
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, maio 26, 2006
O rapaz sem sol
O amor é belo quando os dias estão para isso.
Um gato aceita festas do dono quando tem a barriga vazia.
O escritor escreve quando tem ilusões.
Esquecer-me de ter ligado à minha mãe no dia do seu aniversário também tem um não sei quê de amoroso, porque nos dias seguintes o telefone dela toca e ninguém atende.
Mas o que é mesmo triste nesta vida é o sol não brilhar para todos. Não me refiro à dor. Os dentes doem a quem não os lava ou a quem peca. Mas o sol é diferente: é um motivo de felicidade.
A escuridão não brilha no céu nem dá vontade de dar pulos de alegria no ar. Porque ninguém tem vontade de gritar debaixo de água.
Quando chove, fumam-se cigarros e têm-se conversas desgraçadas. Quando está escuro, dorme-se ou faz-se sexo. O sexo na escuridão é animalesco, como a guerra e as pernas que são amputadas porque já não têm como se salvar dos rasgos do metal. O escuro faz com que as mulheres levantem as pernas e que peçam para serem comidas.
Mas ninguém ama ao escuro. Ninguém é feliz na treva.
O indiano que se deixou atropelar por um comboio nunca viu o sol: era um morcego. Ele bem o procurou, mas ninguém lho deu. Foi sempre um desgraçado, este indiano.
Se eu fosse deus, roubava um bocadinho de sol à lua todas as noites até lhe construir um templo e, quem sabe, um mundo. E todas as pernas depiladas seriam dele. E toda a família dele lhe daria todo o amor que agora já não lhe faz falta. E o planeta seria belo como nunca foi.
Puta de vida.
[Paulo Ferreira]
Um gato aceita festas do dono quando tem a barriga vazia.
O escritor escreve quando tem ilusões.
Esquecer-me de ter ligado à minha mãe no dia do seu aniversário também tem um não sei quê de amoroso, porque nos dias seguintes o telefone dela toca e ninguém atende.
Mas o que é mesmo triste nesta vida é o sol não brilhar para todos. Não me refiro à dor. Os dentes doem a quem não os lava ou a quem peca. Mas o sol é diferente: é um motivo de felicidade.
A escuridão não brilha no céu nem dá vontade de dar pulos de alegria no ar. Porque ninguém tem vontade de gritar debaixo de água.
Quando chove, fumam-se cigarros e têm-se conversas desgraçadas. Quando está escuro, dorme-se ou faz-se sexo. O sexo na escuridão é animalesco, como a guerra e as pernas que são amputadas porque já não têm como se salvar dos rasgos do metal. O escuro faz com que as mulheres levantem as pernas e que peçam para serem comidas.
Mas ninguém ama ao escuro. Ninguém é feliz na treva.
O indiano que se deixou atropelar por um comboio nunca viu o sol: era um morcego. Ele bem o procurou, mas ninguém lho deu. Foi sempre um desgraçado, este indiano.
Se eu fosse deus, roubava um bocadinho de sol à lua todas as noites até lhe construir um templo e, quem sabe, um mundo. E todas as pernas depiladas seriam dele. E toda a família dele lhe daria todo o amor que agora já não lhe faz falta. E o planeta seria belo como nunca foi.
Puta de vida.
[Paulo Ferreira]
O dinheiro
Arma: o revólver.
Instrumento de prova: a gravata.
Corpo: o bancário.
Causa: o ciúme.
Criminoso: dois seios gordos.
Vítima: o amor.
Linha experimental: a mulher, revoltada com o seu parceiro, pega num instrumento mortífero (a arma) e despacha o retrato físico da sua paixão (o corpo). Como a parte perfurada pelo metal localiza-se perto do instrumento de prova, o sangue mancha a beleza que torna o sujeito de negócios respeitável.
Primeira conclusão: uma gravata representa muito para quem mexe com dinheiro.
Segunda conclusão: quem acerta na gravata de um negociante com um tiro, retira a honra a quem morre.
Terceira conclusão: uma mulher ferida no seu orgulho não tem medo de matar aqueles que ama.
