quarta-feira, maio 31, 2006

Admiração póstuma


Elliott Smith

[João Carlos Silva]

A mais bela história

A mais bela das mulheres (porque tu a amas) apaixona-se por ti e tu deixa-la fugir, como se ela fosse um pássaro que, a pouco e pouco, vai perdendo as penas até se deixar morrer.
Uma grande mentira que se inventou foi o amor correspondido.
Quando duas pessoas se enamoram uma pela outra, tudo parece indicar que se gera um sentimento universal, inabalável. No entanto, o Amor tem uma substância demasiadamente pesada para que possa ser suportado por duas pessoas ao mesmo tempo. É por isso que uma relação nunca é vivida da mesma maneira pelo par. Enquanto um sofre, o outro pensa que tudo decorre de forma perfeita. Enquanto um está em casa à espera que uma nova manhã apareça para que possa ver o seu amado, o outro está num hotel a fornicar uma brasileira calejada.
Todas as moedas têm duas faces. Eu posso ser a insígnia real e tu a cara do imperador. Mas nunca nos podemos juntar do mesmo lado. Com os sentimentos se passa o mesmo. O que não quer dizer que amar seja impossível: olhando para a fotografia da minha esposa, posso amar de uma forma que nunca ninguém amou.
Contudo, a mais bela das mulheres apaixonou-se por mim e eu deixei-a fugir. E ela amou-me de uma forma impossível, já que fugiu e eu não a apanhei. E ela agora chora.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, maio 30, 2006

Sorteio

É possível que a cada três homens dois deles estejam destinados à mediocridade. Assim como outros dois deles estejam destinados a ser alguém na vida.

[João Carlos Silva]

A uma leitora mais optimista









Não somos a mesma pessoa. A sério.

[João Carlos Silva]

autobiografia 10

Uma ausência é sempre uma longa ausência. E forçada, para ser um pouco mais azeda. Qualquer homem que se preze tira uma mês de vez em quando para morrer um pouco mais. Sozinho.

[João Carlos Silva]

sábado, maio 27, 2006

Descer ao pó

Bater com o queixo no chão pode não ser das coisas mais fascinantes da existência humana, mas às vezes é necessário que se percam algumas gotas de sangue num soalho de madeira para que se perceba que a superioridade não advém da inteligência ou da precocidade intelectual.
Em miúdo parti o queixo enquanto tentava iludir uma inocente ninfeta com promessas de uma paixão que, só anos mais tarde, viria a reconhecer como urgente para a minha sobrevivência. Ganhei uma cicatriz vitalícia, um traço de sangue para acalmar o medo nas horas de maior aflição.
Mas nunca percebi.
O entendimento ganha uma maior lucidez quando se vivem situações de real perigo ou aflição.
Ouvi na televisão que um jogador de futebol perdeu um dedo a festejar um golo com os seus adeptos. Isso não é chegar a entender. Se o jogador voltar a marcar um golo, não se importará de voltar a perder outro dedo.
Entender é um indivíduo de quatro dedos marcar um golo e não ficar disponível para perder outro dedo.
A prostituta que se casa com um trintão desdentado ou a velhota que se apaixona por um puto de vinte anos, eis alguns casos de inteligência não reconhecida. A prostituta não se veste de noiva para um desdentado, a menos que o seu rabo desça até ao chão. Nenhuma sexagenária consegue fazer com que um rapaz de tenra idade se enamore por ela.
Mas, do mesmo modo que uma velha precisa de amar até morrer, também uma prostituta precisa de um lugar que possa ser seu. Se esse lugar for entre as gengivas vazias do marido, paciência.
A inteligência não requer um prémio Nobel ou um lugar de destaque em todas as conferências políticas. Eu nunca fui inteligente porque nunca dancei música progressiva quando alguma mulher precisava de companhia.
Tenho três dedos numa mão que poderia ter cinco. O que não quer dizer que nunca tenha aprendido com a vida: já parti o queixo. Mas os velhos bêbedos também já foram todos atropelados e continuam bêbedos.
Como te percebo, minha querida avó.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, maio 26, 2006

O rapaz sem sol

O amor é belo quando os dias estão para isso.
Um gato aceita festas do dono quando tem a barriga vazia.
O escritor escreve quando tem ilusões.
Esquecer-me de ter ligado à minha mãe no dia do seu aniversário também tem um não sei quê de amoroso, porque nos dias seguintes o telefone dela toca e ninguém atende.
Mas o que é mesmo triste nesta vida é o sol não brilhar para todos. Não me refiro à dor. Os dentes doem a quem não os lava ou a quem peca. Mas o sol é diferente: é um motivo de felicidade.
A escuridão não brilha no céu nem dá vontade de dar pulos de alegria no ar. Porque ninguém tem vontade de gritar debaixo de água.
Quando chove, fumam-se cigarros e têm-se conversas desgraçadas. Quando está escuro, dorme-se ou faz-se sexo. O sexo na escuridão é animalesco, como a guerra e as pernas que são amputadas porque já não têm como se salvar dos rasgos do metal. O escuro faz com que as mulheres levantem as pernas e que peçam para serem comidas.
Mas ninguém ama ao escuro. Ninguém é feliz na treva.
O indiano que se deixou atropelar por um comboio nunca viu o sol: era um morcego. Ele bem o procurou, mas ninguém lho deu. Foi sempre um desgraçado, este indiano.
Se eu fosse deus, roubava um bocadinho de sol à lua todas as noites até lhe construir um templo e, quem sabe, um mundo. E todas as pernas depiladas seriam dele. E toda a família dele lhe daria todo o amor que agora já não lhe faz falta. E o planeta seria belo como nunca foi.
Puta de vida.

