Segundo uma reportagem num canal (respeitável) de outro país, uma família libanesa entrevistada - de aparência pobre - declarava, furiosa, que os membros do Hezbollah («terroristas», pelas suas palavras) são os culpados da crise e deviam ser apanhados. Disseram ainda que «só queriam condições para viver».
Nem uma menção, nem uma palavra contra Israel.
[João Carlos Silva]
domingo, julho 23, 2006
Segundo tratado sobre tascos
Passar por um tasco recôndito, na minha cidade, apenas para fazer a digestão não deve ser um acto menosprezado. Na verdade, é uma das acções mais gratificantes que um homem pode fazer. Eu diria mesmo que é uma das «cinco coisas a fazer antes de morrer», isso e votar em Mário Soares, entre outras tantas.
Ao passar a porta da baiuca para dentro, rapidamente ganhamos uma outra dimensão no nosso pequeno meio social. Como o exemplo do senhor José, que a dona Maria (dona da tasca) nunca antes viu, ganhar o apelido de «Baixinho» - apenas para ser tratado mais directamente pela matrona de serviço. Esqueçam o «se faz favor» e o «obrigado» (duas frases das quais admito não conseguir abdicar), não, na tasca os modos e a educação seguem outras linhas de orientação, outros graus: quer seja conhecer toda a gente, gostar do Vitória ou ser um dos últimos a abandonar o local do crime ao fim do dia.
Por outro lado, o elemento gastronómico é igualmente importante. Não só as moelas adquirem um valor comestível (que não consigo encontrar em qualquer outro lado), talvez pelo aroma que as frigideiras excessivamente usadas transmitem à comida, como também a bebida tem uma personalidade própria. Só nas tascas se bebem pequenos copos a vinte cêntimos, onde nem o vinho nem a gasosa que aí se misturam têm marca. Basta ver escrito nas garrafas Vinho e Gasosa para saber o que se bebe: nas tascas não se faz o vinho, o vinho acontece.
[João Carlos Silva]
Ao passar a porta da baiuca para dentro, rapidamente ganhamos uma outra dimensão no nosso pequeno meio social. Como o exemplo do senhor José, que a dona Maria (dona da tasca) nunca antes viu, ganhar o apelido de «Baixinho» - apenas para ser tratado mais directamente pela matrona de serviço. Esqueçam o «se faz favor» e o «obrigado» (duas frases das quais admito não conseguir abdicar), não, na tasca os modos e a educação seguem outras linhas de orientação, outros graus: quer seja conhecer toda a gente, gostar do Vitória ou ser um dos últimos a abandonar o local do crime ao fim do dia.
Por outro lado, o elemento gastronómico é igualmente importante. Não só as moelas adquirem um valor comestível (que não consigo encontrar em qualquer outro lado), talvez pelo aroma que as frigideiras excessivamente usadas transmitem à comida, como também a bebida tem uma personalidade própria. Só nas tascas se bebem pequenos copos a vinte cêntimos, onde nem o vinho nem a gasosa que aí se misturam têm marca. Basta ver escrito nas garrafas Vinho e Gasosa para saber o que se bebe: nas tascas não se faz o vinho, o vinho acontece.
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 18, 2006
Louçã: o cândido
Há dias, comentando o intensificar do conflito entre Israel e Líbano, Francisco Louçã declarou que aquele era apenas mais uma oportunidade para «George W. Bush» - o «dâbliu búsh» proferido em raiva traz outro sentido, tem sempre todo um mundo semântico por trás - fazer guerra ao Irão.
Eu sei que Louçã, entre outros milhares em Portugal, sonha com o dia em que o presidente americano tropeçará como Fidel tropeçou no palanque da outra vez. Mas sonhar com Bush dia e noite, sete dias por semana, todo o ano, ultrapassa mesmo a fé política mais carregada de alguma direita americana.
E esta obsessão de Louçã, atirada ao ar juntamente com a sua aversão primária a Israel (enquanto nação fundada naquela zona e enquanto aliada dos EUA), atropela a memória de todas as vezes em que a América condenou retaliações exageradas do exército israelita. Mais ainda, revela o oportunismo quase desumano de alguém que, distante do conflito, provavelmente achará mais grave Bush dizer «merda» do que o facto de soldados e civis israelitas serem sucessivamente raptados por grupos terroristas que se declaram (com o devido apoio) muçulmanos.
[João Carlos Silva]
Eu sei que Louçã, entre outros milhares em Portugal, sonha com o dia em que o presidente americano tropeçará como Fidel tropeçou no palanque da outra vez. Mas sonhar com Bush dia e noite, sete dias por semana, todo o ano, ultrapassa mesmo a fé política mais carregada de alguma direita americana.
E esta obsessão de Louçã, atirada ao ar juntamente com a sua aversão primária a Israel (enquanto nação fundada naquela zona e enquanto aliada dos EUA), atropela a memória de todas as vezes em que a América condenou retaliações exageradas do exército israelita. Mais ainda, revela o oportunismo quase desumano de alguém que, distante do conflito, provavelmente achará mais grave Bush dizer «merda» do que o facto de soldados e civis israelitas serem sucessivamente raptados por grupos terroristas que se declaram (com o devido apoio) muçulmanos.
[João Carlos Silva]
segunda-feira, julho 17, 2006
3
Três anos. Há três anos anda este rapaz a carregar uma desesperada esperança. Uma que, por muito desesperada que seja, continua e continuará cá por mais tempo. Parabéns.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sexta-feira, julho 14, 2006
As cadeiras
A minha atracção por cafés «semi-vazios» voltou, agora que o Mundial (infelizmente, por outro lado) acabou. Já voltou a ser possível chegar a qualquer hora do dia ao café da rua, do fim da rua, ou da esquina, e escolher uma mesa decente para me sentar - com as distâncias bem medidas, para que seja possível, com igual facilidade, gritar e arreliar o dono do café e atirar as beatas para a rua num jeitinho de dedos à taberneiro.
Com as vagas de calor e com uma antipatia muito pessoal em relação à praia, o snack-bar ou o café voltam a ser obrigatórios para alguns fins de tardes dedicados a livros, folhas e canetas. Especialmente porque, no dia em que o francês deu uma cabeçada ao italiano e em que Blatter nos deu uma cabeçada a todos nós, acabou (nos cafés) aquela dança das cadeiras que mais parecia a tomada de posse de um governo do PS.
[João Carlos Silva]
Com as vagas de calor e com uma antipatia muito pessoal em relação à praia, o snack-bar ou o café voltam a ser obrigatórios para alguns fins de tardes dedicados a livros, folhas e canetas. Especialmente porque, no dia em que o francês deu uma cabeçada ao italiano e em que Blatter nos deu uma cabeçada a todos nós, acabou (nos cafés) aquela dança das cadeiras que mais parecia a tomada de posse de um governo do PS.
[João Carlos Silva]
Viver na aldeia
Muitos de nós gostaremos ou saberemos dizer, prontamente, que uma das coisas que nos dá mais gosto fazer é ler um bom livro. No entanto, para quem ler bons livros se tornou já uma rotina aqui e ali viciante mas desapaixonada, um dos grandes prazeres continua a ser gritar depois de almoço, com um palito a aprumar o sorriso, à mulher: «Maria, guarda os ossos que é para dar de comer aos animais!». Isto, é claro, enquanto se aproveita para estampar as costas da mão na bochecha da criança.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quinta-feira, julho 13, 2006
O estado das coisas
Há aí um jovem promissor que escreveu uma frase muito profunda.
«Recordar é bem capaz de ser pior do que levar um tiro no peito.»
[Paulo Ferreira]
«Recordar é bem capaz de ser pior do que levar um tiro no peito.»
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, julho 12, 2006
Leitores
Há dois tipos de leitores: aqueles que procuram identificar-se com o escritor; e aqueles que procuram identificar-se com uma personagem.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
terça-feira, julho 11, 2006
O homem que ria para escrever

Fernando Assis Pacheco (1937-1995), um grande escritor? A pergunta poderá cair num grande vazio, onde ninguém a espera, onde ninguém lhe oferece resposta. De facto, mesmo se esse vazio estiver preenchido, é difícil trazer-lhe resposta. É difícil, mesmo, avaliar Assis Pacheco enquanto escritor, ou apenas como tal. Assis Pacheco ramificou (talvez de forma nefasta para vingar no campo do romance) a sua obra, os seus caminhos, de escritor em diversas áreas: romance, poesia, crítica, crónicas, até entrevistas. É, realmente, difícil encontrar um campo em que ele não tenha dado uma perninha. Mas, curiosamente, em todos eles Fernando Assis Pacheco traz a mesma «pena».