[Paulo Ferreira]
Instrumento de prova: a gravata.
Corpo: o bancário.
Causa: o ciúme.
Criminoso: dois seios gordos.
Vítima: o amor.
Linha experimental: a mulher, revoltada com o seu parceiro, pega num instrumento mortífero (a arma) e despacha o retrato físico da sua paixão (o corpo). Como a parte perfurada pelo metal localiza-se perto do instrumento de prova, o sangue mancha a beleza que torna o sujeito de negócios respeitável.
Primeira conclusão: uma gravata representa muito para quem mexe com dinheiro.
Segunda conclusão: quem acerta na gravata de um negociante com um tiro, retira a honra a quem morre.
Terceira conclusão: uma mulher ferida no seu orgulho não tem medo de matar aqueles que ama.
[Paulo Ferreira]
A janela da ajuda
Da minha janela vejo a rua e a natureza que a rodeia. Se me esforçar um pouco mais, consigo ainda vislumbrar vários indícios de civilização, como automóveis, prédios, prostitutas e toxicodependentes. Mas, dentro desta sala, ninguém me consegue ver, porque não está cá mais ninguém para além de mim.
E eu observo a multidão na rua.
E eu reparo nos traços mais vincados da nossa forma de vida (um vagabundo que lava as mãos com a sua própria urina, por exemplo).
Será esta a sensação que aflige o Senhor omnipotente quando Ele se senta na sua cadeira solitária?
Serei eu uma espécie de deus mortal?
Na rua, duas mulheres trocam bofetadas e até a mim me dói.
E cá dentro nada se move.
Um deus não sofre assim.
[Paulo Ferreira]
E eu observo a multidão na rua.
E eu reparo nos traços mais vincados da nossa forma de vida (um vagabundo que lava as mãos com a sua própria urina, por exemplo).
Será esta a sensação que aflige o Senhor omnipotente quando Ele se senta na sua cadeira solitária?
Serei eu uma espécie de deus mortal?
Na rua, duas mulheres trocam bofetadas e até a mim me dói.
E cá dentro nada se move.
Um deus não sofre assim.
[Paulo Ferreira]
As nuvens
As nuvens são uma ficção inventada (desnecessária, a repetição) por todos aqueles que gostariam de poder observar a lua com os próprios olhos mas que não conseguem.
Um gato que observe o céu sem conseguir atingir as estrelas não é um gato: é um homem cego. Os gatos não são como as pessoas, já que vêem onde mais ninguém consegue ver. Além disso, um gato que se preze capta o essencial da vida, afastando-se.
O óbvio: as pessoas não vêem no escuro nem captam nada que seja essencial. É por isso que um aspirante a felino que não consiga ver as estrelas, só pode ter barba e bengala de ajuda quotidiana.
Repare-se em Homero.
[Paulo Ferreira]
Um gato que observe o céu sem conseguir atingir as estrelas não é um gato: é um homem cego. Os gatos não são como as pessoas, já que vêem onde mais ninguém consegue ver. Além disso, um gato que se preze capta o essencial da vida, afastando-se.
O óbvio: as pessoas não vêem no escuro nem captam nada que seja essencial. É por isso que um aspirante a felino que não consiga ver as estrelas, só pode ter barba e bengala de ajuda quotidiana.
Repare-se em Homero.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, maio 25, 2006
Isolamento
Tiraram-me o relógio. Pensavam que eu me podia suicidar com ele. É muito mau estar no isolamento sem relógio. O relógio dá ritmo ao nosso dia. Quando se está livre, vai-se ao telefone, à casa de banho, à cozinha, à estante, ao jardim, ao café, à mulher. O relógio di-lo-no. Na prisão, sem relógio, esses instintos tornam-se tumultuosos e confusos na cabeça, ainda que não possamos obedecer-lhes sempre. Eles são a liberdade. Um relógio é a liberdade.
- John Le Carré, A Paz Insuportável
[João Carlos Silva]
- John Le Carré, A Paz Insuportável
[João Carlos Silva]
quarta-feira, maio 24, 2006
O som do amor
O som de um tiro: «boom».