[Paulo Ferreira]

O dinheiro

Arma: o revólver.
Instrumento de prova: a gravata.
Corpo: o bancário.
Causa: o ciúme.
Criminoso: dois seios gordos.
Vítima: o amor.
Linha experimental: a mulher, revoltada com o seu parceiro, pega num instrumento mortífero (a arma) e despacha o retrato físico da sua paixão (o corpo). Como a parte perfurada pelo metal localiza-se perto do instrumento de prova, o sangue mancha a beleza que torna o sujeito de negócios respeitável.
Primeira conclusão: uma gravata representa muito para quem mexe com dinheiro.
Segunda conclusão: quem acerta na gravata de um negociante com um tiro, retira a honra a quem morre.
Terceira conclusão: uma mulher ferida no seu orgulho não tem medo de matar aqueles que ama.

[Paulo Ferreira]

A janela da ajuda

Da minha janela vejo a rua e a natureza que a rodeia. Se me esforçar um pouco mais, consigo ainda vislumbrar vários indícios de civilização, como automóveis, prédios, prostitutas e toxicodependentes. Mas, dentro desta sala, ninguém me consegue ver, porque não está cá mais ninguém para além de mim.
E eu observo a multidão na rua.
E eu reparo nos traços mais vincados da nossa forma de vida (um vagabundo que lava as mãos com a sua própria urina, por exemplo).
Será esta a sensação que aflige o Senhor omnipotente quando Ele se senta na sua cadeira solitária?
Serei eu uma espécie de deus mortal?
Na rua, duas mulheres trocam bofetadas e até a mim me dói.
E cá dentro nada se move.
Um deus não sofre assim.

[Paulo Ferreira]

As nuvens

As nuvens são uma ficção inventada (desnecessária, a repetição) por todos aqueles que gostariam de poder observar a lua com os próprios olhos mas que não conseguem.
Um gato que observe o céu sem conseguir atingir as estrelas não é um gato: é um homem cego. Os gatos não são como as pessoas, já que vêem onde mais ninguém consegue ver. Além disso, um gato que se preze capta o essencial da vida, afastando-se.
O óbvio: as pessoas não vêem no escuro nem captam nada que seja essencial. É por isso que um aspirante a felino que não consiga ver as estrelas, só pode ter barba e bengala de ajuda quotidiana.
Repare-se em Homero.


[Paulo Ferreira]

quinta-feira, maio 25, 2006

Isolamento

Tiraram-me o relógio. Pensavam que eu me podia suicidar com ele. É muito mau estar no isolamento sem relógio. O relógio dá ritmo ao nosso dia. Quando se está livre, vai-se ao telefone, à casa de banho, à cozinha, à estante, ao jardim, ao café, à mulher. O relógio di-lo-no. Na prisão, sem relógio, esses instintos tornam-se tumultuosos e confusos na cabeça, ainda que não possamos obedecer-lhes sempre. Eles são a liberdade. Um relógio é a liberdade.

- John Le Carré, A Paz Insuportável

[João Carlos Silva]

quarta-feira, maio 24, 2006

O som do amor

O som de um tiro: «boom».
A ferida que nasce a partir de um pedaço de metal é o amor, não a morte. Ninguém morre ou mata sem amor.
Se até a grande explosão, o big-bang, brotou do interior de um deus universal, por que razão seria diferente connosco? Seremos seres sentimentalmente neutros? Ou serão as balas munidas de vida própria?
«Boom» também é o som de um coração.
«Boom-Boom» (aos saltos).

[Paulo Ferreira]

Os cinco dedos

Cinco dedos tem uma mão que pertença a um corpo convencional. Mas podes sempre tirar um dedo ou dois a uma dessas mãos. De qualquer forma, aviso-te, uma mão de quatro dedos é considerada deficiente.
És livre de considerar o teu corpo (observa a tua mão) normal e de sentir que és alguém que se adaptou muito bem à ordem natural da tua sociedade, mas seria bom que nunca deixasses de acreditar na hipótese de um dia te considerarem aleijado e diferente.
A eugenia não nasceu na Alemanha.
Nem tudo o que sai das chaminés é fumo para te matar.
Certas mulheres põem borracha nos seios.
Observa os teus cinco dedos sem te rires. Quem sabe o que o futuro te reserva.


[Paulo Ferreira]

A discussão

Um adolescente discute com uma jovem mulher gorda no meio de uma rua. Para quem assiste a tal forma de conversação, o caso é simples: um corpo com peso a mais sente-se usado por um corpo de peso normal. Porém, porque a espécie não pode ser vista a partir de fórmulas tão generalizadas, convém acrescentar o seguinte: esta mulher gorda não é mais do que uma pobre coitada que nunca conseguiu obter uma relação amorosa a partir da sua própria beleza (visto dela nunca ter sido dotada), mas a partir do sexo. Ela só pode amar (tocar a pele de outrem) se oferecer a sua vagina aos caprichos de outros.
Mas toda a gente sabe que só se dá valor a uma oferta quando é exigida alguma forma de trabalho em troca. E, portanto, muito pode discutir aquela vagina necessitada porque o mancebo nunca a compreenderá.