A escrita de Pacheco tem, sim, sempre o mesmo motor por trás: um grande sentido de humor. Não serão, portanto, alheias ao leitor expressões aproximadas a «passando-lhe o tempero de alto a abaixo, enfiou-lhe um espeto de pau pelas nalgas e pô-lo a assar». Ou mesmo, num outro registo, «enchi a pata» ou «olé que lá vai ela». A Assirio & Alvim tem, feito, inclusivamente, um pequeno esforço para trazer a lume alguns inéditos de um autor já de si fragmentado nas editoras ou, pelo menos, de escassa edição (normalmente, tem as suas obras na ASA), e o Memórias de um Craque é um «pequeno» livro imperdível dentro do espaço desse esforço da Assírio.
Será um grande escritor? Tendo em conta o seu género de humor, muito a puxar para o vernáculo (e eu, admito, derreto-me com uma escrita que saiba utilizá-lo bem), poderá ser tido como um «granda escritor» por muita gente menos exigente, que esquece o que está sob essa primeira camada literária. Debaixo dela está um homem de grande sensibilidade, cultíssimo, com uma modéstia digna de um génio capaz de deixar obra importante até em crónicas da bola, mas também com um talento considerável capaz de pôr burgessos na lista de personagens a reter na literatura portuguesa. Pode não ter sido um «grande escritor», mas foi sem dúvida um grande homem com talento para a escrita.
[João Carlos Silva]
domingo, julho 09, 2006
Namora: entre a simpatia e o tédio
Leio vários livros de Fernando Namora e fico com uma vontade enorme de doar todo o meu sangue a quem dele precisa. Mas também eu preciso do meu sangue. Sou muito egoísta. Namora escreve elegias à União Soviética, sonha com o Estado Social dos países nórdicos, fala com uma bondade extrema. E eu sensibilizo-me. Mas sou egoísta. Não posso gostar de regimes que lutavam pela igualdade (inexistente enquanto conceito aplicável ao mundo dos vivos, esta palavra). Não posso gostar de regimes que partiam do operariado para os senhores do partido. Não posso. E, por isso, não posso concordar com nada do que aparece nos livros do homem que morreu a praticar o bem. Contudo, tem de se perceber o contexto da época do homem que escreveu coisas como Os Adoradores do Sol. Esse contexto era o neo-realismo, era um contexto, mais que literário, cultural, no qual se escrevia com uma mão pouco desprendida, no qual o amor aos heróis que lutaram pelo povo se impunha à barbárie corrupta dos tempos modernos. A América nunca poderia ser adorada por intelectuais apegados ao campesinato. É muito mais fácil nutrir carinho por sociedades onde a população vive toda pobre mas igual, do que por sociedades repletas de desigualdades e de oportunidade de ascensão e de queda por parte daqueles que procuram viver de dinheiro (perceba-se que o dinheiro, neste momento, é tudo, inclusive a literatura).
Fernando Namora não é um homem de difícil compreensão. Apesar de escrever bem, muito bem, este intelectual, que também foi médico e filantropo, não entusiasma. Os livros de Namora são de entediar as moscas mais atarantadas. Exceptuando O Rio Triste ou Cidade Solitária, pouco de interessante há a retirar da obra de Namora. Temos os livros de viagens propagandísticos que, vá-se lá saber porquê, Namora apelidou de cadernos de um escritor, que são das coisas mais aborrecidas que tive oportunidade de ler. Temos narrativas literário-sociológicas ( Estamos no Vento, por exemplo), temos, enfim, escritos que não satisfazem o olhar, ao mesmo tempo aguçado e desprevenido, do leitor que queira conhecer a literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Refira-se, no entanto, que a literatura portuguesa, seja de que século for, não costuma ser conhecida pela sua qualidade elevada. Há até quem fale de «Portugalzinho» quando aparece um novo escritor ou colunista de mangas arregaçadas e pronto a escandalizar as mentes provinciais da paróquia nacional com os seus comentários acutilantes, com os seus rasgos de estilo geniais, do género «amei, sofri». No fundo, Namora não tem nada de novo. É pouco original. Traz pouco ao mundo da literatura. Não obstante tudo isso, eu simpatizo com ele.
[Paulo Ferreira]
Fernando Namora não é um homem de difícil compreensão. Apesar de escrever bem, muito bem, este intelectual, que também foi médico e filantropo, não entusiasma. Os livros de Namora são de entediar as moscas mais atarantadas. Exceptuando O Rio Triste ou Cidade Solitária, pouco de interessante há a retirar da obra de Namora. Temos os livros de viagens propagandísticos que, vá-se lá saber porquê, Namora apelidou de cadernos de um escritor, que são das coisas mais aborrecidas que tive oportunidade de ler. Temos narrativas literário-sociológicas ( Estamos no Vento, por exemplo), temos, enfim, escritos que não satisfazem o olhar, ao mesmo tempo aguçado e desprevenido, do leitor que queira conhecer a literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Refira-se, no entanto, que a literatura portuguesa, seja de que século for, não costuma ser conhecida pela sua qualidade elevada. Há até quem fale de «Portugalzinho» quando aparece um novo escritor ou colunista de mangas arregaçadas e pronto a escandalizar as mentes provinciais da paróquia nacional com os seus comentários acutilantes, com os seus rasgos de estilo geniais, do género «amei, sofri». No fundo, Namora não tem nada de novo. É pouco original. Traz pouco ao mundo da literatura. Não obstante tudo isso, eu simpatizo com ele.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, julho 06, 2006
Herói
Com as suas fintas lentas, com o seu cabelo caprichado, com o seu estilo guerreiro, Luís Figo, o melhor jogador nacional (quase) de sempre, merecia estar presente numa final de um Campeonato do Mundo. Ontem sofri por ele.

[Paulo Ferreira]

[Paulo Ferreira]
terça-feira, julho 04, 2006
quarta-feira, junho 28, 2006
terça-feira, junho 27, 2006
Calças Brancas
A série Miami Vice marcou tanto a minha infância que, ainda hoje, me imagino na pele do homem que prendia criminosos sem sujar as suas calças brancas. Bum!, Bum!, tiro neste, tiro naquele e o Nené sempre de camisa limpinha.

Don Johnson
[Paulo Ferreira]

Don Johnson
[Paulo Ferreira]
Gender Studies III
Ao ler Lust, da austríaca feminista Elfriede Jelinek, apercebi-me de que se usam palavras como «piça», em vez de «pénis», para dar mais ênfase ao «instrumento» da personagem do director. Presumo que, ao fazer a tradução para o português, a tradutora não se tenha excitado com o que ia lendo, caso contrário, a «piça» não viria da austríaca mas sim da vagina e eu estaria enganado na colocação da empáfia. De qualquer forma, se fosse eu a traduzir o texto original, usaria lexemas como maça, moca, clava, ou mesmo cachaporra para definir aquilo que nunca pode ser «piça». Piça, piça, mas qual piça qual quê! Piça faz lembrar pinça e a coisa tem de ser grande.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 26, 2006
Earth

KELVIN : I work in the city now. After work I wander and lose myself. I am silent and attentive. I follow the current. I make a conscious effort to smile, nod, stand, and perform the millions of gestures that constitute life on Earth.
(George Clooney em Solaris, de Steven Soderbergh)
[Paulo Ferreira]
Gender Studies II
E nunca se satisfazem os senhores, mesmo que nos fizéssemos de rainhas.
- Elfriede Jelinek, Lust
[Paulo Ferreira]
- Elfriede Jelinek, Lust
[Paulo Ferreira]
sábado, junho 24, 2006
Ouvir a cidade
-19 aninhos...
-Aquilo foi de estudar, de certeza.
-Estudava tanto, tanto, tanto. Uma vida pela frente...
-É, temos de andar a pau com eles. Veja lá que ainda no outro dia cheguei a encontrar a minha Sónia a estudar de noite!
-Credo!
-Verdade. Bem lhe digo: «filha, põe os olhos no outro, vê bem o que fazes». Mas ela não me ouve.
-É das idades.