A ferida que nasce a partir de um pedaço de metal é o amor, não a morte. Ninguém morre ou mata sem amor.
Se até a grande explosão, o big-bang, brotou do interior de um deus universal, por que razão seria diferente connosco? Seremos seres sentimentalmente neutros? Ou serão as balas munidas de vida própria?
«Boom» também é o som de um coração.
«Boom-Boom» (aos saltos).
[Paulo Ferreira]
A ferida que nasce a partir de um pedaço de metal é o amor, não a morte. Ninguém morre ou mata sem amor.
Se até a grande explosão, o big-bang, brotou do interior de um deus universal, por que razão seria diferente connosco? Seremos seres sentimentalmente neutros? Ou serão as balas munidas de vida própria?
«Boom» também é o som de um coração.
«Boom-Boom» (aos saltos).
[Paulo Ferreira]
Os cinco dedos
Cinco dedos tem uma mão que pertença a um corpo convencional. Mas podes sempre tirar um dedo ou dois a uma dessas mãos. De qualquer forma, aviso-te, uma mão de quatro dedos é considerada deficiente.
És livre de considerar o teu corpo (observa a tua mão) normal e de sentir que és alguém que se adaptou muito bem à ordem natural da tua sociedade, mas seria bom que nunca deixasses de acreditar na hipótese de um dia te considerarem aleijado e diferente.
A eugenia não nasceu na Alemanha.
Nem tudo o que sai das chaminés é fumo para te matar.
Certas mulheres põem borracha nos seios.
Observa os teus cinco dedos sem te rires. Quem sabe o que o futuro te reserva.
[Paulo Ferreira]
És livre de considerar o teu corpo (observa a tua mão) normal e de sentir que és alguém que se adaptou muito bem à ordem natural da tua sociedade, mas seria bom que nunca deixasses de acreditar na hipótese de um dia te considerarem aleijado e diferente.
A eugenia não nasceu na Alemanha.
Nem tudo o que sai das chaminés é fumo para te matar.
Certas mulheres põem borracha nos seios.
Observa os teus cinco dedos sem te rires. Quem sabe o que o futuro te reserva.
[Paulo Ferreira]
A discussão
Um adolescente discute com uma jovem mulher gorda no meio de uma rua. Para quem assiste a tal forma de conversação, o caso é simples: um corpo com peso a mais sente-se usado por um corpo de peso normal. Porém, porque a espécie não pode ser vista a partir de fórmulas tão generalizadas, convém acrescentar o seguinte: esta mulher gorda não é mais do que uma pobre coitada que nunca conseguiu obter uma relação amorosa a partir da sua própria beleza (visto dela nunca ter sido dotada), mas a partir do sexo. Ela só pode amar (tocar a pele de outrem) se oferecer a sua vagina aos caprichos de outros.
Mas toda a gente sabe que só se dá valor a uma oferta quando é exigida alguma forma de trabalho em troca. E, portanto, muito pode discutir aquela vagina necessitada porque o mancebo nunca a compreenderá.
[Paulo Ferreira]
Mas toda a gente sabe que só se dá valor a uma oferta quando é exigida alguma forma de trabalho em troca. E, portanto, muito pode discutir aquela vagina necessitada porque o mancebo nunca a compreenderá.
[Paulo Ferreira]
A raiva
Um cão raivoso queria ter mais amigos sem, com isso, se tornar manso: tornou-se falso e começou a mentir.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Estertor:
Levar um soco de pugilista no estômago e, depois, soprar como se houvesse um fogo interno que precisasse de ser apagado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
A linha recta
Uma bala: a linha recta.
Podes não ter confiança no teu próprio corpo e precisares, por vezes, de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração, é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.
[Paulo Ferreira]
Podes não ter confiança no teu próprio corpo e precisares, por vezes, de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração, é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.
[Paulo Ferreira]
Prostração:
Permanecermos sentados num sofá durante semanas, meses e anos, para, no fim de tudo, chegarmos à triste conclusão de que a vida nos passou ao lado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
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