[Paulo Ferreira]

A raiva

Um cão raivoso queria ter mais amigos sem, com isso, se tornar manso: tornou-se falso e começou a mentir.

[Paulo Ferreira]

Estertor:

Levar um soco de pugilista no estômago e, depois, soprar como se houvesse um fogo interno que precisasse de ser apagado.

[Paulo Ferreira]

A linha recta

Uma bala: a linha recta.
Podes não ter confiança no teu próprio corpo e precisares, por vezes, de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração, é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.

[Paulo Ferreira]

Prostração:

Permanecermos sentados num sofá durante semanas, meses e anos, para, no fim de tudo, chegarmos à triste conclusão de que a vida nos passou ao lado.

[Paulo Ferreira]

o Estudante

Aquele estudante que se enfia durante intermináveis horas no seu quarto a sofrer, para depois sair para a rua de peitos esticados e de sorriso jovial, é um desgraçado. Mas não sabe. Para ele, sofrer apenas acontece quando se é traído ou quando se cai prostrado numa cama. Não sabe o rapaz que também ele sofre durante as tardes em que se fecha a sete chaves dentro de quatro paredes.
Meu caro caloiro, as olheiras não enganam os melhores médicos. Nem a solidão disfarçada de vaidade.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, maio 18, 2006

quarta-feira, maio 17, 2006

Problema

Naquela altura, o problema era eu só mascar pastilhas de mentol e tu só gostares do sabor a morango.

[Paulo Ferreira]

Três anos

De Almocreve das Petas. Parabéns.

[Paulo Ferreira]
[João Carlos Silva]

Soldadinho

Outro tempo viveria aquele desgraçado que partiu um pé a correr, se atrás dele corressem pastores alemães atiçados por sujeitos fardados. Mas, como nem de soldadinhos de chumbo ouviu este homem aleijado alguma vez falar, desaba num choro perturbante, como se chamasse pelo nome de sua mãe.

[Paulo Ferreira]

Destino: cosmos

Ao ouvir aquele bêbedo falar, o mundo percebeu que a história da literatura não poderia continuar a ser a mesma. Dizia o alcoolizado que os seus ossos lhe sorriam como pérolas estigmatizadas pelas cáries da sociedade.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, maio 16, 2006

Manias (não gosto de andar de carro sem destino, como a nobre doutora Maria de Belém)

Respondendo ao apelo do Samuel, aqui deixo cinco manias minhas:

1- Julgar que estou condenado a morrer desgraçado. Cada doença que me afecta o corpo, faz-me pensar que vou morrer ( de cancro, etc.);

2- Beber café às oito da manhã e ficar com uma dor de barriga de duas horas;

3- Cumprir as minhas tarefas diárias num tempo pré-estabelecido. Por exemplo, se me demorar mais de trinta minutos a almoçar, começo a pensar que tenho o resto do dia estragado;

4- Não ver televisão por achar que sou um indivíduo demasiadamente ocupado e culto;

5- Deixar tudo o que me rodeia desarrumado (há quem se sinta bem no meio da desorganização).

[Paulo Ferreira]

Perto do sanatório

Gosto muito das sinopses dos livros de Robert Walser. Repare-se na beleza: «Foi encontrado morto, na neve, por um grupo de crianças no dia de Natal de 1956, quando dava um dos seu habituais passeios.»

[Paulo Ferreira]

Evolucionismo

A dra. Steinbeck matava macacos com uma única e certeira martelada na nuca.
Avanços experimentais, diria ela, limpando o sangue dos lábios.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, maio 15, 2006

O homem e o dragão

O pequeno homem queria medir forças com um dragão, mas não conseguia, porque lhe faltava tamanho (ou astúcia) para derrotar tão nobre animal. Mesmo assim, e sem se esquecer de que toda a sua vida fora uma maré de lamentos e de pequenas derrotas, o pequeno homem, um dia, ganhou coragem e atirou-se à besta, acabando por morrer queimado e sozinho.

[Paulo Ferreira]

O ajudante


Robert Walser

[Paulo Ferreira]

Esfera

Uma criança que cresça a jogar ao berlinde não tem a mínima noção de que, mais tarde ou mais cedo, ela própria se tornará na pequena esfera de vidro com que se habituou a brincar.
E porque a idade dá cabo da saúde de todos os que vivem, se percebe que uma criança que cresce nunca ganha real noção da forma cada vez mais arredondada da sua corcova.

[Paulo Ferreira]

Drama dos tempos modernos

O indíviduo que se dobra até ao chão.

[Paulo Ferreira]

Para um novo ditado

Quando um homem quer, outro homem envelhece e outro homem fica corcunda (até morrer).

[Paulo Ferreira]

Centro da terra

No meio da multidão poderás sempre encontrar algo que te cative, como os pés bem delineados de uma adolescente ou o frágil sorriso de uma velhota que se assemelhe a alguém de quem gostes. No entanto, nunca te esqueças do barulho.