-E não é que é mesmo? Ainda no outro dia eram dez da noite e ela para mim: «vou sair um bocadinho para tomar um café». Não tive rodeios, «tá bem tá, eu sei muito bem qual é o teu café... vais mas é estudar prá biblioteca que eu já sei qual é o teu café». Ela a querer dar-me a volta a dizer que era pró café. Esta mulher que vê aqui já cá está há muitos aninhos.
-Hoje em dia já não há aquele respeito de antigamente.
-Pois não. Mas eu disse-lhe logo: «filha, ficas hoje em casa a ver um bocadinho de televisão, que não tens idade para isso e a tua mãe bem conhece essas coisas».
-E ficou?
-Ficou.
-Temos de cuidar dos nossos.
-Temos pois. Se eu não pusesse mão na minha Sónia havia de ser o lindo.
-Olha o outro.
-Esse aí diz que nem almoçava para estudar...
-19 aninhos...
-É uma pena.
[João Carlos Silva]
-Aquilo foi de estudar, de certeza.
-Estudava tanto, tanto, tanto. Uma vida pela frente...
-É, temos de andar a pau com eles. Veja lá que ainda no outro dia cheguei a encontrar a minha Sónia a estudar de noite!
-Credo!
-Verdade. Bem lhe digo: «filha, põe os olhos no outro, vê bem o que fazes». Mas ela não me ouve.
-É das idades.
-E não é que é mesmo? Ainda no outro dia eram dez da noite e ela para mim: «vou sair um bocadinho para tomar um café». Não tive rodeios, «tá bem tá, eu sei muito bem qual é o teu café... vais mas é estudar prá biblioteca que eu já sei qual é o teu café». Ela a querer dar-me a volta a dizer que era pró café. Esta mulher que vê aqui já cá está há muitos aninhos.
-Hoje em dia já não há aquele respeito de antigamente.
-Pois não. Mas eu disse-lhe logo: «filha, ficas hoje em casa a ver um bocadinho de televisão, que não tens idade para isso e a tua mãe bem conhece essas coisas».
-E ficou?
-Ficou.
-Temos de cuidar dos nossos.
-Temos pois. Se eu não pusesse mão na minha Sónia havia de ser o lindo.
-Olha o outro.
-Esse aí diz que nem almoçava para estudar...
-19 aninhos...
-É uma pena.
[João Carlos Silva]
quinta-feira, junho 22, 2006
quarta-feira, junho 21, 2006
Verso para um aeroporto
Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
- António Franco Alexandre, Uma Fábula
[Paulo Ferreira]
- António Franco Alexandre, Uma Fábula
[Paulo Ferreira]
Novidade
O meu pretensiosmo vai passar para este blog. Por seu lado, o Causa das Coisas vai voltar ao seu estilo primitivo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, junho 20, 2006
Diferença
Não percebe de futebol quem passa um jogo a dizer que o Ronaldo Nazario de Sousa anda em baixo de forma, para depois afirmar, sem vergonha ou temor, que o senhor Pedro Miguel Carreiro Resendes («Pauleta») faz jogos heróicos.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 19, 2006
O desconhecido
Pois claro que as tuas ideias podem não ser melhores do que as ideias dos outros. É normal que nem toda a gente seja dotada da mesma capacidade criativa. É, de igual modo, normal que as melhores ideias não te venham à cabeça quando mais precisas delas (não és um computador). O que não é normal é que ninguém apele à originalidade para pensar.
Erro: o pensamento não é conhecido pela sua originalidade. No outro dia, ao pensar em mortes, lembrei-me de um cantor norte-americano que espetou uma faca no peito e lembrei-me de concluir o seguinte: a ideia, não passando de uma representação imaginária, raramente se pode associar a algo que nunca tenha acontecido. A não ser assim, viveríamos na abstracção, no extra-cosmos.
Poucas coisas vivas têm carácter próprio.
Poucas coisas são feitas sem modelo.
Tudo o que pode ser construído com excêntricidade tem dificuldades em ser singular.
Não há nada na mente humana que já não tenha sido feito.
[Paulo Ferreira]
Erro: o pensamento não é conhecido pela sua originalidade. No outro dia, ao pensar em mortes, lembrei-me de um cantor norte-americano que espetou uma faca no peito e lembrei-me de concluir o seguinte: a ideia, não passando de uma representação imaginária, raramente se pode associar a algo que nunca tenha acontecido. A não ser assim, viveríamos na abstracção, no extra-cosmos.
Poucas coisas vivas têm carácter próprio.
Poucas coisas são feitas sem modelo.
Tudo o que pode ser construído com excêntricidade tem dificuldades em ser singular.
Não há nada na mente humana que já não tenha sido feito.
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, junho 14, 2006
Milagre
Reza a lenda que uma das mais brutais formas de tortura milagrosa costumava estar associada a leves gotas de água. Expliquemo-nos: rapando o cabelo a um homem (preso) e deixando que ao longo de vários dias lhe caíssem várias gotas de água em cima do crânio desprotegido, assistir-se-ia à teoria do milagre: a água transformava-se em tijolo e as pancadas começavam a doer.
Porém,os milagres não são milagres quando se está a pensar em metáforas. A ausência, com o tempo, começa a ter efeito cortante. Quanto à água, essa apenas molha.
[Paulo Ferreira]
Porém,os milagres não são milagres quando se está a pensar em metáforas. A ausência, com o tempo, começa a ter efeito cortante. Quanto à água, essa apenas molha.
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, junho 12, 2006
Morte em palco
O actor manchado de sangue (tinta vermelha) ri-se para o público, demonstrando, dessa forma, que também os que morrem têm direito a momentos de felicidade.
Mas que tipo de felicidade terão os moribundos, os verdadeiros moribundos, aqueles que sofrem a vida real?
Será preciso espetar um punhal no peito para se compreender a felicidade dos que partem?
Voltemos ao actor. Retiremos-lhe o palco e a tinta vermelha e incutamos-lhe um pouco de dor física (basta uma forte enxaqueca). Rir-se-á ele para os espectadores quando já não tiver palco que o ampare ou fingimento que lhe sirva para atenuar a dor? Se for bom actor, sim, rir-se-á. Actuar também é esconder a própria agonia, pelo menos se a personagem tiver que morrer com um sorriso nos lábios.
Mas nem toda a gente morre com dor. Nos filmes, morre-se com um friozinho na espinha e diz-se adeus aos amados com um «amo-te muito». O mesmo acontece na vida real. O velho desdentado que afaga os cabelos do neto antes de partir para outro mundo nunca pode ser esquecido.
Fingir a alegria, portanto, é o que todos nós fazemos quando já ninguém nos dá oportunidade para prolongarmos o ar e a respiração. Ou tudo o que fazes na vida tem que corresponder exactamente àquilo que és e sempre foste, cá dentro e lá fora?
[Paulo Ferreira]
Mas que tipo de felicidade terão os moribundos, os verdadeiros moribundos, aqueles que sofrem a vida real?
Será preciso espetar um punhal no peito para se compreender a felicidade dos que partem?
Voltemos ao actor. Retiremos-lhe o palco e a tinta vermelha e incutamos-lhe um pouco de dor física (basta uma forte enxaqueca). Rir-se-á ele para os espectadores quando já não tiver palco que o ampare ou fingimento que lhe sirva para atenuar a dor? Se for bom actor, sim, rir-se-á. Actuar também é esconder a própria agonia, pelo menos se a personagem tiver que morrer com um sorriso nos lábios.
Mas nem toda a gente morre com dor. Nos filmes, morre-se com um friozinho na espinha e diz-se adeus aos amados com um «amo-te muito». O mesmo acontece na vida real. O velho desdentado que afaga os cabelos do neto antes de partir para outro mundo nunca pode ser esquecido.
Fingir a alegria, portanto, é o que todos nós fazemos quando já ninguém nos dá oportunidade para prolongarmos o ar e a respiração. Ou tudo o que fazes na vida tem que corresponder exactamente àquilo que és e sempre foste, cá dentro e lá fora?
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, junho 09, 2006
Dever dinheiro
Dever dinheiro tem o seu quê de trágico. Nem que sejam os trinta e sete cêntimos que não nos lembramos de pagar ao credor. A qualquer momento surge a interrogação desinteressada: «olha, estás-me a dever dinheiro, não é? Não é preciso dares-mo já, era só para saber...». Pela largueza de espírito, um prémio. O devedor crucificado em praça pública. O que não deixa de ter graça. Clap clap clap, a contradição entre o agiota e o pobre, por trinta e sete cêntimos dos quais nunca se percebe bem de onde vieram os sete. Esta tragédia retratou-a melhor Joseph Roth num seu livro: um bêbado que deve duzentos francos à Santa (exactamente, à «santinha») não deixa de ser uma forma genialmente literária do drama do devedor-não-pagador.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
quinta-feira, junho 08, 2006
Apenas desistir
Era uma vez um homem que se apaixonava como quem tem enxaquecas. Mas, como era muito feio e ninguém o queria, o homem nunca se envolvia fisicamente com ninguém (alimentava os seus amores exclusivamente a partir de casa).
E tudo o que era verdade na vida deste ser era a preponderância da não desistência.
«Não desistir, nunca desistir», pensava abundantemente.
Mas ninguém mantém uma persistência inabalável quando muito se caminha e poucas vezes se consegue manter o equilíbrio. Mas ele queria tanto. Mas ele precisava tanto. E ninguém olhava para ele. O seu telefone, quando tocava, ou anunciava um curso de línguas fantástico ou simplesmente reafirmava o inexorável caminho de um desgraçado: «Enganei-me no número.» Os seus familiares, quando o visitavam, apenas davam conta das tragédias do mundo. O seu trabalho não existia (secção: desemprego).
No entanto, como nem tudo na existência desta aberração poderia correr mal, um dia deu-se o amor. E o resultado foi: três balas com partida do maxilar para o tecto.
Muito carinho recebeu o senhor daquela pistola. Sim senhor.
[Paulo Ferreira]
E tudo o que era verdade na vida deste ser era a preponderância da não desistência.
«Não desistir, nunca desistir», pensava abundantemente.
Mas ninguém mantém uma persistência inabalável quando muito se caminha e poucas vezes se consegue manter o equilíbrio. Mas ele queria tanto. Mas ele precisava tanto. E ninguém olhava para ele. O seu telefone, quando tocava, ou anunciava um curso de línguas fantástico ou simplesmente reafirmava o inexorável caminho de um desgraçado: «Enganei-me no número.» Os seus familiares, quando o visitavam, apenas davam conta das tragédias do mundo. O seu trabalho não existia (secção: desemprego).
No entanto, como nem tudo na existência desta aberração poderia correr mal, um dia deu-se o amor. E o resultado foi: três balas com partida do maxilar para o tecto.
Muito carinho recebeu o senhor daquela pistola. Sim senhor.
[Paulo Ferreira]
O cadáver
«Debruçou-se para o cadáver, apalpou a queixada e verificou que estava firme: arreganhou os lábios e meteu o cartão nos dentes e gengivas. Era o momento; o assistente observava com indefectível admiração o subtil adejar dos polegares com que ele levantou os cantos do cartão, a carícia das pontas dos dedos com que ele repôs no seu lugar os lábios descorados e secos. E - atentai! - onde houvera a linha áspera do sofrimento havia agora um sorriso.»
- Evelyn Waugh, O Ente Querido, trad. de Jorge de Sena
[João Carlos Silva]
- Evelyn Waugh, O Ente Querido, trad. de Jorge de Sena
[João Carlos Silva]
quarta-feira, junho 07, 2006
Ilhas
Cair no chão estatelado é tudo o que um homem pode fazer quando nada mais existe.
Deixa-se de viver quando uma válvula do coração deixa de funcionar.
Morre-se quando o amor se acaba e quando se quer muito mas muito uma pessoa que já não nos conhece.
A loucura aparece no momento em que, depois de versos como «I used to pray to recover you» (Sylvia Plath), se põe a cabeça dentro de um forno de fogo e se explode o cérebro, como se este fosse um gafanhoto prazenteiramente esmagado por uma sola de sapato.
Tropeçar numa pedra e partir um pouco de osso é algo que não costuma matar: como as costureiras, também os médicos são profissionais na arte de coser. Mas o amor.
A vida separa-nos a todos, seres apaixonados, em dois e dois seremos até morrermos. Não somos como o chumbo que se derrete e se pode unir. Não somos como a bala que rompe o pêlo, a pele e a carne até se unificar com um órgão que, mais tarde, se tornará podre e escuro como a noite em que três pescadores de tubarões choraram em alto mar a perseguir os seus sonhos.
Somos ilhas aos tropeções.
[Paulo Ferreira]
Deixa-se de viver quando uma válvula do coração deixa de funcionar.
Morre-se quando o amor se acaba e quando se quer muito mas muito uma pessoa que já não nos conhece.
A loucura aparece no momento em que, depois de versos como «I used to pray to recover you» (Sylvia Plath), se põe a cabeça dentro de um forno de fogo e se explode o cérebro, como se este fosse um gafanhoto prazenteiramente esmagado por uma sola de sapato.
Tropeçar numa pedra e partir um pouco de osso é algo que não costuma matar: como as costureiras, também os médicos são profissionais na arte de coser. Mas o amor.
A vida separa-nos a todos, seres apaixonados, em dois e dois seremos até morrermos. Não somos como o chumbo que se derrete e se pode unir. Não somos como a bala que rompe o pêlo, a pele e a carne até se unificar com um órgão que, mais tarde, se tornará podre e escuro como a noite em que três pescadores de tubarões choraram em alto mar a perseguir os seus sonhos.
Somos ilhas aos tropeções.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, junho 06, 2006
O esquerdo e o direito III
O olho esquerdo pisca, o olho direito permanece aberto: fazes testes de visão para tentares perceber com qual dos dois olhos vês pior, mas não chegas a conclusão alguma (apenas ficas mais confuso e assustado).
Um dia se passa.
Dois dias se passam.
Três dias se passam.
O teu amor atira-se de um quarto andar e tu não entendes.
Quatro dias se passam.
Piscas os olhos intermitentemente: um pouco de névoa aqui, uma letra tremida ali.
Dá-se uma praga de borboletas na cidade e tu não dás por isso: continuas preocupado com o esquerdo e com o direito.
[Paulo Ferreira]
Um dia se passa.
Dois dias se passam.
Três dias se passam.
O teu amor atira-se de um quarto andar e tu não entendes.
Quatro dias se passam.
Piscas os olhos intermitentemente: um pouco de névoa aqui, uma letra tremida ali.
Dá-se uma praga de borboletas na cidade e tu não dás por isso: continuas preocupado com o esquerdo e com o direito.
[Paulo Ferreira]
domingo, junho 04, 2006
Festa gorda
Não percebo o porquê de se achar que anda aí uma euforia exagerada e imbecil com o Mundial de futebol. Que é o mesmo que dizer que eu também acho que anda aí uma euforia exagerada e imbecil com o Mundial de futebol. Mas realmente não percebo o porquê desta pequena repulsa, visto que a par do Mundial, que a esmagadora maioria vai ver em casa ou no café, também começou o tal Rock in Rio - se é verdade que muita gente que anda agora pelos cantos a chorar os jogos de Portugal ou a passagem do príncipe Cristiano Ronaldo pelo Alentejo nunca se interessou por futebol, não o é menos que há gente sem o menor interesse por música e sem conhecer uma única banda que gastou duas dezenas de contos só para meter o bedelho no centro comercial da música.
Nem o facto de, segundo o telejornal, no Rock in Rio, haver cinco meninas a esconder preservativos nas cuecas para qualquer voluntário as revistar parece fazer valer a pena todo aquele circo em volta do que se diz ser uma série de concertos. Assim como o facto de eu não querer que a selecção portuguesa perca (pelo menos) os primeiros quatro ou cinco jogos consegue fazer valer a pena horas e horas de notícias dedicadas ao pequeno-almoço do Pauleta em Évora. Mas deve ser coisa de gerações: antes nem todos conheciam o Axel Rose e o Tim, e nunca viram ninguém a chorar pela bela peruca do Fernando Couto, pois não?

[João Carlos Silva]
Nem o facto de, segundo o telejornal, no Rock in Rio, haver cinco meninas a esconder preservativos nas cuecas para qualquer voluntário as revistar parece fazer valer a pena todo aquele circo em volta do que se diz ser uma série de concertos. Assim como o facto de eu não querer que a selecção portuguesa perca (pelo menos) os primeiros quatro ou cinco jogos consegue fazer valer a pena horas e horas de notícias dedicadas ao pequeno-almoço do Pauleta em Évora. Mas deve ser coisa de gerações: antes nem todos conheciam o Axel Rose e o Tim, e nunca viram ninguém a chorar pela bela peruca do Fernando Couto, pois não?