[Paulo Ferreira]

O sapo que se fez homem

Por não ter tido acesso à internet durante estes dias, só agora decobri que um dos meus blogs preferidos fez link para um post meu. Estou corado.


[Paulo Ferreira]

sexta-feira, maio 12, 2006

quinta-feira, maio 11, 2006

Ascese

Duas crianças incendiaram o corpo de um mendigo e, durante sete dias, alimentaram o fogo a gasolina e a petróleo. Dir-se-ia que, em pouco menos de uma semana, duas crianças fundaram uma nova religião.

[Paulo Ferreira]

Rugas

Uma senhora velha (porque nem todas as senhoras são velhas) queria voltar a ser bela e, por conseguinte, jovem: arrancou os dentes do seu cão e com eles fez um fio. Embora tenha continuado velha, a senhora ficou estranhamente bonita.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, maio 10, 2006

Mergulho

Correr para o mar: um mergulho.
Podes saltar de uma ponte sem que ninguém se preocupe com a tua sobrevivência, mas, se te atirares ao mar apenas para um mergulho, logo uma velha gritará pela tua alma.

[Paulo Ferreira]

O esquerdo e o direito

Vês melhor com um olho do que com o outro? Compra uns óculos que te normalizem a visão. Mas não te preocupes muito com a forma como uma retina se pode adaptar ao vento, caso contrário, ficarás cego.


A preocupação mata mais do que uma visão dessincronizada. Esta é uma sentença que te deixo.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, maio 09, 2006

Engano

Um sapo queria tornar-se príncipe: beijou uma mulher e arrotou. Fez-se homem.

[Paulo Ferreira]

O novo homem

Um homem velho queria tornar-se novo: deu um tiro no cérebro e voltou a nascer.

[Paulo Ferreira]

segunda-feira, maio 08, 2006

Fila de espera

Na fila de espera para a entrada do autocarro, um homem diz para outro: «Olha se aquela mulher que vai a correr fosse a tua!». Passados uns segundos, o homem que alertara o outro começou a soluçar, pensando que, ao olhar para a mulher que passara, atingira uma felicidade imaginária, típica dos que sabem que «aquilo» nunca lhes acontecerá.

[Paulo Ferreira]

Fragmentação

Até ao dia em que aprendeu a dividir, o rapaz restringiu-se a somar e a subtrair. Depois, não mais o seu mundo continuou o mesmo. As somas e as subtracções deixaram de lhe interessar e a realidade começou a parecer-lhe cada vez mais fragmentada. Ou seja: o rapaz tinha sete anos e já percebia que EU a dividir por TU dava MIM (que é sinónimo de SÓ). Essa é que é essa.

[Paulo Ferreira]

sábado, maio 06, 2006

autobiografia 9

Certo miúdo tentava apanhar pequenas rãs no parque, imitando os colegas mais ariscos. Falhava, falhava e falhava, enquanto os outros coleccionavam até às sobras. Até que um dia conseguiu apanhar a sua primeira rã. E assim ficou perante o resto dos rapazes, que, calados e impressionados, contemplavam a rã prostrada nas mãos em concha. Curiosamente, só aquele miúdo não conseguira perceber que apenas apanhara a rã porque esta estava morta. E assim segurava alegremente aquele cadáver.

[João Carlos Silva]

autobiografia 8

Um rapaz, furioso de amor e rejeitado, resolveu enviar uma carta anónima à sua amada, chamando-a de todos os nomes insultuosos possíveis.
A rapariga apaixonou-se pelo hipotético e anónimo remetente e escreveu-lhe de volta uma carta de amor.

[João Carlos Silva]

O editor e o escritor

«É uma história muito antiga», disse-lhe o editor, devolvendo o manuscrito.
O escritor, sorriu para si próprio e dirigiu-se à estação dos correios, meteu o manuscrito do romance num envelope almofadado, enviando-o para o futuro.


-José Viale Moutinho, Hotel Graben

[João Carlos Silva]

Complicações

Num livro de 1985, Maria de Lourdes Pintasilgo (por quem sempre tive, aliás, grande simpatia) explica que não se sente bem com o termo «mercado». A esse termo, contrapõe - para a mesmíssima coisa - a palavra «comércio». «Porque assim, parece que ambas as partes ganham algo com o negócio», diz. O que diz muito sobre nós. Aliás, esta complicação portuguesa em fazer coincidir os nomes com as coisas talvez seja explicada pela nossa já antiga complicação em fazer seja o que for.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, maio 05, 2006

Segunda parte

A segunda parte da tua cabeça, aquela que mais se aproxima do rabo, a nuca, está prestes a embater contra uma parede de tijolos e tu, como jovem perfeito que és, nada fazes para te salvares ou redimires. Em breve serás pedra e cal mas nada fazes. A tua cara não quer saber dos tijolos nem das feridas que eles provocam. Morre (com um ponto de exclamação imaginário).

[Paulo Ferreira]

Fogo

Uma mulher queria tornar-se mais atraente para o marido: esfregou a cara em gasolina e deitou-lhe fogo.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, maio 02, 2006

Gentes de outrora

Meu irmão caminha de mãos atrás das costas,
quando come alarga os cotovelos sobre a mesa,
aperta os sapatos apoiando os pé
na cadeira e se lava o rosto
lamenta-se, bufa, treme de frio;
o bigode está sempre direito, usa o chapéu na cabeça, mesmo na cama,
e quando o chamam volta-se de uma só vez
como uma estaca.
Ficaram-lhe os vícios das gentes de outrora:
acende os fósforos nas botas
e tem o cabo da colher fechado no punho.

Por vezes detém-me em pé a fixar
um ângulo do quarto, de olhos cerrados
e dispara peidos sonoros
como os de nosso pai.


Tonino Guerra, O Mel

[Paulo Ferreira]

Nota para um bom começo de noite

Lembrar de pensar nos martirizados e nas crianças.


[Paulo Ferreira]

segunda-feira, maio 01, 2006

Nosferatu


A maior casualidade que advém do facto de se conhecer o passado, o presente e o futuro é a de se viver uma vida absolutamente lamentável, repleta de tédios, de horas mortas e, quiçá, de infinitas insistências na não utilização de um pénis rejeitado pelo mundo.

[Paulo Ferreira]

Jean-François Revel (1924-2006)



[Paulo Ferreira]

sábado, abril 29, 2006

Ágrafo 2

Tenho vinte e um anos e ainda não cheguei ao ponto, que é como quem diz «até agora nada». Será que, caso eu, à semelhança de Hemingway, me pusesse a observar o instrumento fálico de um qualquer Fitzgerald sem me tornar homossexual, teria mais hipóteses de me tornar adulto?

[Paulo Ferreira]

Ágrafo

Tenho vinte e um anos e até agora nada, só este vazio enorme, quase do tamanho da minha ignorância.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, abril 28, 2006

This way up

Num dia particularmente inspirador, decidi enviar uma «carta do leitor» para um jornal de renome. Dias depois, ao saber que as minhas ideias haviam sido publicadas, pensei que me esperava um futuro auspicioso, no qual trataria a política por tu e etc. Porém, a partir daquele dia, a única coisa que me esperou foi a minha tragédia pessoal de ter que conviver sozinho comigo próprio.

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, abril 27, 2006

I had a dream

Há dias, tive este sonho em que escrevia um livro acerca do quanto eu era medíocre, um romance entusiástico sempre rodando à volta da minha própria incapacidade de fazer seja o que for.
Não sou um homem supersticioso mas, por influência de pessoas mais experientes, sempre gosto de tomar certos sinais por garantidos.

[João Carlos Silva]

quarta-feira, abril 26, 2006

Os três pratos



Quando o camponês decobriu que sua mulher o traiu, obrigou-a a preparar a mesa para três. E durante o resto da vida comeram contemplando, diante deles, o terceiro prato vazio.

Tonino Guerra, Histórias Para Uma Noite de Calmaria

[Paulo Ferreira]

Diálogo surdo

- Loucura (PENSAMENTO).
- Diz?
- Desculpa?
- Não disseste isso.
- Como?
- Pensei na palavra loucura e acabo de me aperceber de que somos dois loucos.
- Importas-te de repetir?
- De todo. Estava a dizer-te que gosto muito das ondas do mar em Janeiro.
- Não percebo.
- Somos loucos.
- Não te entendo.
- Como?
- Diz?
- Hã?
- Não entendo nada do que me dizes.
- E se eu te dissesse que tenho um telefone bonito que nada quer de mim, entender-me-ias?
- Se a metáfora fosse a linguagem da demência, perceber-te-ia perfeitamente.
- Se me percebes, que demência haverá na metáfora?
- Deixa-me ouvir o barulho das luzes sossegado, antes que a aurora nos apague deste sonho.

[Paulo Ferreira]

terça-feira, abril 25, 2006

Querido diário:

No outro dia, ao passar o dedo indicador da mão esquerda por uma mesa, fiquei submerso em pó. Foi aí que descobri que queria partir para a garimpa.

[Paulo Ferreira]

A ler:

A minha conversa com Agostinho da Silva, por André Abrantes Amaral, n' O Observador.

[Paulo Ferreira]

Hipotética história da sobrevivência

A ideia de desistir da vida passa pela cabeça do nadador que nada, nada, nada, e quase se afoga. Mas, como a intempérie é grande e a «alma não é pequena», o pobre nadador, que se encontra no meio de um mar agitado, não deixa de dar ao braço.

[Paulo Ferreira]

Tudo e nada

O amor, ou a ausência dele, foi tudo o que ela tivera na vida. No entanto, ao ter tudo, ela não tinha nada, já que o amor, sobrepondo-se a tudo, não se sobrepõe a nada. E, uma vida que, ao mesmo tempo, seja tudo e nada, é uma vida de merda.

[Paulo Ferreira]

História para dois pénis e um urinol

Numa casa de banho pública, um homem olha para o pénis de um outro homem, que, por sua vez, urina num urinol sem se dar conta de que outro homem observa o seu instrumento sexual com uma fome do tamanho do Amazonas. Ou seja, um homem urina num urinol sem se aperceber dos olhares atrevidos de um sujeito que, pelo seu ar aristocrático, só pode ser maricas e, por conseguinte, capaz das maiores loucuras.