[João Carlos Silva]
sábado, junho 03, 2006
O esquerdo e o direito II
Uma bruxa à tua frente e não a vês: és cego. Apesar de essas míticas feiticeiras se esconderem para praticarem o mal, nada impede que tu as vejas. Nem a escuridão. Nem o sol que te encandeia. Só não reparas nelas se fores cego.
Mas não te preocupes. Não morrerás de cegueira se não conseguires ver o mundo à tua volta. Há escritores que fazem livros de cabeça. Há políticos que aprendem a sua profissão no cabeleireiro. Portanto, relaxa. As bruxas não interessam a ninguém.
No entanto, se alguém te disser que os olhos só servem para coisas como a coscuvilhice ou o caciquismo, mente-te.
Os teus olhos são a visão.
Os teus olhos são a ciência que se reproduz nos animais que acasalam incessantemente.
Os teus olhos são a tua certeza, o teu método de análise, a tua margem de erro.
Os teus olhos são como pequenas pérolas preciosas que têm de ser preservadas: não os gastes.
[Paulo Ferreira]
Mas não te preocupes. Não morrerás de cegueira se não conseguires ver o mundo à tua volta. Há escritores que fazem livros de cabeça. Há políticos que aprendem a sua profissão no cabeleireiro. Portanto, relaxa. As bruxas não interessam a ninguém.
No entanto, se alguém te disser que os olhos só servem para coisas como a coscuvilhice ou o caciquismo, mente-te.
Os teus olhos são a visão.
Os teus olhos são a ciência que se reproduz nos animais que acasalam incessantemente.
Os teus olhos são a tua certeza, o teu método de análise, a tua margem de erro.
Os teus olhos são como pequenas pérolas preciosas que têm de ser preservadas: não os gastes.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, junho 01, 2006
O branco do papel
Uma folha de papel em branco não serve ao escritor porque representa o vazio.
A música e a leitura dão asas à literatura. O mesmo acontece com o cinema ou com a vida real. Tudo o que simbolize um pequeno gesto respiratório ajuda, portanto, o artista das palavras a movimentar-se dentro do pequeno rectângulo. Mas o mesmo acontece com os pequenos silêncios que marcam a ascendência nervosa. Ou com a morte e a ausência.
Não há escritor que parta do branco para a sua viagem horizontal.
Os fantasmas não vêm do nada.
[Paulo Ferreira]
A música e a leitura dão asas à literatura. O mesmo acontece com o cinema ou com a vida real. Tudo o que simbolize um pequeno gesto respiratório ajuda, portanto, o artista das palavras a movimentar-se dentro do pequeno rectângulo. Mas o mesmo acontece com os pequenos silêncios que marcam a ascendência nervosa. Ou com a morte e a ausência.
Não há escritor que parta do branco para a sua viagem horizontal.
Os fantasmas não vêm do nada.
[Paulo Ferreira]
O tronco de árvore
Concepção sacralizada do mundo: um par de seios.
Vejo uma mulher a bambolear-se com um leque e excito-me (só fica com o pénis erecto quem se excita; se quisesse emocionar-me, chorava).
Uma saia de verão e uns cabelos encaracolados. Nabokov.
«Quero-te esta tarde.»
Os nossos corações não batem como se fossem um, mas ela é bela e os seus seios são sagrados. Nunca lhes toquei.
Ser jovem é não ler e sorrir (o seu sorriso incendeia-me os ossos).
E o calor aparece e nós vivemos na lua.
E um dia virá o Outono.
[Paulo Ferreira]
Vejo uma mulher a bambolear-se com um leque e excito-me (só fica com o pénis erecto quem se excita; se quisesse emocionar-me, chorava).
Uma saia de verão e uns cabelos encaracolados. Nabokov.
«Quero-te esta tarde.»
Os nossos corações não batem como se fossem um, mas ela é bela e os seus seios são sagrados. Nunca lhes toquei.
Ser jovem é não ler e sorrir (o seu sorriso incendeia-me os ossos).
E o calor aparece e nós vivemos na lua.
E um dia virá o Outono.
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 31, 2006
A mais bela história
A mais bela das mulheres (porque tu a amas) apaixona-se por ti e tu deixa-la fugir, como se ela fosse um pássaro que, a pouco e pouco, vai perdendo as penas até se deixar morrer.
Uma grande mentira que se inventou foi o amor correspondido.
Quando duas pessoas se enamoram uma pela outra, tudo parece indicar que se gera um sentimento universal, inabalável. No entanto, o Amor tem uma substância demasiadamente pesada para que possa ser suportado por duas pessoas ao mesmo tempo. É por isso que uma relação nunca é vivida da mesma maneira pelo par. Enquanto um sofre, o outro pensa que tudo decorre de forma perfeita. Enquanto um está em casa à espera que uma nova manhã apareça para que possa ver o seu amado, o outro está num hotel a fornicar uma brasileira calejada.
Todas as moedas têm duas faces. Eu posso ser a insígnia real e tu a cara do imperador. Mas nunca nos podemos juntar do mesmo lado. Com os sentimentos se passa o mesmo. O que não quer dizer que amar seja impossível: olhando para a fotografia da minha esposa, posso amar de uma forma que nunca ninguém amou.
Contudo, a mais bela das mulheres apaixonou-se por mim e eu deixei-a fugir. E ela amou-me de uma forma impossível, já que fugiu e eu não a apanhei. E ela agora chora.
[Paulo Ferreira]
Uma grande mentira que se inventou foi o amor correspondido.
Quando duas pessoas se enamoram uma pela outra, tudo parece indicar que se gera um sentimento universal, inabalável. No entanto, o Amor tem uma substância demasiadamente pesada para que possa ser suportado por duas pessoas ao mesmo tempo. É por isso que uma relação nunca é vivida da mesma maneira pelo par. Enquanto um sofre, o outro pensa que tudo decorre de forma perfeita. Enquanto um está em casa à espera que uma nova manhã apareça para que possa ver o seu amado, o outro está num hotel a fornicar uma brasileira calejada.
Todas as moedas têm duas faces. Eu posso ser a insígnia real e tu a cara do imperador. Mas nunca nos podemos juntar do mesmo lado. Com os sentimentos se passa o mesmo. O que não quer dizer que amar seja impossível: olhando para a fotografia da minha esposa, posso amar de uma forma que nunca ninguém amou.
Contudo, a mais bela das mulheres apaixonou-se por mim e eu deixei-a fugir. E ela amou-me de uma forma impossível, já que fugiu e eu não a apanhei. E ela agora chora.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, maio 30, 2006
Sorteio
É possível que a cada três homens dois deles estejam destinados à mediocridade. Assim como outros dois deles estejam destinados a ser alguém na vida.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
autobiografia 10
Uma ausência é sempre uma longa ausência. E forçada, para ser um pouco mais azeda. Qualquer homem que se preze tira uma mês de vez em quando para morrer um pouco mais. Sozinho.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sábado, maio 27, 2006
Descer ao pó
Bater com o queixo no chão pode não ser das coisas mais fascinantes da existência humana, mas às vezes é necessário que se percam algumas gotas de sangue num soalho de madeira para que se perceba que a superioridade não advém da inteligência ou da precocidade intelectual.
Em miúdo parti o queixo enquanto tentava iludir uma inocente ninfeta com promessas de uma paixão que, só anos mais tarde, viria a reconhecer como urgente para a minha sobrevivência. Ganhei uma cicatriz vitalícia, um traço de sangue para acalmar o medo nas horas de maior aflição.
Mas nunca percebi.
O entendimento ganha uma maior lucidez quando se vivem situações de real perigo ou aflição.
Ouvi na televisão que um jogador de futebol perdeu um dedo a festejar um golo com os seus adeptos. Isso não é chegar a entender. Se o jogador voltar a marcar um golo, não se importará de voltar a perder outro dedo.
Entender é um indivíduo de quatro dedos marcar um golo e não ficar disponível para perder outro dedo.
A prostituta que se casa com um trintão desdentado ou a velhota que se apaixona por um puto de vinte anos, eis alguns casos de inteligência não reconhecida. A prostituta não se veste de noiva para um desdentado, a menos que o seu rabo desça até ao chão. Nenhuma sexagenária consegue fazer com que um rapaz de tenra idade se enamore por ela.