Toma conta de ti, meu caro homem que urina, antes que tomem conta de ti.

[Paulo Ferreira]

«Mais não!»

Dois antigos amantes, que não se viam havia muito tempo, encontraram-se, por acaso, numa rua de uma grande cidade. E beijaram-se. E praticaram o mais absurdo de todos os gestos: o amor. E fizeram sexo. E fornicaram até mais não.

«Mais não!», disse, um dia, um dos dois amantes.

E assim acabou a história dos amores e desamores de dois seres que não sabiam que tudo o que é bom se acaba.

[Paulo Ferreira]

Paradoxo

Jeremias era paradoxal porque adormecia a pensar na vida e acordava a pensar na morte.

[Paulo Ferreira]

sexta-feira, abril 21, 2006

Parábola do erudito

Um homem leu um best-seller e não mais conseguiu libertar-se. Furioso consigo mesmo, atirou-se de um primeiro andar.

[João Carlos Silva]

Fábulas

Geralmente, nos cafés, há sempre um homem característico (normalmente de físico semelhante ao de Joe Pesci) que conta histórias maravilhosas, fábulas de La Fontaine sui generis, em que o narrador, lui même, se envolve sozinho numa rixa de discoteca ou de arraial contra um número considerável de jovens praticantes de artes marciais e acaba em casa com duas mulheres de seios voluptuosíssimos que nunca deixam uma frase para a posteridade ou para os diálogos da história do narrador. Mas isto passa-se nos cafés. Há não muito tempo, percebi que a história se conta de forma diferente nas tabernas quando, do fundo da sala, ouvi alguém repetir com o narrador a aventura que este atalhou nesta palavra: «mamada».

[João Carlos Silva]

Guardar-se

Escreve João Céu e Silva na : «Todos os escritores que se prezem têm um baú com inéditos para serem publicados após a sua morte». Presumo que a maior parte dos grandes escritores escreva, com regularidade, coisas que sejam destinadas exclusivamente para a gaveta (e não para a conta bancária). De qualquer forma, se querem um exemplo de alguém que muito escreve e que nada publica, aqui me têm. Estou-me a guardar para a morte.

[Paulo Ferreira]

Literatura portátil

Foi ao passar pela Ginginha da Estefânia que um homem, entre ameaços de «lambada» à mulher e pontapés no rabo aos filhos, me disse: «Quem escorrega também cai». Nunca mais me esqueci.

[Paulo Ferreira]

O estado das coisas


Enrique Vila-Matas

[Paulo Ferreira]

Sociedade de corte

Em Sentados na Relva, Fernando Namora descreve um encontro internacional de escritores que teve lugar em Lahti, na Finlândia. Ao que parece, nesses encontros, os escritores sentavam-se mesmo na relva, ao fresquinho, para melhor conversarem sobre os grandes humanistas do século XX (Mao e Stalin como senhores de referência).

[Paulo Ferreira]

quinta-feira, abril 20, 2006

Uma mosca

Ontem, ao tentar aliviar a comichão da minha testa com os dedos, esborrachei uma mosca. E, como muito tempo demorei a decidir-me se lavaria ou não a testa ensanguentada, fiquei com a inteligência do insecto que estropiei.

«Zuummm....», faço eu agora.

[Paulo Ferreira]

quarta-feira, abril 19, 2006

Fragmentação

Em Praga, uma mulher começara a ler os escritos do seu vizinho. Rapidamente se achou confusa e chamou o autor das parábolas, Franz K.: «rapazinho, tenho uma recomendação: risque-se tudo. Talvez o Franz se deva dedicar mais a encontrar um desfecho lógico para os textos que escreve, em vez de começar novos. Deve, pelo menos, fazê-lo enquanto é tempo. Um dia, ainda o Franz morre e os textos vão a meio».
E riram-se perdidamente desta hipótese.

[João Carlos Silva]

clap clap clap

«O que arde cura, o que aperta segura.»

- Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças

[João Carlos Silva]

sábado, abril 15, 2006

Reconhecer trabalho

Jodie Foster

[João Carlos Silva]

Aprendizagem

Deixar tudo, aprender a deixar tudo, tornará a morte mais fácil?
Ela virá de uma maneira ou de outra. No último momento,
a mão ainda faz um gesto de agarrar o que se escapa,
mas, mole ou crispada, cairá inerte. Não
aprendeu nada, por muito que tenhamos aprendido.


- Jorge de Sena, Visão Perpétua

[João Carlos Silva]

quinta-feira, abril 13, 2006

A fala perpétua



Considero que a faculdade da fala, a par do direito ao voto, é uma das coisas mais sobrevalorizadas que temos entre nós. Aliás, tenho mesmo por garantido que a fala é um dos elementos verdadeiramente supérfluos do homem. Senão repare-se: quase toda a gente comunica por gestos quando está a dizer algo. Com ou sem fala, a representação mímica seria a mesma, apenas mais vigorosa. Mas, como dizia, tal como o voto, a fala é realmente sobrevalorizada. É encarada como qualquer coisa de: «este faz, aquele faz... então eu também vou fazer, mas sou parvo ou quê?», e é aí que se dão os disparates. Votar por votar, ou falar por falar, apesar de serem custos louváveis da liberdade, normalmente não trazem nada de bom.

Repare-se que a maioria das coisas boas da vida se fazem sem falar. E aqui, para evitar perder a audência católica, devo explicar melhor. Poder-se-á contrapor: «e estar com os amigos»? Não é uma coisa boa da vida na qual se deve falar?» Não necessariamente. Mas esta afirmação, entre homens, tem mais eco do que entre mulheres. Pode-se, até, verificar dois vértices opostos do espectro dos «modos de vida»: de um lado, os homens que fumem e bebem enquanto vão para o café ler em conjunto; do outro, os homens que fumam e bebem na discoteca enquanto dançam como se não houvesse amanhã. Em nenhum dos encontros se encontra a necessidade da fala.

Lembro-me de um homem que, numa tasca, sempre que se embebedava, insistia numa promessa que se repetia interminavelmente em todos os dias de bebedeira. «Já não falo mais!», gritava o pescador a que chamavam «o Buda». Fitava um ponto invisível, que se prolongava no infinito espaço em que os olhos de vinho se perdiam. «Mais não digo», gritava, e fazia os outros saberem, em especial os clientes novos, que havia desistido da fala. Estava cansado de dizer fosse o que fosse, já que nunca teria um impacto realmente interessante no mundo em que vivia. «Para dizer merda, mais vale não dizer nada», concordavam outras vítimas da embriaguez, acenando com uma cabeça um pouco mais sóbria. Os clientes novos concordavam com «o Buda», e tentavam seguir o exemplo - talvez aí tenha nascido o acto de beber sozinho e calado. Mas aqueles clientes mais antigos, que conheciam os desfechos das histórias, sabiam melhor. No dia seguinte já lá estaria «o Buda», para uma nova caminhada para a embriaguez: «hoje vou beber e depois calo-me para sempre!». E aplaudiam todos, urrando. «O Buda» morreu há algum tempo. Nunca se conseguiu calar.

[João Carlos Silva]

terça-feira, abril 11, 2006

Mi dispiace



Devo dizer que eu até gosto de Berlusconi. Sempre simpatizei com o senhor. O que talvez se explique pelo facto de a península de Itália ficar muito longe de Portugal.

[João Carlos Silva]

segunda-feira, abril 10, 2006

A arte da democracia

Eu gosto de ver o nosso Primeiro-Ministro a trabalhar. Devo confessá-lo: gosto mesmo. Não se trata do caso de ficar extremamente emocionado com a visão do senhor engenheiro José Sócrates. Nem mesmo de um caso de surpreendente optimismo. Não. O que eu admiro mesmo é a forma como divide a sua governação em duas: o enaltecimento do que já fez e o enaltecimento do que quer fazer. Talvez seja um problema partidário, visto que o próprio Jorge Coelho também, há tempos, classificava os «sinais» do governo socialista em dois tipos: os sinais positivos e os sinais que ainda não são positivos.

A acção da propaganda, no governo de Sócrates, funciona, pois, de uma forma perfeita. Já houve quem a comparasse à de Blair. Eu penso que é ainda mais eficaz, pois Blair não teve de enfrentar o sempre difícil obstáculo de uma oposição sexy, pelo menos não antes de David Cameron. Não, Sócrates tem um mecanismo bem mais forte no nosso país. Para além do facto de este ser um país muito pequeno onde as televisões não têm assim tanta força efectiva, sendo possível a um governo impor aos meios de comunicação a sua própria agenda. Só assim se explica o caso do cardeal Freitas do Amaral e a forma como Sócrates sonegou todos os infelizes episódios que pareciam suceder-se em catadupa, e ao vivo, envolvendo o candidato ao Nobel e Ministro dos Negócios Estrangeiros português. Num momento, aliávamo-nos aos bons regimes deste Mundo, no seguinte apresentava-se, à pressa, a reforma dos serviços de administração. Com a magnífica característica de já ser, nas palavras da governo, um «projecto eficaz» quando ainda não é mais do que isso: um projecto. É preciso ter arte.

[João Carlos Silva]

sexta-feira, abril 07, 2006

autobiografia 7

Em Hannover dos anos trinta, havia um barbeiro pouco conformado. Não gostava do regime nazi. Acabou por ser um dos primeiros conspiradores populares contra Hitler. O problema é que o nome de código que escolheu acabou por o denunciar e levar à forca: «Acolhe-Judeus». Afinal, era apenas um barbeiro.

[João Carlos Silva]

autobiografia 6

Repito muitas vezes o meu nome ao espelho, até que o nome funcione. Um dia será o nome de um homem, espero eu.

[João Carlos Silva]

autobiografia 5

Querido blog,

Tenho reflectido sobre a pequenez do Homem perante a imensidão do universo infinito. Acabei há pouco e lanchei.

[João Carlos Silva]

Pescador

Um pescador queria pescar tantos peixes que, um dia, se atirou ao mar vestido de alga.

[Paulo Ferreira]

Querido diário:

Tenho pêlos a crescerem-me no nariz.

[Paulo Ferreira]

Poeta genial 3

Ele era um poeta tão interessado pelo sofrimento dos pobres que, um dia, começou a fazer poemas de cabeça. «Escrever no papel é uma hipocrisia!», dizia o poeta.