Mas, do mesmo modo que uma velha precisa de amar até morrer, também uma prostituta precisa de um lugar que possa ser seu. Se esse lugar for entre as gengivas vazias do marido, paciência.
A inteligência não requer um prémio Nobel ou um lugar de destaque em todas as conferências políticas. Eu nunca fui inteligente porque nunca dancei música progressiva quando alguma mulher precisava de companhia.
Tenho três dedos numa mão que poderia ter cinco. O que não quer dizer que nunca tenha aprendido com a vida: já parti o queixo. Mas os velhos bêbedos também já foram todos atropelados e continuam bêbedos.
Como te percebo, minha querida avó.
[Paulo Ferreira]
Em miúdo parti o queixo enquanto tentava iludir uma inocente ninfeta com promessas de uma paixão que, só anos mais tarde, viria a reconhecer como urgente para a minha sobrevivência. Ganhei uma cicatriz vitalícia, um traço de sangue para acalmar o medo nas horas de maior aflição.
Mas nunca percebi.
O entendimento ganha uma maior lucidez quando se vivem situações de real perigo ou aflição.
Ouvi na televisão que um jogador de futebol perdeu um dedo a festejar um golo com os seus adeptos. Isso não é chegar a entender. Se o jogador voltar a marcar um golo, não se importará de voltar a perder outro dedo.
Entender é um indivíduo de quatro dedos marcar um golo e não ficar disponível para perder outro dedo.
A prostituta que se casa com um trintão desdentado ou a velhota que se apaixona por um puto de vinte anos, eis alguns casos de inteligência não reconhecida. A prostituta não se veste de noiva para um desdentado, a menos que o seu rabo desça até ao chão. Nenhuma sexagenária consegue fazer com que um rapaz de tenra idade se enamore por ela.
Mas, do mesmo modo que uma velha precisa de amar até morrer, também uma prostituta precisa de um lugar que possa ser seu. Se esse lugar for entre as gengivas vazias do marido, paciência.
A inteligência não requer um prémio Nobel ou um lugar de destaque em todas as conferências políticas. Eu nunca fui inteligente porque nunca dancei música progressiva quando alguma mulher precisava de companhia.
Tenho três dedos numa mão que poderia ter cinco. O que não quer dizer que nunca tenha aprendido com a vida: já parti o queixo. Mas os velhos bêbedos também já foram todos atropelados e continuam bêbedos.
Como te percebo, minha querida avó.
[Paulo Ferreira]
sexta-feira, maio 26, 2006
O rapaz sem sol
O amor é belo quando os dias estão para isso.
Um gato aceita festas do dono quando tem a barriga vazia.
O escritor escreve quando tem ilusões.
Esquecer-me de ter ligado à minha mãe no dia do seu aniversário também tem um não sei quê de amoroso, porque nos dias seguintes o telefone dela toca e ninguém atende.
Mas o que é mesmo triste nesta vida é o sol não brilhar para todos. Não me refiro à dor. Os dentes doem a quem não os lava ou a quem peca. Mas o sol é diferente: é um motivo de felicidade.
A escuridão não brilha no céu nem dá vontade de dar pulos de alegria no ar. Porque ninguém tem vontade de gritar debaixo de água.
Quando chove, fumam-se cigarros e têm-se conversas desgraçadas. Quando está escuro, dorme-se ou faz-se sexo. O sexo na escuridão é animalesco, como a guerra e as pernas que são amputadas porque já não têm como se salvar dos rasgos do metal. O escuro faz com que as mulheres levantem as pernas e que peçam para serem comidas.
Mas ninguém ama ao escuro. Ninguém é feliz na treva.
O indiano que se deixou atropelar por um comboio nunca viu o sol: era um morcego. Ele bem o procurou, mas ninguém lho deu. Foi sempre um desgraçado, este indiano.
Se eu fosse deus, roubava um bocadinho de sol à lua todas as noites até lhe construir um templo e, quem sabe, um mundo. E todas as pernas depiladas seriam dele. E toda a família dele lhe daria todo o amor que agora já não lhe faz falta. E o planeta seria belo como nunca foi.
Puta de vida.
[Paulo Ferreira]
Um gato aceita festas do dono quando tem a barriga vazia.
O escritor escreve quando tem ilusões.
Esquecer-me de ter ligado à minha mãe no dia do seu aniversário também tem um não sei quê de amoroso, porque nos dias seguintes o telefone dela toca e ninguém atende.
Mas o que é mesmo triste nesta vida é o sol não brilhar para todos. Não me refiro à dor. Os dentes doem a quem não os lava ou a quem peca. Mas o sol é diferente: é um motivo de felicidade.
A escuridão não brilha no céu nem dá vontade de dar pulos de alegria no ar. Porque ninguém tem vontade de gritar debaixo de água.
Quando chove, fumam-se cigarros e têm-se conversas desgraçadas. Quando está escuro, dorme-se ou faz-se sexo. O sexo na escuridão é animalesco, como a guerra e as pernas que são amputadas porque já não têm como se salvar dos rasgos do metal. O escuro faz com que as mulheres levantem as pernas e que peçam para serem comidas.
Mas ninguém ama ao escuro. Ninguém é feliz na treva.
O indiano que se deixou atropelar por um comboio nunca viu o sol: era um morcego. Ele bem o procurou, mas ninguém lho deu. Foi sempre um desgraçado, este indiano.
Se eu fosse deus, roubava um bocadinho de sol à lua todas as noites até lhe construir um templo e, quem sabe, um mundo. E todas as pernas depiladas seriam dele. E toda a família dele lhe daria todo o amor que agora já não lhe faz falta. E o planeta seria belo como nunca foi.
Puta de vida.
[Paulo Ferreira]
O dinheiro
Arma: o revólver.
Instrumento de prova: a gravata.
Corpo: o bancário.
Causa: o ciúme.
Criminoso: dois seios gordos.
Vítima: o amor.
Linha experimental: a mulher, revoltada com o seu parceiro, pega num instrumento mortífero (a arma) e despacha o retrato físico da sua paixão (o corpo). Como a parte perfurada pelo metal localiza-se perto do instrumento de prova, o sangue mancha a beleza que torna o sujeito de negócios respeitável.
Primeira conclusão: uma gravata representa muito para quem mexe com dinheiro.
Segunda conclusão: quem acerta na gravata de um negociante com um tiro, retira a honra a quem morre.
Terceira conclusão: uma mulher ferida no seu orgulho não tem medo de matar aqueles que ama.
[Paulo Ferreira]
Instrumento de prova: a gravata.
Corpo: o bancário.
Causa: o ciúme.
Criminoso: dois seios gordos.
Vítima: o amor.
Linha experimental: a mulher, revoltada com o seu parceiro, pega num instrumento mortífero (a arma) e despacha o retrato físico da sua paixão (o corpo). Como a parte perfurada pelo metal localiza-se perto do instrumento de prova, o sangue mancha a beleza que torna o sujeito de negócios respeitável.
Primeira conclusão: uma gravata representa muito para quem mexe com dinheiro.
Segunda conclusão: quem acerta na gravata de um negociante com um tiro, retira a honra a quem morre.
Terceira conclusão: uma mulher ferida no seu orgulho não tem medo de matar aqueles que ama.
[Paulo Ferreira]
A janela da ajuda
Da minha janela vejo a rua e a natureza que a rodeia. Se me esforçar um pouco mais, consigo ainda vislumbrar vários indícios de civilização, como automóveis, prédios, prostitutas e toxicodependentes. Mas, dentro desta sala, ninguém me consegue ver, porque não está cá mais ninguém para além de mim.
E eu observo a multidão na rua.
E eu reparo nos traços mais vincados da nossa forma de vida (um vagabundo que lava as mãos com a sua própria urina, por exemplo).
Será esta a sensação que aflige o Senhor omnipotente quando Ele se senta na sua cadeira solitária?
Serei eu uma espécie de deus mortal?
Na rua, duas mulheres trocam bofetadas e até a mim me dói.
E cá dentro nada se move.
Um deus não sofre assim.
[Paulo Ferreira]
E eu observo a multidão na rua.
E eu reparo nos traços mais vincados da nossa forma de vida (um vagabundo que lava as mãos com a sua própria urina, por exemplo).