[Paulo Ferreira]

Miúdo

Um miúdo fez uma fogueira tão grande e tão esplendorosa que, durante sete dias, os povos do mundo se juntaram para rezar.

[Paulo Ferreira]

Poeta genial 2

Por cada vez que escrevia um verso, o poeta genial deixava escorrer uma lágrima de sangue pela sua face. Por cada soneto que saía das mãos deste brilhante artista, uma hemorragia se dava a mostrar.

[Paulo Ferreira]

Poeta genial

Um poeta genial escrevia versos rimados mas não conseguia transportar o animalesco mundo da dor para dentro dos seus escritos. Morreu com uma úlcera, o poeta, por não conseguir sofrer.

[Paulo Ferreira]

O neo-realismo de uniforme vestido

«O artista (frase velha) não pode vestir uniforme. O protesto, todavia, deve estar atento a um risco: por um lado, a gratuitidade, por outro, o estímulo a que a sacralização mude apenas de rosto e de objecto.»

- Fernando Namora, Encontros


Tornou-se costume dizer-se que, para um escritor neo-realista, a «causa» prevalece sobre a «forma», que o «conteúdo» prevalece sobre a «estética». Ora, admitindo que autores neo-realistas como Fernando Namora (1919-1989) possam ter sempre dado primazia a algumas das mensagens políticas e sociais vindas, muitas vezes, de ambientes tão propícios ao ócio e ao lazer como a saudosa União Soviética, a verdade é que não deixa de me incomodar esta visão um tanto simplista. Leiam-se, por exemplo, obras como Cidade Solitária, Resposta a Matilde ou O Rio Triste (todas de Namora). Nestas obras que referi, será muito difícil encontrar as temáticas mais saboreadas pelas penas dos escribas da crítica social. Além disso, quem souber ler, reparará que todos estes livros são muito bem escritos. Reconheço, no entanto, a importância que os neo-realistas deram às suas lucubrações intelectuais viradas para o Leste Europeu. Reconheço que muitos dos sonhos ideológicos a la «Grande Salto em Frente» (Mao Tse-Tung) faziam parte do imaginário neo-realista. Reconheço que o ambiente salazarista afectava profundamente o espírito da conhecida geração de 40. O problema é que também os neo-realistas reconheciam que trabalhavam tendo em vista certas causas políticas indispensáveis (causas essas sempre viradas para uma esquerda que, hoje, se englobaria dentro do esquema alter-mundo existente dentro de um Bloco de Esquerda). Por conseguinte, dizer-se uma verdade que já todos sabem, como se se quisesse desmistificar algo que não sente necessidade de o ser, torna-se absurdo. Assim, não me incomoda o facto de, nos nossos dias, se andar a dizer que o neo-realismo dava grande importância a causas sociais e políticas, por exemplo, de contestação. Incomoda-me mais o facto de se acreditar que a geração neo-realista não dava importância ao modo de fazer a escrita. Escrevendo com conhecimente de causa, Fernando Namora foi um grande escritor. Vergílio Ferreira, que começou por abordar temáticas neo-realistas, foi outro grande escritor (aliás, o meu preferido).


[Paulo Ferreira]

quinta-feira, abril 06, 2006

Aniversário

O ROYALE WITH CHEESE, blog para o qual já contribuí com um texto miserável, fez dois anos esta semana. Parabéns.

[Paulo Ferreira]

domingo, abril 02, 2006

Esperanças

Decididamente, o bichinho de estimação adequado a um homem pobre não é uma corista, mas ainda não perdi a esperança de vir a ter uma.

-Groucho Marx, Memórias de um Pinga-Amor

[João Carlos Silva]

O estado das coisas


Aljubarrota

[João Carlos Silva]

sexta-feira, março 31, 2006

autobiografia 4

Uma manhã, van Gogh quis suicidar-se. Mas estava muito cansado. Aproveitou a tarde para pintar uma obra-prima.

[João Carlos Silva]

autobiografia 3

Um dia quis muito ler o meu primeiro livro. Mas não sabia ainda ler. Desisti. Reconheço que muitas carreiras medíocres começam assim.

[João Carlos Silva]

autobiografia 2

Querido blog,

Escrevo-te de Ararat apenas para saberes que estou em Ararat.

[João Carlos Silva]

autobiografia 1

Um dia, num blogue primevo, tivemos apenas um visitante. Foi o dia mais sincero da vida de um blogue meu.

[João Carlos Silva]

quinta-feira, março 30, 2006

Post reaccionário do dia

Caro Bruno, tenho de «dar a mão à palmatória» (que é uma expressão com asas para voar): Pierce Brosnan é memorável nesse papel. Mas, ainda assim, penso ser difícil suplantar um clássico. Há, pelo menos, um vetusto agente que é inigualável. Para clarificar este e o último post sobre o mesmo, confirmo o meu campo ideológico:



[João Carlos Silva]

Ameaças que fazem tremer

A ONU lançou um repto temerário: ou o Irão abandona o seu programa nuclear ou... Ou a ONU vai agir. Algo me diz que vão tentar a antiga táctica do menino gordo que faz birra e leva a bola para casa. Regras que, para além de não funcionarem desde os tempos de liceu, pouco importam a um país que não precisa de se interessar minimamente por quem tem a bola.

[João Carlos Silva]