Será esta a sensação que aflige o Senhor omnipotente quando Ele se senta na sua cadeira solitária?
Serei eu uma espécie de deus mortal?
Na rua, duas mulheres trocam bofetadas e até a mim me dói.
E cá dentro nada se move.
Um deus não sofre assim.
[Paulo Ferreira]
As nuvens
As nuvens são uma ficção inventada (desnecessária, a repetição) por todos aqueles que gostariam de poder observar a lua com os próprios olhos mas que não conseguem.
Um gato que observe o céu sem conseguir atingir as estrelas não é um gato: é um homem cego. Os gatos não são como as pessoas, já que vêem onde mais ninguém consegue ver. Além disso, um gato que se preze capta o essencial da vida, afastando-se.
O óbvio: as pessoas não vêem no escuro nem captam nada que seja essencial. É por isso que um aspirante a felino que não consiga ver as estrelas, só pode ter barba e bengala de ajuda quotidiana.
Repare-se em Homero.
[Paulo Ferreira]
Um gato que observe o céu sem conseguir atingir as estrelas não é um gato: é um homem cego. Os gatos não são como as pessoas, já que vêem onde mais ninguém consegue ver. Além disso, um gato que se preze capta o essencial da vida, afastando-se.
O óbvio: as pessoas não vêem no escuro nem captam nada que seja essencial. É por isso que um aspirante a felino que não consiga ver as estrelas, só pode ter barba e bengala de ajuda quotidiana.
Repare-se em Homero.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, maio 25, 2006
Isolamento
Tiraram-me o relógio. Pensavam que eu me podia suicidar com ele. É muito mau estar no isolamento sem relógio. O relógio dá ritmo ao nosso dia. Quando se está livre, vai-se ao telefone, à casa de banho, à cozinha, à estante, ao jardim, ao café, à mulher. O relógio di-lo-no. Na prisão, sem relógio, esses instintos tornam-se tumultuosos e confusos na cabeça, ainda que não possamos obedecer-lhes sempre. Eles são a liberdade. Um relógio é a liberdade.
- John Le Carré, A Paz Insuportável
[João Carlos Silva]
- John Le Carré, A Paz Insuportável
[João Carlos Silva]
quarta-feira, maio 24, 2006
O som do amor
O som de um tiro: «boom».
A ferida que nasce a partir de um pedaço de metal é o amor, não a morte. Ninguém morre ou mata sem amor.
Se até a grande explosão, o big-bang, brotou do interior de um deus universal, por que razão seria diferente connosco? Seremos seres sentimentalmente neutros? Ou serão as balas munidas de vida própria?
«Boom» também é o som de um coração.
«Boom-Boom» (aos saltos).
[Paulo Ferreira]
A ferida que nasce a partir de um pedaço de metal é o amor, não a morte. Ninguém morre ou mata sem amor.
Se até a grande explosão, o big-bang, brotou do interior de um deus universal, por que razão seria diferente connosco? Seremos seres sentimentalmente neutros? Ou serão as balas munidas de vida própria?
«Boom» também é o som de um coração.
«Boom-Boom» (aos saltos).
[Paulo Ferreira]
Os cinco dedos
Cinco dedos tem uma mão que pertença a um corpo convencional. Mas podes sempre tirar um dedo ou dois a uma dessas mãos. De qualquer forma, aviso-te, uma mão de quatro dedos é considerada deficiente.
És livre de considerar o teu corpo (observa a tua mão) normal e de sentir que és alguém que se adaptou muito bem à ordem natural da tua sociedade, mas seria bom que nunca deixasses de acreditar na hipótese de um dia te considerarem aleijado e diferente.
A eugenia não nasceu na Alemanha.
Nem tudo o que sai das chaminés é fumo para te matar.
Certas mulheres põem borracha nos seios.
Observa os teus cinco dedos sem te rires. Quem sabe o que o futuro te reserva.
[Paulo Ferreira]
És livre de considerar o teu corpo (observa a tua mão) normal e de sentir que és alguém que se adaptou muito bem à ordem natural da tua sociedade, mas seria bom que nunca deixasses de acreditar na hipótese de um dia te considerarem aleijado e diferente.
A eugenia não nasceu na Alemanha.
Nem tudo o que sai das chaminés é fumo para te matar.
Certas mulheres põem borracha nos seios.
Observa os teus cinco dedos sem te rires. Quem sabe o que o futuro te reserva.
[Paulo Ferreira]
A discussão
Um adolescente discute com uma jovem mulher gorda no meio de uma rua. Para quem assiste a tal forma de conversação, o caso é simples: um corpo com peso a mais sente-se usado por um corpo de peso normal. Porém, porque a espécie não pode ser vista a partir de fórmulas tão generalizadas, convém acrescentar o seguinte: esta mulher gorda não é mais do que uma pobre coitada que nunca conseguiu obter uma relação amorosa a partir da sua própria beleza (visto dela nunca ter sido dotada), mas a partir do sexo. Ela só pode amar (tocar a pele de outrem) se oferecer a sua vagina aos caprichos de outros.
Mas toda a gente sabe que só se dá valor a uma oferta quando é exigida alguma forma de trabalho em troca. E, portanto, muito pode discutir aquela vagina necessitada porque o mancebo nunca a compreenderá.
[Paulo Ferreira]
Mas toda a gente sabe que só se dá valor a uma oferta quando é exigida alguma forma de trabalho em troca. E, portanto, muito pode discutir aquela vagina necessitada porque o mancebo nunca a compreenderá.
[Paulo Ferreira]
A raiva
Um cão raivoso queria ter mais amigos sem, com isso, se tornar manso: tornou-se falso e começou a mentir.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Estertor:
Levar um soco de pugilista no estômago e, depois, soprar como se houvesse um fogo interno que precisasse de ser apagado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
A linha recta
Uma bala: a linha recta.
Podes não ter confiança no teu próprio corpo e precisares, por vezes, de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração, é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.
[Paulo Ferreira]
Podes não ter confiança no teu próprio corpo e precisares, por vezes, de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração, é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.
[Paulo Ferreira]
Prostração:
Permanecermos sentados num sofá durante semanas, meses e anos, para, no fim de tudo, chegarmos à triste conclusão de que a vida nos passou ao lado.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
o Estudante
Aquele estudante que se enfia durante intermináveis horas no seu quarto a sofrer, para depois sair para a rua de peitos esticados e de sorriso jovial, é um desgraçado. Mas não sabe. Para ele, sofrer apenas acontece quando se é traído ou quando se cai prostrado numa cama. Não sabe o rapaz que também ele sofre durante as tardes em que se fecha a sete chaves dentro de quatro paredes.
Meu caro caloiro, as olheiras não enganam os melhores médicos. Nem a solidão disfarçada de vaidade.
[Paulo Ferreira]
Meu caro caloiro, as olheiras não enganam os melhores médicos. Nem a solidão disfarçada de vaidade.
[Paulo Ferreira]
quinta-feira, maio 18, 2006
quarta-feira, maio 17, 2006
Problema
Naquela altura, o problema era eu só mascar pastilhas de mentol e tu só gostares do sabor a morango.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Soldadinho
Outro tempo viveria aquele desgraçado que partiu um pé a correr, se atrás dele corressem pastores alemães atiçados por sujeitos fardados. Mas, como nem de soldadinhos de chumbo ouviu este homem aleijado alguma vez falar, desaba num choro perturbante, como se chamasse pelo nome de sua mãe.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Destino: cosmos
Ao ouvir aquele bêbedo falar, o mundo percebeu que a história da literatura não poderia continuar a ser a mesma. Dizia o alcoolizado que os seus ossos lhe sorriam como pérolas estigmatizadas pelas cáries da sociedade.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
terça-feira, maio 16, 2006
Manias (não gosto de andar de carro sem destino, como a nobre doutora Maria de Belém)
Respondendo ao apelo do Samuel, aqui deixo cinco manias minhas:
1- Julgar que estou condenado a morrer desgraçado. Cada doença que me afecta o corpo, faz-me pensar que vou morrer ( de cancro, etc.);
2- Beber café às oito da manhã e ficar com uma dor de barriga de duas horas;
3- Cumprir as minhas tarefas diárias num tempo pré-estabelecido. Por exemplo, se me demorar mais de trinta minutos a almoçar, começo a pensar que tenho o resto do dia estragado;
4- Não ver televisão por achar que sou um indivíduo demasiadamente ocupado e culto;
5- Deixar tudo o que me rodeia desarrumado (há quem se sinta bem no meio da desorganização).
[Paulo Ferreira]
1- Julgar que estou condenado a morrer desgraçado. Cada doença que me afecta o corpo, faz-me pensar que vou morrer ( de cancro, etc.);
2- Beber café às oito da manhã e ficar com uma dor de barriga de duas horas;
3- Cumprir as minhas tarefas diárias num tempo pré-estabelecido. Por exemplo, se me demorar mais de trinta minutos a almoçar, começo a pensar que tenho o resto do dia estragado;
4- Não ver televisão por achar que sou um indivíduo demasiadamente ocupado e culto;
5- Deixar tudo o que me rodeia desarrumado (há quem se sinta bem no meio da desorganização).
[Paulo Ferreira]
Perto do sanatório
Gosto muito das sinopses dos livros de Robert Walser. Repare-se na beleza: «Foi encontrado morto, na neve, por um grupo de crianças no dia de Natal de 1956, quando dava um dos seu habituais passeios.»
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Evolucionismo
A dra. Steinbeck matava macacos com uma única e certeira martelada na nuca.
Avanços experimentais, diria ela, limpando o sangue dos lábios.
[Paulo Ferreira]
Avanços experimentais, diria ela, limpando o sangue dos lábios.
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, maio 15, 2006
O homem e o dragão
O pequeno homem queria medir forças com um dragão, mas não conseguia, porque lhe faltava tamanho (ou astúcia) para derrotar tão nobre animal. Mesmo assim, e sem se esquecer de que toda a sua vida fora uma maré de lamentos e de pequenas derrotas, o pequeno homem, um dia, ganhou coragem e atirou-se à besta, acabando por morrer queimado e sozinho.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Esfera
Uma criança que cresça a jogar ao berlinde não tem a mínima noção de que, mais tarde ou mais cedo, ela própria se tornará na pequena esfera de vidro com que se habituou a brincar.
E porque a idade dá cabo da saúde de todos os que vivem, se percebe que uma criança que cresce nunca ganha real noção da forma cada vez mais arredondada da sua corcova.
[Paulo Ferreira]
E porque a idade dá cabo da saúde de todos os que vivem, se percebe que uma criança que cresce nunca ganha real noção da forma cada vez mais arredondada da sua corcova.
[Paulo Ferreira]
Para um novo ditado
Quando um homem quer, outro homem envelhece e outro homem fica corcunda (até morrer).
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Centro da terra
No meio da multidão poderás sempre encontrar algo que te cative, como os pés bem delineados de uma adolescente ou o frágil sorriso de uma velhota que se assemelhe a alguém de quem gostes. No entanto, nunca te esqueças do barulho.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
O sapo que se fez homem
sexta-feira, maio 12, 2006
quinta-feira, maio 11, 2006
Ascese
Duas crianças incendiaram o corpo de um mendigo e, durante sete dias, alimentaram o fogo a gasolina e a petróleo. Dir-se-ia que, em pouco menos de uma semana, duas crianças fundaram uma nova religião.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Rugas
Uma senhora velha (porque nem todas as senhoras são velhas) queria voltar a ser bela e, por conseguinte, jovem: arrancou os dentes do seu cão e com eles fez um fio. Embora tenha continuado velha, a senhora ficou estranhamente bonita.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
quarta-feira, maio 10, 2006
Mergulho
Correr para o mar: um mergulho.
Podes saltar de uma ponte sem que ninguém se preocupe com a tua sobrevivência, mas, se te atirares ao mar apenas para um mergulho, logo uma velha gritará pela tua alma.
[Paulo Ferreira]
Podes saltar de uma ponte sem que ninguém se preocupe com a tua sobrevivência, mas, se te atirares ao mar apenas para um mergulho, logo uma velha gritará pela tua alma.
[Paulo Ferreira]
O esquerdo e o direito
Vês melhor com um olho do que com o outro? Compra uns óculos que te normalizem a visão. Mas não te preocupes muito com a forma como uma retina se pode adaptar ao vento, caso contrário, ficarás cego.
A preocupação mata mais do que uma visão dessincronizada. Esta é uma sentença que te deixo.
[Paulo Ferreira]
A preocupação mata mais do que uma visão dessincronizada. Esta é uma sentença que te deixo.
[Paulo Ferreira]
terça-feira, maio 09, 2006
Engano
Um sapo queria tornar-se príncipe: beijou uma mulher e arrotou. Fez-se homem.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
O novo homem
Um homem velho queria tornar-se novo: deu um tiro no cérebro e voltou a nascer.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
segunda-feira, maio 08, 2006
Fila de espera
Na fila de espera para a entrada do autocarro, um homem diz para outro: «Olha se aquela mulher que vai a correr fosse a tua!». Passados uns segundos, o homem que alertara o outro começou a soluçar, pensando que, ao olhar para a mulher que passara, atingira uma felicidade imaginária, típica dos que sabem que «aquilo» nunca lhes acontecerá.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fragmentação
Até ao dia em que aprendeu a dividir, o rapaz restringiu-se a somar e a subtrair. Depois, não mais o seu mundo continuou o mesmo. As somas e as subtracções deixaram de lhe interessar e a realidade começou a parecer-lhe cada vez mais fragmentada. Ou seja: o rapaz tinha sete anos e já percebia que EU a dividir por TU dava MIM (que é sinónimo de SÓ). Essa é que é essa.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
sábado, maio 06, 2006
autobiografia 9
Certo miúdo tentava apanhar pequenas rãs no parque, imitando os colegas mais ariscos. Falhava, falhava e falhava, enquanto os outros coleccionavam até às sobras. Até que um dia conseguiu apanhar a sua primeira rã. E assim ficou perante o resto dos rapazes, que, calados e impressionados, contemplavam a rã prostrada nas mãos em concha. Curiosamente, só aquele miúdo não conseguira perceber que apenas apanhara a rã porque esta estava morta. E assim segurava alegremente aquele cadáver.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
autobiografia 8
Um rapaz, furioso de amor e rejeitado, resolveu enviar uma carta anónima à sua amada, chamando-a de todos os nomes insultuosos possíveis.
A rapariga apaixonou-se pelo hipotético e anónimo remetente e escreveu-lhe de volta uma carta de amor.
[João Carlos Silva]
A rapariga apaixonou-se pelo hipotético e anónimo remetente e escreveu-lhe de volta uma carta de amor.
[João Carlos Silva]
O editor e o escritor
«É uma história muito antiga», disse-lhe o editor, devolvendo o manuscrito.
O escritor, sorriu para si próprio e dirigiu-se à estação dos correios, meteu o manuscrito do romance num envelope almofadado, enviando-o para o futuro.
-José Viale Moutinho, Hotel Graben
[João Carlos Silva]
O escritor, sorriu para si próprio e dirigiu-se à estação dos correios, meteu o manuscrito do romance num envelope almofadado, enviando-o para o futuro.
-José Viale Moutinho, Hotel Graben
[João Carlos Silva]
Complicações
Num livro de 1985, Maria de Lourdes Pintasilgo (por quem sempre tive, aliás, grande simpatia) explica que não se sente bem com o termo «mercado». A esse termo, contrapõe - para a mesmíssima coisa - a palavra «comércio». «Porque assim, parece que ambas as partes ganham algo com o negócio», diz. O que diz muito sobre nós. Aliás, esta complicação portuguesa em fazer coincidir os nomes com as coisas talvez seja explicada pela nossa já antiga complicação em fazer seja o que for.
[João Carlos Silva]
[João Carlos Silva]
sexta-feira, maio 05, 2006
Segunda parte
A segunda parte da tua cabeça, aquela que mais se aproxima do rabo, a nuca, está prestes a embater contra uma parede de tijolos e tu, como jovem perfeito que és, nada fazes para te salvares ou redimires. Em breve serás pedra e cal mas nada fazes. A tua cara não quer saber dos tijolos nem das feridas que eles provocam. Morre (com um ponto de exclamação imaginário).
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Fogo
Uma mulher queria tornar-se mais atraente para o marido: esfregou a cara em gasolina e deitou-lhe fogo.
[Paulo Ferreira]
[Paulo Ferreira]
Subscrever:
Mensagens (Atom)











